causa::também tem saudades::Flakpanzer Gepard::Uma boa idéia?::

Em 2012 começaram a circular rumores de que se desenhava outra “compra de oportunidade” pelo EB. Desta vez, o objetivo seria parte das ações previstas no PEE DAAe (Projeto Estratégico do Exército Defesa Antiaérea), um dos projetos estratégicos de longo prazo do EB. O projeto foi apresentado recentemente como tendo concluída sua “primeira fase”, cujo objetivo geral é atualizar o Sistema de Defesa Antiaérea da Força Terrestre (SDAAe/FT). Os trabalhos começaram há mais de doze meses e foram produzidas cerca de quatro mil especificações  detalhando os sistemas que irão compor a Defesa Antiaérea, como, por exemplo, o de armamentos, equipamentos de comunicações e de logística . A proposta está no âmbito da Estratégia Nacional de Defesa, e tem orçamento previsto de R$ 2,3 bilhões (o que, sabemos muito bem nós, cristãos, poderia ser 23 ou 230 bilhões, pois isso não significa que o dinheiro vá, de fato, ser disponibilizado…). Caso sejam de fato incluídos no orçamento da República, os recursos servirão para financiar o planejamento e aquisição dos meios adequados a proteger estruturas consideradas estratégicas para o país: usinas hidrelétricas e nucleares, aeroportos, portos e instalações de comunicações.

Os rumores, ressoados histericamente na Internet, na ocasião foram amplificados pela necessidade criada em função da proximidade dos eventos internacionais de grande porte que o país tinha se comprometido a receber – os torneios de futebol de 2013 e 2014 e as Olimpíadas de 2016. A segurança desses eventos implica em criar uma espéciede “domo” sobre os locais de realização, e o fato é que nenhuma das “forças singulares” tem tal capacidade. No apagar das luzes do ano (mais exatamente em novembro) o EB anunciou ter fechado a aquisição de um lote de blindados Krauss-Maffei-Wegmann “Flakpanzer Gepard”, equipamento alemão baseado no chassi do Leopard 1 e com mais de trinta anos de serviço ativo no exército da República Federal da Alemanha.

Trata-se de um veículo bastante interessante, destinado a fornecer defesa aproximada para colunas blindadas e motorizadas em movimento, concentrações de tropas e pontos de interesse, dentro do conceito conhecido como SPAAG (acrônimo de Self Propelled Anti Air Gun, “canhão anti-aéreo autopropulsado”). Basicamente, é um canhão de pequeno calibre, automático, montado sobre uma plataforma móvel, capaz de disparar em movimento contra alvos aéreos voando a baixa altitude num raio relativamente pequeno com relação ao ponto de emprego. O conceito não é novo, ao contrario do que se pode pensar: já na 1ª GM, ingleses, franceses e alemães experimentaram montar canhões de pequeno e médio calibres na carroceria de caminhões. Na 2ª GM, SPAAGs montados sobre chassis de tanques dos quais a torreta havia sido retirada já eram conhecidos e também já era claro que plataformas montadas sobre esteiras eram mais efetivas do que os caminhões, em função do problema da estabilidade da plataforma no momento do tiro; outro motivo era a maior habilidade dos veículos sobre esteiras em negociar com terrenos acidentados. Ao longo da guerra, a tendência foi que os SPAAGS fossem concebidos em torno  de armas automáticas nos calibres 11,7 mm, 20 mm, 30 mm, 37 mm e 40 mm. Após a 2ª GM, se consolidaram os SPAAGs instalados em veículos sobre esteiras, assim como o uso de canhões automáticos bitubo ou quadritubo. O salto foi, de fato, nos sistemas de pontaria: os sistemas óticos de busca de alvos foram paulatinamente substituídos por sistemas baseados em radar. O Flakpanzer Gepard é tributário desse conjunto de desenvolvimentos, e também da consolidação da Alemanha Federal como parceiro político e militar do Ocidente no período da Gerra Fria contra a União Soviética.  

Após a reconstituição política da República Federal da Alemanha (RFA), em 1955, o recém formado Bundeswehr (“Forças Armadas da Federação”, em tradução livre: Bundesheer – “Exército da Federação”, Kriegsmarine – “Marinha de Guerra” e Bundesluftwaffe –“Arma Aérea da Federação” ) começou a ser equipado com material de procedência norte-americana, que se mostrou pouco adequado para o papel reservado a Alemanha na defesa da Europa Ocidental. Em 1956, os requisitos de um tanque pesado (em inglês Main Battle Tank – MBT) foram apresentados pelo Bundesheer. Em 1957 RFA e França assinaram um acordo para desenvolverem em conjunto um novo tanque pesado. Divergências entre os dois países fizeram com que o acordo tivesse o destino que tiveram vários outros: foi desfeito e cada pais seguiu o próprio projeto. A França desenvolveu o AMX-30; a Alemanha, o Leopard.  O projeto foi um marco para a  RFA: pela primeira vez desde a guerra uma iniciativa de grande porte, envolvendo diversas empresas era conduzida de forma totalmente independente. O novo veículo começou a ser distribuído em 1965.

Com o Leopard ainda em desenvolvimento, em 1963, a OTAN apresentou a requisição de um sistema de defesa anti-aérea de ponto de alta mobilidade para as forças armadas de seus países membros. Essa requisição deveu-se à constatação do crescimento do poderio aéreo soviético. As aeronaves e táticas vinham se mostrando capazes de realizar penetrações bem sucedidas em baixo nível. Logo ficou decidido que o sistema deveria ser desenhado em torno do canhão Oerlikon 35 mm/90 calibres KDA, concebido na segunda metade dos anos 1950 para combater incursões de perfil lo-lo-lo (de low-low-low, “baixo-baixo-baixo” – um tipo de perfil de missão em que a aeronave busca manter-se abaixo da cobertura do radar inimigo e só é percebida quando está quase sobre o alvo). Os alemães consideraram imediatamente a possibilidade de usar o chassi do Leopard. Embora o novo blindado tenha se saído muito bem nos testes ao longo do ano de 1964, o desenvolvimento da plataforma anti-aérea mostrou-se lento em função de problemas com o sistema diretor de tiro. O radar móvel suíço Superfledermaus foi posto em serviço em 1963 pela empresa Contraves, mas levou muito mais tempo que o esperado integra-lo ao veículo alemão. O resultado é que as primeiras unidades de linha só entraram em serviço na primeira metade dos anos setenta. Em 1976 e 1977, Bélgica e Holanda adquiriram o sistema. O belga era idêntico ao alemão; já o holandês foi equipado com sistemas locais de direção de tiro instalados em uma torre totalmente redesenhada.

Quando foi posto em operação, a principal função do Gepard tinha se tornado o enfrentamento contra helicópteros “canhoneiros” (gunships). Estes tinham se tornado “moda” depois da Guerra do Vietnam e, naquela época (entre 1973 e 1975) as forças armadas soviéticas estavam cheias deles, principalmente o “tanque voador” MI24 Hind, distribuído em sucessivas versões a partir de 1972. O campo de batalha, naquele momento estava ocupado por mísseis superficie-ar que passaram a ser a principal oposição contra aeronaves.

O Gepard, que em última análise pode ser considerado conceito resultante da soma do chassi do Leopard-1 A1 com o canhão Oerlikon KDA e o Diretor de Tiro Superfledermaus, foi considerado durante muitos anos o mais eficiente sistema de canhões antiaéreos móveis disponível no Ocidente. No final dos anos 1970, os norte-americanos tentaram reproduzir o conceito no sistema DIVAD (acrônimo de Division Air Defense) juntando o chassi de um tanque M-48 Patton, descontinuado pelo Exército, uma versão local do canhão Bofors de 40mm L/70 e um Diretor de Tiro extremamente complexo, baseado no radar aéreo Westinghouse AN/APG-66, além de um sistema de telêmetro optrônico. O projeto acabou cancelado por dificuldades de desenvolvimento e pelos custos astronômicos. Outro projeto semelhante, porém mais bem sucedido foi o sistema soviético anti-aéreo 9K22, cujo desenvolvimento se deu ao longo dos anos 1970. Montado sobre lagartas, o sistema combina um canhão automático bitubo 30 mm com mísseis superfície-ar, apontados ambos por radar e tendo as informações processadas por computador analógico. Conhecido pelo codinome Tunguska, o sistema teve sua formatação baseada na experiência recolhida pelos egípcios durante a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e ainda se encontra em serviço, em versões aperfeiçoadas. O sistema Pantsir S-1, recentemente adquirido pelo Brasil, pode ser considerado uma versão muito aperfeiçoada do 9K22.

O armamento usado no Gepard é composto por um sistema bitubo de fogo rápido KDA (esta sigla significa que a arma é alimentada com munição montada em correias de elos de metal), de 35 mm/90 calibres. Utiliza um projétil de 35X228 mm, cuja velocidade de boca é algo em torno de 1400 m/s. Cada tubo corresponde a um canhão completo, operado por recuperação de gás – o bloco de culatra é rearmado aproveitando parte da energia do disparo, recuperada sob a forma de parte do gás gerado pela explosão do propelente, como qualquer arma automática). A cadência de tiro é de 550 salvas por minuto. Como os dois canhões são articulados eletricamente, a cadência do sistema é, teoricamente, de pelo menos 1100 tiros por minuto. O alcance máximo é de uns 5500 m, e o efetivo, contra alvos aéreos, utilizando em geral munição de fragmentação acionada por espoleta de proximidade, de 4000 m. Os tubos elevam-se até 92 graus com relação ao eixo do carro, e são acionados eletricamente por servomotores de alto desempenho.

O processo de modernização do Gepard, iniciado no final dos anos 1990 implicou numa mudança de conceito. Segundo estudos norte americanos realizados nos anos 1980, canhões bitubo ou quadritubo, embora continuassem a ser eficazes contra helicópteros, tinham se tornado perigosamente ineficazes contra aeronaves. Não seria suficiente, então, aperfeiçoar o radar Superfledermaus – aquela altura, já muito ultrapassado, visto que constituía-se num sistema analógico. O conjunto de sensores usados no Gepard foi atualizados. Foi introduzido um novo radar de busca operando na banda S, capaz de cobrir um cone invertido com 15 km de raio e até 7 km de altura. Determinada a altitude e direção do alvo, entra em funcionamento o radar de acompanhamento, montado a vante da torreta, entre os dois tubos. Operando na banda K, determina a velocidade do alvo. A operação dos sistemas é coordenada por um computador, que analisa em tempo real as informações obtidas através do princípio pulso Doppler. Com um alcance de 15 km, esse sistema recebeu o acrônimo (tipicamente alemão, por não formar nenhuma palavra pronunciável nem ter graça alguma) HFlaAFüSys, ou seja, Heeres FlugabwehrAufklarungsFührungSystem, algo como “Sistema de Direção e Reconhecimento Anti-aéreo do Exército”. A renovação incluiu capacidades de contramedidas eletrônicas, decodificador IFF (Identification of Friend oor Foe – “identificação de amigo ou inimigo”, uma emissão de rádio que, decodificado pelo atacante, caso reconhecido como “amigo”, alerta o piloto e trava temporariamente o armamento) e visor termal junto aos optrônicos.

O armamento teria de ser muito melhorado, ao ponto de ser realizada uma verdadeira mudança de conceito, baseada no exame do desempenho do sistema russo Tunguska.  O Tunguska utilizava (como hoje em dia utiliza o Pantsir S-1) uma configuração de canhões de fogo rápido e mísseis superfície-ar, que foi adotada pelos usuários do Gepard.  O armamento foi acrescido do sistema de mísseis Raytheon FIM-92D Stinger,montados em lançadores duplos junto dos canhões. O Stinger utilizado é uma versão aperfeiçoada, derivada do MANPADS que adquiriu fama contra helicópteros e aeronaves soviéticas no Afeganistão. Com alcance de uns 8 km, o modelo utilizado,  também conhecido como Stinger RMP (Reprogrammable Microprocessor) foi desenvolvido no final dos anos 1980 para corrigir falhas observadas nas versões anteriores. Introduzia a  capacidade de ser rapidamente reprogramado, conforme a missão designada (o que podia ser feito, dependendo do software empregado, em 10 minutos). Posteriormente, uma versão mais aperfeiçoada, a 92E POST (Passive Optical Seeker Technique – “técnica de buscador ótico passivo”) foi introduzida. Nesta, o míssil passou a ser apontado por um visor totalmente passivo, anulando medidas contra IR, o que diminuia a possibilidade de detecção do lançador. Estes mísseis possuem um alcance de 8 km.

O programa revelou-se complicado em função mais do contexto político pós-Guerra Fria, do que por dificuldades técnicas, e foi concluído em 2004-2005. Os cortes de orçamento que alcançaram todas as forças armadas européias fizeram com que apenas 110 Gepards, de um total de cerca de 300, fossem modernizados. As 45 unidades belgas tiveram completado apenas parte do projeto, e acabaram descontinuadas antes de estarem totalmente operacionais. Nesta época, os usuários já estavam cogitando se não seria mais barato substituí-lo de uma vez. Em 2009 a Bundeswehr resolveu desativar os três regimentos equipados com o Gepard, que será substituído por um sistema mais leve, mais moderno e mais barato. Pouco mais de cem unidades do Gepard “quase zero-bala” ficaram disponíveis.

O equipamento de um regimento completo – 36 carros revisados e modernizados – foi disponibilizado ao EB em 2011. O pacote oferecido incluiu peças sobressalentes, suporte técnico e treinamento de pessoal militar. O governo alemão liberou a KWM para dar suporte ao veículo durante pelo menos dez anos, bem como a  transferência de tecnologia visando a nacionalização de alguns itens, através da sede da empresa, localizada no Rio Grande do Sul. Um exemplar foi enviado ao Brasil em outubro de 2011, para ser testado durante exercício anual da artilharia AAe, no campo de instrução de Formosa, nas proximidades de Brasília. Segundo foi dito, os militares brasileiros ficaram impressionados com a capacidade do veículo.

Tem sido dito que a aquisição do sistema alemão trará grandes vantagens para a Força Terrestre brasileira, a começar por constituir um sistema ainda atualizado e de alta capacidade operacional. Alguns especialistas dizem que a unidade EDT desses veículos é capaz de “conversar” com as FILA operadas pelo EB. Alguns dos desenvolvimentos introduzidos anos atrás no produto brasileiro estão presentes no HflaAFüSys alemão, e este que poderia, eventualmente, servir como base para a modernização das unidades nacionais, bastante defasadas tecnologicamente. A virtude pode, por outro lado, ser um problema, visto que não se sabe como será o acordo de off set (transferência de tecnologia) assinado com os alemães, e estes não costumam a ser lá muito colaborativos, nesta direção. Evidentemente que muitos itens deverão passar a ser produzidos pela indústria nacional, sob pena de inviabilizar, a médio prazo, a operação dos veículos no Brasil: peças mecânicas, alguns dos itens relativos ao armamento e, quase certamente, a munição (segundo tem sido dito, apesar do armamento ser basicamente o mesmo que os GDF001 operados pelo EB, a comunalidade entre as munições utilizadas não é total).

Como vantagens, tem sido apresentados o alto índice de comunalidade com o Leopard 1 A5 e a relação já estabelecida com o fabricante alemão, a empresa KMW. Mecanicamente, o Gepard constitui com o “Leo” uma “familia de veículos” (FoV): utilizam o mesmo chassi, motor (da empresa Motoren und Turbinen Union –MTU – MB 838 de 10 cilindros, gerando 830 hp de potência), transmissão e sistema de tração. Também são comuns a blindagem. Este aspecto certamente facilitará a logística, visto que serão utilizadas as plantas de manutenção já existentes e os procesos, quanto à parte mecánica, são os mesmos.

Tudo isso posto, o que se pode dizer é que a aquisição do Gepard, apesar das vantagens que pode representar, em termos, inclusive, de melhoria da capacidade anti-aérea do EB, de forma alguma pode ser considerada isoladamente. É, no máximo, um passo. Outras providências têm de ser tomadas, como a aquisição de mísseis de médio alcance (o que foi feito, recentemente) e a melhoria do controle do espaço aéreo, no foco tático e estratégico (o que teria de incluir a aviação civil). O futuro próximo dirá se estamos diante de um salto ou de um mico. Eventualmente, voltaremos ao assunto::  

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Causa também tem saudades::Para complementar, alguns assuntos relevantes::Parte 1::

Faz alguns meses que causa:: está meio largado às traças devido a meus projetos prioritários. Mas como não é, para mim, possível ficar afastado dos assuntos relevantes, e estes são muitos, resolvi eleger um deles e tecer algumas considerações em torno – como sempre. Um dentre os que realmente parecem interessantes é a revitalização da artilharia AAe de nosso sofrida Força Terrestre::

Algumas observações gerais (e nem precisam ser muito aprofundadas…) nos mostram que, como todo o resto, a capacidade AAe da Força Terrestre nacional é pífia.  Pode-se dizer que esta especialização da arma de artilharia foi introduzida no Brasil nos anos 1930, com a criação de um centro de instrução nas dependencias da Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos, Rio de janeiro. Em 1938 foi criado o “Núcleo da Bateria de Metralhadores AAe”, em torno de alguns canhões AAe Madsen de 20 mm. Na mesma ápoca, a artilharia antiaérea (cuja sigla, para os militares é AAAe) veria uma expansão notável com a aquisição, em 1939, de alguns canhões Krupp modelo 18 (este mesmo – o primeiro da linhagem do fabuloso acht-acht). Em função da época complicada, o contrato mostrou-se muito difícil de ser concretizado – a Europa vivía a abertura das hostilidades da Segunda Guerra Mundial.  Apenas parte da encomenda original foi honrada pelos alemães, que acabaram por incorporar à Wehrmacht os equipamentos originalmente destinados ao Brasil.

O surgimento, de fato, da arma AAe em nosso país teria de esperar até o alinhamento com os aliados, a partir de 1942. Foi então que começaram a ser recebidas peças de origem norte-americana: canhões de 37 mm automáticos e 90 mm, contra alvos em média/alta altitude. No final dos anos1950 certa quantidade de canhões automáticos Bofors C/60 foi disponibilizada para o EB. Ao longo dos anos 1960 e 1970, foram adquiridos os Bofors C/70. Este é, basicamente, o mesmo C/60 (isto significa “60 calibres” – 40 mmX60 –, ou seja, o comprimento do tubo-alma entre o fim da cámara e a boca) com diversos melhoramentos, inclusive uma cadencia de fogo – TPM, no jargão militar – de até 300 salvas por minuto. Estes forma distribuídos entre o EB e os Fuzileiros Navais. O controle de fogo (“direção de tiro”, para o EB) ainda era baseado em sistemas óticos e calculadores analógicos, chamados de “preditores”, no jargão militar.

O grande problema do Brasil era, de toda forma, a dependência quase total de fornecedores externos, notadamente os EUA. Visto que estes se recusavam a disponibilizar armamento de tecnologia avançada, durante os anos 1960 a obsolescência material das FA era crítica: a totalidade do equipamento disponível era coisa que chegava no máximo aos meados dos anos 1950. Na final da década dos sessenta, após ter sucessivos pedidos de equipamento atualizado negados, o governo militar resolveu mandar os EUA às favas e foi às compras na Europa. Foi adquirida uma esquadra “zero bala” na Inglaterra e aeronaves “estado da arte” na França. Mas não foi só: também foi adquirido um sistema de controle do espaço aéreo baseado em radares franceses que, na época, eram o melhor disponível fora dos EUA. A estruturação do sistema incluiu o Controle de Trafego Aéreo e um sistema de orientação de aeronaves militares.

A Força Terrestre entrou nessa “festa tecnológica” com a aquisição dos canhões automáticos bitubos de tiro rápido Oerlikon GDF 001 de 35 mm/90 calibres. Foi um verdadeiro “choque de modernidade”. Na época era o que havia de mais avançado em termos de armamento de tubo para defesa de ponto, inclusive por terem vindo acompanhados por algumas unidades de controle de fogo Skyguard. Este era o descendente, muito melhorado, da EDT Superfledermaus (algo como “Supermorcego”, em alemão), um sistema de radar e optrônicos para localização,  acompanhamento e marcação de alvos, instalado num container autorrebocado. O container, quando posto em posição, apoia-se em quatro sapatas com regulagem coordenada de precisão, capazes de manter o conjunto totalmente estabilizado – requisito básico para um sistema de radar móvel.  A unidade de antena contém o radar de busca (search radar, em inglês) o radar de acompanhamento (tracking radar) e uma câmera de televisão coaxial (acoplada ao radar de rastreamento). A unidade recolhe-se para dentro de um compartimento no container, quando em deslocamento e é automaticamente colocada em posição quando o sistema é ligado. Tanto o radar busca quanto o de rastreamento (acompanhamento de alvos) operam pelo princípio pulso Doppler, capaz de fornecer rapidamente a direção, altitude e velocidade de deslocamento do alvo. O sistema é capaz de avaliar e selecionar automaticamente os alvos. O equipamento de TV coaxial (“optrônico”) dá ao conjuto certa capacidade de oposição à Contramedidas Eletrônicas (ECM), pois é acionado logo que alguma interferência antirradar é detectada e permite que o alvo seja acompanhado e enquadrado visualmente, embora em distâncias menores.  O alcance máximo é de 20 quilômetros, e cada sistema é capaz de adquirir diversos alvos e coordenar o fogo de duas unidades de duplo cano, cada uma com cadência de fogo de até 1100 disparos por minuto. É uma arma extremamente eficaz contra aeronaves voando a baixa altitude a uma distancia de até 4000 metros.

Desde essa época a arma antiaérea do EB foi reorganizada, sendo formados cinco Grupos de Artilharia AAe e nove baterías ligadas à principais brigadas. A essa reorganização correspondeu a desativação do equipamento de origem norte americana e a introdução de novas unidades Bofors C/70.

Paralelamente, entre meados dos anos 1970 e o início da década de 1990 foram feitos esfprços, baseados principalmente no Centro de Tecnológico do Exército (CTEx) e no ITA, da Força Aérea para desenvolver tecnologia militar autóctone. O processo, estrategicamente bem elaborado, tropeçava em alguns obstáculos. O primeiro era a baixa capacitação dos laboratórios brasileiros no que tange à pesquisa aplicada. Isto quer dizer que, embora os princípios fundamentais fossem dominados, não havia quem soubesse aplicá-los direito ao desenvolvimento de geringonças do tipo descrito. O segundo problema, que englobava o primeiro, era o modelo de desenvolvimento brasileiro: os militares esperavam que a indústria nacional – não apenas a indústria de defesa – pudesse se expandir copiando tecnologias ultrapassadas disponibilizadas pelas potências centrais. Essa proposta se desdobrou do sucesso obtido aqui em certos ramos da indústria metal-mecânica, particularmente a automobilística. Quando se tentou fazer a mesma coisa com ramos mais complexos, como a eletrônica e a aeronáutica, o projeto deu gloriosamente com os burros n´água. Ainda assim, certos casos de sucesso contribuíram para estender o equívoco: foi o que se deu com experiências do tipo da Engesa, que chegou a ser um dos grandes fabricantes de blindados sobre rodas do Ocidente. O problema é que o oba-oba da época ocultou o fato de que os produtos fabricados eram tecnologicamente defasados (hoje se sabe que o Cascavel, por exemplo, estava no patamar do final dos anos 1950, e até o canhão era cópia de um modelo belga já então ultrapassado). O sucesso internacional baseava-se no fato de que, como o país copiava tecnologias ultrapassadas e o modelo político mantinha os custos gerais baixos, o preço final acabava sendo muito competitivo. Para piorar as coisas, as forças armadas nacionais, que em todos os países do mundo são o principal cliente da indústria de defesa local, por aqui não pareciam dispostas a comprar os produtos nacionais. Não que não quisessem: o governo militar é que investia relativamente pouco em pesquisa e desenvolvimento, deixando claro que o complexo industrial militar local devia se virar com exportações. Foi assim que países como a Líbia e o Iraque se entupiram de Cascavéis e Urutus, trocados por créditos em petróleo, sem chegar a contribuir para aperfeiçoar os produtos e as doutrinas de uso.

Foi nesse contexto que, em 1978, o Brasil adquiriu uma bateria do sistema franco-germânico Roland II, na época um produto tecnologicamente avançadíssimo. A aquisição chegou a quatro lançadores duplos e 50 mísseis e foi dito que o objetivo era prover a capital federal de um sistema eficaz de defesa antiaérea. A explicação fazia sentido, já que essa função era cumprida por uma bateria de canhões AAe Bofors L/70. Entretanto, os militares brasileiros imaginavam que, aplicando engenharia reversa, conseguiriam copiar o míssil, o lançador e (talvez) os sistemas de guiagem. A história toda até hoje não foi bem contada, mas parece que o fabricante, a empresa franco-germânica Euromissile, começou a desconfiar da quantidade de pequenas encomendas de peças específicas sob o selo “reposição”. Em 1984, o CTEx tentou desenvolver uma plataforma (“shelter”, no jargão técnico) autorrebocada, cujo mockup (espécie de modelo em escala 1/1 e usando os materiais do produto real) chegou a ser divulgado na imprensa especializada. Só que fazer uma espécie de maquete é bem mais simples que fazer a coisa real, e não é possível dizer se teria funcionado como protótipo. Mas nessa época o fabricante europeu já tinha cortado o fornecimento de peças totalmente, e como o objetivo brasileiro não era, de fato, constituir um sistema de defesa AAe de ponto expandido (defesa de alvos de grande porte, como aeroportos bases  e depósitos militares), as unidades não chegaram a se tornar totalmente operacionais e foram abandonadas, sendo uma delas mantida durante alguns anos no CTEx.

Também na década de 1980  a empresa privada Avibrás conseguiu – desta vez com assitência da Contraves – produzir um sistema semelhante ao Skyguard, só que, na época, um pouco mais aperfeiçoado. Mantidas as características do Skyguard, a versão brasileira apresentava0 certos aperfeiçoamento, como a introdução da “banda Ka” de micro ondas, de maior potência, unidade de antena aperfeiçoada, um telêmetro a laser e analizador de dados digital. Falamos aqui da EDT FILA. A palavra é o acrônimo de Fighting Intruders Low Altitude – “combatendo incursores a baixa altitude” -, nome que indica a filosofía da época: uma palavra que pudesse ser lida mais ou menos da mesma forma nas principais línguas, já que o objetivo principal era exportar a geringonça. Foi um processo bem sucedido, principalmente em função da quantidade de recursos injetados no proceso: quem pagava eram os iraquianos. A EDT FILA destinava-se, inicialmente, a funcionar como sistema de guiagem para as baterías de saturação ASTROS II, cujo desenvolvimento, na primeira metade dos anos 1980, foi totalmente financiado pelo (na época) altamente confiável governo iraquiano. As traquinagens de Saddam Hussein, no início dos anos noventa, acabaram com a parceria e resultaram num calote iraquiano, mas, ainda assim, o EB viu no FILA a possibilidade de dotar os canhões de cano singelo Bofors C/70 de 40 mm de um EDT atualizado. O FILA deveria colocar a Força Terrestre em novo patamar tecnológico, mas o fato é que as 100 unidades pretendidas nunca chegaram a ser entregues, em função dos sucessivos contingenciamentos e cortes de verbas ocorridos ao longo dos anos 1980 e 1990. Atualmente, o EB dispõe de 13 unidades, em variados estados de disponibilidade.

Em 1994, outro “choque de modernidade”: o EB recebeu 50 conjuntos  do MANPADS (acrônimo em inglês de man portable air defense system) 9M38 Igla (“ferrão”, em russo) referenciado pela OTAN como SA-18 Grouse (“perdiz”), que foram distribuídos também à FAB. Um “choque” talvez nem tão chocante: até hoje a eficácia do Igla é fator de controvérsia, e não são poucos os comentaristas, militares ou não, que afirmam ter o Brasil comprado gato por lebre.

O SA-18 é uma versão mais sofisticada do SA-16, conhecido como Gimlet pela OTAN. O equipamento disponível pelo EB e pela FAB utiliza o míssil 9M39, bem mais avançado que as versões anteriores e colocado em serviço no final dos anos 1980. Este pode ser usado contra aeronaves em vôo transônico de baixo nível, helicópteros, mísseis de cruzeiro e VANTS. Entrega uma cabeça de guerra com aproximadamente 400 g de alto explosivo (HE), detonada por uma espoleta de proximidade acionada a laser. Com a velocidade final, adquirida em poucos segundos, de 502 m/s, o 9M39 pode atingir um alvo voando a até 5200 m de distância, adquirido por um sensor termal capaz de distinguir entre o alvo e contramedidas baseadas em flares.

O sistema, cujo peso total é de pouco mais de 17 kg, sendo que mais de 10 kg são do míssil, é tido como de uso muito simples, exigindo quase nenhuma manutenção e relativamente pouco treinamento por parte do operador. O problema é que não há unanimidade em torno da eficácia, e boa parte dos analistas diz que se trata de um sistema ultrapassado. Os sistemas do tipo MANPADS adquirem o alvo através de sensores de calor, mas têm de ser colocados pelo operador na direção do alvo, ainda que este esteja na direção contrária do ponto de emprego. Isto significa que a capacidade dessas armas de atuar a noite é limitada. Existem sistemas eletrônicos que auxiliam a aquisição do alvo, mas o Brasil não os adquiriu.

A chegada do Igla apontou, antes de mais nada, para a forte desmobilização da indústria de defesa nacional e para a falta de um programa estratégico de renovação das FA brasileiras. Tratou-se de outra “compra de oportunidade”, tipo de transação baseado na capacidade das Forças Armadas em identificar chances de adquirir material barato e relativamente atualizado, descontinuado pelos países centrais, então às voltas com o fim da Guerra Fria. Tem sido a principal forma de aquisição de equipamento pelo Brasil, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Não que não tenham sido feitas, de lá para cá, diversas tentativas para criar armas e equipamentos autóctones. No ramo AAe, uma relativamente interessante (por reveladora das mazelas nacionais) é a tentativa de criar um equivalente ao norte-americano Chaparral (uma versão superfície-ar do míssil ar-ar AIM9 Sidewinder) baseado míssil MAA1A “Piranha”, denominado SIMDABA (acrônimo de “Sistema de Mísseis de Defesa Antiaérea de Baixa Altitude”). O MAA1A, resultante de um projeto que levou quase trinta anos para ser completado, nasceu obsoleto, mas era para ser assim mesmo (um excelente histórico do projeto pode ser encontrado aqui). Os projetistas, alocados no CTA da FAB e em diversas empresas privadas tocaram o projeto para adquirir conhecimentos sobre a tecnologia de mísseis. Atualmente em serviço em sua versão “1A”, é considerado pelos especialistas como, no máximo, uma plataforma de desenvolvimento e treinamento. Assim, o projeto de tornar esse produto base de uma “família de armamentos” não chegou a ir para a frente, embora volta e meia o assunto volte à baila. Também voltaremos à baila, porque atualmente, embora a artilharia AAe do EB tenha se expandido de forma notável, não existe a menor concordância entre os analistas se essa expansão significa, de fato, um avanço cosistente::