Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::


E, não é por nada, não, um senhor drops… O texto que se segue é uma tradução da apresentação de uma obra monumental, nuncapublicada em nosso português: A world at arms: A global history of World War II, de Gerhard L. Weinberg. Nascido na Alemanha em 1928. o professor Weinberg serviu como tenente na Inglaterra em 1945, e depois permaneceu um ano no Japão, até 1947, quando deu baixa. Cursou Estudos Sociais na Universidade Estadual de Nova Iorque, em Albany e, em 1951, obteve seu doutorado, na Universidade de Chicago. Desde então, tornou-se um dos grandes especialistas no tema, e seu principal argumento é que a Segunda Guerra Mundial ou é tratada como um todo de partes totalmente articuladas, ou será abordada como narrativa das operações militares. Essa perspectiva global e multidimensional permite ao estudioso perceber como se integravam as diversas regiões do globo e como a tomada de decisões, nas áreas centrais, muitas vezes tinha de levar em consideração regiões totalmente afastadas e personagens aparentemente não muito envolvidos no conflito. É de Weinberg também a idéia de que, sem a perspectiva global, a guerra seria reduzida a conflitos localizados, por mais sangrentos que tenham sido.

O redator aqui lê Weinberg já faz 15 anos, desde que adquiriu, por 66 dólares a edição hardback (um dinheirão, na época) do calhamaço de 1177 páginas (a edição de bolso custa bem mais baratinho). Claro que, desde então, nunca acabou a leitura e, volta-e-meia, é assombrado por idéias de fazer uma tradução – idéias que, invariavelmente, desaparecem diante dos mais de dois quilos que pesa o volume…::  

Quando voltar para casa/Fale a eles sobre nós e diga:/Por seu amanhã /Lhes demos nosso hoje.

Este texto está inscrito num memorial aos soldados britânicos que foram mortos em uma das mais desesperadas e menos conhecidas batalhas da Segunda Guerra Mundial: a luta em torno da cidade de Kohima, na Índia Oriental, não muito longe da fronteira com a Birmânia. A partir desse lugar o exército japonês tinha iniciado a marcha em direção a  Delhi, em 1944. Em Kohima , soldados ingleses e indianos derrotaram uma força japonesa, que era complementada por alguns indianos.  Estes  acreditavam que os japoneses tratariam o povo de seu império colonial tal como tratavam os coreanos – muito melhor do que os britânicos tratavam seus próprios colonizados. O líder daqueles indianos que desejavam a vitória do Japão e Alemanha sobre a Grã-Bretanha,  EUA e  União Soviética, era um homem chamado Subhas Chandras Bose. Ele tinha voado da Índia até a Alemanha, através da União Soviética durante o período do Pacto Nazi-Soviético de Não-Agressão e tinha tido a oportunidade de ver pessoalmente a “maneira  gentil” como os alemães tratavam aqueles que conquistavam. Em 1943 os anfitriões o puseram num submarino e o despacharam para o Oceano Índico, onde foi transferido para um submarino japonês, no qual completou a jornada para a Ásia Oriental.

Essa série de eventos interrelacionados pode servir para ilustrar porque parece apropriado tentar escrever sobre a Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva global. Para as origens desse vasto conflito é possível e apropriado buscar um tema que permita ligar diversas histórias complicadas; parece convincente que a política externa da Alemanha de Hitlerfornece tal tema.

A despeito das ambições conflituosas, rivalidades e ideologias das potências mundiais nos anos de 1920 e 1930, é seguro estabelecer que a excessão da Alemanha, nenhuma nação européia considerava como concebível que outra guerra mundial fosse meio apropriado de resolver os problemas que confrontavam. Guerras locais, movimentos agressivos específicos ou tentativas de subversão e erros de cálculo que conduzissem a hostilidades – tudo isso era concebível, e de fato acabou acontecendo. Mas sem a tomada de iniciativa da Alemanha, outro holocausto de alcance mundial teria sido inconcebível para os contemporâneos de todos os países – além de, restrocpectivamente, inimaginável para qualquer historiador. Desse modo, o curso da política externa da Alemanha fornece o mais óbvio princípio organizador para qualquer história das origens da Segunda Guerra Mundial.

Porem, uma vez que os alemães abriram, em setembro de 1939, as hostilidades, o conflito adquiriu sua própria lógica. As iniciativas alemãs dominaram seus primeiros estágios, mas mesmo naquela época, nem sempre seguiram do modo como tinham imaginado seus arquitetos. No verão de 1940 a guerra européia já tinha tomado forma muito diferente daquela que tinha sido confiantemente planejada em Berlim. E a entrada do Japão tornou ainda mais amplo o conflito, como ardentemente queriam e há muito clamavam, os alemães. Ao mesmo tempo, o ataque a Pearl Harbour alterou, de forma dramática, as dimensões e a natureza da guerra. Não fossem as vitórias alemãs de 1940, Certamente os japoneses nunca teriam expandido as hostilidades com a China, abertas por eles em 1937, tornando-as parte de um conflito mais amplo. Sem essas vitórias a luta na Ásia Oriental, ainda que terrível para todos os envolvidos e especialmente para os milhões de chineses mortos nela, teria continuado uma guerra localizada, como tinha sido a outra guerra entre o Japão e China, travada em 1894-95. Mas uma vez que o Japão decidiu estabelecer um novo império no sudeste asiático tinha chegado, nenhum dos participantes pode mais atuar na grande conflagração como teria preferido. Todos teriam de ajustar-se as necessidades – e mesmo aos terrores – do momento.

Em face da complexidade resultante da conflagração, parece impossível delineá-la como tema unidimensional. Por outro lado, muitas das narrativas existentes tratam a guerra de perspectivas curiosamente paroquiais ou compartimentando-a em diferentes áreas geográficas, que passam a ser tratadas como dependências uma das outras. Mas é uma característica da conflagração que tomou o mundo entre 1939 e 1945 que os eventos que a formaram tiveram lugar simuntaneamente em diferentes partes do globo; os líderes e os comandantes fizeram face, de modo simultâneo, a enorme variedade de decisões, e as repercurssões que teriam, em áreas distantes dos centros da crise, essas decisões, tinham de ser sempre levadas em conta.

É desse ponto de vista global que a Segunda Guerra Mundial deve ser abordada, enfatizando-se, em especial, as interrelações entre os diferentes teatros de guerra e as escolhas feitas pelas lideranças. Isso significa que os detalhes sangrentos do combate, do constante desafio do controle do mar e o interminável tédio das sistemáticas operações militares, repentinamente quebrado por situações aterrorizantes, pode ser eliminado, ou, no mínimo, obscurecido. Não é intenção, entretanto, colocar de lado os sacrifícios individuais e coletivos daqueles que, em todos os lugares e de ambos os lados, fizerem a guerra. 

Um problema adicional, e muito particular, parece afetar  grande parte da literatura sobre a Segunda Guerra Mundial. Os especialistas por vezes esquecem o fato de que aqueles que tiveram de fazer escolhas e tomar decisões, em ambos os lados, eram frequentemente influenciados pelas memórias da guerra precedente, de 1914-18, e não tinham- como nós agora temos – a menor perspectiva do que viria depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Eles tinham suas esperanças e seus temores, mas nenhum desses era, com certeza, daqueles que a análise retrospectiva faz surgir, quando se considera uma situação com muitas alternativas a considerar, todas elas repletas de riscos que dificilmente poderiam ter sido concebidos na própria época::

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Um pensamento sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

  1. Execelente texto, e acho que isso responde aos comentários no seu outro post:

    “A despeito das ambições conflituosas, rivalidades e ideologias das potências mundiais nos anos de 1920 e 1930, é seguro estabelecer que a excessão da Alemanha, nenhuma nação européia considerava como concebível que outra guerra mundial fosse meio apropriado de resolver os problemas que confrontavam. Guerras locais, movimentos agressivos específicos ou tentativas de subversão e erros de cálculo que conduzissem a hostilidades – tudo isso era concebível, e de fato acabou acontecendo. Mas sem a tomada de iniciativa da Alemanha, outro holocausto de alcance mundial teria sido inconcebível para os contemporâneos de todos os países – além de, restrocpectivamente, inimaginável para qualquer historiador. “

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