Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::

Cabe antes de tudo, uma explicação: o “método confuso” de elaboração de postos desenvolvido (???) pelo redator:: implica , em primeiro lugar, ter um insight, que aponte um tema que pareça interessante. Num segundo momento, o dito pesquisador amador começa a levantar material na lista de sítios especializados e blogues, que formam um extensa biblioteca de recursos de pesquisa on-line. O terceiro momento é o do início da redação. Aí a porca começa a torcer o rabo, a onça, a beber água e o macaco, a enfiar a mão na cumbuca. Por não ser jornalista nem escritor de espécie alguma (ou seja, “redator::” é apenas uma liberalidade adotada para com os oito ou nove assíduos…), o redator:: escreve um borrador e, logo em seguida, começa a modificá-lo, tanto em conteúdo quanto em estilo. Por esse motivo, os postos carregados aqui no blogue costumam a ter duas ou três “edições”. Na maior parte das vezes, aos trancos e barrancos, a coisa dá certo (salvo errinhos de digitação e algumas agressões à gramática…). Entretanto, algumas vezes, ocorrem desastres, como o q constatei ontem: a parte2 do posto sobre Colômbia e Venezuela, por algum motivo, saiu totalmente truncada. Na verdade, nem era para ser carregada naquele momento. De toda forma, está indo abaixo a primeira edição. Sugiro aos assíduos que dêem uma olhada na parte1, pois uma “segunda edição” bem ampliada foi carregada. O redador:: pede sentidas desculpas, não apenas aos assíduos, mas a todos que tenham sido incomodados por esse acidente de percurso::

parte2As provocações e vitupérios de Hugo Chávez são exagerados, certamente, mas as ressalvas de governos menos dispostos ao histrionismo, como o Brasil e a Argentina, traduzem a preocupação com a possibilidade de interferência norte-americana nos assuntos internos sul-americanos. O fato é que as forças armadas colombianas, muito bem treinadas nas operações de COIN, não parecem ter grande capacidade quando se trata de enfrentar forças armadas propriamente ditas.

Mas ninguém (possivelmente nem mesmo Chavéz…) imagina uma guerra: afinal, as forças armadas bolivarianas têm sido postas em prontidão com alguma frequência, sem ter, até agora, saído do lugar. As autoridades militares da Venezuela anunciaram ontem que estarão alertas e ofereceram “apoio incondicional” ao presidente Hugo Chavéz, após este ter rompido “todo tipo” de relações com a Colômbia. Até agora, no melhor estilo bolivariano, os militares venezuelanos parecem estar se divertindo em emitir bravatas, tipo “daremos resposta contundente se houver uma incursão militar estrangeira contra o território da Venezuela”. Já o governo colombiano parece ter ficado satisfeito em amolar Chávez: segundo o porta-voz presidencial, César Mauricio Velásquez, “da parte da Colômbia, jamais haverá um movimento de tropas. Sempre haverá fraternidade com a Venezuela” (???).

A Venezuela negou as acusações feitas pelo governo da Colômbia na Organização dos Estados Americanos. Segundo informações do embaixador colombiano, 1.500 guerrilheiros das FARC se refugiariam na Venezuela, em três acampamentos. Não foi a primeira vez que tais acusações foram veiculadas por Bogotá, e sempre foram negadas por Caracas. Esta última edição da crise chegou de modo um tanto inesperado, quando a OEA parecia estar tendo sucesso nas gestões que fazia, em busca da normalização das relações entre Bogotá e Quito, interrompidas desde a Operação Fênix, em março de 2008. As relações do governo colombiano com os EUA também levantam restrições entre todos os governos sul-americanos, e a decisão de Uribe em renovar o “Plano Colômbia”, formalizada durante visita à Washington, em outubro de 2009, não contribuiu para distencionar a situação. Os governos da região não veiculam suas restrições, e quando o fazem, mantêm o tom baixo – menos Chavéz, lógico. As relações entre os dois países não têm sido grande coisa ao longo do mandato de Uribe, mas vêm piorando desde julho de 2009. Foi quando o governo de Bogotá alegou  ter encontrado armas venezuelanas nas mãos as Farc. O acordo Bogotá-Washington piorou a situação, pois Chávez não é tão reservado em suas declarações e sabe que a Venezuela é, depois dos EUA, o principal parceiro econômico da Colômbia. Ele alegou que o acordo é uma intervenção direta na América do Sul e uma ameaça contra a Venezuela. Como se não fosse suficiente, o governo dos EUA, que tem endurecido sua posição na região, resolveu botar lenha na fogueira. Na capital americana, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Phillip J. Crowley, declarou o apoio norte-americano ao envio de uma “missão internacional” para investigar as acusações da Colômbia contra a Venezuela.  

Muitos analistas se perguntados, dariam razão a Chavéz. A Colômbia tem limites com cinco países (Venezuela, Equador, Panamá, Peru e Brasil). Com a Venezuela são 2.200 quilômetros, e uma história de conflitos de limites, que em diversas ocasiões provocaram atritos. Depois da independência, no início do século 19 sob a liderança de Bolívar, a região tornou-se um único país, a República de la Gran Colombia, integrada também pelo Equador e pelo Panamá – na época parte da Colômbia. O território equivalia ao vice-reino de Nova Granada, e o projeto não deu certo, já que haviam diferenças políticas significativas entre as elites que se reuniram para garantir a independência da região, após as guerras napoleônicas. O estabelecimento dos três países, acontecido no final da década de 1830, levantou questões de fronteiras, e algumas persistem até hoje. Colômbia e Venezuela têm um contencioso de fronteiras no Golfo da Venezuela, e quase entraram em guerra em agosto de 1987, em função de alegadas provocações da Colômbia (na época, Chavéz não existia ainda, temos de admitir…). A quase-guerra civil colombiana, que já dura mais de quarenta anos, tornou-se também fonte constante de tensão, visto que a fronteira venezuelana é altamente permeável, e tanto guerrilheiros colombianos quanto criminosos venezuelanos (o tráfico de drogas e os sequestros também são prática comum na Venezuela, só que sem coloração política) transitam de um lado para outro. O problema é que, desde sua chegada ao poder, o coronel Hugo Chavéz não faz questão de ocultar sua simpatia pelas FARC, que classifica como “combatentes da liberdade e do socialismo”; as FARC, por sua vez, se classificam como “bolivarianas”. Washington e Bogotá acusam, com frequência, o presidente venezuelano de apoiar as guerrilhas. Chávez nega, e o fato é que Uribe, que, no início de seu mandato, até que se dava bem com Chavéz, subiu o tom das acusações, sem conseguir apresentar provas indiscutíveis. Em dezembro de 2004, a prisão em Caracas do líder guerrilheiro Rodrigo Granda, representante internacional das FARC, em uma operação encoberta de um comando da polícia colombiana novamente quase levou os dois países à guerra.  O ativista andava tranquilo na Venezuela, que imediatamente alegou não saber o que ele fazia lá, como cidadão privado. Em março de 2008, a incursão aérea em solo equatoriano desencadeou movimentos de tropas de Quito e Caracas, e uma correria de diplomatas de alto nível, dos principais países da região e da Espanha. Chávez convocou seu embaixador em Bogotá e ameaçou congelar o comércio entre os países. Essa, por sinal, seria uma retaliação bem mais efetiva: o comércio entre os dois países, no âmbito do Pacto Andino, sempre foi intenso, chegando, segundo algumas fontes, a mais de 7 bilhões de dólares.

Em julho de 2009, a prova que com que o governo colombiano tanto deveria sonhar apareceu na forma de lançadores de foguetes AT4. Essa arma anti-tanque, supostamente entregue ao exército da Venezuela pela indústria sueca Saab Bofors Dynamics, foi encontrado com as FARC, em território da Colômbia. O governo da Suécia resolveu investigar o caso, que configuraria  tráfico de armas para a guerrilha, e teria comprovado que as armas realmente foram vendidas ao Exército da Venezuela em 2004. A reação de Uribe foi, por outro lado, surpreendentemente moderada: apenas teceu críticas genéricas aos países que vendem armas por fornecer a um “grupo criminoso”  armamento de grande poder de destruição, sem citar nenhum país como fonte das armas. A guerrilha, claro, negou todas as acusações e ainda afirmou não ter nenhuma relação com o o governo do Equador – o governo colombiano veiculava acusações de que a guerrilha teria feito contribuições à campanha de Rafael Correa ao governo do Equador.

É possível que a preocupação do colombiano fosse mais com o comércio bilateral. Chavéz cumpriu sua ameaça no ano passado, depois do acordo firmado entre Washington e Bogotá. O comércio bilateral foi reduzido em 70%, prejudicando as duas economias. A seriedade desse movimento de Chavéz, e o modo como a Colômbia sentiu o golpe ficaria clara nos meses seguintes, ao ponto do atual presidente eleito, então ministro da defesa ter declarado sentir “grande afeto” pelo povo venezuelano. O fato é que os outros países do Pacto Andino simplesmente não têm volume econômico suficiente para absorver os produtos colombianos que a Venezuela.  

Alguns analistas têm dito que o problema talvez não seja exatamente com a Venezuela, mas dentro da estrutura de governo da própria Colômbia. As “provas” apresentadas por Uribe sobre a presença de militantes das FARC na Venezuela são muito pouco consistentes, remontando a relatórios de 1990. As declarações de Santos ainda como ministro de Uribe podem indicar uma intenção de negociar com a Venezuela, de forma a resolver o problema das relações econômicas.

Santos já presidente eleito, demonstrou mais diretamente intenções de entabular negociações com Venezuela e Equador, que classifica como “problemas diplomáticos”. Essa intenção fica ainda mais provável com a escolha, para a pasta das Relações Exteriores de Maria Ángela Honguín. Essa diplomata de carreira foi representante colombiana na ONU, até discordar da política de Uribe para os países vizinhos. Logo após a indicação, Santos enviou Holguín a Quito, para apresentar a seu colega equatoriano, Ricardo Patiño, um convite para que o presidente equatoriano comparecesse à cerimônia de posse. A ministra nomeada também deveria ter uma reunião com o chanceler venezuelano.

Embora tenha feito elogios às iniciativas de seu sucessor, a posição de Uribe, de fato, seria outra, de discordância com as diretrizes de seu sucessor. Analistas na própria Colômbia vêem  na denúncia de Uribe objetivo de marcar posição e, mais além, enviar uma mensagem clara a seu herdeiro político. Durante sua visita a Wasington, Uribe declarou pertencer “… a uma geração que não conheceu um só dia de paz. Minha prioridade é dar manutenção à dinâmica da minha política.” Declarações como essa visam justificar as políticas de segurança adotadas ao longo de seus dois mandatos. No auge de sua popularidade, Uribe chegou a alimentar planos de um terceiro mandato, que não chegaram a entusiasmar nem mesmo seus mais entusiasmados seguidores. Desencorajado de uma segunda modificação na constituição da Colômbia, Uribe parecia esperar que sua “Seguridad Democratica” fosse continuar como diretiva política para os próximos dez anos, pelo menos, ou até as FARC serem totalmente anuladas. As indicações de Santos para o futuro gabinete o teriam desagradado fortemente, e temeria que sua política de enfrentamento com a guerrilha, acabe sendo mitigada em nome da negociação.
Ou seja: Uribe não estaria disposto a ser colocado em segundo plano. Seu objetivo seria, então, entregar ao sucessor um fato consumado, as relações com a Venezuela estremecidas a tal ponto que qualquer negociação acabasse aparecendo como recuo diante do principal adversário. Essas discordâncias internas explicariam a moderação do presidente eleito com relação às denúncias do atual. Resta agora saber como Chavéz reagirá aos acenos colombianos, e se Santos terá jogo de cintura suficiente para transformar o espantalho favorito de seu mentor em “pessoa fantástica” – o que, além de recolocar a economia colombiana nos trilhos e distensionar a região, também poderia apontar Diego Maradona como capaz de reivindicar o cargo de ministro do exterior da Argentina::

Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::

parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::

O encontro do menino Wesley com a tecnologia ocidental::Perdoai-nos, Senhor, nós não sabemos o que fazemos::

Weley Gilbert - Recife, 1999 - Rio de Janeiro, 2010

Um projétil de fuzil automático FAL, calibre 7.62X51mm inicia sua trajetória deixando o cano da arma a uma velocidade de aproximadamente 860 metros por segundo, impulsão provocada pela expansão repentina do gás produzido por pouco menos de 10 gramas de pólvora química. Essa trajetória, caso não encontre nenhum obstáculo pelo caminho, percorrerá uns 4000 metros, até não mobilizar mais energia suficiente para movimentar o peso do projétil e superar o atrito do meio ambiente. Cairá então na terra, sem provocar dano. É – porque ninguém dispara um fuzil sem ter por objetivo provocar dano.

Um projétil de fuzil é uma dentre dezenas de grandes conquistas alcançadas pela humanidade. É o ponto de chegada da aplicação de princípios teóricos que foram sendo lentamente adquiridos, ao longo de 1000 anos, desde que os humanos descobriram que poderiam mobilizar energia através da produção repentina de certa quantidade de gás, e assim lançar um peso relativamente grande para a frente. É o produto final de enorme quantidade de cálculo, experiências, observação, correção; um pequeno pedaço moldado de liga de metais que exige, para ser fabricado, a articulação de diversas plantas industriais, as jóias da coroa do sistema econômico gerado pela Revolução Industrial.

Esse pequeno pedaço de metal tem o formato trocônico e pesa cerca de 10 gramas. Quando atinge o alvo, sua capacidade de penetração dependerá da dureza do obstáculo. A 450 metros, considerado o “alcance útil” desse tipo de munição, é capaz de atravessar 20 centímetros de madeira; a 200 metros, rompe facilmente uma parede de tijolos com mais-ou-menos 30 centímetros de largura; a essa distância, uma chapa de aço-cromo-níquel de 0,5 centímetros de espessura pode deter a trajetória de um projétil desses – é desse material que feita a blindagem do assoalho e do assento dos pilotos de helicópteros de assalto.

Os projéteis 7.62 NATO foram inventados para funcionar com os fuzis automáticos FN Herstal, imaginados pela indústria belga para equipar exércitos que, supunha-se na época – o início dos anos 1950 – logo estariam enfrentando o Exército Vermelho. O fato é que o Exército Vermelho nunca chegou, e essas armas de guerra foram parar nas mãos da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Por obra de muitos e muitos anos de políticas públicas inexistentes e de um discurso demagógico que militariza a questão da segurança pública. Na falta das tais políticas públicas, acreditam amplos setores da classe política, administradores e formadores de opinião, que uma polícia militarizada e violenta, tratando a população das zonas faveladas do Rio de Janeiro como território inimigo, aplacariam a paranóia das classes médias que se sentem sitiadas “apesar dos caros impostos que pagam”.

Pois no dia 16 de julho de 2010, a tecnologia ocidental, a falta de políticas públicas e a militarização da segurança encontraram com o garoto Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos de idade. Wesley estava sentado junto a uma janela, em uma escola pública no bairro Costa Barros, no Rio de Janeiro. A menos de 200 metros da escola, uma tropa da PMRJ foi recebida a tiros por criminosos instalados em uma favela. Foi a senha para o início de intenso tiroteio de armas automáticas. A menos de 200 metros, um projétil, provavelmente de FAL FN Herstal, provavelmente em alguma das versões indígenas fabricadas pela IMBEL, atingiu o peito de Wesley. Meia hora depois, o menino estava morto.

Caraca, poderíamos falar muita coisa sobre o assunto, mas como esse já foi bastante abordado por aqui, não vamos falar nada. Melhor fazer silêncio em homenagem à essa jovem vida abatida por um tiro de arma de guerra. E cobrar a justiça divina, visto que a das autoridades aqui da terra funcionou contra quem devia proteger.

Ontem, Wesley foi enterrado e o governador “pediu desculpas” à família do menino (parece, mas não é humor negro…); hoje o jornal O Globo publica uma matéria de página inteira na qual, dentre outros “corajosos posicionamentos”, chama a atenção para as próprias iniciativas e coloca em destaque “um histórico de falhas em ações”, no qual mistura, descaradamente, alhos e bugalhos, de modo a, quem sabe, aumentar a paranóia de seus leitores; hoje, ainda, uma ONG carioca vai “promover manifestação contra a morte de Wesley”… Claro, em Copacabana, porque Costa Barros é longe prá caramba…

Perdoai-nos, Senhor, nós não sabemos o que fazemos…::

Declínio? Talvez o fim de um sonho e começo de outro (uma Segunda Edição, pelos auspícios do blog NPTO)::

 

Imagem descaradamente "chupada" do blogue "Na prática a teoria é outra" espera o radator::, con permisso do doutor Celso de Barros.

Sobre os “drops” postados semana passada, em torno do possível declínio dos EUA, dois dos oito ou nove assíduos de causa:: fizeram comentários interessantes, que resolvi colocar como continuação da conversa anterior – afinal, tudo com que sonha o redator:: é um debate sobre as idéias pescadas na Grande Rede e postas por aqui. Os textos foram apenas ligeiramente editados, e são autoria e referência de nossa amiga Alba (o primeiro), e do inestimável Luiz Cândido, o seguinte. Por sinal, sugiro aos que tenham passado por lá, uma outra olhada no post anterior – para não ter trabalho, basta parar aqui. Relendo a coisa, o redator:: achou muitos furos de estilo e, pior, de conteúdo. Está disponível, pois, uma segunda edição, revista e aumentada.

Aproveitando a excelente referência da nossa Alba, estendo a questão do Ricúpero sobre os arsenais nucleares: para que serve a OTAN? Esta foi criada na Guerra Fria para “deter a ameaça vermelha na Europa”, havendo mesmo uma organização similar “do outro lado”, o Pacto de Varsóvia. A guerra acabou, o pacto foi extinto e seus antigos membros batem à porta da OTAN para se filiar. Mas qual o grande inimigo que há para justificar que esta organização não somente permaneça como ainda se amplie? Não me venham falar no “Terrorismo Internacional”, cujo combate é 99% de inteligência e 1% de ação localizada. Eu tenho a impressão que a OTAN permanece por simples inércia, para manter um clima de tensão que não faz qualquer sentido, para justificar gastos multibilhonários em armas e pesquisas militares, para embasar intervenções americanas como sendo de uma aliança mais representativa etc. etc. Enfim, a OTAN virou uma OEA, o que reduz as antigas potências européias a repúblicas de bananeira. (L.C.)

Pois é, a Guerra Fria induziu a essa cultura do desperdício: “Agora basta perguntar porque ainda são necessários arsenais nucleares gigantescos, em mãos dos EUA e da Rússia. Meia-dúzia de MIRVs (vetores de reentrada com ogivas múltiplas) para cada lado não seriam suficientes? Ou porque a Rússia precisa de submarinos de patrulha orbitando a costa dos EUA?” Coisa de quem não foi capaz de se adaptar aos novos tempos, principalmente num tema tão nevrálgico quanto o militar, em que várias guerrinhas/invasõesinhas bestas, como a invasão de Granada serviam pra desviar os americanos dos problemas domésticos e provar a supremacia em armas da terra dos bravos.

Eu poderia escrever mais, mas acho que o Rubens Ricupero escreveu um artigo interessante na Ilustríssima da FSP, de domingo (11/07). Como é para assinantes, peço vênia pra colar aqui [e o redator:: que não assina mais nenhum jornal de papel, agradece…]:

Lugar para sonhar (RUBENS RICUPERO)

Jovens europeus e dos EUA perderam a capacidade de sonhar, que migrou para países como China e Brasil
“A Europa continua a ser o melhor lugar para viver, mas não é bom lugar para sonhar.” Essa frase deu o tom a seminário de que participei em Portugal sobre o futuro europeu. Lembrei do que se dizia nos anos em que eu morava em Genebra: a Suíça era o país escolhido pelos ricos e famosos -Chaplin, Simenon, Graham Greene – não para viver, mas para morrer ou para esperar a morte com conforto e tranquilidade.
No contexto atual, é diferente; França, Itália, Espanha ainda são maravilhosas para se viver. Só que os jovens não têm mais futuro. Perdeu-se a esperança: a capacidade de crer que o dia de amanhã será melhor do que hoje, assim como hoje foi presumivelmente melhor que o dia de ontem.
O fenômeno não é restrito ao âmbito europeu. Nos Estados Unidos, a geração dos que completaram 18 anos no início do milênio não é mais capaz de reproduzir o desempenho dos pais e avós.
O desemprego nessa faixa está em 14%. Contando os que desistiram de buscar emprego, ultrapassa os 30%, níveis próximos aos da depressão dos anos 30.
Comparou-se muito a crise financeira de 2008 ao estouro da Bolsa de 1929. Acreditou-se que a eleição de Obama traria de volta o espírito mágico do New Deal de Franklin Roosevelt, antecipando a ressurreição da economia americana.
A realidade tem sido bem mais amarga: o desemprego teima em se manter perto de 10%, o país está ideologicamente dividido e polarizado, o sistema político tem medo até de prorrogar os benefícios aos milhões de desempregados. O otimismo da Era Roosevelt parece mais inatingível do que nunca.
Enquanto americanos e europeus discutem se a prioridade é cortar o deficit ou continuar a gastar para reavivar a economia, a capacidade de sonhar emigrou para outras latitudes. Quem sonha agora são os jovens chineses.
Sonhos singelos -comprar um minúsculo apartamento, precondição para poder casar, ganhar um pouco mais na fábrica- ou sonhos de consumo como das moças que esperam horas na fila para poder comprar artigos de grifes francesas de luxo em Xangai.
Os brasileiros também conseguiram ingressar na categoria dos povos que começaram a poder sonhar: com a casa própria, com o carro, um futuro para os filhos melhor que o deles. Juscelino Kubitschek tinha logrado vender ao país a ideia do desenvolvimento.
Talvez o maior êxito do presidente Lula tenha sido o de tornar contagiante a ideia do “sonho brasileiro” de consumo na hora em que o “sonho americano” entrou em crise.
Em sua “História da Guerra Fria”, André Fontaine intitulou o tomo dedicado à coexistência pacífica da época de Kruschev de “Uma só cama para dois sonhos”. A referência era a um provérbio chinês: “Leste e Oeste dormem no mesmo leito, mas sonham sonhos diferentes”.
A fim de devolver aos jovens a possibilidade de sonhar, é preciso unificar os sonhos de velhos economistas e políticos. O sonho de reequilibrar o orçamento terá de ser conciliado com o mais urgente, de reinventar uma economia dinâmica e rica em empregos.
No Brasil, sonho intenso, de acordo com o hino, já se sonha muito. Convém moderar o excesso antes que o sonho vire pesadelo, pois de pouco serve se o sonho for intenso, mas breve

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Uma “segunda edição” desse posto, para não perder a oportunidade de jogar gasolina na fogueira: o redator:: recomenda (ou, para aproveitar o espírito do posto anterior, e no melhor estilo do brigadeiro Sampaio, ordena…) a todos os oito ou nove assíduos uma visita ao último post do companheiro não-companheiro enepê, piloto o melhor blog sobre política em nossa língua: NPTO. A resenha crítica feita por ele sobre o “livraço” de FHC (a primeira vez que tive sincera vontade de ler algo escrito pelo “príncípe dos sociólogos brasileiros” desde que, uns quinze anos atrás, as lides doutourais obrigaram esse redator:: então ainda cheio de preteniões, a adquirir uma xeróquis do chatíssimo Dependência e desenvolvimento na América Latina, leitura a qual obrigaria o pior inimigo, devidamente batido…). Mas não, o assunto não são as reminiscências do redator:: mas o excelente texto lavrado pelo enepê. E, curiosamente, os dois assuntos têm relação. Afinal, até que ponto o declínio dos EUA pode ser considerado parte das questões discutidas por FHC, resenhadas pelo enepê, debatidas pelas dezenas de assíduos especializados que lá frequentam, apresentadas pelo L. C. e apontadas em Ricúpero, pela Alba?

De toda forma, vaza, pelo menos para este redator:: um interessante insight, que talvez possa acrescentar (apenas talvez, vejam bem) algo a discussão lá do NPTO: até que ponto comentaristas competentes, os que se apropriaram da Grande Rede como campo de combate de idéias, não colocaram de lado, cedo demais, algumas das mais poderosas “armas conceituais” da era pré-Rede? Refere-se o redator:: aqui à noção de ideologia – que continua sendo um dos mais poderosos MANPADS (piadinha tecnomilitar-hermética acessível apenas aos famosos “poucos” aqui do blogue…) eventualmente tirados do embornal de causa:: Rubens Ricúpero, no texto generosamente disponibizado pela Alba, fala em sonho; FHC fala (claro…) sobre si mesmo, mas sua conversa é uma tremenda autojustificação. Ambos parecem procurar se posicionar no corpo de um discurso hegemônico – ideológico, embora tenha este redator:: sentido, ao longo da leitura da densa resenha do enepê, um forte incômodo – a sensação de que fica faltando alguma coisa.

Claro, o “livraço” não foi lido (e provavelmente não será, tão cedo…), mas, talvez, mesmo assim causa:: possa acrescentar alguma coisa sacando o  tal MANPADS. O principal método da ideologia (segundo o teórico e assassino de esposas Louis Althusser) é a utilização do discurso lacunar. Nesse, uma série de proposições, nunca totalmente falsas, aponta para uma série de outras, que o são. Desse modo, a essência do discurso lacunar é o não-dito sugerido. Ora, ainda segundo o brilhante psicótico filósofo, a ideologia é produzida e consolidada no cruzamento entre produção acadêmico-científica, instituições de hegemonia e imprensa especializada e diária. A questão a pensar, e uma questão desanimadora, é que a elite da qual fazem parte tanto FHC quanto Ricúpero não produz sua ideologia, mas apropria e trabalha elementos da ideologia hegemônica, da qual são ambos tributários. Entra aí o velho problema, desdobramento privilegiado de uma velha e boa contradição de base: não se observa as condições concretas em que aquela (a ideologia hegemônica) foi produzida. As lacunas entre discurso e sociedade originam as feições peculiares que resultam do trabalho intelectual desenvolvido por esses agentes.

Claro, como observou o enepê em sua resenha crítica, o instrumental marxiano, por si só, não é mais capaz de dar conta de todas as contradições observáveis na sociedade brasileira e Ocidental, neste momento. Talvez seja o caso de apelar mais a Gilberto Gil e Torquato Neto, arautos de uma época menos complexa (???) – afinal, contradições específicas se desdobraram da contradição de base. Correto mas… Como fica a contradição de base, que gera um “príncipe sociológico” e um embaixador fernandista no mesmo caldeirão, um falando de sua própria produção discursiva e outro… de um sonho da era Lula?

Diria que ambos lançam mão de um interessante (por espertíssimo) truque: pela configuração da memória (ou seja, do que o presente capta, recupera e interpreta do passado), ambos tentam se recolocar contra um pano-de-fundo ainda indefinido. Nesse ponto, enepê capta com agudeza o filé da conversa de FHC: este tenta dar nó em pingo d´água ao ler na teoria da dependência, produto característicamente cepalino, o apontar da globalização. Nó em pingo d´água?.. Talvez nem tanto. 

Outra paradinha no filósofo pancada, Althusser. Doido ou não,  fez, nos anos 1960, significativa contribuição ao debate sobre a teoria marxista: a crítica ao economicismo e ao humanismo que, até aquela década, pautavam a leitura de Marx. Althusser construiu outra periodização dos principais textos marxianos, estabelecendo o corte entre o “jovem Marx”, ainda ideológico e não-marxista, um período de maturação, no qual Marx construiu o corpo conceitual de sua teoria, mas ainda orbitando a ideologia burguesa. O período da maturidade é aquele em que, em bases científicas, a teoria do materialismo histórico surgiu. O interessante, neste ponto, é que Althusser (que talvez não seja assim tão doido, afinal…) lançou mão do conceito de corte epistemológico para enxergar, na própria constituição da teoria marxista, a emergência da problemática científica a partir do campo da ideologia e em luta com ele. Pois bem: até que ponto a negação que FHC faz do caráter da teoria da dependência para buscar nela uma espécie de antecâmara da globalização, não é também uma tentativa de fazer uma nova periodização de sua produção intelectual, atrelada aos marcos do presente – a globalização e a geopolítica pós-Guerra Fria? É uma esperta estratégia indireta (pelo menos pelo que dá para entender, do texto do enepê...): ao datar sua teoria, negando o que a dita tem de realmente original, para tentar a atrelar a um humanismo ancorado em uma noção individualista de “homem” e à circulação mercantil, FHC atualiza sua posição como porta-voz de um novo discurso burguês. Ultima ratio, ao negar o que postulou, FH possivelmente busca qualificar-se, no passado (e alguém nega a importância do passado em nossa sociedade?..) como campeão da renovação da própria ideologia burguesa dominante.

Ricúpero (para quem não lembra, personagem de um dos maiores imbróglios da era imediatamente pré-FHC), por outro lado, admite a poderosa correção de rumo, iniciada a partir dos governos Lula. O sonho de que fala do embaixador é, por outro lado, a ratificação de um discurso: fora do capitalismo não há como sonhar. Ricúpero também apresenta uma imagem que a posteridade guardará de um período período histórico no qual são agentes.

Claro que o enepê, ao mergulhar na análise dos aspectos setoriais dos últimos vinte anos, apresentados no “livraço”, discute o tema muito melhor do que este redator:: é capaz. Entretanto, insistamos: falta alguma coisa. Essa coisa, diria, é a contradição de base. Claro, ainda que assumidamente petista, enepê se coloca de forma clara: “… um cara de uma tendência marxistazinha minúscula, que certamente deve ter acabado na semana seguinte, dizia que todas as questões raciais e culturais podiam ser reduzidas a questões de classe. Só faltaram jogar ele pela janela.” Bem, este redator:: acrescentaria: só faltaram, não – jogaram. Jogaram pela janela o que a prática política de esquerda e socialista tinha de confuso, arrogante, antidemocrático, com o que ela tinha de original, ou seja, o rigor analítico. No centro desse rigor, a distinção entre contradição de base – longe de ser resolvida -, e contradições específicas, inclusive… “Os brasileiros também conseguiram ingressar na categoria dos povos que começaram a poder sonhar: com a casa própria, com o carro, um futuro para os filhos melhor que o deles. Juscelino Kubitschek tinha logrado vender ao país a idéia do desenvolvimento.” Um sonho que talvez possa ser caracterizado como tremendo pesadelo, visto estar baseado em um modelo que, desde trinta anos, é (como comentou um dos especialistas lá do NPTO) é um “cadáver insepulto” – veja-se, por exemplo, o debate em torno do pré-sal, que envolve a crítica ao aparentemente recém-descoberto “modelo ultrapassado” baseado no “vício em petróleo” e na “ameaça ao meio-ambiente”. Falta, enfim, a questão do tal “corte epistemológico” – haveria um a separar FHC que se renega do FHC do “livraço”?

E o tal “sonho” de que fala Ricúpero? É mais um desdobramento da contradição de base? Até que ponto se sustentarão seis ou sete novas potências econômicas, com populações na casa de, cem, duzentos milhões de pessoas, querendo realizar “sonhos singelos”? Um modelo que, possívelmente, já deu o que tinha de dar e, quem sabe não apenas lá, mas também aqui.::

correção de tiro 1: enepê, quando é que você irá colocar causa:: na sua lista de blogues?..::

correção de tiro 2: MANPADS, acrônimo de Man Portable Air Defense SystemSistema Individual Portátil de Defesa contra Aeronaves -, usado aqui no blogue para derrubar UAVs enviados a partir de blogues como o do Mister X ou do(a?) impagável Nariz Gelado. Digo UAVs (Unmanned Air Vehicle, ou VANT – Veículo Aéreo Não-Tripulado) pois essas aeronaves não têm cérebro a bordo… (Outra piadinha tecnomilitar-hermética apenas compreessível pelos assíduos de causa:: Por sinal, um artigo sobre o tema, bem no espírito deste posto, aqui)::

Um rapaz das Forças Especiais::Regimento Sampaio::

Formatura comemorativa na passagem do 242° aniversário.

Como todos os oito ou nove leitores assíduos já devem ter percebido, toda vez que causa:: passa por um período de vacas magras (em função das 202 atividades que o redator:: mantém ao mesmo tempo…), no período seguinte, uma porção de textos desencontrados começam a ser postados. É quase como se todos os assíduos tivessem de ter seus  variados gostos em torno de história militar, estratégia, cultura material militar, curiosidades, etc., etc.,  satisfeitos. Assim, visto que ante-ontem foi publicado um texto mais “cabeça”, hoje o redator:: continuará dando vaza a sua insistência nessa coisa antiga e fora de moda chamada “tradição”, abominada por cada nove entre dez intelectuais moderninhos.

E para fazer com que essas pessoas (que não entenderam os objetivos do apelo de Dunga ao patriotismo – voltaremos a esse assunto, que dá muita liga…) torçam o nariz com ainda maior intensidade, vamos apresentar, hoje, a mais tradicional dentre as tradicionais unidades de “infantaria combatente” (como são chamadas, no EB as unidades de pronto emprego): o Primeiro Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), mais conhecido como “Regimento Sampaio”.

Como pesquisador amador de assuntos militares, o redator:: , embora entenda a importância da tradição como fator aglutinador de qualquer corporação, civil ou militar, não simpatiza com a genealogia de unidades militares que descobre origem de tropas blindadas brasileiras lá no Portugal manuelino. O contexto dos exércitos e da guerra no Antigo Regime torna impossível, na opinião aqui do blogue, traçar continuidades reais entre as unidades atuais e aquelas apontadas, trezentos ou quatrocentos anos atrás, como suas antecessoras. Assim, causa:: não irá buscar as origens do Regimento Sampaio no Terço do Rio de Janeiro (ou “Terço Velho“), tropa criada por ordem do governador-geral do Brasil, Mem de Sá, em 1567. O Terço Velho existiu de modo mais-ou-menos intermitente ao longo de todo o período colonial, e, em 1793, formou, com uma unidade trazida de Portugal em 1767, o Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Essa unidade foi depois incorporada ao exército da nação que se formou em 1822.

A Guerra do Paraguai, por outro lado, já permite traçar maiores continuidades com nossa época. Em 1864 a abertura das hostilidades do Paraguai contra Brasil e Argentina, encontra o “Primeiro de Infantaria” na região sul do continente, onde havia participado das guerras no Uruguai. Em 1865, o comandante do Exército Imperial na região do conflito, general Manuel Luís Osório, mandou criar uma nova unidade, a Terceira Divisão de Infantaria (3ª DI), que reuniu algumas unidades. Seu primeiro comandante foi o coronel Antônio de Sampaio. Dentro da genealogia militar que causa:: prefere levantar, este é o primeiro galho da árvore genealógica do Regimento Sampaio.

A 3ª DI, em função de ser lançada sempre na primeira linha, acabou recebendo dos soldados o apelido de “Divisão Encouraçada“. Seu comandante, pouco depois promovido a brigadeiro, sempre se destacava por “comer chumbo” junto com a tropa. Não é tão estranho: era um soldado de carreira, tendo iniciado sua trajetória militar em 1830, quando sentou praça no Exército Imperial. Seriamente ferido na batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866 (curiosamente, data de seu aniversário…), morreu quando era evacuado para a retaguarda. Os restos do brigadeiro cumpriram um périplo que deve ter sido quase tão grande quanto as marchas que a “Encouraçada” cumpriu durante os mais de cinco anos da conflagração (o leitor que se interessar pelas andanças dos ossos do patrono da infantaria brasileira pode clicar aqui; um histórico da 3ª DI, aqui). O título honorífico de “Divisão Encouraçada” foi atribuído à 3ª Divisão de Exército, uma grande unidade de cavalaria mecanizada constituída em 1979, dentro da reorganização do Exército Brasileiro.

O segundo – e muito mais frondoso – “galho genealógico” do “Regimento Sampaio” cresce a partir da reorganização do Exército Brasileiro levada a efeito a partir de 1908, pelo ministro da Guerra marechal Hermes da Fonseca. A reorganização era reivindicação dos militares que vinha desde a segunda metade do século 19. Uma das principais proposições era a profissionalização do exército. A partir de 1905, o péssimo estado da força terrestre (e também da Marinha, mas as desventuras desta ficam para outra vez…) e as constantes questões de fronteiras, que poderiam exigir, eventualmente, intervenção militar, tornavam urgente uma completa reforma. Uma das providências foi a negociação do envio de uma “missão militar” à Alemanha. Entre 1908 e 1910, três grupos de oficiais militares brasileiros lá estagiaram, para observar as doutrinas e métodos utilizados naquele país. De volta ao Brasil, esses jovens oficiais tornaram-se alvo do interesse, principalmente, da jovem oficialidade, grupo que via com desconfiança os generais (“gordos e acomodados”) e, principalmente, os civis (os “casacas”, “egoístas e dissimulados”) . Um forte movimento de conotação política, disfarçado sob a égide de “profissionalização”, surgiu entre essa oficialidade, e seus integrantes foram apelidado, algo pejorativamente, de “jovens turcos”. O termo acabou sendo adotado pelo próprio movimento, pois os militares brasileiros simpatizavam com o espírito reformador dos oficiais turcos. Esses, aglutinados em um movimento militar liderado pelo major Mustafah Kemal Atatürk (“pai dos turcos”), reivindicavam a modernização da sociedade turca no início dos anos 1910. Durante a 1ª GM, Kemal revelou-se competente comandante de tropas, o que só fez aumentar sua popularidade entre os militares brasileiros (mais sobre os jovens turcos?.. Dê uma paradinha aqui).

Esses oficiais brasileiros criaram, em 1913, a revista “A Defesa Nacional“, a princípio destinada a veicular as idéias do grupo. Logo a publicação (que existe até hoje) se tornou veículo das idéias políticas da jovem oficialidade, e foi fator para o sucesso das reformas.

Um dos principais pontos da reorganização era a transferência das principais unidades militares para sítios situados fora das cidades. Muitos oficiais “tarimbeiros” (de tropa) reclamavam que, dispersa pela cidade do Rio de Janeiro, a corporação não tinha como realizar exercícios em nível maior que o de batalhão. Uma das propostas setoriais apresentadas e levadas a cabo foi a construção da Vila Militar (hoje em dia bairro de classe média na Zona Oeste da cidade). O lugar era, originalmente, uma grande fazenda, e, no início do século 20, gastava-se um dia de marcha para chegar até lá. A construção de quartéis e residências começou em meados de 1908, e correu paralela à reestruturação do exército, ficando pronta em 1915. A demora deveu-se, em parte, a dificuldades em se localizar um sítio que fosse adequado a grandes exercícios militares, e à necessidade de instalar uma via férrea que ligasse a capital aos quartéis.

A reforma do Exército também implicou na introdução de nova doutrina, que tornasse a força capaz adotar, pelo menos em parte, os procedimentos da guerra moderna que as potências  européias estavam praticando, desde meados do século 19. Esse novo estilo de guerra tinha ficado evidente no rápido conflito entre franceses e alemães: movimentos amplos e rapidamente executados, iniciativa e poder de fogo superior apontavam para a superioridade da organização militar alemã. Foram essas novas normas organizativas que a reforma de Hermes da Fonseca tentou implantar no Brasil – embora não houvesse comparação possível entre a formação social alemã e a brasileira. Dentro desse espírito, o Exército da República – que então não tinha completado ainda duas décadas – buscou se reinventar, e foi criado, em 1908, o Primeiro Regimento de Infantaria, depois de extinto o antigo, aquele criado no final do século 18. Como diversas outras criadas na época, a nova unidade baseava-se no modelo “ternário”, adotado pelo exército alemão. Isso quer dizer que era organizado em torno de três batalhões, cada um com aproximadamente 700 homens (três companhias mais tropas especializadas). Para a formação do “Primeiro”, foram reunidos três batalhões, que já existiam desde o Império: o Primeiro de Infantaria (cujo quartel ficava em São Cristóvão), o Sétimo de Infantaria e o Vigésimo de Infantaria, unidades que remontavam ao Império, com longa tradição militar e experiência de combate. Essas unidades foram reformadas e reunidas na nova unidade orgânica.

O “Primeiro de Infantaria” foi uma das primeiras unidades do EB a emigrar para a Vila Militar. A partir de então, esteve presente em diversos eventos de caráter político, como a Revolução de 1930, a Guerra Civil de São Paulo, em 1932, e a repressão à Intentona Comunista de 1935. Em 1940, seguindo a tendência do Estado Novo em valorizar a história como fonte da tradição e do espírito de corpo, que levou à adoção de diversos personagens militares como patronos das forças singulares, armas e especialidades militares, o então “Primeiro de Infantaria” recebeu a denominação de “Regimento Sampaio”. O próprio Sampaio foi guindado à condição de “patrono da arma de infantaria”. 

Em 1943, com o Brasil em guerra contra o Eixo e a criação da  FEB, o “Regimento Sampaio” foi designado para integrar a divisão de infantaria a ser formada. Um dos motivos (talvez o principal) é bastante prosaico: geralmente, os chefes políticos do Exército cumpriam seus períodos de oficiais inferiores (segundos- e primeiros-tenentes, capitães e majores) em regimentos aquartelados na Vila Militar, para ficarem perto do Rio de Janeiro; outro motivo é que o “Primeiro” sempre foi considerado unidade de elite, e não passava pela cabeça dos chefes do Exército deixá-lo de fora da FEB – ainda que o estado de aprestamento não fosse lá dos melhores. Como, diga-se de passagem não era em todo o Exército.

A formação da FEB incluiu também os regimentos 6º de Infantaria (de Caçapava, São Paulo, o “Regimento Ipiranga“) e 11° de Infantaria (de São João Del Rei, Minas Gerais, atualmente 11° Batalhão de Infantaria de Montanha, o “Regimento Tiradentes”, atualmente os “boinas cinzas”, unidade de Pronto Emprego). Claro que a inclusão dessas unidades visava premiar, politicamente, os principais estados da Federação, embora a incorporação de efetivos tenha sido feita em todo o Brasil. O país teria certa dificuldade (para sermos condescendentes…) em formar uma tropa capaz de combater em contexto moderno. A organização do Exército baseava-se ainda nos ensinamentos da Missão Militar Francesa, contratada depois da 1ª GM. A FEB teve de se adequar à organização adotada pelos norte-americanos, que, por sua vez, vinham reorganizando suas forças armadas desde o final dos anos 1930. Os EUA tinham adotado, a partir de 1939, uma estrutura orgânica e administrativa semelhante aquelas adotadas na Europa. Contando com um potencial humano superior ao da Alemanha (em 1940, tinha uma população de uns 170 milhões de habitantes, contra 90 milhões da Alemanha), os planejadores norte-americanos imaginaram que poderiam contornar certos problemas aumentando o tamanho das grandes unidades (as divisões).

Neste porto, vale um parentese para examinar exatamente o que constitui uma “divisão” – no caso que nos interessa, uma divisão no formato norte-americano, aquele que foi copiado pela FEB – e pelo “Primeiro de Infantaria”.

Os EUA mobilizaram sessenta e sete divisões de infantaria durante a 2ª GM, dentre as  quais em torno de quarenta eram consideradas “de primeira linha”. Quarenta e duas divisões serviram no ETO (Teatro de Operações Europeu) e no MTO (Teatro de Operações do Mediterrâneo); as restantes 23 foram alocadas no PTO (Teatro de Operações do Pacífico). Essas unidades eram baseadas em conceito relativamente novo – de fato, tinham sido formadas para a guerra que se avizinhava.

A primeira forma de organização divisional adotada pelos EUA surgiu durante a 1ª GM. Eram organizadas com base no modelo francês, mas, depois da Guerra esse modelo foi substituído por outro, híbrido, que adotava a organização “ternária” – cada divisão possuía três regimentos de infantaria e cada regimento era dotado de três batalhões. Completavam a unidade elementos de artilharia divisionária, formados por quatro batalhões; um esquadrão motorizado de reconhecimento com certa capacidade de choque; unidade de engenharia, serviços médicos e pessoal administrativo. O Estado-maior era único, atendendo a toda divisão, embora os regimentos tivessem os seus.  O comandante era um general de duas estrelas (no exército dos EUA, major-general), que podia ter um general de uma estrela (brigadeiro, posto inexistente no Exército Brasileiro) ou um coronel como assistentes. A artilharia era comandada por outro brigadeiro, os regimentos de infantaria, por coronéis, e tenente-coronéis comandavam os batalhões. Essa organização foi consolidada em 1940-1941. Por volta do início de 1943, com a estabilização da frente do Pacífico e o início dos preparativos para os desembarques no norte da África, a dificuldade de formar oficiais e, principalmente, encontrar oficiais para serem promovidos a generais fez com que os postos de comando intermediários fossem rebaixados. Os regimentos de menor efetivo (como os de cavalaria, ou seja, infantaria blindada) ou de segunda linha (como os de colored troops, unidades de negros comandadas por oficiais brancos da Guarda Nacional e de engenharia de contruções) passaram a ser comandados por tenentes-coronéis, e os batalhões de infantaria, por majores com experiência de tropa (mais tarde, de combate).

A dotação de pessoal e veículos das grandes unidades era constantemente aumentada, com base na experiência de combate. Em meados de 1944, chegou ao ponto de reunir pouco mais de 14.300 efetivos, uns cinqüenta canhões de campanha (três baterias de obuses 105 mm – em inglês, field howitzer , rebocados por caminhões, e uma bateria de obuses 155 mm); havia também uma bateria de canhões AT de 57 mm e cerca de 1400 veículos. As divisões de infantaria “de primeira” também dispunham de algo entre oito e doze aeronaves ligeiras de observação.

Os regimentos de infantaria reproduziam a organização da divisão, cada qual com três batalhões, cada um com três companhias; em cada batalhão, uma quarta companhia encarregava-se dos “petrechos pesados”, ou seja, metralhadoras pesadas – montadas em tripés e operadas por uma “seção” de quatro homens – e morteiros leves. Os batalhões dispunham de uma quarta companhia, “de comando e serviços”, que reunia Inteligência, Reconhecimento, Comunicações, Engenharia, Saúde e Administração, alcançando, quando completos, pouco mais de 900 efetivos, comandados por um tenente-coronel ou major. No total, um regimento de infantaria, comandado por um coronel, reunia cerca de 3.300 efetivos. Já as unidades “divisionárias”, que reuniam o pessoal da artilharia divisionária, comunicações, engenharia de combate, transportes, logística, saúde, administração, o Estado-maior e, em certos casos, infantaria de reserva, chegavam a 5.000 efetivos.

Em teoria, era um organização capaz de dar conta de um setor de frente de aproximadamente trinta quilômetros de largura e profundidade variável, conforme o terreno. A experiência de combate mostrou que a teoria, na prática, era outra, e de fato, bastavam algumas semanas em combate para que a frente se tornasse “porosa”, já que as baixas não eram repostas em tempo hábil. Esse era o problema que os alemães não tinham conseguido resolver, depois de 1943; os norte-americanos só vieram a senti-lo plenamente no final de 1944, com a inesperada contra-ofensiva das Ardenas.

A FEB foi organizada como um tropa norte-americana do tipo descrito acima, o que não foi feito sem bastante trabalho. A principal unidade era a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária que, com pequenas diferenças (por exemplo, não recebeu obuses 105 automóveis, que se tornaram comuns na época da chegada à Itália, não tinha artilharia anti-aérea e o principal armamento de infantaria era o fuzil M1903 Springfield), era igual às divisões de infantaria norte-americanas. O “Primeiro de Infataria” era o primeiro regimento da FEB. A organização da tropa começou com estágios de oficiais nos cursos regulares de infantaria e artilharia, em Fort Benning, Georgia e, mais tarde, com toda a tropa instruída no Brasil conforme os  padrões norte-americanas e complementando a instrução na Itália, nas diversas “Escolas Treinamento de Comando e Combate” (Leadership and Battle Training School). Valeu à pena – apesar das controvérsias que existem até hoje, no geral, a tropa brasileira se saiu bem. E graças ao período de quase nove meses integrado ao MTO, o Exército Brasileiro tomou contato com as doutrinas militares que iriam prevalecer nas seguintes três décadas, adquiriu experiência de combate e, principalmente, constituiu uma tradição de inestimável valor memorial. 

De volta ao Brasil, a FEB foi mantida como base para o que talvez tenha sido a maior reorganização pela qual o EB passou desde sua criação como corporação de estado, em 1822. Envolvidos na Guerra Fria, os norte-americanos queriam conquistar a fidelidade das forças armadas de seus aliados periféricos, cujas sociedades consideravam suscetíveis à “influência de Moscou”. Dentre outros, dois métodos se destacaram: oferecer o concurso de instrutores militares e disponibilizar a esses aliados certa quantidade de armamento relativamente moderno a preços subsidiados, através dos Acordos de Cooperação Militar e dos Programas de Vendas Estrangeiras (Foreign Military Sales) que decorreram deles, a partir de 1947. O resultado é que, dez anos após o final da 2ª GM, o Brasil estava entre os aliados mais confiáveis dos EUA e o Exército tinha alcançado o maior efetivo desde a Guerra do Paraguai, sendo o maior da América Latina, e talvez um dos três maiores do Hemisfério Sul. No início dos anos 1960, podia colocar em campo, caso necessário, um corpo blindado (uma divisão blindada e duas motorizadas) e cinco divisões de infantaria, com um complemento de umas 200 peças de artilharia de campanha dos mais variados calibres.

Embora a base da estrutura persistisse aquela adotada para a FEB e depois disseminada pelos instrutores norte-americanos, diversas reorganizações administrativas e orgânicas foram implementadas, ao longo da segunda metade do século 20. Um aspecto que, entretanto, ainda ligava o exército de então aquele reformado em 1908 era a Vila Militar, que, em 1960, era o maior aquartelamento de tropas terrestres da América Latina.

Do ponto de vista organizacional, algumas mudanças foram sendo implementadas nos anos 1950, de modo a aumentar a eficiência administrativa. Mas apenas nos anos 1970 o Exército passou por nova reestruturação, que viria a modificar a organização adotada nos anos imeditamente posteriores à Segunda Guerra Mundial. O novo formato começou a ser estudado no final dos anos 1960, e buscava dar à força terrestre maior flexibilidade, baseada sobretudo em padrões mais avançados de integração e mobilidade. As antigas grandes unidades de armas (divisões de cavalaria e infantaria e os regimentos de cavalaria mecanizada e blindada) foram reunidas em grandes unidades denominadas “Divisões de Exército”, formações de todas as armas, capazes de alto grau de iniciativa. As principais unidades orgânicas passaram a ser as brigadas, unidades de arma, de efetivo maior do que o dos antigos regimentos, organizadas em torno de tropas motorizadas, com complementos próprios de artilharia e engenharia. Essa nova proposta de organização levou, em 1971, à extinção do Primeiro Regimento de Infantaria e, em seu lugar foi criado o 1° Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), ou 1° BIMtz(Es). Essa unidade é concebida para ser referência do Exército Brasileiro, no que tange à aplicação de doutrinas e métodos, e foi integrado à uma nova grande unidade,  a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, núcleo do Grupamento de Unidades Escola do EB.

A 9ª BdaInfMtz, dentro da nova doutrina, que vem sendo implantada no Exército desde os anos 1980, é uma das unidades da Força de Deslocamento Rápido/Pronto Emprego. A idéia do Pronto Emprego firmou-se quando o Exército, a partir dos anos 1980, posto diante de sucessivos cortes de verba e da diminuição progressiva de seu orçamento, passou, na prática, a ser divido em dois (embora nenhum milico admita isso…): o Pronto Emprego e o resto. O Pronto Emprego – cujo conceito baseia-se em discussões realizadas, nos anos 1990, no âmbito da ONU – é parte do EB capaz de ser rapidamente mobilizada e colocada, em caso de necessidade, em condições de deslocamento, por terra, ar ou mar. Sob a essa designação estão unidades consideradas de elite, com dotação de pessoal, equipamentos e suprimentos mantidos, tanto quanto possível, próximos do ideal. A FDR está subordinada administrativamente à 1ª Divisão de Exército, e a 9ª Motorizada é considerada núcleo dessa força, juntamente com os pára-quedistas, os “boinas cinzas” e os aeromóveis – e também os Fuzileiros Navais. Suas principais unidades são o “Primeiro de Infantaria”, o “Segundo de Infantaria” (o tradicionalíssimo “Dois de Ouro”, que disputa com o “Sampaio” a honra de ser a mais antiga unidade do EB…), o 15° Regimento de Cavalaria Mecanizado (Escola), o também tradicional “ReCMec”, a primeira motorizada do Exército formada no espírito das novas doutrinas, em 1946 (vale à pena dar uma paradinha aqui), o Batalhão Escola de Engenharia, o tradicional (como não seria, devem estar se perguntando os oito ou nove leitores…) “Batalhão Villagran Cabrita”  e o Batalhão Escola de Comunicações. Outras unidades estão integradas à esta brigada, mas o “Primeiro de Infantaria” junto com as outras duas (o “Dois de Ouro” e o “ReCMec”), são as jóias da coroa, não só do GUES, mas do Exército Brasileiro::

Drops para o fim de semana::Declínio?.. Provavelmente…

Seção 8ª das Normas de uso do Pavilhão dos EUA: "O pavilhão nacional nunca deverá ser hasteado com o campo da união para baixo, a não ser em casos de séria desgraça ou em que as vidas e propriedades se encontrem sob grave ameaça."

O redator:: tem andado bastante assoberbado, de modo que o blogue das boas causas passa por mais um período de vacas magras. Entretanto, para não perder a simpatia dos oito ou nove leitores, causa:: publica um texto bastante interessante, pirateado (estamos na Grande Rede, afinal…) do Washington Post (quem manda eles disponibilizarem a edição completa?..). Foi publicado na coluna, assinada pelo jornalista Robert McCartney, no domingo, 4 de julho. Para quem não lembra, é o feriadão em que os norte-americanos comemoraram 244 anos da fundação do país, o Independence Day. O texto de McCartney chama atenção pelo pessimismo intrínseco, mas também pela dose de auto-indulgência que vaza por todas as letras. Por algum motivo, a conclusão lembrou ao redator:: a cena final do filme “O franco-atirador”, de Michael Cimino – um grande filme sobre a história recente dos EUA. O que uma coisa pode ter com a outra? Bem… Leiam o texto, vejam o filme. Para a parte, “leiam o texto”, aqui vai uma tradução (possivelmente capenga…) feita às pressas pelo próprio redator. causa:: pede, pois a indulgência de seus cultíssimos e cosmopolitas leitores::

O país está em declínio? Provavelmente, mas um salto adiante é possível.

O feriado nacional mais patriótico (o da independência) me trouxe uma pergunta: os EUA estão em declínio? Não estou sozinho nessa divagação. Gastaria uma semana para ler todos os livros e artigos sobre o tema, publicados nos últimos anos. Muitos comparam nossa sociedade ao Império Romano. O título de um livro expõe o tema de forma resumida: Nós somos Roma?” (Nota do redator:: – fui procurar esse livro e até pensei em comprar, mas… Tenho melhores usos para 32 dólares. Para quem tiver curiosidade – e paciência para ler em inglês, uma resenha aqui)

É uma situação incomum para os americanos. A história do país tem sido, em geral, de expansão e ascendênc. Após a Segunda Guerra Mundial, éramos uma superpotência; quando a URSS entrou em colapso, nos tornamos a única superpotência.

Três fatos explicam nosso tropeço. Um é a ascensão da China, vista como um concorrente para nos substituir no topo. Outro é a crise de 2008, que prejudicou a confiança no nosso modelo de economia de livre mercado. O terceiro é a percepção de que o país não é capaz de lidar com seus maires desafios: déficit orçametário, desemprego, vício em petróleo, imigração e deterioração da infraestrutura.

Para responder é necessário dividir a pergunta em duas partes. Estamos em declínio em relação a outros países? E estamos em declínio em termos absolutos?

Em força militar, por exemplo, os EUA estão inquestionavelmente no topo. Nossos gastos excedem o dos dez países que mais investem em defesa e nossa tecnologia não tem igual.

O governo Bush nos custou a boa vontade no exterior. Também complica quando uma instituição amerinana, Wall Street, era o principal acusado no pior desmoronamento financeiro global em sete décadas.

Pelo lado bom, Barack Obama é bem visto no exterior. A democracia e a liberdade americana ainda inspiram estrangeiros. A cultura popular americana, de Hollywood ao Facebook ainda é dominante.

Um campo em que perdemos espaço foi na economia. Em parte porque o restante do mundo, especialmente a Ásia, está nos alcançando. O problema é que a ecnomia global é desequilibrada. A globalização, que defendemos, levou à exportção de milhões de empregos americanos. Isso significa que estamos administrando déficits comerciais. O país está dividido entre duas escolhas dolorosas> Devemos gastar mais para combater o desemprego? Ou devemos conter o déficit do governo?

Essas incertezas levam à outra metade da da questão: estamos em declínio em termos absolutos? A nossa cultura política está tão emperrada qie somos incapazes de lidar com antigos problemas? As provas, no momento, sugerem que a resposta é “sim”. Considerando três problemas:

1. O vazamento no Golfo do Méxiconos fez lembrar de nossa dependência de petróleo, mas não há movimentos para substituir nossos hábitos energéticos.

2. Todos lamentam a violação das leis de imigração, mas nossos líderesnão chegam a um acordo que poderia fornecer a mistura de anistia gradual, sanções a empregadores e um programa de trabalhador visitante.

3. A infraestrutura está se deterioriando, de estradas a linhas de metrô. Mas a população não quer pagar mais para resolver o problema.

Na raiz do impasse está a profunda discordância entre progressistas e conservadores sobre o t amanho e o papel do governo. Para acabar com isso, é necessário um grande compromisso. Como condição para elevar os fundos públicos, os progressistas precisam mostrar que sabem usar o dinheiro sabiamente. Conservadores devem demonstrar que se preocupam com o bem comum.

Então, a resposta à pergunta: sim, os EUA estão em declínio, principalmente porque deixamos nossa economia e cultura política se deteriorarem. Mas ainda podemos reverter o quadro. Precisamos retomar a visão e a coragem do nosso primeiro governo nacional. Com isso, os EUA podem retomar a ascensão que têm experimentado desde 1776.

Muito bem… É um texto pessimista por apontar algumas questões que não têm volta. Talvez a parte política seja assunto mais do gosto de nosso colega NPTO – por sinal, o texto parece ao redator:: exemplo acabado de “na ´teoria a prática é outra”… Alguns pontos, entretanto, saltam à vista, e, já que causa:: tem bosquejado o assunto – grande estratégia – vejamos… Por exemplo, é fato que os EUA continuam a maior potência militar do planeta, e isso tão cedo não mudará. Por outro lado, desde a Segunda Guerra Mundial, não conseguem vencer guerrinhas bestas como a do Vietnam e do Afeganistão (que, se prestarmos atenção à mídia, está se configurando como mais um fiasco monumental). O estilo de guerra dos EUA é como o estilo de vida dos EUA: perdulário, dependente de combustível e pouco disposto ao sacrifício. Exércitos viciados em apoio aéreo e alta tecnologia que desaprenderam o verdadeiro espírito da guerra – quer se queira, quer não – de que falavam gente como Grant, Custer e Patton: “tripas e glória”. Parece que as “tripas” e a “glória” estão agora do outro lado, e a “alta tecnologia” serve apenas para massacrar civis, vez por outra. 

A Guerra Fria, diriam alguns… A Guerra Fria não conta. Não foi “guerra”, propriamente dita, mas um movimento de política internacional que levou os EUA ao início do ciclo de déficits que vêm até hoje, e que lhe tiraram a paz (para usar um trocadilho muito ao gosto de Wiston Churchill). A tendência à “desmaterialização” da econômia a que se refere o colunista foi um desses movimentos – tornar o capitalismo mais eficiente significou desmontar o estado de bem-estar social que vigorou nos EUA e na Europa Ocidental desde 1950. Ninguém pensou em buscar uma sociedade solidária e auto-sustentável, mas em criar condições para que o espírito de predação e autofagia pudesse novamente vigorar. O redator:: se pergunta se não estaria na capacidade do estado em suprir as necessidades de seus cidadãos, a verdadeira “força” do Ocidente, e não residiria aí sua capacidade de mobilização internacional. Explica-se, então, a incapacidade não apenas dos EUA, mas  da economia ocidental (afinal, a Europa também está virando geléia, não está?..) em lidar com o problema do modelo de expansão econômica, que implica em lidar com a questão do tal “mercado” (na verdade, o sindicato de parasitas que domina a cena política), do desemprego, das matrizes energéticas e da economia industrial. Certamente um monte de sábios resmungará, de forma complacente: não é assim tão simples. De fato, mas não significa que não hajam alternativas. Faltou, no texto incrivelmente auto-indulgente de MsCartney, pelo menos indicar que a verdadeira coragem talvez esteja em admitir que o tempo de “donos do mundo”, para os EUA, possivelmente acabou::