Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::


 parte2/2Falávamos da “aceleração da história”, e o redator:: está tentando argumentar que a 2ª GM teria sido a culminância de um processo desses, característico da modernidade. Claro que, produzidos por um historiador amador, os argumentos parecerão capengas, mas pelo menos devem ser suficientes para mostrar como a sociedade alemã que produziu Hitler e seus comparsas foi a mesma formação conservadora que optou, sessenta anos antes, por um processo de unificação que desse à nova nação a cara organizada, burocrática e militarista da Prússia.

Outros sessenta anos antes, o período em que os exércitos franceses levaram a transformação social na ponta de seus estandartes e baionetas, talvez possa ser identificado como outro processo de “aceleração da história”. Embora tivesse mitigado as transformações revolucionárias na França, Napoleão contribuiu para abalar as estruturas tradicionais por toda a Europa. Apesar do conservadorismo, tradicional nos estados da região hoje chamada de “Alemanha”, as idéias liberais introduzidas lá durante a guerra pegaram. Baseada na difusão de pequenas manufaturas e companhias de comércio, certas regiões viram a formação de forte classe empresarialque influenciou o resto da região reivindicando reformas de caráter econômico e administrativo – por exemplo, unificação de padrões de medida e eliminação de restrições à circulação. Essa gente, quando teve de procurar aliados, buscou a burocracia do estado, formada por membros da empobrecida aristocracia rural e (nos extratos mais baixos) por homens de letras, professores e advogados.

A Prússia, desde o final do século 18 vinha passando por forte industrialização, baseada em certos ramos da indústria pesada. Tinha, junto com a região do Reno (também em processo acelerado de mudança econômica), interesse nessas reformas. Só não queria (de fato, seus governantes tinham arrepios diante de tal perspectiva) que elas saíssem do controle da elite política: uma coisa era fazer mudanças no regime de aduanas; outra, muito diferente, era liberalizar o regime de propriedade de terras (lá, o feudalismo só foi abolido de vez em 1900) ou de acesso e progressão no serviço público. Por outro lado, as lideranças empresariais viam na rigidez política uma vantagem, já que a unidade de princípios no governo aumentava a eficiência e prevenia que as reivindicações por mudanças políticas acabassem se desdobrando em demandas por mudanças sociais (um artigo sobre o tema aqui). Curiosamente, ambos os lados – liberais e conservadores – viam na unificação a solução para a fraqueza crônica da região, pela qual tinham desfilado, quase sem oposição, os exércitos franceses do período revolucionário. Entretanto, as diferenças políticas não eram pequenas e eram de difícil conciliação. No ano de 1848, o caldeirão ferveu: diversos Estados alemães viram estourar revoltas civis.

No início, as manifestações juntaram vários segmentos políticos num movimento por um parlamento nacional eleito, que elaborasse a constituição de uma Alemanha unificada. Uma Assembléia Nacional de deputados eleitos em todo o território germânico – o Deutscher Bund – se reuniu para a elaboração da nova constituição nacional. Parte da assembléia defendia uma união que incluísse a Áustria, enquanto outra parte defendia a liderança prussiana e a exclusão da Áustria. A solução encontrada foi entregar o governo aos Hohenzollern (a dinastia prussiana). O problema é que o rei Frederico Guilherme IV não aceitou, nem a Coroa nem a constituição, mesma atitude da casa da Áustria. A carta magna proposta teve o condão de desagradar todo mundo, inclusive a sociedade, que pretendia ver diminuído o poder da nobreza, como na França e Inglaterra. A violenta repressão ao movimento popular acabou por suspender as reformas políticas.

A Revolução de 1848 apontou o caminho que passou a ser visto como mais viável: a unificação alemã liderada pela Prússia e pelos Hohenzollern. A violência dos conflitos de rua e a agitação nas cidades acabou por aumentar a desconfiança das classes empresariais e da classe média urbana, que passaram a ver os ativistas liberais e o operariado como politicamente inconfiáveis. 

E nem todos viam a unificação com simpatia. Aristocratas dos pequenos estados anteviam seus interesses facilmente postos de lado, numa Alemanha unificada; a Áustria, predominantemente católica, temia ver sua predominância no sul da Alemanha questionada. A Prússia não via a Áustria com simpatia, pois esta tinha um peso político inegável, além de economia relativamente próspera. Além do mais, Viena era cabeça de um império multinacional e multi-étnico, onde a língua oficial podia ser o alemão, mas tinham peso grupos culturalmente diversos, que certamente não caberiam numa formação política que via na língua e na cultura mais-ou-menos uniformes sua identidade (um excelente artigo – um  tanto longo – sobre o tema aqui).

Por esses motivos a unificação alemã sob a regência dos prussianos não era projeto sem problemas, mesmo que tal formato fosse visto como mais-ou-menos natural: por volta de 1850, a Prússia, potência militar, superou economicamente a Áustria. A liderança política veio em 1862, com a ascensão ao trono de Guilherme I. O novo rei era também especialista em questões militares, e logo promoveu uma reforma nas forças armadas prussianas, particularmente no Exército Real (Königsheer) – o país tornou-se a principal potência militar centro-européia. Os industriais foram convocados a desenvolver uma forte indústria de armamentos, que se destacou na Europa e  abriu uma tradição de suporte do Estado às indústrias militares e de máquinas.

O projeto conservador de unificação foi de fato coordenado por Otto von Bismarck, ex-embaixador na Rússia e na França, nomeado kanzeller (primeiro-ministro) pelo rei no dia seguinte à coroação. Membro da aristocracia rural alemã favorável a uma monarquia forte, Bismarck sabia muito bem que a aliança com a nobreza rural (junkers), era o esteio da monarquia. Por outro lado, percebeu que a grande burguesia industrial não podia ser ignorada. Assim sua política era bipolar: internamente, apoiou a posição da nobreza rural, garantindo-lhes as prebendas – acesso automático ao Exército e ao funcionalismo público; externamente, implementou os interesses da classe empresarial, por fortalecer a união das aduanas, forma segura e já consolidada de integrar os Estados alemães. O kanzeller também estendeu as reformas militares, além oferecer os métodos prussianos a outros Estados. Exacerbando o sentimento nacionalista, reuniu os Estados contra inimigos externos, em três rápidas guerras, decisivas para consolidar a unificação: A Guerra dos Ducados (1864), contra  Dinamarca, a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Bismarck e seu principal assessor militar, o ministro von Möltke (ainda hoje considerado um dos grandes pensadores militares do século 19) promoviam uma estratégia geral de dividir o adversário através de movimentos amplos que buscavam pressioná-los pelos flancos (manobra conhecida como “desbordamento”). Esses procedimentos mostravam grande compreensão, por parte dos prussianos, do espírito da guerra moderna.

É interessante observar que, estruturalmente, as reformas militares de 1862-63 reforçaram a posição da nobreza rural prussiana. Esta comandava camponeses mobilizados na Prússia Oriental, na Silésia e no Brandenburgo. Depois da unificação parte considerável do efetivo passou a ser convocada na Baviera e no Würtemberg, mas o grosso da oficialidade de carreira, assim como o Estado-Maior Geral (de onde saía o comandando do exército), continuou a ser majoritariamente prussiana. Após a unificação, a Prússia – agora 2° Reich -, engajou-se na corrida imperialista, em grande desvantagem para a Inglaterra e a França, e até mesmo para a Itália. O controle de colônias era visto como condição sine-quae-non para a continuidade da expansão capitalista (esse processo foi descrito, de forma magistral, por Lenin, no opúsculo Imperialismo, fase superior do capitalismo) e a guerra imperialista é a resposta para tal impasse, conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, a dos monopólios e domínio do capital financeiro (mais sobre o tema aqui).

Esta guerra foi a 1a GM, que o Império Alemão lutou com a estrutura organizativa e administrativa prussiana, principalmente o Exército. O enorme esforço representado pelo conflito acabou forçando a estrutura política, depois de 1915, para um regime semelhante a uma ditadura militar. Nenhuma espécie de oposição ou obstáculo aos objetivos militares era tolerada. A coordenação geral era exercida por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa. A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, por volta de setembro de 1918, começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha (um excelente – e longo… – artigo sobre o tema aqui), por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustíveis. O Kaiser e a estrutura civil agiram rapidamente para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, e não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”.

Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança. O fim repentino da guerra – o armistício de novembro – e o  fato de que o exército não foi totalmente derrotado (de fato, a situação era de impasse estratégico) fizeram com que a Alemanha não chegasse a ser ocupada. A desmobilização imposta à Alemanha, que entregou seu armamento sem dissolver as forças armadas, acabou, de certa forma, preservando a estrutura militar. O período de agitação política inaugurado em 1919 acabou fazendo com que os aliados aceitassem que a repressão fosse conduzida pelos próprios alemães. Os exércitos privados que lutaram pelo controle das ruas, na década seguinte, se formaram nessa conjuntura, com base na estrutura dos “Corpos Francos”, unidades formadas por combatentes desmobilizados em 1918, mantidos juntos como tropas paramilitares.

Foi o caldo de cultura no qual se alastrou o radicalismo. As SA (Sturm Abteilugen – “Seções de Assalto”) tropa de rua do Partido Nacional-Socialista foram um dos muitos exércitos privados, reforçados, depois de 1929, pela crise geral. Esse período observou intensa disputa entre movimentos que, no panorama da instável democracia liberal, pretendiam mudar o Estado de modo revolucionário. Todos (inclusive os comunistas) pretendiam herdar a estrutura prussiana, embora quisessem se livrar da tradição prussiana. Ernst Röhm, radical militarista, um dos personagens mais interessantes da primeira fase do nazismo, era um desses divergentes. Tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante, com as SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Acabou assassinado em 1934 por seus comparsas.

No artigo acima (talvez um pouco longo…) vimos diversos exemplos da “aceleração da história”. Trata-se de um conceito decorrente de uma teoria – o “materialismo dialético”, tentativa de tornar científica a disciplina da história. O conjunto de fatores derivados de um determinado movimento histórico combinados, levam à sua superação (para uma introcução bastante completa, clique aqui). O materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo. Esse tipo de ativismo é bastante característico da “modernidade”: o homem se torna sujeito da ação.

Os nazistas pretendiam superar o que sua doutrina via como obstáculos estruturais da sociedade alemã, e assim acelerar a chegada a um objetivo de longo prazo – uma utopia.  Através do equilíbrio forçado e mesmo da eliminação, de contradições inerentes à formação histórica e organização política da Alemanha, visavam uma sociedade sem tensão, uma espécie de formigueiro no qual cada um sabia seu lugar e o futuro seria apenas algo a ser aguardado, e não uma incógnita decorrente do caos inerente à realidade objetiva (os pensadores iluministas já reclamavam disso). A aceleração desse processo seria buscada via rompimento institucional, mas contradições dificilmente são superadas dessa forma, pois a superação cria outras contradições, e acaba determinando a necessidade de novos movimentos de aceleração. O exemplo objetivo desse limite foi a mantenção da estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi o ponto de chegada de uma série de concessões aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção. O partido tornou-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado, e seus agentes passaram a dizer diretamente às classes empresariais o que fazer. Por outro lado, a estrutura de base continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (característica do serviço público alemão que Marx, muito tempo antes, já tinha percebido, quando ainda era estudante de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. Trata-se de uma espécie de “processo revolucionário pela metade”, mas ainda assim, a característica de rompimento era importante, tanto que os primeiros membros do movimento – Gregor e Otto Strasser, Enst Röhn, Viktor Lütze, se diziam revolucionários lutando contra a sociedade “burguesa”.  

Como não se pode esperar que todo mundo concorde conosco (outra característica inerente ao homem), a única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos óbvios. Essa instituição passou a ser diretamente subordinada aos governos das “Ländern” (algo como “províncias”, com certo grau de autonomia local – Himmler foi chefe de polícia da lande Prússia). Os nazistas esperavam mudar as estruturas do Estado a partir de uma posição interna, mas sem chegar a mudar as estruturas da sociedade alemã. Foi assim com o Exército: os nazistas não confiavam totalmente nos “aristocratas prussianos”, mas dependiam deles, inclusive para manter a disciplina. Mas, ao mesmo tempo que mantinham e ampliavam os privilégios dos militares, criavam uma estrutura paralela, a Waffen SS – apesar do nome e ter Himmler por comandante nominal , na prática separada da SS policial – que emulava a estrutura do exército. Não se pode afirmar que, com a vitória, essa estrutura acabasse por substituir o Exército tradicional. E nem se pode afirmar o contrário. Por sorte, podemos agora apenas especular:: 

Essa é uma indicação de que os nazistas tinham em mente uma espécie de revolução conservadora, baseada na reestruturação, sem modificações radicais, da sociedade e de suas instituições. Sua ascensão é evento característico da modernidade.  Talvez seja também o ápice da crise de uma modernidade que, como todos os processos humanos, surgiu cheia de defeitos, mas também teve algumas qualidades. E – na opinião do redator:: um tanto pessimista – como em todo processo humano, os defeitos prevaleceram sobre as qualidades…::

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5 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

  1. Bitt, muitíssimo bem escrito e pleno de referências valiosas, nada menos do que seu padrão de qualidade. Só fiquei com dúvidas neste conceito de “aceleração da história”. Este presume que houve uma intervenção no “curso normal da história”, que certos eventos aconteceriam de qualquer jeito, mas foram (indevidamente?) “acelerados”. No caso tratado acima, a Alemanha se unificaria de qualquer jeito (talvez só no século XX?), mas Bismark, Möltke & Cia. “aceleraram” este processo e parece que você crê que isso teve efeitos deletérios na História mundial, nada menos do que as duas guerras mundiais, a segunda com o horror nazista. Escrevo exatamente para perguntar se é isso mesmo.

    De qualquer forma, gostaria de registrar que eu não concordo com este conceito, a História não pode ser “acelerada” (ou “desacererada”), ela simplesmente é feita pelos homens, alguns destes particularmente perspicazes e dotados de senso de oportunidade que “fazem acontecer”; outras vezes, grandes oportunidades se apresentam, mas os povos não as percebem e, principalmente, seus líderes não estão à altura do momento e este passsa… Me parece que este conceito tem alguma base no velho “determinismo histórico”, que condenava tudo que se afastasse do esquema histórico previsto.

    Um abração,

  2. Excelente texto, mas faço minhas as palavras de Luiz Candido a respeito desse conceito de “aceleração” da história.

  3. Luiz e Diogo,

    Essa coisa de “aceleração” na História obedece à visão marxista, onde o imperialismo conduz inelutavelmente à guerra. É só pensar na disputa das colonias africanas, com a Alemanha de fora, por ainda não ser Estado Nacional, impunha mesmo uma aceleração da unificação pra disputar em melhores termos.

    Mas é claro que vocês sabem disso. Há outras interpretações, mas aí não arrisco.

    abraço

    • Alba, vc entendeu bem o espírito da coisa. “Aceleração da história” é um conceito – pode ou não ser aceito. Diz respeito a conjunção de determinados fatores, indicando possíveis direções: seu exemplo é perfeito: “o imperialismo conduz inelutavelmente à guerra.” Ou seja, examinando-se (sempre retrospectivamente, visto q historiador não é adivinho – ou pelo mns não devia ser…) o conjunto de fatos que compõem a conjuntura do imperialismo, a guerra certamente será resultado deles. Outros autores dizem que a modernidade (Europa+revolução nas forças produtivas+capitalismo+Estados nacionais) teria, necessariamente, de resultar em desequilíbrio e guerras.
      Por sinal, obrigado pela visita!

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