A Internet e a sabedoria estrategica popular: pau que dá em Chico…::

Anos atrás, causa:: publicou um post que comentava sobre uma das traquinagens do tarado/paladino da liberdade de expressão (a grande imprensa nacional e internacional precisa decidir-se logo sobre o que ele é…) Julian Assange: a publicação de 92.000 documentos sobre a campanha do Exército dos EUA no Iraque e Afeganistão. Na época, fazia-se um escarcéu daqueles em torno do conteúdo, que revelaria o comportamento das forças armadas norte americanas – algo digno de um Einsatzgruppe nazista na Frente Oriental. Hoje em dia todo mundo parece concordar que atitudes do tipo das de Assange precisam ser controladas, e que alguns dos motivos pelos quais os estados têm segredos não são apenas provas da má intenção dessas formações políticas. Na época, um exame não muito aprofundado do material me convenceu que a totalidade dos jornalistas brasileiros que tirava casquinha do assunto (sejamos justos – dos estrangeiros, a quase totalidade) não fazia a mais vaga idéia sobre o que estava falando. Não sei se, de lá para cá, alguém além de mim mesmo deu-se ao trabalho de examinar o material com maior cuidado. Afinal, apareceram coisas mais interessantes no Wikileaks, para aqueles que querem provar que os EUA são mesmo o “Grande Satã” – como a divulgação de centenas milhares de cabogramas do serviço diplomático dos EUA, ou de mais de 750 dossiês em torno de prisioneiros mantidos na base naval de Guatanamo. Não faço idéia sobre se o conteúdo desses vazamentos foi examinado com cuidado por especialistas – imagino que, como das outras vezes, provavelmente não. Continuo achando (e parece que outras pessoas também pensam de modo parecido) que o problema do Wikileaks é o direito a que se atribuiu seu (digamos assim…) gestor em não respeitar regras de espécie alguma, e que muito do que já foi vazado no site do enfant terrible Assange constitui, de fato, precedente perigoso com no que diz respeito à segurança nacional dos EUA.

E pois é – recentemente, zapeando pela Grande Rede, descobri, na conta do Exército dos EUA no Facebook (p´ra você ver: US Army também está no Facebook…)uma postagem que me pareceu bastane curiosa. Numa tradução um tando descuidada…

Aos nossos fãs,

Os militares são pessoalmente responsáveis ​​por todo o conteúdo que publicam em sites de redes sociais, blogs ou outros sites. De modo a garantir que o conteúdo relacionado ao Exército seja preciso e adequado, os militares também devem ser cuidadosos sobre o material não-relacionado ao serviço que publicam, já que as linhas que separam a vida pessoal da profissional, no espaço online muitas vezes se tornam tênues. O pessoal militar deve ter consciência de que perdem o controle sobre o conteúdo que publicado na internet, e que muitos sites de mídia social têm políticas que dão esses sites a propriedade sobre os conteúdos e informações postados ou armazenados em seus sistemas. Assim, o pessoal do Exército deve usar seu bom senso em todos os momentos e ter em mente a forma como o conteúdo de suas mensagens vão refletir sobre si mesmos, seu comando e sobre o Exército.

 Tal como acontece com outras formas de comunicação, ao fazer publicações não-oficiais na internet, o pessoal militar é responsável pelo conteúdo, diante das leis federais, do Ministério do Exército e dos regulamentos que regem essas instituições e suas políticas. O pessoal militar deve respeitar certas restrições e políticas, de forma a garantir a boa ordem e disciplina. A lei federal e os regulamentos e políticas que atingem diretamente a conduta do pessoal do militar incluem as que regulam os padrões pessoais de conduta, as operações de segurança, a garantia de informações, divulgação de informações de identificação pessoal, a regulamentação ética e a divulgação de informações ao público. Militares que violem a lei federal e os regulamentos ou políticas através de atividades pessoais inadequadas online são sujeitos à ação disciplinar sob o Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ).

Obrigado a todos, e por favor, mantenham suas postagens. Apenas certifiquem-se de ter em mente o que foi exposto acima.

 Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército.

Certamente o pessoal que acha o Assange um paladino da liberdade de expressão pensará que o texto acima é apenas mais uma demonstração do grau de paranóia de um instituição criptofascista, sempre disposta a incursionar contra a liberdade das pessoas. Como eu compartilho essa opinião apenas parcialmente, resolvi zapear um pouco mais, e descobri que o texto foi retirado  do United States Army Social Media Handbook, (“Manual para Midias Sociais do Exército dos EUA”, numa tradução livre) publicado em 2011 pela tal divisão citada acima. O texto é responsabilidade do “Chefe de Relações Públicas” do Exército dos EUA, cargo ocupado por um general de brigada (general de duas estrelas, ou major general, em inglês). A publicação desse manual gerou um intenso debate na Internet, com muita gente concordando e outros discordando.

Mas se deve levar em consideração que existem razões objetivas para tais regras, de caráter estritamente militar. Essas regras remetem exatamente ao que foi comentado aqui no causa::, com relação ao assunto Wikileaks. Documentação de campanha é assunto de segurança. A maior parte desse material é classificado em função de questões que, no decorrer de uma campanha, podem ser muito sensíveis e chegar a colocar vidas e recursos em risco. Se os assíduos de causa:: acham que estou exagerando, e que uma inocente postagem em um blogue não pode fazer mal a um exército, leiam o post abaixo (também traduzido com certa leniência…), descoberto no blogue da revista australiana SC.

O Exército dos EUA alertou os muitos caçadores de fotos existentes entre os militares norte americanos sobre os perigos das fotos georreferenciadas, depois de que informações contidas nessas imagens foram utilizadas pelos insurgentes iraquianos para localizar e destruir quatro helicópteros Apache AH64D. O incidente, ocorrido em 2007 foi contado pelo US Army Maneuver Center of Excellence (MCOE) [“Centro de Excelência em Manobras do Exército dos EUA”, numa tradução livre – trata-se de um centro de formação de tropas blindadas, motorizados e aeromóveis, situada em Fort Benning, no estado da Georgia] pelo oficial de inteligência Steve Warren. “A nova frota de helicópteros integrava uma unidade de aviação recém-chegada a uma base no Iraque [e] alguns soldados tiraram fotos da linha de vôo … que foram enviados pela Internet, permitindo ao inimigo determinar a localização exata dos helicópteros dentro do complexo e realizar um ataque de morteiros, destruindo quatro dos Apaches AH-64″, disse Warren. “A consciência situacional de um efetivo em serviço inclui o mundo da mídia social. Se um soldado publica uma foto tirada em seu smartphone no Facebook, este efetivo pode estar transmitindo a localização exata de sua unidade. Coordenadas de longitude e latitude em fotos georreferenciadas são suficientemente precisas para comprometer a localização do soldado”, explicou o oficial. Fotos georreferenciadas são também rastreáveis em serviços como o Flickr. O sargento-ajudante Dale Sweetnam, da Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército, disse que o timing do Facebook aumentou o problema, pois as fotos tiradas por usuários podem ser colocadas em um mapa. “Algumas dessas pessoas têm centenas de”amigos” que podem não ser realmente conhecidos delas”, disse Sweetnam. “Honestamente, é muito assustador pensar que um conhecido que se torna um “amigo” do Facebook pode descobrir sobre suas rotinas e hábitos, se você tem o costume de marcar sua localização em suas mensagens.” As informações dadas pelo Exército como não classificadas, quando combinadas em sequência, podem criar padrões de conjuntos de dados sensíveis [foi exatamente o que explicamos no causa::, anos atrás…]. “Em operações de segurança, falamos sobre o adversário”, disse o oficial de operações de segurança do MCOE, Kent Grosshans. “O adversário pode ser um hacker, pode ser um terrorista, um criminoso, ou qualquer um com a intenção de causar dano. Esse adversário recolhe peças de informação para montar um quebra-cabeça inteiro. Seja consciente das informações você está colocando na rede”, disse ele. “Não compartilhar informações com estranhos. Uma vez que está lá fora, ele está lá fora. Não há como as ter de volta.

Eu diria mais: compartilhar esse tipo de informação na Grande Rede, sem maiores cuidados, é burrice. Mas se deve levar em consideração que os alistados do exército dos EUA têm, em media, não menos que dezenove e não mais que vinte e poucos anos – inclusive os oficiais dos postos iniciais da carreira militar. Não há como impedir que esse pessoal tenha as mesmas atitudes de todos os outros garotos da mesma idade, e dentre essas atitudes mais comuns, atualmente, está a de postar baboseiras e inutilidades no Facebook. Depois de alguns anos discutindo o assunto, as autoridades do Exército dos EUA concluíram que os riscos gerados pelo tráfego de informações publicadas por pessoal militar eram superados pelas vantagens – dentre outras, é uma forma de diminuir o estresse. Na atualidade, qualquer militar pode ter páginas no Tweeter, Facebook, Flickr, blogues pessoais, e por aí vai. As informações podem ser publicadas até mesmo de computadores pertencentes ao Exército, desde que essas máquinas não sejam classificadas como “de segurança” – por exemplo, os lap tops usados para operar sistemas de combate, como radares de defesa antiaérea ou de comunicações militares. Existem, entretanto, limites bem claros, que aqueles expostos acima, e que se destinam a defender o Exército contra a exposição a hackers, e limitar ao máximo o acesso a sites de pornografia, jogos de azar e incitação ao ódio.

Nada garante que a sensibilização dos militares para o perigo da circulação sem controle de informações na Rede diminua esse perigo. E, pior, é possível que entre os militares que vazam informações sensíveis inconscientemente, estejam alguns que se aproveitem dessa liberalidade. O caso mais famoso, nos últimos tempos, é exatamente o do soldado de primeira classe (algo como segundo cabo, posto inexistente no Exército brasileiro) Bradley Manning. Manning, um “nerd” cheio de problemas pessoais, treinado como analista de inteligência eletrônica, na época com 22 anos, cumpria serviço no Iraque quando foi preso, depois que um hacker o denunciou como fonte de milhares de arquivos digitais classificados do Pentágono – os tais comentados aqui no causa::. Como foi discutido na época, na maioria eram arquivos cujo conteúdo dizia respeito ao cotidiano operacional de unidades em campanha. O problema é que, entre relatórios de operações que falavam de acidentes de carro, apreensões de pequenas quantidades de armas, uso de viaturas militares para transportar doações de natal e por aí vai, haviam informações realmente valiosas sobre posicionamento e regularidades de unidades em campo. Estas, avaliadas por especialistas, podem realmente ser perigosas. São mantidas na categoria “reservado” durante uns vinte anos, após acabada a guerra. Passado esse prazo, costumam a ser abertas aos interessados (quase sempre pesquisadores acadêmicos especializados) sem maiores restrições. O problema é que em meio a essa massa encontram-se também informações e imagens altamente embaraçosas por expressar à perfeição lambanças monumentais cometidas no campo de batalha e nas proximidades dele – no caso coisas como o fuzilamento sumário “por via das dúvidas” de um grupo de civis iraquianos em Bagdá e a eliminação, pela Força Aérea, de uma perigosa festa de casamento na aldeia de Granai, no sudoeste do Afeganistão. Porque os militares não eliminam tais coisas? Os motivos são diversos. Primeiro, por motivos meramente técnicos e legais: como instituições de estado compostas por servidores públicos, as forças armadas precisam registrar em documentos oficiais os próprios atos, inclusive como base de “segurança jurídica” – num estado de direito, as corporações militares, subordinadas ao Executivo, são supervisionadas pelos poderes Judiciário e Legislativo. Em segundo lugar porque, por mais absurdo que pareça, milico não costuma a considerar problema “sentar o dedo” em quem quer que lhes faça cara feia, principalmente em zona de guerra. Assim, essas informações são mantidas sob sigilo e sua abertura depende de iniciativas da sociedade civil ao legislativo e ao judiciário – é o caso, por exemplo, dos arquivos do Exército Brasileiro sobre a “guerra suja” do período ditatorial.

Assim, o governo norte americano tem agido com a sensibilidade característica: esconde os motivos dos eventos e a identidade dos militares envolvidos e mantém o soldado preso incomunicável, na prisão militar de Fort Mead, sob suspeita de traição. Trata-se de uma tentativa de se preservar, visto que, m geral, se o piloto de um helicóptero de combate mata uma dúzia de civis por “achar” que um deles porta um fuzil, ao fim e ao cabo, quem acabará responsabilizado é o oficial em comando. Casos assim são o sonho dos grupos civis que, nos estados de direito, cobram o Executivo e seus servidores. Do outro lado do espectro está o sargento do Corpo de Fuzileiros Navais Gary Stein, de 27 anos, lotado na base de Camp Pendleton. Frequentador de sites de extrema direita, simpatizante do populismo radical do Tea Party, Stein declarou em sua página no Facebook, no início do ano, algo como “Dane-se Obama. Não obedeço ordens dele.” Embora tenha, ao que parece, se arrependido da postagem, o comando da corporação não achou lá muita graça da coisa toda: Stein acabou tendo “baixa sem honras”. Embora a extrema direita o tenha transformado em “herói da liberdade de expressão”, não poderia ter dado outra: as regras militares norte americanas são bem claras, e proíbem declarações políticas de qualquer espécie, principalmente aquelas que podem ser consideradas uma declaração de motim, visto que o presidente, quer queira a extrema direita ou não, é comandante em chefe das forças armadas, instituição de estado ao qual Stein estava ligado. “Penso que está muito bem estabelecido há muito tempo que o direito de expressão é uma área da qual as pessoas abrem mão parcialmente, ao entrar para as forças armadas. Ordem e disciplina requerem que os militares mantenham respeito pela cadeia de comando”, declarou sobre o assunto o professor de Direito e ex-militar David Glazier. Faz sentido – em todas as corporações militares é a mesma coisa. E com as capacidades chamadas “virais” da Internet, esse tipo de caso talvez preocupe tanto as autoridades militares quanto o vazamento de documentos de campanha. Pensando bem, talvez preocupe até mais…

O carnaval que os sites de extrema direita têm feito em torno de Stein é tão grande quanto o carnaval que a esquerda liberal – inclusive norte americana – tem feito em torno de Julian Assange. Tanto quanto o soldado Manning parece ter sido aliciado por um hacker colaborador do Wikileaks, o mesmo pode ter se dado com Stein, visto suas ligações com a direita boquirrota. Nesse ponto, a Internet não tem posição política. Ambos pagam, merecidamenteo, o pato.

Nem responsabilidade militar: em 2006, durante a invasão do Líbano, soldados israelenses de dezoito anos (talvez os mesmos que são vistos neste vídeo ridículo e engraçadíssimo, postado no you tube algum tempo atrás), provavelmente achando, na esteira de seus oficiais comandantes, que seria “mamão com açúcar” enfrentar o Hizb´Allah (grupo xiita radical militarizado e muito bem treinado pelos iranianos e sírios) em campo aberto, danaram a tirar fotos dos locais por onde passavam suas unidades blindadas. Os guerrilheiros libaneses, demonstrando esperteza e conhecimento soberbo do terreno, recuaram com extrema habilidade e acabaram por atrair uma brigada de infantaria, apoiada por 40 blindados Merkava IV para uma armadilha, que, reconheceram os israelenses, foi muito bem tramada. Esse evento foi, mais tarde, chamado Batalha de Bint Jbeil, e terminou empatado, o que seria normal, não fosse o fato de que o lugar, uma cidade de porte médio dominada pelos xiitas, em meio a um bosque, era defendido por uns 200 milicianos. Não satisfeitos com a burrice extrema de lançar tanques e unidades mecanizadas em uma floresta, os militares israelenses, continuaram a tirar fotos e enviarem pela Internet, através de celulares plugdos às linhas telefônicas locais. Rastreando as comunicações do inimigo, os xiitas – segundo os israelenses, apoiados pelos sírios – determinavam os pontos de reunião das forças israelenses e montavam emboscadas do tipo “bate e foge”, atraindo o inimigo para cima de minas de alto poder explosivo. No fim, os israelenses não conseguiram consolidar a posição, sofreram baixas consideráveis e acabaram por admitir que “acabar com o Hizb´Allah é um sonho”. Parece que acabar com a irresponsabilidade natural do pé de poeira pós adolescente, também…::

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