O rafalista juramentado e militante está em festa::Saiu o resultado do MMRCA::


Acabo de receber a informação de que o Rafale venceu (como eu esperava) o MMRCA indiano. Que se calem as bocas antifrancesas… Ou será que nosso Lorde Hah-Hah descobrirá algum dedo lulopetista na opção indiana pela “sucata” francesa?..

Num negócio que começa em US$ 10,4 bi, a Força Aérea Indiana pretende adquirir 128 aeronaves da Rafale International, ou seja, quase a metade do número total adquirido pela AdA e Aeronavale. Do número total, 118 deverão ser construídos no próprio país, pela musculosa indústria aeroespacial local, de propriedade do estado. O pacote de transferência de tecnologia deve ser, na operação indiana, provavelmente diferente daquele que estava sendo montado na época do namoro Lula-Sarkozy. Se persistir a forma como a Índia costuma a montar operações desse tipo, apenas parte da tecnologia deverá ser repassada: propulsores, aviônicos (principalmente o radar PESA) e armamento provavelmente serão apenas montados localmente e estarão sob severos acordos de restrição. No futuro, muito provavelmente os indianos irão dar um jeito de introduzir na aeronave opções locais de aviônicos e armamentos.

No caso do pacote brasileiro, a transferência de tecnologia deveria (daqui por diante, ninguém pode garantir nada…) ser um pouco mais completa, estruturada mais ou menos como foi a aquisição dos submarinos que incluí parte dos sensores e do armamento. Além do mais, a Índia – aprópria terra de contrastes – possui uma base tecnológica local infinitamente superior à nossa. Sua indústria militar está dentre as mais parrudas do mundo. No panorama do BRICS só perde para a da Rússia, e – por enquanto, pelo menos – olhe lá. Para nosso país, a transferência de tecnologia está ligada, inclusive, à mais uma tentativa de desenvolver uma indústria local de armamento. A escolha pelos franceses indica isto, nas entrelinhas. No momento, está em desenvolvimento uma versão indígena do Exocet 40 Block 1, denominada MAN 1, que tem a colaboração – não sem tribulações… – dos franceses da MBDA. Esse processo é uma verdadeira lição para nós, leigos, sobre a “vida real” do campo da tecnologia militar (o excelente blogue Base Militar mostra um pouco desse caso, em detalhes). Resumo da ópera: imagino que nenhum de nós é ingênuo ao ponto de imaginar que, seja para o Brasil ou para a Índia, os franceses entregarão seus segredos tranquilamente. Por sinal, andei conversando com especialistas, e todos concordam num ponto: esse é um dos motivos que torna inviável a participação brasileira em um projeto avançado. Ainda não temos base tecnológica ou industrial para entrar numa coisa assim. A única porta possível seria a inversão de muito dinheiro no processo, inversão que seria exponencialmente maior do que a feita, por exemplo, no projeto do Embraer A1, e essa solução não nos garantia acesso pleno ao domínio dos processos. Mas esta é outra história…

Outra questão é o preço: parece que os Rafale indianos sairão, cada um, por cerca de US$ 90 mi. Dez minutos após ter sido divilgada a decisão indiana, nossa dinâmica imprensa começou a dizer, sempre baseada sabe-se lá em quê, que a Rafale International ofereceu as mesma aeronaves ao Brasil por algo entre US$ 110 e 220 mi. Não tenho idéia de como esses valores foram calculados, mas certamente o cálculo do preço é muito complicado e o tamanho da operação indiana diminui o preço unitário. Independente deste ponto, resta ainda saber como será o pacote final, que inclui itens como armamento, projeto de manutenção e treinamento de pessoal civil e militar especializado. Ainda não percebi, a não ser nos blogues da turma antenada, CAVOK e Plano Brasil, iniciar-se a gritaria “pró” e “contra” – a turma que passa por esses blogues entende muito mais do assunto do que a média dos jornalistas brasileiros, de modo que comemorou amplamente. Mas se você lê inglês, este artigo traz uma visão geral muito interessante sobre o processo. Certamente, ao contrário do que disse o blogue da revista Época, a indústria francesa não “terá dificuldades” em cumprir o contrato, pois certamente o governo francês irá segurar a onda de qualquer jeito, uma vez que as indústrias aeroespacial e militar francesas precisam de oxigênio extra, em tempos de vacas magérrimas. As dificuldades de caráter financeiro serão, com certeza, contornadas com vigorosos acordos de offset – por sinal, uma das principais exigências dos indianos.

E a Índia não tem pouca experiência em bater grandes pratos de angu de caroço. Não podemos deixar de apontar o fato de que negociou os SU30MKI com os russos em condições que se revelaram muito vantajosas. Essa negociação teve aspectos bastante diferentes da que agora envolve os franceses, mas pelo menos um ponto em comum: a indústria aeroespacial russa estava em crise, quando começaram as conversações, nos primeiros anos da década de 1990 – era a época da desestruturação trazida pelo fim da União Soviética. Ao longo de dez anos, a partir de 1997, a índia adquiriu 137 aeronaves russas, baseadas no padrão básico SU27 “Flanker” e na versão de exportação SU30MK. Alguns dos assíduos podem estar resmungando … “mas eles já fabricavam aviões russos…” De fato, mas em regime totalmente diverso dessa operação. Para resumir, podemos dizer: a última versão do SU30MKI é quase “outro avião”, dotado de aviônicos e um radar PESA desenvolvidos de forma totalmente independente dos russos.

E essa venda poderá turbinar a negociação brasileira, visto que todos concordam (inclusive a “Época”) que o concurso francês foi muito mais rigoroso do que nosso FX2. Nesse concurso a aeronave francesa revelou-se (pelo menos em minha modesta opinião) muito mais gostosa do que a Isabelle Hupert – e olha que sou fã incondicional de Mme. Hupert. Piadinha de lado, o que parece ter ficado claro é que a aeronave francesa revelou-se, de fato, um caça para todas as missões (um omnimission, como diz o marketing francês…), enquanto o multinacional Typhoon mostrou-se apenas… um caça::

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Um pensamento sobre “O rafalista juramentado e militante está em festa::Saiu o resultado do MMRCA::

  1. Bitt, como francófilo descarado, eu também comemoro este desfecho para o MMRCA indiano. Se tudo der certo – pelo que li, o pessoal da Eurofighter está secando o cumprimento do contrato, esperando que os franceses tropecem para substituí-los – este contrato praticamente salvará a indústria aeronáutica de defesa da França e as suas empresas tributárias.
    Mas, francamente, não vejo como isso possa ajudar muito a sua posição no FX2. Que o avião e seus sistemas são excelentes, já era sabido. Na verdade, uma compra muito maior do que a perspectiva no Brasil, pode até fazer com que a “abertura de pernas” da França no quesito “transferência de tecnologia” seja menor. O único fator positivo que vejo de imediato é a quebra do tabu do “avião que ninguém compra”.

    Só para aproveitar a oportunidade, essa história de “BRIC”, uma sigla criada por uma agência de avaliação americana, é uma furada, particularmente no quesito “defesa”. Todos os demais são potências nucleares e com uma capacidade tecnológica formidável, especialmente o “R”, enquanto que no “B” as suas forças armadas permanecem à míngua. Sei que o contexto político é completamente diverso e não desejo qualquer tipo de desenvolvimento nuclear não pacífico, mas não dá para agrupar esses países de forma tão arbitrária. Mas para muita gente dá um grande prestígio, estes se sentem “potência mundial”…

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