Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::


parte1/2Como todo os oito ou nove leitores de causa:: estão cansados de saber,  a 2ª GM foi, por excelência, a guerra da “pistola-metralhadora”, como a 1ª GM foi a guerra da metralhadora. E os famosos “poucos” deste blogue também sabem que “pistola-metralhadora” é uma “arma longa” ou “portátil”, capaz de disparar, em modo plenamente automático, munição pré-preparada. A característica básica dessa “arma portátil” é o fato de utilizar munição de armas curtas (pistolas semi automáticas). Outra característica usual nos modelos mais antigos é o uso do sistema de “recuo direto simples” (em inglês, blowback recoil – mais sobre o tema, aqui) para o trancamento da culatra. 

Essa arma surgiu no final da 1ª GM, um dos desdobramentos da “perda do movimento”, a situação provocada pelo “empate estratégico” ocorrido a partir de dezembro de 1914, quando as forças do Exército do Kaiser foram detidas em seu avanço em direção à Paris. O que se sucedeu foi uma sangrento exercício no qual milhões de homens, armados com milhares de canhões, milhões de metralhadoras pesadas e leves e dezenas de milhões de armas pessoais, atiravam um nos outros sem que nenhum dos dois lados tivesse capacidade para romper a linha adversária. Em 1915 os alemães começaram a testar tropas especiais, destacadas dos efetivos das unidades de “pioneiros” (engenheiros de combate). No final de 1916, o chefe do Estado-maior alemão, general Erich Ludendorff, determinou que cada divisão fosse dotada de um batalhão dessas novas unidades – que, não se sabe exatamente quando, passaram a ser designadas de stosstrüppen (“tropas de choque”). O aperfeiçoamento decisivo deu-se, entretanto, em 1917, quando o coronel Georg Bruchmüller (se você lê inglês, uma ótima biografia desse oficial aqui) resolveu tentar integrar as  “tropas de choque” às táticas de artilharia” flexíveis” que vinha testando. Essas unidades foram empregadas dessa forma, pela primeira vez, na frente oriental. Em maio de 1917, a cidade de Riga foi tomada em menos de uma semana e o sucesso fez com que o Estado-maior Geral determinasse o emprego maciço dessas unidades na frente ocidental. A partir daí os alemães começaram a conceber uma série de táticas especiais, centradas em deslocamentos em velocidade, ao longo de determinados setores do teatro tático (setores onde ocorrem os combates). Durante esses deslocamentos, realizados imediatamente após barragens de artilharia rápidas e concentradas, pequenos grupos de soldados com treinamento e armamento especiais procuravam brechas por onde formações de infantaria convencional pudessem penetrar. As táticas “de infiltração” adotadas pelas “tropas de choque” lançavam mão da velocidade e da surpresa (grande parte das operações eram realizadas de madrugada), e precisavam de armas automáticas para o combate a curta distância. Ou seja, o armamento dessas formações devia ser diferenciado daquele usado pela infantaria convencional.

Ainda em 1917, o general-de-divisão Oskar von Hutier, uma espécie de patrono das novas formações, começou a examinr as armas disponíveis, e concluiu que quase todas eram pesadas e canhestras para o tipo de atuação planejada. Entre os tipos avaliados estavam as pistolas semi-automáticas *Mauser C96*Luger P08. A vantagem que ambas apresentavam era um acessório especial: uma peça de madeira que, fixada à empunhadura da arma, funcionava como coronha e transformava o conjunto em uma pequena carabina; retirada, servia de caixa de transporte. Tanto a C96 quanto a P08 tinham problemas: a primeira foi logo descartada por ser considerada muito frágil; a P08, embora muito suscetível à sujeira, estava disponível numa versão especial, reforçada. Esta se caracterizava pelo cano “pesado” (reforçado) de 200 mm, que aumentava a precisão do tiro, uma mira regulável até 600 metros e um adaptador que permitia disparos de três salvas. No meio da guerra foi desenvolvido um carregador tipo tambor, chamado de *“caracol”, com capacidade para 32 tiros. Foi esse acessório que, embora tendesse a emperrar com facilidade, chamou dos planejadores das “tropas de assalto” para a arma. A Luger “Artilharia” tinha sido originalmente destinada a soldados que estivessem impossibilitados de, em serviço, portar o fuzil regulamentar Mauser G98: artilheiros (daí o nome do modelo), motoristas, mensageiros, motociclistas, etc.

Mas a distribuição da P08 “Artilharia” era um “tapa-buraco”. Hutier buscava uma arma plenamente automática capaz de se deslocar junto com as seções de infantaria. Uma arma assim até já existia: a versão “aligeirada” da metralhadora pesada MG08, de notação *MGo8/15. Essa tinha sido projetada para dotar a infantaria de sufuciente poder de fogo para confrotar, no ataque, as posições defensivas das trincheiras inimigas. Só que a geringonça pesava, com bipé e um carregador preparado (ao invés das fitas de munição convencionais), mais de 18 quilos, e exigia equipagem de quatro homens. Ou seja, era muito canhestra para ser operada em condições de movimento. Em 1915, a Comissão Alemã para Teste de Fuzis decidiu lançar o requerimento para uma nova arma de conceito totalmente novo,  a começar pelo alcance útil – de 100 a 300 metros. Seu comprimento não devia ser maior que 90-100 centímetros – menos que a carabina regulamentar do exército –  e devia disparar, em modo automático, a munição-padrão de armas curtas, calibre 9 mm, pré-armazenada em um carregador  com pelo menos 30 cargas . E, principalmente, o peso não deveria ultrapassar 5 quilos, para permitir a operação individual. Inicialmente, os engenheiros pensaram em uma espécie de “super pistola”, mas os desenhos existentes se mostraram pouco adequadas à adaptação, visto que a alta cadência de tiro das armas automáticas rapidamente destruía o cano e o mecanismo de culatra. O jeito foi aumentar o comprimento e o peso, usando metal mais denso – e, por conseguinte, resistente. Mais importante, a cadência de fogo das metralhadoras convencionais (600-800 salvas por minuto) foi diminuída para algo em torno de 400-450 salvas. A menor intensidade da explosão, devido à munição menos potente, devia preservar a durabilidade do cano e do bloco de culatra; a menor  velocidade de boca aumentaria a durabilidade do cano. 

O projeto aprovado foi apresentado pela equipe do engenheiro Hugo Schmeisser, da empresa Bergmann Waffenfabrik. A *arma apresentada utilizava munição 9X19 Parabellum, e funcionou muito bem em todos os testes. Nesse período, um fato a mais mostrou-se promissor: a cadência menor permitia controlar a arma, durante o disparo, somente com as mãos, o que eliminava a necessidade de um bipé. Para a distribuição, o modelo recebeu a notação MP (Maschinenpistole) 18/I. É curioso que, até hoje, não se descobriu o que significava a letra “I”.

Essa arma foi a avó de todas as pistolas-metralhadoras (vamos passar a chamá-la de “submetralhadora”, que é como o Exército Brasileiro a denomina). Apesar se mostrar produto de alta qualidade, a MP18 foi muito pouco usada durante a 1ª GM, distribuída em números muito baixos (calcula-se que a produção não tenha passado de 10.000 unidades). Como a MG08/15, foi usada principalmente pelas “tropas de assalto”, que deveriam ter pelo menos três fuzileiros por pelotão armados com ela. Embora sua fabricação e uso militar tenham sido proibidos pelo Tratado de Versalhes, o uso policial foi permitido, e logo apareceram versões no calibre 7.65 mm. Quase imediatamente após o final da guerra, vários países começaram a fabricar *armas semelhantes, principalmente para uso policial. As características básicas de todas elas seguiam as da MP18.

Uma dessas características era a ergonomia. A Bergman manteve, no desenho, características de fuzil – a coronha, em madeira, estendia-se desde a parte da caixa de culatra que ficava sob o receptor; esta seção também servia de empunhadura dianteira. Finda a caixa de culatra, a coronha projeta-se para trás, compreendendo essa seção, na Bergman, cerca de um terço o comprimento total da arma (que era de pouco mais de 83 centímetros). Essa solução remonta, nos fuzis, ao final do século 16 e visa facilitar a pontaria. A coronha permite que a arma seja apoiada no ombro do atirador, e assim parte da energia produzida pela explosão da pólvora é absorvida pelo corpo (do coitado…) – que, a cada tiro, leva uma pancada (“coice”) que pode lhe quebrar o omoplata. A ergonomia de fuzil também se expressava, na MP18, numa característica distintiva: o carregador se alojava na lateral da caixa de culatra. Ao que parece, essa solução foi adotada para permitir que o usuário empunhasse a arma com a mão esquerda na frente, enquanto a extensão da coronha apoiava-se no ombro direito. Os desenhistas imaginaram que o uso da pistola-metralhadora seguiria o conceito de tiro de precisão (o atirador aponta diretamente para o alvo). Logo ficou demonstrado o equívoco: o pequeno alcance e a baixa precisão (comparados com os de fuzil) combinados ao fogo automático em condições de movimento mudavam a forma de uso. Já que a arma podia ser controlada apenas com as mãos, a tendência passou a ser o “tiro instintivo”: na altura da barriga, em ângulo com relação ao eixo vertical do corpo, a arma era posta na direção do alvo para o disparo de rajadas curtas (de dois a três segundos, quatro a seis salvas).  Na prática, o que acontecia é que o atirador ignorava o mecanismo de pontaria e o carregador lateral acabava funcionando como empunhadura dianteira, o que tornava o manejo mais confortável. O recuo relativamente suave tornava possível encostar a coronha na barriga ou no braço, coisa que seria impensável com um fuzil.

Essas hipóteses se comprovaram não apenas com a experiência das “tropas de assalto”, mas principalmente durante os distúrbios civis de 1919, na Alemanha, quando a *arma se revelou ideal para combate a curta distância.

Mas tanto quanto o exército do Kaiser, o ramo terrestre das reduzidas “Forças Armadas Nacionais” (Reichswehr) pós 1919 não mostrou lá muito interesse pela submetralhadora. Por volta de 1935, quando, já no governo nazista, se iniciou o rearmamento das forças armadas, a distribuição ampla desse tipo de arma, não foi, em princípio, planejada. Sua utilidade era vista apenas para funções secundárias, e não para tropas de combate. As lições da Guerra do Chaco e da Guerra Civil Espanhola apontavam a funcionalidade da arma, mas apenas em 1937 o Exército começou a procurar por um modelo que pudesse ser largamente distribuído. E, mesmo assim, em função das necessidades observadas no ambiente das forças altamente móveis que estavam sendo criadas, mecanizadas e aeroterrestres. Essas forças precisavam de uma arma leve, compacta e que permitisse ao soldado transportar maior quantidade de munição. Em 1936, uma requisição do Departamento de Armamento do Exército (Heeres Waffenamt) estabeleceu essas características para a nova versão, e ficou claro que a ergonomia de fuzil não servia mais. A empresa alemã Erfurter Maschinenfabrik Gmbh (Erma) iniciou o desenvolvimento de um modelo conformado às especificações apresentadas. 

O problema é que a doutrina alemã mudara pouco, no geral. Fora das forças blindadas, continuavam basicamente as mesmas da 1ª GM, ou seja – o combate de infantaria baseava-se no “peso de fogo”, ou seja, em muito infantes avançando coordenadamente e atirando de forma escalonada e coordenada, com armas que disparassem um projétil relativamente pesado numa distância útil alta com precisão razoável. Esse cartucho já existia: era o IS (Infanterie Spitz, ou Infantaria, Ponteado) em uso desde o final do século anterior, a partir do fuzil G98 e da carabina (fuzil encurtado) *KAR98K. A indústria alemã de armamentos, apesar dos grandes investimentos que recebeu, crescia lentamente e sua capacidade de desdobramento revelou-se limitada. Parecia às mentes cartesianas dos planejadores econômicos e militares um tanto absurdo mandar para o espaço as máquinas e gabaritos, bem como os processos industriais e treinamento dos operários. Não foi outro motivo que a Wehrmacht entrou na guerra usando o mesmíssimo armamento individual da guerra anterior. Nem mesmo um rifle semi-automático, do tipo dos utilizados pelos norte-americanos, foi cogitado::

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3 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

  1. Uma coisa que sempre achei meio absurda nas guerras é a quantidade de munição que cada soldado gasta, isso é reflexo da introdução das metralhadoras (e das sub ou “pistolas”) nesses conflitos ou já era assim antes?

  2. Acho que é por causa do “fogo de supressão/supression fire”, utilizado na tática do “fogo e movimento/fire and movement”.

  3. Diria que o Diogo foi ao ponto. Nas táticas convencionais que se tornaram possíveis com o advento do fuzil de repetição manual, o peso de fogo era conseguido pela quantidade de soldados disparando de forma escalonada e coordenada: fileiras, ou “escalões”, disparando ao mesmo tempo – uma atira, em seguida avança, enquanto outra atira, e assim vai. O segredo é fazer o adversário ter de manter a cabeça abaixada ou levar um tiro. As armas automáticas aumentaram essa possibilidade, mas ainda havia o problema da coordenação dos escalões. No movimento, vc joga uma seção (um pequeno gpo de homens) contra um setor específico. Como o gpo é pequeno, a capacidade de coordenação diminui e a capacidade deles atirarem muita bala tem de ser aumentada, para compensar. Além do mais, um sujeito sentando o dedo numa arma capaz de disparar 4 ou 5 salvas por segundo tem mta possibilidade de acertar um companheiro, principalmente se não tem como apontar a arma com calma. O problema, então, é que o movimento aumenta os problemas de coordenação: na “pequenas frações de tropa”, recomenda-se que os integrantes consigam se ver, durante o movimento, e não avancem mto, em relação ao companheiro ao lado, para q os três avancem atirando a vontade, sem o risco de fazer de graça o trabalho do atirador adversário…

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