Vila Cruzeiro, 2010::Reflexões de um historiador militar amador sobre a intervenção que poderia ter dado certo::

FAZ TEMPO… Faz agora exatos dois anos, escrevi a última postagem carregada neste que, com alguma pretensão, eu chamava, na época, “o blogue das boas causas”. causa:: foi aberto em 2007, e teve, até o momento em que deixei de atualiza-lo regularmente, sete anos de intensa produção. Em dada época, chegou (pelo menos eu acho que chegou…) quase a ser uma revista de assuntos militares e comentários políticos, para amadores (como eu). Formou um pequeno grupo de fiéis leitores  – de fato, não mais que umas 50 pessoas -, que interagiam, na medida de seu possível, com a plataforma. Foi uma época extremamente prazerosa. Eu a abandonei por diversos motivos, o principal deles, uma pesquisa em que embarquei, por conta própria, em 2015, tendo a Primeira Guerra Mundial como objeto. Espero, futuramente, falar sobre o prazer e a dor de ser pesquisador autônomo, neste país.

Pois bem, não retirei o blogue do ar porque imaginava, de modo também pretensioso, que poderia ter utilidade como recurso de pesquisa, visto que muitos dos artigos citavam livros, filmes e tinham conteúdo baseado em pesquisas que chegaram a me dar bastante trabalho. Lógico que os ‘hits” desabaram, e atualmente, não chegam a 50 por mês. É sempre bom termos nossas pretensões confrontadas com a realidade.

As últimas postagens foram, respectivamente, sobre a desmontagem do programa estratégico do Brasil, de um livro do professor Jessé Souza. O segundo post era sobre uma das  excelentes análises políticas do então presidente do IPEA, que na época ia se transformando num faróis para quem quer que tentasse entender, fora do quadradinho, a natureza da crise política que então se abria (atualmente, diria que está escancarada…). O primeiro estava mais próximo dos objetivos do blogue: analisar, sob um viés de amador erudito (olha a pretensão aí de novo…) uma série de tópicos que tinham o programa SSN-BR, que era central na Estratégia de Defesa Nacional – uma das “jóias da era Lula”.

Escrevi muito sobre submarinos, na época – foi uma série de posts que deu trabalho, e que não saíram ruins. Aprendi muito sobre o assunto, e conheci alguns caras muito interessantes, a maioria deles submarinistas da MB (particularmente, gosto muito deste aqui, mas existem outros três que compõem uma série.

Também escrevi sobre política, na época das eleições gerais de 2010, primeiro mandato de Dilma Rousseff. Apesar das paixões já mobilizadas na época, nada apontava para a explosão de ódio filofascista que observamos hoje. Acho que ninguém – pelo menos eu não – previu, oito anos atrás, a explosão de preconceito de todas as espécies que tomou a mídia em geral e, em particular, a Internet, a partir de 2013-2014. Apesar das discussões acaloradas que alguns dos posts da época suscitavam, o ambiente era sempre bastante cordial. Não consegui encontrar, por exemplo, nenhuma citação ao deputado federal Jair Bolsonaro – na época, o maior produtor de sandices do Congresso era o falecido deputado federal Clodovil Hernandez; o MBL e o moleque Kim Kataguri ainda não nos brindavam com suas existências; ninguém jamais tinha ouvido falar na desembargadora Marília Castro Neves.  Sou obrigado a admitir que as estultices de gente como Ricardo Noblat e Reinaldo Azevedo eram, comparadas com o que vemos hoje, de uma elegância extrema.

Alguns intelectuais, como o filósofo Vladimir Safatle e o próprio Jessé Souza, já tinham previsto o emersão de setores de uma classe média sensível aos apelos antidemocráticos que a mídia começou a veicular mesmo antes de 2013. As hoje famosas (embora altamente polêmicas) “manifestações de 2013” são o marco da crise política que vivemos hoje. E sou obrigado a constatar, relendo alguns dos posts da época, que a serpente já saía do ovo, bem antes: eu mesmo gostava de chamar a revista Veja de Der Angriff do Reich paulista”, mas não cheguei a sacar o que isto podia significar.  “Veja”, e seus correligionários do PiG, elevavam seu discurso antidemocrático; Danusa Leão escreveu naquela época que sua empregada doméstica era “como parte da família” e esta era uma das características que tornavam o Brasil ímpar.

Se tivesse sacado, talvez não tivesse largado o blogue do jeito que larguei. Digo isso porque ainda acho que a análise militar pode ser uma das melhores ferramentas para avaliação da política – no mínimo para situar a mim mesmo. Começo a matutar se as ações de uma série de agentes sociais que orbitam em torno da “Operação Lava Jato” a começar por seu astro maior, o juiz de primeira instância Sérgio Fernando Moro, não constituiriam, de fato, ações de uma guerra híbrida que estaria sendo travada contra o Brasil, desde pelo menos a gestão de Barack Obama.

Teoria conspiratória? Possivelmente, até porque a “mobilização nacional” contra a “corrupção” não começou com Moro, mas com outro juiz, este de última instância, o notável ministro do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Benedito Barbosa Gomes. E começou, instigada pela mídia, bem antes, com a denúncia feita, a partir de um aparente ataque histérico, pelo deputado federal Roberto Jefferson – que também acabou condenado no tribunal de Joaquim Barbosa.

Não vou discutir a questão do combate à corrupção, porque é claro que seus níveis, entre nós, alcançaram patamares intoleráveis, mas temos de admitir que, em determinado momento, o remédio começou a afetar a saúde do doente. E, pior, certas partes do corpo social – as que se beneficiam da corrupção – parecem tem criado algum tipo de antígeno contra os “fármacos” existentes, tal a capacidade de resiliência mostrada pelas práticas às quais a corrupção é inerente.

E, pior  ainda: pelo andor da carruagem,  caminhamos rapidamente para um estágio em que a violência será a principal ferramenta de atuação, haja vista a execução da vereadora Marielle Franco. Disso, entretanto, talvez fale depois. Por ora, quero convidar a todos para recordar o grande espetáculo de 2010, a intervenção militar no Complexo do Alemão, em novembro de 2010, jogada brilhante do psicopata Sérgio Cabral Filho, então governador do Rio de Janeiro.

Na época, fui plenamente favorável à intervenção, na medida em que as forças de segurança no Rio de Janeiro (as diversas polícias), e com elas, o poder público, pareciam estar perdendo o controle da situação, e a coisa culminou com um atentado à sede da Prefeitura do Rio de Janeiro por elementos ligados ao tráfico de drogas. Na época, Cabral Filho resolveu agir com uma atitude polêmica e arriscada: solicitou uma operação ao Exército, que não topou. Repetiu o pedido à Marinha, que colocou tropas e equipamentos dos Fuzileiros Navais à disposição do governador, em apoio às Forças Especiais da Polícia Militar carioca. Escrevi sobre o assunto o que considero um dos melhores “posts“, dentre as centenas que saíram no causa:: ao longo de sua atividade. Na época, tudo funcionou bem porque se tratava, pelo que hoje percebo, de um problema localizado, e o caráter das facções que mandavam no tráfico era diverso. E havia uma diferença fundamental: vivia-se num estado de direito pleno. As instituições realmente funcionavam, tanto que cada instância cumpriu seu papel e a intervenção desdobrou-se em diversas ações de caráter social, que, na época, acenaram com um futuro menos trevoso para o Rio de Janeiro e sua população.

É o problema da intervenção atual: ela se dá num momento em que o estado que a realiza vive uma situação de quase anomia e o governo que as patrocina podem ser chamados de tudo, menos de “legítimo”. 

Vale à pena voltar a 2010 (em causa:: se pode ler um quase diário da intervenção e de seus desdobramentos). Claro – eram minha interpretação e minhas reflexões sobre o assunto. Hoje em dia, renego muitas delas, mas continuo dizendo o que dizia na época: “A operação policial-militar é muito impressionante, mas o que realmente importa é o “depois”. Medidas que resgatem as centenas de milhares de cidadãos brasileiros vivendo nessas comunidades urbanas, não para o Estado, mas para a Nação. Só assim deixaremos de ter de repetir o óbvio: não existe guerra.”

Na época, falava-se muito em “guerra”, embora o conceito não coubesse – como não cabe agora – no contexto. E hoje, diferente de dez anos atrás, não parece haver projeto a ser aplicado para resgatar o território que se pretende negar ao “adversário”. Hoje, não se parece estar cogitando o “depois”. Quer dizer: o que pretende o governo, através de suas instituições permanentes e estado, fazer depois de dezembro? O Exército Brasileiro irá se retirar – e daí? Vale perguntar se os planejadores do estado estão a cogitar sobre as políticas públicas que serão aplicadas nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Não ouvi nada a esse respeito. Haverá uma orgia de obras nas favelas, destinadas a marcar a presença do estado sobre o território que organiza  coordena? Está certo que muitas das obras hoje são consideradas mal concebidas, e que não atingiram os resultados que era esperado. Mas pelo menos, fica claro que havia um plano. Hoje, se existe tal plano, ainda não se falou claramente nele e não se sabe o que deixará o governo, principalmente o federal, aos sucessores, como indicações para a ação sobre as instituições municipais e estaduais do Rio de Janeiro. Porque na época, o governo do Estado não abriu mão de suas instituições.

Trata-se de pergunta retórica, pois, caso questionado, o governo atual provavelmente responderá dizendo que “as reformas são necessárias para reativar a economia”. Não existe, por outro lado, ambiente político para nenhuma reforma – atualmente, mal se sabe se a reforma aprovada, a trabalhista, embora aprovada, realmente irá vingar. E não existe nenhum sinal de que a economia irá ser reativada, no ambiente de “salve-se quem puder” do “combaté à corrupção”. E o próprio governo vestiu a camisa de força em que está metido: não existem condições de estender os recursos disponíveis para que cheguem às favelas. Em princípio, por duas décadas.

Em 2010 existia esse ambiente favorável; em 2010, a população carente do Rio de Janeiro a presença das FFAA e da tropas de polícia; em 2010 essas populações não foram tratadas como inimigas. Em 2018, não se consegue encontrar pessoas que apoiem a intervenção, como ela está sendo feita. Mesmo a classe média carioca está reticente, porque o governo federal é altamente impopular no país inteiro. E é impopular por ser ilegítimo. E isso não irá se resolver, com ou sem intervenção. Ou, como tem sido dito, se estendendo a intervenção a outros Estados da Federação. Ao contrário, tal ato só fará frisar a ilegitimidade do governo, por apelar a uma narrativa que apenas faz remeter às feridas, que, pelo que temos podido ver, estão, entre nós, mal fechadas (ao contrário do que a maioria parece pensar): o ciclo dos governos militares.

Bem, por ora, acho  qu já refleti o suficiente.  Tentarei voltar ao assunto::

Anúncios