Decisões estratégicas e de grande estratégia::O tapa-buracos aponta o futuro?::parte2


Umas duas semanas atrás iniciamos um comentário sobre a desativação dos Mirage 2000 que constituem, atualmente, a principal aeronave de interceptação/superioridade aérea da FAB, e os problemas que essa situação pode ocasionar, em função da interminável indefinição do programa F-X2 e da possível substituição do modelo a ser desativado por uma “solução de contingência”, o modernizado F5EM. Nesta segunda parte, vamos tentar estabelecer se se trata de uma boa ideia e quais seriam as alternativas disponíveis e – na minha opinião, a melhor parte – tentar entender como a situação chegou a tal ponto::

parte2Já vimos que o F5E “Mike”, embora tenha dotado a FAB de um caça com características de 4ª geração, não pode ser nada mais do  que uma solução de contingência, e não para longo prazo. É um projeto interessante, mas que dificilmente se sustentaria diante de nossos vizinhos mais bem fornidos. Entretanto, quero crer que temos algumas vantagens sobre esses vizinhos: por exemplo, o avanço seguro e sistemático no domínio, técnico e operacional, da doutrina de combate em rede. Usarei este aspecto como case study (para os que gostam de uma expressão tipicamente acadêmica…), mas poderia levantar outros – por exemplo, a crescente capacidade da indústria nacional em fabricar equipamentos – inclusive alguns tipos de armamentos – de razoável grau de sofisticação. O que quero levantar aqui é que, quando se pensa em termos de “grande estratégia”, não se pode (pelo menos não se deve) pensar apenas “no caça”, “no tanque” ou “na fragata”, mas em um conjunto de fatores que permitem projetar as demandas e a capacidade de supri-las, no médio e no longo prazo. A esta altura, alguns dos dezessete assíduos já deve estar pensando “este cara bebeu”. Esclareço – nem bebo nem tenho a tendência em pensar cor-de-rosa. Por este motivo escolhi a  “guerra centrada em rede”, ou Network Centric Warfare.

Não importa ir fundo em definir do que isto se trata. De forma geral, é o uso dos recursos disponibilizados, na modernidade, pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação, principalmente as redes de computadores, em cenários de conflito armado, não importa a intensidade. A GCR eleva de forma exponencial a consciência situacional tanto do combatente quanto da cadeia de comando, agilizando as tomadas de decisão e aumentando a possibilidade de que as decisões sejam corretamente implementadas e adaptadas às demandas apresentadas pela natural fluidez do combate.  A GCR é um ambiente teórico, no qual são construídas as “doutrinas”, quer dizer, as formas sobre como utilizar, de forma lógica e organizada, as forças militares. Os “aspectos físicos” da GCR são diversos, mas apontam todos para o  “enlace de dados militares” (a expressão em português para military datalink). Trata-se de um conjunto de meios que permitem processar e compartilhar de forma segura e em tempo real, as informações dos sensores das unidades em operação (aeronaves, veículos terrestres, navios e bases). O que um vê e/ou escuta é o que todos vêem e/ou escutam. A “rede” daí resultante aloca os comandos operacionais e os sistemas de armas disponíveis através de uma imagem comum do teatro tático – o campo de batalha -, daí o aumento da tal “consciência situacional” de todos os envolvidos. As “agências” (combinação de elementos humanos e equipamentos) em terra, no ar ou no mar, sejam essas plataformas móveis ou estações estáticas, tornam-se “nós de rede”, em condições de influir (embora nem todos possam decidir) na condução do combate.

As três forças brasileiras singulares se encontram pesquisando a GCR e os sistemas adequados às suas necessidades. Na FAB o que está atualmente disponível é baseado no que é identificado pelo acrônimo SISCENDA (“Sistema de Comunicações por Enlaces Digitais da Aeronáutica”). O uso do “enlace de dados” pela FAB remonta a um projeto, iniciado em 1998, destinado a criar um sistema de comunicações de combate entre os caças leves Embraer A-29A/B “Super Tucano” – então ainda em fase de projeto – com os Embraer ERJ145 AEW/C E-99A (então conhecido como R-99A e até hoje carinhosamente tratado, na FAB, por “grampeador”, de tão esquisito que é…). A ideia foi colocada a partir das necessidades surgidas do projeto SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), o amplo conjunto de sistemas e estruturas de vigilância aérea e comunicações que abrange a “Amazônia Verde”. Essa infraestrutura implica, para começo de conversa, em sistemas de radar, de comunicação e de apoio eletrônico, e inclui as aeronaves  E-99A, planejados para serem estações móveis de vigilância e controle, e o “Super Tucano”, este concebido para ser o “braço armado do sistema”.  O hardware do sistema é um rádio transceptor VHF/UHF desenvolvido pela empresa alemã Röhde & Schwarz. O software destinado a interligar os ST, que não são equipados com radar, ao  sistema de controle dos E-99A (este centrado em um poderoso radar AESA de origem sueca, o Erieye) foi desenvolvido de forma autóctone.

O projeto foi conduzido pela Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (CISCEA), que coordenou instituições de pesquisa responsáveis pelo desenvolvimento do software – o ITA e Centro de Telecomunicações (CETUC) daPUC-RJ. Até então, a FAB utilizava um software de origem suíça, desenvolvido pela empresa Crypto AG, comprado na segunda metade dos anos 1990 sob a forma de “pacote fechado”. Já nas últimas etapas do Projeto SIVAM, na segunda metade de 2003, a FAB se viu diante do fato de que as comunicações militares da defesa aérea, para serem eficazes, tinham de ser invioláveis, e não eram. O equipamento em uso nos A1A e A1B (os AMX ítalo-brasileiros) não incorporava a técnica de “salto de frequência” nem encriptação em tempo real no momento do compartilhamento de dados, já que eram  de uma geração anterior. Após uma série de seminários internos, decidiu-se incorporar de uma vez o sistema de datalink, que vinha se tornando padrão nas principais forças aéreas, e já estava sendo pesquisado pela Marinha. O hardware que os alemães ofereciam para o SIVAM incluía duas características que eram o que a FAB queria: “salto de frequência” e criptografia em tempo real. Para fechar o contrato, foi feita a exigência da inclusão de transferência de tecnologia. Este foi o “pulo do gato” – a exigência foi jogada na mesa quando a venda estava quase fechada. Os alemães concordaram, já que se tratava de um venda potencial de mais de cem unidades físicas, além de um grande contrato de manutenção. Pesquisadores civis e militares brasileiros foram despachados para a Alemanha, onde foram capacitados para iniciar o desenvolvimento de um software que nos permitisse alterar a matriz das comunicações militares em território brasileiro, tornando-as seguras contra interceptação e análise.

O “protocolo” (conjunto de instruções responsável pela formação e controle de aplicações da rede de computadores, bem como pelas características de  funcionamento e pela segurança da rede) foi denominado LinkBR 1. Tinha diversas limitações e, de fato, pode ser considerado uma espécie de “versão beta do produto”:  permitia enlaces ponto-a-ponto e, de forma mais limitada, em rede, que operava em frequência fixa e sem proteção criptográfica. Nas comunicações “ida-e-volta”, os rádios que nas aeronaves e em terra transmitem os dados empregam a técnica de “salto de frequência” para se proteger de interceptação: em intervalos de tempo muito curtos buscam a banda mais próxima que não esteja sendo utilizada e, quando encontra, “salta” (hop) de uma para outra, “escondendo” assim o conteúdo da mensagem, que já foi encriptado. Como já está “em código”, o conteúdo é assegurado contra análise.

Inicialmente, o LinkBR1 esteve operacional apenas nos E-99A e nos A-29. É preciso frisar esta característica: para as outras aeronaves de combate, que não são capazes de troca direta de dados entre si, nem diretamente com estações de controle no solo, as comunicações são “intermediadas” pela aeronave de controle, que é capaz de encriptar os dados em tempo real e operá-los sem comprometer a própria posição e a das pontas (uma interessante visão geral do sistema, aqui). Essa limitação – que na prática torna a operação em condições reais bastante problemática – será resolvida com a nova versão do sistema, atualmente em fase de testes. Entretanto, isso é o futuro, em que a troca de dados entre aeronaves, diretamente, permitirá aos “Mike” (ou qualquer outra aeronave) compartilhar os dados do radar dos E-99A ou dos próprios radares Grifo F/BR.

Isso se tornará possível com a próxima versão do datalink: a LinkBR 2. Esta utilizará o protocolo TDMA (Time Division Multiple Access – simplificando, um tipo de administração de tempo de computador que atribui a vários usuários um fatia de tempo para introduzir e  ter seus dados processados e direcionar num único sistema central, responsável pela administração do conjunto). Isto permite comunicações seguras entre vários participantes, no ar e em terra. A rede passará a ser a principal característica do sistema, o que não é ainda o caso.

O LinkBR 2 está programado para ser testado na versão modernizada dos caças táticos A-1M e em seguida deve ser incorporado aos restante do inventário da FAB – inclusive ao transporte tático-reabastecedor Embraer KC-390, que entrará em serviço em 2016. Entretanto, não existem notícias consistentes sobre a quantas anda o desenvolvimento do sistema. Em 2012 foi assinado contrato com a empresa de defesa Mectron.

Deve-se dizer que nossos vizinhos também dispõem desses sistemas – notadamente a Colômbia e o Chile os têm plenamente integrados a operação das forças singulares, mas ou são sistemas desenvolvidos nos exterior, ou não funcionam plenamente. Os da Colômbia são desenvolvidos pela empresa israelense Rafael, e não “conversam” entre si plenamente; também existem contratos voltados para “comunicações seguras”, administrados pela empresa norte-americana Motorola. O Chile desenvolve sistemas autóctones através da empresa local SISDEF, com diferentes graus de sucesso. Ainda assim, continuo dizendo que estamos em vantagem. Porque? Porque processos autóctones de cabo a rabo dão ao país certa autonomia com relação a nossos potenciais “aliados” de primeira linha. A “vantagem” brasileira, segundo especialistas, é o país ter estabelecido, ao longo dos últimos cinquenta anos, um ecossistema robusto de pesquisa e desenvolvimento, composto por institutos de pesquisa aplicada avançada (como, por exemplo o ITA, o IME e o LPqM, além dos institutos das universidades federais), capaz de formar pessoal altamente capacitado, e uma indústria de defesa que pode absorver esse pessoal. A situação de penúria em que vivem as FFAA pode ser considerada, hoje, diversa daquelas vividas no final do século 19 ou nos anos anteriores à 2ª GM. Não é o caso de nossos vizinhos, pois o sistema produtivo aqui implantado não tem comparação possível com os do Chile ou da Colômbia.

Nosso problema é bem outro: em nosso país, ter um programa qualquer em desenvolvimento não tem significado, de fato, que ele vá ser concluído no prazo estipulado. Basta olhar para a construção da corveta “Barroso” (que levou mais de dez anos para ser completada) ou para o programa da “Missão Espacial Completa Brasileira” (que se arrasta desde os anos 1960).

De toda forma, os que se completam apontam o fato de que o Brasil se distingue na América Latina (mas de forma alguma entre os BRICs) pela “massa crítica”. O resultado é que produzimos sistemas de defesa que, se não são de primeira linha, também não são quinta. Vale dizer: se o “Mike” não é o top-de-linha, por ora é o possível, é um ganho e quebra um galho. Entretanto, o Governo Federal parece considerar que isto é o suficiente, “pelo menos por enquanto”. Aí mora o perigo, com relação aos programas de reaparelhamento e modernização das FFAA.

Fico por aqui. Num próximo posto, concluirei com uma reflexão sobre a encruzilhada do FX-2, seus motivos e possíveis alternativas. Como se dizia antigamente – fiquem sintonizados::

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Um pensamento sobre “Decisões estratégicas e de grande estratégia::O tapa-buracos aponta o futuro?::parte2

  1. E parece que de repente, quase de supetão o governo decidiu o FX-2 em favor do Gripen. Será? Eu confesso que só de sair uma escolha já fico feliz.

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