Outras observações estratégicas sobre um período chato::Pode ficar pior sim, senhor Tiririca::

Winston Leonard Spencer Churchill (Blenheim, Woodstock, Oxfordshire, Inglaterra, 1874 – Londres, Inglaterra, 1965) foi um estadista britânico. Isto, dez dentre os nove ou dez leitores assíduos deste blogue:: sabem; também sabem os assíduos que esse inglês, amante de charutos, vinho do porto e do sol mediterrânico, pintor amador e um dos maiores escritores modernos em língua inglesa, é um dos musos de causa:: Não sem razão.

Dizia o grande inglês que “a democracia é o pior sistema de governo, à exclusão de todos os demais.” É uma frase interessante, repetida ad nauseam por todos os conservadores, direitistas e liberticidas. O próprio Churchill era um conservador direitista, embora talvez seja injusto chamá-lo de liberticida – afinal, se nos livramos do fascismo, foi em parte graças à teimosia dele.

Mas, como toda frase, as de Churchill com freqüência precisam ser examinadas contra um contexto mais amplo, para que façam sentido – ou mais sentido. Essa a que se refere o redator:: faz parte de um discurso dirigido à Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. Churchill, então líder dos conservadores, manifestava oposição a que nova limitação aos poderes da Câmara Alta do Parlamento Britânico – a “Câmara dos Lordes” – fosse estabelecida. Esse corpo de representantes, não-eleito, hereditário, representava a si mesmo, e essa representação se expressava na capacidade de interferer fortemente com os assuntos do governo, capacidade estabelecida no século 14 e que desde então vinha se mantendo, contra diversas tentativas de limitá-la. A última tentativa era aquela: o governo trabalhista de Clement Atlee pretendia emendar o Ato do Parlamento, de 1911, de modo a limitar a capacidade daquela câmara em interferir com iniciativas do governo. O contexto, então, era o das reformas radicais que estavam sendo introduzidas na organização econômica britânica, na qual amplos setores da indústria seriam nacionalizados. Temia o governo trabalhista que a Câmara Alta tentasse alterar o processo em que a Inglaterra pós-2ª GM finalmente se reinventava, buscando acomodar, em termos mais justos, os milhões de soldados e operários que, estoicamente, tinham derramado o sangue, suor e lágrimas que pavimentaram o caminho até a vitória. Já para as “classes superiores”, aquelas que desfrutaram, ao longo de dois séculos, os benefícios da transformação econômica, a proposta punha mais amarras a um poder que minguava. Sobre isso, disse o temível polemista e brilhante orador Churchill: “… é o sentimento mais disseminado em nosso país, e que a opinião pública expressa através de todos os meios constitucionais, que o povo deve governar, governar continuamente, e deverá formar, guiar e controlar as ações dos ministros que são seus servos, e não seus senhores.” Ou seja, no entendimento de Churchill – e, podemos subentender, da maioria de seus liderados conservadores –, não seria preciso limitar os poderes das classes superiores, amplamente representados na Câmara Alta do Parlamento Britânico – esses poderes estavam limitados pelos poderes conferidos, por tradição, à opinião pública.

Descrevendo o sistema eleitoral de representação majoritária britânico, o historiador setecentista François Guizot aponta sua origem nas necessidades da sociedade inglesa, nos séculos 13 e 14. O sistema eleitoral decorrente, no século 15, não obedecia nem a regras originárias nas Ciências Políticas, nem aos interesses deste ou daquele grupo. Era um sistema formado observando-se os costumes cotidianos aceitos pela sociedade. Os princípios que regulavam o processo eleitoral eram, assim, absoluta novidade. Daí sua absoluta originalidade.

Dentre as novidades, aquela que parece provocar a advertência de Churchill: no entendimento dele, a sociedade já dispunha de meios para expresser sua opinião e impor sua vontade, meios consolidados em séculos de tradição. Esse longo processo teria tornado a democracia “o menos pior dos sistemas”: a tradição também teria incorporado os defeitos: uma hierarquia reconhecida por lei que cabia ao povo respeitar, pois os mecanismos embutidos no processo contrabalançavam, naturalmente, o desequilíbrio inerente ao mesmo.

Examinar a coisa hoje faz suspeitar que Churchill tivesse razão: esse processo vem sendo crescentemente contestado e, depois de séculos, o sistema é visto com certa desconfiança pelo eleitorado britânico. Sinal dos tempos: o sistema, dito bipartidário, não parece mais suficiente para expressar a opinião do corpo de eleitores, e mostra, através de freqüentes pesquisas de opinião, tendências ao desdobramento. Os mecanismos “tradicionais”  de correção, então, funcionam – inclusive para indicar o clamor pela mudança.

Assim funciona a democracia representativa. Contra os defeitos, os mecanismos de autorregulação. E entre nós? Um dos possíveis defeitos da democracia brasileira seria, na visão de setores bastante amplos da sociedade, sua essência: o amplo direito de votar e ser votado. Não são poucos os cidadãos que reclamam do fato de que “todo mundo vota”, e não é nem preciso ter muito trabalho para encontrar exemplos disso. O redator:: não lembra qual dos ministros de Costa e Silva disse, na época do AI-5, que era absurdo valer o voto dele tanto quanto o de uma empregada doméstica… ou teria sido lavadeira?.. (diria que foi o da Aeronáutica… Algum dos assiduos lembra?..); o general João Figueiredo abriu seu consulado (1979-1985) com a taxativa afirmação: “Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.” E o negro Edson Arantes dos Nascimento, embranquecido pelo contato purificador das elites? É preciso lembrar a opinião dele?

Em tempos mais recentes, um colunista brindou-nos a todos com esta: “O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados.

Afirmativas como essas levam o redator:: a pensar quais são os meios de defesa que a democracia brasileira tem contra seus próprios defeitos. Imediatamente surge a figura daquele que, em algum momento futuro, talvez venha a ser lembrado como a figura-símbolo desta eleição: o cidadão Francisco Everaldo Oliveira da Silva. Certamente não conhecemos Francisco Everaldo – mas conhecemos seu alter-ego, o palhaço Tiririca. Sobre Tiririca, diz um blogueiro: “como impedir que uma extravagância como Tiririca (ops, Francisco Everaldo Oliveira Silva) vire deputado federal? Só tem um jeito: não votar nele. Nenhum outro.

Churchill também dizia – e foi essa frase que fez o redator:: elege-lo muso do blogue:: que quem não sabe história, não sabe nada. A perspicácia de Churchill, expressa no monumental “Uma história dos povos de lingual inglesa”, faz o redator:: lembrar de nossa própria história e de seus bons constadores. Por exemplo, o sociólogo Roberto Schwartz. Em ensaio no mínimo tão monumental quanto o de Churchill, Schwartz sugere que, em nosso país, as idéias estão fora do lugar. Em termos muito simplificados (causa:: não pretende ser espaço de resenha das idéias do coração do redator::): baseado em premissas marxianas, Schwarcz, por meio da análise da dinâmica interna de algumas grandes obras literárias do século 19, busca a contradição básica da formação social brasileira. Na opinião dele, é em Machado de Assis que a tal contradição aparece de forma mais perfeita. No Brasil, a estrutura é atrasada e colonial enquanto a superestrutura seria adiantada e liberal. Essa contradição residiria na persistência do regime de produção escravista convivendo com um sistema político de estilo inglês. Schwarz denomina esse método machadiano de “comédia ideológica”, que teria seu momento maior em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”: Bentinho e Brás Cubas estariam sendo porta-vozes de uma denúncia de classe. Schwarz postula que Capitu é vítima dessa elite que vence, mas não leva, visto que a contradição, perpetuada pela elite como meio de dominação,  resulta em uma “sociedade pela metade” – tese que é expressa de forma genial no título do livro – “Ao vencedor, as batatas”. (análises mais aprofundada, aqui e aqui). O século 19 é, pois, tão esclarecedor, para nós, quanto o século 14 seria para a Grá-Bretanha – só precisamos conhece-lo melhor.

Voltemos a nossa época e a nosso drama: buscamos a democracia, sistema louvado por dez entre dez liberticidas, mas uma em que um cidadão habilitado pela norma constitucional ao se apresentar para ser votado, possa, por “extravagância”, ser inabilitado por outros cidadãos habilitados. Curiosa democracia, de cujo exame resulta o seguinte: o cidadão Francisco Everaldo deveria não ter direito de ser votado. Centenas de outros cidadãos que se manifestam através da Grande Rede parecem pensar exatamente assim. Deveríamos criar mecanismos que impedissem Tiririca de participar do processo eleitoral – qual seja: aperfeiçoar a democracia é limitá-la, plenamente, à uma parte do corpo de cidadãos. 

Uma tal providência imunizaria a democracia brasileira contra “piadas” como a candidatura do palhaço Tiririca. Motivo: vivemos numa sociedade imperfeita, sofrendo as dores do crescimento. O sistema partidário não exprime, à perfeição, a realidade do país, e os partidos são meros “balcões de negócios”. Cabe reduzi-los. Na Inglaterra são apeenas dois, os que realmente contam, consolidados pela tradição -e pela “educação política”; nos EUA, idem.

Mas, pensando bem… O palhaço Tiririca teria qualquer possibilidade de obter legenda num PT das elites sindicais ou num PSDB da inteligentzia paulista? Ou num PMDB dos grotões? Não é, entretanto, o caso de impedir o cidadão Francisco Everaldo de votar – por sinal, ele e outras extravagâncias têm de votar, para aprender. Algum dia, chegamos lá. Por ora, devemos impedir não que Francisco Everaldo eleja, mas se eleja. A maioria do corpo de cidadãos vota mal, e deve ser defendido de si mesmo. Estaríamos ouvindo aí (ou seria apenas impressão do redator:: admitidamente delirante?..) ecos do sistema de voto censitário, o tal “voto da mandioca“?

Pois se a democracia é imperfeita, aperfeiçoa-la não seria aprofundar a imperfeição, buscando meios de retornar ao século 19. Alguns cidadãos parecem vislumbrar o problema. No momento em que louvou a candidatura de outra “extravagância”, a “Mulher-Pera”, o senador Eduardo Suplicy talvez estivesse tentando, machadianamente, meter o dedo no âmago da contradição – e sabia no que se metia. Sua declaração de apoio à curvilínea candidata atraiu o deboche, desde a elite do jornalismo áulico até blogueiros moderninhos. Puro método machadiano: os democratas manifestam-se contra a democracia…

Talvez Suplicy aceite uma ajudinha – menos machadiana – do redator::: se  a democracia brasileira sobreviver será por arte de seus defeitos, e o principal deles é por outro lado, sua capacidade de se autorregular – a possibilidade de que o direito de assumir mandatos escape da elite “educada” e chegue até as “extravagâncias”. É nesse momento que o drama da sociedade brasileira fica mais evidente, e a teatralização do processo eleitoral apontará uma hierarquização atroz, tida pelas elites – e por seus clientes pequeno-burgueses –, mais do que “natural”, necessária. Pelo menos até o dia que aprendamos.

Esse post não deve, pois, causar estranheza nos nove ou dez leitores. Falamos de estratégia, na versão atualmente conhecida como “grande estratégia”, aquela que mobiliza todos os recursos nacionais. E uma nação partida – como atualmente é dito – em “andar de cima” e “andar de baixo” não se torna potência. Portanto, tirem as patas do direito do proletariado a candidatar-se seja lá ao que for – e se eleger. É estratégico que as extravagâncias obtenham mandatos, pois elas apontam direto para a contradição que nos governa. Ao contrário do que diz Tiririca, pode ficar pior, sim: no dia em que nossas elites e seus clientes derem um jeito de garantir que o grosso da população – os feios, os mal-vestidos, os que vivem na espiral alucinante do trabalho na fábrica – não possam mais se eleger. Nesse dia, a democracia deixará de ser o “menos pior” dos sistemas de governo, para tornar-se apenas mais um entre os piores::

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::Para finalizar, um pouco sobre tradição::

Parte2-3É interessante observar que, em todo o mundo, dentre as forças singulares, as marinhas de guerra parecem as mais ligadas às tradições. Por outro lado, as que parecem menos ligar para essas coisas são as Forças Aéreas. A explicação não é difícil: do ponto de vista de corporação, as marinhas de guerra são as forças singulares mais antigas. Se estruturaram antes que os exécitos nacionais. Esquadras de guerra passaram a ser mantidas pelos estados pelo menos desde o século 16. Operar navios com canhões exige uma estrutura que não está só no mar, mas também em terra: escolas de treinamento de oficiais e marinheiros, bases navais, estaleiros e assim por diante. Marinhas são forças caras. Com o advento dos canhões, só os estados tinham capacidade de reunir e manter , permanentemente, recursos e competências para tanto. Certamente existiram marinhas privadas, operando navios com grandes canhões à bordo: as chamadas “companhias privilegiadas”, com a permissão das Coroas exploravam o ultramar – as colônias. Uma dessas – a “Companhia das Índias Ocidentais“, dos Países Baixos, praticamente financiou a invasão do nordeste brasileiro, a partir de 1624. 

Mas essa é outra história. A partir do século 18, as marinhas passaram a ser corporações exclusivamente estatais. E um dos primeiros países a reservar ao Estado o controle de esquadras de guerra foi a Inglaterra. A Marinha Real – cujas tradições navais boa parte das marinhas (inclusive a brasileira) procura copiar – remonta ao rei Henrique VIII, que a tornou um braço da Coroa (daí o designativo “real”), com um corpo de funcionários militares e civis permanente e profissional. Mas o desenvolvimento da Real Marinha  começou, de fato, sob a liderança de Oliver Cromwell, durante seu período como “Lord Protetor do Trono Inglês”, depois do fim das guerras civis, em 1649. Nessa época, a ilha já tomada pelo Protestantismo, começou a confiar em sua marinha como garantia de suas riquezas e segurança. Entre 1646 e 1659 a marinha inglesa cresceu para mais de 200 navios. Depois da morte de Cromwell e da restauração dos Stuart, em 1660, mais navios foram construídos.  Mas o crescimento da marinha não garantia sucesso imediato, especialmente contra outro povo considerado, por excelência, marinheiro: os holandeses. A disputa com essa nação européia, pelo Atlântico e pelas rotas do Oriente resultou em três guerras, nos seguintes 25 anos. Nessa época nasce a grande tradição da Marinha Inglesa.

Boa parte da oficialidade era oriunda da pequena nobreza, o que explica parcialmente o comportamento à bordo. Além disso, os oficiais mantinham a disciplina exigindo da marujada o tratamento respeitoso que, em terra, dariam a seus senhores. Em países como Portugal, Espanha e França, todos de antiga tradição naval, as marinhas também se profissionalizaram, mas as Coroas mantiveram no oficialato grande número de membros da nobreza, da qual dependiam para governar. Em Portugal e na Espanha, os postos de comando eram frequentemente exercidos por figuras da alta nobreza, sem a menor ligação com a profissão naval; na França, com a consolidação do Estado centralizado, a profissão marinheira acabou destinada a naturais de regiões como a Normandia e a Bretanha – onde as profissões do mar já eram tradicionais; os oficiais eram, geralmente, membros da pequena nobreza, que assim tinha garantido um meio de vida. Esses homens acabaram por se tornar marinheiros muito competentes (basta ver o exemplo do almirante-corsário DuGuay Trouin).

No Brasil, a Marinha foi criada em 1821, às vésperas da independência. Nessa época, a carreira naval, no mundo inteiro, já era uma profissão altamente especializada, de modo que o governo que se constituía precisou contratar oficiais estrangeiros ou lançar mão  dos inúmeros portugueses que, ligados ao Brasil, se apresentaram ao serviço. De toda maneira, uma tradição começou a se constituir, a partir de eventos memoráveis (como o bloqueio de Salvador, em 1823), e continuou a se consolidar nas campanhas da Guerra da Independência, das Guerras no Sul, da Guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial. É curioso o fato de que o patrono da Marinha seja o almirante marquês de Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa, e não lord Cochrane, um inglês que realmente criou a Marinha, por organizar a oficialidade e introduzir o uso de táticas modernas. Isso é compreensível: Cochrane, um oficial de patente intermediária (no final das Guerras Napoleônicas, tinha o posto equivalente ao de capitão-de-fragata, na Marinha Real) era, de fato, um mercenário que, com problemas políticos em seu país, a Escócia ofereceu seus serviços aos governos que se constituíam na América Latina. Manteve relações com Simon Bolívar e organizou a Marinha do Chile. Em 1822, foi convidado a comandar a marinha do Império do Brasil, mas manteve com seus contratantes relações tensas, que culminaram com o abandono do serviço, em 1827. Cochrane tinha cansado de esperar pelo pagamento combinado com o governo brasileiro. Já o marquês manteve-se em serviço ininterrupto desde 1821, quando se alistou como aprendiz-marinheiro, tendo chegado ao posto de vice-almirante (posto máximo, na Marinha Imperial). Em 1889, já bastante idoso, retirou-se do serviço público sem renegar a República, e principalmente, mantendo distância dos oficiais que, em 1891 e 1893, promoveram um enorme motim na esquadra e na Escola Naval, contra o governo de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Essas revoltas também entraram na tradição da Marinha, que, a partir delas, passou a se ver como apolítica e defensora das instituições. O fato é que a segunda revolta arrasou parte do Rio de Janeiro e acabou provocando a intervenção estrangeira em assuntos brasileiros: Floriano, sem condições de opor resistência eficaz contra os canhões da esquadra amotinada, negociou o apoio de navios de guerra estrangeiros surtos na baía de Guanabara.  Tamandaré, assim, apresentava as qualidades que a Marinha buscava como suas: profissionalismo e neutralidade política. Em 1948, no dia de seu nascimento – 13 de dezembro – passou a ser comemorado como “dia do marinheiro”.

Por outro lado, a parte as “disputas da memória”, a Marinha Brasileira comemora, (como todas as outras marinhas), suas tradições,  batizando os navios com os nomes de eventos da República (os nomes dos Estados da federação ou acidentes geográficos notáveis), eventos importantes da força (nomes de batalhas) e vultos memoráveis (comandantes destacados e heróis). Assim, os navios se tornam um tipo de monumento, no qual as gerações do presente homenageiam seus marcos e seus antecessores. É curioso, entretanto, que as tais “batalhas pela memória” se travam mesmo nesse campo. No final dos anos 1960, quando a Marinha decidiu adquirir, na Alemanha, quatro navios-varredores de minas (NV) classe Schütze (aqui denominada “classe Aratu“), houve quem discordasse que um deles recebesse o nome de “Anhatomirim”. Explica-se: essa classe de navios costuma receber nomes de acidentes geográficos notáveis pela grandeza ou por estarem ligados a eventos navais. Acontece que, em Anhatomirim, ilha situada na baía de Santa Catarina), foi afundado, em 1894, por um torpedo o encouraçado Aquidabã (um excelente artigo sobre o assunto, aqui), um dos últimos eventos da Revolta da Armada. O tiro torpédico que inutilizou o encouraçado foi o primeiro realizado com sucesso em operação de combate, no mundo; foi aquele que demonstrou a viabilidade do torpedo automóvel como arma naval; durante muitos anos, foi o único evento brasileiro citado nos cursos de história naval da Academia Naval dos EUA. Por outro lado, o evento de Anhatomirim demonstrou certa incompetência por parte dos “nobres oficiais” comandados pelo almirante Saldanha. Pior: foi uma vitória indiscutível da “esquadra legal” comandada pelo “detestável” almirante Gonçalves, único oficial que se apresentou para comandar os navios de Floriano Peixoto. Deu para entender a implicância? Outro caso:  em 1994, quando foram completados entendimentos para a aquisição na Inglaterra, de fragatas tipo 22/1 pela Marinha Brasileira, o então ministro resolveu batizar duas delas com os nomes de “Rademaker” e “Bosísio”. Augusto Haman Rademaker Grünewald é mais conhecido – trata-se de um personagem ligado a triste memória do golpe militar de 1964. Paulo Bosísio é mais conhecido dentro da própria Marinha: trata-se do ministro que, em 1965, atendeu ao chamado do general Castello Branco para conduzir o desfecho da séria crise da Aviação Naval, que quase provocou um cisma dentro das forças armadas (um artigo sobre esse episódio bizarro, aqui). É interessante que a escolha dos nomes dos novos navios, que no caso da MB, seriam os principais meios flutuantes , incorporassem nomes de duas figuras de legitimidade duvidosa. Os dois estariam ao lado do aspirante Greenhalg, herói da Guerra do Paraguai, e do vice-almirante Jorge Dodsworth Martins, ministro da Marinha do governo interino de José Linhares e primeiro ocupante da pasta no governo Dutra (1946). Ainda que sem muito brilho, Dodsworth Martins parece ser considerado como paladino naval da transição democrática de 1946 – uma transição em que as forças armadas tiveram papel destacado (derrubaram Getúlio e foram fiadoras do processo político). Pois então temos um mártir da defesa da integridade do território, um fiador da liberdade,  um almirante que conduziu a marinha na “luta pela liberdade contra o comunismo”, e um oficial que soube colocar-se ao lado de seu chefe, na melhor tradição da Marinha. É possível ver nessa lista de nomes, a forma como a Marinha Brasileira vê a si mesma, ainda que essa visão seja para os civis, um tanto embaçada::

Tecnologia naval::Elektroboot e seus sucessores::Parte4

 Podemos todos detestar os nazistas – mesmo quem tem pedra na cabeça, no lugar de cérebro, detesta. Mas com a engenharia alemã é outra coisa – todos temos certa tendência em apreciar as armas alemãs da 2a GM (as atuais também são bem interessantes…). Em muitos casos, é exagero, mas em outros, os produtos da inventividade e da organização científica alemãs ainda marcam nossa época. E não é só o redator fanático por tecnologia militar que acha… Não estamos falando do Elektroboot? Pois então leiam a parte 4, em seguida::
 
 
 
 

USSPICKEREL

O SS 524 "Pickerel" em treinamento de emersão de emergência, 1952. É notável a semelhança do casco com o desenho dos "Tipo XXI".

 

parte4Nos anos que se seguiram à guerra, o desenho de submarinos foi totalmente revolucionado pelo contacto das principais marinhas aliadas com o Tipo XXI. Das 113 unidades que estavam prontas para incorporação em maio de 1945, e que não foram afundadas pelas tripulações, duas foram transferidas para os EUA, quatro para a URSS (embora existam suspeitas de que o número tenha sido maior), uma para a Inglaterra e uma para a França.

Os exemplares incorporados pela Marinha dos EUA foram exaustivamente examinados e testados entre 1946 e 1949. Os destroços de um desses submarinos foram encontrados recentemente, ao largo da Flórida, onde foi afundado pelos norte-americanos, após o fim do programa, num teste de armas anti-submarino.

O exame das duas unidades levou à conclusão de que toda a frota de submarinos da Marinha dos EUA estava ultrapassada (o *USS Wahoo, comissionado em julho de 1943, típico “submarino de esquadra” norte-americano). Um programa de construção foi proposto, mas como existiam quase duas centenas de unidades construídas nos três anos anteriores, as autoridades navais optaram por modernizar as que estivessem em melhor estado. O primeiro programa foi a instalação de um equipamento equivalente ao esnorquel alemão, para testes, no USS Irex (classe Tench, construído em 1944), em 1947.     

O programa Greater Underwater Propulsion Power (GUPPY – o “y” não quer dizer nada, mas fazia o acrônimo combinar com o nome de um peixinho decorativo muito popular nos EUA…) era muito mais amplo. Foi estabelecido como alternativa de menor custo para modernizar parte dos barcos da força norte-americana de submarinos, os mais modernos, das classes Gato, Balao e Tench. O programa GUPPY acabou resultando em diversas fases. O GUPPY I dotou os barcos selecionados com esnorquel; eliminou a maioria das partes desnecessárias das “obras mortas” (passadiços e instrumentos na  torre, canhões, mastros e outros elementos da coberta); melhorou o desenho das “obras vivas”, de modo a dar maior uniformidade ao casco externo, tornando-o tão hidrodinâmico quanto possível (o *USS Odax, lançado em abril de 1945, cuja conversão completou-se em 1947, depois transferida para a Marinha Brasileira. Observe-se a vela tipo “Eletric Boat”, depois substituídas pelo tipo “Portsmouth” em todas as unidades). Também foram feitas melhorias na motorização, acrescentadas novas baterias e novos equipamentos eletrônicos.

A instalação de novas baterias esteve entre as principais modificações. Quatro unidades acumuladoras (baterias), compostas por 504 células, cada uma delas capaz de sustentar proximadamente 25 por cento a mais de carga que os tipos anteriores, melhoraram significativamente o desempenho subaquático do navio. Entretanto, essas novas baterias tinham um sério problema de durabilidade, além de provocarem problemas ambientais. Apesar dessa desvantagem, o ganho geral mostrou-se compensador: os barcos remodelados chegavam a alcançar 17-18 nós (30-33 km/h) submersos. Um total de 50 unidades foram convertidas.

A segunda parte do programa deu origem à classe Guppy II. Essa era basicamente igual à classe Guppy I, exceto em alguns detalhes da vela, que foi redesenhada para acomodar novos mastros de combate que alojavam os sistemas de admissão de ar e exaustão de gases do esnorquel e as antenas dos equipamentos eletrônicos. Os barcos da série Guppy II tiveram melhorias na motorização, que possibilitavam melhor desempenho, e novos equipamentos eletrônicos, inclusive unidades de radar de última geração. Um total de 24 unidades foi convertido.

Um problema com o programa GUPPY II era o preço – os submarinos veteranos da 2a GM tinham de ser praticamente reconstruídos. O programa GUPPY IA, lançado em 1951, foi uma tentativa de baixar o custo da conversão. O programa GUPPY IIA, lançado em 1954, redesenhou certas partes do casco externo, de modo a melhorar o desempenho subaquático. A essa altura, os engenheiros da Marinha e da indústria tinham descoberto que não adiantava melhorar a motorização se a parte hidrodinâmica também não fosse muito melhorada. Essa derivação do programa instalou uma vela totalmente redesenhada, uma nova proa, e motores iguais aos dos GUPPY II. Mudanças na arquitetura interna permitiram a instalação de novos equipamentos eletrônicos, unidades de refrigeração e condicionadores de ar. A aparência externa da série IIA era, à primeira vista, semelhante à II.

Em meados dos anos 1950, alguns barcos da classe GUPPY IA foram convertidos para a série GUPPY IB, destinados à transferência para marinhas aliadas. Os equipamentos eletrônicos de última geração foram substituídos por “modelos de exportação” muito simplificados, mas, de resto, eram iguais aos IA. Por sinal, esse era um problema que começava a ser observado pelos projetistas: a grande quantidade de equipamento eletrônico que, pelos meados dos anos 1950 começou a ser incorporada aos navios de guerra, em geral, e aos submarinos, em particular. No caso dos submarinos, a questão era particularmente séria, porque os controles de direção, equipamentos de sonar e de direção de tiro computadorizado tomavam muito espaço e consumiam energia extra. Entre 1959 e 1963, até mesmo unidades já convertidas para o padrão GUPPY II tiveram de voltar para a doca seca, para serem cortados e aumentados em uns 4 metros na área da sala de controle. Nesse novo espaço, foram instalados os novo equipamentos de sonar e de direção de tiro. Essas novas unidades tornaram-se a série GUPPY III.

Até o programa GUPPY II e suas variantes, um dos problemas não resolvidos eram as baterias, que não apenas atravancavam o espaço interno como criavam desconforto  ambiental. Em 1959, o programa GUPPY III buscava, dentre outros aperfeiçoamentos, resolver esse problema. Os engenheiros navais optaram por alongar uma das unidades assim como retirar um dos motores diesel, situado à vante da belonave e considerado desnecessário. Desse modo foram criados novos espaços internos, o que possibilitou alterações que, provinham maior área para equipamentos eletrônicos e para a tripulação. Todos as unidades do padrão II foram convertidos para o padrão III.

Os GUPPY III ficaram em atividade até o final dos anos 1970. É interessante observar que, após o programa GUPPY, foram construídos nos EUA os SSK (submarinos convencionais, no jargão da Marinha norte-americana) da classe *Tang, da qual seis unidades, que incorporavam os desenvolvimentos do programa GUPPY, tiveram suas quilhas batidas entre 1946 e 1948, e foram lançadas no início dos anos 1950. Foram os últimos submarinos convencionais que saíram de um estaleiro norte-americano. Desde 1963, quando o programa de conversão completou-se, os EUA desistiram de, de SSK), optando por uma força totalmente composta por submarinos nucleares::

O mês da Guerra da Coréia::Em causa, a Coréia::

Tivemos, ao longo de maio, uma comemoração especial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a participação do Brasil na luta contra o fascismo. É certo que as atribulações do redator fanático por história e tecnologia militar deixaram, infelizmente, pouco tempo para a festa. Por outro lado, enquanto falávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, deu às caras um de seus mais acabados produtos: a Coréia. O ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, último regime verdadeiramente estalinista no mundo, resolveu chamar atenção do dito reativando seu programa de armas estratégicas, ao mesmo tempo que lançava ameaças contra a Coréia do Sul, o Japão e contra o “Grande Satã” – os EUA.

E, curiosamente, o mês de junho marca a passagem do 57º aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Porque não comemorar, pois? Não que guerras sejam fatos a comemorar, mas essa, em particular, tem uma característica interessante e pouco observada. Entre junho de 1950 e julho de 1953, a península foi palco de uma guerra localizada que contrapôs as duas grandes potências, e na qual morreram aproximadamente 900.000 pessoas. Em teoria, essa guerra ainda não terminou, pois não foi assinado um tratado de paz, mas um armistício. Do ponto de vista da mecânica das relações internacionais e das formalidades diplomáticas, as duas Coréias ainda estão, tecnicamente, em guerra. 

 A Coréia do Norte e a Coréia do Sul surgiram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e da configuração do mundo que resultou dela, a tal “Guerra Fria” sobre a qual tanto se fala (e, diga-se de passagem, fala-se muita besteira…). A *Península da Coréia, situada no Sudeste da Ásia, é ocupada por dois estados, divididos pelo Paralelo 38N. A maioria das pessoas tende a acreditar que a divisão atual da península resultou da guerra de 1950. Na realidade, é anterior: em 1945, imediatamente após a derrota do Japão, duas zonas de influência foram estabelecidas. O norte, ocupado pela União Soviética, e a partir de 1949, denominada “República Democrática do Povo da Coréia”. Abaixo do paralelo, na zona ocupada por tropas norte-americanas, a “República da Coréia”, estabelecida em 1948. A origem mais remota dessa divisão encontra-se na Conferência do Cairo, de 1943, na qual os aliados tinham resolvido tirar do Japão suas áreas coloniais. Os EUA, a China e a Grã-Bretanha concordaram que à Coréia deveria ser dada a independência, após as vitória das nações aliadas. A URSS aderiu a esse princípio quando, em maio de 1945, declarou guerra ao Japão. O presidente dos EUA e o chefe do governo soviético concordaram, na Conferência de Ialta,  em estabelecer um mandato internacional para a península, mas o que resultaria desse mandato não foi claramente formulado. O desembarque de forças soviéticas no norte da península, em julho de 1945, levou o governo dos EUA a ter de improvisar uma solução, visto que os norte-americanos não tinham tropas combatentes na região e os soviéticos estavam em posição de ocupar toda a península. Assim, em 15 de agosto, o presidente Harry Truman propôs a Stalin a divisão da Coréia, simplesmente traçando uma linha de coordenada, mais ou menos no meio da região. Stalin aceitou sem discutir. Naquele momento, o líder soviético parecia esperar que os EUA concordassem com a ocupação soviética de parte do território japonês. Ao contrário do que esperava Stalin, Truman convocou uma conferência de ministros aliados, que aconteceu em Moscou, em dezembro de 1945. Os aliados concordaram com um mandato de cinco anos, durante o qual um governo provisório prepararia a independência, sob supervisão das potências vencedoras. Os únicos que não gostaram do acordo foram os coreanos, de todo o espectro político. A direita, sob a liderança do extremista pró-americano Syngman Rhee, aproveitou-se da “ameaça comunista” para consolidar sua base política, em um momento em que, na China, os nacionalistas se viam sob forte pressão dos comunistas locais.  A comissão inter-aliada reuniu-se em Seul até adiar indefinidamente seus trabalhos, no início de 1947. Os soviéticos insistiam que apenas partidos e organizações sem ligação com o período de ocupação japonesa pudessem participar do processo. Isso significava a exclusão automática de amplos setores da política local – burocratas e empresários envolvidos, em diversos graus, com o esforço de guerra japonês. Os EUA recusaram essa fórmula, pois era a garantia que apenas os comunistas participariam do governo, já que constituiam a maioria dos movimentos que tinham se oposto aos japoneses.

O problema é que os EUA não tinham nenhum plano alternativo. A Coréia era, então, muito pouco conhecida pelo governo norte-americano e um problema adicional, observado pelos comandantes das forças de ocupação dos EUA era o fato de que os oficiais militares encarregados de governar a parte sul da península não sabiam nem a língua, nem os costumes e muito menos a história local. Os soviéticos não tiveram tal problema já que passaram o governo da porção norte do Paralelo 38 N ao Partido Operário da Coréia. No sul, o Partido tinha grande influência entre operários e estudantes. Diante da expansão comunista no sul, os EUA passaram a apoiar políticos exilados que retornavam à Coréia, de perfil conservador, e antigos membros da administração no período japonês. Em setembro de 1947, diante do agravamento da situação, o governo norte-americano submeteu o problema coreano às Nações Unidas. Em novembro, a Assembléia Geral reconheceu o direito da Coréia à independência e determinou a realização de eleições para uma assemblèia nacional unificada, no mês de maio do ano seguinte. Os soviéticos se recusaram a submeter o norte da península ao mandato da ONU, o que praticamente determinou a divisão do país, uma vez que os setores políticos comunistas e alguns nacionalistas de esquerda passaram a boicotar a eleição. A política de confronto entre os movimentos políticos locais acabou por diminuir a influência comunista e resultou no isolamento dos progressistas, diante da política de intimidação dos direitistas e da recusa do Partido em fazer alianças.

A Assembléia Nacional eleita em maio de 1948 adotou uma constituição que previa a forma republicana de governo. Syngman Rhee tornou-se o líder da assembléia e preparou, de forma apressada, o estabelecimento da República da Coréia, em agosto de 1948, da qual se tornou presidente. Um mês depois, as autoridades comunistas da área soviética cortaram laços com o governo do sul e proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Povo da Coréia – que desde então passou a ser conhecida pela imprensa internacional como “Coréia do Norte”. O governante era o secretário do Partido dos trabalhadores da Coréia, Kim Il Sung. Kim alegava ser o líder legítimo de todos os coreanos, em função de eleições realizadas no norte e de alegadas eleições subterrâneas que teriam acontecido no sul.

Em setembro de 1948 foi criado o Exército da República da Coréia , que logo se viu diante de um motim de unidades formadas por simpatizantes dos comunistas. A revolta foi controlada mas revelou a fragilidade da estrutura militar do novo governo. Em 1949, os EUA não pareciam dispostos a apoiar  a república, que viam como fadada ao fracasso. No final de junho, as forças norte-americanas tinham sido retiradas e apenas duas brigadas (uns 8000 efetivos) permaneceram. Os estrategistas dos EUA pareciam conformados em perder a região e colocaram o país como “área externa ao perímetro de defesa norte-americano na Ásia”. Apenas garantiram, de forma vaga, que, no caso de uma agressão do norte, apoiariam o governo local com tropas.

A guerra veio, com a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950. Mas deixemos esse tema para depois…::