Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::


Tropas britânicas embarcando para evacuação, nos primeiros dias da "Operação Dínamo", Dunquerque (costa norte da França), maio, 1940: avaliação política equivocada ou erro militar crasso?..

Em 2006 caiu nas mãos do redator:: um livro fascinante: “As entrevistas de Nuremberg” (o livro pode ser consultado, com restrições, aqui). Não é preciso explicar a nenhum leitor assíduo ou eventual de causa:: o que foi o Tribunal Militar Internacional. Leitor de causa:: ou não, todo mundo sabe que o TMI, ao longo da ano de 1946, julgou os principais criminosos nazistas. Foram réus do, tribunal, instalado na cidade de Nuremberg, Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Robert Ley, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosemberg, Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Wilhelm Funk, Hjalmar Sclacht, Gustav Krupp, Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur Von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martins Borman, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath e Hans Fritzche. Os vinte e três “grandes criminosos” foram indiciados por diversos crimes, sendo alguns deles responsabilizados por provocarem deliberadamente a Segunda Guerra Mundial (planejar uma guerra de agressão) e ter cometido atrocidades durante as operaações militares para a conquista de territórios estrangeiros (violação das leis e costumes da guerra), oprimindo e matando a população inocente (crimes contra a humanidade). As acusações específicas iam do assassínio político ao extermínio de etnias religiosas, passando por crimes militares, escravização e pilhagem. O Tribunal Militar Internacional não se encerrou no grande processo, mas continuou, em uma série de treze julgamentos realizados entre 1945 e 1949. Nesses processos foram acusados e julgados uma série de funcionários civis e militares, responsabilizados por crimes relacionados aos “grandes crimes”.

Durante o julgamento principal, um médico do Exército dos EUA, major Leon Nathaniel Goldensohn, especializado em psiquiatria, foi designado para monitorar a saúde mental dos acusados.  Seu trabalho era feito com base em entrevistas diárias que abrangiam dezenas de nazistas de primeira linha, entre os levados ao tribunal como réus e outros convocados como testemunhas. O trabalho durou até meados de 1946 e resultou em dentenas de páginas de anotações, que, após ser transferido, Goldenshn conservou em seu poder. O médico morreu  em 1961. Suas notas ficaram esquecidas, até seu irmão as recuperar e editar para publicação, em 2004. O livro foi lançado em nossa língua no ano seguinte.

As entrevistas, em si, não têm nada de surpreendente: todos os acusados tentam se safar, e, em geral, da maneira usual. Nenhum deles foi responsável por nada, tudo tinha sido culpa de Hitler, de Himmler, de Borman (mortos, claro…) ou dos outros envolvidos, presentes ou não. Interessante mesmo é o panorama da Alemanha pré-Hitler que vaza das falas dos entrevistados, assim como a trajetória  dos acusados até o poder – enfim, a visão de mundo daquela gente.

Baseado nas entrevistas de alguns líderes militares, o redator:: resolveu fazer a experiência de analisar uma grande operação da 2ª GM mesclando a fala de homens que tiveram indubitável importância na direção da guerra, e trechos que são esclarecedores sobre esses mesmos temas, recolhidos em outras excelentes publicações disponíveis em português.

Um dos entrevistados que fala de forma mais clara é o general-marechal-de-campo (em alemão, general feldmarshall) Ewald von Kleist. Este cavalariano clássico, que, quase por acaso se viu comandando tanques, teve uma carreira destacada durante a guerra. Na campanha da França, foi designado comandante de um grupo blindado, o “Panzergrüppe Kleist“, formado a partir do 22° Corpo de Exército. O “grupo blindado Kleist” (na 2ª GM, unidades assim designadas tinham a primeira letra do nome do comandante estampadas em todos os veículos) alcançou e cruzou o rio Meuse, nas proximidades de Sedan em 13 de maio, abrindo assim uma brecha em forças francesas muito superiores. Continuou avançando, tendo os especialistas Guderian e Reinhardt como pontas-de-lança, no melhor estilo “guerra-relâmpago”, até as margens do canal Aire-Saint Omer, alcançado três dias depois. Uma vez cumprido esse objetivo, recebeu a surpreendente ordem superior de deter suas forças, que estavam virtualmente intocadas (tinham sofrido 11 por cento de baixas) e dispunham de combustível suficiente. Kleist decidiu ordenar que alguns elementos de vanguarda cruzassem o canal explorando o caminho até a cidade de Hazebrouck, importante entrocamento ferroviário. O Oberkommando des Heeres (OKH, Alto comando do Exército, formado em 1936) entretanto, reforçou a ordem de alto e Kleist teve de retirar os dois regimentos que estavam às portas da cidade. Ao longo dos três dias seguintes, todo o grupo foi mantido em posição. Depois se descobriu que o alto-comando do Exército tinha desconfiado de uma armadilha, dada a facilidade com que os blindados estavam avançando por toda a França. Durante a segunda fase da campanha, Kleist recebeu o controle da 16ª Divisão Blindada e do 14° Corpo Motorizado. Seu grupo de combate atacou a partir de Amiens e conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio Oiser. Dali até o porto de Dunquerque seria um pulo. Entretanto, em 24 de maio, Kleist novamente recebeu ordens de alto, desta vez no canal do rio Aa, à sudeste de Dunquerque. A tropa de Kleist terminou a campanha alguns dias depois, às portas de Lyon. O general soube, mais tarde, que a ordem tinha partido de Hitler, em pessoa.

Convocado pelo TMI como testemunha (posteriormente, foi julgado e condenado por crimes de guerra cometidos sob sua direção, na Iugoslávia, em seguida entregue aos soviéticos para novo julgamento), seu depoimento é um dos mais interessantes dentre os que aparecem no livro de Goldensohn. Sobre a surpreendente ordem de alto no canal do Aa, diz Kleist que…

“… os ingleses conseguiram escapar da armadilha em Dunquerque, tão cuidadosamente armada por mim, apenas com a ajuda pessoal de Hitler. Havia um canal de Arras a Dunqurque e eu já havia atravessado esse canal, e minhas tropas ocupavam que se projetavam sobre Flandres. Portanto, meu grupo de blindados tinham o controle de Dunquerque e da área onde os britânicos estavam imobilizados. O fato é que os ingleses não teriam conseguido chegar em Dunquerque porque estavam sob a minha mira. Aí Hitler ordenou pessoalmente que eu retirasse minhas tropas daquelas colinas.”

Essa situação tem muitas interpretações. Inúmeros historiadores costumam a dizer que talvez Hitler pretendesse dar um refresco aos britânicos, para que estes pudessem decidir o que fazer. Até então a intuição política de Hitler tinha funcionado bem, e ele possivelmente imaginava que os britânicos iriam acabar resolvendo negociar. Em uma excelente síntese publicada na Inglaterra em 1990 e no Brasil em 1993, o historiador canadense Martin Kitchen parece ter dúvidas exatamente nessa direção:

“Os motivos de Hitler continuam a ser uma espécie de mistério. Rundestedt afirmou … que Hitler permitiu deliberadamente que os britânicos escapassem, na esperança de chegar a um acordo político. No dia 17 de maio ele comunicara … sua intenção de dividir o mundo com os britânicos. … os britânicos tinham de … aceitar a dominação germânica no continente europeu e poderiam conservar a supremacia naval e o Império. No dia 21 de maio, Halder foi informado de que o governo alemão tinha esperança de chegar a um acordo com a Grã-Bretanha sobre a divisão do mundo. … no dia 2 de junho, Hitler declarou … que tinha confiança em que a Grã-Bretanha aceitaria uma ´paz razoável´, que o deixaria livre para dar prosseguimento à sua ‘missão realmente grande’ de esmagar a União Soviética. O Império Britânico, insistira, tinha um papel vital a desempenhar, em nome da raça branca.”

O historiador britânico Ian Kershaw pensa diferente. Falando sobre o incidente, no livro “1940-1941 – Dez decisões que mudaram o mundo“, ele coloca diretamente sua discordância:

“Quando Hitler visitou o quartel-general de seu comandante ocidental, coronel-general Gerd von Rundestedt, na manhã de 24 de maio, os panzers já estavam menos de 24 quilômetros ao sul de Dunquerque. Depois de avaliar a situação militar com Rundestedt, Hitler deu a ordem para o avanço ser interrompido naquele ponto e não prosseguir até Dunquerque. A decisão logo veio a ser vista como uma oportunidade crucial perdida de acabar com as forças derrotadas do Exército britânico. Tentando justificar um grande erro militar, Hitler posteriormente sugeriu que não quisera destruir o Exército britânico, a espinha dorsal do Império. Isso não passou de uma racionalização para salvar as aparências. Na verdade, ele estava apenas seguindo a recomendação militar de seu comandante de campo, Rundestedt, que quisera preservar suas unidades motorizadas para a investida final para o sul, para concluir a campanha. Longe de querer preservar o Exército britânico, Hitler foi levado por Göring, comandante-em-chefe da Aeronáutica alemã, a acreditar que a Luftwaffe acabaria com tudo.”

É provável que ambos os historiadores estejam corretos (Kitchen não descarta a hipótese do erro militar), mas o depoimento de von Kleist aponta para a análise de Kershaw:

“Hitler achou que era arriscado demais. Eram absurdas as ordens dele naquela época. Poderíamos ter aprisionado ou exterminado totalmente o exército britânico, não fosse a ordem estúpida de Hitler. A prova é que, três dias depois, os ingleses ocuparam as colinas, e fui obrigado a atacá-los de novo para tirá-los de lá. O grosso das tropas inglesas, porém, já havia atingido Dunquerque e estava fugindo em pequenos barcos. O triste disso é que eu poderia ter capturado o exército britânico, ou uma parte tão grande, que uma invasão da Inglaterra teria sido uma questão simples.”

Um outra questão, entretanto, são as divergências que haviam dentro do próprio exército alemão, entre os generais “de blindados” e os tradicionais – estes no comando. Rundestedt fazia parte da ala tradicional, que via limites nas possibilidades das forças motorizadas. Aristocrata prussiano, no exército desde 1892, oficial de estado-maior desde 1907, general-de-brigada em 1932, general-de-exército em 1938, Rudestedt expressava as mais arraigadas tradições da infantaria prussiana. De fato, emanava dele a preocupação com a distensão aparentemente excessiva dos blindados. Rudestedt era um infante que buscava a modernização da infantaria, tanto que, em 1934, juntou-se a um projeto que introduzia caminhões como transportes de tropas, ao invés das tradicionais carroças; também se interessou pelo uso de tanques como “artilharia móvel” nas divisões de infantaria. O general advogava a coordenação entre blindados e forças de infantaria, ainda que da forma tradicional. Mas, em geral, os analistas acham que ele, de fato, não acreditava nos blindados. Convocado da reserva para o serviço ativo, em 1939, durante a Campanha do Ocidente foi designado comandante do Grupo de Exércitos A. O Sichelschnitt (“Golpe de foice”), desbordamento através das Ardenas, idéia de Manstein, foi entusiasticamente advogado pelo velho comandante. Entretanto, também foi o militar que esteve no meio da “crise de Arras”.

Foi um momento de pânico no alto-comando, cuja origem esteve na facilidade, não prevista, do avanço das forças motorizadas através da França e da Bélgica. Quando, em 21 de maio, um contra-ataque britânico mostrou-se surpreendentemente bem sucedido, e quase resultou numa derrota da 7ª Divisão Blindada, a “Divisão Fantasma” de Rommel, na área de Arras, alguns comandantes alemães parecem ter perdido a calma. O comandante do 4° Exército suspendeu todos os movimentos das forças motorizadasaté que a situação fosse controlada, e o resultado é que o rápido avanço do Grupo Blindado Kleist foi também desacelerado. Rundstedt, reunido com Hitler, mostrou-se muito preocupado com a falta de coordenação entre tropas motorizadas e infantaria, que poderia deixar os blindados descobertos.  Em 23 de maio, ele sugeriu que as formações blindadas fossem detidas. Hitler mostrou-se favorável à medida, e desautorizou as ordens em contrário emitidas pelo OKH. A diminuição de velocidade transformou-se numa ordem de alto, que durou até 27 de maio. Foi nesse período que as tropas da Força Expedicionária Britânica escaparam através do Canal. Essa prudência excessiva seria apenas a expressão da personalidade de um comandante pouco afeito a assumir riscos. Sempre tinha sido assim, desde a execução do plano de Manstein. Segundo o historiador militar Earl F. Ziemke, autor de uma biografia militar de Rundestedt…

“No quartel-general do Grupo de Exércitos A, na tarde do dia 17, Hitler deu pleno apoio a uma avaliação na qual Rundestedt ‘enfatizava a situação delicada do flanco sul’, e acreditava que nada era mais importante para toda a operação do que uma prontidão defensiva, absolutamente segura no Aisne e no Somme. … preocupava-se com a possibilidade de seu flanco esquerdo ficar exposto com a travessia do Meuse que, esperava, estivesse fortemente defendido. Guderian ficou desolado ao descobrir que Rundestedt acreditava que divisões panzers e motorizadas não poderiam cruzar rios sem ajuda da infantaria.”

Von Brauchitsch e Halder discordaram, e tomaram a decisão – correta – de ordenar que o ataque prosseguisse, ainda que sem consultar Hitler. Esses dois também não confiavam totalmente nos tanques, mas acreditavam no que estavam vendo – o enorme sucesso do novo estilo de guerra. Segundo o historiador Andrew Roberts, no excelente “Hitler e Churchill: segredos da liderança”caso Rundestedt pudesse ter decidido, ainda assim seguiria as diretrizes de Hitler, que, durante toda a campanha do Ocidente, mostrou-se hesitante. Para ele, a blitzkrieg teria sido mais krieg e menos blitz. Em meio a essas hesitações que a Inglaterra pôde salvar-se, naquele momento.::

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5 pensamentos sobre “Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

  1. Rapaz, 338 mil soldados birtanicos mortos/capturados hein? Talvez hitler acabasse realmente invadindo a Inlgaterra depois de uma vitória dessas.

  2. Excelente texto e considerações.

    Mas não creio que Hitler planejasse invadir a Inglaterra. Pois gostaria de saber que navios iriam transportar os batalhões que invadiriam a Inglaterra, ou será que seria um ataque aerotransportado, igual ao que quase fracassou em Creta?

    Ou talvez a Alemanha se apoderasse da frota francesa mantida sobre o comando de Vichy, e cobiçada por Hitler e por Churchill. Aliás, esse é um bom assunto para o Causa.

    • Logan,
      realmente, dificilmente a Alemanha teria condições de montar uma operação anfíbia daquele porte. Não era propriamente um problema de navios, mas o fato de que não havia nem metodologia nem tecnologia para esse tipo de operação. Os norte-americanos desenvolveram as técnicas inglesa e japonesa, a partir de 1942. Navios especializados foram desenhados, o principal deles o lanção Higgins, aquele barco de madeira, casco chato e rampa na proa, que a gente vê no filme “Saving Private Ryan”. Outro ponto que, em 1940 provavelmente teria criado problemas é o controle de tráfego marítimo. Mas, sobretudo, os alemães nunca fizeram um operação anfíbia digna do nome. A de Creta teve sua parte aeroterrestre e anfíbia, mas as duas chegaram quase a fracassar.

  3. “não havia nem metodologia nem tecnologia para esse tipo de operação”
    Considerando a hipótese de que Hitler não teria interesse em invadir a Inglaterra e se contentaria com o domínio sobre a europa continental, provavelmente depois da ocupação da França ele se voltaria para a invasão da Rússia mesmo, nos dois casos a tarefa era complicadíssima.

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