A DAAe do EB chega ao presente::Uma geringonça de primeira linha no inventário, afinal::

parte1Não se trata de notícia nova – até pelo contrário: em fevereiro último, o governo brasileiro decidiu pela aquisição, em um primeiro momento, de cinco baterias AAe de origem russa. Duas são do tipo Igla-S, de defesa de ponto (curto alcance) e três são do tipo Pantsir S-1.

A “carta de intenções” entre brasileiros e russos foi assinada em fevereiro, e é apenas o começo da discussão visando estabelecer o preço final da aquisição e conseguir maiores vantagens da parte dos russos. A assinatura do contrato definitivo deve acontecer em julho e as primeiras entregas, dezoito meses depois. O produto pode ser customizado segundo exigências pontuais do comprador: no caso brasileiro podem ser adotados alguns componentes fabricados por aqui, como as carretas blindadas, que têm um equivalente nacional, fabricado pela Avibrás para o sistema Astros-2. Já a adoção do radar nacional Saber 200, citada em alguns informes da imprensa, parece muito pouco provável pois implicaria em modificações de sistema que dificilmente os russos (ou qualquer outro fabricante) estariam dispostos a fazer. De toda forma, estimativas especializadas colocam o valor do pacote completo em pelo menos US$ 1 bilhão.

São ambos sistemas antiaéreos “estado da arte”. Pode-se dizer que o Igla já existe por aqui, e é conhecido tanto pelo EB quanto pela FAB – numa versão considerada ultrapassada, embora ainda eficaz, e que desperta um bocado de controvérsia (causa:: falou do assunto recentemente). A linhagem Igla faz parte dos sistemas conhecidos genericamente como MANPADS (acrônimo, em inglês de MAN Portable Air Defense  System – “Sistema de Defesa Antiaérea Portável por Homem”). O conceito surgiu como desdobramento da ideia, datada da 2ª GM, de armamentos de infantaria operados por pequenas equipes (dois ou três elementos), apontados a partir do ombro de um deles. O alcance dessas armas é “visual” – o operador tem de colocar o lançador mais ou menos na direção do alvo –, e o elemento-vetor é um foguete ou míssil de pequeno porte (no máximo dois metros de comprimento e 12-15 kg de peso).

O MANPADS típico é dividido em duas partes. Uma peça chamada, em inglês, handgrip (“empunhadura”) é considerada por alguns especialistas como o armamento, de fato: contém os sistemas de pontaria e (dependendo do modelo) guiagem, os sistemas eletrônicos e mecânicos que acionam a “munição” (em seguida explico por que as aspas), a bateria e a unidade “esfriadora” (no caso dos “buscadores de calor”); nesta peça, que pesa entre seis e dez quilos, dependendo do modelo considerado, é alojada a “munição”, um míssil auto ou teleguiado a combustível sólido, com uma cabeça de guerra de alto explosivo pesando entre um e três quilos. O míssil, pesando entre 8 e 12 quilos, é contido num tubo descartável, que, em alguns casos, pode ser reutilizado. Parte da literatura técnica considera a bateria e a “unidade esfriadora” como uma “terceira parte” do conjunto, pois têm de ser trocadas após certo tempo, ou após o disparo de uma “carga de munição”. Aqui no causa::, tendo a considerar a geringonça toda como um “sistema de armas”, visto que um não serve para nada sem o outro.

A quase totalidade dos MANPADS adota um entre dois tipos de sistema de guiagem: o primeiro, mais comum, é chamado “guiagem passiva” (passive homing em inglês): não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. Esses sistemas são colocados no próprio míssil, de modo que o operador, depois do lançamento, não tem mais controle sobre a trajetória. Estes sistemas de armas são os mais comuns: setenta por cento dos que estão ativos, o adotam. O segundo é menos comum: numa tradução livre, podemos chama-los de “guiagem de comando” (em inglês, command guidance). A trajetória do míssil é determinada por uma fonte externa, comandada pelo operador e captada por um receptor instalado no míssil. Um terceiro sistema é bem mais raro nesse tipo de arma: guiagem semi-ativa (semi-active homing, em inglês). Nesta, uma fonte externa “ilumina” o alvo através de uma fonte emissora de ondas, e míssil “percebe” a posição da interferência.

Os Igla são a terceira geração dos sistemas de guiagem passiva. Estes sistemas de armas se tornaram possíveis a partir do desenvolvimento, durante os anos 1950, de aparelhos de guiagem “buscadores de calor” (tradução livre da expressão heat-seekers). São equipamentos “passivos” porque não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. No caso, radiação do espectro eletromagnético em amplitudes de ondas que geram calor, mas são invisíveis aos olhos, conhecidas como “infravermelhas” (IR, do inglês infrared). O princípio é relativamente simples: a impulsão proporcionada por motores à reação baseia-se na emissão de jatos de gás em alta velocidade, numa única direção. O atrito provocado pelo movimento do gás gera “calor”, ou seja, uma súbita emissão de micro-ondas que se concentra em grande quantidade junto à cauda da aeronave, antes de se dispersar (por sinal, muitos corpos físicos têm essa propriedade de emitir, concentrar e dispersar calor). A cabeça de guiagem “buscadora de calor” possuí pequena quantidade de uma substância semicondutora (na primeira geração, sulfeto de chumbo II – PbS –, ou “galena”; nos mais modernos, antimoneto de índio – InSb – ou mercúrio-cádmio-telurídio – HdCdTe), todos elementos minerais com a propriedade de “medir” emissões de fótons em sequência (fotocorrente ou corrente fotelétrica). Essas emissões causam alteração no comportamento físico da substância, alteração que gera energia suficiente ser repassada a uma unidade de comando e controle eletrônica. Na primeira geração e em alguns tipos da segunda, essas unidades de controle eram analógicas; em partes da segunda e na terceira geração, digitais. A unidade de comando e controle interpreta os dados e aciona controles mecânicos dos aerofólios móveis, que mudam a direção de vôo do míssil.

Esse processo foi aplicado pela primeira vez no míssil ar-ar AIM9 Sidewinder, que começou a ser desenvolvido em 1949 e entrou em serviço em 1956. Nos final dos anos 1950 o sistema foi diminuído o suficiente para ser colocado em uma arma portátil, no caso o FIM- 43 Redeye, da empresa Convair (depois General Dynamics), que entrou em serviço em 1965, abrindo a primeira geração de MANPADS. Pouco depois, apareceu uma versão soviética, o sistema 9K32, desenvolvido pelo escritório de projetos (em russo, OKB) 134, dirigido pelo engenheiro Turopov nas proximidades da cidade de Tushino. Estreou em 1968, apelidado pelos soviéticos Strela e foi referenciado pela OTAN como SA-7 Grail. O SA-7 é geralmente tratado pela bibliografia especializada como cópia do Redeye obtida através de engenharia reversa, embora a história nunca tenha sido definitivamente provada.

Um problema dos MANPADS que não existia nos armamentos de ombro até então era o jato de chamas gerado pelo propelente do míssil, que poderia torrar o operador. A solução imaginada foi introduzir uma carga menos potente, chamada “de ejeção”, situada na extremidade posterior do míssil. Esta serve apenas para fazer o vetor deixar o tubo de lançamento, gerando um bocado de fumaça, inócua para o operador. Alguns segundos após o acionamento da “carga de ejeção” é acionado o “motor de vôo”, um motor-foguete que rapidamente acelera o vetor até velocidades que podem chegar até 1200 m/s, nos modelos mais modernos (para uma visão geral dos sistemas MANPADS, clique aqui).

Os MANPADS da primeira geração não eram lá muito eficientes: tinham de ser colocados pelo operador diretamente na direção da fonte de calor, ou seja, da cauda da aeronave e, ainda assim, o tempo de reação do míssil era geralmente menor do que a velocidade da aeronave, de modo que eram plenamente eficazes apenas contra helicópteros ou aeronaves voando em velocidades relativamente baixas, ou que passassem diretamente sobre a posição do míssil. Ainda por cima, as primeiras cabeças de guiagem não conseguiam distinguir faixas muitos amplas do espectro de micro-ondas, de modo que podiam ser “enganadas” por outras fontes próximas. Assim, não demorou a aparecerem contramedidas altamente eficazes, conhecidas como flares – uma cápsula ejetada por uma aeronave que, ao ser ativada gera, por reação química e sem explosão, uma grande quantidade de luz e calor durante um período que varia entre cinco e dez segundos.

A estreia em combate real do MANPADS deu-se na Guerra do Yom Kippur (1973), em grande estilo: a vantagem inicial egípcia deveu-se, em grande parte, à anulação da eficiente aviação israelense por sistemas de defesa AAe repassados às forças árabes pela União Soviética. A tática israelense de voar baixo com caças-bombardeiros A-4 Skyhawk, de modo a evitar a vigilância de radar foi anulada pela presença de 2000 SA-7 Strela-2, responsáveis pela derrubada de doze aeronaves, e por danos incapacitantes em outros dezoito (algumas fontes elevam este número para 45 baixas). A presença desse armamento acabou obrigando os israelenses a mudarem parcialmente suas táticas, passando a voar em altitudes médias, e assim entrando na faixa de alcance dos sistemas Tunguska (o avô do Pantsir S-1, mas disso a gente fala depois…) e dos SAMs convencionais. O melhor treinamento dos pilotos egípcios de caça (dentre os quais o mal fadado Hosni Mubarak) fez o resto, de forma que a guerra aérea, naquele conflito, pode ser considerada quese um empate.

As segunda e terceira gerações de MANPADS têm seus principais representantes no Stinger dos EUA, no SA-14 Strela-3 soviético, FN-6 chinês, Mistral francês e Blowpipe, da Grã Bretanha. O uso de cabeças de guiagem baseadas em antimoneto de índio e mercúrio-cádmio-telurídio aumentou a eficiência da leitura do espectro de cores IR, e as mais atualizadas conseguem distinguir faixas do espectro ultravioleta (UV), o que possibilitou que os mísseis passassem a distinguir entre o emissor primário e os secundários e, desta forma, adquirissem o alvo de forma correta, evitando interferência. Um aspecto decisivo que aumentou exponencialmente a eficácia dos MANPADS da segunda geração foi a introdução de “baterias termais”, unidades geradoras de eletricidade de maior eficiência, e “unidades resfriadoras de bateria” (em inglês, BCU – battery coolant unity), também conhecidas  como. Essas unidades abaixam a temperatura do buscador IR até cerca de -200°, aumentando a sensibilidade do semicondutor da cabeça de guiagem e, por consequência, a eficácia do sistema.

Entretanto, a partir da segunda geração começaram a surgir – ou ser retomados – métodos de guiagem ativa, a tal ”guiagem de comando”. Em última análise, é a releitura de um sistema usado na 2ª GM, pelos alemães, em bombas planadoras e mísseis antiaéreos. O operador dirige o vetor utilizando a combinação de um visor e um pequeno manche (em inglês, joystick). É o sistema utilizado pelo MANPADS britânico Blowpipe (“zarabatana”). Este adota uma variação do sistema denominado MCLOS (abreviatura, em inglês, de Manual Command Line Of Sight, ou “Comando Manual por Linha de Visada”).  Através de emissões de rádio estimuladas pelo movimento do joystick, a trajetória do vetor é corrigida até alcançar o alvo. O operador tem de colocar o míssil na direção do alvo, dispara-lo e, após três segundos, passa a dirigir a trajetória movimentando um pequeno joystick com o polegar, até conseguir o impacto. Parece fácil? Tente faze-lo com uma geringonça de sete quilos apoiada no ombro. Tratava-se de um processo complexo, que exigia equipes muito bem treinadas e conhecedoras do sistema, o que rompia a filosofia básica do conceito MANPADS. Em 1985 a arma foi descontinuada pelos britânicos. Umas cinquenta unidades foram vendidas aos argentinos no final dos anos 1970, de modo que, durante a Guerra das Falklands, ironicamente, os dois lados estavam armados com o produto britânico. Os britânicos afirmam ter derrubado nove aeronaves argentinas por meio dessa arma e os argentinos dizem ter abatido dois helicópteros e uma aeronave VSTOL Harrier.

Também foi nos anos 1980 que a entrega, pela CIA, de 1000 FIM-92 Stinger aos guerrilheiros afegãos fez deste sistema de armas um verdadeiro astro da guerra de guerrilha contra os soviéticos. Segundo informações distribuídas pela agência de inteligência norte-americana, entre 400 e 500 aeronaves soviéticas e afegãs, aviões e helicópteros foram abatidos em pouco mais de cinco anos. No Afeganistão, o conceito de MANPADS chegou à maturidade e tornou-se motivo para que tanto soviéticos quanto, posteriormente, os próprios norte-americanos mudassem, suas táticas de apoio aéreo aproximado, passando a evitar perfis de ataque muito próximos do solo. A eficiência dos MANPADS contra aeronaves voando em altitudes ultrabaixas, em solo acidentado, as tornava alvos fáceis para irregulares com baixo nível de treinamento, alta consciência do terreno e altamente motivados. Em função do curto alcance dos mísseis “buscadores de calor”, as incursões soviéticas passaram a ser feitas de altitudes médias e altas, que, dada a alta mobilidade das unidades de guerrilheiros, eram muito pouco efetivas. Posteriormente, em sua guerra afegã “contra o terrorismo”, os norte-americanos passaram a usar ataques de uma única aeronave em grande altitude e usando armamento inteligente – também sem grande eficiência e com alto número de baixas colaterais.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil tem adquirido alguns lotes do SA-18 Grouse. Os SA-18 são a versão anterior do sistema de armas adquirido agora, este referenciado pela OTAN como SA-24 Grinch (um tipo de duende que rouba motivos de satisfação alheia – no caso, dos pilotos de aeronaves…) e apresentado pelos fabricantes em 2008. Com relação à versão usada pelas FFAA brasileiras, o SA-24 tem maior alcance (6 km contra 4,5 km) e maior eficiência noturna. Esta é provida pela combinação de um rastreador de alvos baseado em amplificador de luz passivo (instalado na empunhadura), que se combina ao tradicional, baseado no buscador de emissões IR. Segundo os fabricantes, é plenamente eficaz contra alvos em vôo em altitudes de até 3500 m, mas ainda se destina-se principalmente a opor alvos em velocidade subsônica: helicópteros, mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Contra aeronaves em velocidades transônicas, sua eficácia decai exponencialmente. Ainda assim, o Igla-S é bastante versátil, podendo ser adaptado para vários tipos de plataformas estáticas, em navios e em helicópteros.

A aquisição de duas baterias faz sentido em função do fato de uma complementar a outra.  Os Igla-S, instalados em lançadores duplos operados por um único homem, podem ser rapidamente transportados e postos em bateria, em locais bastante discretos, como topo de prédios ou mesmo em pequenos veículos do porte de um pequeno caminhão. A outra parte da compra, o Pantsir S-1, é bem mais complexa, e constitui um sistema pelo menos em princípio mais eficiente, voltado para a aquisição de alvos em distâncias médias. Combina mísseis e armamento de tubo, orientados por radar. Falaremos deste em outra hora, para termos uma visão ampla da aquisição brasileira, suas possíveis vantagens e desvantagens::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra2::Rosie the Riveter ou A mulher americana entra na guerra::

Rosie the Riveter, por Norman Rockwell. Trata-se da versão mais conhecida do icone da mulher norte-americana na guerra

Rosie The Riveter’ (“Rosinha, a Rebitadora”) nunca existiu. Ela foi inventada por diversos artistas e publicitáriosnorte-americanos, no momento em que idéias estapafúrdias eram mais do que necessárias para ajudar a tirar o país da maior encrenca em que já se vira metido (e não é de hoje que os EUA são criativos para se meterem em encrancas…): uma guerra mundial para qual não estavam preparados.

A idéia de ter mulheres em funções de combate hoje em dia não chega a despertar estranheza; a idéia de que mulheres trabalhem fora de casa, então, não chega a espantar qualquer pessoa. Mas nem sempre foi assim. Até o ataque japonês a Pearl Harbour, fato que lançou os EUA na 2ª GM, a quase totalidade da força de trabalho norte-americana era masculina. Até mesmo nas grandes cidades, era algo incomum encontrar mulheres em postos de trabalho remunerado. A partir dos anos 1920, alguns tipos de trabalho passaram a ser ocupados majoritariamente por mulheres, como, por exemplo, telefonistas, secretárias e professoras do ensino básico. Eram normalmente trabalhos adequados “à natureza feminina”: não exigiam força física (que, segundo se dizia, as mulheres não tinham) nem muita agilidade intelectual (idéia que até hoje surge por aí…) e lhes permitiam expressar a delicadeza e a “graciosidade”. De fato, o lugar reservado para as mulheres, na sociedade, era mesmo a família, cuidando de crianças e fazendo biscoitos…

Para que as mulheres deixassem tal posição, seria preciso uma crise grande o suficiente para que faltasse mão-de-obra no mercado de trabalho. Ao longo do século 19, as crises não chegaram a tal ponto: haviam homens suficientes para ocupar os postos de trabalho existentes sem que os salários aumentassem muito. O interessante é que, durante a segunda metade do século 19, conforme a economia se expandia com a Segunda Revolução Industrial, não houve guerras muito grandes e longas, que obrigassem a convocação de número considerável de homens adultos. A coisa mudou com a 1ª GM: a convocação maciça da porção masculina da sociedade, notadamente após 1916, chegou a obrigar alguns países europeus a lançar mão de grande número de mulheres jovens como força de trabalho industrial, embora tais números não tenham chegado a provocar uma inversão notável na composição da mão-de-obra. Nos EUA, a entrada tardia na guerra, e o número relativamente pequeno de efetivos enviados à Europa, a partir da segunda metade de 1917, não chegou a constituir problema sério para a constituição da força de trabalho. Nos anos posteriores ao fim do conflito, a expansão da economia criou postos de trabalho para todos aqueles que retornavam do front. A crise geral de 1929, por sua vez, expulsou do mercado de trabalho, nos EUA, cerca de vinte por cento do trabalhadores, e reduziu drasticamente o salário dos restantes. Nessa conjuntura, as mulheres permaneceram em casa enquanto os homens perambulavam pela rua a procura de uma ocupação.

O enfrentamento da crise econômica só seria encaminhado a partir de 1932, com a implementação do conjunto de políticas intervenconistas denominado “New Deal“. De início, as políticas de revitalização econômica através de fortes investimentos governamentais em obras públicas e assitência social não incluíram as forças armadas, cujo tamanho tinha sido drasticamente reduzido depois da 1ª GM. Além do mais, durante os anos 1930 a crise não deu sinais de que recuaria rapidamente, de modo que a eclosão da guerra na Europa encontrou a “grande depressão” apenas parcialmente resolvida. Isto explica, em parte, a conhecida relutância dos EUA em encarar uma possível participação no conflito, ainda que seus interesses nacionais no Pacífico estivessem fortemente ameaçados. Mas o país tinha sido tomado, após o fim da Grande Guerra, por forte mentalidade isolacionista, e o grosso da população, maltratada pela crise econômica, tendia a enxergar os problemas europeus como “problemas estrangeiros”. Ainda assim, a partir de 1940 o governo norte-americano passou a projetar uma participação “relativa” na guerra, com o presidente Franklin Delano Rooselvelt disposto a auxiliar os ingleses em sua luta contra o nazismo através de apoio econômico e industrial (concretizados na política de “Empréstimos e aluguel” – Lend-lease – concretizada no início de 1941). O potencial militar dos EUA (aquela altura, nada muito considerável) seria empenhado apenas na defesa hemisférica – defesa das águas domésticas no atlântico norte e apoio e liderança às políticas de defesa dos países latino-americanos.

Entretanto, a mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. De fato, os planos de mobilização industrial e militar já vinham sendo elaborados desde 1930 e examinaram detalhadamente a forma como o país organizaria a administração civil, as forças armadas e a indústria numa possível guerra generalizada. A base era a doutrina de que a gestão da economia e particularmente o controle da indústria nessa possível guerra seriam funções presidenciais por excelência. Essas funçôes seriam delegadas à agências executivas, em grande parte compostas por civis especializados e chefiadas por um staff de total confiança do chefe da nação. O planejamento antecipado foi uma boa solução: a idéia era de que o problema, quando e se surgisse, provavelmente seria maior do que qualquer serviço ou departamento, sozinho, poderia dar conta. Em 1940 a equipe presidencial convocada já dispunha de um projeto que previa os métodos e instrumentos de controle econômico em tempo de guerra, a partir de listas de necessidades e prioridades para instalações, indústrias e produtos, para o controle do comércio exterior, e até mesmo para o estabelecimento de empresas estatais de emergência, controle de preços e da opinião pública.

Em maio de 1940, o Roosevelt lançou, numa mensagem dirigida ao Congresso dos EUA, o desafio dos “50 mil aviões” (uma Força Aérea de 50.000 aeronaves e a produção de outras 50.000 a cada ano) e encaminhou um pedido de dotação orçamentária suplementar para a defesa. Paralelamente, montou, no gabinete presidencial, o “Escritório de Gerenciamento de Emergências”, que deveria coordenar o esforço de mobilização. A “Comissão Consultiva de Defesa Nacional”, mais ampla, avaliaria os problemas de mobilização de recursos e prepararia planos abrangentes para vários estágios do processo. Essa comissão se não durar um ano, e foi sucedida pelo “Escritório de Gestão da Produção”, também logo dissolvido. O clima político não foi lá muito receptivo a uma mobilização em escala industrial e a população também olhava a guerra como um problema europeu.

A mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. Se por um lado o ataque aéreo contra Pearl Harbour  mobilizou a população para a causa da guerra, por outro o problema mostrou-se ainda maior do que tinha sido imaginado: o teatro do Pacífico exigia intervenção imediata, os ingleses queriam mais do que ajuda econômica e os soviéticos, tornados aliados a partir de junho de 1941, passaram a clamar pela abertuda de uma “segunda frente”. A mobilização da sociedade passou a ter como objetivo aguentar o tranco até a montagem de forças armadas grandes o suficiente para intervir em todas essas frentes, mas seriam necessários, para começo de conversa, algo em torno de 1.o00.000 de efetivos no Exército, 50.000 na aviação e 300.000 na marinha,  e num prazo de aproximadamente seis meses.  É claro que as forças armadas precisariam de equipamentos e munições, e essas teriam de proceder das fábricas que as próprias forças armadas iriam esvaziar. Inicialmente, se pensou em uma convocação que preservaria as áreas mais sensíveis da produção. Foram precisos apenas poucos meses para que ficasse evidente: não ia dar certo. A sucessão de vitórias japonesas, ao longo da primeira metade de 1942, e a campanha dos submarinos alemães contra a navegação mercante na costa oriental dos EUA mostrou que a magnitude da convocação exigiria soluções radicais.

Pouco antes, o o governo começara a encarar seriamente a convocação de mulheres para ocupar os postos de trabalho que iriam vagar com a incorporação dos homens adultos às forças armadas. As pesadas baixas iniciais mostraram com clareza e crueza a crise em que o país se via mergulhado. Em função da propaganda, não seria difícil fazer com que as mulheres aderissem ao esforço de guerra, mas não se poderia esperar que elas o fizessem de forma absolutamente espontânea, como os homens estavam fazendo no que tange ao alistamento nas forças armadas. Seria preciso apelar ao sentimento patriótico das mães e esposas norte-americanas, e isto teria de ser feito através de grandes campanhas publicitárias.

O governo norte-americano passou a montar, a partir de 1942, com a assistência de grandes agências, sucessivas campanhas que conclamavam as mulheres a assumir,  na indústria, funções até então vistas como masculinas. Tais funções seriam indicadas tais funções como “postos de combate” de um “frente interna” (em inglês, Homefront) que exigiria a participação de todos. É interessante observar que a campanha We can do it!, lançada em fevereiro de 1942 – quer dizer, logo no início da guerra –, mostra uma mulher jovem, com o rosto determinado, fazendo um gesto tipicamente masculino. Era a  primeira cara de Rosie, the Riveter (“Rosinha, a rebitadora”), personagem que se tornou o símbolo da mulher norte-americana durante a 2ª GM.

A imagem foi criada pelo artista J. Howard Miller, por encomenda do Comitê de Coordenação da Produção de Guerra da empresa The Westinghouse Company, indústria eletroeletrônica produtora de peças para aeronaves de combate. A mais famosa dessas imagens foi baseada em uma fotografia feita numa fábrica da empresa em Michigan, e retratava uma trabalhadora de 27 anos de idade chamada Geraldine Doyle. Nessa época, a personagem não era chamada de “Rosie”, nome que, por incrível que pareça, só foi adotado no final dos anos 1970, ou seja, mais de quarenta anos depois do lançamento.

A campanha teve enorme sucesso e o objetivo inicial foi rapidamente cumprido: a indústria conquistou a força de trabalho feminina. O setor aeronáutico viu crescer de forma notável o número de mulheres em suas linhas de produção. Mais de 310.000 delas trabalhavam nessa indústria em 1943, representando mais de 65 por cento do total da força de trabalho dessa indústria. A magnitude desse porcentual não precisa ser frisada: em 1939, cerca de um por cento da mão de obra dessa indústria era composta por mulheres. A indústria de munições também passou a recrutar trabalhadoras em grande número.

O sucesso feminino nas novas atividades devia-se, em parte, às características do trabalho desenvolvido. De fato, fabricar aviões ou preparar cartuchos não exigia força física, já que a força propriamente dita era feita pela máquina. A indústria moderna, organizada no final do século 19, colocava os trabalhadores como operadores de máquinas, e o conjunto máquina-operador executava pequenas tarefas de forma mais ou menos automatizada e altamente repetitiva. O conjunto dessas tarefas resultava no produto acabado. Os movimentos realizados eram poucos e simples (apertar um gatilho ou acionar uma alavanca ou um pedal, por exemplo), em posições próximas uma das outras. O operário não precisava se deslocar, ou o fazia em extensões muito pequenas, visto que o objeto do trabalho é que se deslocava, ao longo de uma linha. Ferramental acionado por força eletromecânica, pneumática ou hidráulica tinha de ser deslocado até um ponto bastante preciso dentro de um objeto maior. Dessa forma, o operário não precisava entender plenamente o que estava fazendo, desde que seguisse a risca uma série de instruções. Caso tivesse dúvidas, remetia-se a um esquema gráfico que indicava por imagens ordenadas sucessivamente o que tinha de ser feito. Um operário desses precisava ter um grau de instrução relativamente baixo, e o treinamento era muito fácil, aprendido na própria linha de montagem. O decorrer do trabalho era supervisionado o tempo todo por capatazes – estes, em geral, do sexo masculino. E, apesar da admitida necessidade da força feminina para o esforço de guerra, isto não significou vantagens salariais: dificilmente uma operária ganhava mais do metade do ordenado pago a um operário. Os capatazes quase nunca eram mulheres, e os cargos de supervisores e gerentes eram virtualmente fechados ao sexo feminino.

Conforme as mulheres se juntavam às linhas de produção, as campanhas começaram a mostrar as qualidades que se esperava de uma “combatente da frente interna”: forte, disciplinada, dedicada. Masculinizada, mas sem perder certas características femininas. Essas campanhas começaram a apresentar, a partir de maio de 1943, a nova “Rosie”. Esse redesenho da personagem aparece com uma ilustração do artista gráfico Norman Rockwell, na capa da revista Saturday Evening Post. Rockwell é conhecido por seus desenhos altamente realistas do americano comum, apanhado em cenas cotidianas. Sua “Rosinha”, entretanto, incorpora todos os atributos geralmente atribuídos aos operários industriais, inclusive o macacão de zuarte (um tecido de mescla de algodão, juntando fios mais grossos e mais finos, muito parecido com os blue-jeans), que os fazia serem chamados de “colarinhos azuis”, em oposição aos “colarinhos brancos” da administração. Ela é mostrada na hora do almoço – um sanduiche, que pode ser consumido rapidamente nos vinte minutos de intervalo que as operárias tinham para almoçar. É interessante observar que a cena, um verdadeiro discurso patriótico feito com imagens, incorpora a “arma” da “combatente”: um rebitador, mas de proporções bem maiores do que aqueles usados na indústria de equipamento militar (que tinha aproximadamente as proporções de uma furadeira elétrica de impacto), uma enorme bandeira dos EUA e, debaixo dos pés de Rosinha, um exemplar do “Mein Kampf”, o panfleto de Hitler transformado em livro sagrado dos nazistas. O mais interessante nessa imagem são as proporções masculinas que Rockwell atribuiu à sua personagem, a começar pelos braços musculosos. Alguns intérpretes afirmam que essa imagem tem atributos das imagens religiosas compostas durante a Renascença, e que a composição teria sido intencional, feita para dar tons religiosos à mensagem patriótica buscada com a composição.

As campanhas publicitárias prosseguiram por toda a Guerra. As revistas ilustradas estampavam reportagens fotográficas com “Rosinhas da vida real”: uma rebitadora da General Motors na cidade de North Tarrytown, NY, que instalou 3.345 rebites em um bombardeiro Avenger, merecendo pelo feito uma carta de agredecimento do presidente Rooselvelt. Essas “mulheres da vida real” passaram a merecer atenção da imprensa não propriamente como trabalhadoras empenhadas em funções industriais regulares, mas como ocupantes de funções ”masculinas” num momento atípico em que os homens não estavam disponíveis::

Atualizando os velhos camaradas e uma notícia estapafúrdia::

Estava eu inventando desculpas para não começar a trabalhar (não vivo do causa::, infelizmente, mas quem sabe um dia…), quando tive a idéia de visitar o ótimo blogue do Comandante James Bond (i.e. MBSantigo Jr), e tive a surpresa de descobrir que, mais uma vez, o Comandante mudou de endereço. Não tem problema – dentre os que conheço, ainda é o melhor redator de blogues: elegeu um objeto inusitado, os temas abordados são interessantes e sobretudo, os textos são muito bem escritos e complementados. O comandante Bond sempre gostou muito de falar de armamento, e fala bem, principalmente porque consegue a proeza de colocar bom humor num assunto que pode ser tudo, menos bem humorado. Esta característica sempre me desperta uma vontade danada de comentar os postos específicos, e, desta feita, encontrei dois deles. Não que discorde do conteúdo, mas porque fico achando que poderia, quem sabe, acrescentar alguma coisa (é inveja, mesmo  – quem quiser dar uma olhada, clique aqui e aqui, leia o texto e, em seguida, vá até os comentários). O fato é que, procurando dados para complementar meus comentários, acabei dando de cara com um que achei extremamente interessnte. Pois é – passo ao assunto, com o devido reconhecimento do comandante Bond::

É fato que a União Soviética foi, durante as décadas posteriores à 2ª GM, foi a maior produtora de armas do mundo. Os EUA ficavam em segundo lugar, mas não exatamente porque abominem as armas e amem a paz, mas porque seus aliados, notadamente Inglaterra (terceirona) e Alemanha (a partir dos anos 1960, quarta, com honras), as produziam em quantidades mais do que suficientes. A URSS, ao contrário: tinha de equipar seus mais de três milhões de militares e mais de um milhão de policiais militarizados, e suprir boa parte das necessidades dos cerca de dois milhões de militares de seus aliados do Pacto de Varsóvia.

A questão é que, desde antes da guerra, os planejadores soviéticos, seguindo as diretrizes emanadas da ditadura stalinista, colocaram muita ênfase na indústria militar. Não é por outro motivo que, em 1939, os soviéticos tinham mais tanques, peças de artilharia e aeronaves do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha. Por sinal, a Alemanha não seria termo de comparação – as FFAA soviéticas eram três vezes maiores do que as alemãs.

Foi o planejamento centralizado, implantado no final dos anos 1920, que permitiu, através do direcionamento dos recursos disponíveis, fortalecer certos ramos da produção em detrimento de outros, e certas regiões, em detrimento de outras. Numa economia capitalista, as demandas do mercado indicam para onde se voltam os investimentos e a competição determina o dinamismo econômico; numa economia socialista, os investimentos são decididos de antemão, segundo o que seriam, na opinião dos planejadores, as necessidades da sociedade como um todo. A “coletivização da agricultura”, uma espécie de reforma agrária feita à ponta de baioneta, é um exemplo radical de como funcionou essa coisa. A reorganização da agricultura liberou, em cinco anos, recursos que se encontravam presos, de forma arcaica e improdutiva, nas inumeráveis propriedades pertencentes a milhões de camponesses, que não tinham sido atingidos pela Revolução de 1917 e ainda continuavam numa economia de base capitalista e especulativa. Isso significou que terras cultiváveis, gado, fontes de água, áreas potencialmente produtoras de madeira e minerios, foram desapropriadas, e a mão-de-obra excedente, desalojada pela racionalização da produção agrícola, extrativista e minerária, foi deslocada para outros setores da produção, notadamente a indústria. Esses recursos entraram no circuito econômico repentinamente, e permitiram um notável surto econômico. Por outro lado, e ao mesmo tempo, esse processo provocou uma verdadeira epidemia de fome em regiões que, apesar da miséria endêmica, não conheciam a escassez de comida. Os “Planos Quinquenais”, que aconteceram junto a esse processo, estabeleceram metas de produção, que eram pensadas paralelamente às metas econômicas.

Deu certo? Deu: em uma década, o PIB sovietico cresceu mais de cem por cento. O dinamismo soviético impressionou até mesmo grandes capitalistas norte-americanos e europeus. Por outro lado, o Estado determinava tudo (o que mais tarde revelou-se um problema), inclusive como seriam direcionados os investimentos públicos. A guerra enfrentada entre 1918 e 1920, que envolveu inclusive a participação de tropas estrangeiras, e vencida pelo recriado Exército Vermelho, organizado por Trotsky e por alguns oficiais militares convertidos ao socialismo, convenceu os novos governantes que, antes de qualquer coisa, a URSS precisaria de armas, e que não as conseguiria do exterior. Assim, desde antes da implantação dos “Planos Quinquenais”, foi posta grande ênfase naquilo que, hoje em dia, chamamos “indústria de defesa”. Depois da 2ª GM, a URSS, com grandes planos expansionistas, não chegou a desmobilizar suas enormes FFAA, até pelo contrário. O setor militar foi reforçado, e, em decorrência disto, também outros setores relacionados, particularmente a pesquisa básica, a pesquisa aplicada, as universidades e os laboratórios especializados. A vantagem inicial soviética na corrida espacial, por exemplo, deveu-se à pesquisa desenvolvida para conseguir vetores funcionais que levassem até o território norte-americano as bombas nucleares conseguidas no início dos anos 1950. Os lançamentos de satélites e de “cosmonaves” conduzindo animais e, pouco depois, homens, deveram-se aos testes com sistemas que permitissem calcular de modo eficaz as trajetórias e pontos de impacto dos vetores, bem como monitorá-los e influir nas diversas fases do vôo. Ou seja: a corrida espacial é um produto da corrida armamentista que caracterizou a Guerra Fria. A superioridade inicial dos soviéticos devia-se a necessidades militares prementes, as quais os norte-americanos, inicialmente, pensavam não ser preocupação.

O fato é que a sociedade soviética era, bem mais que as ocidentais, uma sociedade altamente centralizada e burocratizada – quer dizer, a aplicação das decisões implicava numa capilaridade perversa (a expressão é do teórico alemão oriental Rudolf Bahro, no livro Crítica ao Sorex – Socialismo Realmente Existente). Segundo esse teórico, que conseguiu a proeza de ser dissidente nas duas Alemanhas, numa ordem dominada pelo aparato do estado e do partido, que monopoliza todo o poder, e que sufoca a vitalidade da ordem econômica e social, por sufocar a prática política, a posse dos meios de produção significou, simplesmente, seu controle pela máquina do estado.  Dizendo de outra maneira, o planejamento centralizado poderia até ser eficiente para certos aspectos da organização econômica, mas não chegou a resolver certos nós da economia propriamente dita.

Um desses nós é que, no capitalismo, a competição determina o dinamismo econômico: as indústrias querem, em última análise, lucrar, e, independente das explicações teóricas, na prática isto só acontece se os produtos forem vendidos. A inovação acaba sendo fator determinante no processo como um todo, pois possibilita melhores produtos para enfrentar a competição. Na sociedade socialista, em princípio, o Estado seria o dono de tudo, o que tornaria quase desnecessária a competição. Existia, é claro, um “mercado socialista”, balizado – pelo menos segundo os teóricos socialistas – pelas reais necessidades da sociedade. Na prática, o que aconteceu, de fato, é que o “planejamento socialista” criou uma burocracia gigantesca, cuja função última era manter o poder político. Boa parte desse enorme conjunto de funcionários acabava por duplicar (quando pouco…) o trabalho das outras partes, e gerava, no processo, enorme ineficiência. Não é que faltasse recursos – estes existiam, até em boas quantidades, mas eram mal distribuídos ao paradoxo; não é que a mão de obra fosse de baixa qualidade – o problema era a política de “pleno emprego socialista”, que impedia o gerenciamento eficaz do trabalho; não é que os produtos fossem mal concebidos – o problema é que entre a prancheta e a fábrica, o processo era de tal forma complexo, confuso e desorganizado que acabava sendo mais simples colocar um satélite em órbita do que produzir bicicletas de boa qualidade.

Tudo acabava na dura realidade de que os países socialistas – URSS à frente – apesar dos feitos no campo social, não conseguiam nem chegar perto dos padrões econômicos do Ocidente, embora tivessem igualado e, em certos casos, até superado os ocidentais em áreas como a educação, as ciências puras, certos ramos da medicina, da produção agrícola, e por aí vai. Uma questão discutida até a exaustão entre os comunistas de todo o mundo era o motivo da União Soviética não conseguir igualar a qualidade de vida dos países capitalistas em coisas simples como, por exemplo, a distribuição de bens de consumo. As explicações por vezes chegavam a ser pueris – “na URSS as pessoas são mais conscientes da necessidade de  fazer sacrifícios” ou “na URSS todos tem suas necessidades resolvidas, de modo que não sobra muito para os gastos conspícuos e suntuários”. O fato que não podia ser amplamente debatido é que o ambiente de liberdade não apenas incentivava a competitividade como a criatividade. No Ocidente, não eram apenas os artistas que podiam fazer o que bem entendessem, mas também os pensadores e cientistas. Na URSS, a partir do stalinismo, o estado se metia a determinar até mesmo o que era “arte socialista”, e chegaram a absurdos como tentar estabelecer a existência de uma “biologia dialética”, em oposição à uma “biologia burguesa”. O fato é que nem todo mundo se dispunha a achar aceitável o horrível “realismo socialista” ou tentar encontrar a dialética na natureza, e daí, milhões de pessoas tornavam-se pouco confiáveis aos olhos dos detentores do poder. O resultado é que o estado desconfiava de tudo e a sociedade era estritamente vigiada. Após a desestalinização da era Khrushchev (1953-1964), certas bobagens, embora não admitidas oficialmente, passaram ser toleradas, como o contrabando de músicas dos Beatles – que eram extremamente populares entre a juventude soviética -, o uso de calças blue-jeans fabricadas a partir de macacões distribuídos aos operários e a leitura de histórias em quadrinhos francesas e alemãs. Mas os aspectos falhos do socialismo não podiam ser debatidos, pois perigava de se chegar até os nós do regime, tais como o excesso de centralismo, a burocracia como entrave ao planejamento e a má organização econômica como razão para a incapacidade distributiva. A ideologia, veiculada através do aparelho de estado acabava por explicar tudo. Claro que havia ideologia na sociedade ocidental, mas esta transitava dentro de limites bem mais estreitos que na União Soviética e o amplo debate, por vezes autofágico, tornava mais difícil o controle da opinião – e da criatividade.

A ineficiência soviética manifestava-se até mesmo nas áreas do mais alto interese do estado. Um dos ramos da indústria que, internamente, era menos ineficiente era a indústria de defesa. Durante a 2ª GM, a URSS deu uma demonstração de vontade coletiva e determinação que certamente será difícil de encontrar em outros eventos, ao longo da história. Por outro lado, é sempre preciso esclarecer que, não fosse o apoio dos aliados, notadamente dos EUA, a URSS provavelmente teria sucumbido. Mas o apoio aliado se deu principalmente em termos de alimentos, matérias primas e insumos (por exemplo, enorme quantidade de gasolina de aviação e lubrificantes de vários tipos, bem como produtos químicos diversos foram cedidos à União Soviética ao longo da guerra). Os equipamentos bélicos (tanques, aeronaves, armas pesadas e individuais, munição) e outros equipamentos foram fabricados pela indústria soviética, cuja eficiência e capacidade de improvisação tornaram-se quase lendários.  Terminada a guerra, as forças soviéticas tinham um efetivo de aproximadamente 15 milhões de homens e mulheres (e crianças, já que adolescentes de até 13 anos foram convocados), mas estavam também equipadas com 40.000 tanques, 80.000 veículos blindados de todos os tipos, 100.000 canhões de todos os tipos, 700.000 veículos não protegidos, cerca de 30.000 aeronaves de todos os tipos, aproximadamente 300 belonaves de primeira linha (dentre as quais 150 submarinos) e 2.000 outros navios de uso militar. Os especialistas concordam que oitenta por cento desta quantidade saiu de linhas de produção soviéticas. Outras fontes dizem que boa parte dos caminhões e outros veículos não protegidos foi também fornecida pelos EUA. O importante, no caso, é que quando as hostilidades se encerraram, praticamente os únicos setores da produção soviética que estavam plenamente organizados eram aqueles voltados para suprir as necessidades militares. Existiam instalações industriais gigantescas, organizadas segundo um processo semelhante ao fordismo, denominado “stakhanovismo“, capazes de produzir em escala comparável a do Ocidente.  Um exemplo espetacular é a cidade de Chelyabinsk, sítio de inúmeras indústrias metal-mecânicas e químicas instaladas nos anos 1930. A partir de 1941, a lugar começou a receber as plantas industriais responsáveis pela produção do tanque médio T34, e rapidamente as indústrias locais voltaram-se para atender exclusivamente ao fabrico do blindado, que, durante toda a guerra, chegou a números de quase 50.000 unidades.

Uma dessas fábricas gigantes é a IZH, também conhecida como “Izhmash”. Situada na cidade de Izhevsky, esta indústria metal-mecânica foi fundada em 1807 e estatizada em 1928. Sempre associada à fabricação de armas leves, Izhmash tornou-se, durante a 2ª GM, a principal fornecedora de armamento individual para os expercitos da URSS. na segunda metade dos anos 1940, com as submetralhadoras descontinuadas, a empresa voltou-se totalmente para a produção do fuzil de assalto Kalashnikov AK47 e todas as suas variantes. Calcula-se que, dos 80 milhões de AKs existentes (algumas fontes falam em 100 milhões), algo em torno de 55 milhões tenha saído das linhas da IZH. Desde a guerra do Vietnã, essa arma encontra-se nas mãos de praticamente todos os combatentes de guerrilha e milicianos do mundo, além, claro, de milhões de combatentes e policiais regulares (causa:: já publicou um longo estudo sobre essa venerável família de armas de infantaria).

Qual a razão da existência de tantos AKs? Segundo especialistas da própria Rússia, o temor perene de uma guerra com o Ocidente, principalmente a partir dos anos 1950, fez com que a URSS investisse na indústria de defesa enorme quantidade de recursos. Depois do fim da 2ª GM, enquanto o Ocidente, em particular a Europa, procurava desmobilizar rapidamente suas FFAA, a URSS manteve as dela, como forma inclusive de manter quietas as populações dos países, em sua esfera de influência, tornados socialistas. Desde o período stalinista, as forças armadas soviéticas, por qualquer padrão, eram, mesmo em tempo de paz, gigantescas. Em caso de guerra – guerra que, segundo as lideranças, era sempre iminente – o país deveria ser capaz de mobilizar rapidamente milhões de reservistas, o que significava dar-lhes armas e equipamentos muito rapidamente. Foi assim que a produção de equipamento bélico cresceu de modo exponencial. Um motivo que deu argumentos às lideranças comunistas foi a Guerra da Coréia. Embora os chineses tenham se saído bastante bem em garantir a sobrevivência do regime norte-coreano, pareceu claro que apenas uma grande quantidade de tropas mobilizadas rapidamente e se deslocando em alta velocidade poderia compensar a arrasadora superioridade aérea do Ocidente. Ainda assim, a vantagem chinesa, conseguida conseguida através da rápida intervenção de mais de 300.000 “voluntários” através da fronteira, dependeu de um fluxo constante de armas e munições, inclusive várias centenas de aeronaves inicialmente pilotadas por soviéticos depois, por chineses. A quase totalidade das armas era proveniente dos enormes estoques que tinham “sobrado” da “Grande Guerra Patriótica” (como o soviéticos chamavam a 2ª GM): submetralhadoras PPSh, tanques T34, canhões ZIS-3 de emprego geral, foguetes Katyusha montados em caminhões GAZ. Tal procedimento não deve provocar estranheza, porque os EUA fizeram exatamente a mesma coisa: lutaram com os estoques de armas estocadas desde a 2ª GM. Apenas a partir da metade do conflito algumas novidades foram sendo introduzidas. Só que as novidades soviéticas dificilmente chegavam aos seus aliados orientais, em função da desconfiança que sempre atravessou as relações sino-soviéticas.

Como já vimos aqui mesmo no causa::, o AK47 surgiu em 1947 mas levou pelo menos dez anos até chegar às mãos das forças regulares em números consideráveis. A partir de 1956, a produção começou a crescer, conforme a arma passou a equipar as FFAA dos países satélites, geralmente produzidas pela própria indústria local. Ainda assim, ao longo de trinta anos, uma quantidade astronômica saía da Izhmash, boa parte da qual acabou em depósitos. Esses depósitos foram parcialmente esvaziados ao longo da Guerra do Vietnã – ao contrário do que parece, a maioria das armas utilizadas pelo Vietnã do Norte era de origem soviética, e não chinesa. Bem antes de 1974, quando começou a difusão do AK74, as armas estocadas já eram distribuídas para exércitos de países do Terceiro Mundo, nos quais a URSS buscava influência. Assim, todas as nações do Oriente Médio receberam grandes quantidades do fuzil soviético e algumas delas, como o Egito se tornaram capazes de produzir cópias autóctones; a Índia recebeu enormes quantidades, e depois passou a fabricá-las localmente; Bangladesh poderia não ter lá muita comida para seus 140 milhões de habitantes, mas tinha muitos AKs fornecidos pela URSS e pela Índia; Iraque, Sudão, Nigéria, Angola, Moçambique, Rodésia, Iran, etc., etc., beberam todos nas enorme capacidade soviética de produzir AKs de todos os tipos. Os movimentos insurrecionais também, mas a maior parte das armas soviéticas que lhes chegavam era fornecida através de traficantes, que constituiam uma espécie de versão eficiente da tal “capilaridade perversa”.

Com a crise da URSS, o fim da política de disputa global com os EUA e a crise econômica que comprometeu todos os ramos do estado soviético, a Rússia já não tinha nem disposição nem recursos para financiar exércitos e movimentos insurrecionais pelo mundo. Ainda assim, os AK, fossem 47 ou 74 continuaram chegando em grandes quantidades aos interessados. Por outro lado, a incapacidade russa em subsidiar as vendas as fez cair notavelmente, isto somando-se ao fato de que o ex-bloco soviético também começou a desovar seus próprios estoques. Como a Izhmash não parou de produzir AK74 (o modelo 47 teve sua produção muito reduzida a partir dos anos 1980, mantida apenas uma linha voltada para exportação), a Rússia continuou a comprá-los. O que faz sentido, já que, na época, as armas de infantaria eram praticamente o único produto da IZH, que também produzia (e continua) outras armas militares, armas esportivas, carros e motocicletas. O fato é que a perda do mercado cativo da União Soviética criou enormes problemas para a empresa, e a Rússia continuou com os subsídios da época do comunismo.

O problema é que a Rússia não podia dar-se ao luxo de deixá-la falir ou ser comprada, a preço de banana, pela diretoria, como aconteceu por exemplo, com a indústria petrolífera e parte – a parte boa, lógico – da indústria química e da indústria mecânica). Izhmash, acredite se quiser, é agora praticamente a única fábrica de armas de infantaria da Rússia, pois as “filiais” que eram mantidas nas ex-repúblicas – por motivos exclusivamente políticos – passaram à propriedade dos novos governos. A ineficiência do processo mostrou, então, sua face real: não havia planejamento e  a direção da empresa insistia em manter a linha AK em produção sem levar em consideração a redução da demanda. A produção era mantida artificialmente alta, pois fossem quais fossem os números, as FFAA e as forças policiais as compravam, por determinação do governo.  Para piorar as coisas, o AK74 e suas variantes se mostravam ultrapassados desde os anos 1980. Diante da demanda das FFAA por uma nova arma, a empresa insistia em apresentar modelos que não passavam de variantes da família AK, que eram sistematicamente recusados pelas forças armadas.

No momento, a IZH está trabalhando em uma nova versão do AK, destinada a substituir todas as anteriores – esta seria denominada AK12. Segundo a empresa, os testes de campo, em unidades operacionais do exército de da marinha russos deverão se iniciar antes do fim do corrente ano. A questão é que Ministério da Defesa da Rússia tem mostrado muito pouco interesse pela nova arma, exatamente em função do fato de que se trata de uma maquiagem sobre o velho AK74 – a versão do AK para o cartucho 5.45X39 mm, que já acumula 38 anos de serviços. Embora a empresa – que atravessa sérias dificuldades desde os anos 1990 – afirme que se trata de um novo armamento, adaptado às demandas das modernas forças armadas e do moderno campo de batalha, projetada sem abandonar as qualidades que tornaram a família AK sinônimo de fuzil de assalto, especialistas têm dito que, de fato, se trata de um projeto muito parecido com o do AN94 Nikonov, um aperfeiçoamento do AK74 projetado nos anos 1980 por um engenheiro da própria IZH, e que acabou distribuído apenas para forças especiais. O que parecia eficiência era, um planejamento cronicamente ineficaz arraigado por todo o estado soviético. Além do “caso Nikonov”, houve também a maluquice do AEK.

Trata-se do fuzil de assalto AEK971, desenvolvido pela  empresa Usina de Fabricação de Máquinas Kovrov, ligada ao ateliê engenheiro S.I. Koksharov. A arma foi desenhada para participar do concurso “Abakan”, no final dos anos 1980, vencido pelo Nikonov. Apesar de ter sido desqualificado, o AEK971, que, de fato, já estava em produção, foi oferecido às forças policiais e para exportação. No início do século 21, pequenos lotes foram fabricados por encomenda do Ministério dos Negócios Interiores, que tinha suas próprias tropas, um grupo de forças especiais (Spetsnaz) especializadas em lidar com distúrbios civis, que teve importante papel em garantir o governo Gorbatshev, quando da tentativa de derruba-lo. A arma não “colou” de jeito nenhum, e quando a Krokov foi reestruturada, em 2006, deixando de fabricar produtos militares, o AEK acabou de vez, por não ter compradores nem usuários. Embora o governo tenha ordenado que o maquinário usado para a produção militar fosse transferido para outra empresa, na mesma cidade, a diretoria da AEK, tendo “adquirido” a fábrica, recusou-se a executar a transferência, sob a alegação que se tratava de patrimônio privado. O AEK, como não podeia deixar d ser, era outro clone maquiado do AK74.

O fato é que se fala cada vez mais, nos círculos profissionais de defesa da Rússia, na necessidade de um fuzil de assalto totalmente novo. Como o sistema Future soldier já está sendo discutido lá, tanto quanto nos EUA, França, Alemanha, Inglaterra e até mesmo no Brasil, a questão do armamento individual torna-se premente. Mas o que fazer com as quantidades oceânicas de AKs em depósito? Planejadores do Exército declararam, ano passado, que a quantidade de AK74 era “mais de dez vezes superior às necesidades das forças armadas e policiais pelos próximos anos”, citaram números  de 17 milhões de exemplares. Em função desse excesso, e do desenvolvimento, em curso de uma nova arma individual, que deverá substituir todo o armamento das FFAA russas, a aquisição de unidades novas de fábrica foi interrompida, por determinação do Chefe do estado Maior Geral das FFAA russas, general de exército Nikolai Makarov. Por enquanto, a “nova” arma é o AK200, que não passa de outra versão do AK74, com algumas novidades visando fazê-la parecer mais moderna, e já pensando na provável recusa do AK12::

Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

E, não é por nada, não, um senhor drops… O texto que se segue é uma tradução da apresentação de uma obra monumental, nuncapublicada em nosso português: A world at arms: A global history of World War II, de Gerhard L. Weinberg. Nascido na Alemanha em 1928. o professor Weinberg serviu como tenente na Inglaterra em 1945, e depois permaneceu um ano no Japão, até 1947, quando deu baixa. Cursou Estudos Sociais na Universidade Estadual de Nova Iorque, em Albany e, em 1951, obteve seu doutorado, na Universidade de Chicago. Desde então, tornou-se um dos grandes especialistas no tema, e seu principal argumento é que a Segunda Guerra Mundial ou é tratada como um todo de partes totalmente articuladas, ou será abordada como narrativa das operações militares. Essa perspectiva global e multidimensional permite ao estudioso perceber como se integravam as diversas regiões do globo e como a tomada de decisões, nas áreas centrais, muitas vezes tinha de levar em consideração regiões totalmente afastadas e personagens aparentemente não muito envolvidos no conflito. É de Weinberg também a idéia de que, sem a perspectiva global, a guerra seria reduzida a conflitos localizados, por mais sangrentos que tenham sido.

O redator aqui lê Weinberg já faz 15 anos, desde que adquiriu, por 66 dólares a edição hardback (um dinheirão, na época) do calhamaço de 1177 páginas (a edição de bolso custa bem mais baratinho). Claro que, desde então, nunca acabou a leitura e, volta-e-meia, é assombrado por idéias de fazer uma tradução – idéias que, invariavelmente, desaparecem diante dos mais de dois quilos que pesa o volume…::  

Quando voltar para casa/Fale a eles sobre nós e diga:/Por seu amanhã /Lhes demos nosso hoje.

Este texto está inscrito num memorial aos soldados britânicos que foram mortos em uma das mais desesperadas e menos conhecidas batalhas da Segunda Guerra Mundial: a luta em torno da cidade de Kohima, na Índia Oriental, não muito longe da fronteira com a Birmânia. A partir desse lugar o exército japonês tinha iniciado a marcha em direção a  Delhi, em 1944. Em Kohima , soldados ingleses e indianos derrotaram uma força japonesa, que era complementada por alguns indianos.  Estes  acreditavam que os japoneses tratariam o povo de seu império colonial tal como tratavam os coreanos – muito melhor do que os britânicos tratavam seus próprios colonizados. O líder daqueles indianos que desejavam a vitória do Japão e Alemanha sobre a Grã-Bretanha,  EUA e  União Soviética, era um homem chamado Subhas Chandras Bose. Ele tinha voado da Índia até a Alemanha, através da União Soviética durante o período do Pacto Nazi-Soviético de Não-Agressão e tinha tido a oportunidade de ver pessoalmente a “maneira  gentil” como os alemães tratavam aqueles que conquistavam. Em 1943 os anfitriões o puseram num submarino e o despacharam para o Oceano Índico, onde foi transferido para um submarino japonês, no qual completou a jornada para a Ásia Oriental.

Essa série de eventos interrelacionados pode servir para ilustrar porque parece apropriado tentar escrever sobre a Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva global. Para as origens desse vasto conflito é possível e apropriado buscar um tema que permita ligar diversas histórias complicadas; parece convincente que a política externa da Alemanha de Hitlerfornece tal tema.

A despeito das ambições conflituosas, rivalidades e ideologias das potências mundiais nos anos de 1920 e 1930, é seguro estabelecer que a excessão da Alemanha, nenhuma nação européia considerava como concebível que outra guerra mundial fosse meio apropriado de resolver os problemas que confrontavam. Guerras locais, movimentos agressivos específicos ou tentativas de subversão e erros de cálculo que conduzissem a hostilidades – tudo isso era concebível, e de fato acabou acontecendo. Mas sem a tomada de iniciativa da Alemanha, outro holocausto de alcance mundial teria sido inconcebível para os contemporâneos de todos os países – além de, restrocpectivamente, inimaginável para qualquer historiador. Desse modo, o curso da política externa da Alemanha fornece o mais óbvio princípio organizador para qualquer história das origens da Segunda Guerra Mundial.

Porem, uma vez que os alemães abriram, em setembro de 1939, as hostilidades, o conflito adquiriu sua própria lógica. As iniciativas alemãs dominaram seus primeiros estágios, mas mesmo naquela época, nem sempre seguiram do modo como tinham imaginado seus arquitetos. No verão de 1940 a guerra européia já tinha tomado forma muito diferente daquela que tinha sido confiantemente planejada em Berlim. E a entrada do Japão tornou ainda mais amplo o conflito, como ardentemente queriam e há muito clamavam, os alemães. Ao mesmo tempo, o ataque a Pearl Harbour alterou, de forma dramática, as dimensões e a natureza da guerra. Não fossem as vitórias alemãs de 1940, Certamente os japoneses nunca teriam expandido as hostilidades com a China, abertas por eles em 1937, tornando-as parte de um conflito mais amplo. Sem essas vitórias a luta na Ásia Oriental, ainda que terrível para todos os envolvidos e especialmente para os milhões de chineses mortos nela, teria continuado uma guerra localizada, como tinha sido a outra guerra entre o Japão e China, travada em 1894-95. Mas uma vez que o Japão decidiu estabelecer um novo império no sudeste asiático tinha chegado, nenhum dos participantes pode mais atuar na grande conflagração como teria preferido. Todos teriam de ajustar-se as necessidades – e mesmo aos terrores – do momento.

Em face da complexidade resultante da conflagração, parece impossível delineá-la como tema unidimensional. Por outro lado, muitas das narrativas existentes tratam a guerra de perspectivas curiosamente paroquiais ou compartimentando-a em diferentes áreas geográficas, que passam a ser tratadas como dependências uma das outras. Mas é uma característica da conflagração que tomou o mundo entre 1939 e 1945 que os eventos que a formaram tiveram lugar simuntaneamente em diferentes partes do globo; os líderes e os comandantes fizeram face, de modo simultâneo, a enorme variedade de decisões, e as repercurssões que teriam, em áreas distantes dos centros da crise, essas decisões, tinham de ser sempre levadas em conta.

É desse ponto de vista global que a Segunda Guerra Mundial deve ser abordada, enfatizando-se, em especial, as interrelações entre os diferentes teatros de guerra e as escolhas feitas pelas lideranças. Isso significa que os detalhes sangrentos do combate, do constante desafio do controle do mar e o interminável tédio das sistemáticas operações militares, repentinamente quebrado por situações aterrorizantes, pode ser eliminado, ou, no mínimo, obscurecido. Não é intenção, entretanto, colocar de lado os sacrifícios individuais e coletivos daqueles que, em todos os lugares e de ambos os lados, fizerem a guerra. 

Um problema adicional, e muito particular, parece afetar  grande parte da literatura sobre a Segunda Guerra Mundial. Os especialistas por vezes esquecem o fato de que aqueles que tiveram de fazer escolhas e tomar decisões, em ambos os lados, eram frequentemente influenciados pelas memórias da guerra precedente, de 1914-18, e não tinham- como nós agora temos – a menor perspectiva do que viria depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Eles tinham suas esperanças e seus temores, mas nenhum desses era, com certeza, daqueles que a análise retrospectiva faz surgir, quando se considera uma situação com muitas alternativas a considerar, todas elas repletas de riscos que dificilmente poderiam ter sido concebidos na própria época::

Cultura material militar::A linhagem AK::

No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56”. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56” foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56” era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1”. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56” original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::

Regras de área, bombardeios estratégicos, armas atômicas e, no meio, um digno cidadão japonês::

Dias atrás, o redator em férias, lendo um jornal, de papo para o ar numa rede, com um chapéu de palha na cabeça e uma limonada na barriga (bem, a maior parte disso é exagero…) teve a atenção chamada para a notícia da morte de Tsutomu Yamagushi. Esse japonês é um dos heróis aqui do blogue, pois foi protagonista de uma das mais dignificantes histórias de vida dos tempos contemporâneos. Com o coração de luto (por sinal, a humanidade deveria estar de luto…), o redator ficou matutando sobre a insânia da guerra nuclear, a única guerra que não pode ter vencedores (apesar das afirmações contrários de anões amorais-homicidas como Curtis LeMay e Edward Teller). Largando o chapéu de palha e pondo a limonada na geladeira, correu então para a Internet, pois esse evento merece algumas considerações. Aproveitem!::

parte1A única pessoa oficialmente reconhecida como sobrevivente dos dois ataques nucleares contra o Japão, Tsutomu Yamagushi, morreu no último dia 4 de janeiro, de um câncer no estômago (ao que parece, não provocado pela exposição à radiação). A história desse japonês de 93 anos beira às raias do absurdo, e poderia torná-lo, a depender do ponto de vista, ou um dos maiores sortudos ou um dos maiores azarados do século 20. Em 5 de agosto de 1945, Yamagushi, engenheiro empregado pelo conglomerado Mitsubishi, então com 39 anos de idade, tinha chegado a Hiroshima por razões de trabalho. No dia seguinte, a cidade foi atacada (se você lê inglês, vale à pena dar uma olhada neste artigo; se não ler, também vale…) pelo B29 Enola Gay, do coronel Paul Tibbets. O japonês se encontrava a aproximadamente três quilômetros do centro da explosão, que o deixou gravemente queimado. Tendo recebido socorro médico, e considerado em condições de se locomover, resolveu, em 7 de agosto, retornar a Nagasaki, a uns 300 quilômetros de distância, onde residia e trabalhava. Dois dias depois, um grupo de aviões liderados pelo B-29 denominado Bock´s Car, lançou a segunda bomba – exatamente lá. No momento da explosão, Yamagushi, em um escritório localizado a uns quatro quilômetros do “marco zero”, narrava à sua equipe de trabalho como tinha sido a explosão nuclear em Hiroshima. Desta vez, ele não ficou ferido, mas a confusão que se espalhou na cidade acabou por impedir que recebesse atendimento médico para as queimaduras da explosão anterior. Os curativos reduzidos a farrapos e os ferimentos infeccionados quase lhe custaram a vida. Depois da guerra, Yamagushi aos poucos tornou-se um entusiasmado crítico da posse e uso de armas nucleares por todas as nações, chegando a escrever um livro sobre sua experiência. Em 2006, ele e outros “duplos sobreviventes” foram apresentados em um documentário, projetado em sessão solene, nas Nações Unidas. Após a projeção, Yamagushi pronunciou veemente discurso contra a existência de armas atômicas, que ele pediu que fossem totalmente abolidas e proibidas, para o “bem do futuro”.

O redator já conhecia a história de Tsutomu Yamagushi, que, nos anos 1960, chegou a ser considerado personna non grata pelo governo dos EUA. Sua cruzada contra as armas atômicas talvez não emocionasse estrategistas empedernidos nos EUA ou na União Soviética, mas tocava qualquer ser humano dotado de um mínimo de senso moral. Em suas entrevistas, dizia coisas como “A razão pela qual eu odeio as armas atômicas é o que elas fazer com a dignidade dos seres humanos.”

O que uma explosão nuclear faz “com a dignidade dos seres humanos” é exatamente reduzi-los a nada, a “megamortes”, unidade que corresponde a um milhão de mortos num prazo menor que 48 horas (para termo de comparação, a 2a GM provocou 55 “megamortes” em quase seis anos de matança). Como começou tudo isso? Em diversas oportunidades, as pesquisas de causa:: levaram o blogue perto de concuir que a humanidade é maluca. Digamos que estamos um pouco mais perto. Vejamos o motivo…::

Cultura material militar::A linhagem AK::

Retôrno em grande estilo da seção favorita dos oito leitores… E por grande estilo, grande estilo mesmo: apresentaremos e destrincharemos a linhagem AK. Uma linhagem de grande tradição: “AK”, nas últimas décadas, quase virou sinônimo para “fuzil de assalto”, mesmo para aqueles que não sabem direito o significa a notação (se bem que quase todo mundo que o redator conhece consegue pronunciar calaxinicóvi…). Trata-se de uma das armas portáteis mais produzidas da história (se não a mais produzida…) – o que não é pouca coisa. Como se não bastasse, tem presença em quase todos os conflitos modernos, sejam esses convencionais ou assimétricos. Querem mais? Cinqüenta países produzem ou produziram alguma versão da linhagem AK. Querem ainda mais? Pois leiam o artigo – em 3 partes para que a diversão dure mais tempo!::

parte1O AK-47 (notação de Avtomat Kalashnikova) é um fuzil de assalto de fogo seletivo, mecanismo acionado por recuperação de gás, originalmente utilizando o cartucho *M1943 (7.62X39 mm). Sua primeira versão surgiu em 1947, na antiga URSS, embora sua adoção como arma-padrão do Exército Vermelho tenha levado mais de dez anos para se completar.

O projeto dessa arma começou a ser desenvolvido em 1944. Os leitores de causa:: já sabem que foram os alemães os primeiros a, na metade final da 2a GM, desenvolver o conceito de “fuzil de assalto”. Rememorando: a idéia de base é que, na guerra moderna, as trocas de tiros acontecem em distâncias curtas, em geral não maiores que 300 ou 400 metros. Por outro lado, a automatização do tiro em distâncias curtas indicava que a precisão podia ser posta em segundo plano, visto que a “cadência de tiro” (a quantidade de projetis lançados pela arma a cada liberação do mecanismo) tornava-se fator compensador. O infante moderno, segundo estudos realizados em 1948, pelo Exército dos EUA, atirava em movimento, com a arma a altura da cintura. Assim, os cartuchos de armas longas então em uso, tais como o .30-06 (7.62X63 mm) norte-americano ou o Mauser 7.92X57 mm IS alemão, com alcance útil de 800 metros, seriam excessivamente potentes, não permitindo o disparo em rajadas, a não ser em armas bastante pesadas e canhestras, como era o caso do *fuzil-metralhador BAR. Os alemães buscaram desenvolver um fuzil que incorporasse certas características das submetralhadoras, em uso desde os anos 1920: capacidade de disparar rajadas, carregadores de 30 até 35 cargas, fogo seletivo e alcance útil de 200 a 300 metros. A solução encontrada pelos alemães foi diminuir a carga e conseqüentemente, o comprimento do estojo do cartucho Mauser, o que levou ao surgimento da versão Kurtz (essa história está bem contada aqui mesmo em causa::).

De fato, a ideía alemã não era totalmente original (pelo menos a parte que diz respeito à automatização da repetição do disparo…), e seus antecedentes remontavam ao período anterior à 1a GM, quando na Itália, no Canadá e na Rússia surgiram fuzis capazes de disparar em rajadas ou em salvas simples, a partir de carregadores com certa quantidade de cargas. É muito citado como o avô dos fuzis de assalto a arma projetada pelo major italiano Amerigo Cei-Rigotti, no final do século 19. Essa arma utilizava um cartucho de 6.5 mm, o Carcano, de de média potência, e foi a primeira conhecida a usar o princípio de recuperação de gás. Entretanto, o Cei-Rigotti apresentou, ao longo de seu desenvolvimento, diversos problemas que não chegaram a ser resolvidos. Na mesma época, o ateliê austríaco Mannlicher chegou a projetar uma carabina automática em torno do calibre experimental 7,65X32 mm, de fato redesenho de um cartucho de pistola. Essa arma não passou do estágio de projeto. Outra arma a antecipar o conceito foi o fuzil russo *Federov, surgido em 1916, que chegou a ser colocado em campo, embora em pequenas quantidades. Projetado usando o sistema de “recuo curto”, o Federov disparava o cartucho japonês Arisaka 6.5X50 mm, a partir de um carregador tipo “caixa”, de 20 cargas.  

Alguns especialistas costumam a alegar que essas armas não podem ser consideradas “fuzis de assalto” por não lançarem mão do “cartucho curto”. De certo esse é um forte argumento, mas algumas características do futuro conceito já se encontravam presentes, como, por exemplo, a estabilidade do tiro através da diminuição do recuo, razão para que essas armas utilizassem cartuchos menos potentes (ainda que não “curtos”). Debates aparte, é inegável que o SturmGewehr 44 foi o primeiro fuzil de assalto real, e um dos argumentos em torno do qual os pesquisadores concordam é que os altos números de produção alcançados (calcula-se que entre 500 e 600 mil unidades tenham deixado as fábricas, entre o último trimestre de 1944 e o fim da guerra) permitiram avaliação plena de combate e disseminação de princípios de utilização pelas pequenas frações de tropa (esquadras, pelotões e companhias). Os especialistas também concordam que o surgimento do StuG 44 teve forte impacto em todos os beligerantes, mas foram os soviéticos que os primeiros a avaliar as potencialidades dessa nova arma de infantaria.

Ao ponto de se ter criado a lenda que o AK é simplesmente de um clone da arma alemã. Não é bem por aí: o desenvolvimento do AK começou antes, e de forma independente, do StuG44 – ainda que o disparo do processo tenha sido influenciado pelo surgimento do conceito alemão. Mas a ampla distribuição de armas automáticas entre as tropas soviéticas, que datava de antes da invasão nazista, levou a uma série de experiências, no início de 1943, com cartuchos com de menor potência, tanto norte-americanos quanto alemães. Segundo fontes da época, o Conselho Técnico do Comissariado do Povo para o Armamento ficou seriamente impressionado com o desempenho de alguns fuzis alemães *Haenel MKb42, capturados quando se encontravam em testes de campo. Os testes feitos pelos soviéticos concluíram que o projétil ogival em cartucho “curto” tinha desempenho balístico incomparavelmente superior ao dos cartuchos de pistola utilizados por submetralhadoras, e perdia pouco, em performance, para os cartuchos convencionais de fuzil. Segundo o Conselho, era urgente desenvolver um cartucho de potência reduzida, desenvolvimento que começou naquele mesmo ano. Por volta do final do ano, surgiram proptótipos de munições que lançavam mão do projétil do cartucho 7,62X54R convencional (fabricado desde 1891), mas com um estojo encurtado para 39 mm, e com um diâmetro menor do que o do padrão Kurz alemão. Nesse ponto toda a bibliografia é concordante: a originalidade do cartucho M1943 soviético.

O StuG 44 e o AK são, de fato, fisicamente, muito parecidos. Não é estranho que as equipes soviéticas que trabalhavam no projeto tenham tido acesso a muitos exemplares dentre os capturados na fase final da guerra (fontes norte-americanas dão conta de aproximadamente 40.000 unidades aprisionadas sem uso, em depósitos da Wehrmacht situados na área de ocupação ocidental da Alemanha). Entretanto, o mecanismo das duas armas guarda diferenças notáveis.

O projetista do AK foi Mikhail Kalashnikov, um sargento das forças blindadas soviéticas, que, em 1943, se recuperava de um ferimento em combate. Durante seu período no hospital, Kalashnikov projetou uma submetralhadora que, embora submetida às instâncias especializadas do Exército Vermelho, foi recusada por ser considerada cara e difícil de construir. Ainda assim, as autoridades soviéticas (segundo a lenda…) se surpreenderam com a capacidade do jovem sargento, e o designaram para Centro de Pesquisas e Testes de Armas Leves e Morteiros do Exército Vermelho, perto de Moscou. Kalashnikov continuou por lá depois do fim da guerra, e concebeu um fuzil semi-automático que, embora não aceito, serviu de base para outro projeto, esse em torno de uma arma totalmente automática. Essa última,, surgida em 1946, já incorporava os principais elementos do que, posteriormente, seria o AK-47: recuperação operada a gás usando um pistão de trajeto curto, instalado sobre o cano, bloco de culatra com ferrolho rotativo, e receptor (a parte da arma onde ficam instalados os mecanismos do percurssor, seletor e bloco de culatra) dividido em duas partes.

A adoção do AK, entretanto, não aconteceu imadiatamente. O Exército Vermelho estava promovendo uma competição  em vista a adotar uma nova arma. A batalha de Berlim, nas duas últimas semanas de 1945 tinha produzido nos comandantes soviéticos impressão, suponhamos, desagradável: defensores alemães grandemente inferiorizados, em números absolutos, (por vezes de 12 para 1), conseguiram conter as tropas de assalto durante muito mais tempo que o esperado. A vantagem foi atribuída ao uso, então já dissemidado, do StuG 44 (além da qualidade inegável das armas anticarro alemãs, mas esta é outra história…). Os militares soviéticos, por outro lado, estavam às voltas com um problema: a requisição por uma nova arma tinha gerado, por volta de meados de 1944, pelo menos dez protótipos, além de outro tanto de carabinas semi-automáticas. Uma primeira seleção atribuía grandes qualidades ao fuzil automático *AS-44, desenhado pelo engenheiro Sudaev, que foi distribuído e extensivamente testado em condições de combate na fase final da guerra. A principal qualidade do AS-44, segundo os relatórios de campo, era a precisão, quando em fogo semi-automático, muito maior do que a da submetralhadora PPSh. Por outro lado, os infantes soviéticos se viram às voltas com uma geringonça que, sem a munição, pesava mais de cinco quilos, além de ser muito difícil de transportar (os soldados alemães faziam a mesma reclamação, embora o StuG pesasse bem menos). Este motivo, segundo registros de arquivos examinados recentemente, foi o principal motivo para a recusa do AS-44, apesar dos relatórios favoráveis. A questão é que o AS tinha sido desenhado em torno do cartucho 7.62x41mm desenvolvido em 1943, na mesma época em que havia surgido o cartucho M1943. Esse cartucho, com um projetil ogival pesando oito gramas, exigia uma carga de pólvora química maior. Essa carga suplementar implicava em um estojo de latão mais comprido e de paredes mais espessas, o que, no fim das contas, tornava o conjunto de carregador mais 30 cargas consideravelmente mais pesado. A potência da munição acabava exigindo bloco de culatra mais resistente, o que implicava em mais peso, daí…  

A fase final da guerra deixou tudo em suspenso. Uma nova competição foi organizada em meados de 1946, e então o birô Kalashnikov apresentou um novo desenho: tratava-se de uma arma de operação a gás, cujo mecanismo de culatra era similar aquele apresentado em 1944. A arma incorporava uma característica aparentemente copiada dos fuzis de assalto alemães: o carregador curvo de 30 cargas. Os dois modelos apresentados, que receberam as notações AK-1 e *AK-2).

As duas armas se saíram muito bem nos testes, junto com outros desenhos. No final do ano, um dos assistentes de Kalashnikov propôs que algumas características da arma fossem repensadas, de forma a melhorar a confiabilidade do conjunto. Kalashnikov não gostou da idéia, e achava que dificilmente seu fuzil poderia ser melhorado. Ainda assim, aceitou as propostas formuladas por sua equipe e uma nova versão da arma surgiu, com a notação *AK-47. Esta se mostrou, de fato, mais simples e fácil de manter, em condições de campanha. Em 1949, após testes extensivos que tomaram todo o ano anterior, foi adotada oficialmente pelo Exército Vermelho. Isso não significa que, seis meses depois, cada infante soviético estivesse com um AK à bandoleira. Afinal, fazia menos de dois anos que a guerra tinha terminado e os estoques de armas remanescentes, notadamente as quase onipresentes PPSh, eram gigantescos::

Datas de causa::7 de dezembro, 1941::

As datas de causa:: são comemoradas quando o redator lembra de alguma, relevante em termos dos temas abordados aqui no blogue. Pois é… Hoje de manhã, lendo a imprensa diária pela Internet (aquela imprensa não paga que agora os jornalões incompetentes querem cobrar), lembrei que, 68 anos trás, em 1941…::

Dia da Infâmia, ataque traiçoeiro, e tal. Mas, no ponto de vista de causa:: uma operação estratégica muito bem planejada, na qual o poder aéreo se consolidou como elemento integrante do poder naval. A fotografia, tirada no dia seguinte ao ataque, é simbólica: mostra dois contratorpedeiros, Downes e Cassin, da classe Mahan, e, ao fundo, o encouraçado USS Pennsylvania, danificado. Foram todos apanhados numa doca seca. O Downes foi atingido por uma bomba penetrante de blingagem destinada ao encouraçado, lançada por um bombardeiro de mergulho, e saiu do ataque tremendamente danificado; o Cassin sofreu menos. O Pennsylvania, com danos medianos, voltou para a Califórnia por seus próprios meios. Os norte-americanos sofreram uma tremenda pancada no saco e no ego, da qual levariam algum tempo para se recuperar. Mas para os japoneses foi pior: os navios-aeródromos de esquadra não estavam na base. O que ninguém (nem os japoneses) percebeu com clareza, é que encouraçados, dali por diante, não fariam muita diferença e, nos meses seguintes, e pelo resto da guerra, teriam muito pouca utilidade.::

Minha comemoração particular do fim da 2a GM:: FEB

A Segunda Guerra Mundial atingiu o Brasil aos poucos. Em setembro de 1939 as notícias publicadas nos principais órgãos de imprensa brasileiros eram pouco elucidativas. O país mantinha intenso relacionamento comercial com a Alemanha, e, de início, essas relações foram afetadas apenas pelo bloqueio naval que a Grã-Bretanha tentou montar contra a navegação oceânica da Alemanha. Alguns navios mercantes alemães, surtos em portos brasileiros foram, segundo as normas internacionais, internados, o que frisou a intenção do governo nacional em se manter neutro. A partir de 1940, conforme os EUA começaram a manifestar apoio irrestrito à Grã-Bretanha, se tornou mais forte a pressão para permitir a utilização, por parte das forças armadas daquele país, de instalações militares, portos, aeroportos e facilidades de infra-estrutura no Norte e do Nordeste brasileiros: estradas de ferro e de rodagem, usinas elétricas e armazéns, por exemplo. As pressões norte-americanas encontraram resistência entre boa parte dos setores militares brasileiros, cuja formação sempre se caracterizou por forte sentimento nacionalista. Esses militares viam a presença de tropas estrangeiras em território brasileiro como violação inaceitável da soberania nacional. Além disso, parte da oficialidade, representada principalmente pelo comandante do Exército, general Góis Monteiro, nutria certa simpatia pelo regime nazista, e preferia que o país permanecesse neutro. A recusa norte-americana em colaborar com o re-aparelhamento das forças armadas brasileiras, na segunda metade dos anos 1930, contribuiu para piorar a antipatia.

As vitórias iniciais da Alemanha na Europa, a instalação do governo fantoche de Vichy, após a derrocada da França em 1940 e o desembarque de uma força expedicionária alemã na Líbia na primeira metade de 1941 despertaram, no Departamento de Estado dos EUA, o temor que os alemães pudessem estar planejando uma invasão ao Nordeste brasileiro a partir de Dakar (Senegal, colônia que se mantinha alinhada a Vichy) ou do arquipélago dos Açores. O desembarque aeroterrestre em Creta, em maio de 1941 só contribuiu para aumentar a desconfiança: caso acontecesse essa operação (que, de fato, não passava de fantasia), os nazistas poderiam ameaçar o canal do Panamá e o Caribe. Entretanto, os diversos planos preventivos elaborados pelo Estado-maior das forças armadas dos EUA não tinham nada de delírio persecutório: o principal deles previa a ocupação do Nordeste brasileiro — com ou sem o consentimento do governo Vargas — por uma força com efetivo de três divisões. Vargas estava ciente dessa possibilidade, e acabou, em 24 de julho de 1941, por autorizar a utilização das facilidades aéreas e navais existentes por unidades militares dos EUA, e a instalação de bases militares a ser construídas pelos norte-americanos no Amapá, em Belém, em São Luís, em Fortaleza, em Natal, no Recife e em Salvador.

De fato, a participação brasileira na guerra começou cedo, embora de modo tímido. Desde 1939, ações de submarinos se registraram na costa brasileira, apesar da neutralidade declarada pelo governo nacional. As forças armadas pouco podiam fazer, naquele momento: a Marinha de Guerra dispunha de meios precários, tanto em equipamento quanto em pessoal. A esquadra contava com navios de mais de 30 anos de existência e com eram poucas as unidades mais modernas, adequadas à guerra anti-submarina: algumas corvetas, adaptadas a partir de navios-mineiros, e três contratorpedeiros. Esse material flutuante deveria cobrir uma extensão de quase 5000 quilômetros, entre a foz do Rio Pará e Santa Catarina, incluindo as ilhas de Fernando de Noronha e Trindade, em pleno oceano. Meios aéreos modernos, então, nem pensar: o melhor que havia era uma dúzia de aviões Focke-Wulf Weihe, bombardeiros de pouca autonomia e com armamento inadequado. Ainda assim, entre os anos de 1940 e 1941, a Marinha elaborou um programa de exercícios que, de fato, destinava-se a manter atividades de patrulha regulares no litoral entre o Nordeste e Santa Catarina – na prática, a esquadra ficava se movendo de um lado para outro, ora para o norte, ora para o sul.

Com o ataque japonês a base naval de Pearl Harbor, no Havaí, a aproximação como os EUA tornou-se inevitável, em função do princípio de defesa mútua pan-americana. Entretanto, a resistência de Vargas à colaboração com os EUA no “esforço de defesa pan-americano” tinha por objetivo tirar partido da situação, de modo a implementar certos projetos nacionais de construção de uma usina siderúrgica de grande porte. Embora tivessem ocorrido, na segunda metade da década anterior, negociações iniciais com a Alemanha, o início da guerra fez com que as conversações com representantes da Krupp, de Essen, fossem interrompidas. Além do mais, a “defesa comum” apresentava a oportunidade que os militares brasileiros buscavam de acelerar a modernização das forças armadas. As negociações entre Brasil e EUA seguiriam ao longo de quase dois anos, e envolveriam diversos programas abrangendo todas as forças armadas e diversos serviços civis, como, por exemplo, infra-estrutura portuária e de aeronáutica civil.

Logo no início de 1942, a 28 de janeiro, deu-se o rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo e adesão brasileira à Declaração das Nações Unidas e à Carta do Atlântico. Esses eventos serviram como justificativa para que a Alemanha, agora definitivamente fora do continente americano, lançasse uma ofensiva submarina contra o litoral brasileiro. Entre fevereiro e agosto de 1942 uma série de ataques contra navios mercantes brasileiros que navegavam nas costas do país provocou o afundamento de 21 unidades, com perdas de centenas de vidas. A indignação da população foi marcante. Para diversas associações civis, a maioria delas simpáticas ao regime (o que tornava as manifestações insuspeitas) o “estado de beligerância” deixou de ser suficiente até mesmo antes de ser declarado, em agosto: demonstrações de rua exigiam a declaração de guerra.

Em 31 de dezembro de 1942, Vargas, em discurso diante de centenas de oficiais militares, sublinhou o que vinha dizendo desde meados do ano: o Brasil não se limitaria ao fornecimento de matérias-primas aos países aliados. Segundo o ditador, “o dever de zelar pela vida dos brasileiros obrigados a medir as responsabilidades de uma possível ação fora do continente. De qualquer modo, não deveremos cingir-nos à simples expedição de contingentes simbólicos”. Alguns dias após a declaração, o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra apresentou um plano ao presidente no qual afirmava que o Exército estava preparado para enviar para o exterior cinco divisões e as formações auxiliares necessárias, totalizando cem mil homens. Mas tanto Dutra quanto Vargas sabiam que tal pretensão era delirante. Tratava-se, de fato, de um jogo político: o principal apoio da ditadura brasileira era as forças armadas. Vargas tinha, dessa forma, de sustentar o prestígio político dos militares, o que significava, dentre outras ações, implementar as reivindicações dos comandantes pela ampliação e modernização das corporações. Declarando-se disposto a combater ativamente o nazifascismo, a ditadura brasileira acalmava a oposição e ganhava tempo com as reivindicações de liberalização. Assim, fazia sentido que a participação brasileira no conflito não se restringisse à defesa do país e à colaboração com o esforço de guerra norte-americano, como teria sido a preferência dos EUA. O envio de forças brasileiras ao teatro europeu passou a ponto inegociável, visto que a presença das forças armadas nacionais em combate aumentaria o prestígio e a influência do país – e dos militares – no cenário latino-americano. Em 3 de março de 1943, com a assinatura dos Acordos de Washington, a cooperação econômica e militar entre o Brasil e os EUA ficou estabelecida, tendo como contrapartida o envolvimento direto do país no conflito, não apenas com a participação ativa na defesa do litoral, mas também com a formação de uma força militar para intervir no teatro europeu.

No encontro que manteve com Vargas em Natal, em fevereiro de 1943, o presidente norte-americano Franklin Roosevelt mencionou a possibilidade de o Brasil enviar tropas aos Açores e à ilha da Madeira. Vargas respondeu positivamente, mas lembrou que qualquer participação dependeria do re-equipamento e treinamento do Exército, Marinha e Força Aérea brasileiros, prometido pelos EUA. Os militares norte-americanos e setores do Departamento de Estado não viam com simpatia o envolvimento militar do Brasil, e consideravam problemático o transporte das tropas brasileiras para a África. Não que a participação direta na guerra fosse ponto pacífico no Brasil: as opiniões eram divergentes. Ainda assim, em 5 de março de 1943, Vargas aprovou o memorando de Dutra sobre a força expedicionária, reforçando que o envio das tropas dependia do recebimento do equipamento necessário à modernização do exército brasileiro. A questão era extremamente complexa, visto que as forças armadas, treinadas por missões de assessores militares (franceses para o exército, em 1921, e norte-americanos para a marinha, em 1922), eram totalmente obsoletas, tanto em meios quanto em doutrina. Basta dizer que o exército, em 1940 tinha algo em torno de 70000 efetivos, praticava a doutrina de “defesa ativa” dos franceses – a guerra de trincheiras -, era carente de artilharia, não tinha meios motorizados e desconhecia a guerra blindada. A marinha estava um pouco melhor, pois, desde 1942 estava sob supervisão direta do vice-almirante norte-americano que comandava as forças navais dos EUA no Brasil. Desnecessário dizer que não existia uma força aérea digna desse nome.

Em 9 de agosto de 1943, finalmente, a Portaria Ministerial nº. 4744, estabeleceu a  estrutura da Força Expedicionária Brasileira. A FEB deveria ser constituída, por um corpo de exército formado por três divisões de infantaria: 1ª, 2ª e 3ª, e por órgãos não-divisionários necessários. A primeira unidade a ser constituída seria 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), a ser comandada por um general-de-divisão. Ainda no mês de agosto, o general João Batista Mascarenhas de Morais, então comandante da 2ª Região Militar, foi convidado pelo Ministro da Guerra a comandar a 1ª DIE. Antes deles, vários generais, entre os quais Valentim Benício, Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco, teriam sido consultados para exercer o cargo, mas não aceitaram. Mascarenhas não discutiu a indicação, que encarou como uma ordem. Era conhecido por ser apolítico e pela postura profissional (isso nos termos do exército brasileiro). Naquela época, não era pouca coisa.

Na próxima semana falaremos sobre como formar uma tropa de combate a partir de muita bravata e conversa-fiada, e como fazer essa tropa dar certo, contra tudo e contra todos::