Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::


Cabe antes de tudo, uma explicação: o “método confuso” de elaboração de postos desenvolvido (???) pelo redator:: implica , em primeiro lugar, ter um insight, que aponte um tema que pareça interessante. Num segundo momento, o dito pesquisador amador começa a levantar material na lista de sítios especializados e blogues, que formam um extensa biblioteca de recursos de pesquisa on-line. O terceiro momento é o do início da redação. Aí a porca começa a torcer o rabo, a onça, a beber água e o macaco, a enfiar a mão na cumbuca. Por não ser jornalista nem escritor de espécie alguma (ou seja, “redator::” é apenas uma liberalidade adotada para com os oito ou nove assíduos…), o redator:: escreve um borrador e, logo em seguida, começa a modificá-lo, tanto em conteúdo quanto em estilo. Por esse motivo, os postos carregados aqui no blogue costumam a ter duas ou três “edições”. Na maior parte das vezes, aos trancos e barrancos, a coisa dá certo (salvo errinhos de digitação e algumas agressões à gramática…). Entretanto, algumas vezes, ocorrem desastres, como o q constatei ontem: a parte2 do posto sobre Colômbia e Venezuela, por algum motivo, saiu totalmente truncada. Na verdade, nem era para ser carregada naquele momento. De toda forma, está indo abaixo a primeira edição. Sugiro aos assíduos que dêem uma olhada na parte1, pois uma “segunda edição” bem ampliada foi carregada. O redador:: pede sentidas desculpas, não apenas aos assíduos, mas a todos que tenham sido incomodados por esse acidente de percurso::

parte2As provocações e vitupérios de Hugo Chávez são exagerados, certamente, mas as ressalvas de governos menos dispostos ao histrionismo, como o Brasil e a Argentina, traduzem a preocupação com a possibilidade de interferência norte-americana nos assuntos internos sul-americanos. O fato é que as forças armadas colombianas, muito bem treinadas nas operações de COIN, não parecem ter grande capacidade quando se trata de enfrentar forças armadas propriamente ditas.

Mas ninguém (possivelmente nem mesmo Chavéz…) imagina uma guerra: afinal, as forças armadas bolivarianas têm sido postas em prontidão com alguma frequência, sem ter, até agora, saído do lugar. As autoridades militares da Venezuela anunciaram ontem que estarão alertas e ofereceram “apoio incondicional” ao presidente Hugo Chavéz, após este ter rompido “todo tipo” de relações com a Colômbia. Até agora, no melhor estilo bolivariano, os militares venezuelanos parecem estar se divertindo em emitir bravatas, tipo “daremos resposta contundente se houver uma incursão militar estrangeira contra o território da Venezuela”. Já o governo colombiano parece ter ficado satisfeito em amolar Chávez: segundo o porta-voz presidencial, César Mauricio Velásquez, “da parte da Colômbia, jamais haverá um movimento de tropas. Sempre haverá fraternidade com a Venezuela” (???).

A Venezuela negou as acusações feitas pelo governo da Colômbia na Organização dos Estados Americanos. Segundo informações do embaixador colombiano, 1.500 guerrilheiros das FARC se refugiariam na Venezuela, em três acampamentos. Não foi a primeira vez que tais acusações foram veiculadas por Bogotá, e sempre foram negadas por Caracas. Esta última edição da crise chegou de modo um tanto inesperado, quando a OEA parecia estar tendo sucesso nas gestões que fazia, em busca da normalização das relações entre Bogotá e Quito, interrompidas desde a Operação Fênix, em março de 2008. As relações do governo colombiano com os EUA também levantam restrições entre todos os governos sul-americanos, e a decisão de Uribe em renovar o “Plano Colômbia”, formalizada durante visita à Washington, em outubro de 2009, não contribuiu para distencionar a situação. Os governos da região não veiculam suas restrições, e quando o fazem, mantêm o tom baixo – menos Chavéz, lógico. As relações entre os dois países não têm sido grande coisa ao longo do mandato de Uribe, mas vêm piorando desde julho de 2009. Foi quando o governo de Bogotá alegou  ter encontrado armas venezuelanas nas mãos as Farc. O acordo Bogotá-Washington piorou a situação, pois Chávez não é tão reservado em suas declarações e sabe que a Venezuela é, depois dos EUA, o principal parceiro econômico da Colômbia. Ele alegou que o acordo é uma intervenção direta na América do Sul e uma ameaça contra a Venezuela. Como se não fosse suficiente, o governo dos EUA, que tem endurecido sua posição na região, resolveu botar lenha na fogueira. Na capital americana, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Phillip J. Crowley, declarou o apoio norte-americano ao envio de uma “missão internacional” para investigar as acusações da Colômbia contra a Venezuela.  

Muitos analistas se perguntados, dariam razão a Chavéz. A Colômbia tem limites com cinco países (Venezuela, Equador, Panamá, Peru e Brasil). Com a Venezuela são 2.200 quilômetros, e uma história de conflitos de limites, que em diversas ocasiões provocaram atritos. Depois da independência, no início do século 19 sob a liderança de Bolívar, a região tornou-se um único país, a República de la Gran Colombia, integrada também pelo Equador e pelo Panamá – na época parte da Colômbia. O território equivalia ao vice-reino de Nova Granada, e o projeto não deu certo, já que haviam diferenças políticas significativas entre as elites que se reuniram para garantir a independência da região, após as guerras napoleônicas. O estabelecimento dos três países, acontecido no final da década de 1830, levantou questões de fronteiras, e algumas persistem até hoje. Colômbia e Venezuela têm um contencioso de fronteiras no Golfo da Venezuela, e quase entraram em guerra em agosto de 1987, em função de alegadas provocações da Colômbia (na época, Chavéz não existia ainda, temos de admitir…). A quase-guerra civil colombiana, que já dura mais de quarenta anos, tornou-se também fonte constante de tensão, visto que a fronteira venezuelana é altamente permeável, e tanto guerrilheiros colombianos quanto criminosos venezuelanos (o tráfico de drogas e os sequestros também são prática comum na Venezuela, só que sem coloração política) transitam de um lado para outro. O problema é que, desde sua chegada ao poder, o coronel Hugo Chavéz não faz questão de ocultar sua simpatia pelas FARC, que classifica como “combatentes da liberdade e do socialismo”; as FARC, por sua vez, se classificam como “bolivarianas”. Washington e Bogotá acusam, com frequência, o presidente venezuelano de apoiar as guerrilhas. Chávez nega, e o fato é que Uribe, que, no início de seu mandato, até que se dava bem com Chavéz, subiu o tom das acusações, sem conseguir apresentar provas indiscutíveis. Em dezembro de 2004, a prisão em Caracas do líder guerrilheiro Rodrigo Granda, representante internacional das FARC, em uma operação encoberta de um comando da polícia colombiana novamente quase levou os dois países à guerra.  O ativista andava tranquilo na Venezuela, que imediatamente alegou não saber o que ele fazia lá, como cidadão privado. Em março de 2008, a incursão aérea em solo equatoriano desencadeou movimentos de tropas de Quito e Caracas, e uma correria de diplomatas de alto nível, dos principais países da região e da Espanha. Chávez convocou seu embaixador em Bogotá e ameaçou congelar o comércio entre os países. Essa, por sinal, seria uma retaliação bem mais efetiva: o comércio entre os dois países, no âmbito do Pacto Andino, sempre foi intenso, chegando, segundo algumas fontes, a mais de 7 bilhões de dólares.

Em julho de 2009, a prova que com que o governo colombiano tanto deveria sonhar apareceu na forma de lançadores de foguetes AT4. Essa arma anti-tanque, supostamente entregue ao exército da Venezuela pela indústria sueca Saab Bofors Dynamics, foi encontrado com as FARC, em território da Colômbia. O governo da Suécia resolveu investigar o caso, que configuraria  tráfico de armas para a guerrilha, e teria comprovado que as armas realmente foram vendidas ao Exército da Venezuela em 2004. A reação de Uribe foi, por outro lado, surpreendentemente moderada: apenas teceu críticas genéricas aos países que vendem armas por fornecer a um “grupo criminoso”  armamento de grande poder de destruição, sem citar nenhum país como fonte das armas. A guerrilha, claro, negou todas as acusações e ainda afirmou não ter nenhuma relação com o o governo do Equador – o governo colombiano veiculava acusações de que a guerrilha teria feito contribuições à campanha de Rafael Correa ao governo do Equador.

É possível que a preocupação do colombiano fosse mais com o comércio bilateral. Chavéz cumpriu sua ameaça no ano passado, depois do acordo firmado entre Washington e Bogotá. O comércio bilateral foi reduzido em 70%, prejudicando as duas economias. A seriedade desse movimento de Chavéz, e o modo como a Colômbia sentiu o golpe ficaria clara nos meses seguintes, ao ponto do atual presidente eleito, então ministro da defesa ter declarado sentir “grande afeto” pelo povo venezuelano. O fato é que os outros países do Pacto Andino simplesmente não têm volume econômico suficiente para absorver os produtos colombianos que a Venezuela.  

Alguns analistas têm dito que o problema talvez não seja exatamente com a Venezuela, mas dentro da estrutura de governo da própria Colômbia. As “provas” apresentadas por Uribe sobre a presença de militantes das FARC na Venezuela são muito pouco consistentes, remontando a relatórios de 1990. As declarações de Santos ainda como ministro de Uribe podem indicar uma intenção de negociar com a Venezuela, de forma a resolver o problema das relações econômicas.

Santos já presidente eleito, demonstrou mais diretamente intenções de entabular negociações com Venezuela e Equador, que classifica como “problemas diplomáticos”. Essa intenção fica ainda mais provável com a escolha, para a pasta das Relações Exteriores de Maria Ángela Honguín. Essa diplomata de carreira foi representante colombiana na ONU, até discordar da política de Uribe para os países vizinhos. Logo após a indicação, Santos enviou Holguín a Quito, para apresentar a seu colega equatoriano, Ricardo Patiño, um convite para que o presidente equatoriano comparecesse à cerimônia de posse. A ministra nomeada também deveria ter uma reunião com o chanceler venezuelano.

Embora tenha feito elogios às iniciativas de seu sucessor, a posição de Uribe, de fato, seria outra, de discordância com as diretrizes de seu sucessor. Analistas na própria Colômbia vêem  na denúncia de Uribe objetivo de marcar posição e, mais além, enviar uma mensagem clara a seu herdeiro político. Durante sua visita a Wasington, Uribe declarou pertencer “… a uma geração que não conheceu um só dia de paz. Minha prioridade é dar manutenção à dinâmica da minha política.” Declarações como essa visam justificar as políticas de segurança adotadas ao longo de seus dois mandatos. No auge de sua popularidade, Uribe chegou a alimentar planos de um terceiro mandato, que não chegaram a entusiasmar nem mesmo seus mais entusiasmados seguidores. Desencorajado de uma segunda modificação na constituição da Colômbia, Uribe parecia esperar que sua “Seguridad Democratica” fosse continuar como diretiva política para os próximos dez anos, pelo menos, ou até as FARC serem totalmente anuladas. As indicações de Santos para o futuro gabinete o teriam desagradado fortemente, e temeria que sua política de enfrentamento com a guerrilha, acabe sendo mitigada em nome da negociação.
Ou seja: Uribe não estaria disposto a ser colocado em segundo plano. Seu objetivo seria, então, entregar ao sucessor um fato consumado, as relações com a Venezuela estremecidas a tal ponto que qualquer negociação acabasse aparecendo como recuo diante do principal adversário. Essas discordâncias internas explicariam a moderação do presidente eleito com relação às denúncias do atual. Resta agora saber como Chavéz reagirá aos acenos colombianos, e se Santos terá jogo de cintura suficiente para transformar o espantalho favorito de seu mentor em “pessoa fantástica” – o que, além de recolocar a economia colombiana nos trilhos e distensionar a região, também poderia apontar Diego Maradona como capaz de reivindicar o cargo de ministro do exterior da Argentina::
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2 pensamentos sobre “Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::

  1. E por concidência ao mesmo tempo que Uribe sai a guerrilha anuncia interesse em negociar. Agora a questão é se é realmente interesse em negociar ou apenas uma forma de ganhar tempo e reagrupar, não?

  2. bitt,

    De fato, um texto assim tão farto de informações, mereceria um longo comentário que hoje, não me acho muito habilitada a fazer. Por isso, resta dizer que a questão, muito mais do que um alinhamento ao bolivariano, como certa imprensa costuma destacar, passa por nossas fronteiras já frágeis pela dimensão. Daí, há mesmo a necessidade de o Brasil agir como moderador.

    Abs

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