Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::


parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::

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