A DAAe do EB chega ao presente::Uma geringonça de primeira linha no inventário, afinal::

parte1Não se trata de notícia nova – até pelo contrário: em fevereiro último, o governo brasileiro decidiu pela aquisição, em um primeiro momento, de cinco baterias AAe de origem russa. Duas são do tipo Igla-S, de defesa de ponto (curto alcance) e três são do tipo Pantsir S-1.

A “carta de intenções” entre brasileiros e russos foi assinada em fevereiro, e é apenas o começo da discussão visando estabelecer o preço final da aquisição e conseguir maiores vantagens da parte dos russos. A assinatura do contrato definitivo deve acontecer em julho e as primeiras entregas, dezoito meses depois. O produto pode ser customizado segundo exigências pontuais do comprador: no caso brasileiro podem ser adotados alguns componentes fabricados por aqui, como as carretas blindadas, que têm um equivalente nacional, fabricado pela Avibrás para o sistema Astros-2. Já a adoção do radar nacional Saber 200, citada em alguns informes da imprensa, parece muito pouco provável pois implicaria em modificações de sistema que dificilmente os russos (ou qualquer outro fabricante) estariam dispostos a fazer. De toda forma, estimativas especializadas colocam o valor do pacote completo em pelo menos US$ 1 bilhão.

São ambos sistemas antiaéreos “estado da arte”. Pode-se dizer que o Igla já existe por aqui, e é conhecido tanto pelo EB quanto pela FAB – numa versão considerada ultrapassada, embora ainda eficaz, e que desperta um bocado de controvérsia (causa:: falou do assunto recentemente). A linhagem Igla faz parte dos sistemas conhecidos genericamente como MANPADS (acrônimo, em inglês de MAN Portable Air Defense  System – “Sistema de Defesa Antiaérea Portável por Homem”). O conceito surgiu como desdobramento da ideia, datada da 2ª GM, de armamentos de infantaria operados por pequenas equipes (dois ou três elementos), apontados a partir do ombro de um deles. O alcance dessas armas é “visual” – o operador tem de colocar o lançador mais ou menos na direção do alvo –, e o elemento-vetor é um foguete ou míssil de pequeno porte (no máximo dois metros de comprimento e 12-15 kg de peso).

O MANPADS típico é dividido em duas partes. Uma peça chamada, em inglês, handgrip (“empunhadura”) é considerada por alguns especialistas como o armamento, de fato: contém os sistemas de pontaria e (dependendo do modelo) guiagem, os sistemas eletrônicos e mecânicos que acionam a “munição” (em seguida explico por que as aspas), a bateria e a unidade “esfriadora” (no caso dos “buscadores de calor”); nesta peça, que pesa entre seis e dez quilos, dependendo do modelo considerado, é alojada a “munição”, um míssil auto ou teleguiado a combustível sólido, com uma cabeça de guerra de alto explosivo pesando entre um e três quilos. O míssil, pesando entre 8 e 12 quilos, é contido num tubo descartável, que, em alguns casos, pode ser reutilizado. Parte da literatura técnica considera a bateria e a “unidade esfriadora” como uma “terceira parte” do conjunto, pois têm de ser trocadas após certo tempo, ou após o disparo de uma “carga de munição”. Aqui no causa::, tendo a considerar a geringonça toda como um “sistema de armas”, visto que um não serve para nada sem o outro.

A quase totalidade dos MANPADS adota um entre dois tipos de sistema de guiagem: o primeiro, mais comum, é chamado “guiagem passiva” (passive homing em inglês): não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. Esses sistemas são colocados no próprio míssil, de modo que o operador, depois do lançamento, não tem mais controle sobre a trajetória. Estes sistemas de armas são os mais comuns: setenta por cento dos que estão ativos, o adotam. O segundo é menos comum: numa tradução livre, podemos chama-los de “guiagem de comando” (em inglês, command guidance). A trajetória do míssil é determinada por uma fonte externa, comandada pelo operador e captada por um receptor instalado no míssil. Um terceiro sistema é bem mais raro nesse tipo de arma: guiagem semi-ativa (semi-active homing, em inglês). Nesta, uma fonte externa “ilumina” o alvo através de uma fonte emissora de ondas, e míssil “percebe” a posição da interferência.

Os Igla são a terceira geração dos sistemas de guiagem passiva. Estes sistemas de armas se tornaram possíveis a partir do desenvolvimento, durante os anos 1950, de aparelhos de guiagem “buscadores de calor” (tradução livre da expressão heat-seekers). São equipamentos “passivos” porque não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. No caso, radiação do espectro eletromagnético em amplitudes de ondas que geram calor, mas são invisíveis aos olhos, conhecidas como “infravermelhas” (IR, do inglês infrared). O princípio é relativamente simples: a impulsão proporcionada por motores à reação baseia-se na emissão de jatos de gás em alta velocidade, numa única direção. O atrito provocado pelo movimento do gás gera “calor”, ou seja, uma súbita emissão de micro-ondas que se concentra em grande quantidade junto à cauda da aeronave, antes de se dispersar (por sinal, muitos corpos físicos têm essa propriedade de emitir, concentrar e dispersar calor). A cabeça de guiagem “buscadora de calor” possuí pequena quantidade de uma substância semicondutora (na primeira geração, sulfeto de chumbo II – PbS –, ou “galena”; nos mais modernos, antimoneto de índio – InSb – ou mercúrio-cádmio-telurídio – HdCdTe), todos elementos minerais com a propriedade de “medir” emissões de fótons em sequência (fotocorrente ou corrente fotelétrica). Essas emissões causam alteração no comportamento físico da substância, alteração que gera energia suficiente ser repassada a uma unidade de comando e controle eletrônica. Na primeira geração e em alguns tipos da segunda, essas unidades de controle eram analógicas; em partes da segunda e na terceira geração, digitais. A unidade de comando e controle interpreta os dados e aciona controles mecânicos dos aerofólios móveis, que mudam a direção de vôo do míssil.

Esse processo foi aplicado pela primeira vez no míssil ar-ar AIM9 Sidewinder, que começou a ser desenvolvido em 1949 e entrou em serviço em 1956. Nos final dos anos 1950 o sistema foi diminuído o suficiente para ser colocado em uma arma portátil, no caso o FIM- 43 Redeye, da empresa Convair (depois General Dynamics), que entrou em serviço em 1965, abrindo a primeira geração de MANPADS. Pouco depois, apareceu uma versão soviética, o sistema 9K32, desenvolvido pelo escritório de projetos (em russo, OKB) 134, dirigido pelo engenheiro Turopov nas proximidades da cidade de Tushino. Estreou em 1968, apelidado pelos soviéticos Strela e foi referenciado pela OTAN como SA-7 Grail. O SA-7 é geralmente tratado pela bibliografia especializada como cópia do Redeye obtida através de engenharia reversa, embora a história nunca tenha sido definitivamente provada.

Um problema dos MANPADS que não existia nos armamentos de ombro até então era o jato de chamas gerado pelo propelente do míssil, que poderia torrar o operador. A solução imaginada foi introduzir uma carga menos potente, chamada “de ejeção”, situada na extremidade posterior do míssil. Esta serve apenas para fazer o vetor deixar o tubo de lançamento, gerando um bocado de fumaça, inócua para o operador. Alguns segundos após o acionamento da “carga de ejeção” é acionado o “motor de vôo”, um motor-foguete que rapidamente acelera o vetor até velocidades que podem chegar até 1200 m/s, nos modelos mais modernos (para uma visão geral dos sistemas MANPADS, clique aqui).

Os MANPADS da primeira geração não eram lá muito eficientes: tinham de ser colocados pelo operador diretamente na direção da fonte de calor, ou seja, da cauda da aeronave e, ainda assim, o tempo de reação do míssil era geralmente menor do que a velocidade da aeronave, de modo que eram plenamente eficazes apenas contra helicópteros ou aeronaves voando em velocidades relativamente baixas, ou que passassem diretamente sobre a posição do míssil. Ainda por cima, as primeiras cabeças de guiagem não conseguiam distinguir faixas muitos amplas do espectro de micro-ondas, de modo que podiam ser “enganadas” por outras fontes próximas. Assim, não demorou a aparecerem contramedidas altamente eficazes, conhecidas como flares – uma cápsula ejetada por uma aeronave que, ao ser ativada gera, por reação química e sem explosão, uma grande quantidade de luz e calor durante um período que varia entre cinco e dez segundos.

A estreia em combate real do MANPADS deu-se na Guerra do Yom Kippur (1973), em grande estilo: a vantagem inicial egípcia deveu-se, em grande parte, à anulação da eficiente aviação israelense por sistemas de defesa AAe repassados às forças árabes pela União Soviética. A tática israelense de voar baixo com caças-bombardeiros A-4 Skyhawk, de modo a evitar a vigilância de radar foi anulada pela presença de 2000 SA-7 Strela-2, responsáveis pela derrubada de doze aeronaves, e por danos incapacitantes em outros dezoito (algumas fontes elevam este número para 45 baixas). A presença desse armamento acabou obrigando os israelenses a mudarem parcialmente suas táticas, passando a voar em altitudes médias, e assim entrando na faixa de alcance dos sistemas Tunguska (o avô do Pantsir S-1, mas disso a gente fala depois…) e dos SAMs convencionais. O melhor treinamento dos pilotos egípcios de caça (dentre os quais o mal fadado Hosni Mubarak) fez o resto, de forma que a guerra aérea, naquele conflito, pode ser considerada quese um empate.

As segunda e terceira gerações de MANPADS têm seus principais representantes no Stinger dos EUA, no SA-14 Strela-3 soviético, FN-6 chinês, Mistral francês e Blowpipe, da Grã Bretanha. O uso de cabeças de guiagem baseadas em antimoneto de índio e mercúrio-cádmio-telurídio aumentou a eficiência da leitura do espectro de cores IR, e as mais atualizadas conseguem distinguir faixas do espectro ultravioleta (UV), o que possibilitou que os mísseis passassem a distinguir entre o emissor primário e os secundários e, desta forma, adquirissem o alvo de forma correta, evitando interferência. Um aspecto decisivo que aumentou exponencialmente a eficácia dos MANPADS da segunda geração foi a introdução de “baterias termais”, unidades geradoras de eletricidade de maior eficiência, e “unidades resfriadoras de bateria” (em inglês, BCU – battery coolant unity), também conhecidas  como. Essas unidades abaixam a temperatura do buscador IR até cerca de -200°, aumentando a sensibilidade do semicondutor da cabeça de guiagem e, por consequência, a eficácia do sistema.

Entretanto, a partir da segunda geração começaram a surgir – ou ser retomados – métodos de guiagem ativa, a tal ”guiagem de comando”. Em última análise, é a releitura de um sistema usado na 2ª GM, pelos alemães, em bombas planadoras e mísseis antiaéreos. O operador dirige o vetor utilizando a combinação de um visor e um pequeno manche (em inglês, joystick). É o sistema utilizado pelo MANPADS britânico Blowpipe (“zarabatana”). Este adota uma variação do sistema denominado MCLOS (abreviatura, em inglês, de Manual Command Line Of Sight, ou “Comando Manual por Linha de Visada”).  Através de emissões de rádio estimuladas pelo movimento do joystick, a trajetória do vetor é corrigida até alcançar o alvo. O operador tem de colocar o míssil na direção do alvo, dispara-lo e, após três segundos, passa a dirigir a trajetória movimentando um pequeno joystick com o polegar, até conseguir o impacto. Parece fácil? Tente faze-lo com uma geringonça de sete quilos apoiada no ombro. Tratava-se de um processo complexo, que exigia equipes muito bem treinadas e conhecedoras do sistema, o que rompia a filosofia básica do conceito MANPADS. Em 1985 a arma foi descontinuada pelos britânicos. Umas cinquenta unidades foram vendidas aos argentinos no final dos anos 1970, de modo que, durante a Guerra das Falklands, ironicamente, os dois lados estavam armados com o produto britânico. Os britânicos afirmam ter derrubado nove aeronaves argentinas por meio dessa arma e os argentinos dizem ter abatido dois helicópteros e uma aeronave VSTOL Harrier.

Também foi nos anos 1980 que a entrega, pela CIA, de 1000 FIM-92 Stinger aos guerrilheiros afegãos fez deste sistema de armas um verdadeiro astro da guerra de guerrilha contra os soviéticos. Segundo informações distribuídas pela agência de inteligência norte-americana, entre 400 e 500 aeronaves soviéticas e afegãs, aviões e helicópteros foram abatidos em pouco mais de cinco anos. No Afeganistão, o conceito de MANPADS chegou à maturidade e tornou-se motivo para que tanto soviéticos quanto, posteriormente, os próprios norte-americanos mudassem, suas táticas de apoio aéreo aproximado, passando a evitar perfis de ataque muito próximos do solo. A eficiência dos MANPADS contra aeronaves voando em altitudes ultrabaixas, em solo acidentado, as tornava alvos fáceis para irregulares com baixo nível de treinamento, alta consciência do terreno e altamente motivados. Em função do curto alcance dos mísseis “buscadores de calor”, as incursões soviéticas passaram a ser feitas de altitudes médias e altas, que, dada a alta mobilidade das unidades de guerrilheiros, eram muito pouco efetivas. Posteriormente, em sua guerra afegã “contra o terrorismo”, os norte-americanos passaram a usar ataques de uma única aeronave em grande altitude e usando armamento inteligente – também sem grande eficiência e com alto número de baixas colaterais.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil tem adquirido alguns lotes do SA-18 Grouse. Os SA-18 são a versão anterior do sistema de armas adquirido agora, este referenciado pela OTAN como SA-24 Grinch (um tipo de duende que rouba motivos de satisfação alheia – no caso, dos pilotos de aeronaves…) e apresentado pelos fabricantes em 2008. Com relação à versão usada pelas FFAA brasileiras, o SA-24 tem maior alcance (6 km contra 4,5 km) e maior eficiência noturna. Esta é provida pela combinação de um rastreador de alvos baseado em amplificador de luz passivo (instalado na empunhadura), que se combina ao tradicional, baseado no buscador de emissões IR. Segundo os fabricantes, é plenamente eficaz contra alvos em vôo em altitudes de até 3500 m, mas ainda se destina-se principalmente a opor alvos em velocidade subsônica: helicópteros, mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Contra aeronaves em velocidades transônicas, sua eficácia decai exponencialmente. Ainda assim, o Igla-S é bastante versátil, podendo ser adaptado para vários tipos de plataformas estáticas, em navios e em helicópteros.

A aquisição de duas baterias faz sentido em função do fato de uma complementar a outra.  Os Igla-S, instalados em lançadores duplos operados por um único homem, podem ser rapidamente transportados e postos em bateria, em locais bastante discretos, como topo de prédios ou mesmo em pequenos veículos do porte de um pequeno caminhão. A outra parte da compra, o Pantsir S-1, é bem mais complexa, e constitui um sistema pelo menos em princípio mais eficiente, voltado para a aquisição de alvos em distâncias médias. Combina mísseis e armamento de tubo, orientados por radar. Falaremos deste em outra hora, para termos uma visão ampla da aquisição brasileira, suas possíveis vantagens e desvantagens::

Atualizando os velhos camaradas e uma notícia estapafúrdia::

Estava eu inventando desculpas para não começar a trabalhar (não vivo do causa::, infelizmente, mas quem sabe um dia…), quando tive a idéia de visitar o ótimo blogue do Comandante James Bond (i.e. MBSantigo Jr), e tive a surpresa de descobrir que, mais uma vez, o Comandante mudou de endereço. Não tem problema – dentre os que conheço, ainda é o melhor redator de blogues: elegeu um objeto inusitado, os temas abordados são interessantes e sobretudo, os textos são muito bem escritos e complementados. O comandante Bond sempre gostou muito de falar de armamento, e fala bem, principalmente porque consegue a proeza de colocar bom humor num assunto que pode ser tudo, menos bem humorado. Esta característica sempre me desperta uma vontade danada de comentar os postos específicos, e, desta feita, encontrei dois deles. Não que discorde do conteúdo, mas porque fico achando que poderia, quem sabe, acrescentar alguma coisa (é inveja, mesmo  – quem quiser dar uma olhada, clique aqui e aqui, leia o texto e, em seguida, vá até os comentários). O fato é que, procurando dados para complementar meus comentários, acabei dando de cara com um que achei extremamente interessnte. Pois é – passo ao assunto, com o devido reconhecimento do comandante Bond::

É fato que a União Soviética foi, durante as décadas posteriores à 2ª GM, foi a maior produtora de armas do mundo. Os EUA ficavam em segundo lugar, mas não exatamente porque abominem as armas e amem a paz, mas porque seus aliados, notadamente Inglaterra (terceirona) e Alemanha (a partir dos anos 1960, quarta, com honras), as produziam em quantidades mais do que suficientes. A URSS, ao contrário: tinha de equipar seus mais de três milhões de militares e mais de um milhão de policiais militarizados, e suprir boa parte das necessidades dos cerca de dois milhões de militares de seus aliados do Pacto de Varsóvia.

A questão é que, desde antes da guerra, os planejadores soviéticos, seguindo as diretrizes emanadas da ditadura stalinista, colocaram muita ênfase na indústria militar. Não é por outro motivo que, em 1939, os soviéticos tinham mais tanques, peças de artilharia e aeronaves do que qualquer outro país, inclusive a Alemanha. Por sinal, a Alemanha não seria termo de comparação – as FFAA soviéticas eram três vezes maiores do que as alemãs.

Foi o planejamento centralizado, implantado no final dos anos 1920, que permitiu, através do direcionamento dos recursos disponíveis, fortalecer certos ramos da produção em detrimento de outros, e certas regiões, em detrimento de outras. Numa economia capitalista, as demandas do mercado indicam para onde se voltam os investimentos e a competição determina o dinamismo econômico; numa economia socialista, os investimentos são decididos de antemão, segundo o que seriam, na opinião dos planejadores, as necessidades da sociedade como um todo. A “coletivização da agricultura”, uma espécie de reforma agrária feita à ponta de baioneta, é um exemplo radical de como funcionou essa coisa. A reorganização da agricultura liberou, em cinco anos, recursos que se encontravam presos, de forma arcaica e improdutiva, nas inumeráveis propriedades pertencentes a milhões de camponesses, que não tinham sido atingidos pela Revolução de 1917 e ainda continuavam numa economia de base capitalista e especulativa. Isso significou que terras cultiváveis, gado, fontes de água, áreas potencialmente produtoras de madeira e minerios, foram desapropriadas, e a mão-de-obra excedente, desalojada pela racionalização da produção agrícola, extrativista e minerária, foi deslocada para outros setores da produção, notadamente a indústria. Esses recursos entraram no circuito econômico repentinamente, e permitiram um notável surto econômico. Por outro lado, e ao mesmo tempo, esse processo provocou uma verdadeira epidemia de fome em regiões que, apesar da miséria endêmica, não conheciam a escassez de comida. Os “Planos Quinquenais”, que aconteceram junto a esse processo, estabeleceram metas de produção, que eram pensadas paralelamente às metas econômicas.

Deu certo? Deu: em uma década, o PIB sovietico cresceu mais de cem por cento. O dinamismo soviético impressionou até mesmo grandes capitalistas norte-americanos e europeus. Por outro lado, o Estado determinava tudo (o que mais tarde revelou-se um problema), inclusive como seriam direcionados os investimentos públicos. A guerra enfrentada entre 1918 e 1920, que envolveu inclusive a participação de tropas estrangeiras, e vencida pelo recriado Exército Vermelho, organizado por Trotsky e por alguns oficiais militares convertidos ao socialismo, convenceu os novos governantes que, antes de qualquer coisa, a URSS precisaria de armas, e que não as conseguiria do exterior. Assim, desde antes da implantação dos “Planos Quinquenais”, foi posta grande ênfase naquilo que, hoje em dia, chamamos “indústria de defesa”. Depois da 2ª GM, a URSS, com grandes planos expansionistas, não chegou a desmobilizar suas enormes FFAA, até pelo contrário. O setor militar foi reforçado, e, em decorrência disto, também outros setores relacionados, particularmente a pesquisa básica, a pesquisa aplicada, as universidades e os laboratórios especializados. A vantagem inicial soviética na corrida espacial, por exemplo, deveu-se à pesquisa desenvolvida para conseguir vetores funcionais que levassem até o território norte-americano as bombas nucleares conseguidas no início dos anos 1950. Os lançamentos de satélites e de “cosmonaves” conduzindo animais e, pouco depois, homens, deveram-se aos testes com sistemas que permitissem calcular de modo eficaz as trajetórias e pontos de impacto dos vetores, bem como monitorá-los e influir nas diversas fases do vôo. Ou seja: a corrida espacial é um produto da corrida armamentista que caracterizou a Guerra Fria. A superioridade inicial dos soviéticos devia-se a necessidades militares prementes, as quais os norte-americanos, inicialmente, pensavam não ser preocupação.

O fato é que a sociedade soviética era, bem mais que as ocidentais, uma sociedade altamente centralizada e burocratizada – quer dizer, a aplicação das decisões implicava numa capilaridade perversa (a expressão é do teórico alemão oriental Rudolf Bahro, no livro Crítica ao Sorex – Socialismo Realmente Existente). Segundo esse teórico, que conseguiu a proeza de ser dissidente nas duas Alemanhas, numa ordem dominada pelo aparato do estado e do partido, que monopoliza todo o poder, e que sufoca a vitalidade da ordem econômica e social, por sufocar a prática política, a posse dos meios de produção significou, simplesmente, seu controle pela máquina do estado.  Dizendo de outra maneira, o planejamento centralizado poderia até ser eficiente para certos aspectos da organização econômica, mas não chegou a resolver certos nós da economia propriamente dita.

Um desses nós é que, no capitalismo, a competição determina o dinamismo econômico: as indústrias querem, em última análise, lucrar, e, independente das explicações teóricas, na prática isto só acontece se os produtos forem vendidos. A inovação acaba sendo fator determinante no processo como um todo, pois possibilita melhores produtos para enfrentar a competição. Na sociedade socialista, em princípio, o Estado seria o dono de tudo, o que tornaria quase desnecessária a competição. Existia, é claro, um “mercado socialista”, balizado – pelo menos segundo os teóricos socialistas – pelas reais necessidades da sociedade. Na prática, o que aconteceu, de fato, é que o “planejamento socialista” criou uma burocracia gigantesca, cuja função última era manter o poder político. Boa parte desse enorme conjunto de funcionários acabava por duplicar (quando pouco…) o trabalho das outras partes, e gerava, no processo, enorme ineficiência. Não é que faltasse recursos – estes existiam, até em boas quantidades, mas eram mal distribuídos ao paradoxo; não é que a mão de obra fosse de baixa qualidade – o problema era a política de “pleno emprego socialista”, que impedia o gerenciamento eficaz do trabalho; não é que os produtos fossem mal concebidos – o problema é que entre a prancheta e a fábrica, o processo era de tal forma complexo, confuso e desorganizado que acabava sendo mais simples colocar um satélite em órbita do que produzir bicicletas de boa qualidade.

Tudo acabava na dura realidade de que os países socialistas – URSS à frente – apesar dos feitos no campo social, não conseguiam nem chegar perto dos padrões econômicos do Ocidente, embora tivessem igualado e, em certos casos, até superado os ocidentais em áreas como a educação, as ciências puras, certos ramos da medicina, da produção agrícola, e por aí vai. Uma questão discutida até a exaustão entre os comunistas de todo o mundo era o motivo da União Soviética não conseguir igualar a qualidade de vida dos países capitalistas em coisas simples como, por exemplo, a distribuição de bens de consumo. As explicações por vezes chegavam a ser pueris – “na URSS as pessoas são mais conscientes da necessidade de  fazer sacrifícios” ou “na URSS todos tem suas necessidades resolvidas, de modo que não sobra muito para os gastos conspícuos e suntuários”. O fato que não podia ser amplamente debatido é que o ambiente de liberdade não apenas incentivava a competitividade como a criatividade. No Ocidente, não eram apenas os artistas que podiam fazer o que bem entendessem, mas também os pensadores e cientistas. Na URSS, a partir do stalinismo, o estado se metia a determinar até mesmo o que era “arte socialista”, e chegaram a absurdos como tentar estabelecer a existência de uma “biologia dialética”, em oposição à uma “biologia burguesa”. O fato é que nem todo mundo se dispunha a achar aceitável o horrível “realismo socialista” ou tentar encontrar a dialética na natureza, e daí, milhões de pessoas tornavam-se pouco confiáveis aos olhos dos detentores do poder. O resultado é que o estado desconfiava de tudo e a sociedade era estritamente vigiada. Após a desestalinização da era Khrushchev (1953-1964), certas bobagens, embora não admitidas oficialmente, passaram ser toleradas, como o contrabando de músicas dos Beatles – que eram extremamente populares entre a juventude soviética -, o uso de calças blue-jeans fabricadas a partir de macacões distribuídos aos operários e a leitura de histórias em quadrinhos francesas e alemãs. Mas os aspectos falhos do socialismo não podiam ser debatidos, pois perigava de se chegar até os nós do regime, tais como o excesso de centralismo, a burocracia como entrave ao planejamento e a má organização econômica como razão para a incapacidade distributiva. A ideologia, veiculada através do aparelho de estado acabava por explicar tudo. Claro que havia ideologia na sociedade ocidental, mas esta transitava dentro de limites bem mais estreitos que na União Soviética e o amplo debate, por vezes autofágico, tornava mais difícil o controle da opinião – e da criatividade.

A ineficiência soviética manifestava-se até mesmo nas áreas do mais alto interese do estado. Um dos ramos da indústria que, internamente, era menos ineficiente era a indústria de defesa. Durante a 2ª GM, a URSS deu uma demonstração de vontade coletiva e determinação que certamente será difícil de encontrar em outros eventos, ao longo da história. Por outro lado, é sempre preciso esclarecer que, não fosse o apoio dos aliados, notadamente dos EUA, a URSS provavelmente teria sucumbido. Mas o apoio aliado se deu principalmente em termos de alimentos, matérias primas e insumos (por exemplo, enorme quantidade de gasolina de aviação e lubrificantes de vários tipos, bem como produtos químicos diversos foram cedidos à União Soviética ao longo da guerra). Os equipamentos bélicos (tanques, aeronaves, armas pesadas e individuais, munição) e outros equipamentos foram fabricados pela indústria soviética, cuja eficiência e capacidade de improvisação tornaram-se quase lendários.  Terminada a guerra, as forças soviéticas tinham um efetivo de aproximadamente 15 milhões de homens e mulheres (e crianças, já que adolescentes de até 13 anos foram convocados), mas estavam também equipadas com 40.000 tanques, 80.000 veículos blindados de todos os tipos, 100.000 canhões de todos os tipos, 700.000 veículos não protegidos, cerca de 30.000 aeronaves de todos os tipos, aproximadamente 300 belonaves de primeira linha (dentre as quais 150 submarinos) e 2.000 outros navios de uso militar. Os especialistas concordam que oitenta por cento desta quantidade saiu de linhas de produção soviéticas. Outras fontes dizem que boa parte dos caminhões e outros veículos não protegidos foi também fornecida pelos EUA. O importante, no caso, é que quando as hostilidades se encerraram, praticamente os únicos setores da produção soviética que estavam plenamente organizados eram aqueles voltados para suprir as necessidades militares. Existiam instalações industriais gigantescas, organizadas segundo um processo semelhante ao fordismo, denominado “stakhanovismo“, capazes de produzir em escala comparável a do Ocidente.  Um exemplo espetacular é a cidade de Chelyabinsk, sítio de inúmeras indústrias metal-mecânicas e químicas instaladas nos anos 1930. A partir de 1941, a lugar começou a receber as plantas industriais responsáveis pela produção do tanque médio T34, e rapidamente as indústrias locais voltaram-se para atender exclusivamente ao fabrico do blindado, que, durante toda a guerra, chegou a números de quase 50.000 unidades.

Uma dessas fábricas gigantes é a IZH, também conhecida como “Izhmash”. Situada na cidade de Izhevsky, esta indústria metal-mecânica foi fundada em 1807 e estatizada em 1928. Sempre associada à fabricação de armas leves, Izhmash tornou-se, durante a 2ª GM, a principal fornecedora de armamento individual para os expercitos da URSS. na segunda metade dos anos 1940, com as submetralhadoras descontinuadas, a empresa voltou-se totalmente para a produção do fuzil de assalto Kalashnikov AK47 e todas as suas variantes. Calcula-se que, dos 80 milhões de AKs existentes (algumas fontes falam em 100 milhões), algo em torno de 55 milhões tenha saído das linhas da IZH. Desde a guerra do Vietnã, essa arma encontra-se nas mãos de praticamente todos os combatentes de guerrilha e milicianos do mundo, além, claro, de milhões de combatentes e policiais regulares (causa:: já publicou um longo estudo sobre essa venerável família de armas de infantaria).

Qual a razão da existência de tantos AKs? Segundo especialistas da própria Rússia, o temor perene de uma guerra com o Ocidente, principalmente a partir dos anos 1950, fez com que a URSS investisse na indústria de defesa enorme quantidade de recursos. Depois do fim da 2ª GM, enquanto o Ocidente, em particular a Europa, procurava desmobilizar rapidamente suas FFAA, a URSS manteve as dela, como forma inclusive de manter quietas as populações dos países, em sua esfera de influência, tornados socialistas. Desde o período stalinista, as forças armadas soviéticas, por qualquer padrão, eram, mesmo em tempo de paz, gigantescas. Em caso de guerra – guerra que, segundo as lideranças, era sempre iminente – o país deveria ser capaz de mobilizar rapidamente milhões de reservistas, o que significava dar-lhes armas e equipamentos muito rapidamente. Foi assim que a produção de equipamento bélico cresceu de modo exponencial. Um motivo que deu argumentos às lideranças comunistas foi a Guerra da Coréia. Embora os chineses tenham se saído bastante bem em garantir a sobrevivência do regime norte-coreano, pareceu claro que apenas uma grande quantidade de tropas mobilizadas rapidamente e se deslocando em alta velocidade poderia compensar a arrasadora superioridade aérea do Ocidente. Ainda assim, a vantagem chinesa, conseguida conseguida através da rápida intervenção de mais de 300.000 “voluntários” através da fronteira, dependeu de um fluxo constante de armas e munições, inclusive várias centenas de aeronaves inicialmente pilotadas por soviéticos depois, por chineses. A quase totalidade das armas era proveniente dos enormes estoques que tinham “sobrado” da “Grande Guerra Patriótica” (como o soviéticos chamavam a 2ª GM): submetralhadoras PPSh, tanques T34, canhões ZIS-3 de emprego geral, foguetes Katyusha montados em caminhões GAZ. Tal procedimento não deve provocar estranheza, porque os EUA fizeram exatamente a mesma coisa: lutaram com os estoques de armas estocadas desde a 2ª GM. Apenas a partir da metade do conflito algumas novidades foram sendo introduzidas. Só que as novidades soviéticas dificilmente chegavam aos seus aliados orientais, em função da desconfiança que sempre atravessou as relações sino-soviéticas.

Como já vimos aqui mesmo no causa::, o AK47 surgiu em 1947 mas levou pelo menos dez anos até chegar às mãos das forças regulares em números consideráveis. A partir de 1956, a produção começou a crescer, conforme a arma passou a equipar as FFAA dos países satélites, geralmente produzidas pela própria indústria local. Ainda assim, ao longo de trinta anos, uma quantidade astronômica saía da Izhmash, boa parte da qual acabou em depósitos. Esses depósitos foram parcialmente esvaziados ao longo da Guerra do Vietnã – ao contrário do que parece, a maioria das armas utilizadas pelo Vietnã do Norte era de origem soviética, e não chinesa. Bem antes de 1974, quando começou a difusão do AK74, as armas estocadas já eram distribuídas para exércitos de países do Terceiro Mundo, nos quais a URSS buscava influência. Assim, todas as nações do Oriente Médio receberam grandes quantidades do fuzil soviético e algumas delas, como o Egito se tornaram capazes de produzir cópias autóctones; a Índia recebeu enormes quantidades, e depois passou a fabricá-las localmente; Bangladesh poderia não ter lá muita comida para seus 140 milhões de habitantes, mas tinha muitos AKs fornecidos pela URSS e pela Índia; Iraque, Sudão, Nigéria, Angola, Moçambique, Rodésia, Iran, etc., etc., beberam todos nas enorme capacidade soviética de produzir AKs de todos os tipos. Os movimentos insurrecionais também, mas a maior parte das armas soviéticas que lhes chegavam era fornecida através de traficantes, que constituiam uma espécie de versão eficiente da tal “capilaridade perversa”.

Com a crise da URSS, o fim da política de disputa global com os EUA e a crise econômica que comprometeu todos os ramos do estado soviético, a Rússia já não tinha nem disposição nem recursos para financiar exércitos e movimentos insurrecionais pelo mundo. Ainda assim, os AK, fossem 47 ou 74 continuaram chegando em grandes quantidades aos interessados. Por outro lado, a incapacidade russa em subsidiar as vendas as fez cair notavelmente, isto somando-se ao fato de que o ex-bloco soviético também começou a desovar seus próprios estoques. Como a Izhmash não parou de produzir AK74 (o modelo 47 teve sua produção muito reduzida a partir dos anos 1980, mantida apenas uma linha voltada para exportação), a Rússia continuou a comprá-los. O que faz sentido, já que, na época, as armas de infantaria eram praticamente o único produto da IZH, que também produzia (e continua) outras armas militares, armas esportivas, carros e motocicletas. O fato é que a perda do mercado cativo da União Soviética criou enormes problemas para a empresa, e a Rússia continuou com os subsídios da época do comunismo.

O problema é que a Rússia não podia dar-se ao luxo de deixá-la falir ou ser comprada, a preço de banana, pela diretoria, como aconteceu por exemplo, com a indústria petrolífera e parte – a parte boa, lógico – da indústria química e da indústria mecânica). Izhmash, acredite se quiser, é agora praticamente a única fábrica de armas de infantaria da Rússia, pois as “filiais” que eram mantidas nas ex-repúblicas – por motivos exclusivamente políticos – passaram à propriedade dos novos governos. A ineficiência do processo mostrou, então, sua face real: não havia planejamento e  a direção da empresa insistia em manter a linha AK em produção sem levar em consideração a redução da demanda. A produção era mantida artificialmente alta, pois fossem quais fossem os números, as FFAA e as forças policiais as compravam, por determinação do governo.  Para piorar as coisas, o AK74 e suas variantes se mostravam ultrapassados desde os anos 1980. Diante da demanda das FFAA por uma nova arma, a empresa insistia em apresentar modelos que não passavam de variantes da família AK, que eram sistematicamente recusados pelas forças armadas.

No momento, a IZH está trabalhando em uma nova versão do AK, destinada a substituir todas as anteriores – esta seria denominada AK12. Segundo a empresa, os testes de campo, em unidades operacionais do exército de da marinha russos deverão se iniciar antes do fim do corrente ano. A questão é que Ministério da Defesa da Rússia tem mostrado muito pouco interesse pela nova arma, exatamente em função do fato de que se trata de uma maquiagem sobre o velho AK74 – a versão do AK para o cartucho 5.45X39 mm, que já acumula 38 anos de serviços. Embora a empresa – que atravessa sérias dificuldades desde os anos 1990 – afirme que se trata de um novo armamento, adaptado às demandas das modernas forças armadas e do moderno campo de batalha, projetada sem abandonar as qualidades que tornaram a família AK sinônimo de fuzil de assalto, especialistas têm dito que, de fato, se trata de um projeto muito parecido com o do AN94 Nikonov, um aperfeiçoamento do AK74 projetado nos anos 1980 por um engenheiro da própria IZH, e que acabou distribuído apenas para forças especiais. O que parecia eficiência era, um planejamento cronicamente ineficaz arraigado por todo o estado soviético. Além do “caso Nikonov”, houve também a maluquice do AEK.

Trata-se do fuzil de assalto AEK971, desenvolvido pela  empresa Usina de Fabricação de Máquinas Kovrov, ligada ao ateliê engenheiro S.I. Koksharov. A arma foi desenhada para participar do concurso “Abakan”, no final dos anos 1980, vencido pelo Nikonov. Apesar de ter sido desqualificado, o AEK971, que, de fato, já estava em produção, foi oferecido às forças policiais e para exportação. No início do século 21, pequenos lotes foram fabricados por encomenda do Ministério dos Negócios Interiores, que tinha suas próprias tropas, um grupo de forças especiais (Spetsnaz) especializadas em lidar com distúrbios civis, que teve importante papel em garantir o governo Gorbatshev, quando da tentativa de derruba-lo. A arma não “colou” de jeito nenhum, e quando a Krokov foi reestruturada, em 2006, deixando de fabricar produtos militares, o AEK acabou de vez, por não ter compradores nem usuários. Embora o governo tenha ordenado que o maquinário usado para a produção militar fosse transferido para outra empresa, na mesma cidade, a diretoria da AEK, tendo “adquirido” a fábrica, recusou-se a executar a transferência, sob a alegação que se tratava de patrimônio privado. O AEK, como não podeia deixar d ser, era outro clone maquiado do AK74.

O fato é que se fala cada vez mais, nos círculos profissionais de defesa da Rússia, na necessidade de um fuzil de assalto totalmente novo. Como o sistema Future soldier já está sendo discutido lá, tanto quanto nos EUA, França, Alemanha, Inglaterra e até mesmo no Brasil, a questão do armamento individual torna-se premente. Mas o que fazer com as quantidades oceânicas de AKs em depósito? Planejadores do Exército declararam, ano passado, que a quantidade de AK74 era “mais de dez vezes superior às necesidades das forças armadas e policiais pelos próximos anos”, citaram números  de 17 milhões de exemplares. Em função desse excesso, e do desenvolvimento, em curso de uma nova arma individual, que deverá substituir todo o armamento das FFAA russas, a aquisição de unidades novas de fábrica foi interrompida, por determinação do Chefe do estado Maior Geral das FFAA russas, general de exército Nikolai Makarov. Por enquanto, a “nova” arma é o AK200, que não passa de outra versão do AK74, com algumas novidades visando fazê-la parecer mais moderna, e já pensando na provável recusa do AK12::

Cultura material militar::Melhores projéteis fazem melhores armas::

Já faz algum tempo, examinamos alguns tópicos relativos à teoria e história do tiro e das armas de fogo. Imagino que os assíduos (será que ainda existem?..) talvez ainda lembrem, à esta altura, que o tiro por arma de fogo começou a se desenvolver no final da Idade Média, depois da introdução, no Ocidente, da pólvora negra e das primeiras armas de fogo. Essas tinham diversas limitações, que foram sendo resolvidas conforme a tecnologia, em diversos campos, avançava. A ciência do tiro, de início, era empírica, ou seja, ia se desenvolvendo por uma série de experiências de acerto e erro. Os maiores problemas eram decorrentes da baixa confiabilidade da pólvora, das limitações da metalurgia e dos escassos conhecimentos de física. O tiro é influenciado por diversas variáveis que têm de  ser calculadas a partir de questões matematicamente formuladas. Por sinal, sejamos mais precisos: o tiro é uma questão de matemática e de física. A precisão só pode ser implementada conforme a física se desenvolve e a matemática consegue traduzir, naquela estranha e fascinante linguagem, as questões colocadas pelos artilheiros e atiradores. Dizendo de outra forma: o problema era possibilitar ao atirador certo controle sobre a trajetória do projetil. Esse problema estava ligado à diversas condicionantes.

Por exemplo: qual a carga de pólvora necessária para fazer o projetil voar? Uma quantidade muito pequena tornava o tiro inocuo; muito grande, rebentava a arma. Ferramentas matemáticas (equações) que permitissem calcular a potência da explosão só surgiram no século 18. Até então, era tudo um exercício de experimentação. As quantidades de pólvora iam sendo reguladas, e, após determinadas, passavam a constar de manuais que ensinavam os soldados quais as quantidades corretas. O atirador conduzia, desde o final do século 15, diversas unidades de uma espécie de bisnaga, chamada polvorinho, com as quantidades adequadas de pólvora. Para carregar a arma, esta era posta com a coronha no chão (o “cabo” da “bengala” do tal “canhão-bengala”, harckenbuchse, ou “arcabuz”) e a pólvora despejada lá dentro. Um pouco de estopa era socada, por intermédio de uma vareta, sobre a pólvora e, em seguida, o atirador deixava a bala rolar através do cano, e socava tudo mais uma vez. O passo seguinte era expor a caçoleta e colocar nela um pouco de pólvora de escorva, uma pólvora mais fina destinada a servir de “pavio”. A escorva ficava em outro recipiente, de modo que é possível calcular o número de operações necessárias para carregar um arma, dessa maneira. Era tudo carregado separadamente. Em seguida, o atirador puxava o cão para trás, até que ficasse preso com a mola distendida. Para o disparo, a arma era apoiada numa forquilha (uma coisa dessas podia pesar até vinte quilos…) e o disparo feito. Entre a ignição da escorva e a da carga, ocorria certo tempo, visto que a pólvora negra era de queima lenta. Isso significava que o atirador deveria ficar firme, no momento da primeira explosão, esperando que a carga explodisse – e a primeira explosão gerava um monte e fumaça quente e fagulhas, bem próximo do rosto do coitado… Que Deus protegesse esses primeiros atiradores – até porque eles deviam viver rezando, já que as principais guerras do período eram por motivos religiososos. Nessas guerras, talvez para matar mais rápido a cavalaria católica, o campeão da causa protestante, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia,  durante a Guerra dos Trinta Anos, inventou uma série de importantes inovações teóricas e técnicas, todas relativas à implementação do tiro em combate. Uma dessas foi a introdução do “cartucho”, que não passava de uma carga preparada para uso, na qual eram embrulhados em papel, o projétil, a carga de pólvora e a escorva, levados pelo atirador em um embornal. Esse truque economizava operações e torna o tiro muito mais rápido.

A questão é que, além das armas serem de alma lisa, ou seja, sem raiamento, o projetil ficava meio solto lá dentro. A folga entre a parede interna do cano e o projetil decorria do fato de que ele tinha de deslizar para dentro com alguma facilidade. Só que essa folga tornava o tiro bastante impreciso, uma vez que a pressão exercida pelo gás gerado pela explosão da pólvora acabava sendo desigualmente distribuída, e fazia com que o projetil fosse ricocheteando na parede interna do cano. As consequências resultantes dessa situação acabavam fazendo com que a trajetória final do projetil não pudesse ser minimamente controlada (dependendo da seção do cano da arma com que o projetil se chocasse por último, ele podia iniciar o vôo mais para cima, para baixo ou para os lados). Além do mais, o projetil deixava o cano “trambolhando”, ou seja, numa rotação axial aleatória, que não era suficiente para vencer a resistência do ar de modo uniforme.

Inicialmente, a solução foi colocar os infantes bem juntos, um dos outros, atirando ao mesmo tempo contra uma tropa adversária colocada a uns trezentos ou quatrocentos metros de distância e organizada mais ou menos da mesma forma. A cavalaria atacava pelos lados, tentando desorganizar as fileiras (chamadas “ordens”) adversárias. Quem acertasse mais, vencia. Claro, esta é uma simplificação, mas imaginem a cena.

Ou seja, melhorar o tiro era mais uma questão técnica que militar. Os dois principais problemas que acompanharam o tiro desde sua origem foram (um) a quantidade de energia imprimida ao projétil e (dois) a estabilização do vôo, de modo que a trajetória possa ser controlada. O problema da quantidade de energia começou a ser resolvido com a invenção da pólvora negra; o da estabilização demoraria mais.

A idéia de fazer o projetil girar em torno do próprio eixo (esse movimento é chamado “hélice”, uma linha à qual é imprimida torção constante e proporcional à curvatura) ao longo da trajetória não era nova. De fato, era aplicada, desde a Antiguidade, a projéteis de formato alongado, tais como flechas e dardos, de modo a compensar a resistência do ar. Em sistemas mecânicos de lançamento, imprimir ao projetil um movimento de rotação, ainda que instável, não era difícil. Em flechas, uma carenagem constituída por penas ou qualquer elemento que oponha suficiente resistência à passagem do ar, situada na extremidade posterior do corpo, era suficiente para provocar um movimento giratório. Como o ar é um fluído, a resistência a penetração de um corpo (chamada de “arrasto”) é inversamente proporcional à capacidade desse corpo em rompê-la, ou seja, à diferença entre a quantidade de energia imprimida a ele e a existente no elemento de oposição. O problema seria, então, a quantidade de energia. A invenção da pólvora negra colocou à disposição dos projetistas de armas um processo de geração de energia que resolveu o entrave da quantidade, embora tenha criado outros. Um deles, talvez o principal, foi o descrito mais acima, diretamente relacionado com o formato desses primeiros projetis.

Começou a ser ultrapassado com a invenção do processo chamado “raiamento” (em inglês, rifling, daí a expressão rifle). Tratava-se de escavar, no interior do cano, uma série de sulcos muito rasos, que lhe percorriam o comprimento em um movimento de hélice. O projétil, ao ser violentamente tirado da inércia pela expansão dos gases, passava a correr por esses sulcos e começava a girar sobre si mesmo. O efeito giroscópico da rotação axial estabilizava o vôo, tornando a trajetória mais precisa e previsível.Esse processo foi inventado na segunda metade do século 15, na Europa Central. É provável que, inicialmente, o raiamento tenha visado aproveitar melhor a pressão gerada pelos gases da explosão, visto que as primeiras raias eram retas, e foram aplicadas em armas de caça, de alto luxo. Geralmente, um par de raias dividia o interior do cano em duas seções. (O Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, possui um exemplar desse tipo de arma em suas coleções). Havia, entretanto, o problema da dificuldade do carregamento, que ficava mais lento. Pressionar o projétil ao longo do cano, por meio da vareta, o amoldava às raias e fazia o processo funcionar, mas exigia força e certo cuidado. Em armas de caça, isso não era problema; em armas de combate carregadas pela boca, essa operação tinha de ser rápida, e, como já vimos, o projétil simplesmente “escorria” pelo cano, empurrado suavemente até alcançar a câmara. Os especialistas dizem que, em meados do século 18, um soldado dotado de cartuchos conseguia carregar um mosquete Brown Bess em cerca de vinte segundos; já um rifle de caça tomava do atirador cerca de um minuto para um tiro cuja precisão (caso fosse um bom atirador) podia alcançar 400 metros. Determinados rifles, armas de caça de pederneira feitas nos EUA por armeiros de origem alemã, também se distinguiam pelos longos canos, forma de potencializar a expansão dos gases. Ainda no século 18, a habilidade de civis que lidavam com armas de caça, particularmente na Europa Central, levou à criação de tropas especializadas, formadas por homens que sabiam lidar com “canos raiados”: Jägern, Chasseurs, Cazadores.eram os nomes que receberam essas tropas, uma espécie de infantaria ligeira que se deslocava buscando melhores posições para o tiro. Nos último quartel do século 18, a eficiente participação de caçadores civis nas milícias que combateram os ingleses durante a Guerra da Independência dos EUA, e depois nas guerras contra a França, levaram ao estudo, pelos ingleses, de novas táticas baseadas no tiro de precisão, e a formação de tropas especiais, os Corpos de Rifles. No caso, “rifle” designa um soldado equipado com esse tipo de arma. O Departamento de Armamento (em inglês, Board of Ordnance) foi então autorizado a encomendar certa quantidade de rifles de caça fabricados na Prússia, para testes. Uma série de equívocos, ao longo do processo, despertou certa implicância com a nova arma, e atrasou sua adoção. O grosso das tropas de infantaria continuou equipado com mosquetes e o Board começou a buscar, na indústria local, uma arma semelhante.

O modelo escolhido (embora não se saiba exatamente o motivo) foi o Rifle Baker, produzido pela oficina do armeiro Ezequiel Baker, que baseou seu produto numa arma de produção prussiana, utilizada pelas Tropas de Caçadores daquele reino. A arma apresentada tinha muitas características comuns com os mosquetes do exército, os Brown Bess, a começar pelo calibre .75 (19,05 mm), e o cano de 32 polegadas (81,3 cm), se bem que, posteriormente, algumas modificações foram feitas, para adequar a nova arma ao uso da cavalaria. Os rifles eram carregados pela boca e podiam ser equipados com um enorme sabre-baioneta, cuja lâmina media 61 centímetros.

Entretanto, se o raiamento melhorava o rendimento do tiro, não resolvia todos os problemas e ainda criava alguns novos. Um deles era, exatamente, a dificuldade do carregamento. Um manual da época indicava o seguinte procedimento: “O soldado, por seu lado esquerdo, coloca o rifle no chão, com o cano para cima, deixando-o deslizar através da mão esquerda, com cuidado, mantendo-a perto da boca da arma, o polegar esticado ao longo do suporte de madeira do cano, e a coronha apoiada entre os calcanhares. O cano fica entre os joelhos, que devem estar dobrados para a tarefa; o cartucho é posto dentro do cano e a vareta, posicionada entre o indicador e o polegar da mão direita. A vareta, agarrada com a esquerda, e colocada em posição, forçada cerca de três e meio centímetros dentro do cano. O cartucho é então empurrado até cerca de 9 centímetros; o soldado se coloca em posição ereta novamente, retira a vareta com a mão direita e a coloca no suporte.” Um atirador muito bem treinado levaria uns 40 segundos para completar toda a operação.

Apesar dos problemas, o Baker se tornou o primeiro rifle a ser distribuído em grandes números entre as tropas inglesas, a partir de 1801. Conforme a guerra contra Napoleão se desenrolava, novos modelos foram sendo introduzidos, inclusive uma versão mais curta e leve, destinada à cavalaria.

Custaria certo tempo até que os rifles se tornassem comuns. O processo de raiar canos ainda era complexo embora a tecnologia da Revolução Industrial Inglesa tivesse melhorado os materiais disponíveis. O processo continuou a ser feito com ferramentas manuais e envolvia um grau bastante alto de imprecisão, o que não impedia a melhora da qualidade do tiro. Entretanto, passaria ainda algum tempo até que armeiros e atiradores percebessem que ainda havia um terceiro elemento envolvido no processo: o desenho do projétil. Pela comparação com flechas e outros projéteis alongados, os armeiros perceberam que o formato funcionava melhor, em vôo, quando em giro axial. Um outro detalhe que eles perceberam é que, ao ser forçada através do cano, a bala adquiria um formato alongado. Daí até a idéia de dar-lhes o formato cilindro-ogival ou cônico, o passo não foi imediato, mas também não demorou tanto tempo assim. Esse tipo de inovação começou a tornar-se comum em meados do século 19. O que não é estranho, e tem mais relação com a história da ciência do que com a história militar.

Os séculos 18 e 19 foram, sem sombra de dúvida, os séculos da ciência. A pressão exercida pela expansão do sistema econômico sobre o conjunto da sociedade levou a que a atividade científica se tornasse parte integrante do processo produtivo. De observadores e intérpretes da natureza, em busca de um conhecimento racional sobre a realidade, os cientistas se tornaram elementos de uma cadeia cujo objetivo era ampliar a capacidade de produção da indústria. O século 19 se tornaria o século do vapor e do metal, da produção mecanizada e da padronização. Os processos laboratoriais de experimentação foram incluídos na estrutura da indústria, assim como a produção de conhecimento relativa. Isso significa que estava terminando a época do erudito amador, generalista interessado em todas as ciências, foi deixada para trás, com século 18. Os novos métodos permitiam medições que tornavam os resultados das experiências mais precisos.

O século 19 foi o século da industrialização da guerra. As guerras napoleônicas foram as últimas travadas com tropas formadas e equipadas segundo a lógica pré-industrial, lutadas por soldados com equipamentos produzidos em oficinas que ainda usavam métodos artesanais. Os novos projéteis são produtos dessa nova organização social. Entretanto, não demoraria muito para que a reorganização do processo produtivo colocasse nas mãos dos soldados armas fabricadas de modo a que as peças fossem o mais parecidas possíveis umas com as outras, de modo que pudessem ser trocadas rapidamente, facilitando tanto a produção quanto a manutenção. Máquinas-ferramentas, movidas a vapor, feitas de melhores materiais, permitiram que medidas mais precisas (os “gabaritos”) tornassem a peças cópias exatas umas das outras. Esses processos foram aplicados tanto às armas grandes, os canhões, quanto às armas portáteis da infantaria. Era uma nova guerra que se avizinhava. Na segunda metade do século 19, operários e soldados se tornavam cada vez mais parecidos, uns com os outros e entre si. Como as armas com que se matavam.::

FO, FAL, IA, TAVOR e outras histórias sobre armas de infantaria no Brasil::

Corre na Internet a notícia de que o Exército Brasileiro decidiu, depois de anos discutindo o assunto, substituir o Fz M964 (para os milhares de militares que não têm como não ter uma relação de amor e ódio com essa peça clássica de equipamento, simplesmente o FAL). Segundo consta, o escolhido foi o fuzil IMBEL IA2. Ao longo de 2010 surgiram rumores (não consegui confirmar nenhum deles) que o EB havia adquirido, de uma vez, 180.000 unidades dessa nova arma (não, você não leu, nem eu escrevi, errado: cento e oitenta mil). Ao longo dos próximos anos, se destinaria substituir também os HK G33 e SIG SAUER da Infantaria da Aeronáutica e os M16A2 do CFN. Em duas versões, 7,62X51 mm e 5,56X45 mm (o que significa que são duas armas diferentes…), o novo tipo foi, de fato, apresentado na LAAD 2011, realizada no Rio de Janeiro em abril último e já teria passado pelos testes de campo do EB, realizados no polígono de provas da Marambaia, zona Oeste do Rio de Janeiro. De fato, não é uma arma propriamente diferente em relação ao FAL ou aos fuzis de assalto convencionais que adotam o calibre 5,56. A versão calibre 7,62 continua usando a munição NATO, o que significa que a mecânica da arma não deve ter sido alterada. Significativo, entretanto, é o encurtamento do cano, notável nas fotografias divulgadas, e a adoção de partes manufaturadas em polímero de alto impacto, o que deve significar uma diminuição considerável no peso do conjunto.

Algum tempo antes, foi divulgada a notícia de que as Forjas Taurus, empresa privada do Rio Grande do Sul, teria fechado acordo com a empresa IWI (Israel Military Industries – surgida depois da privatização da estatal IDF – Israel Defense Industries) para produzir, sob licença, o modelo israelense TAVOR TAR 21, fuzil do tipo bullpup. (Para quem estranhar, trata-se de uma configuração em que o receptor e o ferrolho estão localizados atrás do gatilho/punho de pistola, resultando daí um conjunto apenas um pouco mais longo e pesado do que uma submetralhadora.) A negociação, ao que parece, foi iniciativa de risco da Taurus, e nada indica que vá resultar em aquisições significativas pelo EB (se é que resultará em alguma…), pois essa empresa gaúcha, embora seja uma das grandes exportadoras mundiais de armas curtas para o mercado civil e policial, tem pouca tradição em armas militares. Entretanto, tais iniciativas são indicativas da existência real do debate, no interior do Exército. 

Mas o fato é que a tropa continua portando o FAL. Esta arma, por bem e por mal, já entrou para a história do Brasil, e, por este motivo, em 2009 causa:: publicou uma série de postos denominada “A linhagem FAL“. Essa série completou-se com um texto que levou o título de “O FAL no Brasil”, texto que, como todos os que faço, teve partes boas e partes ruins. Sempre tive a intenção de publicar uma revisão, principalmente para incorporar as correções feitas pelo leitor (não sei se assíduo, mas certamente entendido) Carlos Quáglio, o “General de Pijama”, cujo blogue, embora inativo, ainda é uma ótima leitura para interessados. Essa revisão, ampliada, mantém as preciosas observações do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. Devo a estes dois cientistas as informações sobre o “causo” do fuzil semi-automático M954 e sobre a ordem de batalha do Exército Brasileiro no fim dos anos 1950. Faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas, assunto que não parece interessar ninguém. A documentação do próprio Exército não é facilmente acessível, e as pesquisas acadêmicas sobre o tema embora não sejam mais tão ralas quanto há trinta anos, ainda não são, propriamente, pesquisas de história militar, mas de história social da guerra e de história política das forças armadas. Na Internet, embora se encontrem alguns bons recursos de pesquisa, estes dificilmente passam dos temas da atualidade. O tema ainda é, enfim, campo virgem. Mas vamos ao texto, então::

Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… – tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria. Em torno destas, as tropas especializadas convencionais: unidades logísticas, de comunicação, de armamentos, de engenharia, corpos de saúde, seções de formação e administrativas.

Desde a 2ª GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro, pelo menos do ponto de vista estritamente técnico, à imagem do norte-americano. As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as doutrinas e práticas desenvolvidas durante a guerra e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2ª GM, por um notável salto tecnológico, visto que, nas unidades “de elite” (de fato, as unidades aquarteladas na capital da República, no Rio Grande do Sul e em algumas das principais cidades) tiveram, a partir da entrada na guerra, e, principalmente, do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (O “Tratado do Rio de Janeiro”, assinado em 1947), seu armamento parcialmente padronizado com o armamento norte-americano. Parte considerável  do armamento individual ainda continuou a ser, depois de 1945,  o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. O armamento de infantaria – além do Mauser, por exemplo, a metralhadora Madsen – era todo adaptado para o calibre 7 mm. Continuaria a ser, durante um bom tempo.

A aquisição do DWM 7 mm se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam dezenas de milhares de unidades. Ao longo da primeira metade do século 20, em função dos conflitos que frequentemente fechavam as fontes de armas, o FO (“Fuzil Ordinário”, no jargão militar) 1908 continuou a ser a principal arma de infantaria do Exército, e providenciou-se para que uma versão indígena, desenvolvida pelo própria força, começasse a ser fabricada na recém-inaugurada fábrica de Itajubá, Minas Gerais. Essa versão, denominada “Modelo 1908/34” foi uma tentativa de modernizar o tal “mauser brasileiro”: a arma foi encurtada para se equiparar a uma “carabina”, ou seja, equipamento geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominado “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Tais tentativas não encobriam o problema de que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2ª GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. O envio de uma tropa para combater no Teatro Europeu do Mediterrâneo, por outro lado, catapultou o EB para a modernidade. Na Itália, organizada a FEB como uma divisão de infantaria norte-americana, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado. A arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) “Springfield”. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o EB usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, o .30-06; a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA o .45 ACP. Essas munições passaram a ser fabricadas no país no início dos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB foi repatriada. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MKb42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (versões Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemãs foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório de projetos Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Acredita-se que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tivesse perdido a validade, por ser arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército, pelos norte-americanos, a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo em detrimento do tiro individual, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros pareciam não saber é que o M1, mesmo considerado excelente, por volta do início dos anos 1950, já era considerável passível de substituição – falaremos mais do assunto mais abaixo. A substituição foi atrasada pela Guerra da Coréia e pelo debate, na Europa, sobre a adoção do cartucho 7.62X51 NATO, já que os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. 

O Corpo de Fuzileiros Navais parece ter estado mais seguro em suas decisões. Em 1954, foi comprado um lote de aproximadamente 5000 unidades do SAFN-49, adquirido diretamente do arsenal Herstal. Um dos prováveis motivos para a aquisição desse modelo era o uso do calibre .30-06, embora a arma em si fosse muito diferente do Garand norte-americano; outro possível motivo talvez tenha sido a aquisição da mesma arma pela Armada Argentina, em 1953. O modelo remontava a um projeto dos anos 1930 e antecipava muitas das características que depois seriam as do FAL, particularmente o ferrolho basculante.

Na época, a discussão sobre o “calibre NATO” estava comendo solta.. Acho que as autoridades militares brasileiras estavam apostando que os EUA manteriam o calibre .30-06 e conseguiriam produzir uma versão automática do M-1, que tinha se saído muito bem na Guerra da Coréia. A questão é que os acordos da NATO implicavam em certo grau de padronização, e um dos pontos em que insistiam os europeus era a adoção do cartucho 7.62 NATO. Outro ponto interessante (e aí é especulação minha) é porque foram adquiridas as armas belgas. Suponho que tenha sido porque essas estavam disponíveis para pronta-entrega. A Guerra da Coréia tinha acabado em 1951, e deixou os americanos totalmente “curtos” de material para entregar aos aliados. O fato do Brasil ter recebido a licença para produzir uma cópia local do cartucho 30-06 indica que havia certa concordância de que as FAs brasileiras receberiam equipamento dos EUA, mas o problema é que, na primeira metade dos anos 1950, a arma a ser adotada lá ainda estava em testes – ou seja: não havia alternativa a oferecer. O problema foi empurrado com a barriga ao longo do resto da década, com o exame de diversos tipos de armas que estavam sendo lançadas no mercado, inclusive o FAL, que teve um pequeno lote adquirido para avaliação em 1954. A tendência mundial apontava para o 7.62X51 NATO, e o FAL FN, no final dos anos 1950, já era adotado pelas forças armadas da Bélgica, Grã-Bretanha, República Federal da Alemanha, Canadá e Áustria. Em 1955, a Argentina anunciou a adoção do modelo e a intenção de fabricá-lo localmente. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação de seu desenho também no Brasil. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram novamente atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, é possível que a decisão belga tenha sido motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser calibre .30 em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de ferrolho. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada ”Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substituído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fabricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição (inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

Outro fuzil de assalto que surgiu por aqui foi o norte-americano M-14. Trata-se de outro clássico, bem conhecido entre os interessados no assunto, cujo surgimento resultou da experiência das tropas norte-americanas com o excelente M-1. No entanto, essa arma também tinha problemas, em particular o sistema de alimentação, centrado num clip de oito cargas, que tinha de ser esvaziado para que a arma pudesse ser recarregada. Os Gis também reclamavam do comprimento e peso da arma, ambos considerados excessivos. O cartucho .30-06, passada a guerra, começou a ser considerado muito longo e muito pesado, o que limitava gravemente a quantidade de munição que cada soldado podia transportar. Na fase final da guerra, foram feitas algumas tentativas de melhorar o M-1, inclusive a adaptação da arma para usar o carregador de 20 cargas do fuzil metralhador BAR.  Esse modelo, denominado T-20, também ganhou a capacidade de disparar em rajadas. O movimento seguinte gerou o T-36, um T-20 adaptado para utilizar um novo carregador, baseado naquele do BAR, mas mais fácil de produzir e mais leve. O problema do peso da munição, entretanto, persistia, e os projetistas tiveram a idéia de aplicar ao 30-06 a solução utilizada pelo alemães: encurtar o .30-06. Os projetistas norte-americanos esperavam que o novo cartucho mantivesse a potência do .30-06, mas com um menor peso e maior economia de material , além, é claro, de diminuir o peso da arma. Paralelamente, um série de modificações no T-36 gerou o T-37. No entanto, os militares não gostaram da idéia,  e, em meados dos anos 1950, uma arma totalmente nova foi apresentada para testes: o T-44. Nesta, o sistema de acionamento operado por recuperação de gás tinha sido completamente redesenhado, utilizando um cilindro de trajeto encurtado, o que diminuiu de forma significativa o comprimento do conjunto. A arma foi projetada em torno do cartucho T-65, que tinha sido adotado pela OTAN como 7.62X51 mm NATO. O T-44 ainda apresentava uma vantagem que acabou se mostrando decisiva: sua fabricação lançava mão de quase os mesmos processos e ferramental que o Garand. Em 1957, essa arma foi adotada pelo Exército dos EUA sob a notação M-14.

Embora ainda seja considerado uma arma excelente, surgiu na época em que já estava sendo debatido o problema do peso da munição e das armas. O problema foi o fato de que o 7,62X51 ainda era um cartucho muito pesado e muito potente, que espelhava, basicamente, a doutrina norte-americana: o fogo contínuo deveria ser provido por uma arma de esquadra, com características de metralhadora ligeira; os fuzileiros deveriam continuar atirando em modo semi-automático, para poder (pelo menos em teoria) apontar a arma e aumentar a precisão do tiro. A experiência no Vietnam mostrou que tal doutrina era passível de crítica, visto que a arma-padrão disponível era muito pesada, longa e difícil de usar em movimento. Operações em que o soldado tivesse de ser lançado sobre o objetivo (como, por exemplo, assalto a partir de transportes blindados) se tornavam quase inviáveis com uma arma com as características do M-14.

A produção desse equipamento durou entre 1957 e 1964, quando o governo dos EUA decidiu investir no desenvovimento do M-16 da Colt Firearms. Os estoques de M-14 foram sendo relegados a funções secundárias ou especializadas. Durante certo tempo, muitos deles foram repassados à Marinha dos EUA, como armamento da dotação orgânica de navios de guerra.

A Marinha Brasileira recebeu entre 1968 e 1973, lotes sucessivos de contratorpedeiross das classes Fletcher, Allen M. Sumner e Gearing (acho q foram 11, no total), e cada um deles vinha com uns 60 FAs M-14. Também vieram, em quantidades menores, com os NDCC, Garcia D´Ávila e Duque de Caxias, Suponho que no total, tenham chegado umas 1000 dessas armas, o que não seria problema, visto que o Brasil já usava, nessa época, o calibre M1964, que é o 7.62NATO fabricado aqui. Como essas armas foram substituídas, nos meados dos anos 1970, pelo IMBEL M1964, os M-14 acabaram no paiol da Escola Naval, como arma de parada. Na segunda metade dos anos 1980 ainda estavam em uso, assim como pela Polícia Naval do AMRJ.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP – uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão ”Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

O rapaz é bem conhecido. Gostemos ou não, temos de admitir – um tremendo organizador (também… aprendeu com os melhores – os norte-americanos). Ao fundo, sua arma favorita: AKS74U, versão do AK74 distribuída ao exército russo a partir dos anos 1990, facilmente reconhecível pelo freio de boca. Foi desenhada especialmente para forças especiais, com o alcance notavelmente menor do que o das versões convencionais, devido ao encurtamento do cano, que, nessa versão, tem apenas 210 mm. O desempenho geral em distâncias maiores que 200 metros é pobre, e a arma chega a ser considerada, por algumas fontes especializadas, como uma submetralhadora.

A linhagem AK::Os sucessores do AK::

parte3Em meados dos anos 1960, por diferentes motivos, tanto os EUA quanto diversos de seus aliados da OTAN questionavam o uso do cartucho 7.62X51 mm NATO. O Exército dos EUA adotara, desde 1957, um fuzil automático para essa minição, o *Springfield M14 (um excelente artigo sobre essa arma, em português, aqui), de fato uma versão aperfeiçoada do M1 Garand da 2ª GM. Em termos de desempenho, o M14 era excelente. Em termos de desenho, era pesado e longo, ainda muito assemelhado aos desenhos da 2ª GM (conhecidos, nos EUA, pela designação “fuzil de combate” ou battle rifle – se você lê inglês, mais informações aqui). Mas não era o único problema. Outro motivo residia no fato de que a munição 7.62X51 NATO é bastante pesada. Um cartucho dessa munição pesa cerca de 20 gramas (9,50 para o projétil), o que significa que 20 cartuchos pesarão por volta de 400 gramas, além do peso do carregador. Nessas condições, um carregador tipo “caixa” dificilmente comportaria mais do que 20 cargas sem tornar a arma excessivamente pesada.  O número de carregadores que um soldado poderia transportar, em situação de combate seria, pois limitado. Além do mais, a munição 7.62 NATO era, por projeto, bastante potente, o que provocava um alcance útil de uns 600 metros, bem maior do que os estudos mostravam necessário. Desde meados dos anos 1950 norte-americanos e europeus estudavam um cartucho de menores dimensões e menor potência. No caso norte-americano, a experiência inicial no Vietnam acabou por selar a sorte do M14. Os AK47, AKM, e as diversas variantes do “Tipo 56” chinês surpreenderam de tal maneira os norte-americanos que, em 1969, já não haviam quase fuzis M14 entre a infantaria dos EUA na Indochina.

Os soviéticos, por sua vez, sentiam o mesmo problema. Embora o cartucho M1943 fosse um pouco mais leve (o projétil pesava por volta de 8 gramas) e menos potente que seu equivalente ocidental, ainda assim, era pesado e potente. Não que não tivesse qualidades, mas também tinha defeitos de projeto. O principal era o desenho, chamado de *“popa de barco” (uma tradução livre de boat-tail), que melhorava desempenho aerodinâmico e tornava a trajetória muito tensa. Essa característica, combinada à dureza do material de que era fabricado o projétil, uma liga de chumbo e açoa recoberta por uma jaqueta de cobre de razoável espessura, criava um inconveniente: em distância de tiroteio (50 até 300 metros), a trajetória dificilmente se alterava quando encontrava obstáculos de baixa dureza (como madeira ou o corpo humano). Isso significava que, frequentemente, os ferimentos provocados não eram incapacitantes. Ao contrário, em proporção muito alta o tratamento era fácil e permitia que a baixa rapidamente voltasse à linha de frente. No final dos anos 1950, os chineses fizeram algumas modificações no cartucho que o tornaram um pouco mais eficiente. O material do corpo do projétil passou a ser o aço-carbono (muito mais dúctil do que a liga original) recoberto por uma jaqueta de cobre de menor espessura. O sucesso da combinação da linhagem AK (a maior parte de origem chinesa) com a munição produzida na China e Vietnam do Norte (com padrões chineses) provocaram avaliações equivocadas por parte da inteligência norte-americana. Já os soviéticos fizeram, desde o final dos anos 1950, avaliações exaustivas baseadas na observação das manobras anuais do Pacto de Varsóvia e das atividades militares de países fora de sua esfera direta de influência, como a Crise de Suez e das guerras dos Seis Dias e do Yom Kippur).

Os exercícios anuais do Pacto de Varsóvia eram particularmente importantes para essas avaliações. Embora o Pacto nunca tivesse tido grande importância na estratégia militar geral soviética e servisse mais como instrumento de controle dos aliados e de política externa, as manobras permitiam que o desempenho das forças armadas tanto soviéticas quanto dos outros países membros fosse examinado. A partir do final dos anos 1950, os soviéticos passaram a treinar um único objetivo geral: a invasão dos países ocidentais. A importância atribuída ao movimento e à mecanização, que sempre fora grande, aumentou. Na primeira metade dos anos 1960 se desenvolveu de um novo tipo de guerra móvel, com ênfase no assalto blindado, em ambiente nuclear. A distribuição de novos tipos de APC (do inglês Armoured Personnel Carrier), destinados a entregar as esquadras de infantaria diretamente no ponto de combate demonstrou a necessidade de maior cadência de fogo e, portanto, maior capacidade de transporte individual de munição preparada.  Uma observação interessante retirada do Vietnam é que um combatente a pé conseguia transportar de 6 a 8 dos carregadores curvos do AK47/AKM (eram basicamente iguais, pesando por volta de 450 gramas, com 30 cargas) sem ter sua mobilidade comprometida. A nova doutrina previa combatentes atirando diretamente dos veículos, através de escotilhas, antes mesmo de desembarcar – quando iria precisar de mais munição.

Um novo cartucho vinha sendo estudado desde o início dos anos 1960. O desenvolvimento foi acelerado conforme se observava a tendência, entre as principais potências do Ocidente, da adoção do calibre .223 (Remington)/5.56 (NATO) – que vinha sendo introduzido paulatinamente desde o Vietnam. O novo projétil, cujo modelo definitivo entrou em produção apenas em 1974, já estava disponível, para testes de campo, por volta de 1967. Recebeu a notação M74, e aos poucos deveria substituir o M1943. Isso levaria, claro, alguns anos – até porque não havia arma para ele.

O novo cartucho tinha características bastante diversas do M1943. O projétil, totalmente jaquetado, é bastante leve, pesando cerca de 3,2 gramas. Manteve a filosofia boat-tail, feito de aço, com uma curta seção frontal de chumbo, recoberto por uma jaqueta de cobre. Entretanto, o conjunto não alcança a ponta da jaqueta, de modo que uma pequena quantidade de ar fica presa naquele ponto.

Trata-se de um desenho muito pouco usual. A deformação da ponta oca da jaqueta, provocada pelo impacto do projétil contra o alvo, em teoria, desbalanceia o conjunto e o faz mudar de direção enquanto percorre a seção de trajetória dentro do alvo. No caso do corpo humano, isso potencializaria a capacidade de provocar ferimentos graves. Essa teoria nunca foi exatamente provada, e, segundo estudos realizados nos EUA e Inglaterra, o projétil 5.45 não produz ferimentos maiores do que seu equivalente ocidental, o 5.56 mm. A carga de pólvora química alojada no estojo de 39 mm, redesenho do M1943, de menor diâmetro, teve de ser diminuída, e provocava, ao ser detonada, uma quantidade de energia mais baixa, mas suficiente para imprimir ao projétil uma velocidade inicial de 900 m/s ao deixar o cano de 41,5 cms, mantendo um alcance eficaz de 300 a 350 metros.

O fuzil desenhado para usar o novo cartucho começou a ser distribuído em 1974,  embora os estudos de projeto tivessem começado, segundo a maior parte das fontes, em meados dos anos 1960. Os testes começaram no fim da década, e, curiosamente, o mais convencional dentre os avaliados era exatamente o apresentado pelo bureau de Kalashnikov. O protótipo, denominado A-3 é, basicamente, um AKM redesenhado para utilizar o cartucho de potência intermediária. A explicação parece simples: embora outros bureaus de projetos tivessem apresentado protótipos bem inovadores, e um desses tivesse sido considerado muito bom – o AS-006 Konstantinov – o A-3, sendo cópia redesenhada do AKM, não criaria problemas de produção industrial e poderia utilizar o ferramental já existente. Também foi levado em conta que o funcionamento do fuzil já era bem conhecido entre os mais de 3 milhões de militares soviéticos.

Inicialmente, o AK-74 foi distribuído para utilização pela infantaria motorizada da União Soviética. O *sistema de operação por recuperação de gás é idêntico ao da geração anterior, inclusive nos detalhes do pistão recuperador, ferrolho rotativo e ausência de válvulas de sangramento de gás. Embora guarde um alto nível de comunalidade com os AK da geração anterior, no que tange às peças, o AK-74 apresenta modificações significativas com relação a seus antecessores. A primeira e mais notável é o peso: vazio, o modelo padrão tem exatos 3 quilos, que aumentam para 3, 4 depois de receber o carregador (feito em fibra de vidro de alto impacto, com uma estranha coloração marrom-avermelhada) com 30 cargas de munição. 

O cano, cujo interior é cromado, foi redesenhado, e o raiamento, devido ao calibre e potência da munição, modificado, embora o giro continue sendo para a direita. Em função da potência da munição, o freio de boca aumentou de tamanho. Apresenta duas frestas à frente de três orifícos laterais, posicionados de modo que o sangramento de gás atue para evitar que a arma corcoveie em demasia. Essa *peça, rosqueada na parte anterior do cano, também cumpre o papel de supressor de chama. O sistema de pontaria foi modificado, com o redesenho da alça de mira. Sob o cano, um sistema de suportes combinando alças duplas e um trilho simples permite a instalação de uma baioneta- padrão tipo 6H4 (semelhante à usada no AKM) e lança-granadas de 40 mm BG-15 (o mesmo usado no AKM) ou GP-25.

Nas primeiras versões, a coronha e empunhadura posterior (“de pistola”) eram feitas em fibra de vidro de alta resistência. Uma versão destinada à distribuição entre tropas aerotransportadas surgiu quase imediatamente: o *AKS-74. É um AK-74 com uma coronha dobrável, embora de desenho diferente da anterior de arame de aço. O objetivo seria facilitar o transporte em aeronaves e em condição de salto. Essa versão tornou-se muito popular entre a infantaria blindada: dentro dos então quase onipresentes *BTR-60 e *70, onde se acotovelam até 14 combatentes, além dos três tripulantes, há muito pouco espaço disponível.

No geral, o AK-74 cumpriu sua função. Extensivamente testado na desastrosa guerra do Afganistão, diversas versões foram surgindo, acrescentando detalhes que tornavam a arma mais versátil, como diversos tipos de adaptadores para visores noturnos, novos materiais (polímeros) para a coronha e as empunhaduras, e pequenos redesenhos no freio de boca. Em 1979 uma versão encurtada, o AK-74U começou a ser distribuída, visando cumprir o papel de submetralhadora (experiências similares foram feitas pelos norte-americanos no Vietnam). O encurtamento radical do cano, reduzido à metade (210 mm) criou diversos problemas de tiro e acabou obrigando um redesenho com alteração do regime de torção do raiamento (o número de voltas que o projétil faz dentro do cano). O desenho e posição da alça de mira também foram modificados, em função do encurtamento da arma e de seu alcance.

No início dos anos 1990, a versão final, denominada *AK-74M (de Modernizirovanniy ou “modernizado”) se tornou padrão no exército russo e das nações da Comunidade de Estados Independentes. Essa versão incorporou grande número de peças em polímero, inclusive uma coronha dobrável que se tornou padrão. Um pouco depois, uma série conhecida pelos especialistas como “centurial”, por incluir o números da série 100 na notação, foi lançada, destinada principalmente à exportação: os AK-101, AK-102, AK-103, AK-104 e AK-105. Adotam diversos calibres e têm conseguido boa penetração no mercado internacional. Por sinal, dentre as diabruras que fazem de *Hugo Chavez o espantalho favorido de nossa vibrante imprensa, uma das maiores foi adquirir 100.000 unidades da versão AK-103, que utiliza a munição M1943. Parte da compra deverá ser produzida em uma fábrica local (na foto, o travesso empunha um AK103 de fabricação russa).

Como se vê, a linhagem AK está longe de terminar e mesmo na Rússia, sua “pátria-mãe”, diversas outras armas têm surgido e sido sistematicamente recudas pelas forças armadas nacionais::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo da infantaria::

As armas portáteis surgiram quase ao mesmo tempo que os primeiros canhões. Mas “portátil” era apenas maneira de dizer: lá pelo ano 1300 da era cristã, eram, de fato, pequenos canhões fixados na ponta de um forte bastão de madeira ou de ferro, que podiam ser transportados de um lado para outro com maior facilidade, principalmente nas muralhas dos castelos – tanto que aparecem, com freqüência, denominadas “canhões de muralha” ou “de parapeito”.

 De resto, não diferiam muito dos outros canhões:  carregados pela boca (de “antecarga”, no jargão dos especialistas), o interior do tubo era liso, o que tornava o tiro muito pouco preciso. A carga de pólvora era socada no interior do tubo, e sobre ela colocada um bucha de estopa, que se destinava a potencializar a explosão. Essas primitivas armas de fogo tinham um orifício perfurado na extremidade posterior, chamado “luz”, através do qual eram despejada certa quantidade de pólvora e, no momento do disparo, pressionado um bastão aceso, que incendiava a pólvora e iniciava a explosão. Com uma dose de sorte, o jato de gás lançava a bala – inicialmente feita de pedra e, pouco depois, de metal – na direção do alvo. Após o disparo, era necessário esperar certo tempo para que o interior do tubo esfriasse. Em função da baixa qualidade de pólvora, os tubos precisavam ser constantemente limpos, o que tinha de acontecer após no máximo uns dez disparos.

A partir de meados do século 15 começaram a surgir, na Europa Central, armas menores, mais leves, de antecarga, cujos longos canos de metal forjado eram fixados sobre uma armação de madeira.  O sistema de disparo, chamado “fecho”, surgiu conforme o tamanho e o peso da arma diminuíram o suficiente para permitir que o tiro fosse realizado a partir do ombro o atirador. Este tinha de “mirar” (em português, esse verbo vem do espanhol mirar, ou seja “olhar”) o alvo pressionando o rosto contra a extremidade anterior da armação de madeira sobre a qual o cano era fixado, ao mesmo tempo que pressionava o bastão incandescente no interior da “luz”. Essa armação de madeira tinha, inicialmente, forma semelhante a de uma bengala, com um gancho na extremidade posterior, em alemão hake. Sobre essa armação era montado o canhão, büchse. A contração das palavras deu origem ao substantivo hakenbüchse, que passou ao francês antigo como haquebuse, depois arquebuse, e se tornou a portuguesa “arcabuz” (em inglês, arquebus ou harkbus). Esses “canhões de arco” foram as primeiras armas de fogo realmente portáteis. Com o tempo, modificariam o campo de batalha de forma irreversível.

Arcabuz centro europeu (Suhl, atual Alemanha Central), final do século 16. O fecho de mecha é acionado por gatilho.

Tratava-se de uma arma baixa velocidade de boca, utilizada contra tropas equipadas com sistemas de proteção individual chamados “armaduras de infante”. Esse tipo de proteção, uma armadura mais leve e delgada, feita de aço e couro, começou a se tornar comum nos campos de batalha por volta do início do século 15. Beneficiando-se de novas técnicas de metalurgia e novas ligas de metal, esse tipo de armadura era totalmente capaz de parar um tiro de arcabuz, desde que a distância não fosse pequena. Nessa distância, a arma de fogo penetrava até mesmo as armaduras da cavalaria pesada, que, nessa época, já estava em decadência. O resultado foi que a armadura pesada (chamada “de placas”, pois cobria inteiramente o corpo do cavaleiro com placas de metal) começou a ser abandonada, tanto pela cavalaria quanto pela infantaria, até que, no final do século 17, quase não se viam mais armaduras em campo.

Essas primeiras armas de fogo ainda tinham muitas limitações. O mecanismo de disparo, o “fecho” (em inglês lock), era composto por uma peça em formato de “S” (por esse motivo chamada de “serpentina”) fixada na armação de madeira porum eixo móvel. Movida pelo atirador, essa peça aproximava a mecha (match) da luz. Uma novidade introduzida no final do século 14 era um ressalto, semelhante a uma pequena pia, que envolvia a “luz”. Essa peça passou a ser chamada de “caçoleta” (em inglês, flashpan). Dentro era colocada uma quantidade de pólvora chamada “escorva”. A mecha, nessas armas, era literalmente um pavio de algodão embebido em alguma substância de queima lenta que, por isso, não apagava, mas era suscetível à chuva e à umidade, além de, por motivos óbvios, ser muito visível à noite – situações que podiam deixar o atirador na mão. Além do mais, o choque da peça que mantinha o pavio no lugar com a “luz” geralmente apagava a brasa, que tinha de ser novamente acendida após o tiro. Em meados do século 15, sistemas de molas e travas passaram a permitir que um simples toque de dedo (bem, não tão simples – a coisa era muito dura) acionasse a peça e colocasse no lugar.

Pistola de origem singalesa, século 18. O fecho de mecha é perfeitamente visível, inclusive com a mecha em posição.

Esse aperfeiçoamento facilitou a pontaria da arma, uma vez que diminuiu o número de movimentos necessários para o disparo: o atirador não tinha mais de mover o braço. A caçoleta também acabou afetada pelo novo sistema: por volta do final do século 16, começaram a ser introduzidos nas armas uma espécie de “tampa” que mantinha a pólvora isolada da brasa até o momento do disparo. Conforme o atirador acionava o gatilho, a serpentina , liberada, era lançada para frente. A pancada empurrava a tampa e expunha a escorva. Essa foi a origem do “fecho de pressão” (snaplock), que seria aperfeiçoado e se manteria como processo dominante ao longo de mais de três séculos.

O problema é que levava um instante entre a ignição da escorva e a ignição da carga de pólvora no interior do cano. Esse intervalo de tempo comprometia a precisão do tiro e condicionava a tática, que, a partir do século 16, buscava a concentração de fogo. Levaria certo tempo para ser resolvido.

A partir de meados do século 16, começaram a aparecer novos mecanismos de fecho. O “fecho de rodete”, um mecanismo semelhante ao dos modernos isqueiros, mas muito mais complexo, foi um deles, e é notável. Um mecanismo de corda acionado pelo atiraador tracionava uma mola presa a uma roda de superfície áspera, na lateral da arma. Sobre a roda, uma pedra de pirita fixada em uma braçadeira móvel (que passou a ser chamada de “cão”, ou, em inglês, cock – “galo”talvez devido ao formato) era mantida sobre a roda, sem tocá-la. Quando o atirador acionava o gatilho, a roda começava a girar ao mesmo tempo que a braçadeira se soltava, colocando a pedra de pirita numa distância suficiente para ser friccionada pela roda. As fagulhas resultantes incendiavam a escorva e faziam a arma disparar. O sistema era eficaz, embora difícil de fazer, caro e muito sujeito a defeitos. Chegou a ser distribuído para tropas de cavalaria, ao longo do século 17, pois podia ser facilmente operado sobre um cavalo. Mas era uma arma de luxo, de fabricação cara e demorada.

Pistola alemã de fecho de rodete, provavelmente do final do século 16, estilo de arma de cavalaria (notável pelo desenho da coronha). Os detalhes do mecanismo são bem visiveis, embora a pedra de pirita não esteja no lugar.

O fecho de rodete, embora não tivesse tido vida longa, deu início a uma inovação que seria marcante: o uso da pederneira. Isso significa, genericamente, a utilização de uma pedra para gerar faíscas. De fato, o sistema de rodete não era verdadeiramente “de pederneira”, apesar de utilizar o princípio da fricção para gerar faíscas. Os sistemas de pederneira verdadeiros utilizavam o princípio do “fecho de pressão” (snaplock): o cão, que passou a ter forma de “meio S”, era mantido em posição após ser puxado para trás pelo atirador, por um sistema de molas e trava. Ficava preso ao “gatilho” (do espanhol gatillo – “pescoço longo”; em inglês, trigger), e quando este era pressionado, solvava uma mola de pressão que o lançava violentamente para frente. O resultado desse movimento era o choque com uma peça vertical, de metal rugoso, que integrava-se à tampa da caçoleta. Uma pedra presa ao cão produzia fagulhas, que incendiavam a escorva. Esse sistema começou a aparecer por volta de meados do século 16. O desenvolvimento iria levar algum tempo, e podemos dividi-lo em três sistemas distintos: chenapan, miquelete e flintlock. Todos utilizam o “fecho de pressão” e uma pedra de pederneira (silex pirômaco – em inglês, flint) para produzir as faíscas. Esses sim, são “de pederneira”.

O sistema chenapan foi o primeiro a surgir. A palavra chenapan, usada na Espanha, Itália e França, é uma variação de snaphance, que, segundo é aceito pela maioria dos especialistas, deriva do alemão schnapphahn, “galo bicador”. O funcionamento segue, com variações de desenho, o processo do “fecho de pressão”. As peças do sistema são mantidas no lugar por molas de pressão que ficam encaixadas no interior do fecho. A versão miquelete é basicamente igual, mas o mecanismo de molas ficava na parte exterior do fecho. O miquelete apareceu na Espanha, no final do século 16.

No final do século 16, a maioria dos exércitos nacionais e das forças armadas autorizadas estavam dotadas parcialmente com armas do tipo descrito acima. Embora centenas de variações sejam descritas, a partir de bibliografia e de artefatos conservados em museus, o sistema se manteria suas características básicas até a primeira metade do século 19.

O fecho de pederneira (flintlock, em inglês) propriamente dito, guarda semelhanças com os dois sistemas descritos acima. O aperfeiçoamento mais notável era no desenho da chapa seladora da caçoleta, que se tornou menor e mais eficiente na função de isolar a escorva do exterior. Esse novo desenho, característico dos mosquetes Brown Bess do exército inglês e do Charleville francês, evitava a perda de pólvora quando a arma estivesse em movimento.

Armas de pederneira eram geralmente de antecarga, embora, ao longo dos séculos 17 e 18 tenham surgido exemplares carregados pela culatra (de “retrocarga”). O baixo nível das técnicas metalúrgicas e de forjaria, entretanto, tornava a vedação da câmara um problema de difícil solução, tornando o tiro ainda mais ineficaz. Outro problema era a imprecisão. As armas disparavam projetis redondos, feitos de uma liga de chumbo e estanho. O alcance era pequeno, algo da ordem de 400 metros. Os problemas eram diversos, a começar pela baixa potência da pólvora negra. Os canos de alma lisa tornavam a trajetória imprevisível, com uma tendência à deflecção. Essas duas ordens de problemas só seriam resolvidas com a introdução de pólvoras químicas, que explodiam mais rapidamente e de forma mais estável. A estabilidade da trajetória já tinha uma solução proposta desde o final do século 15 – o raiamento do cano. A idéia parece que já tinha ocorrido a diversos armeiros centro-europeus, mas, outra vez, as técnicas de metalurgia tornavam o processo complicado e caro. Tudo isso teria de esperar até que a segunda fase da Revolução Industrial revolucionasse a indústria::