Mais observações estratégicas sobre um período chato e outra comparação estapafúrdia::

O destino que aguarda o PSDB?.. Coluna alemã massacrada em Falaise (Normandia, agosto de 1944).

Já que a análise das eleições, no planeta blogue, continua estupenda, causa::, que não é do ramo, opta por divertir os assíduos estabelecendo comparações estapafúrdias… mas talvez, nem tanto. A de hoje apareceu logo cedo, num clarão provocado pela revista dos bons blogues sobre o tema. Um deles, particularmente interessante, pode ser lido no blogue do “intelectual clandestino” Hugo Albuquerque, o “Descurvo”. Basicamente, Hugo defende que a manutenção do governo paulista pelo PSDB é condição de sobrevivência para o partido, que, em caso contrário, acabaria quase um partido nanico. Diz o “clandestino”, a certa altura: “Nesse aspecto, a manutenção do governo paulista é essencial para a existência do PSDB enquanto um partido grande. Além do Governo FHC, o privatismo em São Paulo foi um dos sustentáculos fundamentais do tucanato. Depois da desindustralização de bons nacos do estado e de sua estagnação econômica severa aguda nos anos 80 e 90, a privatização do aparelho público, seja pelo sistema de concessões ou pelo esvaziamento dos serviços públicos, tornou-se um meio interessante para o PSDB se manter no poder: Esse parasitismo público era o meio para manter a hegemonia, construindo saídas para grupos empresariais falidos – que giravam em torno da indústria – e assim produzir uma saída razoável para o Capital, o que deu incrivelmente certo pela falta de uma oposição no plano estadual e pela bem-sucedida máquina de propaganda local. Esses setores tornaram-se a mola propulsora do partido. Dilma já está em primeiro em São Paulo e o partido precisa garantir Alckmin contra Mercadante, senão é fim de jogo. Uma derrota parece difícil de acontecer, mas eleições estaduais têm variações na intenção de voto sempre bem voláteis  e os riscos são claros.” Diria que a postulação é aguda, como são diversas outras que o redator:: tem encontrado por aí. Mas esta é particularmente aguda por lembrar uma das piores situações me que se pode ver metido um comandante de exércitos em campanha.

Indo ao ponto: o partido do “Zé” se encontra num “bolsão”. E de bolsão, causa:: entende. Resumindo, é quase um cerco, quando uma grande formação militar se vê quase totalmente privada de contato direto com suas próprias linhas, lhe restando apenas um corredor de comunicações com o exterior, o que acaba expondo o que quer que transite por ali a forte assédio pelo adversário. A solução, em geral, é tentar retirar o máximo possível de tropas e equipamentos antes que a “boca do saco” se feche. Quando isso acontece e se estabelece o cerco (ou “caldeirão”, como dizem os alemães) as coisas se tornam muito mais difíceis, visto que as forças trancadas são fervidas até o desmanche.

A situação atual do PSDB evoca ao redator:: reconhecidamente delirante duas situações da 2ª GM: Staingrado e Falaise. Pensando bem, a situação da candidatura “Zé” ainda não evoca Stalingrado – causa:: imagina que os nove ou dez leitores conheçam esta última muito bem, mas vale lembrar que Stalingrado foi um cerco que resultou em uma catástrofe local – embora não tenha sido uma batalha decisiva. Ainda assim, essa campanha marca o limite da blitzkrieg na Frente Oriental, e é considerada como um dos pontos de inflexão da guerra. A operação foi desencadeada pelos alemães na segunda semana de dezembro de 1941. Na primeira fase, grupos de choque formados por divisões blindadas, divisões de infantaria e divisões motorizadas empurraram os soviéticos e os colocaram em situação crítica. O mágico von Manstein, autor, quase dois anos antes, na Frente Ocidental, do truque do “Corte de Foice”, lançou as vanguardas blindadas e motorizadas em pequenos grupos. Essa fase foi uma aula de blitzkrieg – movimento sem parar, facilitado pelas condições do terreno (o solo, congelado, era ideal para o corrida dos blindados). Uma série de golpes em diferentes lugares em rápida sucessão, encontrar um ponto instável, para onde convergiu o grosso da infantaria – o malfadado Sexto Exército era, basicamente, uma reunião de unidades convencionais. De início, pareceu que os alemães poderiam romper as linhas soviéticas e envolver o adversário, mas a luta dentro da cidade em ruínas converteu-se num impasse. A resistência dos flancos soviéticos manteve abertas as linhas de comunicação, por onde convergiram reforços que possibilitaram o contra-ataque. À esta altura, a vanguarda blindada alemã estava esgotada e teve de parar – e a oportunidade da vitória escapou. A força de von Manstein, ao tentar liberar o Sexto Exército, viu-se reduzida à metade de seus efetivos. Acabou forçada a se retirar, abandonando a cidade. Após este revés, os alemães não conseguiram mais restaurar a situação favorável na curva do rio Don e caíram na defensiva. Alguma similaridade com a situação atual do PSDB? Possivelmente: após os erros da fase inicial da campanha, com o “Zé” tentando se fazer passar por “candidato do Lula”, dificilmente a candidatura voltará à ofensiva ou conseguirá “estabilizar a frente” – ou seja, chegar até um segundo turno. O grande erro, causa:: concluí, depois de examinar os blogues dos especialistas, foi não perceber que Dilma, de fato, é Lula amanhã, e que de fato, o grosso do eleitorado a vê como continuação do governo Lula. Aqui em Minas, onde vive o redator::, eleitores de Anastasia têm dito que “o modelo de Aécio” ainda não está maduro. O que parece significar que até a classe média, por mais antipatia que tenha de Lula (e aqui em Minas, a ntipatia não poderia ser maior…) está com medo de apostar em outra coisa.

De uma forma um tanto envergonhada, boa parte dos blogueiros parece declarar, nas entrelinhas, que a oposição está morta (se algum dos nove ou dez leitores duvidar, recomenda o redator:: exame atento do último parágrafo desta ótima análise). Até mesmo o lado direitoba, curiosamente parece estar jogando a toalha…: “Eu não vejo como Dilma Roussef possa deixar de ganhar a eleição. Assim como não vejo como Dilma Roussef possa deixar de ser um desastre. Ela poderia evitar o desastre se fizesse um governo à direita do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente em questões econômicas, o que ela nunca fará. Continuará com a atual política econômica por falta de alternativa. É claro que é melhor do que socialismo puro e simples. Mas é claro, também, que isso não bastará.” 

Talvez ainda haja, por outro lado, tempo para escapar do bolsão, e aí entra o governo de São Paulo e uma possível analogia com a situação de Falaise – ainda que resultando num quase apocalipse para a Wehrmacht na França (depois dessa operação, o território francês foi liberado em três meses), os analistas concordam que a escapada através do corredor permitiu a sobrevida que teve a Alemanha nazista. Diz umespecialista: “Apesar do que tem sido dito, a batalha do bolsão de Falaise não foi a ‘Stalingrado da Normandia’. Cerca de 100.000 alemães conseguiram escapar através da rede lançada pelos Aliados, entre 12 e 20 de agosto.. Embora tivessem de abandonar a maior parte de seu equipamento, junto com 50.000 prisioneiros e mais de 6.000 mortos”.

Mas, afinal, o redator:: pode estar em surto. Os famosos poucos leitores de causa:: poderão refletir sobre mais esta comparação estapafúrdia após examinarem, aqui, este excelente texto sobre o assunto. Mas não custa lembrar – guerra só se resolve quando o inimigo abaixa as armas e assina a rendição. Eleição… Sabe-se lá o que pode acontecer, antes que as urnas revelem o resultado…::

Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

Um rapaz das Forças Especiais::Equipes médicas numa guerra burra::

Encontrei esse material zapeando blogues a partir de um post do excelente Catatau. Em outro momento, talvez comente o post, mas acho que vale dizer, desde já, que o ótimo texto do blogueiro contém uma série de equívocos, um deles o único que, na opinião deste redator::, não deve ser cometido: confundir uma guerra cuja justeza e utilidade são altamente questionáveis com os soldados que a travam. Mas isso é conversa mais longa e para outro momento, pois, por ora – como já notaram os nove ou dez leitores, causa:: está com suas baterias apontadas para Venezuela, Colômbia, e os trancos-e-barrancos desses dois países.

Mas como o fim de semana está aí, e provavelmente demorará um pouco até o próximo post::, vale à pena olhar o fotoblogue do jornal The Denver Post,  jornalão da cidade de Denver, Colorado, bem mais conservador do que podemos imaginar aqui no Brasil. O cotidiano de equipes médicas está bem documentado na longa reportagem fotográfica, e o texto (em inglês, lógico…) contém algumas informações interessantes. Mas interessante mesmo é o discurso que costura as imagens. Se alguém quiser tentar decifrar… causa:: coloca no ar. Em tempo: a imagem aí de cima foi cortada do PLog do The Denver Post, mas recebeu alguma fotoxopagem. 

Para abrir o fotoblogue, passe por aqui. Algumas das imagens podem incomodar quem tenha muita sensibilidade para cenas sangrentas, embora possam ser consideradas surpreendentemente leves (não mostram mortos, por exemplo… Se você lê inglês, causa:: sugere uma passadinha por aqui). Parece que, desde o Vietnam, existe um acordo tácito entre os meio de comunicação e o governo dos EUA: vocês nos toleram, e nós pegamos leve. E, uma observação: ferimento de combate doi pra caramba…::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: mais história imediata para curiosos::

A formação política da Venezuela, que gerou a figura amada-odiada e (do ponto de vista de seus “admiradores” da imprensa “democrática”) um tanto pantagruélica (julguem os nove ou dez assíduos de causa:: se a comparação não cabe…) de Hugo Chávez, é particular, na América Latina. O interessante é que o exame dessa trajetória corrobora, totalmente, a máxima de Winston Churchill (e que faz deste conservador e imperialista inglês o “muso” aqui do redator::): “quem não sabe história, não sabe nada”. Churchill também dizia que “a democracia é o pior regime, tirando todos os demais”, máxima  esta não tão apreciada pelo redator::, já que é conhecida e repetida ad nauseam por nove entre dez liberticidas e dez entre dez moderninhos. A questão é – de que democracia estaríamos falando, mesmo?.. Apenas um mergulho na história permite dizer. Assim, causa:: depois de apontar algumas pistas, afirma e prova: Chávez não é diferente de todos os líderes políticos que marcaram a Venezuela, desde o século 19; suas práticas se plantam na história e na cultura política local. A grande diferença entre o tenente-coronel mais falastrão atualmente em ação na América do Sul e os outros líderes políticos venezuelanos é a mudança de foco. Mas… Julguem essa afirmativa do redator:: os nove ou dez leitores deste blogue…::  

A história política da Venezuela é marcada, no século 19, pela figura de líder conhecida como “caudillo“. O termo é espanhol, e surge pela primeira vez na edição de 1729 do Dicionário da Real Academia de España, definido como el más enérgico o el más violento, que se convierte en el primero de su pueblo o de la república. Não é um termo estranho aos outros países do continente, que, em cada lugar, assume formas particulares. De comum caudillos como Perón ou Porfirio Diaz têm os elementos dramáticos, tenebrosos e pitorescos. Podemos entende-los como líderes locais oriundos de regiões específicas, capazes de empalmar o poder central ou desafiá-lo com certa eficácia (causa:: sugere aos nove ou dez leitores que não deixem de ler este artigo). Na Venezuela, marcaram um longo período, que se seguiu à independência, de guerra civil e desordens locais. A base do poder desses líderes era o controle da produção econômica, baseada na monocultura e na relação com grupos comerciais que cuidavam da exportação, ou seja – da relação com as economias centrais. O período após a guerra de independência foi de desorganização econômica e social – o país foi praticamente destruído. Entretanto, a partir dos meados do século 19, a economia passou a avançar, baseada principalmente na produção de café, cacau e em investimentos originados na Inglaterra e nos EUA, em infra-estrutura (portos, estradas de ferro e equipamento urbano). Esse período é marcado pelo governo do general Antonio Guzmán Blanco, que estabeleceu uma ditadura de dezoito anos de duração (1870-1888). Guzmán era um general que se notabilizou por incrementar uma burocracia de estado bastante competente e extremamente fiel, recrutada entre a classe média de Caracas. A queda de seu regime foi motivada pela extrema riqueza acumulada por ele, que começou a incomodar os próprios aliados. Claro, existiram outros motivos, todos tributários do extremo centralismo e do fato de que o general tornou-se especialista em chicanas legislativas, e reformava a constituição de modo a conseguir reeleger-se presidente. Em 1888, eleito pela terceira vez, e tendo adoecido gravemente, foi para a Europa e acabou aconselhado a não retornar.

Guzmán (conheça a cara da figuraça aqui) era um tipo pitoresco: passava boa parte do tempo em Paris, dizia que seu maior prazer era abrir escolas, queria transformar Caracas em uma espécie de “Paris equatorial” e colocou em si mesmo o apelido de “Ilustre Americano”. Embora cobrasse de seus auxiliares “honestidade e austeridade”, levava uma vida de nababo e gastava fortunas para gozar de “pequenos prazeres”, como promover apresentações de ópera que assistia sozinho. Seu governo era fortemente associado à Caracas, que, dadas as devidas diferenças, cumpria o papel político de Buenos Aires, na época das Províncias Unidas do Rio da Prata, ou seja, atrair a implicância do resto do país. 

O sucessor de Guzmán foi eleito em um pleito que ninguém levou a sério, e acabou derrubado, só que o governo militar que assumiu não tinha base política alguma e passou seis anos gastando muita energia e ainda mais dinheiro para manter-se no poder. Derrubado, abriu-se um período de ditaduras de caudillos procedentes do estado de Táchira na região andina da Venezuela. O primeiro deles é emblemático: o militarmente competente (embora não fosse militar…) e – segundo é dito – totalmente maluco (de tanto que gostava de imitar Napoleão, recebeu o apelido de El Cabito –  “O pequeno cabo”…) Cipriano Castro Ruiz. Membro da elite autonomista dominante de Táchira, onde atuava como jornalista e político, Castro organizou um exército privado financiado por aliados e marchou sobre Mérida e  Caracas em 1899. Uma vez no poder, iniciou uma sangrenta repressão sobre a população local. Castro era de tal forma violento e dado a acessos de fúria que chegou a ser chamado  de “doido brutal” pelo então secretário da Guerra dos EUA, advogado, político imperialista e (não é piada – causa:: é um blogue sério…) detentor do prêmio Nobel da Paz,  Elihu Root. É possível que o desgosto do insigne norte-americano mais fosse provocado pelo viés nacionalista revelado pelo ditador do que propriamente por sua índole violenta. Possibilidade bastante possível, assim digamos: Castro passou boa parte de seu governo tentando “enquadrar” as atividades econômicas das empresas estrangeiras que proliferavam na Venezuela, bem como as atividades políticas das grandes colônias de imigrantes que viviam na Venezuela, particularmente espanhóis e italianos. O resultado: um desfile de navios ingleses, alemães e italianos que sucesivamente bombardeavam a costa venezuelana e desembarcavam tropas para “garantir os interesses” de seus cidadãos ofendidos. 

Entretanto, sejamos justos – os problemas venezuelanos com os estrangeiros não se resumiam nem começaram com a maluquice de Castro. A existência de colônia britânicas, francesas e holandesas bem próximas, em Trinidad, Curaçao e Martinica (nas Antilhas) e nas Guianas, (particularmente na Guiana Inglesa), colocava o país ao alcance dos interesses dessas potências, criando intenso tráfego de indivíduos, mercadorias, valores e (nem sempre boas…) idéias – os jornais publicados nessas colônias circulavam livremente na Venezuela. Esses interesses eram fonte constante de pressão sobre o ocupante do governo em Caracas, pois as colônias funcionavam como ponto de apoio para forças navais. Assim, cada vez que um grupo de cidadãos estrangeiros alegava, real ou imaginariamente, estar sendo alvo de perseguição, a costa venezuelana recebia a “visita” de um esquadrão naval. Só que o meio mais eficaz de pressão e desestabilização não era o “bengalão” (tradução para big stick), mas a concessão de “asilo político” a dissidentes venezuelanos, que também recebiam auxílio financeiro e militar para montar incursões contra o território do país. Assim, a implicância que Chávez manifesta pelo “ocidente” não é recente nem invenção dele e, admitamos, nem sem razão (um excelente artigo sobre o tema, em inglês, aqui).

Em 1902 os EUA tentaram colocar ordem naquele canto do quintal, enviando uma delegação de diplomatas a bordo de uma força-tarefa, com a oferta de créditos financeiros e apoio político. O governo norte-americano mediou, em 1903, um acordo entre Castro e as potências européias que bloqueavam a costa venezuelana. O ditador pareceu sossegar durante pouco tempo, mas logo voltou a criar caso com empresas estrangeiras, o que acabou levando ao rompimento de relações diplomáticas com a França e Holanda. O apresamento de navios mercantes holandeses surtos em portos venezuelanos levou à uma intervenção holandesa (!!!). O resultado desse incidente foi a destruição da “marinha venezuelana” (um punhado de navios totalmente obsoletos) por um esquadrão naval baseado em Curaçao. Esse evento, acontecido em 1907, apressou a queda do ditador, substituído por seu ministro da guerra e compadre, Juan Vicente Gómez, talvez a mais tenebrosa figuraça da história venezuelana. Gómez abriu outro período ditatorial, que viria a durar até 1935. 

Politicamente, desde o século 19, a Venezuela tem uma característica única na América Latina. Nos longos períodos ditatoriais, a presidência não era ocupada, necessariamente, pela mesma figura. Desde a ditadura de Guzmán, tornou-se comum que o ditador se alternasse no poder com aliados fiéis, que o substituíam através de “eleições” e nomeavam o antecessor “ministro da guerra” – já que a base da estabilidade era o exército. 

Gómez seguiu essa regra e a aperfeiçoou, não apenas se alternando entre os postos de presidente e ministro da guerra como também empossando legislaturas e juízes “de fantasia”. Não é por outro motivo que o período de vinte e sete anos de sua ditadura foi marcado por seis constituições, promulgadas para permitir sua continuação no governo, como presidente e ministro.  

A base de poder era o exército, cuja oficialidade era recrutada principalmente das regiões de Táchira e Zulia. Essa oficialidade recebia salários desproporcionais e, principalmente, benefícios resultantes do uso da administração pública e da prática da corrupção. O exército, nessa época, era treinado por militares chilenos de formação alemã, e armado com equipamento up-to-date importado da Alemanha. Por outro lado, o período Gómez também inaugurou a prática da vigilância social por uma polícia secreta onipresente. Por outro lado, o presidente entendia perfeitamente o perigo que representava a proximidade das potências imperialistas, a começar pelos EUA. Procurou manter-se em bons termos com os interesses estrangeiros instaladas no país, ao mesmo tempo que impedia a fuga de oponentes para as colônias próximas – estes eram presos e geralmente “morriam na cadeia” durante os longos períodos em que “esperavam julgamento”.

Por outro lado, afirmava que os venezuelanos, “primitivos e miscigenados”, preferiam um governo violento, que os mantivesse em ordem. Seu governo tinha suporte teórico no livro “Cesarismo democrático” (uma interessante resenha analítica, em espanhol, aqui), escrito pelo historiador, jornalista e teórico racista Laureano Vallenilla Lanz (uma biografia crítica desse avô da “democracia” venezuelana, aqui), que se tornou uma espécie de doutrina do regime. Com base nessa doutrina, Gómez também afirmava que o desenvolvimento nacional somente poderia acontecer sob liderança de uma base de criollos (a classe dominante e seus clientes, brancos de origem hispânica), apoiados por estrangeiros tecnologicamente superiores.

O período do  regime de Gómez foi marcado por certa prosperidade econômica, em função da situação internacional que se seguiu à 1ª GM. A partir de 1918, um novo elemento passou a influenciar fortemente os rumos da Venezuela: o início da exploração, por empresas norte-americanas, do petróleo. Embora essa fase só viesse a explodir nos fim dos anos 1920, a exportação de hidrocarbonetos significou o acesso a uma renda inconcebível no século 19. A explosão da economia dos EUA, depois da guerra, e a crise das economias européias ofereceu oportunidades brilhantes (claro que todas perdidas) à América Latina. A  Venezuela equilibrou sua balança de pagamentos e iniciou um programa de obras públicas que mudou a face das principais cidades. Esses programas, bem como o controle das rendas do petróleo, aumentaram e solidificaram uma classe-média branca e urbana e possibilitaram vantagens para as classes proprietárias que tinham suas rendas baseadas nas antigas produções. A expansão da indústria de petróleo criou um tipo de relação entre capital estrangeiro e classes dominantes locais que não se observava em nenhum outro país da América latina. A exploração e exportação de petróleo dependia de uma base técnica mais complexa do que as exportações de produtos agrícolas, que eram base das economias nacionais de Argentina, Uruguai, Brasil e Peru, então as maiores potências econômicas do continente. Por outro lado, a presença do capital estrangeiro em convivência “pacífica” com uma sólida classe média criou uma ilusão de “ambiência liberal” que também não se observava no resto do continente.

Se o leitor de causa:: (que se caracteriza por uma paciência verdadeiramente paulina…) chegou até aqui, já deve estar percebendo que Hugo Chávez reúne, como figura política, diversas características que têm base na cultura política desenvolvida na Venezuela, ao longo dos cento e tantos anos que o precederam. Mas o interessante é que a oposição “democrática” que o demoniza – e é por ele demonizada – também. Fica claro que o pacto de Punto Fijo, que abriu o período de “estabilidade democrática” que marcou os anos 1960 e 1970 planta suas bases na alternância de governantes de fachada, inventada no século 19. Por outro lado, o “ambiente liberal” era outra fachada, visto que o controle das rendas nacionais era solidamente empalmado por uma classe dominante que o usava para manter o poder – exatamenteo que Chávez vem fazendo, desde que foi eleito.

O buraco chavista é, pois, mais embaixo. Vamos voltar a ambos – esse moderno caudillo e ao buraco, sistematicamente cavado pela situação construída na Venezuela ao longo de meio século de alternância no poder da classe dominante criolla. A quebra desse “equilíbrio” é um dos motivos que fazem Chávez aproximar-se do gigante Pantagruel. Por sinal, essa piadinha hermética os cultos nove ou dez assíduos de causa:: devem ter percebido: na língua falada na Bretanha, durante a Idade Média, “pantagruel” quer dizer “tudo alterado”::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: história imediata para curiosos::

Divertida nota do “colunista gracinha”  Ancelmo Gois, do vibrante matutino carioca (aquele mesmo…): “Lula e Kirchner podem voltar ao poder pelo voto soberano. Jogo jogado. Mas Chávez quer se eternizar porque despreza a democracia. Na minha terra, isso se chama ditadura.” (9 de agosto de 2010).

Parece que na terra do jornalista fofolete, “democracia” é a possibilidade de que a grande mídia se esconda atrás de algo vagamente chamado “liberdade de opinião” para emitir sandices em causa própria como aquelas que, em bloco, os empregados de O Globo costumam lavrar. causa::, como já foi dito inúmeras vezes, não tem opinião política (o redator:: tem, mas essa é outra história…) e considera que a dos os nove ou dez assíduos são problemas de fôro íntimo (como se diz por aí…). A função auto-atribuída por este blogue que se pretende “recurso de pesquisa” é veicular informação o mais objetiva possível. E já que amanhã o novo presidente colombiano deverá encontrar-se com o espantalho mais querido de nossa imprensa, causa::, para contribuir com a cultura política geral, publica alguns dados interessantes sobre a história recente da Venezuela, esse exemplo de “democracia assassinada” que tanto comove e indigna nossa grande imprensa e seus empregados…::   

A carreira militar de Hugo Chávez desenrolou-se num período em que a Venezuela esteve, sem interrupção, em “estado de direito” (coisa que, como os nove ou dez assíduos sabem, não significa, necesssariamente, “estado de justiça”) iniciado em 1959. A Venezuela do século 20 é marcada, a  partir dos anos 1930, pela descoberta de enormes jazidas de petróleo na região do lago Maracaibo. A partir de então, tornou-se um país potencialmente rico e politicamente instável. A riqueza surgida com o petróleo criou uma elite aristocrática apartada do resto do país – era comum que membros dessa classe mandassem as famílias viverem no EUA -, ao mesmo tempo que ampliou a classe de despossuídos que historicamente vivia no limite da sobrevivência.  Ao mesmo tempo que os novos ricos, produzidos por níveis sem precedentes de corrupção optavam por viver nos EUA, as cidades creciam de forma descontrolada. É claro que, nesse período, sucederam-se os governos militares. Em janeiro de 1958, depois de seis anos de governo discricionário comandado pelo general Rafael Pérez-Jiménez , sua derrubada do poder produziu as condições para que uma coalizão de grupos políticos tornasse possível a restauração do estado de direito. Essa restauração tomou forma no chamado Pacto de Punto Fijo (residência de Rafael Caldera, em Caracas, e não o porto por onde se escoa o petróleo venezuelano). Basicamente um acordo de cooperação entre partidos políticos em torno de uma agenda comum e da divisão de cargos executivos, o acordo culminou na eleição de Rómulo Betancourt (1959-1964). Em 1961, uma nova constituição foi estabelecida e, desde então, o país tem estado sob uma série não interrompida de governos civis. O fato é que a democracia em moldes liberais, marcada pela alternância no poder de representantes das elites não chegou a contribuir para modificar a situação econômica interna, e os indicadores sociais continuaram entre os mais baixos da América Latina. Alguns especialistas também colocam o período de Punto Fijo como de intensa repressão política e de crescimento no país do ativismo político de esquerda revolucionária. Este foi influenciado pela revolução cubana e alimentado pelas diferenças sociais que se tornaram mais visíveis com a prosperidade possibilitada pelo petróleo. O período “democrático”, era, na verdade, de alternância no poder dos partidos tradicionais e de “tranquilidade”, e teve em Rafael Caldera (1969-1974) sua principal figura. Caldera tentou criar um regime estável com sólida base econômica, baseado na exportação de petróleo.  

Em 1974, a primeira eleição de Carlos Andrés Pérez (1974–1979) da Acción Democrática coincidiu com o aumento dos preços do petróleo, promovido pelos países árabes a partir da OPEP, em 1973. Em seu governo, no ano de 1976, a produção de petróleo foi nacionalizada. Esse foi um importante evento, visto que a nacionalização era reivindicação de praticamente todas as facções políticas. Pérez  assumiu a liderança do processo, tomando a bandeira da oposição, e como tática para auferir maiores ganhos para o estado, visto que a Venezuela, com a crise do petróleo, havia se transformado em principal fornecedor dos EUA. A partir de então, o estado passou a praticar uma política social populista, repassando parte dos ganhos com os preços internacionais para a população sob a forma de benefícios públicos tais como transportes praticamente gratuitos, serviços médicos e auxílios diversos. Por outro lado, a ascendente classe média, composta por funcionários públicos civis e militares e clientes do governo, foi beneficiada por importações subsidiadas e benefícios fiscais. De modo generalizado e fácil de prever, a corrupção, que já era endêmica no país, explodiu. Essas eram as bases da “estabilidade” venezuelana,  e crise econômica local foi apenas postergada. No final dos anos 1970 a crise econômica nos EUA obrigou a um realinhamento, em que os “benefícos sociais” que mantinham os “barrios” tranquilos começaram a ser retirados, enquanto a política de subsídios à classe média e de repasses à elite, foi mantida enquanto possível. A situação política tornou-se, então, de virtal insurreição.

Esse período é considerado como o fim do acordo entre as elites que possibilitou, no apagar dos anos 1950, o restabelecimento da democracia formal na Venezuela. Por outro lado, os dez anos de constantes altas no preço do petróleo encerraram-se de vez quando os produtores alinhados na OPEP começaram a aumentar sua produção, como forma de concorrer com a crescente produção soviética saída dos enormes e recém-abertos campos siberianos. O resultado foi uma baixa generalizada no preço internacional do barril, que acabou de vez com a prosperidade venezuelana – e levou a reboque a estabilidade política. Isso significou a abertura de uma crise econômica sem precedentes, com a renda nacional recuando em mais de 20% em apenas cinco anos. O resultado foi clássico e bem conhecido em toda a América latina: uma crise da balança de pagamentos. Em 1989, a eleição de Pérez para novo mandato abriu-se com medidas de austeridade típicas das “soluções milagrosas” do FMI (bem conhecidas entre nós, por sinal…): “austeridade fiscal”, reajuste linear de 100% no preço dos combustíveis seguido de reajustes em todos os preços relacionados, ao mesmo tempo que facilidades fiscais para a exportação de petróleo foram decretadas. Imediatamente registrou-se aumento brutal nos custos dos transportes públicos e de certos gêneros de primeira necessidade, que fez explodir um levante popular. Pérez decretou a suspensão das garantias constitucionais e convocou o Exército para restaurar a ordem em Caracas – o número de mortos resultante até hoje não foi esclarecido, mas as cifras variam entre duzentos e três mil. As medidas “sugeridas” pelo FMI, claro, não deram em nada que não fosse a rápida deterioração da situação econômica.  

Foi esse o caldo de cultura de uma tentativa de golpe militar, em fevereiro de 1992. Declarando-se dispostos a “salvar o país reagindo à crise econômica” – a Venezuela estava mergulhada numa espiral inflacionária e  com altíssimos índices de desemprego; por outro lado, os preços internacionais do petróleo não davam mostras de reagir -, um grupo de militares tentou um “pronunciamento” (método em que um grupo de militares manifesta-se contra o governo e conta com a adesão do restante das forças armadas para tomar o poder). Eram oficiais militares de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis) ligados direta ou indiretamente a um movimento chamado MBR-200. Fracassaram. O líder dessa tentativa de golpe? Precisa dizer?

Mas diremos assim mesmo: tenente-coronel das tropas pára-quedistas Hugo Chávez, então comandante de uma unidade de elite das forças aeroterrestres.

Chávez já tinha, nessa época, forte ativismo político encoberto, dentro do exército. Em 1983, quando ainda instrutor na Academia Militar, lançou, juntamente com o  colega Felipe Acosta Carles, o Ejercito Revolucionario Bolivariano, que tinha por abreviatura EBR-200 — o  “200” em alusão ao bicentenário do nascimento de Simón Bolívar. O programa do movimento foi denominado pelos fundadores como “Bolivarianism0” (uma visão descritiva, aqui; uma mais à esquerda, aqui) que objetivava a Revolução Bolivariana (uma abordagem à esquerda, mas com boa descrição dos fatos, aqui). Em 1989, a jovem oficialidade do Exército tinha ficado bastante traumatizada com a ordem para atirar nas multidões de revoltosos, e Chávez conta ter recebido diversas consultas de oficiais que se declaravam dispostos a não obedecer uma tal ordem outra vez.

Chávez declarou que os acontecimentos de Caracas mostravam a falência de um sistema político que nunca havia servido ao povo venezuelano, por estar comprometido com os interesses da classe dominante, baseados esses na corrupção. Os líderes do MBR-200 e os outros envolvidos foram presos, excluídos do exército, julgados e condenados.

Seja lá como for, o fato é que o movimento sacudiu o panorama político do país. Diante da agitação popular, começaram a surgir protestos na própria elite política contra a corrupção fora de controle, e menos de um anos depois, o Congresso venezuelano votou o impeachment de Pérez, sob acusações de corrupção. Em 1994, o descontentamento público com o regime levou Rafael Caldera, novamente ocupando a presidência para o período1994–1998, a indultar Chávez, já então idolatrado pela população. Do ponto de vista da elite, encurralada pela insatisfação popular e paela agitação nas forças armadas, foi um magnífico tiro no pé. Após a anistia, Chávez abandonou a vida militar e se dedicou à política, sendo favorecido pelo agravamento da crise social e o crescente descrédito nas políticas tradicionais.

Em 1997, fundou o Movimiento V República, movimento de oposição que visava disputar as eleições presidenciais marcadas para 1998. Recebeu o apoio da coligação “Pólo Patriótico”, e acabou eleito com 56% dos votos. Assumiu a presidência em 1999, para um mandato de cinco anos. O problema é que a situação econômica ia de mal a pior, e as constantes baixas no preço do petróleo não permitiram um enfrentamento eficiente da crise. Além do mais, o ano também foi marcao pela promulgação de uma nova constituição, que aumenta os poderes do Executivo. Ao longo dos anos seguintes, o presidente implementou uma série de mudanças que, na prática, visavam diminuir os poderes de importantes parcelas dos setores dominantes, particularmente os proprietários de terras e a burocracia do petróleo, encastelada na PDVSA, a empresa estatal coordenadora da área de produção de óleo.

A partir de então se inicia um enfrentamento que culminará numa tentativa de golpe conservador. O desenvolvimento foi paulatino, iniciando-se num processo chamado goteo militar (“gotejo militar” – uma série de pequenos pronunciamientos, um atrás do outro, de autoridades militares), realizado, ao longo do mês de fevereiro de 2002. Abria-se uma disputa pelo controle do estado. Observou-se a mobilização de classes empresariais, realizada através de associações como a Fedecámaras, Consecomercio, PDVAL (então a federação dos supermercados e atacadistas de alimentos, não a subsidiária da PDVSA criada depois por Chávez…) e por aí vai mobilizando um enorme lockout pelas classes produtoras locais. No dia 7 de abril,  conforme o governo anuncia mudanças na direção da PDVSA, as lideranças de oposição convocam manifestações para o dia 9, e no dia seguinte, após tentativas de lockout e de manifestações de rua, que resultaram em tiroteio (provado por franco-atiradores não-identificados). A oposição e setores do comando militar declararam, diante da situação, que o presidente seria responsável pelas mortes, não tinha “autoridade moral” e passaram a exigir sua renúncia. Com as televisões, rádios e jornais repetindo as acusações praticamente de dez em dez minutos, em 11 de abril um grupo de oficiais-generais, políticos, empresarios, dignitários da Igreja Católica e representantes dos meios de comunicação declararam vaga a presidência com a prisão de Chávez e indicaram o presidente da Fedecámaras, empresário Pedro Carmona como “presidente da República” de um “governo  de transição democrática e unidade nacional”. As atitudes de Carmona surpreenderam até mesmo seus partidários: emitiu um único decreto, destituindo todas os representantes de todos os poderes e anulando todos os decretos do governo anterior. As novas “autoridades” bem que tentaram iniciar um amplo processo de repressão, que começou com a prisão de qualquer pessoa que fosse suspeita, real ou imaginariamente, de ligação com o regime deposto. Segundo os meios de comunicação, totalmente alinhados com o golpe, as milhares de prisões realizadas visavam encontrar os “criminosos chavistas”. O problema é que a atuação de base dos partidários de Chávez no Movimento Bolivariano Revolucionário baseava-se em células denominadas “círculos bolivarianos”, que não tinham sido proibidas depois de 1992, e transformaram o movimento de militar em movimento de massas. Calcula-se que, na época do golpe, o movimento tivesse entre dois e três milhões de ativistas. Sua capilaridade atingia a toda Venezuela.

No terceiro dia do golpe, os golpistas já manifestavam fortes dissensões internas. Sem conseguir apresentar provas convincentes do envolvimento do governo no tal tiroteio, e das ligações dos “assassinos” com o MBR, a cúpula golpista sequer conseguiu colocar o exército na rua, o que provavelmente teria provocado um massacre, dado volume que atingiam as manifestações contrárias ao golpe. Carmona, depois de um pronunciamento destrambelhado feito em rede nacional (em que teve um acesso de raiva e uma crise de choro…), desapareceu.

O que os golpistas não pareceram contar foi com a reação popular. E, principalmente, não contavam que as dissensões dentro das forças armadas fossem tão fortes. Generais e coronéis não tinham a menor simpatia da oficialidade de patente média e dos praças graduados (sargentos e cabos) e, portanto, não tinham controle sobre a tropa. O comando das forças armadas era constituído por oficiais que haviam atingido o generalato no período de governo de Carlos Andres Pérez, cuja marca fora a corrupção descontrolada. A tropa os via como incompetentes e corruptos, jogando em causa própria. Muitos deles, como coronéis, haviam comandado o massadre do Caracazo. As lideranças golpistas subestimaram grosseiramente a penetração do Bolivarianismo entre a tropa. Em 13 de abril, a prisão de alguns generais e coronéis e um pronunciamento militar partido de unidades de elite, como os “tigres de Aragua” encerra o golpe. Chávez voltou ao poder nos braços da tropa.

Continuaremos no assunto… É então que a coisa começa a ficar divertida…::

causa:: agora tem Tuíter::Tuítem causa::, pois::

Em primeira mão, para apreciação dos nove ou dez leitores, o Tuíter de causa::

É isso. Com algum tempo de atraso, causa:: entrou no Tweeter. Custou esse tanto pelo fato de que o redator:: não dá muita bola para essas coisas. Recursos de pesquisa se faz com pesquisa, seja na Internet, ou em qualquer outro canto. Mas o redator:: foi surpeendido pelo aumento quase exponencial dos acessos aos postos sobre o evento Wikileaks. Não que os acessos, antes, fossem da ordem de meia-dúzia-de-três-ou- quatro. Não – como todos os que passam por aqui sabem, causa:: tem frequência assegurada pelos agora nove ou dez leitores assíduos. Os acessos, entretanto, nessa oportunidade, em específico, mais do que dobraram. Esse acontecimento fez o redator:: refletir: será que ajudaria anunciar com antecedência os postos que são colocados aqui com frequência irregular (em geral, pelo menos um ou dois por semana)? E mais: será que os assíduos gostariam de receber dicas de leitura e pesquisa? Perguntas, perguntas…

Bem, causa:: resolveu apostar, e fez um Tuíter (sem o sotaquezinho pernóstico de certos podcasts, claro – o redator:: insiste que este é um blogue nacional – além de nacionalista, claro…

O endereço é @bittenjn

Tuítem causa:: pois então. O redator:: agradece e promete melhorar o conteúdo tanto quanto possível a seus parcos recursos técnicos… Também agradecerá, penhorado e comovido, pela divulgação. E, sobretudo, apreciará dicas sobre o funcionamento da geringonça, que lhe é totalmente estranha. Então… Tuítem, divulguem, ajudem::

Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: (outras) considerações::

O redator:: gosta de pensar que os leitores de causa:: integram a nata da parte pensante da Grande Rede. Quanto a isso, não resta dúvidas. Assim, os comentários enviados sobre o posto relativo ao evento Wikileaks rendeu considerações sobre as considerações. Peço licença aos ditos comentantes para republicá-los, fora da área específica, com um pouco de edição. Os os textos são pertinentes e podem acrescentar muito ao debate que causa:: pretende implementar. Por favor, então: não processem este blogue…::

Tive o prazer de encontrar um longo comentário do excelente blogueiro Catatau, piloto do excelente blogue Catatau (está na lista os blogues do coração de causa::). Catatau corrigiu algumas de minhas observações. Em itálico, o texto redigido por ele. Os negritos são por conta do redator:: Por economia “de” verdade, tentamos lá no Catatau comentar sobre uma espécie de verdadeira, digamos, “gestão estratégica” das informações durante a guerra. Numa guerra como a que assistimos, repleta de nuances (desde o relato de âmbito militar comentado por você até as coberturas reality show chinfrim da Fox News), há muito em jogo. E nesse sentido não se trata apenas de ocultar ou não, mostrar mais ou não, desvelar ou não “a” verdade. O próprio jogo de mostrar “a” verdade ou não se envolve em outro jogo, muito mais sutil, de simplesmente mostrar verdade. Não se trata, propriamente, de constatar que vamos descobrir uma verdade mais verdadeira, enterrada por sobre os discursos jornalísticos e políticos, mas sim que a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública.

O conceito transmitido por Catatau, de que existe uma “gestão estratégica da informação” no decorrer de uma guerra, é pertinente. Merece, entretanto, uma ressalva: essa gestão é feita pelo Estado e por seus órgãos especializados, e não é compartilhada com a sociedade civil. A atuação dos meios de comunicação dos EUA deveria acontecer nos limites estabelecidos por essa gestão. Vou ao ponto: informação é arma. Isso foi constatado desde o século 17, embora desde sempre a análise de informaçao tenha sido parte integrante da atividade militar. Um bom exemplo é Júlio Cesar, o tribuno que acabou com a Répública romana e criou a possibilidade para o governo autocrático: ele escreveu um livro ainda hoje lido chamado “As guerras na Gália”, onde reunia e analisava informações recolhidas durante as operações que lá tiveram lugar. Essa prática se tornou comum entre os romanos, que escreviam longos textos destinados a abastecer de informação sobre o inimigo, o teatro, os meios, os comandantes de campanha. Também sempre foi comum plantar agentes no território inimigo, para observar de perto o que estaria tramando o adversário. A questão é que, por sua natureza, essas informações devem ficar ocultas, por certo tempo. A cobertura da imprensa, que se tornou uma atividade “glamurosa” a partir da 2ª GM, mas que se iniciou, como rotina, em meados do século 19, é sempre vista como um problema pelos militares, que a toleram por ordem superior. Por que essa cobertura é necessária? É simples – porque mobiliza a população. Essa questão ficou clara a partir das guerras da Revolução Francesa, e foi muito bem entendida por Napoleão. Assim, a observação de Catatau a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública é bastante pertinente, e cabe perfeitamente na avaliação em torno da “cobertura chinfrim” (eu diria sensacionalista…) feita pela imprensa dos EUA – que não diz nada.

Por outro lado, o doutor Bittencourt, que sei ser antigo oficial do Exército Brasileiro, compôs a seguinte consideração: Seria, para qualquer analista com acesso a essas informações,um exercício de formulações de possíveis consequências que iriam trazer essas informações divulgadas. Ou seja,o deslocamento de meios para fazer um aproveitamento do êxito com base nessas informações (e aqui não se discute tratarem-se de informes ou informações,esperando que os leitores desse comentário saibam a diferença entre um e outro) [o doutor aqui se refere, por “informes”, a comunicações trocadas no interior de um exército em campanha] e de qual forma as forças insurgentes iriam se preparar para reagir a esse desdobramento. Donde sou levado a pensar no seguinte: pode uma ação de Estado se sobrepor ao direito dos cidadãos componentes desse Estado,individualmente,terem acesso a essa informação? Creio que sim. Afinal, para isso são eleitos os membros desse governo numa democracia. … Ações de Estado, ainda mais as relativas a segurança nacional e emprego de meios militares, pressupõem rapidez, cadeias de comando anteriormente preparadas e ações efetivas que, absolutamente, demandam ingerências que poderiam colocar efetivos em risco, sejam eles humanos ou de meios.

O texto posto em que foi ressalvado aqui pelo redator:: é a chave de leitura para o posto anterior: do ponto de vista militar, a filtragem e limitação das informações que chegam a sociedade é crucial. É um aspecto técnico da guerra, mas também é assunto que diz respeito à sociedade e à prática da democracia – e é perfeitamente possível travar guerras sem arranhar o “estado de direito”. A sequência do texto esclarece a questão, e coloca na berlinda a ação do franco-atirador Assenge (o gestor – digamos assim – do site Wikileaks: a ação dessa pessoa e da organização a que se relaciona pode ser considerada, além de ilegal, imoral. Soldados em campanha não estão lá porque resolveram estar. Receberam ordens que não podem questionar. Curiosamente (crê este redator::, por outro lado, que mesmo o leigo em assuntos militares possa entender a afirmação que se segue…) a segurança das tropas em campanha também é responsabilidade do Estado e do governo que, por delegação da sociedade, o coordena. Assim, o sigilo se justifica. Se as tropas cometem excessos, cabe a esses mesmos Estado e governo avaliar, julgar e punir. Essa atuação do Estado e do governo, em última análise, irá estacar (no sentido de apoiar e assegurar) a legitimidade das decisões relativas à guerra e da própria guerra.  

Prossigamos com a observação de Catatau. Daí haver um jogo relativo, difícil de detectar, entre o que um “cidadão” pode fazer com sua cidadania, qual é o papel efetivo que ele tem de denunciar ou não injustiças e desmandos, enfim, como ele poderia, no contexto em questão, denunciar mentiras e falácias sobre uma guerra. É mais ou menos o que está em jogo no Wikileaks: ele não traz propriamente “a verdade a tona”. Em muitos casos, é verdade que ele desvela certos elementos “ocultos” na gestão das informações de guerra. Mas, além disso, ele acaba denunciando o próprio jogo de tornar coisas mais ou menos verdadeiras, mais ou menos visíveis, mais ou menos discutíveis, e assim por diante.

Embora as considerações de Catatau sejam bem formuladas, o problema é que se anulam. A guerra, se colocada dentro dos limites morais e jurídicos pertinentes a um estado de direito (causa:: prefere usas esta noção do que a de “democracia”, pura e simplesmente, pois esta última pode ser facilmente manipulada ), é legítima, e dentre as características do estado de direito estará estabelecer os tais limites. Se “cidadania” (vai aspeado pelo redator:: porque o foi aspeado pelo próprio Catatau) traduz uma responsabilidade comum, conformada pelos direitos e deveres à ela inerentes, então a segurança nacional – expressão que tem, entre nós (infelizmente) ganhou a sonoridade de um palavrão, mas não é… – está dentre essas responsabilidades. O papel do cidadão e das instituições da sociedade civil (consideremos que Weekleaks é uma delas…), deve ser relativizado nessa direção. O fato dos EUA estar envolvido em (mais uma) guerra não significa que a mesma (guerra) seja necessariamente  ilegítimas. Pode ser uma guerra burra – afinal, é uma guerra de George Walker – mas não necessariamente ilegítima…

Nesta direção, cabe mobilizar o cometário de um assíduo de causa:: (com o qual, vale dizer, nem sempre concorda o redator:: – e vice-versa), o Luiz Cândido. O Luiz resume perfeitamente a situação toda, e levanta a bola para o próximo posto de causa:: sobre o tema “Afeganistão”. Vamos ao Luiz: de fato, a agressão sofrida pelos EUA em 2001 não podia ficar sem resposta. Seus responsáveis tinham que ser caçados em qualquer parte do mundo e se o seu principal foco estava neste país, então era lá que os EUA tinham que agir. No entanto, após o sucesso inicial obtido praticamente sem envolvimento de tropas, somente com apoio tático, logístico e da força aérea, eles resolveram “ocupar o terreno”. Pronto, caíram na mesma armadilha dos ingleses, russos e tantos outros: entrar é fácil, o problema é sair::