Causa também tem saudades::Para complementar, alguns assuntos relevantes::Parte 1::


Faz alguns meses que causa:: está meio largado às traças devido a meus projetos prioritários. Mas como não é, para mim, possível ficar afastado dos assuntos relevantes, e estes são muitos, resolvi eleger um deles e tecer algumas considerações em torno – como sempre. Um dentre os que realmente parecem interessantes é a revitalização da artilharia AAe de nosso sofrida Força Terrestre::

Algumas observações gerais (e nem precisam ser muito aprofundadas…) nos mostram que, como todo o resto, a capacidade AAe da Força Terrestre nacional é pífia.  Pode-se dizer que esta especialização da arma de artilharia foi introduzida no Brasil nos anos 1930, com a criação de um centro de instrução nas dependencias da Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos, Rio de janeiro. Em 1938 foi criado o “Núcleo da Bateria de Metralhadores AAe”, em torno de alguns canhões AAe Madsen de 20 mm. Na mesma ápoca, a artilharia antiaérea (cuja sigla, para os militares é AAAe) veria uma expansão notável com a aquisição, em 1939, de alguns canhões Krupp modelo 18 (este mesmo – o primeiro da linhagem do fabuloso acht-acht). Em função da época complicada, o contrato mostrou-se muito difícil de ser concretizado – a Europa vivía a abertura das hostilidades da Segunda Guerra Mundial.  Apenas parte da encomenda original foi honrada pelos alemães, que acabaram por incorporar à Wehrmacht os equipamentos originalmente destinados ao Brasil.

O surgimento, de fato, da arma AAe em nosso país teria de esperar até o alinhamento com os aliados, a partir de 1942. Foi então que começaram a ser recebidas peças de origem norte-americana: canhões de 37 mm automáticos e 90 mm, contra alvos em média/alta altitude. No final dos anos1950 certa quantidade de canhões automáticos Bofors C/60 foi disponibilizada para o EB. Ao longo dos anos 1960 e 1970, foram adquiridos os Bofors C/70. Este é, basicamente, o mesmo C/60 (isto significa “60 calibres” – 40 mmX60 –, ou seja, o comprimento do tubo-alma entre o fim da cámara e a boca) com diversos melhoramentos, inclusive uma cadencia de fogo – TPM, no jargão militar – de até 300 salvas por minuto. Estes forma distribuídos entre o EB e os Fuzileiros Navais. O controle de fogo (“direção de tiro”, para o EB) ainda era baseado em sistemas óticos e calculadores analógicos, chamados de “preditores”, no jargão militar.

O grande problema do Brasil era, de toda forma, a dependência quase total de fornecedores externos, notadamente os EUA. Visto que estes se recusavam a disponibilizar armamento de tecnologia avançada, durante os anos 1960 a obsolescência material das FA era crítica: a totalidade do equipamento disponível era coisa que chegava no máximo aos meados dos anos 1950. Na final da década dos sessenta, após ter sucessivos pedidos de equipamento atualizado negados, o governo militar resolveu mandar os EUA às favas e foi às compras na Europa. Foi adquirida uma esquadra “zero bala” na Inglaterra e aeronaves “estado da arte” na França. Mas não foi só: também foi adquirido um sistema de controle do espaço aéreo baseado em radares franceses que, na época, eram o melhor disponível fora dos EUA. A estruturação do sistema incluiu o Controle de Trafego Aéreo e um sistema de orientação de aeronaves militares.

A Força Terrestre entrou nessa “festa tecnológica” com a aquisição dos canhões automáticos bitubos de tiro rápido Oerlikon GDF 001 de 35 mm/90 calibres. Foi um verdadeiro “choque de modernidade”. Na época era o que havia de mais avançado em termos de armamento de tubo para defesa de ponto, inclusive por terem vindo acompanhados por algumas unidades de controle de fogo Skyguard. Este era o descendente, muito melhorado, da EDT Superfledermaus (algo como “Supermorcego”, em alemão), um sistema de radar e optrônicos para localização,  acompanhamento e marcação de alvos, instalado num container autorrebocado. O container, quando posto em posição, apoia-se em quatro sapatas com regulagem coordenada de precisão, capazes de manter o conjunto totalmente estabilizado – requisito básico para um sistema de radar móvel.  A unidade de antena contém o radar de busca (search radar, em inglês) o radar de acompanhamento (tracking radar) e uma câmera de televisão coaxial (acoplada ao radar de rastreamento). A unidade recolhe-se para dentro de um compartimento no container, quando em deslocamento e é automaticamente colocada em posição quando o sistema é ligado. Tanto o radar busca quanto o de rastreamento (acompanhamento de alvos) operam pelo princípio pulso Doppler, capaz de fornecer rapidamente a direção, altitude e velocidade de deslocamento do alvo. O sistema é capaz de avaliar e selecionar automaticamente os alvos. O equipamento de TV coaxial (“optrônico”) dá ao conjuto certa capacidade de oposição à Contramedidas Eletrônicas (ECM), pois é acionado logo que alguma interferência antirradar é detectada e permite que o alvo seja acompanhado e enquadrado visualmente, embora em distâncias menores.  O alcance máximo é de 20 quilômetros, e cada sistema é capaz de adquirir diversos alvos e coordenar o fogo de duas unidades de duplo cano, cada uma com cadência de fogo de até 1100 disparos por minuto. É uma arma extremamente eficaz contra aeronaves voando a baixa altitude a uma distancia de até 4000 metros.

Desde essa época a arma antiaérea do EB foi reorganizada, sendo formados cinco Grupos de Artilharia AAe e nove baterías ligadas à principais brigadas. A essa reorganização correspondeu a desativação do equipamento de origem norte americana e a introdução de novas unidades Bofors C/70.

Paralelamente, entre meados dos anos 1970 e o início da década de 1990 foram feitos esfprços, baseados principalmente no Centro de Tecnológico do Exército (CTEx) e no ITA, da Força Aérea para desenvolver tecnologia militar autóctone. O processo, estrategicamente bem elaborado, tropeçava em alguns obstáculos. O primeiro era a baixa capacitação dos laboratórios brasileiros no que tange à pesquisa aplicada. Isto quer dizer que, embora os princípios fundamentais fossem dominados, não havia quem soubesse aplicá-los direito ao desenvolvimento de geringonças do tipo descrito. O segundo problema, que englobava o primeiro, era o modelo de desenvolvimento brasileiro: os militares esperavam que a indústria nacional – não apenas a indústria de defesa – pudesse se expandir copiando tecnologias ultrapassadas disponibilizadas pelas potências centrais. Essa proposta se desdobrou do sucesso obtido aqui em certos ramos da indústria metal-mecânica, particularmente a automobilística. Quando se tentou fazer a mesma coisa com ramos mais complexos, como a eletrônica e a aeronáutica, o projeto deu gloriosamente com os burros n´água. Ainda assim, certos casos de sucesso contribuíram para estender o equívoco: foi o que se deu com experiências do tipo da Engesa, que chegou a ser um dos grandes fabricantes de blindados sobre rodas do Ocidente. O problema é que o oba-oba da época ocultou o fato de que os produtos fabricados eram tecnologicamente defasados (hoje se sabe que o Cascavel, por exemplo, estava no patamar do final dos anos 1950, e até o canhão era cópia de um modelo belga já então ultrapassado). O sucesso internacional baseava-se no fato de que, como o país copiava tecnologias ultrapassadas e o modelo político mantinha os custos gerais baixos, o preço final acabava sendo muito competitivo. Para piorar as coisas, as forças armadas nacionais, que em todos os países do mundo são o principal cliente da indústria de defesa local, por aqui não pareciam dispostas a comprar os produtos nacionais. Não que não quisessem: o governo militar é que investia relativamente pouco em pesquisa e desenvolvimento, deixando claro que o complexo industrial militar local devia se virar com exportações. Foi assim que países como a Líbia e o Iraque se entupiram de Cascavéis e Urutus, trocados por créditos em petróleo, sem chegar a contribuir para aperfeiçoar os produtos e as doutrinas de uso.

Foi nesse contexto que, em 1978, o Brasil adquiriu uma bateria do sistema franco-germânico Roland II, na época um produto tecnologicamente avançadíssimo. A aquisição chegou a quatro lançadores duplos e 50 mísseis e foi dito que o objetivo era prover a capital federal de um sistema eficaz de defesa antiaérea. A explicação fazia sentido, já que essa função era cumprida por uma bateria de canhões AAe Bofors L/70. Entretanto, os militares brasileiros imaginavam que, aplicando engenharia reversa, conseguiriam copiar o míssil, o lançador e (talvez) os sistemas de guiagem. A história toda até hoje não foi bem contada, mas parece que o fabricante, a empresa franco-germânica Euromissile, começou a desconfiar da quantidade de pequenas encomendas de peças específicas sob o selo “reposição”. Em 1984, o CTEx tentou desenvolver uma plataforma (“shelter”, no jargão técnico) autorrebocada, cujo mockup (espécie de modelo em escala 1/1 e usando os materiais do produto real) chegou a ser divulgado na imprensa especializada. Só que fazer uma espécie de maquete é bem mais simples que fazer a coisa real, e não é possível dizer se teria funcionado como protótipo. Mas nessa época o fabricante europeu já tinha cortado o fornecimento de peças totalmente, e como o objetivo brasileiro não era, de fato, constituir um sistema de defesa AAe de ponto expandido (defesa de alvos de grande porte, como aeroportos bases  e depósitos militares), as unidades não chegaram a se tornar totalmente operacionais e foram abandonadas, sendo uma delas mantida durante alguns anos no CTEx.

Também na década de 1980  a empresa privada Avibrás conseguiu – desta vez com assitência da Contraves – produzir um sistema semelhante ao Skyguard, só que, na época, um pouco mais aperfeiçoado. Mantidas as características do Skyguard, a versão brasileira apresentava0 certos aperfeiçoamento, como a introdução da “banda Ka” de micro ondas, de maior potência, unidade de antena aperfeiçoada, um telêmetro a laser e analizador de dados digital. Falamos aqui da EDT FILA. A palavra é o acrônimo de Fighting Intruders Low Altitude – “combatendo incursores a baixa altitude” -, nome que indica a filosofía da época: uma palavra que pudesse ser lida mais ou menos da mesma forma nas principais línguas, já que o objetivo principal era exportar a geringonça. Foi um processo bem sucedido, principalmente em função da quantidade de recursos injetados no proceso: quem pagava eram os iraquianos. A EDT FILA destinava-se, inicialmente, a funcionar como sistema de guiagem para as baterías de saturação ASTROS II, cujo desenvolvimento, na primeira metade dos anos 1980, foi totalmente financiado pelo (na época) altamente confiável governo iraquiano. As traquinagens de Saddam Hussein, no início dos anos noventa, acabaram com a parceria e resultaram num calote iraquiano, mas, ainda assim, o EB viu no FILA a possibilidade de dotar os canhões de cano singelo Bofors C/70 de 40 mm de um EDT atualizado. O FILA deveria colocar a Força Terrestre em novo patamar tecnológico, mas o fato é que as 100 unidades pretendidas nunca chegaram a ser entregues, em função dos sucessivos contingenciamentos e cortes de verbas ocorridos ao longo dos anos 1980 e 1990. Atualmente, o EB dispõe de 13 unidades, em variados estados de disponibilidade.

Em 1994, outro “choque de modernidade”: o EB recebeu 50 conjuntos  do MANPADS (acrônimo em inglês de man portable air defense system) 9M38 Igla (“ferrão”, em russo) referenciado pela OTAN como SA-18 Grouse (“perdiz”), que foram distribuídos também à FAB. Um “choque” talvez nem tão chocante: até hoje a eficácia do Igla é fator de controvérsia, e não são poucos os comentaristas, militares ou não, que afirmam ter o Brasil comprado gato por lebre.

O SA-18 é uma versão mais sofisticada do SA-16, conhecido como Gimlet pela OTAN. O equipamento disponível pelo EB e pela FAB utiliza o míssil 9M39, bem mais avançado que as versões anteriores e colocado em serviço no final dos anos 1980. Este pode ser usado contra aeronaves em vôo transônico de baixo nível, helicópteros, mísseis de cruzeiro e VANTS. Entrega uma cabeça de guerra com aproximadamente 400 g de alto explosivo (HE), detonada por uma espoleta de proximidade acionada a laser. Com a velocidade final, adquirida em poucos segundos, de 502 m/s, o 9M39 pode atingir um alvo voando a até 5200 m de distância, adquirido por um sensor termal capaz de distinguir entre o alvo e contramedidas baseadas em flares.

O sistema, cujo peso total é de pouco mais de 17 kg, sendo que mais de 10 kg são do míssil, é tido como de uso muito simples, exigindo quase nenhuma manutenção e relativamente pouco treinamento por parte do operador. O problema é que não há unanimidade em torno da eficácia, e boa parte dos analistas diz que se trata de um sistema ultrapassado. Os sistemas do tipo MANPADS adquirem o alvo através de sensores de calor, mas têm de ser colocados pelo operador na direção do alvo, ainda que este esteja na direção contrária do ponto de emprego. Isto significa que a capacidade dessas armas de atuar a noite é limitada. Existem sistemas eletrônicos que auxiliam a aquisição do alvo, mas o Brasil não os adquiriu.

A chegada do Igla apontou, antes de mais nada, para a forte desmobilização da indústria de defesa nacional e para a falta de um programa estratégico de renovação das FA brasileiras. Tratou-se de outra “compra de oportunidade”, tipo de transação baseado na capacidade das Forças Armadas em identificar chances de adquirir material barato e relativamente atualizado, descontinuado pelos países centrais, então às voltas com o fim da Guerra Fria. Tem sido a principal forma de aquisição de equipamento pelo Brasil, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Não que não tenham sido feitas, de lá para cá, diversas tentativas para criar armas e equipamentos autóctones. No ramo AAe, uma relativamente interessante (por reveladora das mazelas nacionais) é a tentativa de criar um equivalente ao norte-americano Chaparral (uma versão superfície-ar do míssil ar-ar AIM9 Sidewinder) baseado míssil MAA1A “Piranha”, denominado SIMDABA (acrônimo de “Sistema de Mísseis de Defesa Antiaérea de Baixa Altitude”). O MAA1A, resultante de um projeto que levou quase trinta anos para ser completado, nasceu obsoleto, mas era para ser assim mesmo (um excelente histórico do projeto pode ser encontrado aqui). Os projetistas, alocados no CTA da FAB e em diversas empresas privadas tocaram o projeto para adquirir conhecimentos sobre a tecnologia de mísseis. Atualmente em serviço em sua versão “1A”, é considerado pelos especialistas como, no máximo, uma plataforma de desenvolvimento e treinamento. Assim, o projeto de tornar esse produto base de uma “família de armamentos” não chegou a ir para a frente, embora volta e meia o assunto volte à baila. Também voltaremos à baila, porque atualmente, embora a artilharia AAe do EB tenha se expandido de forma notável, não existe a menor concordância entre os analistas se essa expansão significa, de fato, um avanço cosistente::

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