Drops para o fim de semana::Futebol e Grande Estatégia – apenas outro delírio?..


Na área específica do blogue das boas causas, frequentemente o redator:: se pega defendendo o Stalin. Calma! Ninguém precisa protestar: na média, causa:: concorda com tudo que tem sido dito desde que Isaac Deutscher começou a levantar o legado de Trotsky: Stalin foi um tirano genocida e começou a enterrar o comunismo soviético (embora seja tolice querer fazer comparações com Hitler, por motivos que aqui não interessam). Mas num tópico, em específico, não se pode negar a parte dele: sob sua liderança, a União Soviética venceu setenta por cento da 2ª GM e saiu do conflito como potência mundial. Como causa:: tem como assunto estratégia, e o redator:: vê estratégia em tudo, vamos, mais uma vez, correr o risco de enfiar o pé na jaca.
Estratégia é, antes de mais nada, o conjunto dos movimentos amplos e coordenação entre teatros de operações e teatros táticos. Atualmente, esse conceito é usado nas áreas mais disparatadas (“estratégia empresarial”, “estratégia sensível“, e por aí vai), ao ponto de um de seus teóricos clássicos, o filósofo chinês Sun Tzu ter se tornado leitura até para auto-ajuda. Assim, podemos falar um pouco de estratégia nessa Copa do Mundo.
Em teoria, podemos ver “estratégia” e “tática” no futebol. A “estratégia”, ou seja, (segundo o marechal  barão de Jomini),  a arte de articular e ordenar a ação das forças militares, pode ser pensada na preparação da campanha de um time: criação de uma infra-estrutura, contratação de jogadores, preparação do time, e por aí vai; a “tática” ou seja (segundo o mesmo barão) é a parte da arte da guerra que trata de como proceder durante um combate ou batalha, manobrando tropas para alcançar a melhor posição em relação ao inimigo. Qualquer um que acompanhe futebol entende do que estamos falando aqui. As táticas no campo de futebol servem de termo de comparação com as táticas militares: em ambos os casos profissionais qualificados movimentam-se dentro do campo para conseguir vantagens e vencer o inimigo – a diferença é que num campo de futebol não morre ninguém. Caso fossemos estender o assunto, até mesmo as “doutrinas” – na guerra, orientam a utilização da combinação meios+material humano – podem ser encontradas no futebol. Por sinal, essa comparação talvez explique o medíocre futebol atual, comparado com aquele praticado, digamos, na Copa de 1970. Não é só uma questão de genialidade individual, pois, hoje em dia, gênios como Pelé, Beckenbauer e Gerson provavelmente não surgiriam. 
 
Também podemos ver no futebol uma “Grande Estratégia”, ou seja, gerenciamento dos recursos de uma nação (população, economia, energia moral, lideranças) para a realização de objetivos políticos. Política e Estratégia, reunidas, constituem atualmente uma área de conhecimento transdisciplinar, que interage, em especial, com: ciências políticas, sociologia, administração, economia, história, ciências militares, geografia e relações internacionais. Esmiuçado, aprofundado e aperfeiçoado, o pensamento político-estratégico tem sido fundamental para o sucesso das organizações no mundo cambiante em que vivemos. Por meio dele, os dirigentes adotam uma atitude prospectiva em relação ao futuro, estabelecendo ações preventivas contra as ameaças e explorando as oportunidades que o ambiente externo pode oferecer, tudo com base nas fortalezas e debilidades que a própria instituição deve reconhecer em seu ambiente interno. Deste modo, no planejamento da Grande Estratégia, o componente militar é apenas um dos fatores a serem levados em consideração. O comando e controle de grandes unidades militares (divisões, corpos de exército e exércitos) passa a ser totalmente subordinado a movimentos totalizantes, que, na atualidade, consideram todo o mundo. Alguns teóricos sugerem que, com o aumento exponencial do tamanho das forças militares, e o avanço das tecnologias de controle e comunicação, a “estratégia militar” tornou-se mais um aspecto da “Grande Estratégia”, e tem de ser considerada para além da situação de guerra.
 
E o que isso tudo tem com a Copa do Mundo? Nosso país tem agora, um delineamento de “Grande Estratégia” bem diverso do que teve desde o fim da ditadura militar (se é que tivemos algum, após o abandono da política externa independente elaborada durante o governo Geisel).
Esses novos delineamentos buscam colocar o Brasil numa posição de liderança global, articulado aos novos blocos formados na era pós-Guerra Fria. Se estamos ou não capacitados para isso, são outros quinhentos, mas o fato é que se trata de uma situação original, originalidade que reside na abordagem multipolar da política externa. Por outro lado, tal abordagem tende a colocar o que é visto como “nossos interesses”, em frequente rota de colisão com os interesses hegemônicos das potências centrais – EUA à frente. Não é uma situação nova, e nem produz desdobramentos que sejam novidade. A crescente diferenciação de interesses e percepções entre Brasil e EUA observada atualmente, a respeito de suas respectivas posições no sistema internacional, começa a produzir políticas divergentes, no plano das relações internacionais. Em outras épocas também surgiram divergências, decorrentes de transformações na política interna brasileira. produzidas por situações de mudança nos setores hegemônicos brasileiros, que resultavam em divergências na leitura desses grupos sobre como o país deveria colocar-se no sistema internacional. Com diferenças marcantes de enredo, essa é história ouvida antes, durante os governos militares. Notadamente a partir da administração Médici, observa-se o reordenamento das posições relativas ocupadas pelos três eixos em torno dos quais se articula o processo produtivo brasileiro, quais sejam, a grande empresa internacional, o setor público da economia e o capital nacional não-associado. Será a conjugação dessas três forças que permitirá, no momento seguinte, a gradativa diversificação das relações econômicas externas do Brasil, constituindo a base material da política exterior iniciada com Geisel.

Não seria hoje quase a mesma história? Já se observa forte reação dos interesses tradicionais da política brasileira, assim como se escuta falar muito de uma “reestatização branca” e de um “bilionário petista”.  Outras semelhanças podem ser observadas, algumas de curiosa contiguidade. 

A ação externa de Geisel passou pela recomposição da correlação de forças na estrutura doméstica de poder. Procuravam-se formas pacíficas de transição para a liberalização do regime, processo conduzido pelo próprio Presidente da República. A personalidade do general lhe possibilitaram manter-se no centro das decisões, processo denominado “centralismo burocrático”. Essa fórmula, muito calcada no pensamento de esquerda, mantinha a capacidade de decisão concentrada, capaz de articular as burocracias mais consistentes. Para Geisel, a política exterior, além de elemento indutor do desenvolvimento, se tornou fator legitimador do regime, articulando-se à proposta de abertura institucional formulada pelo próprio regime. Sua linha de força era a afirmação de independência com relação aos desígnios da política externa dos EUA no plano internacional. 

Essas reflexões baseiam-se no excelente artigo referenciado mais acima. Como bônus, talvez ajudem a explicar a admiração manifestada por Lula – e por sua candidata – com relação ao governo Geisel. E o “furor democrático” manifestado por grupos que cresceram à sombra do regime autoritário.

Um desses grupos de interesse é formado pelo amplo setor das empresas de comunicação. Claro – nem todas elas cresceram cevadas pelo regime militar, e algumas cumpriram destacado papel de resistência. Não é preciso aprofundar essa distinção, pois no momento, todas parecem alinhar-se com uma postura “ocidentalista” que, ao longo da última década, deu totalmente co´os burros n´água. O fracasso das políticas de alinhamento automático com os EUA e a Europa Ocidental ficaram patentes durante o governo FHC. E não estamos discutindo aqui as políticas do atual governo que teriam sido herdadas do anterior. Isso parece ser um fato, mas o atual governo moveu os recursos disponíveis de modo totalmente diverso do modo como o fez o anterior. E já notamos o candidato Serra levantar questões sobre os rumos da política exterior. Rumos que não têm merecido uma palavra de simpatia por parte desses grupos de comunicação. 

Dentre esses, um mais notórios é a Rede Globo de Televisão. Grupo empresarial surgido das articulações da época dos governos militares, que também beneficiaram o jornal O Globo, a Rede Globo foi um dos principais atores da moldagem da visão de nação que nos assola atualmente. Ao longo de quatro décadas, funcionou como uma área de “public relations” do regime militar, formando uma rede que atualmente alcança todos os pontos do território brasileiro – o que, temos de reconhecer, não é pouca coisa. Que faz um trabalho de excelente qualidade é inegável, tanto que os outros grupos de comunicação televisiva tentam, com sucesso no máximo mediano, copiar o “padrão Globo”. Sucesso apenas mediano porque um dos aspectos matriciais desse “padrão” é o comportamento hegemonista. A Rede Globo parece se ver como tendo adquirido uma espécie “pressuposto”, que é um direito a “chegar primeiro”. Esse direito realmente existe, e foi produzido por articulações políticas de bastidores, onde se trocam favores que acabam por resultar em vantagens econômicas reguladas pela posição dos agentes em negociação. Por vezes, entretanto, surge um boi na linha: em 1983 (se a memória do redator:: ainda vale alguma coisa…) foi Leonel Brizola; em 1990, foi a possibilidade de Lula – ainda metalúrgico e obreirista – se eleger; na mesma época, houve o caso “Igreja Universal do Reino de Deus” (uma briga que se prolonga até hoje). Mais recentemente, temos o caso “Copa do Mundo”. E é nesse ponto que o redator:: ainda vai acabar gostando de Dunga.
Nosso “Zangado” pode ser lá o que for – um jogador medíocre, treinador pouco criativo, personalidade autoritária, cidadão politicamente retrógrado, etc. (e mais alguma coisa), mas talvez esteja prestando a todos nós grande serviço, ao peitar a Rede Globo. Dunga pode até perder a Copa do Mundo – embora o futebol que a Seleção apresente não seja pior do que a média do que se vê nessa edição da competição, ou seja, uma porcaria. Entretanto, ao colocar no devido lugar a arrogância de outras mediocridades – o bando de bonifrates falantes (opa! causa:: também é inspiração…) do “jornalismo” da Globo -, Dunga certamente tornou essa Copa um evento realmente significativo para nosso país, e já fez por merecer entrar, se não para os anais do futebol brasileiro, com certeza para os do jornalismo brasileiro.
O post que deu origem às observações talvez tanto delirantes acima já circulou na Internet o suficiente para criar uma trilha entre o Jardim Botânico e África do Sul, com algumas declarações de princípios interessantes. 
Como isso pode ser elemento de “Grande Estratégia”? Ôs oito ou nove leitores, conhecedores que são de causa:: já devem ter notado que essa foi apenas outra desculpa para discutir estratégia. Mas o fato é que a postura “descontrolada” de Dunga (pelo menos segundo o valente William Bonner) abre uma brecha para pensarmos que, se por um lado a presença de formações hegemonistas é, no mínimo, um obstáculo à democracia, mas por outro, as relações de poder, mesmo no plano assimétrico, são hoje bem diferentes do que eram nos “gloriosos anos setenta-oitenta”, época de ouro da “Vênus platinada”. Na época, a Rede Globo era recurso estratégico do regime, e funcionava como fator articulador das relações políticas e, por conseguinte, da ideologia. O surgimento da Internet equilibrou essa relação de forma não-prevista. De forma ainda não bem avaliada (tanto que pode estar errada) a Globo tem de lidar com agentes em posição totalmente asimétrica. Assim, o problema não é Dunga, mas a forma como a história se espalhou, obrigando a própria frau Bernardes a desmenti-la utilizando o mesmo recurso através do qual história se disseminou – um blogue. Só que, aparentemente, a capacidade de “viralização” desse não alcança os patamares de alguns daqueles nos quais surgiu o caso. Ou seja – vivemos outra época, em que agentes antes insignificantes viraram recurso de “Grande Estratégia”…::
 
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7 pensamentos sobre “Drops para o fim de semana::Futebol e Grande Estatégia – apenas outro delírio?..

  1. Interessante essa perspectiva em relação a estratégia, agora faltou descrever qual seria a estratégia do próprio dunga.
    Outra coisa, onde está o texto da “frau bernardes” desmentindo a história?

  2. bitt,

    Um post respeitável, que vai de Stálin a Dunga, passando pela ditadura militar, donde se deu o nascimento do vilão, ou vilã, em questão, de alguma forma, a meu ver, muito redondinha. E tudo isso com a estratégia. Parabéns! È guerra mesmo.

    Claro que que todos sabemos ou lembramos, os desserviços da Globo ao país. Outra coisa, que me parece minimizada, apesar de tecnicamente meu conhecimento de futebol ser igual a menos um, quem sabe..

    De toda forma, acho que há uma moldura maior, sistematicamente ignorada nesta copa, em nome de interesses vários e que poucos sabem.

    Por exemplo, fiquei estarrecida com a reportagem da Piauí do mês passado sobre a escolha da FIFA pela Àfrica do Sul e do quanto isso custou ao país.

    http://www.revistapiaui.com.br/edicao_44/artigo_1317/A_Copa_do_Cabo_ao_Rio.aspx

    Pelo jeito, e isso também é monopólio, jogo de poder, seremos a próxima vítima, como suspeito ser o caso, dada a reportagem publicada ontem no Aliás do Estadão, que mais ou menos resume, numa leitura apressada, o conteúdo interessantissimo da Piauí.

    http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,a-ginga-perfeita-dos-donos-da-bola,572511,0.htm

    Daí e o Dunga, dentro disso?

  3. Meus comentários não aparecem, o que só pode ser uma, nem digo, conspiração contra os TROTSKISTAS, que frquentam este sítio. 🙂

    • Não, não, não… Não é uma conspiração de trotskistas melífluos (é verdade que o atual ideólogo das organizações Globo já o foi?..). É falta de um mínimo de organização. Mas pelo mns no próximo mês, tentarei zerar as pendências, inclusive em responder aos oito ou nove “famosos poucos” que defendem esta página… :c)

  4. Bitt, o meu interesse por futebol em geral e pela “Copa FIFA 2010” em particular é tão pequeno que eu nada vi e mal li sobre os emocionantes eventos citados por você. Mas por esse ínfimo quantum de informação já deu para perceber que este Dunga é bem escrotinho e suas desavenças com a Globo são talvez provocadas por pura burrice, não por qualquer “posicionamento anti-hegemonista” ou coisa que o valha. Em resumo, não vale a pena gastar tanta erudição num assunto irrelevante para a “colocação do Brasil numa posição de liderança global”. Mas parabéns pelo panache de passar de Stalin a Dunga em poucos parágrafos.

  5. bitt,

    Viva! Há tantos ex-trotskistas desviados do rumo, a começar pelo exemplo cabal do Reinaldo de Azevedo, o mais descabelado deles, que já foi da Convergência. Pra não citar o nobre Demétrio Magnoli, que era da minha turma e hoje se tornou de direita, ainda que infinitamente mais articulada que o Reinaldão. Ânfãm, o ideólogo das Organizações Globo seria o Kamel? (verdade. não sei mesmo). Se ele foi trotskista, desconheço, mas não me surpreenderia. Acho que entre nós dá de tudo, conforme aquele ditado que falava em 3 trotskistas fundando 2 partidos e uma fração. Levando na mesma toada, sobra que 1 trotskista só deve ser esquizofrênico. Será meu caso? 🙂

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