O Natal de causa::Um presente de Natal para assíduos e não-assíduos::

Apesar do Natal ter sido semana passada, e estarmos às vésperas do Ano Novo e de seu primeiro dia, o Dia Mundial da Paz (não confundir com o “Dia Internacional da Paz”, comemorado em 21 de setembro), causa:: continua com espírito natalino. E, para comemorar as datas em grande estilo, e para anunciar as férias do blogue (nem eu nem os leitores somos de ferro…), bolei um presente que certamente agradará muita gente – em particular os apreciadores da história, da história militar, da política internacional, dos estudos estratégicos e da tecnologia militar. Que presente pode ser este?

Uma seleção dos melhores artigos já publicados no blogue, ao longo dos mais de três anos de sua trajetória.

Tenho certeza de que é um presente que não fará muita espécie aos assíduos – afinal, os dez ou onze visitantes frequentes acabaram se tornando meus parceiros de blogagem. Boa parte dos temas e dos desdobramentos são sugeridos a mim pelo Renato (de Brasília), Luís Candido (do Rio de Janeiro), Proftel (de Goiás) , Alba (de Santos), do doutor Bittencourt (do Rio de Janeiro), do Logan (suponho que este assíduo seja de São Paulo, mas não afirmo), Bruno Motta (do Rio de Janeiro) do Diogo (nunca percebi em que parte do país está o Diogo…), etc, etc., através dos comentários que frequentemente dirigem aos posts – muito frequentemente me chamando de volta à realidade. Entretanto, sei que esse pessoal entende do assunto e poderia se virar sem o blogue. Por outro lado, já tive várias notícias de que os posts tem utilidade para pessoas que, sem um conhecimento muito grande de causa (sem trocadilho), eventualmente precisam levantar informações, ou tem curiosidade, sobre os temas abordados aqui. Por vezes tenho a impressão (consultando as informações estatísticas disponibilizadas pelo portal WordPress – informações que nunca consegui confirmar), que a grande parte dos frequentadores eventuais de causa:: é constituída por estudantes do ensino médio e de graduação universitária, em busca de conteúdo para suas pesquisas escolares. De qualquer maneira, desde q o blogue existe, foram trezentos e poucos mil acessos, o que, para mim, é um sinal mais do que suficiente de que vale à pena gastar umas trinta horas mensais preparando os três ou quatro posts que consigo subir colocar no ar, a cada mês.

A seleção foi feita por mim com base em possível interesse que o tema abordado possa ter para quem busca informação sobre os assuntos. Deixei de lado meus delírios políticos e respectivas simpatias e antipatias, de modo que não entraram na lista coisas como a biografia de Hugo Chávez, as picuinhas com as Organizações Globo e os comentários sobre as políticas de segurança pública do Rio de Janeiro (por exemplo). Também ficaram fora da lista as “frases para pensar” e as “moças” e “rapazes” em uniforme, que me parecem sem grande utilidade a não ser pelo fato de que eu gostava de fazê-los. Por falta de tempo, tive de extingui-los, apesar de, por vezes, terem apresentado conteúdos que me agradaram bastante. Alguns dentre esses textos serão incluídos, quando eu os considerar, no todo ou em parte, relevantes. Mas nada foi retirado.

Também procurei organizar o conteúdo por tópicos, ou seja, as listas contêm entradas que se relacionam entre si através de assuntos gerais – por exemplo “História”, “História Militar”, “Estratégia”, “Tecnologia” e por aí vai. Trata-se, enfim, de uma espécie de “arquivo geral de causa::“, projeto que sempre acalentei e, sei lá porquê, nunca encaminhei.

A lista começa em seguida, em uma primeira edição. Irá sendo atualizada na medida do possível, ao longo do próximo ano, incluindo artigos publicados até dezembro de 2010. Espero que gostem e se divirtam, pois. O blogue sai do ar em janeiro. Voltaremos com força total no próximo mês. De toda forma, aproveitarei a oportunidade para, mais uma vez (e as vezes, sejam lá quantas forem, nunca serão suficientes), agradecer a companhia de todos, assíduos ou não, e dizer que, ao fim e ao cabo, quem mais aproveitou e curtiu esses mais de três anos fui eu mesmo.

Fiquem todos bem! Feliz Ano Novo!::

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causa:: ARQUIVO GERAL

História::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial:: Os custos econômicos da Segunda Guerra Mundial::(12 de agosto de 2008)

https://jbitten.wordpress.com/2008/08/12/minha-comemoracao-particular-do-fim-da-segunda-guerra-mundial-e-ainda-nao-chegou-ao-fim/

A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?:: Que vitória foi essa, afinal?:: (31 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/24/a-guerra-dos-seis-diaso-inicio-dos-problemas/

Nota: Primeiro artigo de uma série de dois sobre a Guerra dos Seis Dias (Oriente Médio, 1967) e as origens do radicalismo de direita na política israelense.

A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?:: Que vitória foi essa, afinal?:: (31 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/31/a-guerra-dos-seis-diaso-inicio-dos-problemasparte-2que-vitoria-foi-essa-afinal/

Nota: Segundo artigo de uma série de dois sobre a Guerra dos Seis Dias (Oriente Médio, 1967) e as origens do radicalismo de direita na política israelense.

Recordar é viver::Como o Ocidente costuma a tratar as nações árabes::https://jbitten.wordpress.com/2009/02/10/recordar-e-vivercomo-o-ocidente-constuma-a-tratar-as-nacoes-arabes/

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Dragões das Minas:: (21 de abril de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/04/21/um-rapaz-das-forcas-especiais-as-tercasdragoes-das-minas/

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::(29 de maio de 2010)https://jbitten.wordpress.com/2010/05/29/minha-comemoracao-particular-do-fim-da-segunda-guerra-mundialdrops-para-o-fim-de-semana-2/

Nota:Texto refletindo sobre as responsabilidades morais de indivíduos envolvidos em crimes contra a humanidade e crimes de guerra. Contém um atalho para um pós escrito do texto completo da filósofa Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém, de autoria da própria.

História Militar::

62 anos esta noite::Okinawa, o moedor de carne (25 de julho de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/07/25/62-anos-esta-noite/

62 anos esta noite::Olímpica, mas nem tanto::(26 de julho de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/07/26/62-anos-esta-noiteolimpica-mas-nem-tanto/

Algumas observações sobre o início da Segunda Guerra Mundial::(23 de junho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/06/23/algumas-observacoes-sobre-o-inicio-da-segunda-guerra-mundial/

Os limites da blitzkrieg – o auge e o começo da derrocada:: (25 de junho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/06/30/um-sistema-de-armas-da-segunda-guerra-mundial-e-claro-as-tercas-o-feio-o-mau-e-o-bom/

Toques para olhar fotos da 2ª Guerra Mundial:: (20 de fevereiro de 2019)https://jbitten.wordpress.com/2009/02/20/cultura-material-militartoques-para-olhar-fotos-da-2a-gm/

Cultura material militar::AERONAVES

Um sistema de armas às terças::Grumman F14A Tomcat da Forca Aérea da República Islâmica do Irã (09 de outubro de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/10/09/um-sistema-de-armas-as-tercasgrumman-f14a-tomcat-da-forca-aerea-da-republica-islamica-do-ira/

Um sistema de armas às terças::Wild Weasels – sobre o Vietnam, os primórdios da guerra aérea moderna:: (23 de outubro de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/10/23/um-sistema-de-armas-as-tercaswild-weasels-%e2%80%93-sobre-o-vietnam-os-primordios-da-guerra-aerea-moderna/

Nota: Primeiro artigo de uma série de dois sobre a origem da doutrina SEAD (Supression, Enemy Air Defense)

Um sistema de armas às terças::Wild Weasels – sobre o Vietnam, os primórdios da guerra aérea moderna:: (18 de agosto de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/08/18/um-sistema-de-armas-as-tercaswild-weasels-%e2%80%93-sobre-o-vietnam-os-primordios-da-guerra-aerea-moderna-2/

Nota: Segundo artigo de uma série de dois sobre a origem da doutrina SEAD (Supression, Enemy Air Defense)

Um sistema de armas às terças::Supermarine Spitfire, a ferramenta dos “poucos”:: (16 de junho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/06/16/um-sistema-de-armas-da-segunda-guerra-mundial-e-claro-as-tercas/

Cultura material militar::ARMAS PORTÁTEIS

Sterling::Uma obra de arte quase desconhecida::(29 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/29/eu-as-amo-e-as-odeiosterlinguma-obra-de-arte-quase-desconhecida/

Walther PP::A arma do comandante James Bond::tp://jbitten.wordpress.com/2009/02/13/eu-as-amo-e-as-odeiowalther-ppa-arma-do-comandante-james-bond/

A linhagem FAL:: (21 de abril de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/04/21/cultura-material-militara-linhagem-fal/

Nota: Primeiro artigo de uma série de três, sobre o desenvolvimento do Fuzil Automatique Légere FN Herstal, de origem belga, e sua difusão entre as forças armadas da maioria dos países ocidentais, entre 1949 e 1967.

Cultura material militar::ARTILHARIA

Um sistema de armas às terças::Krupp Fliegendeabwehrkanonne 8,8 (28 de agosto de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/08/28/um-sistema-de-armas-as-tercas-krupp-fliegendabwehrkanonne-88/

Um sistema de armas às terças:: Antey 2500 (S-300V) Mobile Universal Air Missile Defense System (25 de setembro de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/09/25/um-sistema-de-armas-as-tercasantey-2500-s-300v-mobile-universal-air-missile-defense-system/

Um sistema de armas às terças:: Tor M1 9M330 (18 de setembro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2007/09/18/um-sistema-de-armas-as-tercas-tor-m1-9m330/

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas:: (17 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/17/uma-historinha-interessante-os-foguetes-do-hamas/

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas:: O resto da historinha:: (18 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/18/147/

Um sistema de armas às terças::Atomic Annie::A bomba-A chega ao varejo:: (11 de fevereiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/02/11/um-sistema-de-armas-as-tercasatomic-anniea-bomba-a-chega-ao-varejo/

Cultura material militar::BLINDADOS

Maus::O pobre monstro (19 de julho de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/07/19/maus-o-pobre-monstro/

Um sistema de armas às terças::O feio, o mau e o bom::(30 de junho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/06/30/um-sistema-de-armas-da-segunda-guerra-mundial-e-claro-as-tercas-o-feio-o-mau-e-o-bom/ 

Nota: Primeiro artigo de uma série de três, sobre o tanque norte-americano Sherman M-4

Um sistema de armas às terças::O feio, o mau e o bom::(03 de julho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/07/03/um-sitema-de-armas-da-segunda-guerra-mundial-e-claro-as-tercas-escolha-sua-arma/

Nota: Segundo artigo de uma série de três, sobre o tanque alemão Panzer IV

Um sistema de armas às terças::O feio, o mau e o bom::(08 de julho de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2008/07/08/um-sistema-de-armas-da-segunda-guerra-mundial-e-claro-as-tercaso-feio-o-mau-e-o-bom/

Nota: Terceiro artigo de uma série de três, sobre o tanque soviético T-34

Um sistema de armas às terças::Centurion-Sh´ot:: Se não o melhor, um dos melhores:: (27 de janeiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/01/27/um-sistema-de-armas-as-tercascenturion-sh%c2%b4otse-nao-o-melhor-um-dos-melhores/

Cultura material militar::HISTÓRIA DA TECNOLOGIA MILITAR

Bete Marrom, a amiga dos Casacos Vermelhos (27 de fevereiro de 2009)

https://jbitten.wordpress.com/2009/02/27/cultura-material-militarbete-marrom-a-amiga-dos-casacos-vermelhos/

Capacetes:: (18 de março de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/03/18/cultura-material-militarcapacetesparte-i/

Nota: Primeiro artigo de uma série de três (até o momento, pois pode aumentar), sobre o desenvolvimento e difusão do uso do capacete militar durante a Primeira Guerra Mundial.

Capacetes:: (26 de março de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/03/26/cultura-material-militarcapacetes-parte-2/

Nota: Segundo artigo de uma série de três (até o momento, pois pode aumentar), sobre a introdução do uso do capacete militar entre as forças imperiais russas e depois, de seu desenvolvimento na União Soviética.

Capacetes::(16 de abril de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/04/16/minha-comemoracao-particular-do-fim-d-2a-gm/

Nota: Terceiro artigo de uma série de três (até o momento, pois pode aumentar), sobre a introdução do uso do capacete militar entre as forças alemãs, a partir da Primeira Guerra Mundial e seu desenvolvimento para o modelo adotado pela Wehrmacht a partir de 1935. Dividido em duas partes, esta é a primeira.

Capacetes:: (30 de abril de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/04/30/cultura-material-militarcapacetes/

Nota: Terceiro artigo de uma série de três (até o momento, pois pode aumentar), sobre a introdução do uso do capacete militar entre as forças alemãs, a partir da Primeira Guerra Mundial e seu desenvolvimento para o modelo adotado pela Wehrmacht a partir de 1935. Dividido em duas partes, esta é a segunda.

Cultura material militar::MEIOS NAVAIS

Um sistema de armas às terças::KNM Skjold (04 de setembro de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/09/04/um-sistema-de-armas-as-tercasknm-skjold/

Um sistema de armas às terças:: A arma submarina alemã: o argumento do mais fraco (no mar)::(19 de fevereiro de 2009)https://jbitten.wordpress.com/2009/02/19/um-sistema-de-armas-as-ahhh-quando-der-nao-tenho-tanto-tempo-quanto-gostaria/

Política internacional::Estratégia

Guerra e paz:: (06 de julho de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/07/06/guerra-e-paz-2/

Nota: – Tradução de um texto do historiador britânico Eric Hobbsbawn.

Guerra sem limites:: (21 de agosto de 2008)https://jbitten.wordpress.com/2007/08/21/guerra-sem-limites/

Nota: Texto do professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, transcrito do jornal O Globo de 18 de agosto de 2007)

Doutrinas de emprego de força 2::Uma resposta flexível, mas nem tanto:: (15 de setembro de 2007)https://jbitten.wordpress.com/2007/09/15/doutrinas-de-emprego-de-forca-2-uma-resposta-flexivel-mas-nem-tanto/

A guerra pós-clausewitziana:: (15 de outubro de 2010)https://jbitten.wordpress.com/2007/10/15/a-guerra-pos-clausewitziana/

A estratégia da guerra pós-clausewitziana::A estratégia da guerra pós-clausewitziana::(20 de outubro de 2010)https://jbitten.wordpress.com/2007/10/20/a-estrategia-da-guerra-pos-clausewitziana/

Nota: Tradução de artigo publicado na versão eletrônica do jorna The New York Times em 15 de outubro de 2007

Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros questais:: (23 de abril de 2009) https://jbitten.wordpress.com/2009/04/23/recordar-e-viveranos-70-detente-salt-e-outros-quetais/

 

O Natal de causa::Uma questão nada natalina::

De fato, uma questão muito pouco natalina… Mas vá lá…

Anos atrás, conversando com um veterano que havia passado um “tour” (como eles chamam o período de serviço em campanha) no Vietnam, entre os anos de 1967 e 1968, a certa altura, notei que o cara se referia frequentemente ao inimigo como “charlie”. Perguntei ao sujeito se essa denominação teria relação com o alfabeto de fonético usado pela OTAN e pela ICAO (Organização Internacional de Aviação Civil), e adotado por quase todas as instituições ocidentais que utilizam comunicações  de voz. Imaginei que essa fosse, para um ex-militar, fácil de responter. Nada. O antigo cabo-de-esquadra (lance corporal, em inglês, posto inexistente nas forças armadas brasileiras) dos Marines não fazia a menor idéia do que eu falava. Quando perguntei se “charlie” seria uma contração de “victor-charlie”, só então ele entendeu.

A forma atual (e bastante conhecida), desta representação fonética do alfabeto latino moderno difundiu-se a partir de sua adoção pela OTAN, na instrução intitulada “Publicação Tática Aliada 1, Volume II: Livro de Sinais Marítimos e de Manobra”, divulgada no início dos anos 1950. Essa instrução regulou a forma de vocalização de expressões codificadas, em mensagens por telecomunicaçãoes, e foi adotada pelas marinhas dos países da Aliança Atlântica. Mesmo tendo o inglês como língua de trabalho, a pronúncia variava grandemente, caso estivessem se comunicando um norueguês e um canadense, por exemplo. O alfabeto fonético usa, para relacionar letras e números, palavras cuja pronúncia varie pouco, seja lá qual for a língua natural usada pelo emissor. A primeira experiência data de 1927, numa forma bem diversa da atualmente difundida. A iniciativa foi formalizada em uma instrução da União Internacional de Telecomunicações (ITU), adotada por todos os países membros. Tornou-se mais difundida conforme o uso de comunicações com modulação de voz (rádio falado, inexistente na 1ª GM) se tornou comum e o problema da diferença de línguas e pronúncias aumentou (mesmo uma língua comum, como o inglês ou o protuguês, por exemplo, tem pronúncia muito diferente, dependendo do país que se considere).  

No Vietnam, os militares norte-americanos costumavam a utilizar abreviaturas e acrônimos, como forma de diminuir a ambiguidade da comunicação oral. Assim, referiam-se às forças armadas dos EUA como Uniform-Sierra-Mike, querendo dizer US Military; aos militares locais como Alfa-Romeo-Victor-November (Army, Republic of VietNam); pediam apoio aéreo usando a abreviatura Alfa-Sierra-November (Air Support Needed); e por aí vai. O inimigo era tratado por Victor-Charlie, querendo dizer VietCong.

Isto se referia a qualquer pessoa tida como simpatizante dos comunistas e que aceitasse o comando da Frente de Libertação Nacional do Vietnam do Sul (organização política estabelecida no Vietnam do Sul a partir de 1960). Os irregulares armados do Sul eram chamados, genericamente, de “vietcongs”. Essa palavra era uma contração de Việt Nam Cộng-sản, (comunista vietnamita), embora outras interpretações a dêem como contração de Việt gian cộng sản (“traidor comunista do Vietnam”). Segundo diversos historiadores, a imprensa sul-vietnamita situacionista começou a usar essa palavra como um pejorativo, em 1956, mas logo documentos diplomáticos e militares norte-americanos passaram a usar a expressão para referir insurgentes presos ou mortos nas ações de guerrilha que começavam então a se tornar comuns. A difusão da abreviatura Victor-Charlie ou VC, e do uso  da contração “Charlie” deve-se aos assessores militares enviados em grandes números ao Vietnam do Sul a partir de 1961, durante o governo Kennedy. O curioso é que os norte-americanos não faziam distinção entre combatentes sul-vietnamitas e militares norte-vietnamitas (que estava presentes em grandes números no Vietnam do Sul, durante toda a guerra, embora essa presença não fosse admitida pelo governo do Vietnam do Norte.

Que relação isso tem  com o Natal? Nenhuma, a não ser o fato de que a foto lá em cima mostra um show realizado em um hospital militar, no ano de 1970… E é tambem uma forma de causa:: agradecer aos aos assíduos as visitas que me dão vontade de continuar escrevendo estas notas…:: 

A batalha do Rio de Janeiro::Planejando para depois::

Eis aí uma bela foto, pelo menos para quem se preocupa com os assuntos geralmente tratados aqui no causa:: Pois é… Não consigo parar de falar na “batalha do Rio de Janeiro”, mas confesso: começo a mudar de opinião… É uma guerra, sim. E uma guerra com um detalhe interessante: planejada, desde o começo.  Talvez pelo fato de que não é propriamente uma “guerra”, mas uma ação decidida do estado, ou seja, das autoridades constituídas, para retomar o controle de porções significativas do território formal.

Até o momento tem sido bem sucedido. O motivo, me parece, é o fato de que as populações que habitam esses territórios querem ser tratadas como cidadãos, e não propriamente como habitantes de uma região ocupada. Alguns dias atrás, prestei atenção em uma cena transmitida pela TV, na qual um helicóptero Agusta Bell 212 voa sobre o Complexo do Alemão, com atiradores de escol posionados em ambas as portas laterais. O cenário de fundo era o panorama interminável de casinhas, e a função dos policiais posicionados não era, de fato, dar tiros – até porque o complexo está totalmente pacificado. A função desses policiais – altamente especializados – seria vigiar as atividades no chão. Abre parentese: o AB 212 é aquela aeronave adquirida diante da situação de pânico criada pela má qualidade das informações disseminadas na época  em que um helicóptero Esquilo foi derrubado por tiros disparados durante uma operação policial; na época, fiquei esperando o momento em que os jornais exigiriam a aquisição de helicópteros de ataque “Apache” para a polícia carioca, embora, pessoalmente, se o negócio é tanque voador, prefiro o Mil Mi24. Fecha parentese.  

Encontrei um bom texto num dos foruns especializados da Internet. É claro, como não podia deixar de ser, o infográfico da notícia dava informações estapafúrdias, que foram corrigidas pelo editor do fórum – paciência, não se pode esperar nada melhor. O texto, um pouco cortado, é o seguinte…

“De olho na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016, uma frota de helicópteros comuns e blindados, já em processo de compra, vai reforçar o patrulhamento aéreo da Região Metropolitana da cidade. O projeto prevê a aquisição para o Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM) da Polícia Militar de 16 aeronaves, que vão permitir vigiar as vias expressas, bairros e favelas. ´O uso do helicóptero no patrulhamento permite baixar os índices de violência, já que a presença dele inibe a ação de criminosos. Sem contar que este recurso como apoio permite a redistribuição das viaturas, aumentando a área de atuação e a eficácia do policiamento´, define o comandante do GAM, tenente-coronel Eduardo Ribeiro. Semana passada, O DIA acompanhou uma manhã de patrulhamento do GAM nas zonas Norte e Oeste e no Centro. Saindo da base do grupamento, em Niterói, a aeronave modelo Esquilo chegou à Avenida Brasil em poucos segundos. Em apenas dois minutos, já sobrevoava Bangu e, na sequência, foi para o Méier checar informação recebida pelo rádio sobre o bloqueio numa rua onde ocorria manifestação. Pendurados nas laterais do helicóptero, que transporta até seis passageiros, PMs armados com fuzis ficavam atentos à movimentação lá embaixo. ´Passamos próximos para ter melhor visualização e compreensão do que se passa. Dá para ver as pessoas, as casas, a movimentação nas ruas e carros, tudo´, frisou um dos sargentos que monitoram a cidade do alto. Outra novidade atende pelo nome de ‘PMCop’. Serão aeronaves equipadas com câmeras de alta definição, capazes de monitorar vários pontos da cidade. A ideia é que esses helicópteros façam uma espécie de ‘Big Brother’ aéreo, captando imagens para identificar, ainda mais rápido, os crimes ocorridos. Os aparelhos também são blindados.”

Um dado é interessante de ser observado: a ampliação da dimensão de abordagem da cidade, que agora inclui a vigilância aeromóvel em tempo real. Vale à pena lembrar o fato de que um dos intelectuais chamados a comentar a “batalha do Rio de Janeiro” tentou estabelecer uma comparação entre a operação planejada pelas autoridades cariocas e a Blitzkrieg. O engano do respeitável professor, um dos grandes especialistas acadêmicos em  Guerra do Paraguai, em atuação, foi achar que Blitzkrieg é necessariamente algo que envolve tanques. Eu diria que, mais do que isso, a Blitzkrieg, como doutrina, envolve uma ampliação exponencial das dimensões do teatro tático, possibilitada, inicialmente, pela introdução da “busca da iniciativa” como fator definidor dos limites do campo de batalha. É interessante pensar que as “Tropas de choque” alemãs, durante a 1ª GM, buscavam na iniciativa uma forma de romper o impasse da “perda do movimento” – o fenômeno que resultou, no final de 1914, na guerra de trincheiras. 

Certamente não posso dizer se a guerra européia do início do século 20 teria estado na cabeça dos planejadores cariocas. Eu duvido: nossas autoridades não tem o hábito de estudar história. Mas que alguns aspectos daquela guerra estiveram presentes nos dias memoráveis que vivemos por aqui, estiveram. A começar pela negação às quadrilhas cariocas, do uso do território (seria o de outra pergunta, ainda mais esdrúxula: as autoridades cariocas leram Clausewitz?..). Também é interessante lembrar que Rommel, ao fim de sua experiência como comandante da 7ª Divisão Panzer, no teatro ocidental, declarou que a única forma de comandar uma unidade dessas seria com um rádio no ouvido… de dentro de um avião. Isso permitiria ao comandante estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É isso que permitem, agora, os helicópteros, e a experiência dos repórteres de O DIA, apresenada acima, mostra como muda a capacidade de intervenção das forças de segurança, quando lhes são dadas asas.

Também é interessante observar como se estrutura a “guerra em rede”: informações em tempo real são alticuladas em postos de comando, que redirigem os agentes envolvidos para os pontos do “teatro” onde eles poderão ser mais necessários. É claro que o piloto de um helicóptero Apache, pairando sobre um bairro de Bagdad, observando uma tela minúscula na qual apareciam homens que “pareciam portar armas” deve vir à cabeça de todo mundo, neste momento (essa imagem foi um dos primeiros golaços do site Wikileaks). A questão é que, em Bagdad, os militares norte-americanos estavam em uma situação de confronto aberto, e este não é o caso do Rio de Janeiro. No caso de Bagdad, foi dado aos tripulantes do “Apache” o direito de decidir se abriam fogo, com um canhão de 30 mm (capaz de derrubar uma casa com uma rajada padrão de três segundos), contra um grupo mal-identificado. No Rio de Janeiro, não deve ser dado este direito aos tripulantes de helicópteros – ou seja: a cadeia de comando não pode ser rompida em hipótese alguma. Por sinal, Bagdad não lembra o Complexo?.. Vamos miniaturizar: boa parte das centenas de “baixas colaterais” observadas nos enfrentamentos entre policiais e traficantes pode ser atribuídas à liberdade de ação dada aos policiais em campo. Numa operação militar, essa é a via mais curta para o desastre::

Cultura material militar::O motor, a doutrina militar alemã e sua mudança::Parte 3

Antes do acontecimento da Batalha do Rio de Janeiro, estávamos examinando como a doutrina alemã que marcou o início da 2ª GM se reflete sobre o equipamento posto pela Alemanha à disposição de suas tropas. Continuaremos agora examinando este assunto, que parece sempre interessar ao historiador militar, bem como aos especialistas em história da técnica militar. O tema central será o crescimento exponencial do porte dos carros de combate, que teve seu momento marcante no surgimento do PzKpfw VI, o arquiconhecido Tiger I. Junto com o T34, o Panther (que examinaremos em outro artigo), o Centurion inglês (que já foi examinado aqui mesmo no causa::) e o Pershing M26, parecem constituir o marco inicial dos modernos “tanques pesados”, conhecidos, em inglês, por Main battle tanks, ou MBTs. Bom, vamos ao assunto::

parte3/4Os teóricos do exército já pensavam em um “superpesado” desde meados dos anos 1930 e o projeto de uma coisa assim iniciou-se em 1936-7, mas foi sendo desenvolvido muito lentamente até que começaram a chegar relatórios da Frente Oriental. Os especialistas do exército retiraram o projeto do “superpesado” do banho-maria, pensando num blindado que pudesse lidar com tal tipo de “surpresas”. Este deveria ser especialmente bem protegido e armado, ainda que a mobilidade tivesse de ser sacrificada. Em meados de 1941 os escritórios de projetos da Henschel & Sohn, de Kassel, e da Porsche, de Stuttgart, já tinham sido convidados a apresentar propostas para um tanque do tipo, mas sem muita pressa. Depois de junho de 1941, a calma deu lugar ao nervosismo, e as autoridades militares pressionaram ambas as empresas a antecipar suas propostas. As características principais, exigências originais do HWA, eram a blindagem frontal não inferior a 100 milímetros e, como armamento principal o canhão Krupp  8.8 centímetros de dupla função.

O Doktor Ingenieur Ferdinand Porsche, amigo pessoal de Hitler, encabeçava, na época, o projeto de um carro popular que, custando 1000 marcos nacionais (Reichsmark), fosse capaz de explorar o sistema de auto-estradas (autobahnen) que era uma das jóias da coroa do plano econômico nazista. Com o rearmamento, Porsche tratou de adaptar o projeto do Volkswagen para servir de base a um veículo leve, o Kübelwagen (“carro-banheira”, apelido do Type 62) a ser usado pelo Exército como viatura de emprego geral.

Desenhar um tanque já era outra história. A equipe de Porsche vinha trabalhando, desde 1937, em regime “private venture”, num superpesado. Conseguiu um primeiro sucesso: sempre com um olho nas tendências da época, a proposta recebeu o nome de Tiger, que acabaria designando todo o projeto e seus desdobramentos.  Outros problemas menos relacionados ao marketing e mais à engenharia, não foram superados. O conceito proposto por Porsche tinha alguns elementos revolucionários, como, por exemplo, uma planta de potência eletromecânica. Dois motores de 320 hps cada um, movidos à gasolina, acionariam um gerador que, por sua ver, forneceria energia para motores elétricos de grande potência. A idéia era que os motores à explosão, ainda que menos potentes, usados como acionadores de geradores teriam seu consumo reduzido em pelo menos um terço. O problema é que o sistema, em testes, revelou-se muito frágil, e os motores elétricos, um por conjunto de esteiras de tração, eram controlados por uma caixa de transmissão que permitia a viatura mudar de direção. A geringonça mostrou-se muito complicada e dada a quebrar, além de exigir, para a fabricação, enorme quantidade de cobre, material estratégico do qual a Alemanha dispunha de fontes exíguas.

A Henschel tinha a vantagem de, sob a liderança do engenheiro Erwin Aders, acumular bastante experiência no desenho de tanques. Desde 1938 vinha sendo rabiscado o projeto de um tanque médio de 30-35 toneladas de deslocamento, mais pesado portanto que o Panzer IV, com a mesma torre e suspensão. Posteriormente, esse protótipo foi aperfeiçoado para um projeto ainda mais pesado, de 40 toneladas, em torno do novo canhão KwK 42 (75 mm/42 calibres, disparando um projétil penetrante de alta velocidade). Ambos os protótipo foram abandonados, embora o primeiro tenha sido base para um caça-tanques pesado, denominado *Selbstfahrlafette 12.8 L/61 (”Reparo automóvel” 128 mm/61 calibres), que chegou a ser testado em combate, na segunda metade de 1942.

De fato, o *desenho não foi tanto condicionado pela experiência (bem desagradável) de combate na Rússia quanto pela filosofia de projetos adotada, até então, em função da doutrina da Blitzkrieg. A proposta da Henschel, designada VK4501(H) (de Volkettenfahrzeuge ou “viatura sobre esteiras” modelo 4501), pelo exército, foi mais tarde designada pela notação Panzer Kampfwagen (PzKwg) VI, e denominada Tiger I. Era um carro de combate de desenho bastante convencional (compare o desenho do Tiger I com o do *Panzer IV), acompanhando as tendências da década de 1930, quanto ao desenho do casco e mecânica, embora bastante grande. Diversos detalhes dos dois protótipos abandonados foram incorporados ao VK4501(H): a suspensão, as esteiras de tração, o esquema interno e o motor.

Genericamente chamado de Tiger (H), o projeto Henschel utilizou, tanto quanto possível, componentes e processos industriais já existentes, no que diz respeito aos aços especiais usados nas chapas de blindagem e componentes mecânicos. Isto se explica em parte devido à racionalização de tempo de guerra: o casco do protótipo VK4501 (H) era, de fato, o redesenho de uma proposta anterior da Henschel, denominada pelo exército *VK3601. O chassi apresentava blindagem frontal usinada por inteiro, em processo de esticamento, com 100 mm de espessura; nas laterais da superestrutura (a parte exposta do casco) a proteção era de 80 mm e 60 mm nas laterais do casco (a parte que sustentava a suspensão). A torre tinha sido desenhada pelos arsenais Krupp para o protótipo da Porsche, mas foi aproveitada por sugestão do exército, embora apresentasse problemas de estabilidade. Algumas modificações propostas pela Henschel não chegaram a superar os problemas observados, que faziam o conjunto absorver mal a energia do recuo, o que podia influenciar fortemente a precisão do disparo, mesmo com a viatura parada.

A motorização consistia de um *Maybach HL 210 P45 de 12 cilindros e 21.330 cm3, esfriado a água. Desenvolvido especialmente para o Tiger, era teoricamente capaz de desenvolver 650 HPs a 3000 rpm, consumindo pouco mais de 400 litros de gasolina para cada 100 quilômetros rodados. Aí começaram os problemas: o motor era bastante compacto, mas não devido a qualquer objetivo da empresa em realizar proezas de engenharia, mas às dimensões do compartimento do motor. A proposta de um bloco de alumínio, embora tenha diminuído o peso, mostrou diversas limitações, inclusive uma tendência a rachar, quando a aceleração era elevada ao máximo. O Tiger I incorporava dois sistemas que eram novidades nas forças blindadas alemãs. O primeiro era uma caixa de marchas hidráulica ligada a uma caixa de transmissão semi-automática. O segundo era um *volante, ao invés das tradicionais alavancas de mudança conjugadas. Essa inovação tornava a direção bem mais simples. A potência era transmitida do motor para a engrenagem motora através de um eixo conectado à caixa de transmissão situada na parte dianteira do carro. A transmissão tinha oito velocidades (oito à frente e quatro para trás), e podia, pelo menos teoricamente, levar o conjunto até uma velocidade máxima de 45 km/h em terreno plano e consistente e condições de demonstração. A caixa de marchas também transmitia potência para acionar o mecanismo hidráulico da torre.

A suspensão era baseada em *barras de torção, nas quais braços móveis sustentavam *oito truques formados, cada um, por três rodízios justapostos, intercalados quatro a quatro. Cada rodízio sustentava rodas sólidas de borracha vulcanizada. Este era outro problema: as rodas de borracha tendiam a gastar-se com muita rapidez, o que aumentava os já não pequenos problemas de manutenção. O uso de rodas de borracha maciça tinha sido herdado dos outros modelos de tanques usados pela Wehrmacht, como forma de diminuir o desgaste das esteiras de tração.

As esteiras de tração eram outro problema. Estudos realizados desde a Grande Guerra já tinham determinado que a largura das esteiras, embora aumentasse o atrito durante o deslocamento da viatura, reduzia consideravelmente a pressão exercida sobre o solo. Os projetistas dos tanques alemães da primeira fase da guerra, levando em consideração as requisições do exército, privilegiaram a velocidade. Assim, a melhor opção tinha sido as *esteiras estreitas, de 38 centímetros de largura, adequadas à suspensão de truques oscilantes ligados a feixes de molas. O problema é que esses tanques foram projetados levando em consideração a rede de estradas de terra socada da Europa Ocidental. Estimava-se que os veículo teriam de rodar distâncias relativamente pequenas em terreno não preparado, e a velocidade (que podia chegar a 40 km/h), juntamente com a rapidez das campanhas (que não deveriam ultrapassar o período seco) compensariam a instabilidade do solo.  Nas estepes isso não aconteceu: o período de chuvas, que transformava o solo em um mar de lama, e a falta absoluta de estradas surpreendeu as vanguardas motorizadas da Wehrmacht, fazendo atolar até os tanques. Os relatórios de campo dos militares falavam muito na facilidade de deslocamento do T34 soviético, o que era atribuído (corretamente) ao tipo de esteiras. Assim, os projetistas pensaram, inicialmente, em esteiras de tração bastante largas, com cerca de 80 centímetros. A largura distribuía a pressão sobre o solo de forma bastante eficiente, mas tornava o conjunto bem mais largo e difícil de transportar em vagões de trem especiais (nos quais os tanques eram levados até o teatro de operações). Como a suspensão tinha levado em consideração as esteiras largas, a solução foi desenhar um *segundo tipo de esteiras, chamadas “*de transporte”. Entretanto, as esteiras tinham de ser trocadas, o que ocasionava uma operação mecânica que podia durar até quatro horas, pois implicava que o conjunto externo de rodas tivesse de ser desmontado. Esse problema só foi resolvido com o redesenho dos rodízios e o sumiço das rodas de borracha.

Revolucionário mesmo era o armamento. O tanque pesado pretendido pelo exército deveria ser armado com uma peça de artilharia capaz de penetrar a blindagem de um adversário a uma distância maior do que o canhão do adversário fosse capaz de fazer. A opção natural foi o canhão de 88 mm, aquela altura amplamente disponível como arma anticarro. A torre foi desenhada pelos arsenais Krupp, preparada para receber a versão KwK 36 L/56 (de Kampfwagen Kanone modelo 1936-37 tubo-alma de 56 calibres de comprimento), uma versão adaptada do canhão anticarro com as mesmas características já então disponível. Essa arma já tinha demonstrado do que era capaz tanto no norte da África quanto na própria Rússia: o projétil penetrante de blindagem tinha uma velocidade de saída de 930 m/s, o que lhe dava capacidade de penetrar 110 mm de couraça a aproximadamente 2000 metros de distância. Era bem mais do que o necessário: a blindagem frontal do T34 era de 90 mm. Outra preocupação dos militares alemães era com os mecanismos de estabilização da torre e de pontaria. Em campo aberto, o tiro em movimento, contra alvos também móveis, tornavam a vital a capacidade de corrigir rapidamente a trajetória dos projéteis.

O problema é que um conjunto com esse porte necessariamente teria sacrificada a mobilidade. O peso total da viatura excedia 50 toneladas, o que lhe comprometia a capacidade de usar as pontes em geral disponíveis em auto estradas, obrigando as colunas blindadas a utilizarem pontes ferroviárias. A capacidade de cruzar rios também se tornava muito limitada, pois as primeiras versões não dispunham de escapamentos adequados para movimentação subaquática.

As duas firmas fizeram protótipos que deveriam ser apresentados a Hitler, pessoalmente, no dia de seu aniversário, em abril de 1942 (aquela altura o ditador, ainda embalado pelas vitórias de 1940, e se achando, dava palpite até no desenho dos uniformes de suas forças armadas). Produzidos às pressas no final do ano de 1941, ambos revelaram uma série de problemas que não puderam ser resolvidos. O modelo Henschel, mesmo a despeito da amizade pessoal entre Porsche e Hitler, acabou sendo ungido pelo ditador, impressionado pela capacidade de um tanque enorme (o protótipo pesava 55 toneladas) em alcançar a velocidade de 45 km/h.

Em março de 1943, depois de uma série de revisões de projeto, as divisões blindadas começaram a receber os primeiros Tiger, com a designação PzKpfw VI Ausf E, e sem passar por todos os testes requeridos pelo exército. A todos os problemas observados juntou-se mais um: o treinamento inadequado do pessoal mecânico, que simplesmente não sabia como lidar com a nova máquina.

Os Tiger I foram usados pela primeira vez em combate em setembro de 1942, perto de Leningrado, quando algumas unidades foram enviadas à frente, para avaliação. A maioria dos tanques nem chegou a entrar em posição, pois os defeitos mecânicos forma tantos que derrubaram nove dos doze exemplares. Todos foram recolhidos. No início de 1943 outra pequena leva foi enviada ao teatro norte-africano. Os defeitos mecânicos acabaram por resultar em um exemplar capturado intacto pelos ingleses, o que possibilitou um exame exaustivo do novo modelo (este Tiger I é, hoje em dia, um dos principais itens do acervo do Museu de Tanques de Bovington). Os defeitos mecânicos, provocados principalmente pela baixa potência do motor e pela sobrecarga do sistema de transmissão, continuariam a assolar o veículo e suas tripulações ao longo de toda a guerra. Em raras ocasiões uma unidade de Tiger chegou a operar com toda a sua força. Os Ausf E deveriam ser reunidos em número não menor que 28 carros (o ideal seriam 45, número quase nunca atingido), em unidades especiais chamadas Schwerige Panzer Abteilungen (algo como “Seção de Tanques Pesados”), comandadas por um tenente-coronel. Essas unidades atuavam junto às divisões blindadas convencionais, obedecendo a um comando centralizado mas com grande autonomia tática. Os membros eram voluntários com boa experiência de combate, e essas unidades logo começaram a se distinguir onde atuavam. Não era incomum que pequenos grupos de Tiger conseguissem colocar fora de combate cinco vezes mais adversários do que perdiam. De fato, tanque a tanque, os Tiger dificilmente eram superados. Os exemplares eram postos fora de combate por defeitos mecânicos ou, mais comumente, falta de combustível.

Em 7 de julho de 1943, durante a campanha de Kursk, o tanque comandado pelo primeiro-sargento Waffen SS Franz Staudegger, integrante do 13ª Companhia Blindada da 1ª Divisão Blindada SS declarou, devidamente chancelado por testemunhas (inclusive aeronaves enviadas para intervir) ter colocado fora de combate 22 tanques soviéticos no espaço de três horas; dois outros Tiger da mesma unidade cobriram-lhe a retirada, quando o 13-31, sem munição e com problemas na caixa de marchas, teve de se retirar. No processo, inutilizaram mais 9 tanques soviéticos. Esse tipo de proeza não era tão rara, e geralmente rendia ao comandante da tripulação o colar da Cruz de Ferro (a “Cruz de Cavaleiro”), condecoração dificilmente atribuída a oficiais com graduação menor do que a de major. Na mesma campanha outro graduado da 1ª DBWSS (cujo “nome de honra” era Leibstandarte Adolf Hitler – “Regimento Pessoal”), o cabo-de-esquadra Balthasar Woll, artilheiro de um Tiger comandado por um segundo-tenente (outro fato raro nas DBs convencionais), colocou fora de ação 11 tanques soviéticos com 11 disparos, todos a uma distância superior a 1500 metros. Woll receberia, em setembro de 1944, sua própria “Cruz de Cavaleiro”, por participar da destruição de mais de 200 veículos inimigos, sendo 80 deles tanques soviéticos. Essa unidade foi depois convertida no “Seção de Tanques Pesados SS 501”, que apresentou-se na contra-ofensiva das Ardenas (novembro-dezembro de 1944) com 45 tanques Tiger, a mais forte unidade blindada colocada em campo na oportunidade, pelos alemães.

Esses escores quase inacreditáveis podem ser explicadas por diversos fatores. Em primeiro lugar, a qualidade indiscutível do canhão KwK 36, combinada à extrema proteção das chapas usinadas por inteiro em aço-níquel. Essa combinação tornava o Tiger inatingível, a 1400 metros, por qualquer canhão de tanque existente em 1943, inclusive o excelente canhão de 85 mm instalado no T34 a partir do início de 1944. Também se deve incluir nessa equação o visor telescópico binocular Turmzielfernrohr  – TZF – 9b, instalado na torre do Tiger I Ausf E, e considerado o melhor mecanismo ótico de pontaria então disponível no inventário da Wehrmacht (e sobre o qual, curiosamente, existem poucas informações disponíveis).    

O PzKpfw VI Ausf E tinha, entretanto, alguns problemas sérios. O primeiro era o custo, tanto financeiro quanto em materiais e homens-hora. Sob qualquer parâmetro, o Tiger I custava pelo menos o dobro do que  um PzKpfw IV, e quase quatro vezes mais que um canhão de assalto StuG IV Ausf G, que montava um canhão KwK 40 75 mm L48 (o mesmo que equipava os tanques Panther) e era bem mais manobrável do que o Tiger I. A enorme alocação de recursos exigida acabou resultando numa produção de apenas  1355 unidades, entre agosto de 1942 e agosto de 1944. O segundo problema era mais objetivo: a máquina era subpotenciada. O motor de alumínio não gerava potência suficiente para, em condições de trabalho, e o resultado é que as duas últimas marchas para a frente não podiam ser usadas sem o risco de estourar o bloco. A velocidade real era, quando muito, quase 25 por cento menor do que a conseguida em condições de demonstração. Apenas uns 250 exemplares saídos de fábrica montaram esse motor; a partir do final de 1942, uma versão com bloco em aço e maior potência, o Maybach HL 230 P45, de 700 HPs, não chegou a melhorar o desempenho de forma notável, mas aumentou a durabilidade do conjunto.  

As táticas desenvolvidas pelos aliados para enfrentar essa nova arma variavam. Os americanos, após examinar informes de campo ingleses e um exemplar capturado na Tunísia, decidiram que os alemães somente conseguiriam reunir esses veículos em números reduzidos, e, assim, a massa de blindados aliados, menores mas reunidos em números avassaladoramente superiores seria suficiente para superar o problema. Essa tese nunca chegou a se comprovar, visto que o principal carro de combate norte-americano, o Sherman M4A3, com um canhão de 76 mm como armamento principal, mal conseguia arranhar a pintura de um Tiger I a 1400 metros, e praticamente desmontava quando atingido pelo KwK 36 a até 2000 metros. De fato, apesar da proclamada (pelos americanos e nunca exatamente provada) superioridade dos caça-tanques M18 Hellcat, a resposta dos EUA era sempre apelar para a superioridade aérea. Os ingleses, escaldados pela experiência do norte da África, optaram por dotar suas unidades blindadas de artilharia anticarro capaz de opor os blindados alemães. Arma a arma, essa opção era mais efetiva, embora a baixa mobilidade das posições anticarro fosse uma desvantagem.  Em 1943, os ingleses levaram a cabo a experiência de instalar o poderoso canhão OQF (Ordnance Quick Firing) 17 libras (76,2 mm/70 calibres), distribuído em 1942, na torre modificada de um Sherman. Esse canhão já tinha sido testado na África e se mostrara capaz de penetrar qualquer blindagem alemã em distâncias não menores do que 1500/2000 metros, usando um projétil penetrante de blindagem cuja velocidade de vôo era de 1204 m/s. A experiência resultou no Sherman *Firefly, único tanque aliado capaz de opor com alguma chance de sucesso os veículos mais pesados colocados em campo pela Wehrmacht a partir de 1944. Os soviéticos optaram por desenvolver artilharia anticarro automóvel. Inicialmente, o canhão de 85 mm do T34/85 foi montado numa versão especial do chassi daquele veículo, sem a torre, o que resultou numa silhueta mais baixa e num conjunto bem mais veloz, denominado SU (do russo Samokhodnaya Ustanovka – “reparo autopropulsado”). Entretanto, o veículo ainda era subartilhado, de modo que, no início de 1944, os soviéticos montaram no mesmo chassi um canhão D10. Essa providência rendeu o caça-tanques denominado SU100. O projétil penetrante de blindagem, com velocidade inicial de 1000 m/s revelou-se capaz de penetrar qualquer blindagem alemã, inclusive a frontal do Tiger I. Entretanto, a má qualidade dos mecanismos de pontaria soviéticos (a maioria dos quais basedos em tubos fixos sem lentes) e o baixo nível de treinamento das tripulações praticamente anulavam a vantagem propiciada pelo canhão.

O surgimento do Tiger I não marcaria ainda o ponto de inflexão da doutrina alemã que, por sinal, não seria determinado por nenhum tipo de blindado (talvez o projeto do supertanque Maus, que nunca chegou a ser efetivado, represente melhor essa mudança). O ano de 1942 marcou o limite efetivo da doutrina da Blitzkrieg, com a expansão máxima da máquina militar do Reich, e as limitações importas por tal expansão, principalmente no que diz respeito às fontes de combustível. A velocidade não seria mais, a partir de então, a base da doutrina; o movimento sim. E os alemães demonstraram, com sobras, durante a guerra, serem mestres do movimento::

A batalha do Rio de Janeiro::Observações depois da ocupação::

Passada a novidade da “batalha do Rio de Janeiro”, ou “Segunda Batalha de Itararé” (como o blogue prefere chamar tão grandioso evento), a vida no Complexo vai voltando à normalidade. Sábado passado um pequeno grupo de turistas apareceu por lá, liderados por uma artista plástica do Espírito Santo. Bom sinal – parece que as pessoas estão passando a ver o Complexo como mais outro lugar. Aliás, a semana passada foi repleta de bons sinais, visto que o Estado parece ter chegado ao local para não mais sair – e conta com a confiança da população local. Então é tempo de convocar os planejadores: senhores, chegou a hora do planejamento – das ações de médio e longo prazo. De qualquer forma, tão simbólico quanto a bandeira nacional drapejando no local mais alto da região, foi a implantação de placas de rua e códigos de CEP, o que significa que  a enorme área, que reune quase oito por cento da população da cidade, foi finalmente incorporada ao município. Algum tempo atrás, eu tinha dito, aqui mesmo no causa:: que a região precisava de um “banho de política”. Uma coisa exatamente assim. Aliás, um banho dado inclusive pela COMLURB, que parece que não tinha permissão de entrar lá…

Surge também o projeto de uma “Força de Paz” (FPaz – milico adora essas siglas…), visando colocar a presença do Exército em apoio às ações policiais, até a instalação da UPP local. A doutrina seria baseada na grande experiência do EB e da Marinha em forças internacionais de emergência, como a que atualmente está aquartelada no Haiti. A idéia é controversa por vários motivos. Dois são os principais.

Intelectuais locais, ligados às ONGs de fomento à cidadania e às universidades, não vêem com bons olhos o engajamento do EB em missões de segurança interna. Não deixam de ter certa doze de razão. Rubem Césas Fernandes, um dos coordenadores da superong “Viva Rio”, atualmente instalada em Port-au-Prince, diz que à atuação dos militares precisa corresponder uma forte supervisão civil. Segundo ele, no Haiti a presença de organizações internacionais fortemente apoiadas pelos governos de seus países de origem e pela ONU é um contrapeso à atuação militar, que frequentemente extrapola. Segundo Fernandes, no Rio de Janeiro a maioria dos formadores de opinião tende a achar que defender direitos humanos é defender bandidos, então a tal supervisão tenderia a ser menos incisiva. Chego a concordar com esse antropólogo. As atitudes militares não poucas vezes acolhem comportamentos que deveriam ser encarados como desvios comportamentais – veja-se, por exemplo, o sargento que, sem motivo algum atirou em um civil, num aparente acesso de fúria motivado pela simples presença, à vista de um quartel, de um homossexual; uns dois anos atrás, um segundo-tenente temporário, aparentemente para mostrar autoridade, entregou um grupo de adolescentes a um traficante de drogas, que prontamente os executou. Dias depois, chorando copiosamente, o oficial declarou “não saber por que tinha feito aquilo”. Não que os cidadãos pobres estranhem a violência em seu cotidiano, e boa parte dos desmandos da Polícia Militar deve-se à uma ideologia de que todo pobre é um bandido em potencial. As PMs, pelo Brasil todo, têm poucos oficiais e as frações (o policiamento é feito por pequenos grupos de homens) são geralmente comandadas por graduados. Os oficiais saem pouco dos quarteis, não andam junto com a tropa e fazem política de baixo nível num grau incomparavelmente mais alto do que nas FAs. 

Talvez oficiais superiores, em campo, pudessem manter a tropa sob controle estrito, mas resta saber se majores e tenentes-coronéis estariam dispostos a comer poeira e deitar suor nas vielas do Alemão… Por outro lado, os comandantes militares têm manifestado preocupação com a extensão do tempo da presença militar no local, dada a possibilidade de contaminação dos efetivos do EB e da Marinha pelo contato com policiais corruptos – e embora não tenha sido dito, inclusive (e talvez principalmente) da oficialidade. Essas preocupações não parecem totamente infundadas: a Polícia Civil do Rio começou, afinal, ontem (4 de dezembro) a investigar a denúncia de que o traficante “Polegar” (ex-chefe do tráfico no Morro da Mangueira, que estava refugiado no Complexo do Alemão) foi retirado (ou “extraído”, no jargão militar) do local num carro descaracterizado da Polícia Civil. As notas publicadas nos jornais não deixam muito claro como a coisa aconteceu, mas a Corregedoria da Polícia do Rio de Janeiro apressou-se em desmentir a informação. A questão é: até que ponto as FAs estarão imunes à corrupção?

A convivência promíscua entre polícia e criminosos não é novidade e nem característica do Rio de Janeiro. No mundo inteiro, policiais lançam mão de contatos que fazem no submundo para obter informações que lhes permitam antecipar os movimentos do crime. O recurso aos informantes – alcaguetes, “caguetes”, “x-noves”, “orelhões”, como são chamados na gíria policial – é parte da atividade policial em todos os países do mundo, e implica desde pequenas recompensas a esses criminosos até a chantagem. O problema é quando setores da polícia começam a se aliar a setores do crime organizado, e a situação se inverte: policiais corrompidos começam a informar o crime organizado sobre os movimentos da polícia.

É interessante observar que, na operação da Vila Cruzeiro, os traficantes devem ter recebido informações internas, visto que tiveram tempo de preparar o terreno para reter as unidades especiais da PMERJ, e chegaram a conseguir inutilizar um dos “Caveirões” do BOPE. Está certo que o *”Caveirão” não é um veículo militar, mas uma espécie de carro-forte adaptado para transportar um “grupo de ações táticas”, nome que, no BOPE, recebem as esquadras de policiais militares especialmente treinados e equipados. Mas é uma improvisação. O “outro lado”, ou seja, o tráfico, também conta com alguns elementos que receberam o excelente treinamento das unidades elite das FAs brasileiras: páraquedistas e fuzileiros navais. Esses militares são, em muitos casos, moradores de comunidades carentes, tentam conseguir uma carreira profissional estável nas FAs. Acabam dispensados, na maior parte dos casos, depois de 4 anos de serviço ativo, caso não conseguir passar num concurso interno para cabo ou num concurso aberto para graduado. Os jovens soldados, sem emprego e sem o suporte moral da corporação (que faz enorme diferença), ficam totalmente vulneráveis ao canto de sereia do dinheiro fácil.

Assim se justifica a preocupação das autoridades militares. “Recrutados” pelo crime organizado, ex-militares das tropas pára-quesdistas cuidam da segurança dos chefes e dos locais onde acontece o “movimento”. Não são incomuns as informações sobre apreensões de cadernos com esquemas de táticas de retardamento e retração organizada, bem como de montagem de armadilhas e instruções para o uso de armamento. Esses cadernos são escritos por pessoal militar “recrutado” pelo tráfico, e é assim que os criminosos aprendem como lidar com as forças de intervenção da polícia militar. Pode parecer muito impressionante, mas não é (a não ser para o sensacionalismo da imprensa): o que normalmente acontece é que os “soldados” do crime organizado postos à disposição dos “instrutores” não são sequer milicianos. Carecem de qualquer idéia de disciplina e não têm nenhuma cadeia de comando. São apenas marginais armados, e o treinamento deles limita-se a como municiar e disparar uma arma.

A não-contaminação das FAs e dos setores superiores das forças de segurança fica meio evidente (para nosso alívio) no fato de que os criminosos não pareciam esperar a intervenção das VBTP do Corpo de Fuzileiros Navais. A intervenção foi resultado de uma negociação, em plena crise, entre o governo estadual e o Comando da Marinha Brasileira, na qual o governador interviu pessoalmente. A negociação foi rápida e a Marinha respondeu com rapidez, lançando mão das guarnições que, em qualquer quartel militar, ficam sempre em serviço. Seis M113A3, dois *Carros-lagarta Anfibios (CLAnf, no jargão da MB) de 25 toneladas e três VtrBldEsp SR 8X8 MOWAG “Piranha IIIC“, com as respectivas guarnições e equipes de apoio, integrantes da Divisão Anfíbia (principal unidade do CFN/MB, com escala de brigada reforçada) foram transportados de seu quartel na Ilha do Governador e lançados diretamente no “teatro”. A surpresa observada entre os criminosos indica que estes não contavam com a intervenção militar, não sabiam como confrontá-la e nem tinham armamento adequado. Os militares tinham instruções para não intervir na operação da PMERJ, a não ser que a integridade das viaturas fosse diretamente ameaçada. O armamento orgânico das viaturas M113 e CLAnf, a *metralhadora Browning M2 .50 (12,7 mm) é considerado capaz de opor qualquer viatura militar não protegida, com proteção leve e pequenas aeronaves; no caso dos “Piranha”, a arma orgânica  é uma metralhadora FN Herstal 7.62.

A utilização dos blindados correspondeu à doutrina de lançamento de esquadra de infantaria em teatro tático. Entre nove e onze policiais militares do BOPE (um grupamento de ações táticas), com armamento completo foram conduzidos até o ponto focal e lá desembarcaram. Durante a busca por posições de fogo, se beneficiaram da massa do blindado como proteção. A VBTP permanecia durante alguns instantes no local e em seguida se retirava, para dar passagem a outra, trazendo um novo “grupo tático”. Uma vez consolidada a posição, os blindados retornavam ao ponto de reunião para lançar grupos táticos em novas posições. Em ação de deslocamento, os blindados se lançaram contra obstáculos deixados pelos “combatentes adversários” (vamos chamá-los assim, com alguma condescendência…). Depoimento de militares do CFN dão conta de que, em pelo menos três oportunidades, pequenos veículos foram esmagados pelo peso das viaturas. Um dos motoristas declarou que em momento algum houve oposição que pudesse ser considerada relevante, e os criminosos eram vistos fugindo pelas vielas, em muitos casos abandonando armas e pertences pessoais, além, claro, das enormes quantidades de drogas que não puderam ser deslocadas em função do volume. Os policiais militares, uma vez desembarcados, não tinham nenhuma dificuldade em consolidar posição e progrediam de maneira escalonada pelo terreno (grupos de 3 elementos avançavam, cobertos por um atirador que buscava a melhor posição de fogo), usando os próprios meios.

Os traficantes teriam alguma forma de oposição eficaz? A resposta é um redondo “não”. Segundo depoimento de militares das tripulações das viaturas, disparos de armas leves atingiam a chapa frontal das VBTPs M113, e pelo menos três granadas de mão foram lançadas, mas apenas uma chegou a explodir. As “bazucas” encontradas pela polícia não eram ameaça, de fato. Por sinal,  “bazuca” é uma denominação inapropriada para indicar o armamento encontrado. O que foi mostrado são duas categorias de armas bem diversas. A primeira é um lança-rojão , ao que parece  modelo M67 de 90 mm (é possível comparar as duas fotos). A reportagem da TV Globo, para variar, dá um monte de informações disparatadas e sensacionalistas, comparando essa arma a um canhão de 90 mm (são coisas completamente diferentes). Esse tipo de lança-rojão já foi descontinuado no EB, substituído por um modelo mais moderno, de origem sueca. É muito pouco provável que houvesse munição para ele (os tais “rojões”, um foguete chamado, pelos especialistas, “de carga oca”) e, mesmo que houvesse, provavelmente estaria fora de validade, visto que tem de ser armazenada em condições altamente controladas. E mesmo se a munição estivesse válida, é muito provável que a arma na hora do “vamuvê” negasse fogo: o disparo de um lança-rojão depende de um pulso elétrico obtido de uma bateria (um tipo de pilha); caso essa bateria não esteja instalada ou esteja descarregada, o disparo não acontece nem por vontade divina. A *segunda arma é um *M72 LAW (Light Anti-tank Weapon), armamento já retirado de serviço no Exército dos EUA, e que nunca fez parte do inventário das FAs brasileiras. Pelo que é possível entender da foto, a arma não deve ter mais o rojão, pois caso ele estivesse lá dentro, o risco de disparo acidental pelo policial que a demonstra seria muito grande (observe o diagrama – o PM está com a coisa armada). Como se trata de um “pacote descartável” (pode ser lançado fora depois de usado, embora seja possível recarregá-lo), é provável que tenha sido roubado ou comprado de um colecionador.

Entretanto, as fotos do armamento apreendido após a ocupação do Complexo do Alemão são *realmente preocupantes. Isso porque boa parte dos fuzis automáticos visíveis (em meio a muita porcaria, como armas de colecionador, armas claramente danificadas e peças de armas) são, na maioria, os FAL FN Herstal, arma padrão do Exército Brasileiro.  Parece que também foi apreendido um HK G3, arma da infantaria da aeronáutica. São pouco notáveis (eu, pelo menos, contei quatro) os AK47, e também se conta algumas carabinas Colt AR15. Digo “preocupente”, e muito, pois os FAL devem estar saindo dos quarteis militares, roubados ou comprados de efetivos do EB e da própria polícia (nos últimos anos, milhares dessas armas foram transferidas das FAs para as polícias militares e civis). 

É preciso que essas coleções de armamento apresado sejam estudado (e deve estar sendo)  com cuidado pela inteligência policial e das FAs, e que se apure a procedência, o que irá determinar se o contrabando é realmente considerável. Eu apostaria que talvez ainda seja para armas curtas. Mas também apostaria que a maior parte desses itens deve vir mesmo das indústrias locais, Taurus e Rossi, que fabricam excelentes pistolas semi-automáticas e revólveres, que podem ser desviados ou roubados aos magotes. O controle da distribuição de armas é realmente uma necessidade, apesar da controvérsia que sempre desperta, e as campanhas de “entrega voluntária” devem continuar::

A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé e a estrela do show::

Todos os veículos militares sobre esteiras de tração têm um antepassado comum, o *trator de esteiras Holt, fabricado pela empresa norte-americana Caterpillar Tractor Company, a partir do finalzinho do século 19. A idéia de instalar esteiras em veículos motorizados como forma de facilitar o deslocamento deles nas condições extremamente adversas das trincheiras resultou em rebocadores de artilharia, veículos de transporte e tanques. No período entreguerras algumas experiências foram feitas com veículos sobre esteiras, na URSS, Alemanha e EUA. Essas experiências resultaram, particularmente na Alemanha e nos EUA, em viaturas de transporte de pessoal extremamente eficientes.

A vantagem de qualquer veículo de esteiras sobre seus equivalente com rodas é a distribuição da pressão exercida devido à descarga do peso do veículo sobre o solo. Um veículo com esteiras de tração é mais estável do que um sobre rodas, pois elementos como a distância do veículo com relação ao chão e o desenho da suspensão fazem com que o centro de gravidade do carro, durante o deslocamento, varie menos. Mas as esteiras também resultam em desvantagens. A maior área de contato provoca a mudança do regime de torque, ou seja, da transmissão da potência do motor para o chão. Todos sabemos que veículos sobre pneumáticos são mais velozes, e é exatamente em função do menor coeficiente de atrito com o solo (este opõe resistência ao avanço do veículo – quanto maior a área de contato, maior a resistência). Este coeficiente de atrito acaba determinando a potência do motor e o consumo de combustível que, num veículo sobre esteira, acaba sendo muito mais alto do que num veículo sobre pneumáticos.

Outro problema notável é que, nos veículos sobre esteiras de tração, a dirigibilidade depende diretamente da transmissão. Em geral, é adotado um sistema em que uma caixa de marchas especial modifica o regime de giros do eixo das *rodas tratoras (as roda ligadas ao motor), fazendo com que um dos conjuntos de esteiras se mova mais rápido do que o outro. Isso acaba fazendo com que o sistema todo seja relativamente frágil e quebre com certa facilidade. Na 2ª GM, os complicados sistemas de transmissão adotados nos veículos sobre esteiras, notadamente nos carros de combate, foi fonte de muita dor-de-cabeça para combatentes e equipes mecânicas. Por sinal, é até hoje: um carro de combate com a caixa de marchas quebrada ou as *esteiras rompidas (o que frequentemente resulta do esforço mecânico das constantes alterações de giro) tem quase a mesma funcionalidadde de uma prancha de surf debaixo da cama.

Este foi um dos motivos da adoção, imediatamente antes da guerra, de viaturas meia-lagarta. Os “meia-lagarta” resolviam esse problema adotando rodas de direção não-tracionadas, com um sistema de direção de um veículo motorizado comum: um parafuso sem-fim ligado a um volante, e uma caixa de marchas padrão, de três ou quatro velocidades. O menor peso do conjunto criava a possibilidade de usar nesses veículos motores menos possantes e muito mais econômicos, além de torná-los mais fáceis de operar, visto que a direção era semelhante a de um caminhão. Isso os tornava ideais para certas tarefas, como  transportar tropas, a chamada “infantaria blindada”.

Ainda durante a guerra, alemães e norte-americanos pensaram na introdução de veículos de transporte de tropas totalmente sobre esteiras. Os projetos alemães não chegaram a sair dos estágios iniciais; os norte-americanos examinaram um protótipo baseado no chassi do caça-tanques M18 “Hellcat”, de notação *M44. O problema é que o projeto exigia um grande dispêndio de materiais, já que o casco, suspensão, motorização e transmissão eram basicamente os mesmos do blindado. Acabou sendo deixado em “banho-maria”. Terminada a guerra, os EUA continuaram a estudar veículos blindados sobre esteiras de tração destinados ao transporte de infantaria, embora os “meia-lagarta” *M3 continuassem a ser considerados adequados para a função e estivessem disponíveis em grandes números.

No início dos anos 1950, a experiência da Guerra da Coréia provocou um reexame profundo na doutrina norte-americana de guerra de movimento. Os norte-coreanos utilizavam a mesma doutrina soviética, que dividia a infantaria em três categorias: infantaria a pé, infantaria “motorizada” (transportada em caminhões não protegidos) e infantaria “montada”, ou seja, transportada no dorso de tanques T34/85. Essa infantaria, em diversas oportunidades conseguiu, em ações combinadas com os blindados, superar tropas norte-americanas teoricamente superiores em números e armamentos. Era transportada até próximo da zona de combate em cima dos blindados, desmontava pouco antes de alcançar a área de operação e daí delocava-se a pé, protegida pelo massa dos tanques. Os norte-americanos começaram, então, a estudar novos tipos de blindados, melhor armados e protegidos. O Sherman estava fora: mostrou-se pateticamente frágil diante da artilharia dos blindados de fabricação soviética; a família “Patton”, inaugurada em 1948 com o *M46 era superior ao T34/85, em alguns aspectos, mas apresentava alguns problemas mecânicos e um canhão considerado ineficiente. Outro modelo que surgiria desses estudos foi o *M41 “Walker”, que pode ser classificado como “tanque de cavalaria”, destinado a prover proteção de flanco para unidades mais pesadas; o M47 “Patton” (de fato, um M46 com nova torre) foi considerado capaz de superar os tanques soviéticos encontrados na Coréia. Também foram pedidos estudos em torno de um veículo que pudesse prover apoio aproximado de infantaria.

Os estudos desenvolvidos desde a 2ª GM foram retomados. O primeiro veículo a ser proposto foi o *M75, projetado pela fábrica de tratores International Harvester. Essa máquina utilizava a mesma plataforma mecânica do tanque M41, com pequenas mudanças na suspensão. A motorização era a mesma: um motor Continental a gasolina, considerado relativamente frágil em condições de uso. O M75 chegou a ser empregado nos últimos estágios da Guerra da Coréia, e o ponto que despertou maior polêmica foi o desenho: os engenheiros, seguindo indicações dos militares, projetaram um habitáculo em forma de caixa e uma grande porta dupla traseira, que permitia que os 13 infantes transportados desembarcassem muito rapidamente, mas dava ao veículo uma silhueta excessivamente alta. Entretanto, o maior problema do M75 era mesmo o preço, considerado muito alto pelo Exército dos EUA. Em 1954, a empresa FMC (Food Machinery and Chemicals Inc.), que havia recebido a encomenda de 1000 M75, a pedido do Exército apresentou o projeto de uma versão menor do veículo. Este mantinha basicamente o mesmo desenho do M75, mas em tamanho ligeiramente menor, pois os engenheiros da FMC diminuíram o comprimento da máquina e aumentaram-lhe a largura. A altura foi também ligeiramente diminuída, pois foi considerado que o *rápido desembarque não era prejudicado caso os infantes embarcados ficassem levemente encurvados, ao deixarem seus assentos. Sendo feito em placas de aço laminado, encaixadas por solda, teve seu peso consideravelmente diminuído, permitiu alterações na suspensão e o uso de dois motores GMC de caminhão, o que diminuiu notavelmente o consumo sem comprometer o desempenho. A diminuição do peso e o aumento da largura também permitiram que a máquina adquirisse capacidade anfíbia, que a anterior não tinha. O sistema de direção consiste em um diferencial conectado diretamente à transmissão, e o motorista o aciona através de um par de alavancas cada uma controlando uma das seções de esteiras de tração. O veículo não tinha armamento próprio, e era, em sua versão básica, equipado apenas com uma metralhadora pesada calibre 12,7mm (a tal “ponto cinqüenta” de que a imprensa vive falando), destinada à autodefesa. Recebeu a notação M59 e surgiu no final da década de 1950.

Esse novo APC (de Armored Personnel Carrier) permaneceu em produção até o final dos anos 1960, e quase 7000 unidades foram fabricadas (o Exército Brasileiro recebeu alguns exemplares, a partir de 1962). Apesar das melhorias, ainda era considerado excessivamente pesado para, por exemplo, ser transportado em aeronaves. Esta era a principal reclamação do Exército dos EUA, e daí, a FMC começou, com base no desenho do M59, a experimentar o uso de chapas de alumínio de alta densidade, que poderiam ter quase a mesma dureza do aço, com peso razoavelmente menor. O menor peso traria diversas vantagens. O desempenho aumentaria, sem aumentar o consumo de combustível (gasolina de alta octanagem, na base de 4 litros por quilômetro rodado); também possibilitaria que a máquina fosse transportada em aeronaves cargueiras C130, a razão de dois por aeronave, e até mesmo ser lançada de pára-quedas; aumentaria a capacidade anfíbia, facilitando o deslocamento em teatros de operações com muitos rios ou pantanosos. O novo veículo teria certa capacidade NBC (em inglês, acrônimo de nuclear-biológica-química) e deveria ser adequado ao campo de batalha europeu, mas adaptável a outros teatros. Resultou desse estudo o conceito ACAV (Armored Calvary Assault Vehicle, em inglês). O veículo que correspondeu ao conceito é o *M113.  

Sua produção inicial começou em 1960, na fábrica da FMC na Califórnia. Distribuída ao Exército e Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, a nova VBTP (“Viatura Blindada de Transporte de Pessoal”, nomenclatura do Exército Brasileiro) também foi entregue a países aliados da OTAN. A viatura tornou-se a base de uma linha conhecida como FOV (Family of Vehicles), série de especificações sobre a plataforma M113, que inclui as versões aperfeiçoadas. Em 1964, a experiência de campo, nos EUA e países aliados serviu para fazer surgir a primeira, o M113A1, que tinha como principal modificação foi a troca do motor a gasolina por um diesel. Essa mudança melhorou o alcance sem comprometer notavelmente o desempenho. Em 1976, surgiu o M113A2 e, em meados dos anos 1980, o M113A3, versão com mecânica muito modificada. Todas as versões incluiam viaturas-postos de comando (com parte elétrica modificada para receber aparelhagem de radio e outros equipamentos de comunicação e controle); veículos de recuperação e manutenção (com modificações na transmissão e na suspensão, pela permitir inclusive reboque de viaturas iguais, danificadas); viaturas para tansporte de cargas; viaturas transportadoras de equipamento gerador de fumaça; diversos tipos de transportadores de morteiro (81 mm e 120 mm); posteriormente foram também adaptados M113 transpordadores de metralhadoras giratórias XM134  *Minigun 7.62 mm (bastante usados no Vietnam), M741 Vulcan (viatura de defesa anti-aérea de ponto) e carregadores de diversos tipos de mísseis.

De fato, a plataforma original baseou, desde seu lançamento, mais de 40 variantes, com milhares de pequenas modificações. Muitas dessas modificações foram desenvolvidas por usuários estrangeiros do M113, baseadas em requerimentos militares. Alguns são, de fato, sistemas inteiramente novos, que mantém o desenho da viatura original.   

Desde 1960 foram fabricados mais de 80.000 M113, e a produção da FOV está longe de terminar. Novas unidades ainda são produzidas na Inglaterra, pela BAE Systems (um bom site sobre a viatura, em inglês, é mantido pela BAE), e pacotes de modificação das existentes são usados para modernizer as configurações já em serviço.

O veículo levanta opiniões divergentes nos usuários. Embora seja considerado simples de operar, bastante resistente e fácil d reparar, é considerado frágil em combate. Usado em grandes números na Guerra do Vietnam, são comuns as fotografias em que os infantes *viajam no teto do veículo. Tanto os GIs quanto seus aliados *preferiam essa posição pois além da blindagem não resistir a nada maior do que um projétil 7.62 mm, uma mina anticarro média rompia facilmente o fundo do veículo; além do mais, o rompimento de um dos conjuntos de esteiras de tração deixava a viatura totalmente inoperante e altamente vulnerável. Segundo a experiência dos operadores, num caso desses, o melhor que a tripulação e o grupo de combate poderiam fazer era sair de perto o mais rápido possível, pois a viatura se incendiava com enorme facilidade. Como se essa fragilidade toda não fosse suficientemente ruim, o interior do habitáculo era considerado muito quente, ficava cheio de gases de combustível e nem todas as versões dispunham de ar-condicionado. Mesmo assim, entre 1964 e 1972, os EUA chegaram a manter cerca de 2000 VBTP M113 naquele teatro. Eram – como ainda são – os principais elementos da cavalaria mecanizada do Exército dos EUA.

Originalmente, os M113 foram pensados como transportadores de esquadra de infantaria. No final dos anos 1950, a doutrina estabelecia que a infantaria motorizada deveria desembarcar um pouco antes do ponto focal e alcançá-lo a pé. Logo ficou evidente que a mobilidade do sistema mecânico quando combinada à potência da metralhadora orgânica Browning de 12,7 mm, poderia ser um valioso elemento de choque adicional para a esquadra de infantaria. Essa observação, baseada na experiência de campo obtida no Vietnam, modificou a doutrina: os infantes passaram a ser lançados diretamente no ponto focal.

Embora os veículos da categoria VBTP estejam sendo discutidos em função das novas doutrinas de guerra de movimento, que exigem veículos de esteiras e de rodas bastante velozes (os ingleses falam em velocidades de até 110 km/h como ideais), capazes de transporter mais carga, seja em termos de pessoal ou material, e dotados de maior proteção, não existe ainda um veículo capaz de substituir, a curto prazo, as enormes quantidades de M113 existentes no mundo. No início dos anos 1980, o governo norte-americano tinha projetos de substituir rapidamente essas máquinas pela VBTP *Bradley, dentro de um projeto de reequipamento mais amplo. Só que o M1 revelou-se caro, frágil, de mecânica complexa. Parece que a versão M113A3 tem ainda muito futuro pela frente::

A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé::

Parece que minha análise sobre a “guerra de imagens” em torno da “batalha do Rio de Janeiro” não chegou a agradar totalmente. Isto a julgar por algumas das mensagens postadas nas caixas de comentários dos dois postos, e as mensagens de correio eletrônico enviadas diretamente (até o momento, no total, foram 26 comentários). Talvez minha busca por “ferramentas de análise” não tenha chegado a dar conta do objeto.

Lamento, companheiros, mas o fato de que vocês não concordem comigo – coisa que acho absolutamente normal – não invalida a análise. Por sinal, essa tentativa se enquadra no que é chamado “análise do discurso”, uma disciplina acadêmica que merece a atenção inclusive de agências de informação. A análise do discurso político contemporâneo pede que se leve em consideração o aparato áudio-visual de informação, que mobiliza uma enorme quantidade de imagens. Com base nessa premissa é que afirmo que nada do que foi dito ou mostrado o foi por acaso. Nem a mobilização de um aparato militar em meio à vida cotidiana da cidade, com ampla cobertura da imprensa, e nem o uso de expressões que estavam aparentemente esquecidas. E muito menos a farta exibição de bandeiras nacionais drapejando sobre o território “reconquistado”.

Assim, minha conclusão é que a “batalha do Rio de Janeiro” foi mais um desdobramento da “guerra de 2010” – acho que está claro de que “guerra” falo, não?.. – e que estivemos, de fato, diante de uma “batalha de imagens” que foi desdobramento de uma “batalha de discursos”. De um lado, aquele mobilizado pelas autoridades; do outro, um que ordenava argumentos para provar a incapacidade daquelas autoridades.

Continuo também afirmando que a forma como se estruturou a cobertura da “batalha” pelos principais meios de comunicação da cidade indica que a inesperada competência das autoridades constituídas do Rio de Janeiro (coisa rara, reconheço) em mobilizar ordenadamente todo o aparato burocrático e tecnológico posto à disposição dos Estados modernos surpreendeu os jornalistas da grande imprensa, tanto quanto a ofensiva das forças policiais-militares surpreendeu o exército mambembe do tráfico. Mais: também afirmo que a imprensa tradicional esperava um retumbante fracasso das autoridades estaduais, e a análise dos quatro dias de cobertura do jornal “O Globo” e da Rede Globo de Televisão indica um crasso erro de avaliação desses órgãos de imprensa, que caíram na própria manipulação. Por este motivo escolhi cuidadosamente a segunda tese de Debord: “A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio.”

Quando o mentiroso “mente para si mesmo”, o resultado é o festival de imagens manipuladas da quinta-feira, dia 25, e de ambigüidades escritas, na sexta e no sábado seguintes. A televisão replicou de modo interminável as imagens do “exército do tráfico” e suas “armas pesadas” em debandada pela “rota de fuga”, e a manchete do “vibrante”, no sábado, estampava “Intenso tiroteio entre Exército e tráfico abre Batalha do Alemão”.

Aparício Torelli deve ter rolado no túmulo…

O fato é que ontem (segunda-feira) os dois órgãos de imprensa já tinham, aparentemente, reconhecido, internamente, a sucesso da estratégia do governo – que, diga-se de passagem, tinha adotava quase todas as reivindicações veiculadas pela própria imprensa, ao longo de anos, em suas matérias, principalmente a mobilização das forças armadas. Melhor aderir. Suas páginas, impressas e eletrônicas, cobriram amplamente o restabelecimento da ordem pública naqueles espaços do território político, pela PMERJ e pelas forças armadas nacionais. As manchetes passaram a celebrar a retomada do Alemão e as imagens, a mostrar as forças policiais-militares triunfantes e o entusiasmo da população local; os comentaristas acadêmicos e suas patacoadas sumiram e foram substituídos por um dos gozadores água-com-açúcar do humorístico “Casseta e Planeta”… elogiando a polícia (isto sim, “é inédito em 30 anos”, se me permitem parafrasear o cometarista Paulo Storani). No “Fantástico”, as imagens mostraram o jornalista Marcos Uchoa percorrendo a mesma a “rota de fuga do exército do tráfico”, como se fosse um correspondente de guerra, comentando sobre os destroços e conversando com efetivos do BOPE. Mais significativa ainda foi a matéria “Operação muda até a rotina na TV”. Não consegui localizar o texto na Internet (prometo que continuarei procurando e, se encontrar, o coloco aqui), mas é muito significativa a foto, de três colunas, de um repórter não identificado, mostrado em tomada frontal, plano médio, vestido com uma proteção corporal e um microfone, bem visível. Não é possível dizer que aquilo tenha sido “casual”. Não foi: a linguagem da foto em tudo emula fotografias de soldados, individualmente. Ao que parece, o “vibrante” tentava se associar ao movimento que, em toda a cidade, reconhecia e comemorava o evento.

E hoje? No que tive oportunidade de passar os olhos pelo jornalão (ontem o trabalho impediu-me de ver televisão ou escutar rádio), dois assuntos estampados da primeira página me chamaram atenção (acho que chamariam de qualquer um, mas agora… sei lá… posso estar delirando…). “Duas perguntas”, forma colocadas na boca da “população carioca”: “para onde foram todos os traficantes?” e “onde estão suas armas?”. Em seguida, o mesmo texto, numa espantosa manobra semântica (que não foi inventada por meu “lulopetismo”, descoberto pelo Luís Candido – acabei de verificar, por via de dúvidas), informa o “vibrante matutino” que a polícia está investigando a fuga de “muitos dos 600 traficantes pela galeria fluvial do PAC”. Sim – descobrimos que não é uma galeria pluvial, mas uma galeria pluvial “do PAC”. Uma galeria pluvial do governo federal. E, como se já não bastasse, Merval Pereira, o colunista que não sabe distinguir entre um Urutu e um M113, já não sugere, mas afirma: “as bandeiras hasteadas no teleférico do Complexo do Alemão que, se por um lado sinalizavam uma vitória das forças legais, também relembram que as obras do PAC estavam sendo feitas com a favela dominada pelo tráfico, o que demonstra que havia um acordo com os traficantes.” Então ficamos combinados assim: para quem não sabe, o governo “do chefe de facção” maior, o presidente da República, combina obras com os chefes de facção do Complexo do Alemão.  

Até admito, por outro lado, que posso estar exagerando com a análise do discurso, mas diria, parafraseando o ministro Juraci Magalhães, que “o que é bom para as agências de informação dos EUA, é bom para o causa:: Mas, mesmo dando o desconto, acho que concordaremos todos que uma grande estrela emergiu desse “xóu”: o FMC M113A1 do Corpo de Fuzileiros Navais. A seguir, vamos falar um pouco neles, até para prestar um serviço ao Merval, que talvez aprenda a distinguir entre VBTP(L) e VBTP(R). Mas vamos deixar claro desde já: embora eu tenha uma preferência descarada (garanto que bem maior do que por lulistas e petistas) pelos APCs alemães de meia-lagarta, isso não significa que eu nutra a menor simpatia pelo “exército do Alemão”… Uma coisa é uma coisa… Outra coisa é outra coisa::