Já com vistas ao aniversário, um sistema de armas revisitado::Flak 36 “acht-acht” e suas variantes::

Ultimamente a imprensa só tem falado, em termos de “datas importantes, sobre 2014 e 2016. Nem vou dizer o que significam estas datas. Mas vou acrescentar que, em 2014, completam-se 150 anos de um evento que, pelo menos para mim (e, suponho, para as duas dúzias de assíduos do blogue das boas causas), tem muito maior significado. Não vou dizer qual, mas dou uma dica: a data correta é dezembro de 1864. Em 2015, por outro lado, fecham-se 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não sei se as datas serão lembradas embora tenha certeza que nos meios militares e acadêmicos, certamente acontecerão eventos comemorativos, que envolverão rememoração e análise. A questão, para mim, é se a sociedade lembrará desses fatos com a intensidade que deveria.

De toda forma, tenho dedicado parte de meu tempo a recolher dados visando, quem sabe, um livro sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Existem excelentes histórias da guerra, e atualmente tenho observado, em nosso país, um saudável interesse pela questão talvez empurrado pela emergência do Brasil na cena internacional, bem como pela consolidação, no meio acadêmico e científico, dos estudos de “relações internacionais”. O fato é que notei, anos atrás, que nenhum acadêmico, militar ou não, se interessou por abordar o tema. Vamos ver no que dá. Não sei se terei pernas para dar tal salto, mas, quando comecei a levantar material bruto, reparei que quase quarenta por cento do material publicado em causa:: diz respeito à “guerra mundial”. E, livro ou não, continuará sendo assim. E, mais ainda: o material publicado aqui tem, em alguns momentos, absoluta  originalidade, no que diz respeito aos temas, no âmbito da língua portuguesa “brasileira”. Não é novidade, dado o pouco interesse que o meio científico manifesta pelo assunto, no geral.

Quando comecei a fazer a estatística citada acima, encontrei alguns artigos que se remetem a temas que poderiam ser chamados “de domínio público” – já que quase todo mundo, do sexo masculino, pelo menos, acha que entende de guerra em geral e da Segunda Guerra, em particular. causa:: já abordou o capacete alemão, a submetralhadora ERMA e o tanque “Tigre”. Por motivos que têm relação com a propaganda aliada durante e depois da guerra, essas peças de equipamento são, ainda hoje, ícones da 2ª GM: toda vez que alguém põe os olhos ou ouve falar de uma delas, lembra imediatamente dos nazistas. Mas existe outro ícone da 2ª GM, mais “técnico”, digamos assim: o canhão antiaéreo Krupp 8,8 cm, conhecido de todos os especialistas como “oitenta e oito”. É uma das peças de equipamento militar mais bem sucedidas da história, e foi responsável, em diversas ocasiões, pela superioridade, ainda que temporária alcançada pela Wehrmacht. Pois causa:: já publicou, anos atrás, um artigo sobre essa peça de artilharia. Como o artigo ainda me parece bastante completo (diria eu, uma das melhores pesquisas que já fiz para o blogue), resolvi que seria boa providência uma reedição, revista e ampliada. A “primeira edição”, datada de agosto de 2007 será mantida, devido as imagens, que não serão reproduzidas. A “segunda edição” terá duas partes: a “primeira”, como sempre, “revista e aumentada”, e uma extensão publicada, como “parte 2”, conforme a metodologia já conhecida de todos. E é muito possível que, dentro de alguns anos, os assíduos encontrem o texto todo nas páginas do tal livro – se é que ele irá virar realidade. Portanto, divirtam-se e torçam para que minhas pernas sejam tão fortes quanto imagino…::

parte1/2O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”( “oito-oito”, em alemão), e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870.

Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observar o movimento das tropas prussianas, e, no final da campanha, para levar autoridades para fora da cidade. Na época, os prussianos não dispunham (e nem ninguém mais) de canhões capazes de disparar para o alto, já que os reparos de campanha dificilmente conseguiam elevar mais de 15°. Também não existiam fusos capazes de atuar eficientemente contra alvos da densidade de um balão, embora os fusos de tempo pudessem ser adaptados para fazer o projétil estourar nas proximidades de um alvo aéreo. Mas este nem era o maior problema. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm, normalmente usada contra alvos levemente protegidos. Montada num reparo que perdeu as rodas e ganhou suportes cruciformes de madeira, teve o mecanismo de elevação modificado para permitir uma elevação de aproximadamente 60 graus. A coisa toda era montada numa carroça. Visto que o alcance do projétil não passada de 4000 metros, ainda por cima desenhado para uma trajetória quase tensa, a idéia era seguir o balão através de sua trajetória, até que o dito entrasse no alcance. O desempenho era pífio, dada a baixa cadência de tiro, mas o modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 1500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Nessa época foram introduzidos reparos capazes de receber tubos de 6,5 cm e 7,7 cm Krupp. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente antiaérea.

O desenvolvimento da aviação militar durante a Grande Guerra foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento antiaéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos adaptados para que permitir ampla elevação e maior estabilidade de tiro. Para aeronaves que voavam no máximo a 1000-1500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multimotores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a velocidades maiores que 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. O problema é que a munição disponível, desenhada para os canhões de “tiro rápido”, cuja velocidade de saída dificilmente ultrapassava 600 m/s, era ineficaz contra os novos tipos de alvos aéreos. Para manter o projétil em vôo estável num ângulo aberto com relação a zero (o tubo paralelo ao chão), era necessária maior velocidade de saída. Isto significava não apenas uma carga de propelente maior como também aerodinâmica aperfeiçoada – ou seja: desenhos totalmente novos. Em vista dessa nova situação, em 1916 as Usinas Krupp adaptaram um calibre naval já existente, 8,8 cm, produzindo um tubo mais longo e com novo tipo de alma raiada. O conjunto foi colocado numa plataforma com rodas, própria para ser rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos mantinham o conjunto em posição. A nova arma foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). A munição foi redesenhada, para funcionar bem em trajetórias de vôo muito abertas em relação ao solo. Durante a guerra, o 8,8 chegou a ser utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rühr, e alguns foram instalados em Berlim.

A guerra acabou antes que o novo canhão estivesse totalmente desenvolvido. Como o Tratado de Versalhes, de 1919 proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas antiaéreas, os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

A solução inventada para burlar o tratado de paz foi estabelecer um acordo com o governo da Suécia, que possibilitou as empresas alemãs utilizar instalações industriais suecas para desenvolver novos projetos de armas.

O intenso desenvolvido observado pela aviação militar durante o período entreguerras condicionou as requisições da Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra. Os estudos realizados pelas áreas especializadas concluíram que havia necessidade de uma artilharia antiaérea pesada. Nos anos 1920 começaram a aparecer aeronaves que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h alcançando um teto máximo de 6000 m. A velocidade de saída do projétil passou a ser crucial, para que a aceleração não fosse perdida muito rapidamente devido à força da gravidade. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors.

O desempenho do 7,5 foi considerado insatisfatório. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall. O calibre “oito-oito” da Krupp, com novo desenho, foi o vencedor. Essa nova munição tinha o projétil montado junto com o estojo, e pesava cerca de 9500 g, 2770 g no projétil de alto explosivo. A velocidade de boca inicial era de 785 m/s, e o desenho ogival alongado permitia um vôo estável até a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada como peça de artilharia de campanha, tinha alcance máximo de 8.000 m em trajetória tensa ou 14.800 m em trajetória elíptica aberta).

O sistema de armas criado em torno dessa munição foi denominado “Flak 18”, como forma de burlar as regras impostas pelo Tratado de Versalhes (o “F” mudado para Fliegende “equipamentos voadores”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”), e logo se revelou um sucesso. O tubo forjado em uma única peça, de 56 calibres ou seja, 4.938 cm de comprimento tinha o raiamento torcido para a direita, formado por 32 sulcos de profundidade decrescente, que aumentavam progressivamente o fechamento da hélice conforme aproximava-se a boca da arma, de modo a otimizar a pressão dos gases. A câmara, selada por bloco deslizante, de operação semi automática permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da volta do conjunto à posição. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação.

O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.

A construção e testes dos protótipos deu-se na Suécia, cercada de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. Logo foi notado que o desgaste do cano era muito mais rápido do que o esperado e não se dava por igual. O motivo era a rapidez da cadência de fogo, que tornava o desgaste maior na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade de saída combinada com a alta taxa de giro axial do projétil e com o escape dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência.  A fabricação em única peça, embora facilitasse o processo industrial, tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8,8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados entre 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas, de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão/reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia antiaérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, o passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria integrado a um centro de controle de fogo. Este sistema, em sua primeira versão era conhecido como Kommandogerät 36 (“aparelho de comando modelo 1936”). Tinha como centro um aparelho denominado como Voraussichter (“preditor”), operado por um especialista e formado por duas peças principais: um computador eletro mecânico analógico integrado a um telêmetro ótico estereoscópico chamado Entfernungsmessgerät, de uns 4 m de largura. Este era constituído por diversos conjuntos de lentes e espelhos graduados. Os operadores moviam uma série de chaves fazendo coincidir a imagem da aeronave inimiga com as diversas graduações observáveis nos visores, obtendo assim dados constituídos por velocidade aproximada, altitude, direção e posição da aeronave inimiga com relação à posição da bateria AAe. Os dados eram fornecidos a outro aparelho, chamado Kommandohilfsgerät 35 (numa tradução livre, “aparelho de apoio ao comando” modelo 1935). Este era o computador propriamente dito, de fato uma calculadora mecânica que compilava os dados e os enviava, via um comutador denominado Übertragung 30 (“transportador” modelo 1930) para um conjunto de lâmpadas situado na plataforma das peças que constituíam a bateria (até quatro Flak 36). Acesas as lâmpadas, o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes as cobrissem. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou inicialmente insatisfatório, e, em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo preditor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Em 1937 esse novo sistema de controle de fogo foi introduzido experimentalmente, e a peça de artilharia assim adaptada foi denominada “Flak 37”. Este sistema começou a ser distribuído em 1938-1939, e constituiu o Kommandogerät 40, que também recebeu um telêmetro aperfeiçoado. Revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa antiaérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre. O sistema do canhão era projetado para ser rebocado por diversos tipos de veículos, sendo os mais comuns o caminhão Opel de 3,6 t Blitz e o meia lagarta Sd.Kfz. 7. Também foram feitas tentativas de transformar a peça em automóvel, instalando um conjunto tipo Flak 37, chamado provisoriamente de Flak 37 Selbstfahrlafette auf 18 ton Zugkraftwagen. O sistema, projetado em 1940, visava prover unidades motorizadas de proteção antiaérea em campanha, mas revelou-se muito canhestro, e acabou sendo suspenso.

A partir de 1935, com a reorganização das forças armadas alemãs, a defesa antiaérea do Reich passou a ser controlada pela nova Luftwaffe,sugestão encaminhada pelo então general Kesselring.   Em 1938, o braço antiaéreo da the Luftwaffe empregava 6700 canhões leves, para defesa de baixo nível (2 cm e 3,7 cm) e uns 2700 canhões pesados, dentre os quais a maioria eram “oito-oito”. Uns poucos eram Flak 38 e 39, de 10,5 cm. Este era um canhão antiaéreo projetado para uso naval, que o complicado sistema de planejamento industrial nazista tentou “empurrar” para as forças armadas. Como se revelou muito pesado e canhestro para uso em campanha, acabou tendo uns duzentos exemplares instalados em posições fixas.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. Ou seja – era capaz de estourar qualquer coisa em qualquer frente::

Drops para o fim de semana::Blindados: a boa idéia desprezada pelos criadores::

Vou deixar o Rafale, o Mirage 2000-9 um pouco pra lá. Isto porque descobri, meio por acaso, algumas pesquisas que fiz anos atrás. Algumas não valem nada, outras podem render alguma coisa. Entre estas últimas, está o texto que resolvi submeter ao rigoroso escrutínio dos assíduos de causa:: Trata-se de um ensaio sobre as origens da arma blindada, tema que sempre me atraiu. De certa maneira, o tema guarda certa semelhança com o que tem sido discutido aqui, ultimamente: a estupidez em torno de questões militares não é apanágio dos políticos brasileiros – pode grassar até mesmo entre os militares::

O fim da Grande Guerra apontou, para todos os envolvidos, no Velho Continente, um tempo de dificuldades. Os quase cinco anos de guerra exauriram as economias dos principais envolvidos, além da enorme perda de vidas humanas. A guerra provocou um total de mais de 30 milhões de baixas, dentre as quais uns treze milhões de mortos, entre militares e civis. Um problema adicional foi os milhões de incapacitados permanentes que, no auge de suas vidas produtivas, passaram a ter de ser sustentados pelo Estado. Num cômputo geral, as economias européias recuaram aos níveis de 1913, embora Estados Unidos e outras regiões do mundo, como a Austrália, Canadá e Argentina, tivessem sido grandemente favorecidas pelas demandas criadas pela guerra.

A produção de armamentos, não é preciso dizer, cresceu exponencialmente, no período. A adaptação das indústrias e novos métodos de organização industrial – estes já vinham sendo experimentados desde o século anterior – mostraram-se muito bem sucedidos, e o resultado é que todas as nações acabaram a guerra com quantidades de armas muito além de suas necessidades para um futuro imediato. É natural, então, que a combinação entre dificuldade econômica e excesso de oferta de armas tenha restringido o aparecimento de novos tipos e, principalmente, de pedidos novos pelos governos. Isso só iria voltar a acontecer lá pelos meados da década dos 20, e, mesmo assim, de forma muito tímida. A partir do momento em que cessaram as hostilidades, as potências vencedoras trataram de desmobilizar seus gigantescos exércitos. Isso tinha de ser feito com alguma presteza visto que os governos vencedores, com exceção dos EUA, encontravam-se profundamente endividados. Assim, não é de surpreender que os projetos novos, na Grã-Bretanha, França e até dos EUA, tenham estagnado.

A Grã-Bretanha, que tinha acabado a guerra com 25 batalhões de tanques formados, rapidamente desmantelou a maioria dessas unidades, de modo que, pelo início de 1921, restavam cinco batalhões, além de algumas unidades de “carros blindados”, usadas principalmente no além-mar. É interessante observar que o supremo comandante militar britânico, Sua Majestade Jorge V, manifestou certa simpatia pela arma blindada, ao atribuir, em 1923, o título de “Real” ao Corpo de Tanques. O que não significou mais do que uma honraria simbólica, pois, aquela altura, o Gabinete Militar não parecia nada simpático aos blindados.

Por outro lado, os blindados tornaram-se uma verdadeira moda, entre militares do mundo inteiro, tanto em países que estiveram envolvidos no conflito, quanto naqueles que o tivessem apenas observado. Os “apóstolos da arma blindada” também surgiram em grande quantidade. Entretanto eram, em geral, oficiais de escalão intermediário, que pouca ou nenhuma capacidade de influência tinham sobre as instituições militares de seus países. Foi exatamente o caso do coronel (depois general) Sir John Fuller. Envolvido com o planejamento e treinamento dos oficiais de Estado-maior da Força Expedicionária Britânica, Fuller esteve sempre muito interessado nos meios mecânicos na guerra moderna. Embora visse os tanques, inicialmente, com certa desconfiança, ele acabou percebendo, por volta de 1916, que o problema não estava na arma, mas no emprego que era feito dela. Passou a afirmar que seu uso deveria ser feito apenas onde o terreno e as condições táticas se mostrassem perfeitamente apropriados. Fuller idealizou, por volta de meados de 1918, um complicado e multifacetado projeto para uma ofensiva blindada de grandes proporções, que deveria resultar em diversos pontos de penetração nas defesas alemãs. Atuando em velocidade, as pontas-de-lança blindadas produziriam o colapso nas linhas de comunicação e suprimentos que atravessavam a retaguarda inimiga, provocando a desagregação da estrutura de comando alemã. A idéia – bastante original – era atacar os alemães rápida e decisivamente, desarticulando sua infraestrutura militar – quartéis-generais, organização de apoio e logística – antes que pudessem se reorganizar e seguir combatendo. Mas, por outro lado, o projeto de Fuller envolvia diversos problemas, inclusive o fato de ter sido engendrado prevendo a utilização de modelos de tanque que, naquele momento, ainda estavam em fase de projeto, os “Médio C”, um modelo bastante convencional,  e “Médio D”, que poderia ter sido um veículo revolucionário. Projetado por um oficial do Real Corpo de Engenheiros, pesava cerca de 19 toneladas, tinha uma capacidade de cruzar trincheiras maior do que a dos tanques pesados, era extremamente manobrável graças à uma motorização até então não proposta para carros daquele tamanho e chegava a atingir, em terreno plano ou estrada, 33 km/h. Embora o armamento proposto fossem três metralhadoras Hotchkiss, uma versão “macho”, com um canhão de seis libras de cano encurtado chegou a ser ventilada. Mas o “D” apresentou problemas durante o projeto, devido a inovações mecânicas mal dimensionadas (como o sistema de esteiras e a suspensão), que acabaram por atrasar o surgimento de um protótipo. Fuller ficou muito impressionado com a concepção do veículo, e ainda tentou influenciar para que a etapa de produção fosse acelerada, mas aquela altura, o comando do exército resolveu bater o martelo pelo “Médio C”, que tinha mais chances de estar disponível na primavera de 1919. O fim da guerra e as dificuldades financeiras exterminaram com ambos.

Já o plano de Fuller, foi exterminado bem antes: desenvolvido e apresentado, em meados de 1918, ao comandante-em-chefe britânico sir Douglas Haig e ao comandante das tropas aliadas, o marechal francês Foch, com o nome de “Plano 1919”, o projeto resultou imediatamente em forte controvérsia. Haig chegou a caracteriza-lo como “lixo teórico”, no que foi seguido, com maior ou menor veemência, por diversos comandantes britânicos. Poucos foram favoráveis, e, ainda assim, com reservas. Curiosamente, os franceses encararam o “Plano 1919” com simpatia. De qualquer forma, a guerra acabou antes que se pudesse ter chegado a alguma conclusão, mas Fuller ficou profundamente decepcionado com o pouco interesse suscitado por seu projeto. Após a guerra, o então coronel – depois general – continuou envolvido com o pensamento doutrinário das nascentes forças blindadas britânicas, o que acabou por torna-lo profundamente desanimado com a atitude reinante no exército britânico em torno do uso dos blindados.

Os franceses também tinham seus entusiastas de tanques, mas numa direção diferente. O grande pensador francês dos blindados, durante a guerra, foi o tenente-coronel Jean Baptiste Eugene Estienne, originalmente um artilheiro com formação em engenharia. Este oficial fortemente intelectualizado (publicou artigos sobre matemática na Academia Francesa das Ciências e ministrou aulas na escola de estado maior, onde teorizou sobre o emprego de fogos indiretos) no início da guerra estava interessado em prover proteção para a artilharia, e acabou se envolvendo com o projeto do pequeno  Renault FT17.

Embora Estienne tivesse sido um dos apoiadores da opção francesa por tanques leves, não foi responsável por ela. Essa foi determinada, em grande medida, pela escassez de materiais, que já começava a ser sentida em 1916. Daí o sucesso do FT (Faible Tonnage, algo como “pouco peso”), produto barato cuja produção era simples, mas que  também apresentava problemas quanto ao emprego: não era propriamente um “rompedor”, capaz de abrir brechas na linha adversária – paepl que acabava mesmo reservado às formações de infantaria. Ainda assim, a superioridade do FT diante dos outros modelos disponíveis para os francese consolidou a opção doutrinária pela dispersão dos carros em meio às formações de infantaria. Essa opção iria provocar intensos debates após a guerra.

A idéia do tanque leve lançada pelos franceses acabou fazendo da França o maior produtor de blindados da guerra. Este dado é fundamental, pois, terminado o conflito, tendo um estoque de mais de 2500 unidades, a França tornou-se o principal fornecedor de tanques do mundo, e a maioria dos países menores adquiriu seus primeiros blindados direto dos estoques franceses. Por sinal, os primeiros blindados em serviço no Exército Brasileiro foram doze FT17, entregues em 1921. O FT17 se difundiu de tal maneira que, por incrível que pareça, no final dos anos 80 ainda podiam ser encontrados “na ativa”. Basta dizer que haviam pelo menos cem deles distribuídos às tropas alemãs na Normandia, em 6 de junho de 1944.

Quanto aos norte-americanos, a quarta das grandes potências industriais envolvidas na guerra, sua intervenção no conflito e atitude diante da nova arma merece alguns comentários mais atentos. A decisão dos EUA em intervir diretamente na guerra, com o envio de tropas ao teatro europeu, coincidiu com o impasse estratégico aberto pela retirada da Rússia, em 1917. Mas suas forças eram, no início do ano de 1918, bastante pequenas, e isso não mudaria até o mês de agosto seguinte, quando, finalmente, o fluxo de tropas americanas alcançou um nível que passou a faze-las pesar na balança estratégica. Ainda assim, os soldados dos Estados Unidos estavam equipados com uma miscelânea de armamento europeu – francês e britânico – cedido ou fabricado sob licença: canhões 75 mm TR franceses, tanques Modelo IV e V, britânicos, tanques leves Renault, aviões franceses e ingleses. De fato, a enorme potência industrial americana já fabricava, em 1916, enormes quantidades de armamento leve, munições e outros bens necessários ao esforço de guerra europeu, mas levaria tempo até que esse potencial econômico se traduzisse em eficiência militar. Quanto à organização e as doutrinas, os americanos seguiam ingleses e franceses, e as escolas de treinamento da Força Expedicionária Americana não diferiam e nem faziam nada diferente das que tinham sido tomadas como modelo. Assim, ao fim da guerra, os EUA tinham uma espécie de emulação do Real Corpo de Tanques britânico, e regimentos de carros de combate copiados do modelo francês que, inclusive, serviu de base para a implantação, na França, da primeira escola de tanques do Exército dos EUA. Depois da guerra, os norte-americanos também seguiram os europeus: a rápida desmobilização do milhão e meio de homens enviados às frentes de combate deixou sem uso enorme quantidade de itens militares. O estudo das doutrinas inglesa e francesa, sobre o uso de veículos à motor entrou numa espécie de “banho-maria”, desde que, em 1920, foi determinado que o uso de blindados fosse colocado a reboque das táticas de infantaria. Alguns dos modelos projetados desde então eram curiosamente semelhantes ao FT francês, com grande ênfase colocada na velocidade e na manobrabilidade.

A idéia, entretanto, continuou avançando, pelo menos no que diz respeito à teoria. Além de Fuller, um dos mais entusiasmados defensores do uso de tanques era o capitão Basil Liddell-Hart, cujas teorias envolviam o uso de ataques coordenados de grandes grupos de tanques, como forma de paralisar o inimigo. Liddell-Hart foi talvez o mais prolífico analista e escritor militar britânico do século 20. Suas principais formulações teóricas, sobre estratégia, tática e doutrina militar surgiram entre 1925 e 1939, período em que se dedicou ao jornalismo e à atividades de pesquisa acadêmica. Por volta de 1940, fez publicar um volume em que, baseado num monumental estudo de história, defendia a “abordagem indireta da estratégia”, uma forma de, através da ação periférica, desgastar o adversário nas áreas em que fosse mais vulnerável, de forma a poupar os próprios recursos, principalmente os militares.

Os escritos de Liddell-Hart eram conceituais, baseados em amplo e erudito conhecimento da teoria e história militar, e tiveram forte influência sobre a oficialidade combatente. Embora tenha dado baixa do exército em 1924, por invalidez, continuou a ser um influente pensador militar e defensor entusiasmado das forças blindadas. Falava na aplicação, por forças mecanizadas sob comando unificado, de golpes decisivos, em série, contra um mesmo ponto, de preferência o mais próximo possível das posições centrais do inimigo. Essas forças deveriam ser compostas por blindados, infantaria motorizada, de preferência transportada em veículos protegidos, e aviões. Liddell-Hart chegava mesmo a afirmar que os tanques poderiam restaurar, no século 20, a idéia mongol de mobilidade extrema – a cavalaria mongol fora o principal instrumento de conquista desse povo asiático. Sobretudo, pensava que a mobilidade poderia evitar a repetição futura dos massacres da guerra de trincheiras.

No Alto Comando, a coisa foi diferente – o descaso e mesmo a zombaria em torno de Liddell-Hart e suas idéias eram constantes. Segundo alguns de seus colegas, seriam idéias típicas de um oficial sem “aptidões esportivas” (a carreira militar dele tinha praticamente acabado, em 1918, devido a ferimentos provocados por gás). Ainda assim, quando testadas em campo, se mostravam bastante eficientes. Entre os generais, a tendência era achar que o tanque não teria como enfrentar canhões anti-tanque de grosso calibre, bem posicionados e operados. Essa era, com efeito, a idéia do Mestre-Artilheiro da Real Artilharia, general Hugh Elles, entusiasticamente esposada pelos principais oficiais-generais britânicos. Seguindo sua experiência de campanha, Elles estava seguro de que um canhão anti-tanque bem posicionado poderia pôr fora de combate qualquer tipo de tanque, e, com base nisso, era contra aumentar a blindagem dos veículos. Essa idéia teria consequências de longo prazo, pois os britânicos, pressionados por dificuldades econômicas, investiram em veículos leves, em torno de armamentos de calibre relativamente baixo.

A forte propaganda de Liddell-Hart em favor da mobilidade e do “princípio mongol” continuou, entretanto, com energia crescente. Mesmo fora do exército, o ex-capitão já era visto como o principal pensador militar da Grã-Bretanha. A pressão dos entusiastas dos blindados teve algum resultado em 1927, quando o Alto-Comando determinou a formação da “Força Mecanizada Experimental”. Tratava-se essa de uma pequena tropa, dotada de 120 veículos, dos quais apenas meia centena eram tanques médios Vickers, o “Médio Modelo II”. Desenhado a partir de um requerimento feito pelo exército no início dos anos 1920, foi a primeira máquina desenhada após a guerra, e guardava certa continuidade com os “tanques de cavalaria” projetados durante a guerra, os Whippet. Pesando cerca de 12 toneladas, chegava a alcançar 25 km/h, protegido por uma blindagem máxima de 12 mm. Era armado com um canhão de 3 libras (47 mm) e três metralhadoras .303, sendo que uma delas era coaxial e as outras estavam instaladas nas laterais do casco. A tripulação era composta por cinco homens.  Apesar de suas limitações, quando lançada em manobras, a FME se demonstrava muito superior as unidades organizadas de forma clássica. Ainda assim, essa unidade revolucionária teve vida curta, sendo dissolvida depois de uma bem-sucedida manobra realizada em 1928, na planície de Salisbury. É notável que tenha atraído mais a atenção de observadores estrangeiros que dos próprios britânicos: norte-americanos e alemães ficaram bastante impressionados com os resultados da FME. Os primeiros constituíram uma força similar e os últimos traduziram e divulgaram amplamente algumas publicações que descreviam a unidade inglesa.

Entretanto, ainda que os exercícios indicassem o contrário, os tanques não eram vistos como uma arma capaz de, sozinha, abrir brechas nas linhas inimigas, infringindo-lhes danos de proporções consideráveis. A hierarquia militar britânica decididamente preferia usar, em tal função, unidades de cavalaria ou “infantaria de Guardas”, no velho estilo. Muitos dos que não viam a nova arma como digna de atenção, ainda em 1928 argumentavam que, apesar dos sucessos de 1918, elementos fortemente dependentes de máquinas não eram suficientemente confiáveis em situação de combate. Muitos dos que debateram e escreveram sobre o tema, no período entreguerras, também levantavam o argumento do custo dos tanques: os cavalos eram mais baratos e confiáveis – além de muito mais atraentes em paradas::

Cultura material militar::O motor, a doutrina militar alemã e sua mudança::Parte 2

O artigo anterior gastou um monte de letras para explicar, de forma talvez insuficiente, quais são os princípios de um motor à combustão. Agora, nesta segunda parte, vamos ver se conseguimos (afinal…) entrar no assunto. A doutrina chamada Blitzkrieg já foi bem apresentada aqui mesmo no causa::, e os nove ou dez assíduos certamente já leram este artigo, publicado anos atrás (uau! causa:: já é tão velho assim?..). Do ponto-de-vista da teoria, não há muito o que acrescentar, e sugiro aos não-assíduos deste blogue (que, infelizmente para meu ego, são a maioria da humanidade…) a leitura preliminar do tal artigo.  Continuemos, pois. Esta segunda parte busca apresentar alguma coisa sobre motores à explosão, os primeiros blindados e os primeiros blidados alemães. Como estes mudaram da água para o vinho no espaço de dois anos, fica para o outro capítulo, assim como a espiadela no Panzer VI, o “Tigre”. Deste, todo mundo lembra – para os filmes e HQs norte-americanos dos anos 1950 e 1960 (digo isto porque não existem mais “filmes” e “muito menos “histórias em quadrinhos” norte-americanos – mas isto é outra história, talvez para ser abordada pelo bom Catatau… Falando em Catatau, recomendo fortemente a leitura deste posto do dito blogueiro, do qual nunca escondi ter profunda inveja. Acho que farei alguns comentários sobre o tema, disposto a brigar com algumas das postulações expostas lá – briga que certamente perderei, mas tudo bem: não é demérito algum perder para bons intelectuais… Ou é, um pouco… Sei lá…). Bem, agora que causa:: já bateu o record do parêntese mais longo já aparecido em um blogue, vamos aos tanques::  

Parte 2/3 Propostas de um “motor à combustão interna” viável começaram a ser feitas conforme os princípios da termodinâmica e suas leis se consolidaram, na primeira metade do século 19. Entre 1850 e 1880, surgiram um motor eficaz à explosão de gás, de pequena potência (que chegou a ser instalado e funcionar bem em um triciclo), um motor de dois tempos, um motor de pistão livre (que chegou a ser comercializado com certo sucesso) e finalmente, em 1876, um motor viável de quatro tempos, obra do comerciante e mecânico autodidata alemão Nikolaus Otto.

O motor de Otto tinha, como novidade definitiva, a ignição do combustível por uma centelha elétrica que provocava uma explosão que criava o fluído de trabalho. O motor criado por Otto se tornou a base que persiste até hoje, impulsionando a maioria das formas de tração mecânica de que dispomos. Como já foi dito, essa máquina reunia as vantagens dos motores “à combustão interna”: baixo peso, já que não precisava de reservatório de água a ser vaporizada; consumia muito menos combustível em relação ao peso; o combustível usado, o benzeno, era muito mais leve do que carvão mineral ou lenha, usados pelos trens e navios a vapor da época. Mas também haviam problemas: o sistema de admissão de combustível falhava constantemente, e o motor, embora não parasse de funcionar, perdia potência de forma notável. A adaptação, em 1885, por Karl Gottlieb Daimler, de um motor Otto para queimar gasolina, até então um subproduto do refino de petróleo que tinha pouca utilidade, resolveu o problema. A grande sacada desse engenheiro alemão foi a colocação da câmara onde corria o pistão em posição vertical, com a alimentação feita através de um carburador. Essa peça (invenção de dois húngaros) mistura o combustível com ar, assim melhorando a taxa de explosão. Esse aperfeiçoamento tornou os motores à combustão interna definitivos: proporcionalmente a seu tamanho e peso geravam potência em coeficiente inalcançável por qualquer motor a vapor. O motor de Daimler é reconhecido como avô de todos os motores à gasolina modernos.

Com base em seu motor, Daimler construiu, em 1885, um veículo de quatro rodas. Em 1886, Karl Benz, outro engenheiro alemão, construiu uma pequena carreta que parecia (e era, de fato) uma vitória, tipo de carruagem francesa aberta, muito popular na segunda metade do século 19 – só que sem os cavalos. É possível reconhecer nesse veículo uma das “caras” do mundo moderno: quatro rodas, motor à gasolina, certa autonomia e grande simplicidade mecânicae de operação.  

Não podemos esquecer que essa criatividade toda chegou ao auge com a segunda fase da industrialização capitalista, que acontece na segunda metade do século 19. O armamento também passava por uma revolução, e incorporava os avanços científicos e tecnológicos elaborados com base nos mesmos novos itens – aço, combustíveis derivados de petróleo, borracha vulcanizada, por exemplo – que possibilitaram o surgimento do motor à combustão interna e do automóvel. Conforme avançava a tecnologia industrial, a partir do último quartel dos Oitocentos, as descobertas e invenções iam sendo rapidamente colocadas a serviço da indústria bélica. Assim, era de se esperar que, na virada do século, veículos blindados funcionais começassem a surgir. Na época (bem, em todas as épocas…) os governos queriam armas, e eram fregueses pródigos das indústrias pesadas, empenhadas em oferecer novidades a um mercado em expansão: as principais potências européias, envolvidos em seculares disputas políticas no continente e na corrida colonial que começou naquela época.

Ao longo da segunda metade do século 19, embora tenha havido propostas para a construção de veículos protegidos movidos a vapor, este tipo de motor não se mostrou muito apropriados para aquele fim. No finalzinho do século, entretanto, a base para a concepção de tal tipo de arma tornou-se disponível, com o surgimento dos motores à combustão interna, que, como nos outros automóveis, tornaram possível a diminuição do peso do conjunto e, conseqüentemente, o aumento de sua eficiência. O primeiro veículo blindado eficaz foi construído na Inglaterra, por volta de 1900, quando a firma John Fowler & Company dotou um de seus veículos tracionados a vapor de uma proteção blindada. Este veículo chegou a ser usado para mover suprimentos, na guerra sul-africana, “dos Bôeres” (1899-1902). Em 1899, o engenheiro Frederick Simms resolveu ir um pouco mais longe: projetou uma geringonça motorizada e armada. Impulsionado por um motor Daimler, um *quadriciclo de origem francesa transportava – de forma um tanto precária, temos de admitir – uma metralhadora Maxim (como o sujeito faria para dirigir, atirar e escapar dos tiros inimigos, tudo ao mesmo tempo, é um mistério, mas Simms devia saber o que fazia…). O exército britânico considerou a coisa “de pouca ou nenhuma utilidade”.Simms não desistiu, e três anos depois apresentou ao exército, numa cerimônia pública, o *”Carro de Guerra de Simms“. este protegido e mais fortemente armado. O problema é que a coisa apresentou desempenho ridículo, e acabou virando piada entre os militares presentes.  

Na mesma epóca, um veículo protegido, o “Charron”, foi apresentado na França. Este é considerado o primeiro veículo blindado produzido no mundo. Produto de iniciativa independente da empresa de equipamentos mecânicos *Charron-Girardotet Voigt, esse tipo de veículo foi apresentado pela primeira vez em 1902, mas não despertou interesse nos militares franceses. Em 1904, *outro modelo, incorporando alguns aperfeiçoamentos (inclusive rodízios pneumáticos, então uma novidade, e uma torre girante) chamou atenção do exército francês, cujos técnicos viram nele qualidades para uso no norte da África. Armado com uma metralhadora de 8 mm, o Charron deslocava pouco mais de 3 toneladas, boa parte das quais em função da proteção, provida por chapas metálicas aparafusadas na estrutura do veículo. Quase ao mesmo tempo, outro modelo, de características similares, foi apresentado na Áustria, pela Austro-Daimler GmhB.

Carros blindados eram uma boa idéia, e se revelariam, em diversas ocasiões, extremamente úteis. Mas ainda eram automóveis, dotados de quatro rodas, e ainda com o maior problema que as carruagens sempre tinham tido: precisavam de estradas pavimentadas para serem totalmente eficientes. Para completar a evolução dos elementos básicos que resultariam, em algum momento, no moderno carro blindado, faltava a adoção de um meio de tração eficiente em qualquer terreno. A adoção de esteiras metálicas sem-fim como alternativa às rodas foi a solução. O sistema já estava disponível naquela época, pois tratores agrícolas com este tipo de sistema já eram conhecidos nos EUA e na Inglaterra desde o início do século XX. No entanto, até pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial, nenhum veículo concebido em torno desse sistema de tração chegou a interessar alguma das principais potências. Protótipos de sistemas de armas muito semelhantes aos tanques já tinham sido apresentados na França e na Inglaterra, na primeira década do século 20, mas os militares dos dois países não tiveram interesse em experimentá-los, pois não se tem informação de consultas sobre protótipos. Também existem informações de que veículos sobre esteiras também foram apresentados a austríacos e alemães, sem que nenhum dos dois países se manifestasse.

A questão é que veículos motorizados eram vistos, no começo do século 20, como meras curiosidades mecânicas, algo como um brinquedo de luxo para gente rica. No campo militar, alguns planejadores chegaram a ver serventia nesses veículos, no máximo, como transportadores de suprimentos e em tarefas que exigissem maior agilidade – como o transporte de feridos, de oficiais em serviço e de correspondência militar. Mas mesmo nessas funções, os primeiros veículos à gasolina eram muito prejudicados pela precariedade dos motores disponíveis: por melhor que fosse o conceito do motor à explosão, os produtos oferecidos em grande escala pela indústria eram pouco potentes, muito pesados e bastante frágeis, afetados pela precariedade dos materiais então disponíveis. Ainda demoraria algum tempo até que aparecessem máquinas confiáveis, gerando potência suficiente e com um mínimo de confiabilidade, que dessem chance ao veículos motorizados no campo militar.   

A Grande Guerra foi essa chance, abrindo espaço para todo tipo de veículo motorizado: caminhões, aviões, tratores e… tanques. Inventados pelos ingleses em 1915, os tanques não chegaram a influenciar em nada o resultado da Grande Guerra. Entretanto, a aplicação da nova arma, que inicialmente foi chamada de “navio terrestre” (certos detalhes no projeto dos *primeiros blindados foram inspirados no desenho dos vasos de guerra da época) despertou a atenção de alguns teóricos militares. O problema é que esses teóricos, oficiais de patente intermediária que haviam estado diretamente em combate, não eram levados a sério pelos exércitos. Na inglaterra, quase todos saíram do exército e (argh!!!) passaram a escrever livros. Diziam que a aplicação de veículos, fossem de combate ou de apoio, e até mesmo aeronaves, deveria ser concentrada para buscar pontos fracos nas linhas inimigas e, encontrado tais pontos, romper através dele aplicando a concentração de forças. O trabalho inicial era feito por unidades motorizadas, mas a exploração da brecha se dava através do uso maciço de unidades de infantaria convencionais: eram conduzidas até a frente de batalha em comboios ferroviários e se deslocavam para o teatro tático a pé ou em veículo tirados a cavalo – os chamados “hipomóveis”.

A Alemanha perdeu a guerra. Perder uma guerra daquelas é uma droga, mas estar sem armamentos pode ser uma vantagem – existe espaço aberto para novas idéias. Uma das boas idéias tinha surgido na segunda metade do conflito – tropas de alta mobilidade, procurando pontos fracos nas linhas adversárias. Chamadas “de choque” (stosstruppen, em alemão), essas tropas eram unidades especiais de engenharia de combate, e chegaram a fazer alguma diferença na parte final do conflito. Em novembro de 1917, a batalha de Cambrai foi a primeira oportunidade, na Frente Ocidental, do uso massivo dessa nova infantaria. Atuando de form a coordenada com a artilharia, unidades muito bem treinadas, com armas especiais  e alto grau de iniciativa usavam táticas de infiltração para penetrar as linhas inimigas  rapidamente e avançar para a retaguarda. Seu objetivo era desorganizar linhas de comunicação e suprimentos, e tudo que permitisse ao inimigo resistir coordenadamente. Na época, deu muito certo. Depois do fim da guerra, oficiais do novo exército alemão, limitado pelo tratado de Paris a 100.000 efetivos, e pensado mais como polícia antimotim, estudando a atuação dessas tropas, devem ter pensado, imediatamente: “Que tal colocar rodas debaixo desse pessoal e de suas armas?”

Isso porque unidades mecanizadas podiam ser muito rápidas, caso dotadas dos novos veículos que a indústria tinha se tornado capaz de construir, com motores mais confiáveis, chapas de metal mais leves e duras e novas armas. Desde os anos 1920, estudos realizados pelos alemães mostravam que a velocidade de deslocamento era a grande vantagem de uma unidade mecanizada. Exercícios de campo promovidos pelo exército alemão no pós-1ª GM, utilizando veículos motorizados (muitos deles peças de cenografia feitas de papelão e madeira), experimentando esses pressupostos teóricos, mostraram que deveriam ser concebidos tipos diversos de blindados. Alguns deveriam ter proteção capaz de suportar projéteis de maior calibre; outro tipo de tanque, concebido por Heinz Guderian, deveria ser muito veloz, com a função de explorar brechas e flancos. Alguns especialistas dizem que Guderian copiou essa idéia das formulações do teórico britânico Percy Hobart (infelizmente, a droga da Internet brasileira não traz dados sobre nada, assim, um texto em inglês sobre este importante personagem aqui). Este tenente-coronel do Real Corpo de Engenheiros tinha se debruçado sobre a experiência com blindados no fim da 1ª GM, e concebeu um tipo de unidade blindada baseada em duas categorias de tanques: “de infantaria” (os mais pesados) e “de cavalaria” (mais leves, menos armados e muito velozes). Apesar das limitações estabelecidas em 1919 pelo Tratado de Versalhes, alguns programas experimentais foram estabelecidos pelo alemães, em colaboração com a Suécia, ainda nos anos 1920, para que as características dos veículos fossem estudadas. 

A partir de 1931, o exército começou a requisitar veículos desenhados com base nessas experiências. Essas requisições inicialmente estabeleciam três tipos de veículos: um tanque pesado, armado com um canhão de 75 mm, um mais leve, armado com um canhão de 37 mm, e outro ainda menor, armado com duas metralhadoras de 7.92 mm. Alguns protótipos do *tanque pesado de infantaria” chegaram a ser entregues ao exército e postos em serviço; o outro modelo, denominado Leichtetraktor I (“trator leve” – devido às restrições do Tratado de Versalhes, os alemães disfarçavam seus programas de pesquisas com nomes “de fantasia”) apresentou problemas e teve seu desenvolvimento retardado.  O modelo efetivamente produzido foi o *PzKpfw Model I (“Carro de combate blindado modelo I”).

Esse veículo tinha sido pensado para funções de treinamento. Certo, mas o exército alemão não possuía tanques, portanto, também não tinha experiência de como fazer requisições de tal tipo de veículo. Os modelos usados na Suécia ou eram “veículos-conceito” (uma espécie de mockup montado sobre um chassi de caminhão ou trator) ou modelos de produção estrangeira, adquiridos em pequenas quantidades pelo governo sueco, sob a desculpa de proceder testes. A indústria alemã tinha pouco ou nenhum acesso a essas máquinas. Na guerra anterior, a Alemanha tinha começado tarde a produzir tanques, e os que tinha produzido eram *poucos e malfeitos. Assim, da mesma forma que o exército não sabia pedir, os engenheiros não faziam a menor idéia de como projetar e produzir aquelas coisas. 

Mas mesmo levando todas essas limitações em consideração, e também que o produto solicitado visava somente padronizar o treinamento ministrado às novas tropas, o resultado final foi pífio. Para piorar as coisas, o parque industrial alemão, apesar da reconhecida qualidade de seus engenheiros e técnicos, estava, por volta de 1932, começava a ser gravemente afetado pela crise econômica mundial, e não era certo que desse conta, sem problemas, de desenvolver as requisições do exército.

E não deu mesmo: o protótipo apresentado em meados de 1932, pelo arsenal Krupp, de Essen, com a notação “LKA” (“nome-fantasia” que significa Landwerke Krupp – “Agrícola Krupp” – modelo A) era baseado nos modelos disponíveis no fim da Grande Guerra. Uma espécie de grande casamata móvel, com uma placa frontal (glacis) inclinada, onde o armamento (subdimendionado) deveria ser instalado. Este era constituído por duas metralhadoras Dreyse MG13 7,92mm, decisão um tanto estranha, já que os próprios alemães tinham percebido que a metralhadora era inútil mesmo contra máquinas ou posições apenas levemente protegidas. Ou seja: o LKA era uma droga. A decepção dos militares deve ter sido tal que, em vez de pegarem a coisa para testes, propuseram que uma espécie de joint venture das principais empresas alemãs de metalurgia e mecânica, acrescentada por especialistas militares, revisse o projeto. A parte mecânica foi desenvolvida pela Henschel, Daimler-Benz e M.A.N; o desenho do casco ficou com a Krupp e Rheinmetall . Uma das principais modificações apresentadas foi proposta pela Henschel: a mudança da casamata do projeto original por uma torre girante (aparentemente baseada no exame, pelo exército, de desenhos franceses e ingleses então já em serviço). Essa versão foi aprovada em 1934, como Panzerkampfwagen I Ausf (abreviatura de Ausführung, “execução”, ou “lote”) A.

Os primeiros exemplares foram entregues às pressas, e não tinham torre, parecendo um caminhão sobre esteiras; os seguintes, mesmo completos, tinham blindagem frontal menor do que o especificado. Mas mesmo assim, o exército os aceitou como máquinas de treinamento, para que as duas primeiras divisões blindadas pudessem receber equipamento padronizado. Ainda assim, a geringonça era cheia de problemas: a suspensão, uma tentativa de burlar patentes norte-americanas e francesas, acabou gerando um “frankenstein” mecânico que apresentava péssimo desempenho até mesmo em terreno medianamente acidentado. A tripulação era de dois homens, sendo que motorista e comandante ficavam isolados e eram obrigados a se comunicar por um tubo de voz, fortemente afetado pelo ruído do motor. Pior ainda, o comandante cumpria também a função de artilheiro, que o sobrecarregava e tornava sua atuação passível de falhas. O “modelo A” não tinha rádio, e se esperava que as manobras em campo fossem cordenadas por sinais visuais. Não se sabe exatamente quantas unidades foram produzidas, mas alguns autores sugerem que foram mais-ou-menos 850.

Quando os nazistas resolveram, seguindo os italianos, intervir na disputa entre republicanos e fascistas, na Espanha, o exército alemão adorou a idéia – tratava-se de uma mini-guerra, relativamente próxima, onde as novas doutrinas poderiam ser experimentadas. Uma tropa de todas as armas foi organizada, compondo uma espécie de miniatura da nova Wehrmacht. Certa quantidade de Panzer I foi despachada para a Espanha. A participação alemã de quatro anos, apoiando diretamente as forças de Franco, deu à então recém-organizada Luftwaffe uma experiência em operações combinadas de valor inestimável.  As novas armas, seu uso e o reinamento do pessoal foi porto em teste prático, sob fogo real. De cara, obtiveram um sucesso notável – a transferência, em tempo mínimo, numa operação combinada entre marinha e força aérea, de tropas de elite do Marrocos para a Europa, com todo o equipamento. A organização alemã mostrou-se revolucionária, e é curioso que os resultados não tenham chamado mais atenção do resto do mundo, fortemente presente na guerra, em ambos os lados. Um dos motivos admitidos por historiadores especializados era o pequeno tamanho da força alemã engajada. A estrutura de comando era informal, com preponderância da Luftwaffe, as ordens eram gerais, emitidas diretamente de Berlim pelo comandante, marechal von Sperrle e, em campo, detalhadas pelo coronel Wolfram von Richtoffen.

Por outro lado, a participação da mini-força mecanizada alemã na Espanha proporcionou ao Estado-maior do Exército lições bastante importantes. Até então, os teóricos consideravam, não sem bastante controvérsia, que a proteção dos blindados poderia ser leve. Essa concepção mostrou-se falha, diante dos tanques republicanos. Esses eram *T26, de fabricação soviética, cópia melhorada do desenho britânico *Vickers Mark E. O “Mark E” originalmente era um tanque “de infantaria” (lento, fortemente protegido – a blindagem frontal chegava a 25 mm – e fortemente armado), que os soviéticos haviam comprado para praticar “engenharia reversa”. O projeto acabou mudado para melhor. Uma das melhorias foi a instalação de um *canhão anticarro de infantaria  L/46 Modelo 33, de 45 mm. A qualidade do produto soviético era, de fato, muito superior ao que os alemães dispunham, e de fato, até coisa pior seria mais do que suficiente para superar os pequenos Panzer I.

Até então, os alemães consideravam os tanques russos como carros leves, o que indica avaliação errada das informações disponíveis. A surpresa dos planejadores alemães deve ter sido desagradável ao ponto de faze-los rever a idéia, já meio deixada de lado, dos veículos diferenciados. Estavam prontos os projetos dos PzKpfw III e IV, que foram considerados adequados ao quadro que se desenhava, no qual o adversário mais considerável deveria ser o tanque russo (os alemães também pareciam ter pouca informação sobre os *blindados franceses e *norte-americanos).

O Panzer III, armado com um canhão de 37 mm, tinha sido colocado em banho-maria, e foi revivido, pois pareceu suficiente; o Panzer IV, de 25 toneladas e dotado de um canhão de 75 mm, de baixa velocidade, tinha como função apoio direto à infantaria. Estavam em estado de protótipo e a indústria, assoberbada com milhares de requisições da Wehrmacht, então em pleno rearmamento, não conseguiu colocá-los em produção. A única coisa disponível de imediato era o pequeno *Panzer KampfWagen Model II (“Carro de combate blindado modelo II) ou, no jargão da indústria, Sd.Kfz. 121 (Sonder Kraftfahrzeug, ou “Veículo motorizado Especial”), que se tornou, até 1941, quase onipresente. O “Panzer II”  estava pronto desde 1935, como desdobramento do projeto do Panzer I. A partir de meados de 1936, sofreu diversas alterações baseadas na experiência da Guerra Civil Espanhola.

Mesmo alguém que não entenda muito do assunto nota que o tal “Panzer II” é pouco maior que uma caminhonete. Esses pequenos veículos deslocavam em torno de 10 até 12 toneladas (nas últimas versões), eram levemente protegidos e armados (as principais versões tinham um canhão de 20 mm como armamento principal) e, sobretudo, muito velozes – as primeiras versões, equipadas com um motor de seis cilindros e 140 hp, alcançavam 40 km/h em estrada. Eram fáceis de produzir e relativamente baratos, de modo que foram generosamente distribuídos e, em 1939, o exército dispunha de aproximadamente 1200 unidades. Sua principal função era explorar, usando a velocidade, diversos pontos da linha inimiga.

Os alemães imaginavam que a velocidade, o emassamento e a colaboração estreita de equipes interarmas (tanques, infantaria e artilharia motorizadas) seriam suficientes para explorar brechas. Os tanques da vanguarda seriam acompanhados por infantaria transportada em veículos especiais, caminhões protegidos cuja suspensão traseira era montada com base em esteiras de tração. Esses veículos eram chamados *Schützenpanzerwagen (“Veículo  blindado para fuzileiros”), dos quais a primeira série foi a Sd.Kfz.250 leichte (“leve” ou “ligeira”). Tratava-se de uma espécie de caminhonete, que, no jargão norte-americano passou a ser chamada “transporte blindado de pessoal” (em inglês, AFV, ou armored fighting vehicle).  Esse veículo era capaz de transportar 4 a 5 infantes e 2 tripulantes, um deles operador de uma metralhadora ligeira MG34 orgânica. Geralmente o Sd.Kfz.250 atuava  nas unidades avançadas, enquanto o restante da infantaria era transportada em caminhões, a partir de 1937 os também onipresentes *Opel Kfz-305 (de Kraftfahrzeug, “viatura”) Blitz, de duas toneladas.

Os  Panzer IV (um artigo sobre esse tanque aqui mesmo, no causa::), por sua vez, junto com a infantaria convencional (deslocando-se sobre suas *botas de marcha), dariam conta de tanques e pontos fortes inimigos, deixados na retaguarda pelo avanço em velocidade das unidades mecanizadas. Essa idéia durou até o momento que a Wehrmacht deu de cara, nas estepes russas, com os muito bem protegidos e armados KV1 e KV2 e, sobretudo, com o soberbo T34 (um artigo sobre a “maravilha russa” aqui mesmo, no causa::). Aí ficou evidente que um tanque de 25 toneladas equipado com um canhão de uso geral (baixa velocidade de saída), motor subdimensionado impulsionando esteiras de tração estreitas, era muito pouca coisa. Isso resultou no lançamento de uma requisição para um veículo de 45 toneladas, projetado em torno do excelente canhão de 88 mm, o que implicaria em proteção, velocidade e manobrabilidade que não correspondiam a nada do que a Alemanha dispunha::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

 parte2/2Falávamos da “aceleração da história”, e o redator:: está tentando argumentar que a 2ª GM teria sido a culminância de um processo desses, característico da modernidade. Claro que, produzidos por um historiador amador, os argumentos parecerão capengas, mas pelo menos devem ser suficientes para mostrar como a sociedade alemã que produziu Hitler e seus comparsas foi a mesma formação conservadora que optou, sessenta anos antes, por um processo de unificação que desse à nova nação a cara organizada, burocrática e militarista da Prússia.

Outros sessenta anos antes, o período em que os exércitos franceses levaram a transformação social na ponta de seus estandartes e baionetas, talvez possa ser identificado como outro processo de “aceleração da história”. Embora tivesse mitigado as transformações revolucionárias na França, Napoleão contribuiu para abalar as estruturas tradicionais por toda a Europa. Apesar do conservadorismo, tradicional nos estados da região hoje chamada de “Alemanha”, as idéias liberais introduzidas lá durante a guerra pegaram. Baseada na difusão de pequenas manufaturas e companhias de comércio, certas regiões viram a formação de forte classe empresarialque influenciou o resto da região reivindicando reformas de caráter econômico e administrativo – por exemplo, unificação de padrões de medida e eliminação de restrições à circulação. Essa gente, quando teve de procurar aliados, buscou a burocracia do estado, formada por membros da empobrecida aristocracia rural e (nos extratos mais baixos) por homens de letras, professores e advogados.

A Prússia, desde o final do século 18 vinha passando por forte industrialização, baseada em certos ramos da indústria pesada. Tinha, junto com a região do Reno (também em processo acelerado de mudança econômica), interesse nessas reformas. Só não queria (de fato, seus governantes tinham arrepios diante de tal perspectiva) que elas saíssem do controle da elite política: uma coisa era fazer mudanças no regime de aduanas; outra, muito diferente, era liberalizar o regime de propriedade de terras (lá, o feudalismo só foi abolido de vez em 1900) ou de acesso e progressão no serviço público. Por outro lado, as lideranças empresariais viam na rigidez política uma vantagem, já que a unidade de princípios no governo aumentava a eficiência e prevenia que as reivindicações por mudanças políticas acabassem se desdobrando em demandas por mudanças sociais (um artigo sobre o tema aqui). Curiosamente, ambos os lados – liberais e conservadores – viam na unificação a solução para a fraqueza crônica da região, pela qual tinham desfilado, quase sem oposição, os exércitos franceses do período revolucionário. Entretanto, as diferenças políticas não eram pequenas e eram de difícil conciliação. No ano de 1848, o caldeirão ferveu: diversos Estados alemães viram estourar revoltas civis.

No início, as manifestações juntaram vários segmentos políticos num movimento por um parlamento nacional eleito, que elaborasse a constituição de uma Alemanha unificada. Uma Assembléia Nacional de deputados eleitos em todo o território germânico – o Deutscher Bund – se reuniu para a elaboração da nova constituição nacional. Parte da assembléia defendia uma união que incluísse a Áustria, enquanto outra parte defendia a liderança prussiana e a exclusão da Áustria. A solução encontrada foi entregar o governo aos Hohenzollern (a dinastia prussiana). O problema é que o rei Frederico Guilherme IV não aceitou, nem a Coroa nem a constituição, mesma atitude da casa da Áustria. A carta magna proposta teve o condão de desagradar todo mundo, inclusive a sociedade, que pretendia ver diminuído o poder da nobreza, como na França e Inglaterra. A violenta repressão ao movimento popular acabou por suspender as reformas políticas.

A Revolução de 1848 apontou o caminho que passou a ser visto como mais viável: a unificação alemã liderada pela Prússia e pelos Hohenzollern. A violência dos conflitos de rua e a agitação nas cidades acabou por aumentar a desconfiança das classes empresariais e da classe média urbana, que passaram a ver os ativistas liberais e o operariado como politicamente inconfiáveis. 

E nem todos viam a unificação com simpatia. Aristocratas dos pequenos estados anteviam seus interesses facilmente postos de lado, numa Alemanha unificada; a Áustria, predominantemente católica, temia ver sua predominância no sul da Alemanha questionada. A Prússia não via a Áustria com simpatia, pois esta tinha um peso político inegável, além de economia relativamente próspera. Além do mais, Viena era cabeça de um império multinacional e multi-étnico, onde a língua oficial podia ser o alemão, mas tinham peso grupos culturalmente diversos, que certamente não caberiam numa formação política que via na língua e na cultura mais-ou-menos uniformes sua identidade (um excelente artigo – um  tanto longo – sobre o tema aqui).

Por esses motivos a unificação alemã sob a regência dos prussianos não era projeto sem problemas, mesmo que tal formato fosse visto como mais-ou-menos natural: por volta de 1850, a Prússia, potência militar, superou economicamente a Áustria. A liderança política veio em 1862, com a ascensão ao trono de Guilherme I. O novo rei era também especialista em questões militares, e logo promoveu uma reforma nas forças armadas prussianas, particularmente no Exército Real (Königsheer) – o país tornou-se a principal potência militar centro-européia. Os industriais foram convocados a desenvolver uma forte indústria de armamentos, que se destacou na Europa e  abriu uma tradição de suporte do Estado às indústrias militares e de máquinas.

O projeto conservador de unificação foi de fato coordenado por Otto von Bismarck, ex-embaixador na Rússia e na França, nomeado kanzeller (primeiro-ministro) pelo rei no dia seguinte à coroação. Membro da aristocracia rural alemã favorável a uma monarquia forte, Bismarck sabia muito bem que a aliança com a nobreza rural (junkers), era o esteio da monarquia. Por outro lado, percebeu que a grande burguesia industrial não podia ser ignorada. Assim sua política era bipolar: internamente, apoiou a posição da nobreza rural, garantindo-lhes as prebendas – acesso automático ao Exército e ao funcionalismo público; externamente, implementou os interesses da classe empresarial, por fortalecer a união das aduanas, forma segura e já consolidada de integrar os Estados alemães. O kanzeller também estendeu as reformas militares, além oferecer os métodos prussianos a outros Estados. Exacerbando o sentimento nacionalista, reuniu os Estados contra inimigos externos, em três rápidas guerras, decisivas para consolidar a unificação: A Guerra dos Ducados (1864), contra  Dinamarca, a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Bismarck e seu principal assessor militar, o ministro von Möltke (ainda hoje considerado um dos grandes pensadores militares do século 19) promoviam uma estratégia geral de dividir o adversário através de movimentos amplos que buscavam pressioná-los pelos flancos (manobra conhecida como “desbordamento”). Esses procedimentos mostravam grande compreensão, por parte dos prussianos, do espírito da guerra moderna.

É interessante observar que, estruturalmente, as reformas militares de 1862-63 reforçaram a posição da nobreza rural prussiana. Esta comandava camponeses mobilizados na Prússia Oriental, na Silésia e no Brandenburgo. Depois da unificação parte considerável do efetivo passou a ser convocada na Baviera e no Würtemberg, mas o grosso da oficialidade de carreira, assim como o Estado-Maior Geral (de onde saía o comandando do exército), continuou a ser majoritariamente prussiana. Após a unificação, a Prússia – agora 2° Reich -, engajou-se na corrida imperialista, em grande desvantagem para a Inglaterra e a França, e até mesmo para a Itália. O controle de colônias era visto como condição sine-quae-non para a continuidade da expansão capitalista (esse processo foi descrito, de forma magistral, por Lenin, no opúsculo Imperialismo, fase superior do capitalismo) e a guerra imperialista é a resposta para tal impasse, conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, a dos monopólios e domínio do capital financeiro (mais sobre o tema aqui).

Esta guerra foi a 1a GM, que o Império Alemão lutou com a estrutura organizativa e administrativa prussiana, principalmente o Exército. O enorme esforço representado pelo conflito acabou forçando a estrutura política, depois de 1915, para um regime semelhante a uma ditadura militar. Nenhuma espécie de oposição ou obstáculo aos objetivos militares era tolerada. A coordenação geral era exercida por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa. A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, por volta de setembro de 1918, começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha (um excelente – e longo… – artigo sobre o tema aqui), por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustíveis. O Kaiser e a estrutura civil agiram rapidamente para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, e não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”.

Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança. O fim repentino da guerra – o armistício de novembro – e o  fato de que o exército não foi totalmente derrotado (de fato, a situação era de impasse estratégico) fizeram com que a Alemanha não chegasse a ser ocupada. A desmobilização imposta à Alemanha, que entregou seu armamento sem dissolver as forças armadas, acabou, de certa forma, preservando a estrutura militar. O período de agitação política inaugurado em 1919 acabou fazendo com que os aliados aceitassem que a repressão fosse conduzida pelos próprios alemães. Os exércitos privados que lutaram pelo controle das ruas, na década seguinte, se formaram nessa conjuntura, com base na estrutura dos “Corpos Francos”, unidades formadas por combatentes desmobilizados em 1918, mantidos juntos como tropas paramilitares.

Foi o caldo de cultura no qual se alastrou o radicalismo. As SA (Sturm Abteilugen – “Seções de Assalto”) tropa de rua do Partido Nacional-Socialista foram um dos muitos exércitos privados, reforçados, depois de 1929, pela crise geral. Esse período observou intensa disputa entre movimentos que, no panorama da instável democracia liberal, pretendiam mudar o Estado de modo revolucionário. Todos (inclusive os comunistas) pretendiam herdar a estrutura prussiana, embora quisessem se livrar da tradição prussiana. Ernst Röhm, radical militarista, um dos personagens mais interessantes da primeira fase do nazismo, era um desses divergentes. Tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante, com as SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Acabou assassinado em 1934 por seus comparsas.

No artigo acima (talvez um pouco longo…) vimos diversos exemplos da “aceleração da história”. Trata-se de um conceito decorrente de uma teoria – o “materialismo dialético”, tentativa de tornar científica a disciplina da história. O conjunto de fatores derivados de um determinado movimento histórico combinados, levam à sua superação (para uma introcução bastante completa, clique aqui). O materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo. Esse tipo de ativismo é bastante característico da “modernidade”: o homem se torna sujeito da ação.

Os nazistas pretendiam superar o que sua doutrina via como obstáculos estruturais da sociedade alemã, e assim acelerar a chegada a um objetivo de longo prazo – uma utopia.  Através do equilíbrio forçado e mesmo da eliminação, de contradições inerentes à formação histórica e organização política da Alemanha, visavam uma sociedade sem tensão, uma espécie de formigueiro no qual cada um sabia seu lugar e o futuro seria apenas algo a ser aguardado, e não uma incógnita decorrente do caos inerente à realidade objetiva (os pensadores iluministas já reclamavam disso). A aceleração desse processo seria buscada via rompimento institucional, mas contradições dificilmente são superadas dessa forma, pois a superação cria outras contradições, e acaba determinando a necessidade de novos movimentos de aceleração. O exemplo objetivo desse limite foi a mantenção da estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi o ponto de chegada de uma série de concessões aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção. O partido tornou-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado, e seus agentes passaram a dizer diretamente às classes empresariais o que fazer. Por outro lado, a estrutura de base continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (característica do serviço público alemão que Marx, muito tempo antes, já tinha percebido, quando ainda era estudante de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. Trata-se de uma espécie de “processo revolucionário pela metade”, mas ainda assim, a característica de rompimento era importante, tanto que os primeiros membros do movimento – Gregor e Otto Strasser, Enst Röhn, Viktor Lütze, se diziam revolucionários lutando contra a sociedade “burguesa”.  

Como não se pode esperar que todo mundo concorde conosco (outra característica inerente ao homem), a única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos óbvios. Essa instituição passou a ser diretamente subordinada aos governos das “Ländern” (algo como “províncias”, com certo grau de autonomia local – Himmler foi chefe de polícia da lande Prússia). Os nazistas esperavam mudar as estruturas do Estado a partir de uma posição interna, mas sem chegar a mudar as estruturas da sociedade alemã. Foi assim com o Exército: os nazistas não confiavam totalmente nos “aristocratas prussianos”, mas dependiam deles, inclusive para manter a disciplina. Mas, ao mesmo tempo que mantinham e ampliavam os privilégios dos militares, criavam uma estrutura paralela, a Waffen SS – apesar do nome e ter Himmler por comandante nominal , na prática separada da SS policial – que emulava a estrutura do exército. Não se pode afirmar que, com a vitória, essa estrutura acabasse por substituir o Exército tradicional. E nem se pode afirmar o contrário. Por sorte, podemos agora apenas especular:: 

Essa é uma indicação de que os nazistas tinham em mente uma espécie de revolução conservadora, baseada na reestruturação, sem modificações radicais, da sociedade e de suas instituições. Sua ascensão é evento característico da modernidade.  Talvez seja também o ápice da crise de uma modernidade que, como todos os processos humanos, surgiu cheia de defeitos, mas também teve algumas qualidades. E – na opinião do redator:: um tanto pessimista – como em todo processo humano, os defeitos prevaleceram sobre as qualidades…::

Coroação de Guilherme I Hohenzoller como Kaiser do Império da Alemanha em Versalhes (Paris, 1871). Último ato de uma curta guerra (contra os franceses) e de um longo processo. Alegenda em alemão diz "Nós levamos o reino prussiano para a cova". O tempo mostraria que nem tanto...

É um bom dia para pensar::

O historiador P. D. Smith escreveu um livro que foi recentemente traduzido para nosso português, e tem sido a leitura de cabeceira do redator nos últimos dois meses: Os homens do fim do mundo. Leitura um tanto pesada, mas esclarecedora aobre as relações entre guerra e ciência. E também sobre as relações quase sempre ambíguas dos cientistas com os assuntos da guerra e da política. Sugiro uma olhada cuidadosa não só aos sete leitores (contadinhos…), mas a todos quanto estejam realmentei interessados em entender um pouco mais sobre os nós de nossa modernidade. Em seguida, uma pequena amostra, selecionada de modo a também comemorar o fim da primeira matança industrial da história, que pudemos comemorar dois dias atrás – 11 de novembro, 1918::

Nenhum tiro foi disparado … um número considerável de russos envenenados pelo gás … jaziam deitados ou retorcidos, em condição lamentável. Senti-me profundamente envergonhado e perturbado. Afinal de contas, também sou culpado por essa tragédia. Otto Hahn, citado por P. D. Smith, p. 112.

Nunca esquecerei o que vi em Ypres, depois do ataque a gás. Homens caídos ao longo de toda a estrada entre Poperinghe e Ypres, exaustos, ofegantes, limpando um muco amarelo de suas bocas, com os rostos azuis e atormentados. Era horroroso, e era tão pouco o que podíamos fazer por eles. Nenhum texto de nenhum livro que eu tenha visto descreve, ou sequer chega perto, do horror daquelas cenas. Você saía daquele lugar com vontade de ir imediatamente ao encontro dos alemães para esganá-los, para que eles pagassem de algum modo pela sua ação diabólica. Melhor a morte súbita do que aquela agonia horrível. G. W. G. Hughes, tenente-coronel, Corpo Médico do Exército Britânico, citado por P. D. Smith, p. 117.

Como se fosse sob um mar verde/ Nos meus sonhos, diante de minha vista impotente/ Ele me procura, engasgado, soluçando e se afogando. Wilfred Owen (poeta-soldado, morto em ação na batalha do rio Sambre, 4 de março de 1918) Dulce et Decorum est, citado por P. D. Smith, p. 115.

Primeiro surpresa; em seguida, medo; depois, quando os primeiros flocos da nuvem os envolveram, deixando-os asfixiados e em agonia por não poder respirar – pânico. Os que conseguiam mover-se tratavam de escapar e de afastar-se, em geral em vão, da nuvem que os seguia inexoravelmente. Samuel Auld, químico, major do exército britânico, autor de um livro clássico sobre armas químicas, descrevendo um ataque com gás de cloro, na Frente Ocidental, em 1915, citado por P. D. Smith, p. 115.

Cultura Material militar::Capacetes::

parte3.3.1Muitos anos atrás, tive a honra de conviver, durante um ano, com os veteranos da FEB . O primeiro-tenente Luís Paulino Bonfim, então presidente da ANVFEB, principal dentre as associações de veteranos em funcionamento (aos trancos e barrancos) em nosso país, convidou-me para reorganizar o pequeno museu que funcionava no térreo do prédio da rua das Marrecas, no Rio de Janeiro. Na época eu já tinha conhecimentos relativamente grandes sobre cultura material militar, mas não pude deixei de me emocionar em ter contato direto com aqueles velhos objetos, últimos vestígios de nossa passagem pela 2a GM.  Soube, outro dia, que novo destino será dado ao considerável acervo: o Museu Militar Conde de Linhares, mantido em São Cristóvão pelo Exército Brasileiro. Menos mal, se o Exército der publicidade ao evento, e passar a atribuir aquelas centenas de artefatos o valor cidadão que  eles tem. Mas essa é outra história. O período em que passei no Museu da Força Expedicionária Brasileira me permitiu observar certos detalhes do equipamento militar usado em combate. Chamaram-me a atenção certos aspectos quase invisíveis, que mostram o aporte de engenharia  investido em cada um desses objetos, não importa o quanto simples aparentem ser. Lembrei de tudo isso quando resolvi colocar no ar mais um artigo da série “Capacetes” – justamente o que talvez minha meia-dúzia de pacientes leitores/amigos (conheço cada um pelo nome…) mais espera: sobre o Stahlhelm,  o “capacete alemão” que todo mundo conhece. Filhos, podem me considerar um verdadeiro privilegiado: muito do que estou escrevendo aqui é produto do que pude observar naquele período, com os ditos na mão – e nem eram assim tão pesados. Por sinal, não estranhem a numeração esquisita abaixo: como o assunto é extenso, resolvi subdividir a parte 3::

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parte 3/3.1:: O stahlhelm (literalmente, “capacete de aço”), o “capacete alemão”, facilmente mantém o galardão de símbolo mais evidente do último conflito mundial: quase todo mundo o conhece e sabe o que significa. Suas origens remontam ao capacete de aço adotado na 1ª GM, que substituiu o também familiar *“capacete pontudo” prussiano, pickelhaube. A adoção , pelos alemães, de uma proteção de cabeça está ligada ao impasse das trincheiras, durante a 1a GM, e curiosamente, se pensando mais nos defensores. Estes, imobilizados numa trincheira, tinham a cabeça exposta. De fato, as armas de infantaria não provocaram, na 1a GM, mais do que 20 por cento das baixas observadas em combate. A maioria delas foi ocasionada por sopro de explosão e fragmentos resultantes:  estilhaços (os destroços da estrutura da granada) e balins (pequenas peças de metal colocadas no interior da granada, disparadas pela energia da explosão).  Esses fragmentos, independente da natureza, eram designados, então, pelo termo schrapnel.

 

França e Inglaterra foram as primeiras nações a disponibilizar capacetes a seus soldados. A Alemanha não demorou muito a perceber a necessidade desse equipamento. Desde 1915, experiências estavam sendo feitas, mas se revelavam mais-ou-menos inóquas, pois partiam do pressuposto que poderiam aproveitar o desenho totalmente inadequado do pickelhaube. Entretanto, um dos resultados dessas experiências foi mantido: o material. A melhor liga de metal encontrada foi o aço-cromo-níquel, que, mesmo sendo pesada, era mais leve do que outras testadas. Os desenhistas alemães recuperaram modelos usados por tropas antigas, e um deles mostrou-se engenhoso: um elmo usado pela cavalaria centro-européia do século 15-16, que oferecia, inclusive, proteção para o pescoço. Por outro lado, a requisição de que o equipamento protegesse inclusive contra impactos de projéteis de armas portáteis era problemática, independente do desenho. Resultou numa peça consideravelmente grande e pesada (1400 gramas, mais ou menos), mas vista como o preço que o soldado teria de pagar por sua segurança. Esse capacete foi denominado “Modelo 1916”, e logo recebeu o apelido de *Kohleneimer  (“balde de carvão”). Era, de fato, um tipo experimental, e seu desenho foi melhorado, inclusive com relação à “carneira” (o aparelhamento interno: suportes de couro e cadarços que adaptavam o casco à cabeça do usuário). Também houve uma tentativa de reforçar o conjunto, adotando uma espécie de proteção adicional denominada *Stirnpanzer (ao pé-da-letra, “testeira”), outra idéia resultante de pesquisas em arquivos medievais. Um placa adicional de metal era fixada sobre a parte frontal do conjunto através de pinos, que também serviam com entradas de ar. Essas peças foram denominadas modelos “1917” e “1918”, e mantidas após o fim da guerra. Diversos outros acessórios, como uma cobertura de lona destinada a diminuir a visibilidade do conjunto, foram concebidos. Em 1918, uma variação no desenho foi introduzida, como tentativa de economizar peso e diminuir ferimentos nas orelhas. Essa variante logo passou a ser chamada – por motivos óbvios – de *Telephonistehut (“chapéu de telefonista”). O “modelo 1917” acabou sendo adotado pelos aliados austríacos dos alemães, e teve versões, com pequenas alterações, produzidos localmente. O início dos anos 1930 veria o “modelo 1917” ainda em uso pela Reichswehr, o exército alemão de 100.000 efetivos permitido pela pelo Tratado de Versalhes.

 

A subida de Hitler ao poder, em 1933, já encontrou, bastante avançados, estudos teóricos e metodológicos que visavam prover o exército de planos para um eventual rearmamento. Os planejadores envolvidos nesse processo sabiam que a próxima guerra teria características totalmente diversas da anterior, e, dentre essas características, a infantaria seria mais móvel e mais rápida, possivelmente transportada, em parte, em veículos motorizados. Os uniformes desenhados para essa nova infantaria seriam diferentes, embora os oficiais do Estado-maior Geral tivessem mantido aspectos tradicionais – símbolos e insígnias – e alguns elementos práticos, como a cor, o cinza esverdeado (“cinza de campo”, feldgrau), considerada adequada para a região. O desenho do “modelo 1917” foi considerado razoável, mas a nova peça, denominada “M35”, era bem diversa da antecessora.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

O novo modelo era estampado a partir de uma chapa de aço com espessura de 1,2 mm, cujas bordas eram dobradas para o interior do conjunto. Como forma de economizar peso, o domo foi diminuído e achatado nas laterais; a guarda do pescoço e o visor foram encurtados, de modo que o perfil tornou-se menor, embora a aparência geral se mantivesse a mesma do modelo anterior, que oferecia excelente proteção à cabeça. Uma nova carneira, baseada na adotada para o *modelo de capacete distribuído em 1931 tornou o conjunto bastante confortável, por permitir uma quantidade maior de ajustes, feitos por aperto ou afrouxamento de cadarços. No novo modelo, a carneira era mantida no lugar por três pinos de alumínio, um na parte posterior e dois na posição aproximada das têmporas. O Stirnpanzer e seus pinos de suporte foram considerados desnecessários, e deram lugar a duas aberturas de ventilação.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Essas aberturas eram protegidas por ilhoses aplicados separadamente, refinamento que até poderia ser pensado em tempos de paz, mas rapidamente desapareceu quando a guerra exigiu a produção em massa.

A carneira era inovadora: uma única tira de metal, que podia ser alumínio ou qualquer liga leve, ligada a um sistema de molas, ajudava a absorver choques e tornava a coisa toda mais fácil de ser sacada da cabeça pelo usuário (experimente ter um fragmento de metal, quente e pontudo, encostando em seu couro cabeludo e entenderá o problema…). Essa estrutura servia para prender uma única tira de couro macio ligada a oito “dedos”, cada um com um conjunto de furos de ventilação, que envolviam a cabeça do usuário A tira de queixo (“jugular”) era parte da carneira. O mais surpreendente é que, enquanto todos os outros capacetes da época tinham um único tamanho, regulado pela amarração da carneira, o M35 era distribuído em cinco tamanhos diferentes.
Todas as corporações das forças armadas alemãs receberam e usaram o novo modelo de capacete, que tinham um acabamento primário com cores de cada uma delas. A cor-padrão do exército era o “cinza de campo”, enquanto a Luftwaffe recebia os seus em uma cor azul acinzentada.

Um dos aspectos que distinguia o capacete alemão de seus similares era o uso de dacalques industriais para identidicar a corporação. A partir de 1933, a Alemanha começou a usar as cores nacionais (vermelho, branco e preto) formando um escudo, que era posicionado do lado direito. No caso do exército, uma águia heráldica em prata era posicionada do lado esquerdo; a Luftwaffe tinha, nessa posição, uma águia em vôo, em ouro; a Marinha usava a mesma águia do exército, em ouro. As unidades SS e de polícia não usavam as cores nacionais, mas o símbolo do partido – uma suástica negra em campo vermelho. As SS incorporavam a dupla “runa da vitória” (um raio) negra em campo prata, enquanto a polícia tinha, nessa posição, um escudo negro com a águia envolvida por uma coroa de carvalho prata. Variações nessas posições podiam ser observadas ocasionalmente, mas não eram comuns.


Depois de 1940, os decalques se tornaram mais raros, em função da produção em massa ocasionada pela expansão da guerra.::

Cultura material militar::Capacetes::

Nunca imaginei que o assunto “capacetes” fosse tão interessante. O que sei é que a cultura material militar é assunto bastante variado, e inúmeros interessados. Acho Muitos dos que escrevem sobre o assunto são historiadores da tecnologia, que buscam aprofundar todos os aspectos dessa questão. Mas boa parte dos interessados escritores e leitores são, por exemplos, colecionadores de “militaria”, ou seja, de antiguidades produzidas pela atividade militar, seja na guerra ou fora dela; outros, também extremamente ativos, são os artesãos produtores e colecionadores de soldadinhos de brinquedo e modelismo militar em geral. Essas práticas, apesar do nome, não são coisa de criança, mas um dos hobbies mais praticados no mundo, que envolve um mercado de bilhões de dólares e milhões de aficcionados.::

 

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parte2/3O capacete francês tipo “Adrian” foi, então, distribuído a outros exércitos, mesmo antes da 1a GM terminar. Grande número deles chegou até as tropas russas destacadas para servir na Frente Ocidental. Os russos se interessaram pela proteção individual, e consta que tinham tentado introduzir chapas de metal sob seus tradicionais quépis. Os primeiros capacetes entregues às tropas do czar eram de fabicação francesa e tinham a águia de duas cabeças da dinastia Romanov estampada na metade anterior.

 

Não levou muito tempo para que os russos começassem a produzir seus capacetes na indústria local. Tratava-se de uma cópia simplificada do “Adrian”, e foi introduzida em 1916. Nessa versão, a ventilação (constituída, nos exemplares franceses, por orifícios localizados por baixo de uma “crista” metálica situada no topo da carapaça), era menos definida, tornando o equipamento um tanto desconfortável de usar. O item era distribuído às tropas sem insígnias ou distintivos.

 

A Revolução de Outubro de 1917 tirou a Rússia da Guerra, sem que houvesse acontecido qualquer outra medida que não o tratado de Brest-Litovski, o que deixou os enormes exércitos russos mais-ou-menos intocados, embora bastante maltratados pelas condições da paz. A Guerra Civil que estourou logo a seguir colocou lançou, uns contra os outros, vários exércitos e milícias razoavelmente dotados de efetivos, armamentos e suprimentos: diversas facções de partidários do czar (geralmente conhecidos como “brancos”), simpatizantes liberais, milicianos religiosos e anarquistas e o Exército Vermelho. Poucas dessas tropas, entretanto, tinham, em seu equipamento individual padrão algum tipo de capacete. É certo que muitos dos “Adrian” de fabricação local estavam em mãos das diversas tropas, mas também eram vistos, em alguma quantidade, capacetes alemães capturados e, em menor número, o modelo usado pelo exército austro-húngaro.

 

Depois da vitória do Exército Vermelho, e da consolidação da União Soviética, em dezembro de 1922, o novo governo começou a reorganizar as forças militares. Essa reorganização significou um novo ordenamento na distribuição de armas e equipamentos, e os capacetes disponíveis foram padronizados, sendo mantidos apenas os “Adrian” locais, nos quais a estrela vermelha, símbolo do novo estado substituiu a águia Romanov.

O período entre-guerras testemunhou a reorganização social, econômica e militar do país, mas, em termos gerais, os uniformes de campanha da época do Império Russo foram mantidos, exceto pelo abandono de cores que, como o branco, remetiam à casa Romanov. Alguns experimentos com novos modelos de capacete foram feitos, mas em pequena escala e sem grande conseqüência. Um dos modelos testados, do qual restou certo número de exemplares, tinha formato semelhante ao modelo 1916 alemão. Em 1936, entretanto, foi introduzido um modelo que seria padronizado, conhecido como Kaska M36, também chamado SSh36 (de Stalnoy Shlyem – capacete de aço) ou, menos frequentemente, “Schvartz” (em função do desenhista, Aleksandr Shvartz), trata-se de um modelo que os especialistas entendem como de transição, conservando certas características da versão russa do “Adrian”, como o sistema de ventilação tipo “crista” – embora alguns digam que também seria projetado para suportar golpes de sabre, mas já com o desenho que se consolidaria na 2a GM. Em 1940, esse modelo começou a ser substituído pelo Kaska M40, que já tinha o desenho que, em fotografias e filmes, reconhecemos como “capacete russo”.  

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Equipe de lança-chamas, Berli, 1945. Os dois combatentes usam o capacete SSh40; o soldado em primeiro plano usa um tipo primitivo de colete à prova de balas.

Um dado interessante é o fato de que os capacetes russos, desde o “Schvartz”, eram usados pelos soldados junto com o casquete militar (pilotka), que, colocado sob a armação interna de lona, tornava o conjunto mais confortável.

O M40 tinha, no interior de sua armação, espaço suficiente para que o casquete fizesse parte do conjunto. Em 1941, quando da invasão da URSS, o SSh36 já estava em processo de substituição, nas tropas de linha de frente. Pequenas modificações, introduzidas ao longo da guerra (em função do grande número de fábricas dedicadas a produzir esse item de equipamento) não mudaram o desenho, considerado, ainda hoje, muito bom. Esse modelo continuaria em serviço, nas diversas nações do Pacto de Varsóvia, até os anos 1990.

Acabou? Não – essa conversa de capacetes ainda vai durar. Esperem pela próxima semana ou mandem mensagens pedindo pelamordedeussss que o redator mude de assunto…::