A batalha do Rio de Janeiro::Planejando para depois::


Eis aí uma bela foto, pelo menos para quem se preocupa com os assuntos geralmente tratados aqui no causa:: Pois é… Não consigo parar de falar na “batalha do Rio de Janeiro”, mas confesso: começo a mudar de opinião… É uma guerra, sim. E uma guerra com um detalhe interessante: planejada, desde o começo.  Talvez pelo fato de que não é propriamente uma “guerra”, mas uma ação decidida do estado, ou seja, das autoridades constituídas, para retomar o controle de porções significativas do território formal.

Até o momento tem sido bem sucedido. O motivo, me parece, é o fato de que as populações que habitam esses territórios querem ser tratadas como cidadãos, e não propriamente como habitantes de uma região ocupada. Alguns dias atrás, prestei atenção em uma cena transmitida pela TV, na qual um helicóptero Agusta Bell 212 voa sobre o Complexo do Alemão, com atiradores de escol posionados em ambas as portas laterais. O cenário de fundo era o panorama interminável de casinhas, e a função dos policiais posicionados não era, de fato, dar tiros – até porque o complexo está totalmente pacificado. A função desses policiais – altamente especializados – seria vigiar as atividades no chão. Abre parentese: o AB 212 é aquela aeronave adquirida diante da situação de pânico criada pela má qualidade das informações disseminadas na época  em que um helicóptero Esquilo foi derrubado por tiros disparados durante uma operação policial; na época, fiquei esperando o momento em que os jornais exigiriam a aquisição de helicópteros de ataque “Apache” para a polícia carioca, embora, pessoalmente, se o negócio é tanque voador, prefiro o Mil Mi24. Fecha parentese.  

Encontrei um bom texto num dos foruns especializados da Internet. É claro, como não podia deixar de ser, o infográfico da notícia dava informações estapafúrdias, que foram corrigidas pelo editor do fórum – paciência, não se pode esperar nada melhor. O texto, um pouco cortado, é o seguinte…

“De olho na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016, uma frota de helicópteros comuns e blindados, já em processo de compra, vai reforçar o patrulhamento aéreo da Região Metropolitana da cidade. O projeto prevê a aquisição para o Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM) da Polícia Militar de 16 aeronaves, que vão permitir vigiar as vias expressas, bairros e favelas. ´O uso do helicóptero no patrulhamento permite baixar os índices de violência, já que a presença dele inibe a ação de criminosos. Sem contar que este recurso como apoio permite a redistribuição das viaturas, aumentando a área de atuação e a eficácia do policiamento´, define o comandante do GAM, tenente-coronel Eduardo Ribeiro. Semana passada, O DIA acompanhou uma manhã de patrulhamento do GAM nas zonas Norte e Oeste e no Centro. Saindo da base do grupamento, em Niterói, a aeronave modelo Esquilo chegou à Avenida Brasil em poucos segundos. Em apenas dois minutos, já sobrevoava Bangu e, na sequência, foi para o Méier checar informação recebida pelo rádio sobre o bloqueio numa rua onde ocorria manifestação. Pendurados nas laterais do helicóptero, que transporta até seis passageiros, PMs armados com fuzis ficavam atentos à movimentação lá embaixo. ´Passamos próximos para ter melhor visualização e compreensão do que se passa. Dá para ver as pessoas, as casas, a movimentação nas ruas e carros, tudo´, frisou um dos sargentos que monitoram a cidade do alto. Outra novidade atende pelo nome de ‘PMCop’. Serão aeronaves equipadas com câmeras de alta definição, capazes de monitorar vários pontos da cidade. A ideia é que esses helicópteros façam uma espécie de ‘Big Brother’ aéreo, captando imagens para identificar, ainda mais rápido, os crimes ocorridos. Os aparelhos também são blindados.”

Um dado é interessante de ser observado: a ampliação da dimensão de abordagem da cidade, que agora inclui a vigilância aeromóvel em tempo real. Vale à pena lembrar o fato de que um dos intelectuais chamados a comentar a “batalha do Rio de Janeiro” tentou estabelecer uma comparação entre a operação planejada pelas autoridades cariocas e a Blitzkrieg. O engano do respeitável professor, um dos grandes especialistas acadêmicos em  Guerra do Paraguai, em atuação, foi achar que Blitzkrieg é necessariamente algo que envolve tanques. Eu diria que, mais do que isso, a Blitzkrieg, como doutrina, envolve uma ampliação exponencial das dimensões do teatro tático, possibilitada, inicialmente, pela introdução da “busca da iniciativa” como fator definidor dos limites do campo de batalha. É interessante pensar que as “Tropas de choque” alemãs, durante a 1ª GM, buscavam na iniciativa uma forma de romper o impasse da “perda do movimento” – o fenômeno que resultou, no final de 1914, na guerra de trincheiras. 

Certamente não posso dizer se a guerra européia do início do século 20 teria estado na cabeça dos planejadores cariocas. Eu duvido: nossas autoridades não tem o hábito de estudar história. Mas que alguns aspectos daquela guerra estiveram presentes nos dias memoráveis que vivemos por aqui, estiveram. A começar pela negação às quadrilhas cariocas, do uso do território (seria o de outra pergunta, ainda mais esdrúxula: as autoridades cariocas leram Clausewitz?..). Também é interessante lembrar que Rommel, ao fim de sua experiência como comandante da 7ª Divisão Panzer, no teatro ocidental, declarou que a única forma de comandar uma unidade dessas seria com um rádio no ouvido… de dentro de um avião. Isso permitiria ao comandante estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É isso que permitem, agora, os helicópteros, e a experiência dos repórteres de O DIA, apresenada acima, mostra como muda a capacidade de intervenção das forças de segurança, quando lhes são dadas asas.

Também é interessante observar como se estrutura a “guerra em rede”: informações em tempo real são alticuladas em postos de comando, que redirigem os agentes envolvidos para os pontos do “teatro” onde eles poderão ser mais necessários. É claro que o piloto de um helicóptero Apache, pairando sobre um bairro de Bagdad, observando uma tela minúscula na qual apareciam homens que “pareciam portar armas” deve vir à cabeça de todo mundo, neste momento (essa imagem foi um dos primeiros golaços do site Wikileaks). A questão é que, em Bagdad, os militares norte-americanos estavam em uma situação de confronto aberto, e este não é o caso do Rio de Janeiro. No caso de Bagdad, foi dado aos tripulantes do “Apache” o direito de decidir se abriam fogo, com um canhão de 30 mm (capaz de derrubar uma casa com uma rajada padrão de três segundos), contra um grupo mal-identificado. No Rio de Janeiro, não deve ser dado este direito aos tripulantes de helicópteros – ou seja: a cadeia de comando não pode ser rompida em hipótese alguma. Por sinal, Bagdad não lembra o Complexo?.. Vamos miniaturizar: boa parte das centenas de “baixas colaterais” observadas nos enfrentamentos entre policiais e traficantes pode ser atribuídas à liberdade de ação dada aos policiais em campo. Numa operação militar, essa é a via mais curta para o desastre::

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7 pensamentos sobre “A batalha do Rio de Janeiro::Planejando para depois::

  1. Bitt:

    Olha, passei por aqui para lhe desejar um Feliz Ano Novo e Excelente Natal.

    Presente de Natal você me deu durante o ano escudando algumas colocações que fiz no PD em fevereiro do corrente. Sou grato, reconheço e aqui estou prá dizer:

    Brigadão Confrade!

    🙂

    Se me desculpe não aparecer com mais freqüencia aqui e, por andar estressado nalguns momentos que lhe escrevi durante o período nesse 2010 quase finado.

    Bitt, mais uma coisa, se me permite, inserirei dois comentários que fiz um no “novo PD” (hoje quiçá um Fiuza melhorado) e outro no Fiuza para esse Natal e Ano Novo.

    Qualquer coisa, delete esses comentários, compreenderei de boa.

    Atenciosamente:

    Alexandre.

    🙂

    “Bom,

    Se não me engano a última vez que estive aqui foi por conta da conexão “3-G” e subi alguns HpA na pressão interna do PD,
    isso aparentemente foi em fevereiro do corrente (achei no Google procurando meu nick, coisa que faço regularmente todo santo
    fim-de-ano assim como back-up das máquinas que utilizo no dia-a-dia (são três)).

    Cheguei aqui nesse post sobre o WikiLeaks e creio, discordo novamente sobre o futuro das informações no que tange à opinião do PD.

    Em primeiro lugar o WikiLeaks é mais antigo do que o pessoal imagina, começou a ganhar a mídia com aquele vídeo dos helicópteros dos EUA
    fuzilando várias pessoas dentre elas dois repórteres se não me engano da Reuters.

    Daí pra frente é bem possível que os serviços de segurança dos EUA tenham grudado no Julian Assange e armado a arapuca na Suécia por
    “relações sexuais sem camisinha” (similar a traçar umas donas sem a Burca no Oriente Médio).

    Graças à liberdade na Rede todo conteúdo do site foi “Psico-internéticamente” salvo e disponibilizado através de IP’s
    (acho que isso é o que mais doi nas partes baixas governamentais e da grande imprensa – disponibilizar essa informação para leigos através
    de números em qualquer navegador comum que nenhum proxy segura).

    A saber, é só digitar: 213.251.145.96

    Pior que esse IP não é o único, há vários outros.

    O parágrafo acima dá uma dimensão do estrago que vai além das informações contidas no WikiLeaks, o que há de internautas querendo saber
    o que é isso é (acessar só com um IP) é interessante, muito interessante; obterão conhecimento de como uma Rede funciona (principalmente a garotada).

    Quem, daqui pra frente souber se comunicar passando por cima das barreiras até hoje levantadas saberá onde buscar e/ou enviar informações
    sem rastreio nenhum.

    Na Revista Forbes segundo o Post indica, há uma dissidência (talvez CIA que arrumou umas primas do dissidente praquela acusação na Suécia)
    a criar o OpenLeaks; gostaria de saber do PD se o Estadão (e aí subiria algumas hPa) está com a Forbes ou tem “insight information” junto ao WikiLeaks?

    Um excelente Natal e Fim-de-ano à todos (as); um “féliz aniversário” atrazado para o PD que também é de escorpião.

    🙂

    “Senado dos EUA aprova anulação de política para militares gays.
    Presidente Barack Obama deve transformar decisão em lei.
    Ele já declarou que considera a derrubada um ‘avanço histórico’.”

    Se houver algum historiador sério aqui provavelmente encontrarei uma analogia com Grécia antiga nos próximos comentários.

    O serviço militar DEVE ser obrigatório aos cidadãos (quando isso deixa de ocorrer o Estado recruta bárbaros (há até brasileiros lutando no Iraque!) kkkk.

    É o fim dos Eua como nação, já vi esse filme…

    :-/

    De resto, um Féliz Natal e ano novo prá Ana, Shirley Horta, Surf, HRP, FDA, Chest, Compadre Brancaleone, Bitt,
    Gwyn (que deve estar com dois metros de neve na porta), Alba (que ficará ilhada novamente lá no litoral sul de Sampa em janeiro),
    PD & Pax (carrancudos de escorpião como eu e o Surf) e, ao dono do Blog, o Fiuza (que güentou a gente o ano inteiro).

    🙂

    Se me desculpem os nomes que minha memória “faiô”, a todos (as) também,

    Um: Excelente Natal e Ano Novo!

    :-)”

    🙂

  2. Em primeiro lugar, quero desejar um belíssimo fim de ano ao Proftel e família. E a todos os demais, claro!

    E, falando do que me trouxe aqui, achei pra lá de interessante um caderno especial publicado no Estadão de hoje, sobre guerras desconhecidas no Brasil, no século 20, quando o Estado, fosse ditadura ou democracia, massacrava alegremente os sem nada. :((

    http://www.estadao.com.br/especiais/as-guerras-desconhecidas-do-brasil,127764.htm#bb-md-noticia-tabs-1

  3. Alba, brigadão e igualmente (a Gwin está em São Vicente), não animei viajar esse fim de ano por conta do El Niño que se aproxima (a Corrente do Golfo também se distanciou da Europa) são detalhes técnicos que nos causarão segundo creio, muitos transtornos até maio de 2011.

    🙂

    Bitt:

    Olha, mais um “presentinho” de “natar” prôce:

    http://saladeguerra.blogspot.com/

    Estou já a quase uma semana lendo o que esse cara postou desde 2007, coisas muito interessantes, você bem que poderia fazer um “jogo” com o cara (juntar sua sabedoria com a dinâmica dele num blog só).

    Bração aí.

    Alexandre.

    🙂

    • prof, valeu – estava mesmo sentindo sua falta. qto ao lance do PD, bem… até hj ainda acho q o cara devia estar de mau humor naquele dia – ou a vida em Sampa, perto da “aristocracia local” (não tem gente q se ache mais aristocrata do paulista…) virou a cabeça dele.
      Já conhecia o blogue “Sala de guerra”, e acho q, apesar do nome, é mais ligado em militaria (o universo da turma q adora colecionar coisas de guerra) do q propriamente de militar.
      No mais, fique bem!

  4. Veja que o “direito de atirar” está explicitado nas regras de engajamento da operação. Os americanos tinham suas regras e agiram de acordo com eles – tanto que não foram punidos no caso que você citou da wikileaks.

    Nesta atual operação no Rio, as regras de engajamento vieram do MD e foram disponibilizadas para download. Isso é bastante interessante por dois motivos:

    1 – Todo mundo (bandidos, mocinhos e a imprensa) sabem quais são as regras do jogo; quando pode e quando não pode atirar.

    2 – Sendo publicada pelo escalão mais alto de comando, não dá margens a interpretações ou invencionices, que acabam se voltando sempre para o lado mais fraco.

    Abraços e feliz final de Natal.

  5. Interessante o lance das regras de engajamento, um tópico pouquíssimo comentado pela imprensa. Imagino que esse foi um dos aprendizados das operações no Haiti, não?

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