A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé::


Parece que minha análise sobre a “guerra de imagens” em torno da “batalha do Rio de Janeiro” não chegou a agradar totalmente. Isto a julgar por algumas das mensagens postadas nas caixas de comentários dos dois postos, e as mensagens de correio eletrônico enviadas diretamente (até o momento, no total, foram 26 comentários). Talvez minha busca por “ferramentas de análise” não tenha chegado a dar conta do objeto.

Lamento, companheiros, mas o fato de que vocês não concordem comigo – coisa que acho absolutamente normal – não invalida a análise. Por sinal, essa tentativa se enquadra no que é chamado “análise do discurso”, uma disciplina acadêmica que merece a atenção inclusive de agências de informação. A análise do discurso político contemporâneo pede que se leve em consideração o aparato áudio-visual de informação, que mobiliza uma enorme quantidade de imagens. Com base nessa premissa é que afirmo que nada do que foi dito ou mostrado o foi por acaso. Nem a mobilização de um aparato militar em meio à vida cotidiana da cidade, com ampla cobertura da imprensa, e nem o uso de expressões que estavam aparentemente esquecidas. E muito menos a farta exibição de bandeiras nacionais drapejando sobre o território “reconquistado”.

Assim, minha conclusão é que a “batalha do Rio de Janeiro” foi mais um desdobramento da “guerra de 2010” – acho que está claro de que “guerra” falo, não?.. – e que estivemos, de fato, diante de uma “batalha de imagens” que foi desdobramento de uma “batalha de discursos”. De um lado, aquele mobilizado pelas autoridades; do outro, um que ordenava argumentos para provar a incapacidade daquelas autoridades.

Continuo também afirmando que a forma como se estruturou a cobertura da “batalha” pelos principais meios de comunicação da cidade indica que a inesperada competência das autoridades constituídas do Rio de Janeiro (coisa rara, reconheço) em mobilizar ordenadamente todo o aparato burocrático e tecnológico posto à disposição dos Estados modernos surpreendeu os jornalistas da grande imprensa, tanto quanto a ofensiva das forças policiais-militares surpreendeu o exército mambembe do tráfico. Mais: também afirmo que a imprensa tradicional esperava um retumbante fracasso das autoridades estaduais, e a análise dos quatro dias de cobertura do jornal “O Globo” e da Rede Globo de Televisão indica um crasso erro de avaliação desses órgãos de imprensa, que caíram na própria manipulação. Por este motivo escolhi cuidadosamente a segunda tese de Debord: “A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio.”

Quando o mentiroso “mente para si mesmo”, o resultado é o festival de imagens manipuladas da quinta-feira, dia 25, e de ambigüidades escritas, na sexta e no sábado seguintes. A televisão replicou de modo interminável as imagens do “exército do tráfico” e suas “armas pesadas” em debandada pela “rota de fuga”, e a manchete do “vibrante”, no sábado, estampava “Intenso tiroteio entre Exército e tráfico abre Batalha do Alemão”.

Aparício Torelli deve ter rolado no túmulo…

O fato é que ontem (segunda-feira) os dois órgãos de imprensa já tinham, aparentemente, reconhecido, internamente, a sucesso da estratégia do governo – que, diga-se de passagem, tinha adotava quase todas as reivindicações veiculadas pela própria imprensa, ao longo de anos, em suas matérias, principalmente a mobilização das forças armadas. Melhor aderir. Suas páginas, impressas e eletrônicas, cobriram amplamente o restabelecimento da ordem pública naqueles espaços do território político, pela PMERJ e pelas forças armadas nacionais. As manchetes passaram a celebrar a retomada do Alemão e as imagens, a mostrar as forças policiais-militares triunfantes e o entusiasmo da população local; os comentaristas acadêmicos e suas patacoadas sumiram e foram substituídos por um dos gozadores água-com-açúcar do humorístico “Casseta e Planeta”… elogiando a polícia (isto sim, “é inédito em 30 anos”, se me permitem parafrasear o cometarista Paulo Storani). No “Fantástico”, as imagens mostraram o jornalista Marcos Uchoa percorrendo a mesma a “rota de fuga do exército do tráfico”, como se fosse um correspondente de guerra, comentando sobre os destroços e conversando com efetivos do BOPE. Mais significativa ainda foi a matéria “Operação muda até a rotina na TV”. Não consegui localizar o texto na Internet (prometo que continuarei procurando e, se encontrar, o coloco aqui), mas é muito significativa a foto, de três colunas, de um repórter não identificado, mostrado em tomada frontal, plano médio, vestido com uma proteção corporal e um microfone, bem visível. Não é possível dizer que aquilo tenha sido “casual”. Não foi: a linguagem da foto em tudo emula fotografias de soldados, individualmente. Ao que parece, o “vibrante” tentava se associar ao movimento que, em toda a cidade, reconhecia e comemorava o evento.

E hoje? No que tive oportunidade de passar os olhos pelo jornalão (ontem o trabalho impediu-me de ver televisão ou escutar rádio), dois assuntos estampados da primeira página me chamaram atenção (acho que chamariam de qualquer um, mas agora… sei lá… posso estar delirando…). “Duas perguntas”, forma colocadas na boca da “população carioca”: “para onde foram todos os traficantes?” e “onde estão suas armas?”. Em seguida, o mesmo texto, numa espantosa manobra semântica (que não foi inventada por meu “lulopetismo”, descoberto pelo Luís Candido – acabei de verificar, por via de dúvidas), informa o “vibrante matutino” que a polícia está investigando a fuga de “muitos dos 600 traficantes pela galeria fluvial do PAC”. Sim – descobrimos que não é uma galeria pluvial, mas uma galeria pluvial “do PAC”. Uma galeria pluvial do governo federal. E, como se já não bastasse, Merval Pereira, o colunista que não sabe distinguir entre um Urutu e um M113, já não sugere, mas afirma: “as bandeiras hasteadas no teleférico do Complexo do Alemão que, se por um lado sinalizavam uma vitória das forças legais, também relembram que as obras do PAC estavam sendo feitas com a favela dominada pelo tráfico, o que demonstra que havia um acordo com os traficantes.” Então ficamos combinados assim: para quem não sabe, o governo “do chefe de facção” maior, o presidente da República, combina obras com os chefes de facção do Complexo do Alemão.  

Até admito, por outro lado, que posso estar exagerando com a análise do discurso, mas diria, parafraseando o ministro Juraci Magalhães, que “o que é bom para as agências de informação dos EUA, é bom para o causa:: Mas, mesmo dando o desconto, acho que concordaremos todos que uma grande estrela emergiu desse “xóu”: o FMC M113A1 do Corpo de Fuzileiros Navais. A seguir, vamos falar um pouco neles, até para prestar um serviço ao Merval, que talvez aprenda a distinguir entre VBTP(L) e VBTP(R). Mas vamos deixar claro desde já: embora eu tenha uma preferência descarada (garanto que bem maior do que por lulistas e petistas) pelos APCs alemães de meia-lagarta, isso não significa que eu nutra a menor simpatia pelo “exército do Alemão”… Uma coisa é uma coisa… Outra coisa é outra coisa::

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Um pensamento sobre “A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé::

  1. Bitt, decididamente, você exagerou na “análise do discurso”. A existência de uma “guerra de imagens” é inequívoca e nada do que apareceu nos meios de comunicação foi por acaso. Nunca é. Mas a sua conclusão que a “batalha do Rio de Janeiro” foi mais um desdobramento da “guerra de 2010” é quase que delirante. Eu acompanhei o desenrolar da “batalha da Vila Cruzeiro” e da “batalha do Alemão” e estou certo de que estas estiveram além da “Batalha de Itararé”, embora muitíssimo aquém das de Moscou e de Leningrado. O tom incial da cobertura era de incerteza e apreensão, pois estava se armando um evento esperado há décadas e sempre considerado impossível, pois resultaria num “banho de sangue dos inocentes moradores das comunidades”. Para surpresa de todos, isto não aconteceu e depois da super-midiática cena da fuga da bandidagem do Cruzeiro para o Alemão, quase toda a tensão foi liberada e a “euforia da vitória” passou a dar o tom da cobertura. Esta, principalmente nas Organizações Globo, foi de apoio total à ação do governo, praticamente “chapa branca”. Como isto pode ser interpretado como desdobramento da campanha eleitoral, em que as citadas organizações foram inequivocamente contrárias ao atual governo?

    Quanto às obras do PAC terem o aval da bandidagem, isto é óbvio! Nas favelas dominadas por estas, nada acontece sem o seu aval. É claro que algo “grande e vindo de cima” exige negociações mais elaboradas. Mas nem mesmo o MP insinuou alguma linha direta entre o bandido-mor do Alemão com Planalto (se bem que tipos como o Zé Dirceu seriam perfeitamente capazes de coisas assim…). E não informar aos leitores que as obras eram do PAC porque isto poderia ser “mal interpretado” é coisa que se espera da miríade de jornalecos pertencentes a parlamentares da “base de sustentação do governo”, cujo somatório consegue uma penetração popular muitíssimo maior do que a do “jornalão”. Interessante, os críticos da “grande imprensa” nunca se lembram do poder na “pequena”.

    Bitt, as últimas notícias me deixaram preocupado: descobri que nossa pátria vem sendo sistematicamente humilhada. Toda vez que o “aerolula” faz uma escala técnica para reabastecimento, recebemos todos um tapa na cara. Pagar 500 milhões para acabar de vez com este agravo me parece uma bagatela. Então, que tal fazer um artigo sobre a importância estratégica dos aviões presidenciais? O começo é fácil, o “Air Force One”. Depois viriam todos os igualmente capazes de ir a qualquer parte do mundo “no stop”, como deve ser para qualquer país que se dê ao respeito (A Argentina não tem! A Argentina não tem!).

    Em tempo, o artigo seguinte está ótimo, como sempre. Um abração!

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