Um outro lado da moeda?..::Venezuela: mais história imediata para curiosos::


A formação política da Venezuela, que gerou a figura amada-odiada e (do ponto de vista de seus “admiradores” da imprensa “democrática”) um tanto pantagruélica (julguem os nove ou dez assíduos de causa:: se a comparação não cabe…) de Hugo Chávez, é particular, na América Latina. O interessante é que o exame dessa trajetória corrobora, totalmente, a máxima de Winston Churchill (e que faz deste conservador e imperialista inglês o “muso” aqui do redator::): “quem não sabe história, não sabe nada”. Churchill também dizia que “a democracia é o pior regime, tirando todos os demais”, máxima  esta não tão apreciada pelo redator::, já que é conhecida e repetida ad nauseam por nove entre dez liberticidas e dez entre dez moderninhos. A questão é – de que democracia estaríamos falando, mesmo?.. Apenas um mergulho na história permite dizer. Assim, causa:: depois de apontar algumas pistas, afirma e prova: Chávez não é diferente de todos os líderes políticos que marcaram a Venezuela, desde o século 19; suas práticas se plantam na história e na cultura política local. A grande diferença entre o tenente-coronel mais falastrão atualmente em ação na América do Sul e os outros líderes políticos venezuelanos é a mudança de foco. Mas… Julguem essa afirmativa do redator:: os nove ou dez leitores deste blogue…::  

A história política da Venezuela é marcada, no século 19, pela figura de líder conhecida como “caudillo“. O termo é espanhol, e surge pela primeira vez na edição de 1729 do Dicionário da Real Academia de España, definido como el más enérgico o el más violento, que se convierte en el primero de su pueblo o de la república. Não é um termo estranho aos outros países do continente, que, em cada lugar, assume formas particulares. De comum caudillos como Perón ou Porfirio Diaz têm os elementos dramáticos, tenebrosos e pitorescos. Podemos entende-los como líderes locais oriundos de regiões específicas, capazes de empalmar o poder central ou desafiá-lo com certa eficácia (causa:: sugere aos nove ou dez leitores que não deixem de ler este artigo). Na Venezuela, marcaram um longo período, que se seguiu à independência, de guerra civil e desordens locais. A base do poder desses líderes era o controle da produção econômica, baseada na monocultura e na relação com grupos comerciais que cuidavam da exportação, ou seja – da relação com as economias centrais. O período após a guerra de independência foi de desorganização econômica e social – o país foi praticamente destruído. Entretanto, a partir dos meados do século 19, a economia passou a avançar, baseada principalmente na produção de café, cacau e em investimentos originados na Inglaterra e nos EUA, em infra-estrutura (portos, estradas de ferro e equipamento urbano). Esse período é marcado pelo governo do general Antonio Guzmán Blanco, que estabeleceu uma ditadura de dezoito anos de duração (1870-1888). Guzmán era um general que se notabilizou por incrementar uma burocracia de estado bastante competente e extremamente fiel, recrutada entre a classe média de Caracas. A queda de seu regime foi motivada pela extrema riqueza acumulada por ele, que começou a incomodar os próprios aliados. Claro, existiram outros motivos, todos tributários do extremo centralismo e do fato de que o general tornou-se especialista em chicanas legislativas, e reformava a constituição de modo a conseguir reeleger-se presidente. Em 1888, eleito pela terceira vez, e tendo adoecido gravemente, foi para a Europa e acabou aconselhado a não retornar.

Guzmán (conheça a cara da figuraça aqui) era um tipo pitoresco: passava boa parte do tempo em Paris, dizia que seu maior prazer era abrir escolas, queria transformar Caracas em uma espécie de “Paris equatorial” e colocou em si mesmo o apelido de “Ilustre Americano”. Embora cobrasse de seus auxiliares “honestidade e austeridade”, levava uma vida de nababo e gastava fortunas para gozar de “pequenos prazeres”, como promover apresentações de ópera que assistia sozinho. Seu governo era fortemente associado à Caracas, que, dadas as devidas diferenças, cumpria o papel político de Buenos Aires, na época das Províncias Unidas do Rio da Prata, ou seja, atrair a implicância do resto do país. 

O sucessor de Guzmán foi eleito em um pleito que ninguém levou a sério, e acabou derrubado, só que o governo militar que assumiu não tinha base política alguma e passou seis anos gastando muita energia e ainda mais dinheiro para manter-se no poder. Derrubado, abriu-se um período de ditaduras de caudillos procedentes do estado de Táchira na região andina da Venezuela. O primeiro deles é emblemático: o militarmente competente (embora não fosse militar…) e – segundo é dito – totalmente maluco (de tanto que gostava de imitar Napoleão, recebeu o apelido de El Cabito –  “O pequeno cabo”…) Cipriano Castro Ruiz. Membro da elite autonomista dominante de Táchira, onde atuava como jornalista e político, Castro organizou um exército privado financiado por aliados e marchou sobre Mérida e  Caracas em 1899. Uma vez no poder, iniciou uma sangrenta repressão sobre a população local. Castro era de tal forma violento e dado a acessos de fúria que chegou a ser chamado  de “doido brutal” pelo então secretário da Guerra dos EUA, advogado, político imperialista e (não é piada – causa:: é um blogue sério…) detentor do prêmio Nobel da Paz,  Elihu Root. É possível que o desgosto do insigne norte-americano mais fosse provocado pelo viés nacionalista revelado pelo ditador do que propriamente por sua índole violenta. Possibilidade bastante possível, assim digamos: Castro passou boa parte de seu governo tentando “enquadrar” as atividades econômicas das empresas estrangeiras que proliferavam na Venezuela, bem como as atividades políticas das grandes colônias de imigrantes que viviam na Venezuela, particularmente espanhóis e italianos. O resultado: um desfile de navios ingleses, alemães e italianos que sucesivamente bombardeavam a costa venezuelana e desembarcavam tropas para “garantir os interesses” de seus cidadãos ofendidos. 

Entretanto, sejamos justos – os problemas venezuelanos com os estrangeiros não se resumiam nem começaram com a maluquice de Castro. A existência de colônia britânicas, francesas e holandesas bem próximas, em Trinidad, Curaçao e Martinica (nas Antilhas) e nas Guianas, (particularmente na Guiana Inglesa), colocava o país ao alcance dos interesses dessas potências, criando intenso tráfego de indivíduos, mercadorias, valores e (nem sempre boas…) idéias – os jornais publicados nessas colônias circulavam livremente na Venezuela. Esses interesses eram fonte constante de pressão sobre o ocupante do governo em Caracas, pois as colônias funcionavam como ponto de apoio para forças navais. Assim, cada vez que um grupo de cidadãos estrangeiros alegava, real ou imaginariamente, estar sendo alvo de perseguição, a costa venezuelana recebia a “visita” de um esquadrão naval. Só que o meio mais eficaz de pressão e desestabilização não era o “bengalão” (tradução para big stick), mas a concessão de “asilo político” a dissidentes venezuelanos, que também recebiam auxílio financeiro e militar para montar incursões contra o território do país. Assim, a implicância que Chávez manifesta pelo “ocidente” não é recente nem invenção dele e, admitamos, nem sem razão (um excelente artigo sobre o tema, em inglês, aqui).

Em 1902 os EUA tentaram colocar ordem naquele canto do quintal, enviando uma delegação de diplomatas a bordo de uma força-tarefa, com a oferta de créditos financeiros e apoio político. O governo norte-americano mediou, em 1903, um acordo entre Castro e as potências européias que bloqueavam a costa venezuelana. O ditador pareceu sossegar durante pouco tempo, mas logo voltou a criar caso com empresas estrangeiras, o que acabou levando ao rompimento de relações diplomáticas com a França e Holanda. O apresamento de navios mercantes holandeses surtos em portos venezuelanos levou à uma intervenção holandesa (!!!). O resultado desse incidente foi a destruição da “marinha venezuelana” (um punhado de navios totalmente obsoletos) por um esquadrão naval baseado em Curaçao. Esse evento, acontecido em 1907, apressou a queda do ditador, substituído por seu ministro da guerra e compadre, Juan Vicente Gómez, talvez a mais tenebrosa figuraça da história venezuelana. Gómez abriu outro período ditatorial, que viria a durar até 1935. 

Politicamente, desde o século 19, a Venezuela tem uma característica única na América Latina. Nos longos períodos ditatoriais, a presidência não era ocupada, necessariamente, pela mesma figura. Desde a ditadura de Guzmán, tornou-se comum que o ditador se alternasse no poder com aliados fiéis, que o substituíam através de “eleições” e nomeavam o antecessor “ministro da guerra” – já que a base da estabilidade era o exército. 

Gómez seguiu essa regra e a aperfeiçoou, não apenas se alternando entre os postos de presidente e ministro da guerra como também empossando legislaturas e juízes “de fantasia”. Não é por outro motivo que o período de vinte e sete anos de sua ditadura foi marcado por seis constituições, promulgadas para permitir sua continuação no governo, como presidente e ministro.  

A base de poder era o exército, cuja oficialidade era recrutada principalmente das regiões de Táchira e Zulia. Essa oficialidade recebia salários desproporcionais e, principalmente, benefícios resultantes do uso da administração pública e da prática da corrupção. O exército, nessa época, era treinado por militares chilenos de formação alemã, e armado com equipamento up-to-date importado da Alemanha. Por outro lado, o período Gómez também inaugurou a prática da vigilância social por uma polícia secreta onipresente. Por outro lado, o presidente entendia perfeitamente o perigo que representava a proximidade das potências imperialistas, a começar pelos EUA. Procurou manter-se em bons termos com os interesses estrangeiros instaladas no país, ao mesmo tempo que impedia a fuga de oponentes para as colônias próximas – estes eram presos e geralmente “morriam na cadeia” durante os longos períodos em que “esperavam julgamento”.

Por outro lado, afirmava que os venezuelanos, “primitivos e miscigenados”, preferiam um governo violento, que os mantivesse em ordem. Seu governo tinha suporte teórico no livro “Cesarismo democrático” (uma interessante resenha analítica, em espanhol, aqui), escrito pelo historiador, jornalista e teórico racista Laureano Vallenilla Lanz (uma biografia crítica desse avô da “democracia” venezuelana, aqui), que se tornou uma espécie de doutrina do regime. Com base nessa doutrina, Gómez também afirmava que o desenvolvimento nacional somente poderia acontecer sob liderança de uma base de criollos (a classe dominante e seus clientes, brancos de origem hispânica), apoiados por estrangeiros tecnologicamente superiores.

O período do  regime de Gómez foi marcado por certa prosperidade econômica, em função da situação internacional que se seguiu à 1ª GM. A partir de 1918, um novo elemento passou a influenciar fortemente os rumos da Venezuela: o início da exploração, por empresas norte-americanas, do petróleo. Embora essa fase só viesse a explodir nos fim dos anos 1920, a exportação de hidrocarbonetos significou o acesso a uma renda inconcebível no século 19. A explosão da economia dos EUA, depois da guerra, e a crise das economias européias ofereceu oportunidades brilhantes (claro que todas perdidas) à América Latina. A  Venezuela equilibrou sua balança de pagamentos e iniciou um programa de obras públicas que mudou a face das principais cidades. Esses programas, bem como o controle das rendas do petróleo, aumentaram e solidificaram uma classe-média branca e urbana e possibilitaram vantagens para as classes proprietárias que tinham suas rendas baseadas nas antigas produções. A expansão da indústria de petróleo criou um tipo de relação entre capital estrangeiro e classes dominantes locais que não se observava em nenhum outro país da América latina. A exploração e exportação de petróleo dependia de uma base técnica mais complexa do que as exportações de produtos agrícolas, que eram base das economias nacionais de Argentina, Uruguai, Brasil e Peru, então as maiores potências econômicas do continente. Por outro lado, a presença do capital estrangeiro em convivência “pacífica” com uma sólida classe média criou uma ilusão de “ambiência liberal” que também não se observava no resto do continente.

Se o leitor de causa:: (que se caracteriza por uma paciência verdadeiramente paulina…) chegou até aqui, já deve estar percebendo que Hugo Chávez reúne, como figura política, diversas características que têm base na cultura política desenvolvida na Venezuela, ao longo dos cento e tantos anos que o precederam. Mas o interessante é que a oposição “democrática” que o demoniza – e é por ele demonizada – também. Fica claro que o pacto de Punto Fijo, que abriu o período de “estabilidade democrática” que marcou os anos 1960 e 1970 planta suas bases na alternância de governantes de fachada, inventada no século 19. Por outro lado, o “ambiente liberal” era outra fachada, visto que o controle das rendas nacionais era solidamente empalmado por uma classe dominante que o usava para manter o poder – exatamenteo que Chávez vem fazendo, desde que foi eleito.

O buraco chavista é, pois, mais embaixo. Vamos voltar a ambos – esse moderno caudillo e ao buraco, sistematicamente cavado pela situação construída na Venezuela ao longo de meio século de alternância no poder da classe dominante criolla. A quebra desse “equilíbrio” é um dos motivos que fazem Chávez aproximar-se do gigante Pantagruel. Por sinal, essa piadinha hermética os cultos nove ou dez assíduos de causa:: devem ter percebido: na língua falada na Bretanha, durante a Idade Média, “pantagruel” quer dizer “tudo alterado”::

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