Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::


O Oriente Médio não sai do foco. Ainda que não pretendamos pensar no caso (o redator:: bem que tentou, por bastante tempo…), aquele pedaço de terra volta ao campo de atençao. De fato, é difícil não pensar nele: nossa civilização nasceu lá, de fato, quando o povo judeu inventou o monoteísmo, depois um grupo de dissidentes (sempre eles) resolveu repensar a relação com o Céu; tempos depois, um judeu que recolhia impostos para os imperialistas da época descobriu que talvez fosse possível conciliar o inconciliável e, para completar a salada, passados mais alguns séculos, um jovem guardador de camelos saiu por aí (ou por lá, melhor dizendo) tentando – e conseguindo – convencer as pessoas que conversava com o único Deus.  E desde então, a humanidade, que adora pegar em armas, e o faz por qualquer causa::, não parou mais de se matar em nome dessas idéias.Examinemos algumas dessas questões – em partes, é claro, pois os ocupados frequentadores de causa:: não têm tempo para ler dez páginas de delírios do redator::

parte1/4É claro que o resumo acima é uma visão simplista que poderia ser entitulada “origens história mundial do ponto de vista das religiões”. Foi, entretanto, suficiente para colocar no espírito do redator:: uma idéia que, embora parecesse, de início, estapafúrdia, acabou mostrando-se bastante razoável: o fundamentalismo religioso pode ser fundamento de uma análise estratégica? 

Certamente foi, na época da expansão do Islã, entre o meio e o fim da Idade Média. Foi a época em que exércitos e navios saídos do Oriente Médio e da Turquia levaram as palavras do Profeta (aquele jovem guardador de camelos…) ao mundo, e legiões de novos fiéis foram convencidos – pelo brilho do Livro ou pelo excelente aço sarraceno. Posteriormente, a maioria das guerras européias da Idade Moderna, quando foram lançados alguns dos mais duradouros fundamentos da arte militar, tiveram parte de suas motivações baseadas na idéia de reformar a Cristandade, de modo a levar os homens de volta ao caminho de Deus – ou matar os que não concordassem em trilhá-lo. A mesma trajetória política que levou a 150 anos de guerras religiosas produziu, na Europa do século 18, a consolidação da separação entre Estado e religião. A idéia de que o bispo de Roma, chefe mundial da Igreja Católica, seria também preposto de um grande ditador onipresente e onisciente acabou relegada aos limites de uma praça-estado situada no meio de Roma. A direção dos estados – e de suas guerras – foi colocada sob a responsabilidade das lideranças formadas nesse espírito. Em prazo relativamente curto, essas lideranças empalmaram o poder de levar cidadãos, ou seja, todos aqueles vivendo sob um proclamado (e nem sempre praticado) “império da lei”, ao campo de batalha, quisessem estes ou não. A grande estratégia, ou seja, o modo como, modernamente, as nações mobilizam seus recursos de modo a alcançar seus objetivos políticos, deixou de levar a religião em consideração, embora esta continue a ser importante fator de mobilização ideológica.

Volta o redator:: ao ponto, para consideração dos oito ou nove leitores que aqui aparecem de vez em quando: a religião pode ser considerada aspecto de planejamento estratégico? Certamente, se a considerarmos fator de mobilização. Nos estados laicos criados pelo racionalismo e pelas revoluções burguesas do século 18, e que se consolidaram no século seguinte, a religião ainda hoje é fator de aglutinação das sociedades, em caso de guerra, real ou virtual. Não passamos 50 anos ouvindo que um dos motivos da Guerra Fria foi o ateísmo dos comunistas? Os soldados dos EUA não eram apresentados como a primeira linha de defesa da “civilização cristã-ocidental”? Pergunte a um cidadão médio norte-americano se ele não acredita que um dos motivos da superioridade conquistada pelos EUA é a disposição para o trabalho missionário, de “trazer almas para o Reino de Deus”. Os missonários sempre foram parte importante das frentes de expansão dos Estados ocidentais. Desde a “Companhia de Jesus”, criada no século 16 e estruturada em moldes militares (mas sem portar armas que não fossem a Cruz e a Bíblia), até os pregadores protestantes que percorriam a África na retaguarda (e – sejamos justos – muitas vezes na vanguarda) do exército britânico, a difusão da palavra de Deus abriu a porta para a penetração do “estilo ocidental”, seja ele lá qual for.

Embora se possa observar forte sinergia entre exércitos de missionários e de militares, na atualidade eles não se misturam, e isso é parte do “estilo ocidental”. Em última análise, prevalece a lei dos homens – ou do estado, por consenso dos cidadãos – sobre a lei de Deus. A lei do estado não pode ser desobedecida, sob pena de punição, enquanto a de Deus é seguida por decisão de “fôro íntimo”, como gostam de dizer os advogados. Ela não é fundamento para a imposição de obrigações civis, como a convocação militar. É, entretanto, fundamento para a “obrigação moral” de expandir a Palavra e lutar contra o ateísmo, por exemplo. Ou pela paz, ainda que a tiros. Por outro lado, a sinergia entre o “fôro civil” e o “fôro íntimo” observa-se quando o cidadão é chamado a lutar por seu modo de vida, que inclui a liberdade de praticar uma religião ou (pelo menos em teoria) o respeito à opção religiosa alheia. Boa parte da mobilização para a Primeira Guerra do Golfo (para não irmos muito longe no tempo) foi feita dentro de pequenos templos protestantes, nas cidadezinhas dos EUA. O próprio George Bush Sr. frequentou alguns cultos e falou neles sobre a necessidade de lutar pela liberdade no Oriente Médio.

Esse é o estilo ocidental. A idéia de um “reino” abrangente, governado pela lei e povoado por cidadãos “nascidos iguais” e governados com justiça, guarda fortes continuidade com as idéias cristãs surgidas no Oriente Médio. Sabemos, entretanto, que existem atualmente uma penca de estados estruturados em torno da lei de Deus: falamos, claro, dos estados islâmicos. A questão é como se dá a estruturação desses estados: o “Livro” (al´Koram) está na base do que chamaríamos de “sociedade civil” e regula as relações entre cidadãos. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao redator:: (que não tem a menor vocação para Ali Kamel) estabelecer – sugere-se perguntar a um cidadão da República Islãmica do Iran, ou do Reino Saudita. 

É notável que, nos últimos setenta anos, desde meados do século passado, movimentos políticos laicos tentaram liderar um redesenho do estado. Os partidos nacionalistas nos estados islãmicos, dos quais o nacionalismo iraniano, os diversos “baathismos” e o “Fatah” são bons exemplos, talvez tenham fracassado em função de certa incapacidade de limitar a presença da religião e de suas lideranças na vida civil. Fracasso compreensível: a religião, nesses lugares, molda as instituições de um modo que, vivendo em sociedades laicas, torna-se difícil conceber. O sistema escolar, por exemplo, é totalmente organizado e ordenado por agentes religiosos. O exemplo mais acabado disto são a “madrassas” sunitas, escolas religiosas cuja função é ensinar a Palavra do Profeta para a vida e formar sábios (um excelente texto sobre o tema, no falecido Weblog de Pedro Dória). Madrassas formam Fiéis, homens dispostos a seguir com retidão o caminho da Fé – ou, como dizem eles, do “Coração” (tradução quase literal da palavra árabe Islan). Um desses princípios e a expansão da Fé – o que é conhecido como Jihad. O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47. Entretanto, em alguns lugares, como o Paquistão, as madrassas formam ativistas que levam a religião como bandeira. Como o Islã é, antes de tudo, a luta pela Fé, essa luta começa no interior dos próprios estados islãmicos, de modo a não permitir qualquer desvio dos Fiéis, principalmente quando esses Fiéis meio perdidos estejam no governo e queiram adotar um modo de vida que não se paute pela Lei verdadeira – aquela do “Livro”.

Ou seja: os estados islâmicos são formas ainda híbridas entre uma estrutura política formada por séculos de organização da vida cotidiana e das relações sociais com base na religião, e um modelo de certa forma copiado a partir das relações assimétricas com estados ocidentais, estabelecidas no século 19. Após a 1ª GM, com a substituição do Império Otomano por mandatos coloniais europeus, abriu-se o caminho para a formação de partidos nacionalistas ao estilo europeu, que logo se mostraram uma dor de cabeça para as potências mandatárias. Também foi nesse período que se formaram monarquias que aceitaram dividir o poder com os religiosos, desde que estes não se metessem nos assuntos de estado. Exemplos disso são a Arábia Saudita, a Jordânia e o Iraque. De modo algo diferente, também a monarquia marroquina do rei Hassan II, menos falado porque bem mais comportado e sem petróleo (como Arábia Saudita e Iraque) ou posição estratégica chave (como a Jordânia).

Mesmo ditaduras laicas extremamente violentas como a Síria, a Líbia ou – last but not least – o Iraque baathista, são produto desse hibridismo.  Nesses casos, o modo de enfrentar a religião foi fazer acordos, por um lado, e encanar os dissidentes religiosos, por outro, o que significou dar vantagens e tomar funções. No caso da Líbia, o projeto foi mais bem-sucedido que no Iraque, visto que na lá – como na Argélia francesa, outro caso de “sucesso” – os colonizadores europeus conseguiram formar um núcleo consistente de sociedade europeizada nas regiões urbanizadas da costa mediterrânica. Nesses estados, após a independência (muito menos problemática na Líbia – colônia italiana – do que na Argélia – colônia francesa), assim como na Síria (colônia francesa fortemente influênciada pelos ingleses), os grupos políticos que receberam ou tomaram o poder após as independências, herdaram esses núcleos ocidentalizados, dentre os quais se encontrava o exército e boa parte do serviço público.  Na Líbia, Muammar el Ghadafi, líder (cuja a ambição secreta deve de ser fundar um fã-clube de Cauby Peixoto) produzido em uma disputa política de facções, após tomar o poder, manteve certos privilégios dos religiosos, mas ao mesmo tempo os reprimiu fortemente. Paralelamente, “ocidentalizou” a vida social (trata-se do estado árabe onde a religião menos influencia a vida cotidiana) e transformou o Ocidente em espantalho. Ghadafi era um nacionalista de origem militar, em um exército formado ao estilo ocidental – sem mullahs dentro dos quarteis ou califas no comando – coisa que o coronel Gamal ab´del Nasser também era. Nasser tentou, bem antes, “ocidentalizar” o Egito, só que com sucesso relativo, já que precisava dos religiosos para enfrentar Israel. E, pior, sempre que enfrentava, perdia, o que fornecia mais munição para o discurso religiosos, que afirmavam ser a derrota produto do desvio do caminho da Fé.

Outro ponto que merece atenção é o fato de que essas ditaduras nacionalistas laicas (ou quase) utilizaram-se da disputa ampla da Guerra Fria para consolidarem suas posições. Isso era mais fácil para aquelas que dispusessem de algum trunfo – o petróleo, no caso de algumas, a posição estratégica, em caso de outras (a União Soviética se interessava mais por posição estratégica do que por riquezas minerais, o que levou à aposta na parceria com o Egito e a Síria). De qualquer maneira, é inegável que Nasser, seu sucessor Anwar el Sadat, Gadafi, o sírio Haffez al Assad e claro, Sadam Hussein tentaram, até certo ponto um meio nacionalista e socialista que criou grandes tensões internas, solucionadas pela via da repressão, por um lado, e de concessões à população, geralmente em detrimento da religião – o que acabava por criar mais tensão. O sucessor de Nasser, general Sadat, percebeu mais cedo que a parceria com a União Soviética criava um problema a mais para a sobrevivência do regime, e acabou optando por negociações em separado com os EUA, sobre a questão de Israel. Isso criou novos problemas: por um lado, uma fratura no bloco nacionalista laico (a Síria e a Líbia quase chegaram à guerra contra o país) e, por outro, problemas internos com os religiosos, que viam na aceitação Israel uma traição que colocava as lideranças como passíveis de condenação. Para esses movimentos não importa onde está o inimigo, se dentro ou fora. Na visão religiosa, o Islã funciona como uma espécie de duplo terreno e imperfeito de uma formação celestial, governada pela Lei (Sharia). Este é o conjunto de normas que o Fiel deve observar, elaborado por estudiosos, sobre questões do cotidiano. A base dessas interpretações é o Corão, em primeiro lugar, e os Hadith (os “bons ditos”, conjunto de observações do Profeta sobre assuntos diversos, e que incluem sua biografia). A comunidade do Islã é formada pelo conjunto dos Fiéis, e não propriamente por cidadãos de estados nacionais. A Lei deve ser, pois, observada inclusive pelos governantes, que, se a transgridem, desautorizam a si mesmos diante de Deus – ou seja, da comunidade do Islã::

Anúncios

7 pensamentos sobre “Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::

  1. “O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47.”

    Eu não subestimaria tanto assim esses fanáticos, veja o que um punhado de integrantes do Hezbolah fez com inúmeros Merkavas, na última guerra do líbano, portanto RPGs russos.

  2. Bitt, começou ótimo e estou certo de que vai melhorar!

    Diogo, você está certo do sucesso dos RPGs sobre os Merkava? Este conta com uma blindagem reputada como das melhores do mundo. Não teriam sido armas antitanque portáteis mais avançadas?

  3. Em tempo: Diogo, este não conta porque só durou praticamente o tempo do reinado do Akenaton. Depois, seu nome e feitos passaram a ser raspados dos monumentos.

  4. Luiz, também não estou certo, deixei a bola na marca do penalty para o Bitt 🙂
    Acredito que a maioria dos Merkava foram perdidos por armadilhas, e/ou Kornets e ATs similares. Obviamente algumas táticas, suponho, tiveram que ser revistas pela IDF.
    Quanto ao monoteísmo, acho fascinante essa história do Faraó, claro que o monoteísmo moderno surgiu com o judaísmo, mas alguma semente já existia.

  5. Diogo,
    é isso mesmo. Israel levou uma lavada no Líbano. Os caras do Hizbh´Allah deviam ser promovidos de guerrilheiros a irregulares, pq os pps israelenses se surpreenderam com disciplina dos caras. Um relatório q li, de um tenente-coronel, disse q os caras estavam equipados com armamento de última geração, inclusive os tais RPG29 “Vampyr”, óculos de visão noturna,fuzis automáticos austríacos e por aí vai e sabiam usar. A fonte de dinheiro é com certeza o Iran, mas a questão é o treinamento. Esse relatório falava sobre uma armadilha em q os israelenses caíram, e q a vanguarda de uma brig blindada foi destruída, e teve de retrair sem apoio aéreo, pq os primeiros helicópteros foram recebidos por uma saraivada de SA7, um míssil SA meio ultrapassado, mas q eles usaram mto bem, pq sabiam q os judeus chegariam voando baixo. Além do mais, os veículos queimando num desfiladeiro atrapalhou os equipamentos de visão noturna da aviação. Vc tem razão qdo diz q as IDF revisaram suas táticas, mas o problema deles não é o H´Allah, é o Hamas, e aí a coisa é diferente.

  6. :: Seus textos estão ficando cada vez mais elucidativos, Bitt.
    Engraçado é que sua opinião está mais aparente, posts menos neutros.

    –xx–

    Sobre o Arma às Quartas:

    :: Desta vez concordo 100% com você.
    Estava lendo sobre Columbine e me veio a idéia de mencionar essa arma em particular já que ela, assim como a MAC-10, também está nas mãos de malucos. Admito que fiz o post num impulso e com pouca pesquisa.

    –xx–

    Quanto à nomenclatura, às vezes eu cedo à linguagem coloquial e uso “clip”, “pente”, etc… acho que vejo séries demais.
    Viu Esquadrão Classe A?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s