O Natal de causa::Uma questão nada natalina::


De fato, uma questão muito pouco natalina… Mas vá lá…

Anos atrás, conversando com um veterano que havia passado um “tour” (como eles chamam o período de serviço em campanha) no Vietnam, entre os anos de 1967 e 1968, a certa altura, notei que o cara se referia frequentemente ao inimigo como “charlie”. Perguntei ao sujeito se essa denominação teria relação com o alfabeto de fonético usado pela OTAN e pela ICAO (Organização Internacional de Aviação Civil), e adotado por quase todas as instituições ocidentais que utilizam comunicações  de voz. Imaginei que essa fosse, para um ex-militar, fácil de responter. Nada. O antigo cabo-de-esquadra (lance corporal, em inglês, posto inexistente nas forças armadas brasileiras) dos Marines não fazia a menor idéia do que eu falava. Quando perguntei se “charlie” seria uma contração de “victor-charlie”, só então ele entendeu.

A forma atual (e bastante conhecida), desta representação fonética do alfabeto latino moderno difundiu-se a partir de sua adoção pela OTAN, na instrução intitulada “Publicação Tática Aliada 1, Volume II: Livro de Sinais Marítimos e de Manobra”, divulgada no início dos anos 1950. Essa instrução regulou a forma de vocalização de expressões codificadas, em mensagens por telecomunicaçãoes, e foi adotada pelas marinhas dos países da Aliança Atlântica. Mesmo tendo o inglês como língua de trabalho, a pronúncia variava grandemente, caso estivessem se comunicando um norueguês e um canadense, por exemplo. O alfabeto fonético usa, para relacionar letras e números, palavras cuja pronúncia varie pouco, seja lá qual for a língua natural usada pelo emissor. A primeira experiência data de 1927, numa forma bem diversa da atualmente difundida. A iniciativa foi formalizada em uma instrução da União Internacional de Telecomunicações (ITU), adotada por todos os países membros. Tornou-se mais difundida conforme o uso de comunicações com modulação de voz (rádio falado, inexistente na 1ª GM) se tornou comum e o problema da diferença de línguas e pronúncias aumentou (mesmo uma língua comum, como o inglês ou o protuguês, por exemplo, tem pronúncia muito diferente, dependendo do país que se considere).  

No Vietnam, os militares norte-americanos costumavam a utilizar abreviaturas e acrônimos, como forma de diminuir a ambiguidade da comunicação oral. Assim, referiam-se às forças armadas dos EUA como Uniform-Sierra-Mike, querendo dizer US Military; aos militares locais como Alfa-Romeo-Victor-November (Army, Republic of VietNam); pediam apoio aéreo usando a abreviatura Alfa-Sierra-November (Air Support Needed); e por aí vai. O inimigo era tratado por Victor-Charlie, querendo dizer VietCong.

Isto se referia a qualquer pessoa tida como simpatizante dos comunistas e que aceitasse o comando da Frente de Libertação Nacional do Vietnam do Sul (organização política estabelecida no Vietnam do Sul a partir de 1960). Os irregulares armados do Sul eram chamados, genericamente, de “vietcongs”. Essa palavra era uma contração de Việt Nam Cộng-sản, (comunista vietnamita), embora outras interpretações a dêem como contração de Việt gian cộng sản (“traidor comunista do Vietnam”). Segundo diversos historiadores, a imprensa sul-vietnamita situacionista começou a usar essa palavra como um pejorativo, em 1956, mas logo documentos diplomáticos e militares norte-americanos passaram a usar a expressão para referir insurgentes presos ou mortos nas ações de guerrilha que começavam então a se tornar comuns. A difusão da abreviatura Victor-Charlie ou VC, e do uso  da contração “Charlie” deve-se aos assessores militares enviados em grandes números ao Vietnam do Sul a partir de 1961, durante o governo Kennedy. O curioso é que os norte-americanos não faziam distinção entre combatentes sul-vietnamitas e militares norte-vietnamitas (que estava presentes em grandes números no Vietnam do Sul, durante toda a guerra, embora essa presença não fosse admitida pelo governo do Vietnam do Norte.

Que relação isso tem  com o Natal? Nenhuma, a não ser o fato de que a foto lá em cima mostra um show realizado em um hospital militar, no ano de 1970… E é tambem uma forma de causa:: agradecer aos aos assíduos as visitas que me dão vontade de continuar escrevendo estas notas…:: 

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Um pensamento sobre “O Natal de causa::Uma questão nada natalina::

  1. Um feliz Natal para vc tb.
    Já foram testadas muitas formas de comunicação,visual ou grafada.
    O Esperanto,de David Zamenhof,foi a mais próxima de ter certo êxito.
    Um complexo sistema de palavras e construções o faz hermético,donde sua não-aceitação pelos povos do planeta.
    O alfabeto rádio aproxima para evitar erro,foneticamente.

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