O encontro do menino Wesley com a tecnologia ocidental::Perdoai-nos, Senhor, nós não sabemos o que fazemos::


Weley Gilbert - Recife, 1999 - Rio de Janeiro, 2010

Um projétil de fuzil automático FAL, calibre 7.62X51mm inicia sua trajetória deixando o cano da arma a uma velocidade de aproximadamente 860 metros por segundo, impulsão provocada pela expansão repentina do gás produzido por pouco menos de 10 gramas de pólvora química. Essa trajetória, caso não encontre nenhum obstáculo pelo caminho, percorrerá uns 4000 metros, até não mobilizar mais energia suficiente para movimentar o peso do projétil e superar o atrito do meio ambiente. Cairá então na terra, sem provocar dano. É – porque ninguém dispara um fuzil sem ter por objetivo provocar dano.

Um projétil de fuzil é uma dentre dezenas de grandes conquistas alcançadas pela humanidade. É o ponto de chegada da aplicação de princípios teóricos que foram sendo lentamente adquiridos, ao longo de 1000 anos, desde que os humanos descobriram que poderiam mobilizar energia através da produção repentina de certa quantidade de gás, e assim lançar um peso relativamente grande para a frente. É o produto final de enorme quantidade de cálculo, experiências, observação, correção; um pequeno pedaço moldado de liga de metais que exige, para ser fabricado, a articulação de diversas plantas industriais, as jóias da coroa do sistema econômico gerado pela Revolução Industrial.

Esse pequeno pedaço de metal tem o formato trocônico e pesa cerca de 10 gramas. Quando atinge o alvo, sua capacidade de penetração dependerá da dureza do obstáculo. A 450 metros, considerado o “alcance útil” desse tipo de munição, é capaz de atravessar 20 centímetros de madeira; a 200 metros, rompe facilmente uma parede de tijolos com mais-ou-menos 30 centímetros de largura; a essa distância, uma chapa de aço-cromo-níquel de 0,5 centímetros de espessura pode deter a trajetória de um projétil desses – é desse material que feita a blindagem do assoalho e do assento dos pilotos de helicópteros de assalto.

Os projéteis 7.62 NATO foram inventados para funcionar com os fuzis automáticos FN Herstal, imaginados pela indústria belga para equipar exércitos que, supunha-se na época – o início dos anos 1950 – logo estariam enfrentando o Exército Vermelho. O fato é que o Exército Vermelho nunca chegou, e essas armas de guerra foram parar nas mãos da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Por obra de muitos e muitos anos de políticas públicas inexistentes e de um discurso demagógico que militariza a questão da segurança pública. Na falta das tais políticas públicas, acreditam amplos setores da classe política, administradores e formadores de opinião, que uma polícia militarizada e violenta, tratando a população das zonas faveladas do Rio de Janeiro como território inimigo, aplacariam a paranóia das classes médias que se sentem sitiadas “apesar dos caros impostos que pagam”.

Pois no dia 16 de julho de 2010, a tecnologia ocidental, a falta de políticas públicas e a militarização da segurança encontraram com o garoto Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos de idade. Wesley estava sentado junto a uma janela, em uma escola pública no bairro Costa Barros, no Rio de Janeiro. A menos de 200 metros da escola, uma tropa da PMRJ foi recebida a tiros por criminosos instalados em uma favela. Foi a senha para o início de intenso tiroteio de armas automáticas. A menos de 200 metros, um projétil, provavelmente de FAL FN Herstal, provavelmente em alguma das versões indígenas fabricadas pela IMBEL, atingiu o peito de Wesley. Meia hora depois, o menino estava morto.

Caraca, poderíamos falar muita coisa sobre o assunto, mas como esse já foi bastante abordado por aqui, não vamos falar nada. Melhor fazer silêncio em homenagem à essa jovem vida abatida por um tiro de arma de guerra. E cobrar a justiça divina, visto que a das autoridades aqui da terra funcionou contra quem devia proteger.

Ontem, Wesley foi enterrado e o governador “pediu desculpas” à família do menino (parece, mas não é humor negro…); hoje o jornal O Globo publica uma matéria de página inteira na qual, dentre outros “corajosos posicionamentos”, chama a atenção para as próprias iniciativas e coloca em destaque “um histórico de falhas em ações”, no qual mistura, descaradamente, alhos e bugalhos, de modo a, quem sabe, aumentar a paranóia de seus leitores; hoje, ainda, uma ONG carioca vai “promover manifestação contra a morte de Wesley”… Claro, em Copacabana, porque Costa Barros é longe prá caramba…

Perdoai-nos, Senhor, nós não sabemos o que fazemos…::

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5 pensamentos sobre “O encontro do menino Wesley com a tecnologia ocidental::Perdoai-nos, Senhor, nós não sabemos o que fazemos::

  1. Essa morte brutal de uma vida que ainda nem vivido tinha (tinha só 11 anos…)não é a 1ª,e,óbvio ,não será a última.
    Outro dia mesmo um pai de família na favela da Maré tb foi morto por um tiro de munição idêntica.
    -Perdão ,comunidade da Maré . Têrmo empregado de forma errada em relação às favelas que hipocritamente foi cunhado pelos defensores de medidas maquiadoras e paliativas.Uma comunidade pressupõe identidade cultural entre seus membros;a única coisa que une os favelados é a pobreza;são o subproduto de políticas de migração interna levados adiante pela sucessão de governos populistas e descompromissados com a arquitetura social do BR e de que hoje reclama a apavorada classe média;enfim o fruto da repetição de erros históricos e fartamente documentados .Poucas favelas tem alguma identidade cultural forjada pelo tempo e pelos extratos da população do BR oriunda de 150 anos atrás. Em sua esmagadora maioria são formadas pelas levas de migrantes,grande parte deles nordestinos,ainda que de diferentes regiões de lá,o que tb os afasta culturalmente .Mas tem seus moradores de todas as regiões do país;assim o que os une é a pobreza,e isso não faz dali uma comunidade .A presença do Estado,nesses lugares,é ou precária ou inexistente.
    O caso Wesley (nome “importado”,repararam?)é a repetição do mesmo erro ,o uso de munição letal próxima a grandes agrupamentos humanos,em certos locais e horários.
    É realmente um tema absorvente!
    Esse pai de família da Maré – deixo a critério dos oito ou nove leitores chamar de favela ou comunidade – deambulava tranqüilamente por aquelas vielas insalubres com o filho no colo,quando foi atingido por um tiro que ,perfurando a mãozinha de seu filho,transfixou-lhe o coração,levando-o a óbito pouco depois.
    São situações emblemáticas do uso indiscriminado, tanto pela segurança pública como pela marginalidade ,de uma arma de fogo de alto poder de destruição (por pior que seja,ainda não estamos na faixa de Gaza para vermos passar por nossas ruas gangs armadas até os dentes).
    O quê fazer?
    Concordo com o redator “-Perdoai-nos ,SENHOR,nós não sabemos o quê fazemos.”

  2. Belo texto, Sérgio Bittencourt! Faltam-nos políticas públicas realmente para, ao menos, tentar encaminhar o espaço segregado das favelas. Coincidência ou não, li hoje uma entrevista longa, na Folha.Com., com um arquiteto premiado, que defende a tese “melhor contruir meia casa no padrão classe média do que construir casas inferiores em lugares distantes.

    Eis o link: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/768241-e-preciso-levar-o-dna-da-classe-media-para-a-favela-diz-arquiteto.shtml

    bitt,

    Recomendo a você muito, o blog do Hugo Albuquerque, sobre política. O Descurvo.

    Abração a você e aos colegas

  3. Ainda bem que eu não serei o único a romper o silêncio em homenagem à jovem vida abatida por arma de guerra. O Sérgio Bittencourt falou e disse com rara propriedade, mas eu gostaria de dar meu modesto pitaco. Favela! Sim, o nome correto é “favela”. “Comunidade” é um termo genérico que pode ser aplicado em diversos casos, não sendo admissível esta apropriação de uma palavra, como fizeram os judeus com a expressão “anti-semitismo”, deixando no olvido o fato de outros povos também serem semitas, incluindo os árabes. E o que os une não é sempre a pobreza: desde algum tempo, o mais comum é a prática do ilícito, a invasão de todo e qualquer espaço, público ou privado, sempre que acham conveniente. Não sei se a migração nordestina continua sendo a principal fonte de novos favelados, mais me parece que morar em favelas, principalmente as “premium” da Zona Sul, simplesmente tornou-se uma opção atraente. Finalmente, tornou-se clichê que toda “bala perdida” indefectivelmente sai de uma arma da polícia. É até compreensível, pois os mortos nos combates em que não há polícia por perto nunca podem ser anunciados como tal: Vai morrer prá lá, não me comprometa!

    Um bom exemplo de como a favela cresce e permanece é o artigo citado pela Alba. A idéia de construir o mais difícil e caro, a cozinha e o banheiro, deixando o restante para o morador, é boa, mas se aplicada apenas em favelas, não fará outra coisa se não aumentar a favelização, pois os cidadãos pobres, que nunca recebem qualquer ajuda ou incentivo, acharão muito melhor deixar para trás sua casinha distante e sem transporte para ganhar um belo banheiro-cozinha “de classe média” numa “comunidade” melhor situada. Depois, ele conclui o barraco. Sim, pois esta é a grande contribuição do Rio para a arquitetura mundial: sólidos barracos de alvenaria com sucessivas construções sobre as sucessivas lajes.

  4. Lamentável a morte do garoto Wesley. Mas acho mais lamentável o fato, que todos temos como consumado, que é uma morte que ficará impune. Nunca saberemos de onde partiu o projétil e em que circunstâncias. Se o tiro partiu de arma policial, em situação de estrito cumprimento do dever legal, até para prevenir e vitar futuros acontecimentos desse jaez, ou de arma ilegal do tráfico. Vai morrer pra lá! Como disse o Luiz Candido.

    Favelização é um processo e não acontece da noite para o dia (na verdade, acontece, sim, desde que as condições estejam presentes).

    A ocupação do espaço urbano de forma indiscriminada, sem respeitar nenhum planejamento é um dos fatores que contribuem para o processo de favelização. Até em bairros planejados que foram favelizados ao longo do tempo aqui em Salvador, eu me pergunto: quem foi o gênio que projetou essas ruas tão estreitas e sem calçadas? Será que as pessoas avançaram suas construções sobre as calçadas ou elas nunca existiram? A quem cabe fiscalizar o processo de expansão urbana?

    Isso tudo é atribuição do poder de polícia administrativa cuja competência é do município. Só que exercer esse poder desgasta o exercente e potencialmente tira votos. É melhor não reprimir nenhuma construção irregular antes que o problema se torne crônico, sorrir para a gente pobre e dizer que o que eles estão criando não é favela: é “comunidade”.

    De quem é a culpa ou responsabilidade? De todos. De quem constrói irregularmente e de quem não fiscaliza e reprime as construções irregulares. Da ausência de políticas públicas voltadas para o problema da favelização deixando que esse câncer se alastre sobre os espaços urtbanos.

    Muitos votos concentrados num só lugar. Vou me candidatar e fingir que represento a “comunidade”. Serei eleito.

  5. Da linha de comentários acima, uma conclusão: quem matou o garoto foi a Favela! Sério, não estou fazendo gracinha nem ironizando, afinal trata-se da morte de uma criança. Num ambiente intrinsecamente desordenado, nascido do ilícito e onde a ilegalidade permeia o dia-a-dia, a presença de criminosos que neste encontra o refúgio ideal não é um acidente, mas uma fatalidade. Aí cria-se um dilema: se não há intervenção do poder público, cristalizam-se os “feudos” da criminalidade, apartados do restante do país; se há intervenção na forma de ação policial, as chances de uma tragédia desse tipo aumentam exponencialmente. A proposta dos “progressistas” é um tipo de “intervenção do bem”, ações que levem a “cidadania às comunidades” (um mercado inesgotável para as ONG faveleiras…). A idéia parece boa. Só parece, pois a ajuda às favelas aliena os pobres não favelados, o que é um absurdo, e consolida o processo de favelização. Achar que é possível “urbanizar” todas as favelas, “integrando-as ao asfalto”, é um delírio. Muito mais fácil e barato é prover infra-estrutura urbana (saneamento, transporte, escolas etc.) em locais adequados, onde esta gente possa viver como gente. Mas isto contraria tantos interesses, não é mesmo?

    Não escrevo mais, afinal este é um blog que trata de Estratégia, Armas, Relações Internacionais e um monte de etcéteras listados no frame à direita. Fui!

    P.S. Cláudio, a frase foi tirada de um pára-choque de caminhão, uma fonte riquíssima de tiradas filosóficas…

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