Declínio? Talvez o fim de um sonho e começo de outro (uma Segunda Edição, pelos auspícios do blog NPTO)::


 

Imagem descaradamente "chupada" do blogue "Na prática a teoria é outra" espera o radator::, con permisso do doutor Celso de Barros.

Sobre os “drops” postados semana passada, em torno do possível declínio dos EUA, dois dos oito ou nove assíduos de causa:: fizeram comentários interessantes, que resolvi colocar como continuação da conversa anterior – afinal, tudo com que sonha o redator:: é um debate sobre as idéias pescadas na Grande Rede e postas por aqui. Os textos foram apenas ligeiramente editados, e são autoria e referência de nossa amiga Alba (o primeiro), e do inestimável Luiz Cândido, o seguinte. Por sinal, sugiro aos que tenham passado por lá, uma outra olhada no post anterior – para não ter trabalho, basta parar aqui. Relendo a coisa, o redator:: achou muitos furos de estilo e, pior, de conteúdo. Está disponível, pois, uma segunda edição, revista e aumentada.

Aproveitando a excelente referência da nossa Alba, estendo a questão do Ricúpero sobre os arsenais nucleares: para que serve a OTAN? Esta foi criada na Guerra Fria para “deter a ameaça vermelha na Europa”, havendo mesmo uma organização similar “do outro lado”, o Pacto de Varsóvia. A guerra acabou, o pacto foi extinto e seus antigos membros batem à porta da OTAN para se filiar. Mas qual o grande inimigo que há para justificar que esta organização não somente permaneça como ainda se amplie? Não me venham falar no “Terrorismo Internacional”, cujo combate é 99% de inteligência e 1% de ação localizada. Eu tenho a impressão que a OTAN permanece por simples inércia, para manter um clima de tensão que não faz qualquer sentido, para justificar gastos multibilhonários em armas e pesquisas militares, para embasar intervenções americanas como sendo de uma aliança mais representativa etc. etc. Enfim, a OTAN virou uma OEA, o que reduz as antigas potências européias a repúblicas de bananeira. (L.C.)

Pois é, a Guerra Fria induziu a essa cultura do desperdício: “Agora basta perguntar porque ainda são necessários arsenais nucleares gigantescos, em mãos dos EUA e da Rússia. Meia-dúzia de MIRVs (vetores de reentrada com ogivas múltiplas) para cada lado não seriam suficientes? Ou porque a Rússia precisa de submarinos de patrulha orbitando a costa dos EUA?” Coisa de quem não foi capaz de se adaptar aos novos tempos, principalmente num tema tão nevrálgico quanto o militar, em que várias guerrinhas/invasõesinhas bestas, como a invasão de Granada serviam pra desviar os americanos dos problemas domésticos e provar a supremacia em armas da terra dos bravos.

Eu poderia escrever mais, mas acho que o Rubens Ricupero escreveu um artigo interessante na Ilustríssima da FSP, de domingo (11/07). Como é para assinantes, peço vênia pra colar aqui [e o redator:: que não assina mais nenhum jornal de papel, agradece…]:

Lugar para sonhar (RUBENS RICUPERO)

Jovens europeus e dos EUA perderam a capacidade de sonhar, que migrou para países como China e Brasil
“A Europa continua a ser o melhor lugar para viver, mas não é bom lugar para sonhar.” Essa frase deu o tom a seminário de que participei em Portugal sobre o futuro europeu. Lembrei do que se dizia nos anos em que eu morava em Genebra: a Suíça era o país escolhido pelos ricos e famosos -Chaplin, Simenon, Graham Greene – não para viver, mas para morrer ou para esperar a morte com conforto e tranquilidade.
No contexto atual, é diferente; França, Itália, Espanha ainda são maravilhosas para se viver. Só que os jovens não têm mais futuro. Perdeu-se a esperança: a capacidade de crer que o dia de amanhã será melhor do que hoje, assim como hoje foi presumivelmente melhor que o dia de ontem.
O fenômeno não é restrito ao âmbito europeu. Nos Estados Unidos, a geração dos que completaram 18 anos no início do milênio não é mais capaz de reproduzir o desempenho dos pais e avós.
O desemprego nessa faixa está em 14%. Contando os que desistiram de buscar emprego, ultrapassa os 30%, níveis próximos aos da depressão dos anos 30.
Comparou-se muito a crise financeira de 2008 ao estouro da Bolsa de 1929. Acreditou-se que a eleição de Obama traria de volta o espírito mágico do New Deal de Franklin Roosevelt, antecipando a ressurreição da economia americana.
A realidade tem sido bem mais amarga: o desemprego teima em se manter perto de 10%, o país está ideologicamente dividido e polarizado, o sistema político tem medo até de prorrogar os benefícios aos milhões de desempregados. O otimismo da Era Roosevelt parece mais inatingível do que nunca.
Enquanto americanos e europeus discutem se a prioridade é cortar o deficit ou continuar a gastar para reavivar a economia, a capacidade de sonhar emigrou para outras latitudes. Quem sonha agora são os jovens chineses.
Sonhos singelos -comprar um minúsculo apartamento, precondição para poder casar, ganhar um pouco mais na fábrica- ou sonhos de consumo como das moças que esperam horas na fila para poder comprar artigos de grifes francesas de luxo em Xangai.
Os brasileiros também conseguiram ingressar na categoria dos povos que começaram a poder sonhar: com a casa própria, com o carro, um futuro para os filhos melhor que o deles. Juscelino Kubitschek tinha logrado vender ao país a ideia do desenvolvimento.
Talvez o maior êxito do presidente Lula tenha sido o de tornar contagiante a ideia do “sonho brasileiro” de consumo na hora em que o “sonho americano” entrou em crise.
Em sua “História da Guerra Fria”, André Fontaine intitulou o tomo dedicado à coexistência pacífica da época de Kruschev de “Uma só cama para dois sonhos”. A referência era a um provérbio chinês: “Leste e Oeste dormem no mesmo leito, mas sonham sonhos diferentes”.
A fim de devolver aos jovens a possibilidade de sonhar, é preciso unificar os sonhos de velhos economistas e políticos. O sonho de reequilibrar o orçamento terá de ser conciliado com o mais urgente, de reinventar uma economia dinâmica e rica em empregos.
No Brasil, sonho intenso, de acordo com o hino, já se sonha muito. Convém moderar o excesso antes que o sonho vire pesadelo, pois de pouco serve se o sonho for intenso, mas breve

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Uma “segunda edição” desse posto, para não perder a oportunidade de jogar gasolina na fogueira: o redator:: recomenda (ou, para aproveitar o espírito do posto anterior, e no melhor estilo do brigadeiro Sampaio, ordena…) a todos os oito ou nove assíduos uma visita ao último post do companheiro não-companheiro enepê, piloto o melhor blog sobre política em nossa língua: NPTO. A resenha crítica feita por ele sobre o “livraço” de FHC (a primeira vez que tive sincera vontade de ler algo escrito pelo “príncípe dos sociólogos brasileiros” desde que, uns quinze anos atrás, as lides doutourais obrigaram esse redator:: então ainda cheio de preteniões, a adquirir uma xeróquis do chatíssimo Dependência e desenvolvimento na América Latina, leitura a qual obrigaria o pior inimigo, devidamente batido…). Mas não, o assunto não são as reminiscências do redator:: mas o excelente texto lavrado pelo enepê. E, curiosamente, os dois assuntos têm relação. Afinal, até que ponto o declínio dos EUA pode ser considerado parte das questões discutidas por FHC, resenhadas pelo enepê, debatidas pelas dezenas de assíduos especializados que lá frequentam, apresentadas pelo L. C. e apontadas em Ricúpero, pela Alba?

De toda forma, vaza, pelo menos para este redator:: um interessante insight, que talvez possa acrescentar (apenas talvez, vejam bem) algo a discussão lá do NPTO: até que ponto comentaristas competentes, os que se apropriaram da Grande Rede como campo de combate de idéias, não colocaram de lado, cedo demais, algumas das mais poderosas “armas conceituais” da era pré-Rede? Refere-se o redator:: aqui à noção de ideologia – que continua sendo um dos mais poderosos MANPADS (piadinha tecnomilitar-hermética acessível apenas aos famosos “poucos” aqui do blogue…) eventualmente tirados do embornal de causa:: Rubens Ricúpero, no texto generosamente disponibizado pela Alba, fala em sonho; FHC fala (claro…) sobre si mesmo, mas sua conversa é uma tremenda autojustificação. Ambos parecem procurar se posicionar no corpo de um discurso hegemônico – ideológico, embora tenha este redator:: sentido, ao longo da leitura da densa resenha do enepê, um forte incômodo – a sensação de que fica faltando alguma coisa.

Claro, o “livraço” não foi lido (e provavelmente não será, tão cedo…), mas, talvez, mesmo assim causa:: possa acrescentar alguma coisa sacando o  tal MANPADS. O principal método da ideologia (segundo o teórico e assassino de esposas Louis Althusser) é a utilização do discurso lacunar. Nesse, uma série de proposições, nunca totalmente falsas, aponta para uma série de outras, que o são. Desse modo, a essência do discurso lacunar é o não-dito sugerido. Ora, ainda segundo o brilhante psicótico filósofo, a ideologia é produzida e consolidada no cruzamento entre produção acadêmico-científica, instituições de hegemonia e imprensa especializada e diária. A questão a pensar, e uma questão desanimadora, é que a elite da qual fazem parte tanto FHC quanto Ricúpero não produz sua ideologia, mas apropria e trabalha elementos da ideologia hegemônica, da qual são ambos tributários. Entra aí o velho problema, desdobramento privilegiado de uma velha e boa contradição de base: não se observa as condições concretas em que aquela (a ideologia hegemônica) foi produzida. As lacunas entre discurso e sociedade originam as feições peculiares que resultam do trabalho intelectual desenvolvido por esses agentes.

Claro, como observou o enepê em sua resenha crítica, o instrumental marxiano, por si só, não é mais capaz de dar conta de todas as contradições observáveis na sociedade brasileira e Ocidental, neste momento. Talvez seja o caso de apelar mais a Gilberto Gil e Torquato Neto, arautos de uma época menos complexa (???) – afinal, contradições específicas se desdobraram da contradição de base. Correto mas… Como fica a contradição de base, que gera um “príncipe sociológico” e um embaixador fernandista no mesmo caldeirão, um falando de sua própria produção discursiva e outro… de um sonho da era Lula?

Diria que ambos lançam mão de um interessante (por espertíssimo) truque: pela configuração da memória (ou seja, do que o presente capta, recupera e interpreta do passado), ambos tentam se recolocar contra um pano-de-fundo ainda indefinido. Nesse ponto, enepê capta com agudeza o filé da conversa de FHC: este tenta dar nó em pingo d´água ao ler na teoria da dependência, produto característicamente cepalino, o apontar da globalização. Nó em pingo d´água?.. Talvez nem tanto. 

Outra paradinha no filósofo pancada, Althusser. Doido ou não,  fez, nos anos 1960, significativa contribuição ao debate sobre a teoria marxista: a crítica ao economicismo e ao humanismo que, até aquela década, pautavam a leitura de Marx. Althusser construiu outra periodização dos principais textos marxianos, estabelecendo o corte entre o “jovem Marx”, ainda ideológico e não-marxista, um período de maturação, no qual Marx construiu o corpo conceitual de sua teoria, mas ainda orbitando a ideologia burguesa. O período da maturidade é aquele em que, em bases científicas, a teoria do materialismo histórico surgiu. O interessante, neste ponto, é que Althusser (que talvez não seja assim tão doido, afinal…) lançou mão do conceito de corte epistemológico para enxergar, na própria constituição da teoria marxista, a emergência da problemática científica a partir do campo da ideologia e em luta com ele. Pois bem: até que ponto a negação que FHC faz do caráter da teoria da dependência para buscar nela uma espécie de antecâmara da globalização, não é também uma tentativa de fazer uma nova periodização de sua produção intelectual, atrelada aos marcos do presente – a globalização e a geopolítica pós-Guerra Fria? É uma esperta estratégia indireta (pelo menos pelo que dá para entender, do texto do enepê...): ao datar sua teoria, negando o que a dita tem de realmente original, para tentar a atrelar a um humanismo ancorado em uma noção individualista de “homem” e à circulação mercantil, FHC atualiza sua posição como porta-voz de um novo discurso burguês. Ultima ratio, ao negar o que postulou, FH possivelmente busca qualificar-se, no passado (e alguém nega a importância do passado em nossa sociedade?..) como campeão da renovação da própria ideologia burguesa dominante.

Ricúpero (para quem não lembra, personagem de um dos maiores imbróglios da era imediatamente pré-FHC), por outro lado, admite a poderosa correção de rumo, iniciada a partir dos governos Lula. O sonho de que fala do embaixador é, por outro lado, a ratificação de um discurso: fora do capitalismo não há como sonhar. Ricúpero também apresenta uma imagem que a posteridade guardará de um período período histórico no qual são agentes.

Claro que o enepê, ao mergulhar na análise dos aspectos setoriais dos últimos vinte anos, apresentados no “livraço”, discute o tema muito melhor do que este redator:: é capaz. Entretanto, insistamos: falta alguma coisa. Essa coisa, diria, é a contradição de base. Claro, ainda que assumidamente petista, enepê se coloca de forma clara: “… um cara de uma tendência marxistazinha minúscula, que certamente deve ter acabado na semana seguinte, dizia que todas as questões raciais e culturais podiam ser reduzidas a questões de classe. Só faltaram jogar ele pela janela.” Bem, este redator:: acrescentaria: só faltaram, não – jogaram. Jogaram pela janela o que a prática política de esquerda e socialista tinha de confuso, arrogante, antidemocrático, com o que ela tinha de original, ou seja, o rigor analítico. No centro desse rigor, a distinção entre contradição de base – longe de ser resolvida -, e contradições específicas, inclusive… “Os brasileiros também conseguiram ingressar na categoria dos povos que começaram a poder sonhar: com a casa própria, com o carro, um futuro para os filhos melhor que o deles. Juscelino Kubitschek tinha logrado vender ao país a idéia do desenvolvimento.” Um sonho que talvez possa ser caracterizado como tremendo pesadelo, visto estar baseado em um modelo que, desde trinta anos, é (como comentou um dos especialistas lá do NPTO) é um “cadáver insepulto” – veja-se, por exemplo, o debate em torno do pré-sal, que envolve a crítica ao aparentemente recém-descoberto “modelo ultrapassado” baseado no “vício em petróleo” e na “ameaça ao meio-ambiente”. Falta, enfim, a questão do tal “corte epistemológico” – haveria um a separar FHC que se renega do FHC do “livraço”?

E o tal “sonho” de que fala Ricúpero? É mais um desdobramento da contradição de base? Até que ponto se sustentarão seis ou sete novas potências econômicas, com populações na casa de, cem, duzentos milhões de pessoas, querendo realizar “sonhos singelos”? Um modelo que, possívelmente, já deu o que tinha de dar e, quem sabe não apenas lá, mas também aqui.::

correção de tiro 1: enepê, quando é que você irá colocar causa:: na sua lista de blogues?..::

correção de tiro 2: MANPADS, acrônimo de Man Portable Air Defense SystemSistema Individual Portátil de Defesa contra Aeronaves -, usado aqui no blogue para derrubar UAVs enviados a partir de blogues como o do Mister X ou do(a?) impagável Nariz Gelado. Digo UAVs (Unmanned Air Vehicle, ou VANT – Veículo Aéreo Não-Tripulado) pois essas aeronaves não têm cérebro a bordo… (Outra piadinha tecnomilitar-hermética apenas compreessível pelos assíduos de causa:: Por sinal, um artigo sobre o tema, bem no espírito deste posto, aqui)::

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16 pensamentos sobre “Declínio? Talvez o fim de um sonho e começo de outro (uma Segunda Edição, pelos auspícios do blog NPTO)::

  1. Bitt,

    Os Estados Unidos podem estar declinando em termos políticos: (as falhas no processo eleitoral deles ficaram evidentes na eleição de GWB. Ontem assisti um filme-documentário excelente chamado “Recontagem” sobre aquela lambança); econômicos: combinação de alto nível de desemprego, baixo nível de crescimento, com de´ficits crescentes e estouro de bolhas; e , por fim militares: guerras que não se consegue vencer, pra falar a verdade, guerras que nem deveriam ser iniciadas.

    Mas eles tem uma capacidade incrível de superação. Esse declínio, se é que já esteja ocorrendo, não é coisa para daqui a vinte minutos. É um processo longo. Em termos militares estão longe de serem superados e em termos econõmicos, vivem com um déficit monumental porque o resto do mundo resolve bancar a gastança deles porque confiam na força da economia americana e na sua capacidade de pagamento. À China não interessa, pelo menos por enquanto, Estados Unidos quebrados.

    A nós brasileiros interessa como esses movimentos de fragmentação de poder nos afeta.

    Superamos aquela fase da percepção errada a nosso próprio respeito. Éramos subdesenvolvidos porque fomos colonizados pelos portugueses, como se o Congo tivesse atingido o ápice da civilização e creditasse isso à influência da exploração belga, ou então porque o imperialismo não permitia que crescêssemos, ou ainda devido ao clima.

    Hoje não acreditamos mais nisso. Não nos identificamos mais com o Jeca Tatu e Pedro Malasartes não é mais herói nacional.

    Mas temos um longo caminho a percorrer até realizarmos todas as nossas potencialidades como país, como povo e como nação.

    Temos eleições este ano, uma Estratégia Nacinal de Defesa, um acordo militar com a França que pode ser ampliado e uam política internacional que alguns chamam de antimericanamas mas é só não alinhada aos interesses dos EUA, como era tradição no Itamaraty.

    E precisamos ter a coragem de seguir em frente com as nossas escolhas, sem ceder às pressões de quem teme perder poder e influência. E eis aqui um exemplo disso: http://argemiroferreira.wordpress.com/

  2. Bitt,

    Obrigada pela deferência. Mas foi a sua sensibilidade a destacar o texto condescendente do jornalista americano. Aliás, posso estar errada, mas esta postura auto-centrada parece fazer parte da cultura de massas. O que mais róliúde vende a não ser o sonho americano? E isso, assim como as questões materiais que entrelaçam as nações levará um bom tempo a ser substituído, como observou com a habitual argúcia o Cláudio Melo (viva! É um prazer “revê-lo”). Aliás, perdõe, mas não nos vejo completamente livres do “complexo de vira-lata”. Ouço a depreciação do país e claro, dos seus políticos todos os dias.

    Por outro lado, o Luiz Cândido coloca questões importantes sobre a natureza da OTAN e o declínio da Europa Ocidental. O projeto da UE parece a cada dia mais esvaziado, com a repercussão da crise sobre o continente. O que me faz lembrar o trabalho de conclusão de curso de uma aluna que tomou por tema exatamente uma das formas consagradas do capitalismo se renovar que é a guerra. As grandes guerras levaram a períodos de reconstrução que deram fôlego ao mercado, como sabemos. E isso não deixa de ser preocupante, não é?

    Sem dúvida, a alternativa de um sonho melhor seria talvez, que os Estados chamassem a si as questões sociais. Mas a crise na Grécia e no sul da Europa levam exatamente na outra direção.

    Por coincidência, a coluna do Nelson de Sá, da FSP, que é uma espécie de panorâmica da imprensa internacional, publicou ontem um texto de título “O Declínio do Ocidente”.
    Como estou liberada para colar, vou abusar do privilégio, chamando a atenção para o que ele fala sobre a China e democracia. Hobsbawn estava certo no seu livro de memórias sobre o breve e turbulento século 20. Aproveitando a deixa, vivemos mesmo tempos interessantes.

    O declínio do Ocidente
    ft.com

    O título acima saiu na capa do “Financial Times”, abaixo do logo, chamando para coluna de Martin Wolf, com a ilustração abaixo. Diz que “o terremoto dos últimos três anos destruiu o prestígio ocidental”, acabando com os dois séculos de domínio econômico e intelectual. “O Ocidente nunca mais terá a palavra definitiva. A ascensão das economias mais avançadas do G20 reflete nova realidade de poder e autoridade.” Em quadro, contrasta a queda na produção de EUA, Japão e Alemanha ao salto dos Brics.
    Também no “FT”, Edward Luce escreve sobre a “crise de credibilidade de Obama”, que pode perder a maioria no Congresso, apesar das reformas financeira e da saúde. O texto termina ouvindo, de um consultor, “ainda é a economia, estúpido”.
    ________________________________________

    O MODELO CHINÊS
    O chanceler de Cingapura, George Yeo, falou na universidade de Cambridge sobre “Como a China vai -e não vai- mudar o mundo”, com eco em jornais americanos. Focou três pontos, ao tratar da “incorporação à governança global”.
    O primeiro é que, ao contrário dos EUA, “os chineses não têm o desejo de converter os não-chineses” ao seu sistema. Segundo, a urbanização “colossal” por que passa o país terá efeitos ainda desconhecidos. Terceiro, “a China experimenta com democracia em níveis baixos de governo”, mas não vai além daí, buscando só “democracia com características chinesas”. Porém “os países em desenvolvimento estudam o sistema chinês” e, “pela primeira vez, o modelo ocidental tem concorrente”.

    China & AL O americano Eric Farnsworth, do Inter-American Dialogue, de Washington, escreveu no “Los Angeles Times” sob o título “A China é boa para a América Latina?”. Diz que já é a maior parceira de Brasil e Chile -e, ao contrário dos EUA, “promete relação comercial sem interferência política ou de políticas”. Mas busca “seus próprios interesses, não necessariamente os da região” e precisaria ser questionada pelos efeitos “de longo prazo”.

    À espera Na manchete do Valor Online no fim do dia, “Bovespa fecha em queda, à espera dos dados da China”. Segundo “analista”, “se vierem bons, podem gerar mais medidas contracionistas; e, se forem fracos, a China não puxará tanto o crescimento mundial”. Como adiantou o “FT” no final de semana, “todos os olhos estarão na China”, que hoje vai divulgar os números do PIB e da inflação -e também estrear o estatal AgBank na Bolsa de Xangai.

    A TARIFA CONTINUA
    A “Foreign Policy” adiantou ontem que os democratas, em reunião informal na Câmara de Representantes, devem decidir pela manutenção da tarifa de 54 centavos por galão, sobre o etanol brasileiro, e também do subsídio de 45 centavos por galão, para o etanol de milho produzido pelos EUA. Ouve, do representante no país da Unica, lobby brasileiro de etanol, que “afronta a inteligência e a carteira” dos americanos.
    O “FT”, citado pela “FP”, relaciona a resistência ao etanol à ascensão do protecionismo nos EUA.

    BRASIL E TURQUIA, NÃO
    A Reuters noticia que a chanceler da União Europeia aceitou a proposta do Irã de retomar o diálogo com as potências, mas que “deve focar o programa nuclear”. E o chanceler da Rússia declarou que a participação de Brasil e Turquia no diálogo, pedida pelo Irã, não foi cogitada, segundo a agência RIA Novosti.
    Na “Foreign Policy”, o diplomata britânico Alastair Crooke, ex-assessor da União Europeia, escreveu que as sanções ao Irã, pelo Conselho de Segurança e depois pelos EUA, “expressaram os temores americanos diante da evaporação do respeito pela liderança dos EUA e sua preocupação com a ascensão das novas potências”. Em suma, elas “visaram a tratar rudemente [stiff] duas dessas novas potências, Brasil e Turquia”, que precisavam ser “colocadas na linha”.

    Inovação 1 Deu no blog TechCrunch e ecoou por “NYT” e “FT” a “mudança na expectativa da indústria de capital de risco para os emergentes”. Pesquisa com 500 “capitalistas de risco” (venture capitalists) mostrou previsão de retração nos EUA e na Europa e de expansão nos Brics. Para o autor do levantamento, “o palco está armado para que China, Índia e Brasil se ergam como condutores de inovação”.

    Inovação 2 No indiano “Economic Times”, com eco na “Information Week”, o diretor de globalização da Cisco, empresa americana de tecnologia e serviços, selecionou o Brasil como “a próxima fronteira” -como “centro de inovação” para onde deve “transferir o que foi aprendido na Índia”. Antes, na Folha, o presidente da Sony declarou que o Brasil “está prestes a se converter em outro colosso”.

  3. Depois de 1929 havia uma guerra sem precedentes em tamanho pra ser lutada e depois dela, um continente inteiro pra ser construído, depois dessa crise de 2008 o que poderia servir de estimulo a economia americana?
    Com o déficit já em níveis estratosféricos Obama ainda aprova uma reforma que vai aumentar ainda mais os gastos na area da saúde e não dá nem sinal de um possível corte nos gastos militares.
    Acredito que ele se encontra agora no que chamamos por aqui de uma sinuca de bico.
    E ainda tem o risco de – analisando aí um worst case scenario – os indices de aprovação da admnistração Obama diminuirem muito e em 2012 elegerem um radical republicano.
    Um documentário muito interessante sobre esse declínio do “Império” é o Capitalism: A love story, de Michael Moore.

  4. Salve, Alba!

    Também é um prazer para mim. Confe3sso que tenho saudades do Weblog e de todos os comentaristas de lá: Alexandre, Bitt, Elias, Josué, etc, tinha uma turma boa lá e acho que cada um fez como o Bitt e abriu o seu próprio blog. Até do Vladimir (Chesterton) que, às vezes, como você infelizmente veio a saber, não era um modelo de cavalheirismo, sinto saudades.

    Mas, Alba, é claro que não nos livramos inteiramente do complexo de vira-latas ainda. Mas não estamos mais focados nele. Não somos mais assim, Alba. Que um exemplo? A derrota do Brasil para a Holanda foi a mais bem assimilada por todos que já presenciei. Em outros tempos seria uma semana de choradeira no mínimo. Creio que quem mais sentiu a derrota foram os jornalistas esportivos, não o povo. Os nossos políticos são a expressão do povo que os elege. Os políticos são ruins porque o povo é igual. Sinceramente, não acredito naquela falsa idéia de que no Brasil, o povo é bom e os políticos é que são ruins. povo honesto não vota em políticos desonestos, não vende o próprio voto e não condescende com a corrupção grande ou pequena.

    Precisamos de uma elite melhor e de um povo melhor. Mas já está melhorando. Na elite temos o exemplo do Jorge Johannpeter Gerdau e esse organismo aqui: http://www.acaoempresarial.com.br/apresentacao.asp e há outros. É dessa elite empresarial que precisamos.

    Quanto ao tema do post, (Bitt haverá de me perdoar o off topic) interessante o trabalho da sua aluna sobre uma das formas do capitalismo se renovar: a guerra. Não se pode olvidar o peso do comprexo industrial militar na economia americana. às vezes tenho pena dos presidentes deles, que, no particular, estão sempre nas mãos dos falcões. O orçamento para defesa deles é um componente importante da economia e da geração/manutenção de empregos. Já reparou que toda grande empresa americana possui um pé no complexo industrial militar? Passei muitos anos da minha vida desconhecendo que a Remington fabricava muito mais que máquinas de escrever.

    Não sou pacifista, Alba, não acho que o mundo é cor de rosa e que só há homens de boa vontade. Mas, depois da 2ª guerra o que fazer com as tropas que regressavam para casa? Que atividades aqueles homens iriam ocupar em uma economia inteiramente voltada para a produção civil? Era necessário manter um permanente estado de tensão bélica e a guerra fria servia como uma luva para isso, assim como as guerras quentes da Coréia, Vietnam, etc.

    Gostei muito de ter lido isso: “Na “Foreign Policy”, o diplomata britânico Alastair Crooke, ex-assessor da União Europeia, escreveu que as sanções ao Irã, pelo Conselho de Segurança e depois pelos EUA, “expressaram os temores americanos diante da evaporação do respeito pela liderança dos EUA e sua preocupação com a ascensão das novas potências”. Em suma, elas “visaram a tratar rudemente [stiff] duas dessas novas potências, Brasil e Turquia”, que precisavam ser “colocadas na linha”.

    Achei que estávamos incomodando mas não sabia que era tanto. Eles que se cuidem.

    Abraços.

    Cláudio Melo.

  5. Alba, Cláudio Melo…

    Tudo bem?

    Também tenho saudade daquele espaço do PD. mas, águas passadas não movem moinho já diz o velho “deitado popular”.

    Bitt, História só se começa a escrever cinqüenta anos depois, FHC e Lula de minha parte só meus netos saberão (estarei bem tranqüilo a sete palmos então).

    O “Pior dos Sonhos” apresento abaixo, sem ideologia nem nada, é só outro prisma da coisa:

    Como exercício mental excelente post o acima.

    Na prática a teoria é outra. O declínio dos EUA virá d’onde menos se espera a saber: agricultura (afetada por vários fatores como exploração intensiva do solo por décadas (aliás, em algumas regiões nem há mais “solo” propriamente dito, só se consegue plantio com adubo e (muito) veneno. O Clima também dará a nota detonando o que sobrou.

    A Rede propicia outras informações desde o “sumiço” das colméias por conta da radiação emitida por celulares até problemas na confinação (gado/porcos/frangos) por conta da ração alterada geneticamente e incluso componentes estranhos) nos EUA e também Europa.

    A China com “trabalho de formiguinha” pensando no futuro está praticamente invadindo África (que provavelmente será conhecido como “Continente Chinês” pelos meus bisnetos) dada necessidade de matérias primas e espaço físico para sua população.

    Índia e Paquistão terão com que se preocupar (muito) pela falta d’água também. Infelizmente essa população não terá pra onde correr, serão os párias famintos e atômicos, provavelmente acabarão se matando.

    Austrália tem “sorte” de não ter sido escolhida pelos chineses para “colonização” – os que foram prá lá, a maioria de Hong-Kong “cantaram a bola”.

    Japão… . Uma questão muito discutida… . Depois do quinto terremoto (e cauterização ou desaparecimento d’uma das ilhas), muitos darão graças por ter um amigo ou conhecido na AL em conseguindo cair fora de lá.

    Israel e o resto por lá sem água por sete anos com poços cada vez mais profundos só mal e porcamente encontrarão o que beber dessalinizando água (poluída) do Mediterrâneo (esta sêca está prevista para a década de 2020), não haverá água suficiente para irrigação.

    Rússia por conta do derretimento do Permafrost terá problemas com linhas de abastecimento/transporte, tudo por lá se parecerá estar “afundando” – Alasca e Canadá também sofrerão com isso, a exploração de petróleo será afetada e/ou praticamente impossibilitada nas grandes latitudes em solo.

    Resta Europa que com despeito tem tratado nós aqui na América Latina (veja bem, não utilizei pela primeira vez em todos esses anos a expressão “Latrina”). Se líderes europeus soubessem o que a Natureza lhes prepara em futuro próximo investiriam muito mais em infra-estrutura por aqui (para abrigar suas populações).

    Problema jurídico sério ocorrerá na transferência/aceitação de tamanha população migrante bem como pagamento de indenizações por danos naturais decorrentes; A maioria das seguradoras tem lastro em libras, não lembro direito o que o “Doctor” que estava na mesa disse sobre isso, não entendi direito.

    Uma coisa é certa, que “Catastrofismo” há nas altas rodas, há. Os “pensantes” não conversam sobre o assunto na frente de qualquer um, sabem da coisa e ficam na deles prá não passarem por “visionários” e detonar uma carreira estável.

    Se parecerá um comentário estranho e é mas, também, produto de reflexões não só minhas, foi um papo sobre “Geopolítica e Meio Ambiente” numa tarde uns oito anos atrás na calçada d’um buteco tomando cerveja em Uberlândia, doze pessoas, alguns doitores de Sampa, do Paraná, do Rio e quatro de Minas. Talvez lembrem do papo.

    Bração aí.

    🙂

  6. Logan,

    Na verdade, acho que você está ecoando a questão proposta pelo nosso Luiz Candido, sobre arsenais, o que de certa forma foi abordado pelo Cláudio Melo quando se diz surpreso com a gama de atividades da Remington.

    Salve,Cláudio Melo!

    O tempo do Weblog foi interessante para muitos de nós, que acabamos por nos trombar (ainda bem!) na Grande Rede, como diz o bitt. E, sim, mesmo quando não era um cavalheiro, o Chest sempre foi interessante, estimulando vários de nós.

    Talvez você tenha razão na questão da viralatice. É bom o exemplo da Copa do Mundo, embora eu, que nada entendo de futebol, sempre me sinta atropelada pelas Copas e a mobilização, tanto a que serve a interesses, como a legítima, dos torcedores. Mas houve sim, uma mudança nessa Copa tão estranha.

    Não sei se o Brasil está mesmo a ombrear com a China, digamos assim, mas sem dúvida, estamos sendo reconhecidos pelo mundo.

    Alex, salve!

    Muito boas as questões que você levanta sobre o esgotamento do meio ambiente. Bravo!

    Por fim, o bitt acrescentou mais um saboroso texto relacionando a resenha muito boa do enepê, com o texto do Ricúpero. Só depois de ler, com a minha habitual leseira, me dei conta do óbvio, a origem e a matriz ideológica dos dois personagens, que o bitt ainda explica melhor recorrendo à obra do pobrezinho do Althusser. (viuge!)

    Com com tantas questões interessantes, na contribuição de todos, arrisco escrever algo sobre o que o bitt afirma a respeito do exército americano não se comportar mais como nos tempos de Custer e Patton, li recentemente uma coletânea do Luis Fernando Veríssimo, chamada Banquete com os Deuses, em que ele homenageia o cinema, a literatura e a música. Na crônica dedicada a Apocalypse Now, lembra o Coração das trevas de Conrad e cita as palavras de seu personagem depois de servir à Companhia Belga que deixava negros incapacitados para o trabalho, simplesmente abandonados para morrer à míngua – “deixei de ser um animal simples”. O que achei genial foi a sacada do Veríssimo de pelo filme, dizer mais ou menos assim – os americanos continuam a ser “animais simples”. Não enfrentam a selva do Vietnã, trazem as coelhinhas, o comércio de badulaques e organizam torneios de surf. Não é uma coisa?

    • Mas é exatamente isso, historicamente a industria bélica foi uma das principais, se não a principal fonte de estimulo da economia americana, a economia de cidades inteiras é voltada para esse ramo, que por si mesmo tem relações com vários outros setores da industria, e o que mais me preocupa é a dificuldade do Obama em dinamizar a economia no sentido de diminuir a dependencia deles em relação ao petróleo e indústria bélica, considero que conseguiu muito pouco nesse sentido e acho difícil que consiga nos próximos dois anos.

  7. Logan, Alba, Cláudio Melo… :

    O Bitt já convidei por e-mail.

    Além daqui, estou também no Sakamoto a saber:

    http://blogdosakamoto.uol.com.br/

    O Surf já está por lá, a Ana, outros Confrades e Confreiras também aliás, “Confraria” é expressão do Bitt que busco e rebusco sempre dando os créditos visando aglutinar gente decente.

    Outra coisa Bitt, já que estamos falando (sempre) de assuntos estratégicos, um pouco de firula cibernética sobre:

    Assisti esse vídeo oito vezes até identificar quem operava a metralhadora pesada, quem era oficial médico, quem era do cálculo de morteiro, quem era linha de frente (isso é fácil), quem era da inteligência dentre outros, dê uma olhada no clip, é da Nike mas muito interessante dependendo do prisma.

    Há outro com italianos:

    Bração prôceis.

    🙂

  8. Amigos “famosos poucos”, agradeço a propaganda, agradeço mesmo. É um prazer escrever, quando se sabe que a escrita terá retorno, seja lá qual retorno for. Tem tudo qto é tipo de doido no mundo, inclusive alguns q se divertem lendo coisas para escrever textos efêmeros – eu, por exemplo. E a diversão é maior qdo se sabe q outros (doidos?..) se divertirão junto.
    Prof,
    Já tentei entrar nesses blogues q vc indicou, mas sem sucesso. Nenhum deles, entretanto (e não sei pq…) tem a capacidade de agregação que tinha o Web Log. Ou melhor, até acho q sei – o pedê sabia como ninguém colocar em tela assuntos q interessavam aos mais diversos gostos. Quem gostasse de economia, tinha lá; quem gostasse de tecnologia, tinha lá; quem gostasse de relações internacionais, tinha lá; e tinha até os brilhantes truques da “moça”, das “estantes” e das “edificações”, q atraiam a comentar gente q, de outra forma, apenas olharia. E tinha a gentileza do piloto – o pedê é um dos caras mais educados q encontrei na rede. Imagino q vcs todos tenham idéia de como eu gostava do WL, visto q gostavam também. Tinha, claro, gente do naipe do chesterton, do mister e da turma direitoba, mas tamb tinham os esquerdobas. E tinha a gente… Claro – que é o q importa. Os “famosos poucos” saíram do WL. Hj em dia, faço este blog e espio todos os dos antigos frequentadores. Mas o do pedê era tudo, inclusive insuperável. Fico torcendo para que o dito pedê sinta tantas saudades do WL qto eu (nós).

  9. Humm,

    Fiz alguma besteira e meu comentário sumiu.

    Alex, Alba, Logan,

    Respondi a vocês Dizendo que o exemplo da Remington é apenas um. Até eu, que sou atirador, cobiço os bons fuzis da Remington. E a GE fabrica bem mais que lâmpadas. Fabrica, por exemplo, aquele que é tido como o mais poderoso canhão aeronáutico do mundo. Vejam aqui http://en.wikipedia.org/wiki/GAU-8_Avenger

    Aliás a GE tem tradição em fornecer os canhões que equipam as aeronaves da força aérea, da marinha e dos fuzileiros navais. Tá bom, as do exército também. E o equipamento da guarda costeira, que é ligada ao Department of Homeland? Acho que, também.

    Esse é apenas um exemplo de como as grandes corporações americanas tem um braço (às vezes os dois) no complexo industrial militar.

    Isso não é segredo algum. Até hollywood mostra isso como pano de fundo. Alguém gosta de filme água com açúcar? Lebram-se como foi a redenção do personagem do Richard Gere no final do filme Uma Linda Júlia Roberts? Ele não ia mais fatiar e vender aos pedaços a empresa do velho íntegro seu oponente como sempre fez para ficar rico. Ia se associar ao velho e construir destroyers para a marinha. O que destroyers tem a ver com uma linda mulher? Para os americanos, tudo. Faz parte da cultura e da economia deles.

    Assisti e gravei ontem um documentário sobre o projeto, construção e operação dos destroyers da classe Arleigh Burke, É engraçado como eles são superlativos. Eles chamam vasos de guerra de oito mil tolenadas de deslocamento e com lançadores verticais de mísseis para ataque terrestre de destroyers. Nós estamos desenvolvendo vasos de três mil toneladas de deslocamento e chamamos os nossos de NAPOC navios de patrulha oceânica. Queremos ir bem mais longe com bem menos.

    O único livro do Althusser que eu tinha, Ideologia e Aparelhos Ideológicos do Estado, emprestei a evos passados a uma professora de Filosofia Jurídica que não havia lido a obra. Não alimento esperanças de devolução.

    • Claudio,
      ótimo texto sobre o GAU-8. De fato,a essa arma é evolução das armas multicanos Vulcan M61 e Minigun, que já existiam na época do Vietnam (de fato, o princípio foi inventado pelo médico (!!!) Richard Gatling, em 1876 – todo mundo conhece essa geringonça pelos filmes de caubói. É uma boa idéia para um posto, em breve… Existem outros tipos de canhão giratório, mas o interessante é que essas não são armas automáticas… O assunto “corporações industriais” também dá um posto interessante… Se vc quiser escrever, eu coloco aqui.

      Qto aos navios, a diferença entre um contratorpedeiro de 8000 toneladas, um de 3500, uma fragata de 2500 e um NAPOC é a combinação de características; um CT de esquadra dessa classe citada por vc tem capacidade ofensiva e defensiva, e também equipamentos eletrônicos para funcionar como “puxador de flotilha” – na MB, usamos esse termo para designar unidades capazes de fornecer recursos de comunicação e controle para navios menores ou para aeronaves. Esses navios funcionam num tipo específico de força-tarefa, geralmente voltada para interceptar outros navios ou atacar linhas de comércio e comunicações oceânicas. Esses navios são, em geral, base de lançamento para mísseis de cruzeiro ou para interceptação de aeronaves em vôo de navios menores, com o mesmo tipo de armamento, funcionam em FTs que tem um ou dois NAeA (fleet aircraft carrier, como dizem os n.americanos) como centro, e o principal meio ofensivo são as aeronaves. As doutrinas da Marinha dos EUA são, geralmente, de projeção estratégica de poder, ou seja, acho q é, atualmente, a única capaz de agir em outros oceanos. A MB, embora estude essas doutrinas, é uma marinha de águas costeiras, ou seja, suas doutrinas e meios são pensados para atuar em distâncias próximas do litoral. Imagino q estejam sendo pensados dentro da nova doutrina Litoral Defense Fleet – navios com certa autonomia, mas sem capacidade de atuação longe de bases em terra. Os navios que estão sendo adquiridos, da classe FREMM, são desse tipo.

      Quanto ao Althusser, embora ele tenha feito interessantes acréscimos ao pensamento marxiano, tamb cometeu uma série de equívocos, que foram bem apontados, na época, por Eduard Portter Thompson, num livro mto legal chamado “O planetário de erros”. O problema, dizem os especialistas, é que ele deu ênfase excessiva nos meios de produção, colocando-os como condicionantes do conjunto das forças produtivas, o q, via de regra, é considerado absurdo. A maioria das interpretações de Marx coloca a evolução das forças produtivas como um dos fatores geradores da história, que, para o materialismo dialético, surgiria da contradição entre forças produtivas e relações de produção. A articulação forças produtivas-estrutura social, diante do conjunto das necessidades colocadas pelas sociedades geraria a sucessão de modos de produção, e impulsionaria ou travaria o desenvolvimento das forças produtivas. A grande sacada de Althusser foi perceber como o desenvolvimento do pp pensamento marxiano este condicionado pela ideologia burguesa, e que os primeiros escritos de Marx, e que entravou significativamente o surgimento da teoria dos modos de produção, em função da presença do humanismo e do historicismo hegeliano. Bem, pessoalmente, ainda acho a melhor explicação possível para a dinâmica das sociedades.

  10. Viuge! Pobrezinha de moá, cujo interesse em guerra é, digamos, macro, pelo que afeta outras instâncias, não poder contribuir com o papo dos especialistas, que de toda forma leio com prazer. 🙂

    Achei o caso do Althusser muito bem colocado, apesar dos constrangimentos que sofreu no fim da vida, e claro, da sua tragédia pessoal.

    Mas como minha contribuição é mesmo pobrinha, ainda assim, reclamo comentário sobre o Veríssimo. É verdade que estava num cyber-café e digitando direto, sem acesso às fontes e preocupada com não exceder o horário e perder todo o texto. Por isso, talvez não tenha conseguido passar o que, pra mim soa a genialidade: o personagem original de Conrad, que percorre o Congo Belga e tem experiencia em primeira mão com a natureza do colonialismo. (Eu mesma fiquei pasma ao ler, de um autor angolano chamado Pepetela, a extensão das atrocidades).

    Pois é, o cara se diz “não mais um animal simples”, em função da viagem e do encontro com uma outra realidade. Disso, o Veríssimo percebe genialmente, que os americanos simplesmente não fazem a viagem e aprendem com ela. Perante uma selva hostil e incompreensível, simplesmente trazem a sua cultura.

    Juro que uma das cenas que não esqueço é o do ataque à aldeia, pelos helicópteros, ao som da Cavalgada das Vàlquírias.

    Abração

  11. Tem razão Bitt, os canhões GAU-8, Minigun, Vulcan e esses outros canhões multicanos que utilizam o princípio Gatling (esse é o nome que dei à minha rede doméstica) não são automáticos. São acionados por motor elétrico.

    Sobre o complexo industrial militar vai aqui um post do Poder Naval On line disponível em http://www.naval.com.br/blog/page/2/:

    Pentágono enfrenta lobby armamentista para cortar gastos
    19 de julho de 2010, em Noticiário Internacional, por Galante
    .
    Pressionado pela Casa Branca para cortar gastos, o Departamento de Defesa dos EUA está tendo de enfrentar uma ofensiva da indústria militar americana. Lobistas de empreiteiras e fornecedoras de material bélico do país acusam o governo de estar travando uma “guerra ao lucro”.

    Em junho, o Departamento de Defesa exigiu que o Pentágono (comando militar americano) começasse a cortar gastos e renegociasse contratos com os fornecedores. O secretário de Defesa, Robert Gates, disse que o objetivo era economizar US$ 100 bilhões em cinco anos. “É uma questão de princípio. A realidade política exige que demos conta de cada dólar do contribuinte que é gasto”, disse ele.

    O Instituto Lexington, um think-tank conservador baseado em Washington, disse que os cortes de custos seriam direcionados exatamente para as áreas que respondem pela maior parte dos lucros das empresas de material bélico. Usando as conclusões do instituto, lobistas do setor bélico disseminaram na capital americana a versão de que o Departamento de Estado estaria em meio a uma “guerra ao lucro”.

    Eles teriam aventado também que isso seria perigoso num momento em que as Forças Armadas estão engajadas em dois conflitos importantes no exterior: no Iraque e no Afeganistão.

    “Não estamos em meio a uma guerra aos lucros”, respondeu Brett Lambert, diretor de política industrial do Pentágono. “Não é uma guerra aos empreiteiros. O que estamos tentando é tornar nosso sistema mais eficiente. E você não se torna mais eficiente só cortando as margens de lucro.”

    Executivos de empresas de defesa importantes, tais como Lockheed Martin, Boeing, Northrop Grumman, General Dynamics e BAE Systems, já foram convocados pelo governo para renegociar contratos.

    Em uma das reações mais radicais da indústria de defesa, a Northrop Grumman, uma das maiores fornecedoras da Marinha, disse que pretende fechar um de seus sete estaleiros e que pode vender toda a sua operação naval. Seria uma das maiores viradas estratégicas da indústria.

    “Nas prioridades de longo prazo da empresa, estamos vendo pouca ou nenhuma sinergia entre a construção naval e nossos outros empreendimentos”, disse o CEO da empresa, Wes Bush.

    O estaleiro fechado servia exclusivamente para a construção de corvetas para a Marinha – área severamente afetada pelos cortes de compras militares.

    Analistas dizem que a empresa deve se voltar para áreas da indústria de defesa que possam ser mais atrativas para a exportação.

    O Pentágono gasta US$ 400 bilhões em produtos e serviços de um orçamento de cerca de US$ 700 bilhões por ano, segundo dados oficiais. O que as autoridades estão tentando fazer é mudar os contratos para que tenham preços fixos, adaptar serviços e programas para que possam ser usados por mais de um sistema de armas e incentivar a concorrência.

    As propostas do governo são de cortes e remanejamentos para chegar a uma economia de 3% a 5% do orçamento ao ano.

    “Não se trata de reduzir o lucro. Trata-se de reduzir os custos”, disse o diretor do Departamento de Compras do Pentágono, Ashton Carter. Ele salientou que os lucros “podem ser alcançados nos contratos de preço fixo” e por “um bom desempenho”. E acrescentou que o Pentágono quer usar o lucro como um incentivo para a produtividade na indústria de defesa.

    FONTE: Valor Econômico – 19/07/2010

    Tagged with: Corte de Gastos • Departamento de Defesa • Instituto Lexington • Northrop Grumman • Pentágono

  12. Bitt, com a edição da Estratégia Nacional de Defesa nossa doutrina deixou de ser a penas a defesa costeria e passou também a ser de negação do uso do mar, controle de áreas marítimas e, sim, projeção de poder. vejam o excerto do Decreto nº6.703, de 18 de dezembro de 2008, que instituiu a Estratégia Nacional de Defesa, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Decreto/D6703.htm:

    “A Marinha do Brasil: a hierarquia dos objetivos estratégicos e táticos.

    1.Na maneira de conceber a relação entre as tarefas estratégicas de negação do uso do mar, de controle de áreas marítimas e de projeção de poder, a Marinha do Brasil se pautará por um desenvolvimento desigual e conjunto. Se aceitasse dar peso igual a todos os três objetivos, seria grande o risco de ser medíocre em todos eles. Embora todos mereçam ser cultivados, o serão em determinadas ordem e seqüência.

    A prioridade é assegurar os meios para negar o uso do mar a qualquer concentração de forças inimigas que se aproxime do Brasil por via marítima. A negação do uso do mar ao inimigo é a que organiza, antes de atendidos quaisquer outros objetivos estratégicos, a estratégia de defesa marítima do Brasil. Essa prioridade tem implicações para a reconfiguração das forças navais.

    Ao garantir seu poder para negar o uso do mar ao inimigo, precisa o Brasil manter a capacidade focada de projeção de poder e criar condições para controlar, no grau necessário à defesa e dentro dos limites do direito internacional, as áreas marítimas e águas interiores de importância político-estratégica, econômica e militar, e também as suas linhas de comunicação marítimas. A despeito desta consideração, a projeção de poder se subordina, hierarquicamente, à negação do uso do mar.

    A negação do uso do mar, o controle de áreas marítimas e a projeção de poder devem ter por foco, sem hierarquização de objetivos e de acordo com as circunstâncias:

    (a) defesa pró-ativa das plataformas petrolíferas;

    (b) defesa pró-ativa das instalações navais e portuárias, dos arquipélagos e das ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais brasileiras;

    (c) prontidão para responder a qualquer ameaça, por Estado ou por forças não-convencionais ou criminosas, às vias marítimas de comércio;

    (d) capacidade de participar de operações internacionais de paz, fora do território e das águas jurisdicionais brasileiras, sob a égide das Nações Unidas ou de organismos multilaterais da região;

    A construção de meios para exercer o controle de áreas marítimas terá como focos as áreas estratégicas de acesso marítimo ao Brasil. Duas áreas do litoral continuarão a merecer atenção especial, do ponto de vista da necessidade de controlar o acesso marítimo ao Brasil: a faixa que vai de Santos a Vitória e a área em torno da foz do rio Amazonas.

    2.A doutrina do desenvolvimento desigual e conjunto tem implicações para a reconfiguração das forças navais. A implicação mais importante é que a Marinha se reconstruirá, por etapas, como uma arma balanceada entre o componente submarino, o componente de superfície e o componente aeroespacial.

    3.Para assegurar o objetivo de negação do uso do mar, o Brasil contará com força naval submarina de envergadura, composta de submarinos convencionais e de submarinos de propulsão nuclear. O Brasil manterá e desenvolverá sua capacidade de projetar e de fabricar tanto submarinos de propulsão convencional como de propulsão nuclear. Acelerará os investimentos e as parcerias necessários para executar o projeto do submarino de propulsão nuclear. Armará os submarinos, convencionais e nucleares, com mísseis e desenvolverá capacitações para projetá-los e fabricá-los. Cuidará de ganhar autonomia nas tecnologias cibernéticas que guiem os submarinos e seus sistemas de armas e que lhes possibilitem atuar em rede com as outras forças navais, terrestres e aéreas.

    4.Para assegurar sua capacidade de projeção de poder, a Marinha possuirá, ainda, meios de Fuzileiros Navais, em permanente condição de pronto emprego. A existência de tais meios é também essencial para a defesa das instalações navais e portuárias, dos arquipélagos e ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais brasileiras, para atuar em operações internacionais de paz, em operações humanitárias, em qualquer lugar do mundo. Nas vias fluviais, serão fundamentais para assegurar o controle das margens durante as operações ribeirinhas. O Corpo de Fuzileiros Navais consolidar-se-á como a força de caráter expedicionário por excelência.

    5.A força naval de superfície contará tanto com navios de grande porte, capazes de operar e de permanecer por longo tempo em alto mar, como de navios de porte menor, dedicados a patrulhar o litoral e os principais rios navegáveis brasileiros. Requisito para a manutenção de tal esquadra será a capacidade da Força Aérea de trabalhar em conjunto com a Aviação Naval para garantir superioridade aérea local em caso de conflito armado.

    Entre os navios de alto mar, a Marinha dedicará especial atenção ao projeto e à fabricação de navios de propósitos múltiplos que possam, também, servir como navios-aeródromos. Serão preferidos aos navios-aeródromos convencionais e de dedicação exclusiva”.

  13. Complementando: Para defender as plataformas off shore que vão explorar o pré-sal precisamos de unidades navais que possam, por seus próprios meios, coordenar o microgerenciamento das operações de guerra naval submarina e de superfície, dado o alto nível de prontidão que será exigido, em razão da própria natureza da missão.

    Quando à “aquisição” das tipo FREMM, acho que o tempo das aquisições pura e simples já passou. O que queremos é acordos de transferência de tecnologia a fim de que, em pouco tempo, sejamos capazes de projetar, construir e reparar nossos próprios meios de defesa. Não se trata de um simples desejo. Está tudo lá na END, um documento jurídico que não pode ser negligenciado.

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