Drops para o fim de semana::Futebol e Grande Estatégia – apenas outro delírio?..

Na área específica do blogue das boas causas, frequentemente o redator:: se pega defendendo o Stalin. Calma! Ninguém precisa protestar: na média, causa:: concorda com tudo que tem sido dito desde que Isaac Deutscher começou a levantar o legado de Trotsky: Stalin foi um tirano genocida e começou a enterrar o comunismo soviético (embora seja tolice querer fazer comparações com Hitler, por motivos que aqui não interessam). Mas num tópico, em específico, não se pode negar a parte dele: sob sua liderança, a União Soviética venceu setenta por cento da 2ª GM e saiu do conflito como potência mundial. Como causa:: tem como assunto estratégia, e o redator:: vê estratégia em tudo, vamos, mais uma vez, correr o risco de enfiar o pé na jaca.
Estratégia é, antes de mais nada, o conjunto dos movimentos amplos e coordenação entre teatros de operações e teatros táticos. Atualmente, esse conceito é usado nas áreas mais disparatadas (“estratégia empresarial”, “estratégia sensível“, e por aí vai), ao ponto de um de seus teóricos clássicos, o filósofo chinês Sun Tzu ter se tornado leitura até para auto-ajuda. Assim, podemos falar um pouco de estratégia nessa Copa do Mundo.
Em teoria, podemos ver “estratégia” e “tática” no futebol. A “estratégia”, ou seja, (segundo o marechal  barão de Jomini),  a arte de articular e ordenar a ação das forças militares, pode ser pensada na preparação da campanha de um time: criação de uma infra-estrutura, contratação de jogadores, preparação do time, e por aí vai; a “tática” ou seja (segundo o mesmo barão) é a parte da arte da guerra que trata de como proceder durante um combate ou batalha, manobrando tropas para alcançar a melhor posição em relação ao inimigo. Qualquer um que acompanhe futebol entende do que estamos falando aqui. As táticas no campo de futebol servem de termo de comparação com as táticas militares: em ambos os casos profissionais qualificados movimentam-se dentro do campo para conseguir vantagens e vencer o inimigo – a diferença é que num campo de futebol não morre ninguém. Caso fossemos estender o assunto, até mesmo as “doutrinas” – na guerra, orientam a utilização da combinação meios+material humano – podem ser encontradas no futebol. Por sinal, essa comparação talvez explique o medíocre futebol atual, comparado com aquele praticado, digamos, na Copa de 1970. Não é só uma questão de genialidade individual, pois, hoje em dia, gênios como Pelé, Beckenbauer e Gerson provavelmente não surgiriam. 
 
Também podemos ver no futebol uma “Grande Estratégia”, ou seja, gerenciamento dos recursos de uma nação (população, economia, energia moral, lideranças) para a realização de objetivos políticos. Política e Estratégia, reunidas, constituem atualmente uma área de conhecimento transdisciplinar, que interage, em especial, com: ciências políticas, sociologia, administração, economia, história, ciências militares, geografia e relações internacionais. Esmiuçado, aprofundado e aperfeiçoado, o pensamento político-estratégico tem sido fundamental para o sucesso das organizações no mundo cambiante em que vivemos. Por meio dele, os dirigentes adotam uma atitude prospectiva em relação ao futuro, estabelecendo ações preventivas contra as ameaças e explorando as oportunidades que o ambiente externo pode oferecer, tudo com base nas fortalezas e debilidades que a própria instituição deve reconhecer em seu ambiente interno. Deste modo, no planejamento da Grande Estratégia, o componente militar é apenas um dos fatores a serem levados em consideração. O comando e controle de grandes unidades militares (divisões, corpos de exército e exércitos) passa a ser totalmente subordinado a movimentos totalizantes, que, na atualidade, consideram todo o mundo. Alguns teóricos sugerem que, com o aumento exponencial do tamanho das forças militares, e o avanço das tecnologias de controle e comunicação, a “estratégia militar” tornou-se mais um aspecto da “Grande Estratégia”, e tem de ser considerada para além da situação de guerra.
 
E o que isso tudo tem com a Copa do Mundo? Nosso país tem agora, um delineamento de “Grande Estratégia” bem diverso do que teve desde o fim da ditadura militar (se é que tivemos algum, após o abandono da política externa independente elaborada durante o governo Geisel).
Esses novos delineamentos buscam colocar o Brasil numa posição de liderança global, articulado aos novos blocos formados na era pós-Guerra Fria. Se estamos ou não capacitados para isso, são outros quinhentos, mas o fato é que se trata de uma situação original, originalidade que reside na abordagem multipolar da política externa. Por outro lado, tal abordagem tende a colocar o que é visto como “nossos interesses”, em frequente rota de colisão com os interesses hegemônicos das potências centrais – EUA à frente. Não é uma situação nova, e nem produz desdobramentos que sejam novidade. A crescente diferenciação de interesses e percepções entre Brasil e EUA observada atualmente, a respeito de suas respectivas posições no sistema internacional, começa a produzir políticas divergentes, no plano das relações internacionais. Em outras épocas também surgiram divergências, decorrentes de transformações na política interna brasileira. produzidas por situações de mudança nos setores hegemônicos brasileiros, que resultavam em divergências na leitura desses grupos sobre como o país deveria colocar-se no sistema internacional. Com diferenças marcantes de enredo, essa é história ouvida antes, durante os governos militares. Notadamente a partir da administração Médici, observa-se o reordenamento das posições relativas ocupadas pelos três eixos em torno dos quais se articula o processo produtivo brasileiro, quais sejam, a grande empresa internacional, o setor público da economia e o capital nacional não-associado. Será a conjugação dessas três forças que permitirá, no momento seguinte, a gradativa diversificação das relações econômicas externas do Brasil, constituindo a base material da política exterior iniciada com Geisel.

Não seria hoje quase a mesma história? Já se observa forte reação dos interesses tradicionais da política brasileira, assim como se escuta falar muito de uma “reestatização branca” e de um “bilionário petista”.  Outras semelhanças podem ser observadas, algumas de curiosa contiguidade. 

A ação externa de Geisel passou pela recomposição da correlação de forças na estrutura doméstica de poder. Procuravam-se formas pacíficas de transição para a liberalização do regime, processo conduzido pelo próprio Presidente da República. A personalidade do general lhe possibilitaram manter-se no centro das decisões, processo denominado “centralismo burocrático”. Essa fórmula, muito calcada no pensamento de esquerda, mantinha a capacidade de decisão concentrada, capaz de articular as burocracias mais consistentes. Para Geisel, a política exterior, além de elemento indutor do desenvolvimento, se tornou fator legitimador do regime, articulando-se à proposta de abertura institucional formulada pelo próprio regime. Sua linha de força era a afirmação de independência com relação aos desígnios da política externa dos EUA no plano internacional. 

Essas reflexões baseiam-se no excelente artigo referenciado mais acima. Como bônus, talvez ajudem a explicar a admiração manifestada por Lula – e por sua candidata – com relação ao governo Geisel. E o “furor democrático” manifestado por grupos que cresceram à sombra do regime autoritário.

Um desses grupos de interesse é formado pelo amplo setor das empresas de comunicação. Claro – nem todas elas cresceram cevadas pelo regime militar, e algumas cumpriram destacado papel de resistência. Não é preciso aprofundar essa distinção, pois no momento, todas parecem alinhar-se com uma postura “ocidentalista” que, ao longo da última década, deu totalmente co´os burros n´água. O fracasso das políticas de alinhamento automático com os EUA e a Europa Ocidental ficaram patentes durante o governo FHC. E não estamos discutindo aqui as políticas do atual governo que teriam sido herdadas do anterior. Isso parece ser um fato, mas o atual governo moveu os recursos disponíveis de modo totalmente diverso do modo como o fez o anterior. E já notamos o candidato Serra levantar questões sobre os rumos da política exterior. Rumos que não têm merecido uma palavra de simpatia por parte desses grupos de comunicação. 

Dentre esses, um mais notórios é a Rede Globo de Televisão. Grupo empresarial surgido das articulações da época dos governos militares, que também beneficiaram o jornal O Globo, a Rede Globo foi um dos principais atores da moldagem da visão de nação que nos assola atualmente. Ao longo de quatro décadas, funcionou como uma área de “public relations” do regime militar, formando uma rede que atualmente alcança todos os pontos do território brasileiro – o que, temos de reconhecer, não é pouca coisa. Que faz um trabalho de excelente qualidade é inegável, tanto que os outros grupos de comunicação televisiva tentam, com sucesso no máximo mediano, copiar o “padrão Globo”. Sucesso apenas mediano porque um dos aspectos matriciais desse “padrão” é o comportamento hegemonista. A Rede Globo parece se ver como tendo adquirido uma espécie “pressuposto”, que é um direito a “chegar primeiro”. Esse direito realmente existe, e foi produzido por articulações políticas de bastidores, onde se trocam favores que acabam por resultar em vantagens econômicas reguladas pela posição dos agentes em negociação. Por vezes, entretanto, surge um boi na linha: em 1983 (se a memória do redator:: ainda vale alguma coisa…) foi Leonel Brizola; em 1990, foi a possibilidade de Lula – ainda metalúrgico e obreirista – se eleger; na mesma época, houve o caso “Igreja Universal do Reino de Deus” (uma briga que se prolonga até hoje). Mais recentemente, temos o caso “Copa do Mundo”. E é nesse ponto que o redator:: ainda vai acabar gostando de Dunga.
Nosso “Zangado” pode ser lá o que for – um jogador medíocre, treinador pouco criativo, personalidade autoritária, cidadão politicamente retrógrado, etc. (e mais alguma coisa), mas talvez esteja prestando a todos nós grande serviço, ao peitar a Rede Globo. Dunga pode até perder a Copa do Mundo – embora o futebol que a Seleção apresente não seja pior do que a média do que se vê nessa edição da competição, ou seja, uma porcaria. Entretanto, ao colocar no devido lugar a arrogância de outras mediocridades – o bando de bonifrates falantes (opa! causa:: também é inspiração…) do “jornalismo” da Globo -, Dunga certamente tornou essa Copa um evento realmente significativo para nosso país, e já fez por merecer entrar, se não para os anais do futebol brasileiro, com certeza para os do jornalismo brasileiro.
O post que deu origem às observações talvez tanto delirantes acima já circulou na Internet o suficiente para criar uma trilha entre o Jardim Botânico e África do Sul, com algumas declarações de princípios interessantes. 
Como isso pode ser elemento de “Grande Estratégia”? Ôs oito ou nove leitores, conhecedores que são de causa:: já devem ter notado que essa foi apenas outra desculpa para discutir estratégia. Mas o fato é que a postura “descontrolada” de Dunga (pelo menos segundo o valente William Bonner) abre uma brecha para pensarmos que, se por um lado a presença de formações hegemonistas é, no mínimo, um obstáculo à democracia, mas por outro, as relações de poder, mesmo no plano assimétrico, são hoje bem diferentes do que eram nos “gloriosos anos setenta-oitenta”, época de ouro da “Vênus platinada”. Na época, a Rede Globo era recurso estratégico do regime, e funcionava como fator articulador das relações políticas e, por conseguinte, da ideologia. O surgimento da Internet equilibrou essa relação de forma não-prevista. De forma ainda não bem avaliada (tanto que pode estar errada) a Globo tem de lidar com agentes em posição totalmente asimétrica. Assim, o problema não é Dunga, mas a forma como a história se espalhou, obrigando a própria frau Bernardes a desmenti-la utilizando o mesmo recurso através do qual história se disseminou – um blogue. Só que, aparentemente, a capacidade de “viralização” desse não alcança os patamares de alguns daqueles nos quais surgiu o caso. Ou seja – vivemos outra época, em que agentes antes insignificantes viraram recurso de “Grande Estratégia”…::
 

Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::

O Oriente Médio não sai do foco. Ainda que não pretendamos pensar no caso (o redator:: bem que tentou, por bastante tempo…), aquele pedaço de terra volta ao campo de atençao. De fato, é difícil não pensar nele: nossa civilização nasceu lá, de fato, quando o povo judeu inventou o monoteísmo, depois um grupo de dissidentes (sempre eles) resolveu repensar a relação com o Céu; tempos depois, um judeu que recolhia impostos para os imperialistas da época descobriu que talvez fosse possível conciliar o inconciliável e, para completar a salada, passados mais alguns séculos, um jovem guardador de camelos saiu por aí (ou por lá, melhor dizendo) tentando – e conseguindo – convencer as pessoas que conversava com o único Deus.  E desde então, a humanidade, que adora pegar em armas, e o faz por qualquer causa::, não parou mais de se matar em nome dessas idéias.Examinemos algumas dessas questões – em partes, é claro, pois os ocupados frequentadores de causa:: não têm tempo para ler dez páginas de delírios do redator::

parte1/4É claro que o resumo acima é uma visão simplista que poderia ser entitulada “origens história mundial do ponto de vista das religiões”. Foi, entretanto, suficiente para colocar no espírito do redator:: uma idéia que, embora parecesse, de início, estapafúrdia, acabou mostrando-se bastante razoável: o fundamentalismo religioso pode ser fundamento de uma análise estratégica? 

Certamente foi, na época da expansão do Islã, entre o meio e o fim da Idade Média. Foi a época em que exércitos e navios saídos do Oriente Médio e da Turquia levaram as palavras do Profeta (aquele jovem guardador de camelos…) ao mundo, e legiões de novos fiéis foram convencidos – pelo brilho do Livro ou pelo excelente aço sarraceno. Posteriormente, a maioria das guerras européias da Idade Moderna, quando foram lançados alguns dos mais duradouros fundamentos da arte militar, tiveram parte de suas motivações baseadas na idéia de reformar a Cristandade, de modo a levar os homens de volta ao caminho de Deus – ou matar os que não concordassem em trilhá-lo. A mesma trajetória política que levou a 150 anos de guerras religiosas produziu, na Europa do século 18, a consolidação da separação entre Estado e religião. A idéia de que o bispo de Roma, chefe mundial da Igreja Católica, seria também preposto de um grande ditador onipresente e onisciente acabou relegada aos limites de uma praça-estado situada no meio de Roma. A direção dos estados – e de suas guerras – foi colocada sob a responsabilidade das lideranças formadas nesse espírito. Em prazo relativamente curto, essas lideranças empalmaram o poder de levar cidadãos, ou seja, todos aqueles vivendo sob um proclamado (e nem sempre praticado) “império da lei”, ao campo de batalha, quisessem estes ou não. A grande estratégia, ou seja, o modo como, modernamente, as nações mobilizam seus recursos de modo a alcançar seus objetivos políticos, deixou de levar a religião em consideração, embora esta continue a ser importante fator de mobilização ideológica.

Volta o redator:: ao ponto, para consideração dos oito ou nove leitores que aqui aparecem de vez em quando: a religião pode ser considerada aspecto de planejamento estratégico? Certamente, se a considerarmos fator de mobilização. Nos estados laicos criados pelo racionalismo e pelas revoluções burguesas do século 18, e que se consolidaram no século seguinte, a religião ainda hoje é fator de aglutinação das sociedades, em caso de guerra, real ou virtual. Não passamos 50 anos ouvindo que um dos motivos da Guerra Fria foi o ateísmo dos comunistas? Os soldados dos EUA não eram apresentados como a primeira linha de defesa da “civilização cristã-ocidental”? Pergunte a um cidadão médio norte-americano se ele não acredita que um dos motivos da superioridade conquistada pelos EUA é a disposição para o trabalho missionário, de “trazer almas para o Reino de Deus”. Os missonários sempre foram parte importante das frentes de expansão dos Estados ocidentais. Desde a “Companhia de Jesus”, criada no século 16 e estruturada em moldes militares (mas sem portar armas que não fossem a Cruz e a Bíblia), até os pregadores protestantes que percorriam a África na retaguarda (e – sejamos justos – muitas vezes na vanguarda) do exército britânico, a difusão da palavra de Deus abriu a porta para a penetração do “estilo ocidental”, seja ele lá qual for.

Embora se possa observar forte sinergia entre exércitos de missionários e de militares, na atualidade eles não se misturam, e isso é parte do “estilo ocidental”. Em última análise, prevalece a lei dos homens – ou do estado, por consenso dos cidadãos – sobre a lei de Deus. A lei do estado não pode ser desobedecida, sob pena de punição, enquanto a de Deus é seguida por decisão de “fôro íntimo”, como gostam de dizer os advogados. Ela não é fundamento para a imposição de obrigações civis, como a convocação militar. É, entretanto, fundamento para a “obrigação moral” de expandir a Palavra e lutar contra o ateísmo, por exemplo. Ou pela paz, ainda que a tiros. Por outro lado, a sinergia entre o “fôro civil” e o “fôro íntimo” observa-se quando o cidadão é chamado a lutar por seu modo de vida, que inclui a liberdade de praticar uma religião ou (pelo menos em teoria) o respeito à opção religiosa alheia. Boa parte da mobilização para a Primeira Guerra do Golfo (para não irmos muito longe no tempo) foi feita dentro de pequenos templos protestantes, nas cidadezinhas dos EUA. O próprio George Bush Sr. frequentou alguns cultos e falou neles sobre a necessidade de lutar pela liberdade no Oriente Médio.

Esse é o estilo ocidental. A idéia de um “reino” abrangente, governado pela lei e povoado por cidadãos “nascidos iguais” e governados com justiça, guarda fortes continuidade com as idéias cristãs surgidas no Oriente Médio. Sabemos, entretanto, que existem atualmente uma penca de estados estruturados em torno da lei de Deus: falamos, claro, dos estados islâmicos. A questão é como se dá a estruturação desses estados: o “Livro” (al´Koram) está na base do que chamaríamos de “sociedade civil” e regula as relações entre cidadãos. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao redator:: (que não tem a menor vocação para Ali Kamel) estabelecer – sugere-se perguntar a um cidadão da República Islãmica do Iran, ou do Reino Saudita. 

É notável que, nos últimos setenta anos, desde meados do século passado, movimentos políticos laicos tentaram liderar um redesenho do estado. Os partidos nacionalistas nos estados islãmicos, dos quais o nacionalismo iraniano, os diversos “baathismos” e o “Fatah” são bons exemplos, talvez tenham fracassado em função de certa incapacidade de limitar a presença da religião e de suas lideranças na vida civil. Fracasso compreensível: a religião, nesses lugares, molda as instituições de um modo que, vivendo em sociedades laicas, torna-se difícil conceber. O sistema escolar, por exemplo, é totalmente organizado e ordenado por agentes religiosos. O exemplo mais acabado disto são a “madrassas” sunitas, escolas religiosas cuja função é ensinar a Palavra do Profeta para a vida e formar sábios (um excelente texto sobre o tema, no falecido Weblog de Pedro Dória). Madrassas formam Fiéis, homens dispostos a seguir com retidão o caminho da Fé – ou, como dizem eles, do “Coração” (tradução quase literal da palavra árabe Islan). Um desses princípios e a expansão da Fé – o que é conhecido como Jihad. O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47. Entretanto, em alguns lugares, como o Paquistão, as madrassas formam ativistas que levam a religião como bandeira. Como o Islã é, antes de tudo, a luta pela Fé, essa luta começa no interior dos próprios estados islãmicos, de modo a não permitir qualquer desvio dos Fiéis, principalmente quando esses Fiéis meio perdidos estejam no governo e queiram adotar um modo de vida que não se paute pela Lei verdadeira – aquela do “Livro”.

Ou seja: os estados islâmicos são formas ainda híbridas entre uma estrutura política formada por séculos de organização da vida cotidiana e das relações sociais com base na religião, e um modelo de certa forma copiado a partir das relações assimétricas com estados ocidentais, estabelecidas no século 19. Após a 1ª GM, com a substituição do Império Otomano por mandatos coloniais europeus, abriu-se o caminho para a formação de partidos nacionalistas ao estilo europeu, que logo se mostraram uma dor de cabeça para as potências mandatárias. Também foi nesse período que se formaram monarquias que aceitaram dividir o poder com os religiosos, desde que estes não se metessem nos assuntos de estado. Exemplos disso são a Arábia Saudita, a Jordânia e o Iraque. De modo algo diferente, também a monarquia marroquina do rei Hassan II, menos falado porque bem mais comportado e sem petróleo (como Arábia Saudita e Iraque) ou posição estratégica chave (como a Jordânia).

Mesmo ditaduras laicas extremamente violentas como a Síria, a Líbia ou – last but not least – o Iraque baathista, são produto desse hibridismo.  Nesses casos, o modo de enfrentar a religião foi fazer acordos, por um lado, e encanar os dissidentes religiosos, por outro, o que significou dar vantagens e tomar funções. No caso da Líbia, o projeto foi mais bem-sucedido que no Iraque, visto que na lá – como na Argélia francesa, outro caso de “sucesso” – os colonizadores europeus conseguiram formar um núcleo consistente de sociedade europeizada nas regiões urbanizadas da costa mediterrânica. Nesses estados, após a independência (muito menos problemática na Líbia – colônia italiana – do que na Argélia – colônia francesa), assim como na Síria (colônia francesa fortemente influênciada pelos ingleses), os grupos políticos que receberam ou tomaram o poder após as independências, herdaram esses núcleos ocidentalizados, dentre os quais se encontrava o exército e boa parte do serviço público.  Na Líbia, Muammar el Ghadafi, líder (cuja a ambição secreta deve de ser fundar um fã-clube de Cauby Peixoto) produzido em uma disputa política de facções, após tomar o poder, manteve certos privilégios dos religiosos, mas ao mesmo tempo os reprimiu fortemente. Paralelamente, “ocidentalizou” a vida social (trata-se do estado árabe onde a religião menos influencia a vida cotidiana) e transformou o Ocidente em espantalho. Ghadafi era um nacionalista de origem militar, em um exército formado ao estilo ocidental – sem mullahs dentro dos quarteis ou califas no comando – coisa que o coronel Gamal ab´del Nasser também era. Nasser tentou, bem antes, “ocidentalizar” o Egito, só que com sucesso relativo, já que precisava dos religiosos para enfrentar Israel. E, pior, sempre que enfrentava, perdia, o que fornecia mais munição para o discurso religiosos, que afirmavam ser a derrota produto do desvio do caminho da Fé.

Outro ponto que merece atenção é o fato de que essas ditaduras nacionalistas laicas (ou quase) utilizaram-se da disputa ampla da Guerra Fria para consolidarem suas posições. Isso era mais fácil para aquelas que dispusessem de algum trunfo – o petróleo, no caso de algumas, a posição estratégica, em caso de outras (a União Soviética se interessava mais por posição estratégica do que por riquezas minerais, o que levou à aposta na parceria com o Egito e a Síria). De qualquer maneira, é inegável que Nasser, seu sucessor Anwar el Sadat, Gadafi, o sírio Haffez al Assad e claro, Sadam Hussein tentaram, até certo ponto um meio nacionalista e socialista que criou grandes tensões internas, solucionadas pela via da repressão, por um lado, e de concessões à população, geralmente em detrimento da religião – o que acabava por criar mais tensão. O sucessor de Nasser, general Sadat, percebeu mais cedo que a parceria com a União Soviética criava um problema a mais para a sobrevivência do regime, e acabou optando por negociações em separado com os EUA, sobre a questão de Israel. Isso criou novos problemas: por um lado, uma fratura no bloco nacionalista laico (a Síria e a Líbia quase chegaram à guerra contra o país) e, por outro, problemas internos com os religiosos, que viam na aceitação Israel uma traição que colocava as lideranças como passíveis de condenação. Para esses movimentos não importa onde está o inimigo, se dentro ou fora. Na visão religiosa, o Islã funciona como uma espécie de duplo terreno e imperfeito de uma formação celestial, governada pela Lei (Sharia). Este é o conjunto de normas que o Fiel deve observar, elaborado por estudiosos, sobre questões do cotidiano. A base dessas interpretações é o Corão, em primeiro lugar, e os Hadith (os “bons ditos”, conjunto de observações do Profeta sobre assuntos diversos, e que incluem sua biografia). A comunidade do Islã é formada pelo conjunto dos Fiéis, e não propriamente por cidadãos de estados nacionais. A Lei deve ser, pois, observada inclusive pelos governantes, que, se a transgridem, desautorizam a si mesmos diante de Deus – ou seja, da comunidade do Islã::

Uma lambança às quartas::Uma flotilha de problemas::

Oficialmente, causa:: ainda não encerrou o mês de comemorações do final da 2ª GM. Os maiores especialistas no tema dizem que a configuração do mundo atual é produto, dentre outros motivos, do resultado da 2ª GM. Se é verdade, eis mais um motivo para amaldiçoarmos, em alto e bom som, o fascismo. Se Hitler tivesse feito sucesso como arquiteto ou pintor, é possível que hoje não estivéssemos tendo de aturar os frequentes insultos dos governantes do estado de Israel contra nossa inteligência. Os mais recentes dizem respeito à lambança praticada por seus estrategistas em águas internacionais, tendo como móvel meia-dúzia de navios mercantes carregados de carga não-bélica e boas intenções. E o redator:: não estaria tendo de rever um de seus mais preciosos conceitos: a competência das IDF (sigla de Forças de Defesa de Israel, em inglês). Mas como causa:: é, sobretudo, um blogue carregado de wishful thinking, tentemos fazer desse limão, uma limonada: estamos lançando uma nova coluna (que provavelmente se juntará à todas as outras que não deram certo…): Uma lambança às quartas:: (que, como é de praxe, pode sair – se sair – quinta, sexta… Sábado…). Claro que assunto não faltará: da Baía de Baffin ao Estreito de Magalhães, das ilhas Sacalinas à Baía de Guantánamo, lambança é o que as potências, reais ou pretensas, mais aprontam… 

Em diversas oportunidades, este blogue/recurso de pesquisa já explicitou que não tem posição política. Nos damos bem com blogues de todo o espectro político, desde a direita hidrófoba (que, claro, nunca se admite como tal) até a esquerda mais delirante (que claro, faz questão de se admitir como tal). Assim, causa:: se limita aos assuntos técnicos em torno dos grandes temas de interesse de estrategistas amadores, pesquisadores de história militar amadores, bem como outros amadores das mais diversas categorias que passam por aqui. Já apareceram nessas páginas virtuais muitos textos que abordam questões ligadas ao Oriente Médio e, por certo, Israel aparece em alguns. Nenhum, entretanto, tem por objetivo tomar posição, contra ou a favor. Entretanto, como observador (amador, claro) de política e relações internacionais, o redator:: não consegue deixar de se perguntar: onde estavam com a cabeça os governantes de Israel ao permitir que suas forças “de defesa” cometessem tal desastre? 

É certo que a Marinha de Israel (alguns dados gerais sobre a força, aqui) sempre foi, dentre os três ramos das IDF, o mais fraco. Sua história se inicia na época em que a Agência Judaica tentava enviar, da Europa, colonos judeus que se fixariam na Palestina e buscariam uma posição de força para o momento em que o Mandato Britânico se encerrasse. Lá ia o ano de 1938. Durante a 2ª GM, cento e poucos voluntários se juntaram à Marinha Britânica, atuando principalmente em ramos técnicos (eletrônica e mecânica, principalmente) – poucos estiveram em combate. Depois da fundação do estado de Israel, em 1948, a força naval israelense manteve-se como uma força de defesa costeira, com capacidade ofensiva quase nula. Durante a Guerra dos Seis Dias sua atuação limitou-se a algumas incursões contra a costa do Egito. Poucos meses depois, o “incidente Eilat” seria marcante na trajetória da Marinha de Israel: sua principal unidade, o contratorpedeiro-de-escolta “Eilat“, foi afundado numa ação de lanchas-patrulhas egípcias, ao largo de Port Said. Embora o incidente tenha sido abafado na época, com a ajuda das agências de imprensa norte-americanas, teve forte impacto na população em geral e na Marinha de Israel. Até então, população e governo israelenses davam pouca importância ao poder naval, visto que a principal influência, na região, era das marinhas norte-americana e soviética. A principal potência naval regional, a Turquia, mantinha, então, boas relações com o estado judeu. O “incidente Eilat” mostrou que, no estado em que se encontrava sua marinha, Israel não tinha o controle nem mesmo das águas adjacentes. O estado-maior das IDF começou, então, a desenvolver planos que focavam navios de pequeno porte, adequados ao combate de mísseis, capazes de bloquear a costa israelense e incursionar contra a costa dos principais estados árabes adversários – na época, Síria e Egito. Táticas e técnicas que possibilitassem esse tipo de atuação começaram a ser desenvolvidas, bem como vetores de armas capazes de cumpri-las. Foram adquiridos na França alguns navios-patrulha rápidos classe Sa´ar 2 (concebidos em Israel com base em um desenho alemão) e projetado, no próprio país, o míssil superfície-superfície Rafael. Em 1973, a mudança de foco mostrou resultados no encontro de Baltim-Damietta, contra um grande grupo de lanchas-patrulhas egípcias, durante a guerra do Yom-Kippur. Essa “mini-batalha naval” marcou uma espécie de redenção do “incidente Eilat”. Desde então, a Marinha de Israel transformou-se numa força de porte médio, dotada de meios modernos, centrados em corvetas e submarios. A ação diante de Gaza mostrou que a força naval tornou-se agente ativo na execução da “política de defesa” de Israel.

O problema é que essas políticas começam a se tornar contraproducentes. Atualmente, um dos eixos dessa política é o bloqueio de Gaza (maiores informações aqui), estabelecido em 2007. Inicialmente, essa ação tinha como alegação a tomada do poder na região pelo grupo islâmico fundamentalista de orientação sunita Ha´mas (acrônimo de Harakat Al-Muqawama al-IslamiaMovimento de Resitência do Islã), considerado por quase todos os governos interessados na questão como terrorista. Desde os anos 1980 gente ativo da questão da autonomia palestina, ora opositor, ora aliado do partido laico Fatah, o Ha´mas é visto com grande desconfiança pelas principais potências ocidentais, que não o aceitam como interlocutor político. Isolado, o Ha´mas acabou por abrir uma brecha para o aumento da influência iraniana sobre as atividades da militância palestina. O governo da Fatah na Cisjordânia mantem-se prudentemente distante dos iranianos, visto que busca o apoio da comunidade internacional para a causa do estado palestino. Em função dessa busca de apoio, o partido Fatah já aceita a convivência pacífica com o estado de Israel. O que não é o bastante – essa questão é mais ampla e problemática. Desde os anos 1960, e particularmente, da Guerra dos Seis Dias, os setores conservadores política israelense apoiam-se nos partidos religiosos que vêem com grandes ressalvas a criação de um estado árabe ocupando o que é, em geral, considerado como “a terra de Israel” (Eretz Israel), a região de Canaã, prometida por Deus ao “povo escolhido”. Esse é um fator que leva a questão palestina a um impasse, em função da exigência dos fundamentalistas judeus que parte da região fique sob controle de cidadãos de Israel, na forma de colônias povoadas por ortodoxos ligados aos partidos religiosos. Em Gaza o problema se torna mais sério: se o partido Fatah se dispõe a negociar uma saída política, a região um estreita faixa de terra de 41 kms de comprimento por 12 kms de largura, que consegue ser ainda mais pobre do que a Cisjordânia, o Ha´mas é o governo de fato – e não se mostra disposto à negociação, mas ao confronto (basta citar o caso dos foguetes Qassam). O governo de Israel, por outro lado, parece sentir-se autorizado, em função das restrições internacionais ao Ha´mas, a aplicar uma política que acaba por penalizar um povo que já vive no limite da sobrevivência.

No último dia 31 de maio, essa política de busca do confronto teve um desdobramento inesperado: pelo menos nove pessoas morreram  em uma ação militar israelense contra um grupo de pequenas embarcações que tentava desembarcar em Gaza gêneros de primeira necessidade. As versões são totalmente contraditórias, mas de concreto foi estabelecido, pelo autópsia realizada na Turquia, que os mortos foram atingidos por disparos de armas automáticas, pelo menos dois deles atingidos à queima-roupa. Embora Israel tenha, inicialmente, mostrado intenção de tratar todos os presos como potenciais terroristas, a falta de elementos e a ação injustificada diante do direito marítimo internacional, bem como a arrogância da postura das autoridades locais acabou por levantar uma onda, aparentemente inesperada em Israel, de protestos internacionais. Aparentemente incapaz de responder satisfatoriamente aos pedidos de explicação de inúmeros governos estrangeiros, o governo de Israel acabou por decidir pela atitude menos danosa: centenas de ativistas presos foram rapidamente deportados. Essa atitude não impediu o Conselho de Segurança da ONU de emitir declaração pedindo que o caso seja investigado de forma “imparcial, crível e transparente”.

Ao que parece, a abordagem dos navios visava dar reforçar a posição de Israel quanto ao bloqueio e à sua política palestina – não admitir nenhum tipo de apoio aos partidos palestinos que não passe por seu próprio projeto: um estado palestino com autonomia apenas parcial. Também parece ter buscado mostrar a admissão de interlocução apenas com governos. O uso de meios e força desproporcionais parece que visava reforçar a política de bloqueio total a Gaza, e marcar que qualquer tentativa de contato direto seria encarada como ato hostil, independente da procedência e das proporções. O ataque à “Flotilha da Liberdade” teve, proporcionalmente, a mesma intencidade da operação militar contra Gaza, em janeiro de 2009. Mas se o resultado daquela ação já foi duvidoso, o dessa foi um desastre. O ataque trouxe resultados inversos aos pretendidos, e abriu espaço para uma debate internacional totalmente indesejado, mesmo entre os aliados de Israel, que começaram a fazer associações diretas entre o bloqueio e a realidade observada em Gaza. Pior: as ações militares do governo de Israel passaram a ser tratados abertamente como “terrorismo de Estado”. Israel passou a ser cobrado pela situação de direitos humanos naquela região, até mesmo – ainda que, nesse caso, de forma ainda tímida – pelo governo dos EUA. Aliados tradicionais de Israel, tais como a Turquia, ameaçaram rever acordos de parceria e o apoio diplomático ao estado judeu, em fóruns internacionais. Segundo alguns analistas, o principal erro de avaliação de Israel foi a demonstração de indiferença ao Direito internacional, que se caracterizou com a abordagem não avisada dos navios em águas internacionais. Os acordos observados em tempo de paz negam tal autoridade a qualquer estado, salvo alguns casos específicos. Analistas, inclusive alguns reverberados pela própria imprensa de Israel, afirmaram que a “Flotilha da liberdade” não se enquadra em nenhuma dessas excessões. Segundo analista norte-americano, a operação visava provocar danos letais pois o uso de armas automáticas em locais restritos não é observada em método de controle de multidões. Essa constatação é agravada pelo fato de que dificilmente tiros instintivos atingem o alvo na cabeça. Qualquer força militar medianamente treinada e disciplinada dispõe de meios não letais que preservam, sem perder a eficiência, a integridade física de ambos os lados – munição de borracha, gás lacrimogênio, gás de pimenta, armas paralisantes, bombas de efeito moral – a lista é imensa e a força atacante não levava nenhum deles.

Foi, pois, um tiro no pé. Qualquer um que leia jornais diários sabe o quanto é difícil fazer cobranças ao estado de Israel, dado o apoio incondicional que esse país tem dos EUA. Entretanto, o atual governo norte-americano parece empenhado em recuperar, pelo menos parcialmente, a credibilidade internacional, perdida ao longo dos anos da presidência Bush. Além das relações com a Turquia, país por onde passam a maior parte das linhas de suprimento para as forças dos EUA no Afeganistão, além do perigo de tais atitudes fornecerem munição aos movimentos fundamentalistas, os norte-americanos se encontram empenhados em conseguir fazer passar na ONU sanções ao Irã, em função de suposto programa  de pesquisas nucleares bélicas. A antipatia internacional por Israel, proclamada em alto e bom som por dezenas de nações que viram seus cidadãos inculpados como terroristas e seus apelos arrogantemente descartados pelas autoridades judias certamente não ajuda a diplomacia norte-americana, principalmente considerando-se o fato de que a Turquia é um dos principais opositores as sanções pretendidas::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Tropas britânicas embarcando para evacuação, nos primeiros dias da "Operação Dínamo", Dunquerque (costa norte da França), maio, 1940: avaliação política equivocada ou erro militar crasso?..

Em 2006 caiu nas mãos do redator:: um livro fascinante: “As entrevistas de Nuremberg” (o livro pode ser consultado, com restrições, aqui). Não é preciso explicar a nenhum leitor assíduo ou eventual de causa:: o que foi o Tribunal Militar Internacional. Leitor de causa:: ou não, todo mundo sabe que o TMI, ao longo da ano de 1946, julgou os principais criminosos nazistas. Foram réus do, tribunal, instalado na cidade de Nuremberg, Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Robert Ley, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosemberg, Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Wilhelm Funk, Hjalmar Sclacht, Gustav Krupp, Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur Von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martins Borman, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath e Hans Fritzche. Os vinte e três “grandes criminosos” foram indiciados por diversos crimes, sendo alguns deles responsabilizados por provocarem deliberadamente a Segunda Guerra Mundial (planejar uma guerra de agressão) e ter cometido atrocidades durante as operaações militares para a conquista de territórios estrangeiros (violação das leis e costumes da guerra), oprimindo e matando a população inocente (crimes contra a humanidade). As acusações específicas iam do assassínio político ao extermínio de etnias religiosas, passando por crimes militares, escravização e pilhagem. O Tribunal Militar Internacional não se encerrou no grande processo, mas continuou, em uma série de treze julgamentos realizados entre 1945 e 1949. Nesses processos foram acusados e julgados uma série de funcionários civis e militares, responsabilizados por crimes relacionados aos “grandes crimes”.

Durante o julgamento principal, um médico do Exército dos EUA, major Leon Nathaniel Goldensohn, especializado em psiquiatria, foi designado para monitorar a saúde mental dos acusados.  Seu trabalho era feito com base em entrevistas diárias que abrangiam dezenas de nazistas de primeira linha, entre os levados ao tribunal como réus e outros convocados como testemunhas. O trabalho durou até meados de 1946 e resultou em dentenas de páginas de anotações, que, após ser transferido, Goldenshn conservou em seu poder. O médico morreu  em 1961. Suas notas ficaram esquecidas, até seu irmão as recuperar e editar para publicação, em 2004. O livro foi lançado em nossa língua no ano seguinte.

As entrevistas, em si, não têm nada de surpreendente: todos os acusados tentam se safar, e, em geral, da maneira usual. Nenhum deles foi responsável por nada, tudo tinha sido culpa de Hitler, de Himmler, de Borman (mortos, claro…) ou dos outros envolvidos, presentes ou não. Interessante mesmo é o panorama da Alemanha pré-Hitler que vaza das falas dos entrevistados, assim como a trajetória  dos acusados até o poder – enfim, a visão de mundo daquela gente.

Baseado nas entrevistas de alguns líderes militares, o redator:: resolveu fazer a experiência de analisar uma grande operação da 2ª GM mesclando a fala de homens que tiveram indubitável importância na direção da guerra, e trechos que são esclarecedores sobre esses mesmos temas, recolhidos em outras excelentes publicações disponíveis em português.

Um dos entrevistados que fala de forma mais clara é o general-marechal-de-campo (em alemão, general feldmarshall) Ewald von Kleist. Este cavalariano clássico, que, quase por acaso se viu comandando tanques, teve uma carreira destacada durante a guerra. Na campanha da França, foi designado comandante de um grupo blindado, o “Panzergrüppe Kleist“, formado a partir do 22° Corpo de Exército. O “grupo blindado Kleist” (na 2ª GM, unidades assim designadas tinham a primeira letra do nome do comandante estampadas em todos os veículos) alcançou e cruzou o rio Meuse, nas proximidades de Sedan em 13 de maio, abrindo assim uma brecha em forças francesas muito superiores. Continuou avançando, tendo os especialistas Guderian e Reinhardt como pontas-de-lança, no melhor estilo “guerra-relâmpago”, até as margens do canal Aire-Saint Omer, alcançado três dias depois. Uma vez cumprido esse objetivo, recebeu a surpreendente ordem superior de deter suas forças, que estavam virtualmente intocadas (tinham sofrido 11 por cento de baixas) e dispunham de combustível suficiente. Kleist decidiu ordenar que alguns elementos de vanguarda cruzassem o canal explorando o caminho até a cidade de Hazebrouck, importante entrocamento ferroviário. O Oberkommando des Heeres (OKH, Alto comando do Exército, formado em 1936) entretanto, reforçou a ordem de alto e Kleist teve de retirar os dois regimentos que estavam às portas da cidade. Ao longo dos três dias seguintes, todo o grupo foi mantido em posição. Depois se descobriu que o alto-comando do Exército tinha desconfiado de uma armadilha, dada a facilidade com que os blindados estavam avançando por toda a França. Durante a segunda fase da campanha, Kleist recebeu o controle da 16ª Divisão Blindada e do 14° Corpo Motorizado. Seu grupo de combate atacou a partir de Amiens e conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio Oiser. Dali até o porto de Dunquerque seria um pulo. Entretanto, em 24 de maio, Kleist novamente recebeu ordens de alto, desta vez no canal do rio Aa, à sudeste de Dunquerque. A tropa de Kleist terminou a campanha alguns dias depois, às portas de Lyon. O general soube, mais tarde, que a ordem tinha partido de Hitler, em pessoa.

Convocado pelo TMI como testemunha (posteriormente, foi julgado e condenado por crimes de guerra cometidos sob sua direção, na Iugoslávia, em seguida entregue aos soviéticos para novo julgamento), seu depoimento é um dos mais interessantes dentre os que aparecem no livro de Goldensohn. Sobre a surpreendente ordem de alto no canal do Aa, diz Kleist que…

“… os ingleses conseguiram escapar da armadilha em Dunquerque, tão cuidadosamente armada por mim, apenas com a ajuda pessoal de Hitler. Havia um canal de Arras a Dunqurque e eu já havia atravessado esse canal, e minhas tropas ocupavam que se projetavam sobre Flandres. Portanto, meu grupo de blindados tinham o controle de Dunquerque e da área onde os britânicos estavam imobilizados. O fato é que os ingleses não teriam conseguido chegar em Dunquerque porque estavam sob a minha mira. Aí Hitler ordenou pessoalmente que eu retirasse minhas tropas daquelas colinas.”

Essa situação tem muitas interpretações. Inúmeros historiadores costumam a dizer que talvez Hitler pretendesse dar um refresco aos britânicos, para que estes pudessem decidir o que fazer. Até então a intuição política de Hitler tinha funcionado bem, e ele possivelmente imaginava que os britânicos iriam acabar resolvendo negociar. Em uma excelente síntese publicada na Inglaterra em 1990 e no Brasil em 1993, o historiador canadense Martin Kitchen parece ter dúvidas exatamente nessa direção:

“Os motivos de Hitler continuam a ser uma espécie de mistério. Rundestedt afirmou … que Hitler permitiu deliberadamente que os britânicos escapassem, na esperança de chegar a um acordo político. No dia 17 de maio ele comunicara … sua intenção de dividir o mundo com os britânicos. … os britânicos tinham de … aceitar a dominação germânica no continente europeu e poderiam conservar a supremacia naval e o Império. No dia 21 de maio, Halder foi informado de que o governo alemão tinha esperança de chegar a um acordo com a Grã-Bretanha sobre a divisão do mundo. … no dia 2 de junho, Hitler declarou … que tinha confiança em que a Grã-Bretanha aceitaria uma ´paz razoável´, que o deixaria livre para dar prosseguimento à sua ‘missão realmente grande’ de esmagar a União Soviética. O Império Britânico, insistira, tinha um papel vital a desempenhar, em nome da raça branca.”

O historiador britânico Ian Kershaw pensa diferente. Falando sobre o incidente, no livro “1940-1941 – Dez decisões que mudaram o mundo“, ele coloca diretamente sua discordância:

“Quando Hitler visitou o quartel-general de seu comandante ocidental, coronel-general Gerd von Rundestedt, na manhã de 24 de maio, os panzers já estavam menos de 24 quilômetros ao sul de Dunquerque. Depois de avaliar a situação militar com Rundestedt, Hitler deu a ordem para o avanço ser interrompido naquele ponto e não prosseguir até Dunquerque. A decisão logo veio a ser vista como uma oportunidade crucial perdida de acabar com as forças derrotadas do Exército britânico. Tentando justificar um grande erro militar, Hitler posteriormente sugeriu que não quisera destruir o Exército britânico, a espinha dorsal do Império. Isso não passou de uma racionalização para salvar as aparências. Na verdade, ele estava apenas seguindo a recomendação militar de seu comandante de campo, Rundestedt, que quisera preservar suas unidades motorizadas para a investida final para o sul, para concluir a campanha. Longe de querer preservar o Exército britânico, Hitler foi levado por Göring, comandante-em-chefe da Aeronáutica alemã, a acreditar que a Luftwaffe acabaria com tudo.”

É provável que ambos os historiadores estejam corretos (Kitchen não descarta a hipótese do erro militar), mas o depoimento de von Kleist aponta para a análise de Kershaw:

“Hitler achou que era arriscado demais. Eram absurdas as ordens dele naquela época. Poderíamos ter aprisionado ou exterminado totalmente o exército britânico, não fosse a ordem estúpida de Hitler. A prova é que, três dias depois, os ingleses ocuparam as colinas, e fui obrigado a atacá-los de novo para tirá-los de lá. O grosso das tropas inglesas, porém, já havia atingido Dunquerque e estava fugindo em pequenos barcos. O triste disso é que eu poderia ter capturado o exército britânico, ou uma parte tão grande, que uma invasão da Inglaterra teria sido uma questão simples.”

Um outra questão, entretanto, são as divergências que haviam dentro do próprio exército alemão, entre os generais “de blindados” e os tradicionais – estes no comando. Rundestedt fazia parte da ala tradicional, que via limites nas possibilidades das forças motorizadas. Aristocrata prussiano, no exército desde 1892, oficial de estado-maior desde 1907, general-de-brigada em 1932, general-de-exército em 1938, Rudestedt expressava as mais arraigadas tradições da infantaria prussiana. De fato, emanava dele a preocupação com a distensão aparentemente excessiva dos blindados. Rudestedt era um infante que buscava a modernização da infantaria, tanto que, em 1934, juntou-se a um projeto que introduzia caminhões como transportes de tropas, ao invés das tradicionais carroças; também se interessou pelo uso de tanques como “artilharia móvel” nas divisões de infantaria. O general advogava a coordenação entre blindados e forças de infantaria, ainda que da forma tradicional. Mas, em geral, os analistas acham que ele, de fato, não acreditava nos blindados. Convocado da reserva para o serviço ativo, em 1939, durante a Campanha do Ocidente foi designado comandante do Grupo de Exércitos A. O Sichelschnitt (“Golpe de foice”), desbordamento através das Ardenas, idéia de Manstein, foi entusiasticamente advogado pelo velho comandante. Entretanto, também foi o militar que esteve no meio da “crise de Arras”.

Foi um momento de pânico no alto-comando, cuja origem esteve na facilidade, não prevista, do avanço das forças motorizadas através da França e da Bélgica. Quando, em 21 de maio, um contra-ataque britânico mostrou-se surpreendentemente bem sucedido, e quase resultou numa derrota da 7ª Divisão Blindada, a “Divisão Fantasma” de Rommel, na área de Arras, alguns comandantes alemães parecem ter perdido a calma. O comandante do 4° Exército suspendeu todos os movimentos das forças motorizadasaté que a situação fosse controlada, e o resultado é que o rápido avanço do Grupo Blindado Kleist foi também desacelerado. Rundstedt, reunido com Hitler, mostrou-se muito preocupado com a falta de coordenação entre tropas motorizadas e infantaria, que poderia deixar os blindados descobertos.  Em 23 de maio, ele sugeriu que as formações blindadas fossem detidas. Hitler mostrou-se favorável à medida, e desautorizou as ordens em contrário emitidas pelo OKH. A diminuição de velocidade transformou-se numa ordem de alto, que durou até 27 de maio. Foi nesse período que as tropas da Força Expedicionária Britânica escaparam através do Canal. Essa prudência excessiva seria apenas a expressão da personalidade de um comandante pouco afeito a assumir riscos. Sempre tinha sido assim, desde a execução do plano de Manstein. Segundo o historiador militar Earl F. Ziemke, autor de uma biografia militar de Rundestedt…

“No quartel-general do Grupo de Exércitos A, na tarde do dia 17, Hitler deu pleno apoio a uma avaliação na qual Rundestedt ‘enfatizava a situação delicada do flanco sul’, e acreditava que nada era mais importante para toda a operação do que uma prontidão defensiva, absolutamente segura no Aisne e no Somme. … preocupava-se com a possibilidade de seu flanco esquerdo ficar exposto com a travessia do Meuse que, esperava, estivesse fortemente defendido. Guderian ficou desolado ao descobrir que Rundestedt acreditava que divisões panzers e motorizadas não poderiam cruzar rios sem ajuda da infantaria.”

Von Brauchitsch e Halder discordaram, e tomaram a decisão – correta – de ordenar que o ataque prosseguisse, ainda que sem consultar Hitler. Esses dois também não confiavam totalmente nos tanques, mas acreditavam no que estavam vendo – o enorme sucesso do novo estilo de guerra. Segundo o historiador Andrew Roberts, no excelente “Hitler e Churchill: segredos da liderança”caso Rundestedt pudesse ter decidido, ainda assim seguiria as diretrizes de Hitler, que, durante toda a campanha do Ocidente, mostrou-se hesitante. Para ele, a blitzkrieg teria sido mais krieg e menos blitz. Em meio a essas hesitações que a Inglaterra pôde salvar-se, naquele momento.::

causa::agora tem uma revista eletrônica::

É exatamente isso: o redator:: , depois de anos procurando, pesquisando, indo e voltando, acaba de de publicar a versão “revista eletrônica”. O recurso utilizado foi o amigável e eficiente scribd. (http://scribd.com/). A revista é um desenvolvimento do blogue, que, como poucos sabem, é  publicado desde 2007, com certa regularidade. Não se assustem os fãs de causa:: (os já famosos oito ou nove leitores): o recursos de pesquisa menos alentado da Grande Rede continuará existindo, pois o redator diverte-se à larga com ele. Entretanto, posts que já estejam “antigos” (quem consulta busca basicamente a homepage) serão revisados, reformatados e publicados na versão eletrônica – continuaram também aqui. O redator:: sabe que causa é um recurso especializado pra caramba, e só agrada a quem se interessa por esse tipo de coisa. Entretanto, gostaria muito de contar com a ajuda de todos os leitores, para divulgação. Afinal, todo mundo tem um ou outro parente, amigo ou vizinho que “gosta de guerra” (o redator:: acreditem ou não, detesta).
O formato dos arquivos é PDF, de modo que podem ser baixados sem problemas. Como está escrito na capa da revista, tudo é redigido pelo próprio:: (que espera, eventualmente, ter colaboradores… alguém se habilita?..), então, é aberto, livre de copyright e pode ser usado a vontade – não precisa nem mesmo citar autor e fonte (embora causa:: agradeça penhoradamente a quem o fizer). Os que conhecem um pouco o redator:: sabem que ele não acredita em nenhuma forma de conhecimento fechada. Nem mesmo conhecimento inútil…  
 
O primeiro número da versão eletrônica de causa:: pode ser encontrado em http://www.scribd.com/doc/32475104/causapub-01

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

parte2/2Mas havia um problema: a doutrina que estava sendo estudada para as nova “tropas blindadas” (em alemão, Panzertrüppen) implicava em maior poder de fogo individual. As unidades a serem empregadas (regimentos e batalhões) em combate seriam necessariamente menores do que as das forças convencionais, em função da disponibilidade de veículos motorizados em cada grande unidade (divisão). Os planejadores esperavam que as frações (companhias, pelotões e esquadras), transportadas em veículos protegidos especiais ou em caminhões convencionais, pudessem compensar a diminuição dos efetivos combinando velocidade e poder de fogo. As frações de “infantaria blindada” (panzergrenadieren, em alemão) deveriam ser lançadas diretamente nos setores de combate a partir dos transportes motorizados que seguiriam os “carros blindados” (panzerwagen, em alemão),o que tornava o potente cartucho convencional (o IS 7.92) dispensável, já que o tiro não seria disparado de grande distância. Melhor seria uma arma com grande cadência de fogo – e que o combatente pudesse transportar maior quantidade de munição preparada. A submetralhadora pareceu a solução ideal, simplesmente por existir. 

As experiências com armas pesadas especiais (os tanques), tropas blindadas, motorizadas e mesmo pára-quedistas remontavam ao final dos anos 1920 e início dos 1930. Os oficiais que conceituaram essas tropas eram todos de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis), ou seja, não mandavam nada, e o Estado-maior geral desprezava armas automáticas e veículos motorizados. A subida dos nazistas ao poder mudou o panorama. Hitler interessou-se por um manual que apresentava a teoria do assunto, e tornou-se uma espécie de advogado das forças blindadas.

Foi nessa época (1934) que as forças blindadas começaram a “pegar”, em função de exercícios teóricos e simulações de campo bem-sucedidos. Ainda assim, o apego dos generais aos conceitos tradicionais persistiu: mesmo com o sucesso das novas experiências, a doutrina alemã não chegou a mudar. O tiro individual a longa distância continuou a ser enfatizado. Vários infantes disparando ao mesmo tempo, apoiados por uma ou mais metralhadoras, criariam o peso de fogo necessário para superar o adversário.

Assim, podemos dizer que o Exército Alemão de 1939 dispunha de duas categorias de tropas bem diferenciadas: as forças blindadas e o resto do exército. As primeiras, compostas por dez divisões blindadas, sete divisões de infantaria motorizada e três divisões “ligeiras” (divisões blindadas com um efetivo menor de tanques e veículos motorizados), representavam apenas sete por cento do efetivo total – no início da guerra, uns 130.000 militares (o Exército todo montava pouco mais de 1.800.000 efetivos, nessa época). Mas era “outro exército”, com a introdução dos blindados sobre lagartas, transportes de tropas e apoio logístico motorizado, comunicações por rádio e aplicação de interdição e apoio aéreo aproximado. Essas tropas receberam uma quantidade maior de submetralhadoras: uma em cada quatro armas. A outras três continuaram a ser os fuzis de repetição convencionais. No exército “comum”, menos de dez por cento da dotação total de armas de infantaria era composta por submetralhadoras.

Esse “exército comum” era formado basicamente de divisões de infantaria do tipo clássico. Eram transportadas para a frente em trens, deslocavam-se a pé na última parte do trajeto ou, quando necessário, em veículos tirados a cavalo. Nessas unidades, o armamento continuou a ser o convencional, com a diferença de que a esquadra de combate passou a ser equipada com uma metralhadora ligeira fazendo o papel de fuzil-metralhador (a partir de 1934, a excelente MG34 passou a ser distribuída em grandes números). 

Pouco antes da guerra, as possibilidades das forças blindadas foram confirmadas na prática, em 12 de março de 1938, no rápido deslocamento para a ocupação da Áustria. Por volta dessa época, chegou a ser discutida a distribuição de submetralhadoras para todo o exército, em função de informações sobre o exército russo. Mas os métodos de atuação continuaram virtualmente os mesmos da guerra anterior, apesar de algumas modificações introduzidas em função da distribuição de metralhadoras ligeiras. Aí também interferiu a questão econômica. No início dos anos 1930, os estoques de carabinas KAR98K, herdadas da 1ª GM ainda eram enormes. Na confusão do pós-guerra anterior, quando a Alemanha não foi propriamente desarmada, depósitos militares tinham sido preservados pelas tropas francas que proliferaram pelo país. Em 1935, com a retomada da conscrição universal, o aumento repentino do tamanho do exército exigiu grande quantidade de equipamento individual. As armas herdadas da Grande Guerra foram distribuídas às tropas, e as fábricas continuaram a produzi-las utilizando tecnologia, gabaritos e ferramental já disponíveis. Muitos dos industriais e engenheiros alegavam que não haveria tempo para desenhar e colocar em produção uma nova arma-padrão. Estudos de um fuzil semi-automático foram postergados.

E o Exército não dispunha nem mesmo de grande quantidade de submetralhadoras. Essa arma tinha tido sua fabricação, em calibres superiores a 7.65, proibida pelo Tratado de Versalhes. O resultado é que uma variedade de tipos teve que ser adquirida para as tropas especializadas que necessitavam delas: Bergmans e Ermas do tipo das forças policiais foram encomendadas. Ainda assim, Departamento de Armamento do Exército (em alemão, Heeres Waffenamt- HWA), reestruturação do Departamento Nacional de Armamento (em alemão, Reichsswaffen Amt) resolveu que um novo modelo era necessário e lançou a requisição. A companhia Erfurter Maschinenfabrik (ERMA), fábrica de máquinas estabelecida em 1922, foi escolhida em 1936 para desenhar a nova arma. O resultado foi a Maschinepistole Modell 1936 – ou, simplesmente, MP36.

Essa arma, considerada pelos especialistas como um modelo de teste de conceito, era projeto do engenheiro Heinrich Vollmer, que, em 1925, apresentou para testes a Vollmer Maschinenpistole VMP 1925. Com o receptor colocado abaixo da caixa de culatra e o carregador em posição vertical, a VMP 1925 disparava apenas em modo automático, não tinha chave de segurança e sua alça de mira contava apenas três posições: branco, cem e duzentos metros. Embora a arma tenha sido reprovada nos testes, o IWG (Inspektion für Waffen und Gerät, Inspetoria para Armamentos e Equipamento, seção do RWA) resolveu apoiar o desenvolvimento do protótipo. 

Em 1926 Vollmer modificou o carregador de seu projeto, adotando um desenho de 30 cargas escalonadas, tipo caixa, que foi considerado muito fácil de usar. O receptor voltou à posição lateral, do lado esquerdo da caixa de culatra.  A nova versão foi designada VMP 1928 e Vollmer continuou trabalhando em seu desenvolvimento. Em 1930, uma nova versão foi apresentada, a VMP 1930.

Essa versão era externamente muito similar ao modelo anterior. A principal modificação era interna: um tubo telescópico que continha a mola recuperadora e a mantinha permanentemente ligada ao ferrolho. Essa peça aumentou a confiabilidade da arma, além de ter tornado mais fácil a desmontagem em campo, por diminuir o número de peças que a compunham, reduzidas a apenas quatro: cano e receptor, ferrolho e mola recuperadora, caixa de culatra e coronha. Foram fabricadas umas 400 VMP 1930 até que o IWG cortou o financiamento de Vollmer. Embora o Exército tenha alegado problemas técnicos não satisfatoriamente resolvidos (mais exatamente, uma cadência de fogo excessivamente alta), é mais provável que tenha sido mesmo a recessão de 1929, que, em 1930, atingiu duramente a Alemanha.

Vollmer não conseguiu recursos para fabricar a arma e acabou vendendo a patente para a ERMA em 1931. O projeto, ligeiramente modificado, virou a EMP (ERMA Maschinepistole), nos calibres 7.65X22 mm Luger, 7.63X25 Mauser e 9X19 mm Parabellum, e se tornou um sucesso de vendas. Tirante as inovações mecânicas, as EMP não eram diferentes das outras armas do tipo: o sistema era o recuo direto a partir da culatra aberta, o tiro era seletivo e a ergonomia, ainda a de fuzil. Em 1936, com a requisição do Exército, a ERMA apresentou uma  versão da EMP, redenhada pelo próprio Vollmer. A principal novidade foi uma mudança radical da ergonomia. O desenho da coronha de fuzil foi mudado para empunhadura de madeira dotada de um punho de pistola na extremidade. A coronha fixa foi substituída por uma peça feita em arame de aço, que podia ser rebatida em 180 graus, para baixo da caixa de culatra, sendo que a placa de apoio girava até ficar totalmente alojada atrás do receptor. Mesmo com muitas peças, como a caixa de culatra e o receptor, fabricadas em metal usinado, era um pouco mais leve do que suas antecessoras, devido ao redesenho.

O surgimento desse desenho pode ser creditado aos estudos dos planejadores das tropas motorizadas e dos pára-quedistas (fällschrimjägern),  e de requisições feitas diretamente ao HWA. Parece claro que o objetivo inicial com essa nova submetralhadora era dotar as novas tropas de uma arma adequada à doutrina. O Exército “comum” nunca mostrou interesse por armas longas automáticas, como já vimos. O novo desenho foi ainda pior recebido, pois a doutrina da infantaria convencional colocava que uma forte coronha de madeira era necessária não apenas em função do tiro, mas também, porque, em situação de combate próximo, essa poderia ser usada como porrete. Uma submetralhadora “de infantaria” teria, pois, de ter coronha convencional. O impasse só foi resolvido por Hitler, em pessoa. Ainda assim, o Exército não chegou a testar a arma, e poucos exemplares (calcula-se que não mais de 500 unidades) foram fabricados.  

Em 1938, o Departamento de Armamento do Exército lançou nova requisição para submetralhadora. A ERMA apresentou uma nova versão da MP36, com alguns detalhes redesenhados. A empunhadura passou a ser de baquelite (um tipo de resina sintética), o seletor de fogo foi eliminado e as peças de metal usinado foram simplificadas, o que resultou na mudança da posição do receptor – na MP36, este era ligeiramente inclinado para a frente. Em agosto de 1938, a arma foi aprovada e começou a ser distribuída quase imediatamente. Recebeu a notação *MP38. Com a coronha rebatida, media 63 centímetros de comprimento, sendo que 25,1 centímetros correspondiam ao cano; com a  coronha em posição, o comprimento total aumentava para 83 centímetros. O peso era de pouco mais de 4100 gramas. A cadência de fogo subia a 450-500 salvas por minuto, com uma velocidade de saída do projétil de aproximadamente 380 m/s. Isso tornava o alcance útil não maior do que 200 metros. A baixa cadência de fogo possibilitava uma precisão um pouco maior do que de modelos como a M1928 norte-americana (a Thompson), com cadência de 600 salvas – a MP38 sequer tinha compensador de boca. Também não possuía seletor de tiro, sendo somente possível disparar em rajadas. Essas características tornaram as miras graduáveis usadas até então totalmente inúteis, e essas foram substituida por um sistema de placas rebatíveis com uma fenda no centro, reguladas para distâncias de 100 e 200 metros, articuladas a um visor tipo *grão de centeio. A arma podia ser transportada pelo usuário em diversas posições, conforme as necessidades das forças motorizadas e aeroterrestres: tinha características estudadas para facilitar o uso em veículos motorizados, principalmente os transportes blindados meia-lagarta SdKfz 250/51, dotados de escotilhas laterais que permitiam o tiro em movimento. Abaixo do cano, logo atrás da boca, um ressalto foi projetado para manter o cano em posição, impedindo a arma de, quando utilizada por soldados embarcados, atirar para dentro da cabine do veículo.

Durante a campanha da Polônia, uma série de problemas da MP38 foram apontados. O pior era a tendência a disparar sem intervenção do atirador. Com um tranco relativamente fraco, mesmo se a alavanca de armar se encontrasse em posição de segurança, o ferrolho saltava da posição (um corte na parte superior traseira da caixa de culatra) e ia violentamente para a frente, fazendo o disparo. Esse problema foi corrigido com o redesenho da mola recuperadora (cuja tensão foi reduzida) e do percussor, mas principalmente com um novo dispositivo de segurança. Na MP38 (aqui, uma vista em corte da arma e de suas principais peças, que eram desmontadas em campo – “1° escalão de manutenção”) a alavanca de armar era fixa; na nova versão, passou a ser trancada pelo atirador na posição de segurança: na posição “culatra aberta” (o bloco de culatra puxado para trás), a alavanca era fixada no ressalto de segurança e rebatida para cima. Tinha de ser destrancada antes de ser colocada em posição “armada” (puxado o bloco totalmente para trás). A versão de transição, chamada de MP38/40, distribuída em 1940, recebeu esse dispositivo. Outro defeito era a mola do carregador. Feita em metal barato, rapidamente perdia a elasticidade, e fazia a arma travar, quando as 32 cargas eram colocadas lá. Os soldados contornavam o problema colocando apenas 30 ou 31 cartuchos (na *foto, granadeiro blindado com uma MP38 da versão original. Note que, para evitar disparo acidental, o soldado retirou o carregador da arma).

Mas o principal problema não era de operação: a fabricação era difícil e, sobretudo, muito cara. As peças usinadas eram difíceis de produzir e tornavam o tempo de fabricação e a razão homens/hora bastante altos. No início de 1940, visando a distribuição massiva, o Exército ordenou modificações no projeto e nos métodos de produção. Por volta dos meados daquele ano, uma nova arma começou a ser distribuída, externamente semelhante, porém menos dispendiosa e complexa de fabricar do que a anterior. Essa versão, considerada intermédia (MP38/40), serviu de base para a produção da versão definitiva, a *MP40.

A MP40 passou a usar largamente a estamparia em aço laminado de baixo nível de carbono, que permitia o uso de solda elétrica por pontos; muito pouco aço de liga de alta qualidade aparece em suas especificações, nas poucas peças usinadas que foram mantidas. A caixa de culatra e o receptor foram as principais peças modificadas, sendo que esta última passou a ser feita através do esticamento e recorte de uma folha de aço-carbono de 1,5 mm de espessura. Essas novas características permitiam que as peças pudessem ser fabricadas em pequenas metalúrgicas usando o método de prensagem. Este sistema permitiu a fabricação da arma em diferentes locais, por equipes menores de operários.

O desenho básico da MP40 não viria a sofrer modificações durante o resto da guerra. É hoje reconhecida pelos historiadores como a origem da segunda geração de submetralhadoras, e abriu uma tendência amplamente seguida mesmo pelos adversários.

A MP40 era, em geral, superior às armas semelhantes, como a Sten britânica e a PPSh41 soviética, embora esta tivesse como vantagem o carregador tipo “tambor”, de 71 cargas. O peso menor do cartucho 7.62 tornava possível a maior carga de munição. Tentando compensar essa desvantagem, em 1943 um carregador duplo foi apresentado pela fábrica austríaca Steyr, mas era canhestro e não chegou a aprovar. O fato é que, depois de 1941, as enormes quantidades de PPSh capturadas tornaram essa arma popular entre os soldados da Wehrmacht, que tendiam a utilizar as submetralhadoras soviéticas, embora essas não apresentassem nenhuma qualidade intrinsicamente superior à arma alemã.

Mais de um milhão de MP40 foram fabricadas durante a guerra, o que perfaz quase a metade dos dois milhões de submetralhadoras fabricadas pela Alemanha. Ainda assim, a distribuição nunca chegou a alcançar sequer o nível de um em cada dez efetivos. Geralmente a arma era distribuída a líderes de pelotão e graduados. Em algumas unidades motorizadas de elite, como as 1ª, 2ª e 3ª divisões blindadas Waffen SS (“SS Armadas”, uma espécie de SS militarizada, totalmente separada da estrutura da SS Geral), Panzer Lehr e Gross Deutschland, a quantidade de armas automáticas era substancialmente maior, mesmo assim sem alcançar todo o efetivo. 

Um dado curioso é o fato de que ingleses e norte-americanos se referiam à ERMA como “Schmeisser”, embora os irmãos engenheiros, projetistas de diversas armas usadas pela Wehrmacht nunca tenham estado envolvidos com o projeto ou suas adaptações. É possível que o equívoco se devesse ao fato de que algumas das primeiras MP38 de série tenham sido produzidos na Haenel, fábrica da qual Schmeisser era projetista chefe. Lá ele participou ativamente dos projetos da MP41 (uma submetralhadora que visava equipar tropas de infantaria) e do StuG44. O fato é que a origem dessa confusão, observada principalmente entre os norte-americanos, nunca chegou a ser esclarecida. Em diversas ocasiões, depoimentos de prisioneiros alemães mostravam que estes frequentemente se espantavam com a insistência, até mesmo dos oficiais dos EUA, em usar a nomenclatura errada::