Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::


parte2/2Mas havia um problema: a doutrina que estava sendo estudada para as nova “tropas blindadas” (em alemão, Panzertrüppen) implicava em maior poder de fogo individual. As unidades a serem empregadas (regimentos e batalhões) em combate seriam necessariamente menores do que as das forças convencionais, em função da disponibilidade de veículos motorizados em cada grande unidade (divisão). Os planejadores esperavam que as frações (companhias, pelotões e esquadras), transportadas em veículos protegidos especiais ou em caminhões convencionais, pudessem compensar a diminuição dos efetivos combinando velocidade e poder de fogo. As frações de “infantaria blindada” (panzergrenadieren, em alemão) deveriam ser lançadas diretamente nos setores de combate a partir dos transportes motorizados que seguiriam os “carros blindados” (panzerwagen, em alemão),o que tornava o potente cartucho convencional (o IS 7.92) dispensável, já que o tiro não seria disparado de grande distância. Melhor seria uma arma com grande cadência de fogo – e que o combatente pudesse transportar maior quantidade de munição preparada. A submetralhadora pareceu a solução ideal, simplesmente por existir. 

As experiências com armas pesadas especiais (os tanques), tropas blindadas, motorizadas e mesmo pára-quedistas remontavam ao final dos anos 1920 e início dos 1930. Os oficiais que conceituaram essas tropas eram todos de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis), ou seja, não mandavam nada, e o Estado-maior geral desprezava armas automáticas e veículos motorizados. A subida dos nazistas ao poder mudou o panorama. Hitler interessou-se por um manual que apresentava a teoria do assunto, e tornou-se uma espécie de advogado das forças blindadas.

Foi nessa época (1934) que as forças blindadas começaram a “pegar”, em função de exercícios teóricos e simulações de campo bem-sucedidos. Ainda assim, o apego dos generais aos conceitos tradicionais persistiu: mesmo com o sucesso das novas experiências, a doutrina alemã não chegou a mudar. O tiro individual a longa distância continuou a ser enfatizado. Vários infantes disparando ao mesmo tempo, apoiados por uma ou mais metralhadoras, criariam o peso de fogo necessário para superar o adversário.

Assim, podemos dizer que o Exército Alemão de 1939 dispunha de duas categorias de tropas bem diferenciadas: as forças blindadas e o resto do exército. As primeiras, compostas por dez divisões blindadas, sete divisões de infantaria motorizada e três divisões “ligeiras” (divisões blindadas com um efetivo menor de tanques e veículos motorizados), representavam apenas sete por cento do efetivo total – no início da guerra, uns 130.000 militares (o Exército todo montava pouco mais de 1.800.000 efetivos, nessa época). Mas era “outro exército”, com a introdução dos blindados sobre lagartas, transportes de tropas e apoio logístico motorizado, comunicações por rádio e aplicação de interdição e apoio aéreo aproximado. Essas tropas receberam uma quantidade maior de submetralhadoras: uma em cada quatro armas. A outras três continuaram a ser os fuzis de repetição convencionais. No exército “comum”, menos de dez por cento da dotação total de armas de infantaria era composta por submetralhadoras.

Esse “exército comum” era formado basicamente de divisões de infantaria do tipo clássico. Eram transportadas para a frente em trens, deslocavam-se a pé na última parte do trajeto ou, quando necessário, em veículos tirados a cavalo. Nessas unidades, o armamento continuou a ser o convencional, com a diferença de que a esquadra de combate passou a ser equipada com uma metralhadora ligeira fazendo o papel de fuzil-metralhador (a partir de 1934, a excelente MG34 passou a ser distribuída em grandes números). 

Pouco antes da guerra, as possibilidades das forças blindadas foram confirmadas na prática, em 12 de março de 1938, no rápido deslocamento para a ocupação da Áustria. Por volta dessa época, chegou a ser discutida a distribuição de submetralhadoras para todo o exército, em função de informações sobre o exército russo. Mas os métodos de atuação continuaram virtualmente os mesmos da guerra anterior, apesar de algumas modificações introduzidas em função da distribuição de metralhadoras ligeiras. Aí também interferiu a questão econômica. No início dos anos 1930, os estoques de carabinas KAR98K, herdadas da 1ª GM ainda eram enormes. Na confusão do pós-guerra anterior, quando a Alemanha não foi propriamente desarmada, depósitos militares tinham sido preservados pelas tropas francas que proliferaram pelo país. Em 1935, com a retomada da conscrição universal, o aumento repentino do tamanho do exército exigiu grande quantidade de equipamento individual. As armas herdadas da Grande Guerra foram distribuídas às tropas, e as fábricas continuaram a produzi-las utilizando tecnologia, gabaritos e ferramental já disponíveis. Muitos dos industriais e engenheiros alegavam que não haveria tempo para desenhar e colocar em produção uma nova arma-padrão. Estudos de um fuzil semi-automático foram postergados.

E o Exército não dispunha nem mesmo de grande quantidade de submetralhadoras. Essa arma tinha tido sua fabricação, em calibres superiores a 7.65, proibida pelo Tratado de Versalhes. O resultado é que uma variedade de tipos teve que ser adquirida para as tropas especializadas que necessitavam delas: Bergmans e Ermas do tipo das forças policiais foram encomendadas. Ainda assim, Departamento de Armamento do Exército (em alemão, Heeres Waffenamt- HWA), reestruturação do Departamento Nacional de Armamento (em alemão, Reichsswaffen Amt) resolveu que um novo modelo era necessário e lançou a requisição. A companhia Erfurter Maschinenfabrik (ERMA), fábrica de máquinas estabelecida em 1922, foi escolhida em 1936 para desenhar a nova arma. O resultado foi a Maschinepistole Modell 1936 – ou, simplesmente, MP36.

Essa arma, considerada pelos especialistas como um modelo de teste de conceito, era projeto do engenheiro Heinrich Vollmer, que, em 1925, apresentou para testes a Vollmer Maschinenpistole VMP 1925. Com o receptor colocado abaixo da caixa de culatra e o carregador em posição vertical, a VMP 1925 disparava apenas em modo automático, não tinha chave de segurança e sua alça de mira contava apenas três posições: branco, cem e duzentos metros. Embora a arma tenha sido reprovada nos testes, o IWG (Inspektion für Waffen und Gerät, Inspetoria para Armamentos e Equipamento, seção do RWA) resolveu apoiar o desenvolvimento do protótipo. 

Em 1926 Vollmer modificou o carregador de seu projeto, adotando um desenho de 30 cargas escalonadas, tipo caixa, que foi considerado muito fácil de usar. O receptor voltou à posição lateral, do lado esquerdo da caixa de culatra.  A nova versão foi designada VMP 1928 e Vollmer continuou trabalhando em seu desenvolvimento. Em 1930, uma nova versão foi apresentada, a VMP 1930.

Essa versão era externamente muito similar ao modelo anterior. A principal modificação era interna: um tubo telescópico que continha a mola recuperadora e a mantinha permanentemente ligada ao ferrolho. Essa peça aumentou a confiabilidade da arma, além de ter tornado mais fácil a desmontagem em campo, por diminuir o número de peças que a compunham, reduzidas a apenas quatro: cano e receptor, ferrolho e mola recuperadora, caixa de culatra e coronha. Foram fabricadas umas 400 VMP 1930 até que o IWG cortou o financiamento de Vollmer. Embora o Exército tenha alegado problemas técnicos não satisfatoriamente resolvidos (mais exatamente, uma cadência de fogo excessivamente alta), é mais provável que tenha sido mesmo a recessão de 1929, que, em 1930, atingiu duramente a Alemanha.

Vollmer não conseguiu recursos para fabricar a arma e acabou vendendo a patente para a ERMA em 1931. O projeto, ligeiramente modificado, virou a EMP (ERMA Maschinepistole), nos calibres 7.65X22 mm Luger, 7.63X25 Mauser e 9X19 mm Parabellum, e se tornou um sucesso de vendas. Tirante as inovações mecânicas, as EMP não eram diferentes das outras armas do tipo: o sistema era o recuo direto a partir da culatra aberta, o tiro era seletivo e a ergonomia, ainda a de fuzil. Em 1936, com a requisição do Exército, a ERMA apresentou uma  versão da EMP, redenhada pelo próprio Vollmer. A principal novidade foi uma mudança radical da ergonomia. O desenho da coronha de fuzil foi mudado para empunhadura de madeira dotada de um punho de pistola na extremidade. A coronha fixa foi substituída por uma peça feita em arame de aço, que podia ser rebatida em 180 graus, para baixo da caixa de culatra, sendo que a placa de apoio girava até ficar totalmente alojada atrás do receptor. Mesmo com muitas peças, como a caixa de culatra e o receptor, fabricadas em metal usinado, era um pouco mais leve do que suas antecessoras, devido ao redesenho.

O surgimento desse desenho pode ser creditado aos estudos dos planejadores das tropas motorizadas e dos pára-quedistas (fällschrimjägern),  e de requisições feitas diretamente ao HWA. Parece claro que o objetivo inicial com essa nova submetralhadora era dotar as novas tropas de uma arma adequada à doutrina. O Exército “comum” nunca mostrou interesse por armas longas automáticas, como já vimos. O novo desenho foi ainda pior recebido, pois a doutrina da infantaria convencional colocava que uma forte coronha de madeira era necessária não apenas em função do tiro, mas também, porque, em situação de combate próximo, essa poderia ser usada como porrete. Uma submetralhadora “de infantaria” teria, pois, de ter coronha convencional. O impasse só foi resolvido por Hitler, em pessoa. Ainda assim, o Exército não chegou a testar a arma, e poucos exemplares (calcula-se que não mais de 500 unidades) foram fabricados.  

Em 1938, o Departamento de Armamento do Exército lançou nova requisição para submetralhadora. A ERMA apresentou uma nova versão da MP36, com alguns detalhes redesenhados. A empunhadura passou a ser de baquelite (um tipo de resina sintética), o seletor de fogo foi eliminado e as peças de metal usinado foram simplificadas, o que resultou na mudança da posição do receptor – na MP36, este era ligeiramente inclinado para a frente. Em agosto de 1938, a arma foi aprovada e começou a ser distribuída quase imediatamente. Recebeu a notação *MP38. Com a coronha rebatida, media 63 centímetros de comprimento, sendo que 25,1 centímetros correspondiam ao cano; com a  coronha em posição, o comprimento total aumentava para 83 centímetros. O peso era de pouco mais de 4100 gramas. A cadência de fogo subia a 450-500 salvas por minuto, com uma velocidade de saída do projétil de aproximadamente 380 m/s. Isso tornava o alcance útil não maior do que 200 metros. A baixa cadência de fogo possibilitava uma precisão um pouco maior do que de modelos como a M1928 norte-americana (a Thompson), com cadência de 600 salvas – a MP38 sequer tinha compensador de boca. Também não possuía seletor de tiro, sendo somente possível disparar em rajadas. Essas características tornaram as miras graduáveis usadas até então totalmente inúteis, e essas foram substituida por um sistema de placas rebatíveis com uma fenda no centro, reguladas para distâncias de 100 e 200 metros, articuladas a um visor tipo *grão de centeio. A arma podia ser transportada pelo usuário em diversas posições, conforme as necessidades das forças motorizadas e aeroterrestres: tinha características estudadas para facilitar o uso em veículos motorizados, principalmente os transportes blindados meia-lagarta SdKfz 250/51, dotados de escotilhas laterais que permitiam o tiro em movimento. Abaixo do cano, logo atrás da boca, um ressalto foi projetado para manter o cano em posição, impedindo a arma de, quando utilizada por soldados embarcados, atirar para dentro da cabine do veículo.

Durante a campanha da Polônia, uma série de problemas da MP38 foram apontados. O pior era a tendência a disparar sem intervenção do atirador. Com um tranco relativamente fraco, mesmo se a alavanca de armar se encontrasse em posição de segurança, o ferrolho saltava da posição (um corte na parte superior traseira da caixa de culatra) e ia violentamente para a frente, fazendo o disparo. Esse problema foi corrigido com o redesenho da mola recuperadora (cuja tensão foi reduzida) e do percussor, mas principalmente com um novo dispositivo de segurança. Na MP38 (aqui, uma vista em corte da arma e de suas principais peças, que eram desmontadas em campo – “1° escalão de manutenção”) a alavanca de armar era fixa; na nova versão, passou a ser trancada pelo atirador na posição de segurança: na posição “culatra aberta” (o bloco de culatra puxado para trás), a alavanca era fixada no ressalto de segurança e rebatida para cima. Tinha de ser destrancada antes de ser colocada em posição “armada” (puxado o bloco totalmente para trás). A versão de transição, chamada de MP38/40, distribuída em 1940, recebeu esse dispositivo. Outro defeito era a mola do carregador. Feita em metal barato, rapidamente perdia a elasticidade, e fazia a arma travar, quando as 32 cargas eram colocadas lá. Os soldados contornavam o problema colocando apenas 30 ou 31 cartuchos (na *foto, granadeiro blindado com uma MP38 da versão original. Note que, para evitar disparo acidental, o soldado retirou o carregador da arma).

Mas o principal problema não era de operação: a fabricação era difícil e, sobretudo, muito cara. As peças usinadas eram difíceis de produzir e tornavam o tempo de fabricação e a razão homens/hora bastante altos. No início de 1940, visando a distribuição massiva, o Exército ordenou modificações no projeto e nos métodos de produção. Por volta dos meados daquele ano, uma nova arma começou a ser distribuída, externamente semelhante, porém menos dispendiosa e complexa de fabricar do que a anterior. Essa versão, considerada intermédia (MP38/40), serviu de base para a produção da versão definitiva, a *MP40.

A MP40 passou a usar largamente a estamparia em aço laminado de baixo nível de carbono, que permitia o uso de solda elétrica por pontos; muito pouco aço de liga de alta qualidade aparece em suas especificações, nas poucas peças usinadas que foram mantidas. A caixa de culatra e o receptor foram as principais peças modificadas, sendo que esta última passou a ser feita através do esticamento e recorte de uma folha de aço-carbono de 1,5 mm de espessura. Essas novas características permitiam que as peças pudessem ser fabricadas em pequenas metalúrgicas usando o método de prensagem. Este sistema permitiu a fabricação da arma em diferentes locais, por equipes menores de operários.

O desenho básico da MP40 não viria a sofrer modificações durante o resto da guerra. É hoje reconhecida pelos historiadores como a origem da segunda geração de submetralhadoras, e abriu uma tendência amplamente seguida mesmo pelos adversários.

A MP40 era, em geral, superior às armas semelhantes, como a Sten britânica e a PPSh41 soviética, embora esta tivesse como vantagem o carregador tipo “tambor”, de 71 cargas. O peso menor do cartucho 7.62 tornava possível a maior carga de munição. Tentando compensar essa desvantagem, em 1943 um carregador duplo foi apresentado pela fábrica austríaca Steyr, mas era canhestro e não chegou a aprovar. O fato é que, depois de 1941, as enormes quantidades de PPSh capturadas tornaram essa arma popular entre os soldados da Wehrmacht, que tendiam a utilizar as submetralhadoras soviéticas, embora essas não apresentassem nenhuma qualidade intrinsicamente superior à arma alemã.

Mais de um milhão de MP40 foram fabricadas durante a guerra, o que perfaz quase a metade dos dois milhões de submetralhadoras fabricadas pela Alemanha. Ainda assim, a distribuição nunca chegou a alcançar sequer o nível de um em cada dez efetivos. Geralmente a arma era distribuída a líderes de pelotão e graduados. Em algumas unidades motorizadas de elite, como as 1ª, 2ª e 3ª divisões blindadas Waffen SS (“SS Armadas”, uma espécie de SS militarizada, totalmente separada da estrutura da SS Geral), Panzer Lehr e Gross Deutschland, a quantidade de armas automáticas era substancialmente maior, mesmo assim sem alcançar todo o efetivo. 

Um dado curioso é o fato de que ingleses e norte-americanos se referiam à ERMA como “Schmeisser”, embora os irmãos engenheiros, projetistas de diversas armas usadas pela Wehrmacht nunca tenham estado envolvidos com o projeto ou suas adaptações. É possível que o equívoco se devesse ao fato de que algumas das primeiras MP38 de série tenham sido produzidos na Haenel, fábrica da qual Schmeisser era projetista chefe. Lá ele participou ativamente dos projetos da MP41 (uma submetralhadora que visava equipar tropas de infantaria) e do StuG44. O fato é que a origem dessa confusão, observada principalmente entre os norte-americanos, nunca chegou a ser esclarecida. Em diversas ocasiões, depoimentos de prisioneiros alemães mostravam que estes frequentemente se espantavam com a insistência, até mesmo dos oficiais dos EUA, em usar a nomenclatura errada::

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