Os mísseis de Outubro::O lado menos falado::

Imagino que todos os assíduos de causa:: conheçam, ainda que por alto, a história da Crise dos Mísseis de Cuba. Trata-se de umaconfrontação de forças entre EUA e URSS ocorrida ao longo do mês de outubro de 1962, que não chegou a envolver combates, embora tenha seja considerada por alguns especialistas como o momento em que as duas potências nucleares chegaram mais perto de ir à guerra. No entanto, um exame dos fatos militares geralmente fica restrito a publicações especializadas, geralmente em inglês. Visto que agosto marca os 50 anos do início da crise, o blogue das boas causas irá, em duas partes, dar uma olhada no panorama militar deste que é um dos maiores eventos políticos do século passado::

Ligada ao contexto de tensão controlada da Guerra Fria, a Crise dos Mísseis de Cuba teve seus antecedentes, evidentemente, na vitória da revolução Cubana, em janeiro de 1959, e na declaração, por Fidel Castro, dois anos depois, do alinhamento do país ao bloco comunista. Foi um golpe na estratégia norte americana de “defesa hemisférica”, no qual a enorme máquina de inteligência constituída pelos EUA a partir da 2ª GM, literalmente comeu mosca. Ainda assim, os EUA optaram, já dentro da política do governo Kennedy de enfrentamento flexível da expansão comunista, em tentar minar o regime cubano por meio de bloqueio diplomático (o rompimento de relações diplomáticas, que ocorreu em janeiro de 1961, e posterior expulsão da OEA) e econômico e na montagem de “operações cobertas”. Estas se caracterizavam pelo apoio, do Exército dos EUA, da CIA e das agências de inteligência militar, às tentativas de grupos de exilados cubanos de extrema direita, instalados na Flórida, em derrubar o regime comunista pró-soviético. Tal opção de ação culminou com uma tentativa de invasão de Cuba por uma tropa de exilados armada e treinada pelos EUA. Esse episódio foi denominado, no Ocidente, como “Invasão da Baía dos Porcos”.

Vale à pena fazer um parágrafo para esse evento. Desde pelo menos o final do governo Eisenhower os EUA tinham optado por tentar ações indiretas contra o governo cubano, sob a coordenação da CIA e envolvendo as forças armadas e a inteligência militar. Os antecedentes do projeto datam dessa época, provocados por sucessivos fracassos em iniciar um movimento de guerrilha no interior de Cuba. A idéia central era colocar uma pequena unidade de infantaria, com força de regimento leve, em território cubano, pois se considerava que a notícia da invasão provocaria um levante geral contra o governo, e a força invasora poderia, caso não conseguisse derrotar rapidamente as forças do governo, começar atividades de guerrilha. Em 1960 a CIA começou a recrutar e treinar exilados cubanos, que passaram a receber treinamento de armas e táticas em bases situadas na Flórida, Lousiania, Guatemala e Porto Rico. Após algum debate, o desembarque foi designado para uma série de pequenas praias desertas situadas em um lugar conhecido por “Bahia de los Cochinos” (Baía dos Porcos), na província de Las Villas. A força de exilados foi denominada “Brigada de Asalto 2506”, e segundo foi divulgado posteriormente, havia sido criada sob os auspícios de um “Conselho Revolucionário Cubano” em Miami. Tratava-se de uma operação diversiva montada pela CIA, visto que tal órgão tinha sido montado cerca de um mês antes da invasão. A”Brigada 2506″ contava com pouco mais de 1400 efetivos. As operações foram abertas em 15 de abril, com bombardeiros B26 Invaders, pintados com as cores cubanas, atacando com foguetes e canhões três bases aéreas numa tentativa de incapacitar a força aérea de Cuba. As oito aeronaves encontraram forte oposição antiaérea, um deles foi derrubado e outro, muito danificado, conseguiu pousar em Key West, na Flórida. No dia seguinte, durante a cerimônia pública de sepultamento dos mortos nos ataques aéreos, Castro reafirmou a adesão do regime ao bloco soviético. A invasão seguia adiante, não sem inúmeros erros. Em 17 de abril, elementos paraquedistas da “Brigada 2506”, com força de companhia e transportados por aeronaves cargueiras C46 e C54 providenciados pela CIA, foram lançados na área da Baía dos Porcos. O objetivo era bloquear uma estrada que poderia ser usada pelos defensores. Esta missão também falhou, ao mesmo tempo que a força de uns 1200 efetivos era desembarcada na praia de Girón, com equipamento pesado e artilharia.  O desembarque não foi totalmente bem sucedido: boa parte do equipamento se perdeu devido as operações aéreas da Força Aérea Revolucionária. Os primeiros combates favoreceram os atacantes, mas as forças de defesa da ilha já estavam mobilizadas, e foram rapidamente  deslocadas para a cabeça de praia. Aos poucos, os invasores foram ficando sem munição e em menos de três dias foram totalmente derrotados. Uma tentativa feita pela Marinha dos EUA em resgatar pelo menos parte da força atacante foi abortada por ordem direta de Kennedy. Este também havia negado auxílio da Força Aérea dos EUA, pois achava que o projeto estava fadado ao fracasso desde o início.

No entanto, a invasão assustou Fidel Castro, pois parecia evidente que os norte-americanos mais cedo ou mais tarde encontrariam uma justificativa para intervir militarmente na ilha. Por volta volta de julho de 1962, Castro  anunciou seriam tomadas medidas políticas para que qualquer agressão direta dos EUA contra Cuba se transformasse em guerra mundial. As “medidas políticas” tomaram a forma de uma solicitação de assistência soviética para a defesa da ilha.

Era tudo que queriam os soviéticos. Até aquele momento, Moscou já vinha auxiliando os cubanos em assuntos econômicos e militares, mas a ajuda militar era bastante limitada pelo cuidado cubano em não provocar os EUA. Os soviéticos, por sua vez, se viam provocados pela insistência dos EUA, a partir de 1958, em constituir estoques de mísseis de alcance médio e intermediário (MRBMs e IRBMs) e respectivas ogivas na Europa, sob o guarda-chuva da OTAN. Os mísseis, instalados inicialmente na Grã Bretanha e Itália, sob controle das forças armadas locais, seriam alegadamente de uso tático, mas o fato é que eram capazes de atingir o território soviético. Essa iniciativa devia-se (pelo menos segundo os norte-americanos) aos esforços da URSS em alterar o balanço de capacidade nuclear, naquele momento amplamente favorável aos EUA. Tio Sam alegava que a superioridade nuclear contrabalançava a enorme superioridade soviética em forças convencionais. A capacidade convencional soviética era, de fato, uma desculpa mais do que aceitável. Por volta do final dos anos 1950, as forças armadas “do Pacto de Varsóvia” (entre aspas mesmo, já que o poderio militar dos aliados europeus da URSS era pífio) eram pelo menos duas vezes maiores do que as norte-americanas e européias (por volta de 1962, no total, uns três e meio milhões de efetivos, oitenta por cento deles dos EUA). A defesa da Europa Ocidental estava amplamente baseada na capacidade militar norte-americana instalada na Europa, e as nações européias relutavam em ampliar seus gastos com defesa. Se em época de bonança econômica, os custos ficavam pesados para os EUA, em épocas de crise, então, nem se fala. A manutenção de mísseis na Europa fazia parte da política de defesa do “mundo livre” do governo Eisenhower (1952-1960), difundida a partir de 1954 e denominada “New Look”, o que incluía o enfrentamento contra a expansão comunista. Essa política punha grande ênfase na “resposta nuclear”, considerada mais barata e efetiva do que a manutenção de forças convencionais capazes de contrabalançar a superioridade soviética. Com o governo Kennedy, o secretário de Defesa Robert McNamara estabeleceu uma nova doutrina, na qual a resposta a um ataque seria proporcional ao alcance e perigo que este envolvesse. O estoque de mísseis em território europeu foi, entretanto, mantido, visto que, em 1959, os planejadores militares dos EUA acreditavam que um ataque soviético a partir da Alemanha Oriental levaria na melhor das hipóteses, uns cinco dias para alcançar a o canal da Mancha e a fronteira franco-espanhola.

Os soviéticos viram na solicitação cubana uma oportunidade para contrabalançar o cerco nuclear montado pelos norte-americanos. Moscou já vinha trabalhando no projeto desde o mês de maio, em função da instalação, em bases localizadas na Turquia, de MRBMs PGM13 “Júpiter”. Com alcance de uns 2400 km, embora de baixa confiabilidade em termos de precisão, esses vetores colocavam Moscou ao alcance de um ataque dos EUA. A manobra foi considerada pelo governo soviético como inaceitável. Em meados de agosto de 1962 começou a transferência, para o Caribe, de algumas unidades de engenharia, que, uma vez na ilha, iniciaram a instalação de bases que deveriam receber os mísseis balísticos de alcance intermediário SS20.

Na próxima semana, alguns aspectos militares da “crise dos mísseis”, tanto do lado soviético quanto norte americano. Aguardem todos!::

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Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra3::Lugares esquisitos que puderam ser visitados durante a Guerra: Islândia::

Em setembro de 1940, o presidente Roosevelt negociava com a Inglaterra o famoso acordo “destróieres-por-bases”, no qual cinquenta obsoletos “flush deckers-four pipes” mantidos na reserva pela Marinha dos EUA foram cedidos à Marinha Real. Os “flush deckers” (algo como “convés reto”, ou “convés livre”) de fato eram três classes de navios, deslocando cerca de 1200 toneladas cada um, construídos em massa (273 foram lançados ao mar) no final da Grande Guerra, entre 1917 e 1918. Em troca, a Grã-Bretanha cedia, por 99 anos, a concessão de diversas bases navais britânicas no Hemisfério Ocidental. O acordo causou surpresa não apenas nos círculos políticos londrinos, mas até mesmo nos EUA. Não foram poucas as observações tipo “a Inglaterra cedeu seu império em troca de alguns navios obsoletos”. Para a opinião pública nos EUA, os motivos também eram um tanto obscuros, já que qualquer participação em uma “guerra estrangeira” era alvo de grande implicância. Políticos, diplomatas e militares viam a coisa de modo diferente: as bases, situadas principalmente na região do Caribe, poderiam, rapidamente, ser estratégicas para a defesa dos EUA.

Para a Grã-Bretanha, por outro lado, a coisa era simples assim: a cessão dos contratorpedeiros, naquele momento, era vital para a sobrevivência da Inglaterra, cujas linhas de comunicação com a América do Norte – Canadá e EUA – estavam sendo esmigalhadas pela campanha submarina dos nazistas. Os destróieres (ou “contratorpedeiros”, em nossa língua) permitiriam aos britânicos montar um sistema de comboios mais eficaz, principalmente depois que os nazistas estenderam a zona de guerra até águas próximas da Islândia, em 11 de março de 1941.

Era um lugar literamente perdido no meio do Atlântico Norte, varrido por ventos cortantes e banhado por águas escuras e geladas, mas, naquele momento interessava aos EUA tanto quanto as paradisíacas ilhas do Caribe. A ilha, desde 1919 uma província soberana do Reino da Dinamarca, tinha sido ocupada pela Marinha Real, seguida por tropas canadenses, quase um ano antes, em maio de 1940. O ataque alemão contra o Reino da Dinamarca, em abril de 1940, resultou em uma campanha militar de seis horas de duração, com doze guardas-fronteiras dinamarqueses mortos e seis alemães feridos. Curiosamente, o estado  dinamarquês não foi dissolvido pelos nazistas, com o rei Cristiano sendo mantido formalmente como chefe de estado e o governo, de posições surpreendentemente anti-nazista, continuando no cargo, lógico que sob supervisão de funcionários diplomáticos nazistas, da Gestapo (“Polícia Secreta do Estado”, subordinada ao Ministério do Interior do Reich) e do sinistro Serviço de Segurança da SS (Sicherheitdienst, ou SD, chefiado pelo mais-que-sinistro gruppenführer Reinhardt Heindrich). A defesa, as relações exteriores e a econômia passaram a ser controladas pelos nazistas. Um dos principais motivos para a inédita atitude alemã foi o interesse em manter o fluxo de alimentos que vinha da produtiva zona rural dinamarquesa, com a qual os alemães mantinham intensa relação econômica. Mas, imediatamente, o OKW (Estado-maior das Forças Militares alemãs), preocupado com as linhas de suprimentos do ataque contra a Noruega, estava interessado em uma enorme base aérea situada na província da Jutlândia, que colocava quase todo o território e a costa noruegueses ao alcance da Luftwaffe. Um dos termos diante dos quais o rei Cristiano foi colocado, ao ser retirado da cama, na madrugada do dia 9 de abril, pelo embaixador alemão junto à Corte, foi que “posições de interesse militar” fossem abertas às Forças Armadas alemãs. A Islândia certamente cabia nessas “posições de interesse militar”, mas era muito longe, e entre ela e o continente estava a “Esquadra Metropolitana” da Marinha Real, a competentíssima Home Fleet. Embora os alemães confiassem em sua superioridade aérea como forma de superar o domínio dos mares britânico, era um projeto para o futuro.

A insistência do governo da Islândia em manter a posição de neutralidade que a Dinamarca tinha tentado adotar até ser invadida pela Wehrmacht foi a razão para a invasão britânica. A população local tinha diferenças culturais e políticas significativas com relação à metrópole dinamarquesa, e não queria tropas estrangeiras em seu solo, fossem quais fossem. A província dinamarquesa resolveu manter o status de “província independente” do governo metropolitano poucos dias depois da neutralidade dinamarquesa ser “colocada sob a proteção do Reich“. Ainda assim, as autoridades britânicas e norte-americanas manifestavam grande preocupação com um hipotética presença alemã na ilha, que fica a cerca de 1650 quilômetros da costa norueguesa e mais ou menos a mesma coisa da Escócia.  Uma razão para essas preocupações era a posição estratégica da Islândia, situada bem no meio do chamado GIUK Gap (“Greenland-Iceland-United Kingdom” – “Brecha Groenlândia-Islândia-Reino Unido”). Esse espaço de centenas de milhares de quilômetros quadrados de água gelada constitui uma passagem muito pouco frequentada entre o Mar do Norte e Atlântico Norte. Ainda hoje, os EUA mantèm uma base naval na ilha por este motivo. Com a ocupação da Noruega, os fiordes, um tipo de enseada longa, estreita e com águas calmas e profundas, tornaram-se lares adoráveis para os U-boats alemães, que, através do GIUK penetravam o Atlântico Norte – e a festança entre 1940 e 1942, não sem razão, foi chamada pelos submarinistas alemães de “tempos felizes”. Entretanto, a “neutralidade” norte-americana impedia qualquer ação que violasse a neutralidade islandesa. Os ingleses resolveram agir e enviaram um regimento de fuzileiros navais para a ilha, em uma flotilha de contratorpedeiros comandada por um cruzador ligeiro (naquele momento, era o máximo de que podiam dispor). Essa pequena força ocupou a capital, Reykjavik, em aproximadamente 12 horas, sem encontrar resistência.

Este ato, por outro lado, deu tanto a Roosevelt quanto a Hitler a desculpa de que precisavam para estender a todo o Atlântico Norte. No caso dos alemães, em setembro de 1940 a campanha submarina só não tinha interrompido as linhas de suprimento entre a Terra Nova e a Grã-Bretanha devido à falta de submarinos aptos a atuar em mar aberto – em setembro de 1939 a Marinha de Guerra Alemã dispunha de apenas uma dúzia capazes de sair em patrulha oceânica; em setembro de 1940, eram uns 40, mas dificilmente a metade estava operacional. Quanto ao governo norte-americano (o povo queria manter-se longe da guerra “européia”), este estava resolvido, após o desastre de Dunquerque, a rearmar as forças armadas britânicas e prover aos britânicos todo apoio que fosse possível sem ter que explicar ao Congresso e aos eleitores.

A permanência dos britânicos na Islândia mostrou-se problemática por diversos motivos. Embora as autoridades locais tenham se dirigido à população para que considerassem os britânicos como “convidados”, os ilhéus não demonstraram grande simpatia pelos ocupantes, e surgiram vários problemas com a população civil. A situação iria piorar conforme chegaram outras tropas para consolidar o controle britânico sobre a ilha. A população da ilha era de mais ou menos 120.000 pessoas, e os britânicos colocaram lá duas brigada do exército inglês, outra canadense, unidades de artilharia antiaérea, da Marinha, do Comando Costeiro da RAF e pessoal civis, chegando o total, cerca de seis meses depois, a quase 25.000 pessoas, o que provocou a necessidade de construir instalações em diversos lugares da ilha, a principal das quais o complexo de Hvalfjordhur. O ambiente não era agradável para as tropas birtânicas. A paisagem local era inóspita, com um clima frio e ventoso e praticamente não haviam árvores. A língua falada lá era difícil de entender por ser muito diferente do inglês – de fato, fala-se na Islândia uma versão do norueguês medieval, difícil até mesmo para dinamarqueses.

Mas o maior problema é que os britânicos precisavam das tropas estacionadas lá em outros lugares, e assim ficou estabelecido que a manutenção da ilha passaria para a responsabilidade dos EUA. As relações com os EUA já existiam, visto que, desde o rompimento com a Dinamarca, a Islândia tinha aberto uma legação em Nova York. Embora não houvessem propriamente planos em nenhum dos lados, os diplomatas islandeses chegaram a consultar os norte-americanos em torno da colocação da ilha sob proteção norte-americana. A invasão britânica interrompeu as conversações, embora tenham acontecido consultas entre britânicos e norte-americanos sobre o destino da ilha, em caso da entrada dos EUA na guerra. Em abril de 1941 funcionários norte-americanos procuraram a representação islandesa, pois o crescente envolvimento dos EUA na guerra – principalmente no combate à camapanha submarina alemã contra a navegação no Atlântico voltou a colocar ilha sob o foco dos EUA.  O presidente Roosevelt ofereceu, em 28 de mio para que os EUA assumissem a responsabilidade pela defesa da ilha, oferta que foi prontamente aceita por Churchill, que via no fato mais uma oportunidade  para trazer os EUA para perto das hostilidades. O problema maior era, como sempre, a posição isolacionista da opinião pública norte-americana, que ressoava fortemente no comportamento dos políticos locais. O gabinete d Rooselvelt resolveu que qualquer movimentação de tropas para a ilha só seria feita caso precedida de um pedido formal por parte dos locais.  Após o estabelecimento de termos que incluiam o total respeito à soberania islandesa, autodeterminação em termos administrativos e garantia de retirada logo que terminassem as hostilidades, o convite foi feito no final junho, e uma brigada de fuzileiros navais da Marinha dos EUA foi preparada para deslocar-se para a Islândia. Embora os britânicos não escondessem que estavam doidos para sair de lá, problemas com a preparação de uma grande unidade de infantaria, a 5ª Divisão acabaram por adiar a partida. A 5ª Divisão substituiu os fuzileiros navais na ilha, e foi seguida por uma série de outras unidades militares norte-americanas.

Em abril de 1942 as forças britânicas estavam quase totalmente fora da ilha, e no início do verão, a maioria daqueles já tinha sido removida, restando apenas elementos do Quartel general, que foram desmobilizados em agosto de 1942. Permaneceram, entretanto, unidades da RAF e da Marinha Real, envolvidos com o patrulhamento do GIUK e escolta de comboios – estes permaneceriam até o final da guerra. Conforme a maré da guerra ia mudando, até mesmo as autoridades britânicas em Londres pararam de falar em “ataque alemão” – ataque que, mesmo em 1940 tinha sido tão provável quanto o vôo de um porco. Os norte-americanos se convenceram, em 1943, que não eram necessários 15.000 infantes e um batalhão de tanques leves para defender a ilha, e despacharam a maioria dos elementos da 5ª Infantaria (três regimentos) para a Inglaterra. Ainda permaneceram por lá unidades de combate terrestre, de artilharia antiaérea, de artilharia costeira engenharia e tropas de apoio, bem como a maioria das unidades de patrulha aérea da Aviação Naval e vasos de superfície da Marinha dos EUA. Estes ficariam até o final da guerra. Embora a “Batalha do Atlântico” tenha sido incontestavelmente vencida pelos aliados em 1943, os U-boats continuariam a ser uma ameaça nada desprezível durante o restante da guerra.  

Quanto à Islândia, o acordo de soberania com a Dinamarca, estabelecido em 1919, deveria passar por revisão 25 anos depois, mas a invasão alemã colocou a questão sob outro foco. Em 1943, as autoridades locais, após consulta à população, resolveram romper unilateralmente com o governo dinamarquês, repudiando a monarquia e estabelecendo uma república. O novo estado foi oficialmente estabelecido em 17 de junho de 1944. Uma pequena força militar foi criada, sob a supervisão dos EUA. Os principais elementos dessa força eram (e ainda são) a Polícia Nacional, que pode ser convocada em caso de necessidade, e uma Guarda Costeira, composta de vasos de patrulha costeira e uma pequena dotação de aeronaves de patrulha.

Os ingleses deixaram a ilha em meados de 1945, quando os últimos elementos da Marinha Real voltaram à Grã-Bretenha. Alguns elementos da RAF foram deixados na ilha em função de necesidades de controle de tráfego aéreo. Os norte-americanos, apesar do acordo assinado com os islandeses, permaneceram. A Guerra Fria criou um novo panorama estratégico, e a “brecha GIUK” continuava lá – apenas os submarinos eram outros. Em 1946 um novo acordo foi assinado, garantindo aos norte-americanos a utilização das instalações militares e a presença de efetivos militares da marinha e da Força Aérea. Em 1949 a Islândia juntou-se ao Tratado do Atlântico Norte::

Reequipamento da Força Aérea Indiana::Dinheiro não é problema::

Mesmo se levarmos em conta os meios especializados, nosso país não parece ter dado lá muita bola para o resultado do MMRCA indiano. Está certo que a Índia é muito longe (uma viagem aérea, começando em São Paulo, vai ter duas escalas até Nova Delhi, e demorará 19 horas, pelo menos…) e nossos “formadores de opinião” estão mais interessados em locais civilizados, como Paris e Nova Iorque (qu´eu saiba, nossa Der Ang… – que dizer, nossa intimorata “Veja” não mantém “correspondentes exclusivos” informando a nós, tupiniquins, sobre as lojas de grife e restaurantes da moda em Bombaim…). Mas como o Brasil assinou, recentemente, um tratado com a Índia (o ministro Celso Amorim esteve lá, embora eu não tenha entendido muito bem para fazer o quê…), e, segundo o excelente blogue especializado “Poder Aéreo, os dois países compartilharão a avaliação do concurso MMRCA. Para causa::, foi motivo suficiente para uma pesquisa sobre o concurso. Às voltas com mais essa empreitada, descobri o excelente (e longo) artigo do jornalista austríaco especializado em aviação Georg Marder (sobre o qual não consegui levantar maiores informações). Ao que parece, Marder foi enviado à Índia, em fevereiro de 2011, para cobrir, como correspondente do site especializado ACIG.org (que aconselho os assíduos a colocar nos “favoritos”) a feira de aviação Aero-Índia 2011. Marder tece diversos comentários interessantes em torno da renovação da Força Aérea Indiana, com detalhes que oferecem um quadro bem completo da situação, a começar pelo título da matéria: “Aero-Índia 2011: Dinheiro não é problema.” Este curioso cabeçalho parece traduzir o espanto dele diante do que via – e, serei franco: não foi suficiente para traduzir o meu… Mas vamos ver o que o cara tem a dizer. Não esqueçam que a tradução é livre (trata-se de um austríaco, falante de alemão, escrevendo em inglês), a começar pelo título, editado por mim. O original é uma expressão alemã vertida para o inglês, e que não faz muito sentido em nossa língua. A edição do conteúdo foi feita para torná-lo mais claro e dirimir certas dúvidas, como colocar por extenso algumas abreviaturas que o autor parece nem ter notado; também resolvi converter os postos militares para os equivalentes das FFAA brasileiras, prática que não é consenso entre os tradutores-editores, mas que, para fins de esclarecimento, acho razoável. Por fim, espero não encher o saco dos assíduos mais do que o necessário. O original, para quem esteja disposto a tanto, pode ser conferido aqui::

Desafiada pelo que possível cenário de ser espremida entre os dois rivais, a China, em franca expansão, e seu “procurador militar”, o Paquistão, a Índia está envolvida num grande esforço para fazer equivaler sua capacidade militar e seu crescimento econômico. Na maior exposição aeronáutica e espacial da Ásia, a Aero Índia 2011, realizada no Aeroporto Internacional de Bengalaru, perto da cidade de Bangalore, entre 9 e 13 de fevereiro, a Força Aérea Indiana (Indian Air Force – IAF), apresentou vários de seus projetos. Até 2020, aproximadamente 1000 novos jatos e helicópteros serão adquiridos, fazendo da base aérea de Yelahanka a “feira multibilionária da vez” para a indústria aeroespacial internacional. Todo mundo estará lá. Bem, quase todo mundo…

O ministro indiano da Defesa, Shri A. K. Antony, abriu o evento sob os olhares atentos de uma “galáxia” de embaixadores, funcionários, representantes da indústria aeroespacial, expositores, interessados e jornalistas, procedentes de mais de 40 países. Em seu discurso inaugural, Antony expressou confiança de que o evento irá “aumentar ainda mais a emergência da Índia como um mercado atraente e um hub de terceirização chave para as empresas aeroespaciais globais”.

Para entender o alcance do que ocorre em torno do compromisso dos líderes indianos com a rápida modernização das forças armadas indianas, vejamos alguns números impressionantes fornecidos por Antony à imprensa especilizada presente: “Nosso país foi capaz de manter, entre 2009 e 2010, o crescimento do PIB em 7,2%, acima dos 6,7% registrados no crise dos anos de 2008-2009. O PIB deverá crescer a uma taxa de 8,5% durante 2011 e, portanto, as despesas com a defesa também vão aumentar substancialmente nas próximas duas décadas.” Na verdade, logo após o final da feira, em 28 de fevereiro, o ministro das Finanças Pranab Mukherjee anunciou um aumento de 12% no orçamento de defesa, com relação ao ano anterior – chegando a um total de US$ 36,5 bilhões.

Aos ouvidos dos observadore da “segura” e saturada Europa, isso provavelmente soou como música. No entanto, oficiais militares indianos em Yelahanka informaram ao ACIG que o esforço para aumentar o orçamento de defesa até 2,5% do PIB será, em parte, “neutralizado” pela inflação, que está em alta. É esperado, para o ano fiscal de 2011, que alcance 9,3%. Portanto, os gastos militares indianos poderão reduzir-se para 1,83% do PIB, muito menos do que 3% exigido pelas despesas com as forças armadas. Seria a segunda vez em três décadas que os gastos militares da Índia cairiam abaixo de 2% do PIB.

Então, por que o montante de recursos financeiros, junto com uma farra de compras sem paralelo – ainda que dificultada pela inflação – que, juntos vão dando a impressão de que, se o dinheiro não é problema, ainda não será suficiente? As respostas foram dadas pelo ministro da defesa, juntamente com o tenente-brigadeiro do ar (Air Chief Marshall) PV Naik, da Força Aérea Indiana: “Trata-se de China e do Paquistão – nesta ordem -, mas também a crescente esfera de interesses relativa às linhas de suprimentos que mantém o crescimento econômico da Índia”.

Guerra em duas frentes

“Sim, a modernização das forças armadas da China e seu crescente orçamento militar são questões que despertam grande preocupação”, disse Antony. O brigadeiro Naik confirmou a encomenda de um estudo sobre o novo caça chinês de quinta geração, o Chengdu J-20. Pequim aumentou seu orçamento de defesa para 2011 em 12,7%, para US$ 91,4 bilhões. Na sequência de um aumento de 7,5% em 2010, nos três anos anteriores o orçamento de defesa da China teve crescimento de 14,9%, 17,6% e 17,8%, respectivamente. Um relatório do departamento de Defesa dos EUA sobre o poder militar da China estima que os gastos militares reais nos últimos anos sejam pelo menos duas vezes maiores do que dizem os números oficiais.

Os dois países têm, de longa data, disputas de fronteiras na linha do Himalaia e, apesar de Antony sublinhar a vontade de continuar a trabalhar pela paz junto aos chineses, a Índia diz que a China ocupa ilegalmente 38000 km2 de seu território no noroeste, e Pequim ainda apresenta reivindicação sobre 90000 km2 do estado de Arunachal Pradesh. Em função dessa situação, a Índia tem reforçado sua presença militar ao longo da fronteira com a China. Foram transferidos para a região milhares de efetivos terrestres, equipados com blindados e artilharia, e bases aéreas capazes de receber os Su30MKI, situadas a 9000 pés acima do nível do mar estão sendo ampliadas. A China instalou, no Tibete ocupado, uma base capaz de receber os clones locais do Su27SK, os J11.

Por outro lado, oficiais militares indianos, funcionários da indústria e jornalistas presentes em Bengaluru confirmaram ao ACIG a opinião geral de que o rival Paquistão é “cada vez mais uma colônia militar chinesa.” Para os indianos, parece óbvio que as relações entre Paquistão e China estão se tornando mais estreitas, de modo que os dois países poderiam juntar-se contra a Índia. Segundo essas fontes, as evidências são numerosas, a começar pela crescente presença chinesa na Caxemira, ocupada pelo Paquistão. Assim, uma guerra em duas frentes é vista como possibilidade real e tem influenciado a doutrina indina de defesa, mas a estratégia tem sido manter a moderação e aumentar, de forma segura, suas próprias capacidades militares. Estes dois aspectos foram apresentados como as razões para as recentes aquisições de aeronaves de transporte C17 Globemaster e Hercules C130J, da aeronave de combate leve Tejas, do novo patrulheiro marítimo P-8I Poseidon, e os investimentos no caça de quinta geração russo-indiano PMF, bem como no contrato MMRCA.

Outra ilustração do motivo pelo qual a Índia está no foco de todos os players mundiais do “circo” da indústria aeroespacial é que – sublinhou para o ACIG o brigadeiro Naik – nos vemos como “uma potência regional com interesses globais. Nossa esfera de interesses econômicos, políticos e culturais está em causa, pois se espalha em uma área que, partindo do estreito de Ormuz, vai além do estreito de Málaca. É preciso compreender que as necessidades energéticas indianas também estão crescendo e temos de nos preparar defender os interesses nacionais além de nossas fronteiras… ”

A modernização “Mãe de todos os negócios”

A Índia pretende assinar, por volta de setembro de 2011, um contrato de US$10-12 bilhões, para 126 Aeronaves de Combate Médias Multifunção (Medium Multirole Combat Aircraft – MMRCA), vista por todos os fabricantes de aviões militares como o negócio mais lucrativo da década. Começando com 126 unidades, pode chegar a duzentas. O brigadeiro Naik explicou, durante a feira: “Na sequência das avaliações técnicas feitas nos próprios países de origem, em 2010, o ranking técnico foi estabelecido. Os seis fornecedores atenderam a 95% dos 643 requisitos. Agora espero que a comissão de negociação comercial (CNC) para o MMRCA se reúna em março para começar as avaliações de preço no sentido de selecionar os mais vantajosos, e espero assinar o contrato antes de sair em julho – desde algum fornecedor insatisfeito não jogue areia na máquina e atrase todo o processo ..! ”

No entanto, as considerações estratégicas mencionadas também estão influenciando o concurso. Em 2010, os EUA forneceram ajuda militar de US$ 2,29 bilhões ao Paquistão, levantando sérias preocupações entre o establishment de segurança da Índia. Delhi também está inquieta sobre o fornecimento de F16 lote 52+, a maioria dos quais está baseada em Shahbaz, no sudeste do Paquistão. Por este motivo o Lockheed-Martin F16IN Super Viper pode ter de enfrentar uma “dura batalha” na Índia, agravada pelo fato de ser um conceito que remonta à década de 1970. Ainda assim, dois F16C da USAF, estacionados na base de Misawa, Japão, e dois F16F lote 25, dos anos 1970, pertencentes à Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos, foram trazidos para Yelahanka. O astro da versão “bollywoodana” de “Top Gun”, Shahid Kapoor (“Mausam“) puxou alguns Gs nessas aeronaves…

Outro aspecto que comprometem as chances do F16 – e também as dos Boeings 18E/F SuperHornet – é a questão da plena transferência de tecnologia, cláusula pétrea do contrato indiano. O ITAR (International Traffic in Arms Regulations – “Regulação para o Comércio Internacional de Armas”) é uma lei norte-americana que impõe restrições à exportação e importação de artigos relacionados com a defesa. O Departamento de Defesa dos EUA impõe essas regras com o objetivo de salvaguardar a segurança nacional dos EUA e implementar os objetivos de política externa do país. Declarações feitas ao ACIG deixaram clara a disposição do Congresso dos EUA em “interpretar” esses regulamentos do modo como a Índia espera, que pode significar “tudo ou nada” para os dois concorrentes norte-americanos.

O F18E-F tornou-se, na Aero Índia, o primeiro caso de “jato mutante” visto em qualquer linha de vôo. A versão apresentada no primeiro dia da feira foi um modelo “F”, biposto, pertencente ao esquadrão VFA113 da Marinha dos EUA – o industrial indiano Ratan Tata fez um vôo neste avião; no dia seguinte, a aeronave transformou-se num  “Inseto Silencioso” [nota de causa:: tradução livre de “Silent Bug”, possível trocadilho intraduzível resultante da combinação, pelo autor, do nome Silent Hornet, atribuído pela Boeing a nova versão (sem compradores) do SuperHornet, e a expressão bug, que no jargão da área tecnológica significa “problema” – ao pé da letra, Hornet e Bug são insetos]. Não tinha marca alguma, e trazia nos controles o piloto de testes da Boeing, Ricardo Traven. Juntos, tinham a função de explicar o programa SuperHornet International Road Map. Claro, os novos acessórios, como tanques de combustível e pods de armamento conformais para aumentar as capacidades stealthy da aeronave, indicadores de iluminação por laser, um equipamento de IRST (Infra-Red Search Track – “busca e rastramento de ondas infra-vermelhas”) colocado embaixo do nariz, eram apenas mock-ups de plástico, e ainda não existem de fato. Foi dito que não constavam da oferta apresentada ao MMRCA. Estas melhorias estariam disponíveis, posteriormente, para os clientes internacionais, como talvez seja o caso do Japão (que, mais tarde, pode, entretanto, ter outros problemas …).

A impressão geral, para nós do ACIG, em Bengaluru, foi que os concorrentes mais fortes no concurso são os “Eurocanards” – Dassault Rafale, Eurofighter Typhoon e um pouco atrás,  o Gripen NG. Estes seriam as escolha preferidas e que a IAF irá decidir entre eles.

O Rafale foi apresentado como substituto para o Mirage 2000-5, originalmente o concorrente para a ser apresentado ao concurso, mas que foi retirado em função do fechamento das linhas de produção do Mirage e da entrada de aeronaves muito mais avançado na competição. Apresentado na Índia pelo comandante da Armée De l´Air general Jean Paul Palomeros, é um projeto de origem cem por cento da francesa Dassault, o que constitui uma vantagem no que diz respeito à questão da transferência de tecnologia. Alegou o general que o Rafale tem uma vantagem sobre o Typhoon e sobre o Gripen: ao contrário destes, não têm componentes fabricados nos EUA e não está sujeito às restrições dos ITARs. O governo francês autorizou a transferência de tecnologia completa para a Índia, incluindo o radar AESA RBE2-AA, bem como dos códigos-fontes dos softwares da aeronave, o que permitirá a IAF integrar qualquer equipamento, aviônico ou arma, às aeronaves adquiridas.

O Gripen NG impressionou a IAF por suas capacidades de pouso e decolagem em distâncias curtíssimas e certamente terá uma chance, caso a comissão leve em consideração que originalmente o MMRCA seria um concurso para aeronaves de capacidades intermediárias. Por ora o sueco continua a ser um azarão: um candidato consideravelmente mais barato (mas estamos vendo um concurso onde o dinheiro parece não ser problema!). Por outro lado, o radar AESA Selex-Saab ES-05 “Raven” está com seu desenvolvimento atrasado  – e esses radares são um critéiro básico para a IAF. A versão “engordada” do NG é ainda apenas um protótipo e, muito semelhante ao LCA indiano, o Tejas.

O desempenho mais convencional foi o do russo MiG35 – que tem aparecido pouco. Com vários problemas relatados durante os testes da fase de avaliação, é considerado pelo IAF como pouco mais que um upgrade do MiG29. É verdade que o único demonstrador do MiG35 é o ex-MiG29M2 n° 154, no qual o autor voou em 2003 e cujo piloto ele encontrou novamente como pareceiro no seminário que aconteceu em paralelo à Aero Índia. O caça russo parece que efetivamente fora da disputa. Mas, de acordo com as mesmas fontes, a Rússia não estaria muito ofendido com isso. Devido a irritação do Kremlin com o insucesso  do MiG35, o diretor de longo data da estatal United Aircraft Corporation – o legendário projetista do Su30MKI, Alexey Fedorov – teria sido substituído pouco antes do início da feira pelo influente executivo dos projetos Sukhoi e MiG,  Mikhail Pogosian. No entanto, outro grande bolo russo está sendo  assado no forno indiano…

Tentativa de quinta geração

Talvez devido aos temores da Lockheed-Martin e do Pentágono de que o F16IN não seria selecionado – nos meses anteriores à abertura da feira correu um boato sobre a possível participação indiana no programa longo programa F35. Questionado sobre essa idéia, uma obviamente irritado ministro Antony esclareceu: “Já estamos associados a Rússia na produção de um caça de quinta geração. Nenhum outro país ofereceu-nos estas tecnologias no passado, ou para o futuro. Estamos muito à frente agora na parceria com a Rússia. Um recuo está fora de questão..!”

Em dezembro de 2010, as russas UAC  e Sukhoi assinaram um protocolo de intenções com a gigante indiana do setor aeroespaccial HAL (Hindustan Aeronautics Limited), para desenvolver conjuntamente o projeto para um novo caça multifunção de quinta geração, baseado no desenho Sukhoi T50 (PAK FA), cujo segundo protótipo voou em 3 de março de 2011. Os custos globais do projecto podem alcançar US$ 6 bilhões e, de acordo com o executivo-chefe da UAC. Mikhail Pogosyan, “… o trabalho entre a Índia e a Rússia será distribuído na proporção 35/65. Entre 200 e 250 unidades estão previstas para ambas as forças aéreas. “Pogosyan também disse ao ACIG que a demanda indiana volta-se principalmente para a versão biposto, que hoje chamamos PMF (Perspectival Multirole Fighter – “Caça Multifunção em Perspectiva’), que não estava, originalmente, na agenda da Sukhoi. O brigadeiro Naik acrescentou: “Estamos à procura de um avião de quinta geração. Estamos à procura de uma aeronave, que seja capaz de desempenho supercruise, equipado com armas de longo alcance, dotado dos mais avançados sistemas de aviônica, que não existem em uma aeronave de quarta geração. Nós também achamos que em cenários modernos altamente saturados da guerra eletrônica e contramedidas eletrônicas, com o engamento de alvos em tempo real e por enlaçamento de dados, e num ambiente BVR com novos mísseis, você precisará de um segundo tripulante. Nossa data de para começar com este projeto é 2017 … ”

Teimosia local

A Índia se diz a maior democracia do mundo e parece que, de alguma forma, sua burocracia também tem de ser tratada nessa ordem de grandeza. Várias vezes, suas instituições pararam, interromperam ou revisaram aquisições de defesa, e recentemente uma tentativa de adquirir reabastecedores A330 foi cancelada pela burocracia financeira devido à questões de preços (superfaturados). Devido a tais fatores – em alguns casos, justificados – mas também a contratempos técnicos, muitos dos assim chamados “projetos locais” [nota de causa:: tradução livre de um trocadilho intraduzível – e meio besta – entre as palavras “indigenous”  e “indian“], e até  mesmo algumas parcerias internacionais acabaram arrastando-se por anos, até por décadas. Ainda assim, esses projetos foram teimosamente  continuados por vários governos, e dois deles deram eloquente sinal de vida na Aero Índia 2011.

Somente em janeiro o HAL-ADA [nota de causa:: Aeronautical Development Agency – um consórsio governamental estabelecido em 1984 para gerencial o projeto] do LCA (Light Combat Aircraft “Aeronave de Combate Leve”) “Tejas“. Esta aeronave foi homologada pela IAF, abrindo caminho para o recebimento das primeiras 100 unidades do Mark 1, equipado com o propulsor GE404. O projeto remonta a 1990, numa tentativa de substituir uma centena de obsoletos MiG21, mas seu primeiro vôo não aconteceu até 2001. E foi preciso esperar até 2008 para que voasse a versão de produção. Agora, uma versão “Mark 2” muito melhorada, assim como uma versão naval biposto, foram anunciadas para 2014, equipados com o propulsor  GE414. Enquanto o coronel (group captain) Krishna colocava o protótipo PV2 para mostrar suas qualidades, foi explicado que o “Tejas” pode transportar quase 60 por cento ​​de seu peso básico de 7 toneladas em carga bélica, uma relação inigualável por qualquer aeronave moderna. O delta sem cauda indiano é chamado “o menor dos modernos aviões de combate” e incorpora (pelo menos parcialmente) um sistema  quadruplex de controle digital (fly-by-wire), um avançado glass-cockpit e será uma aeronave multimissão para qualquer tempo. O radar é um ELTA EL/M2032 multimodo.

Não menos importantes são alguns dos impressionantes números em torno das aquisições da IAF, que deverão tornar ainda mais eriçada a imagem da Índia: 80 Mi171V5 estão sendo adquiridos e uma outra competição para definir a aquisição de 22 helicópteros de assalto deverá ser vencida pelo AH64 lote III e uma outra, similar, está avaliando helicópteros pesados de transporte, estando entre o Mi26T, CH47F e uma variante do CH53. Claro, esses não tem nada a ver com o novo helicóprtero leve de combate (LCH) da HAL, de 5,5 toneladas, e que voou mais ou menos um ano atrás e deverá ser adquirido pelo Exército Indiano em números de até 180 unidades. O primeiro protótipo voou durante a feira, o outro, apresentado em exposição estática, numa camuflagem pixelizada. Cento e vinte e três jatos de treinamento avançado e ataque leve Hawk, vinte anos depois do processo de seleção, estão em produção na HAL, enquanto 120 Jaguar e 57 Mirage 2000 estão em vários estágios de modernização::

Historinhas de Natal de causa::

E quem disse que o espírito de Natal não existe? Pois existe, e se manifesta das formas mais esdrúxulas, e afeta as até mesmo as instituições menos natalinas que possamos imaginar. Querem uma? Fazem 50 anos que o NORAD (acrônimo de North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aérea e Espacial da América do Norte), coloca seus radares para monitorar a chegada de Papai Noel… Absurdo? Pois curtam a comemoração de Natal aqui de causa::.

Em 1955, um anúncio publicado nos jornais dos EUA, pela loja de departamentos Sears (que existiu aqui no Brasil, até o início dos anos 1990), convidava as crianças norte-americanas a fazer telefonemas para Papai Noel – e divulgou um número para contato. Tudo bem – se o telefone não estivesse miseravelmente errado. Aliás, diria o redator (e creio que os oito leitores concordarão…) que foi o número de telefone mais errado da história do telefone. De fato, o anúncio designava um aparelho que deveria tocar numa seção da cadeia de lojas, na cidade de Colorado Springs. Só que alguém no Departamento de Propaganda da Sears cometeu um baita de um engano. O número publicado era, de fato, da área de Colorado Springs, mas não o da loja. O pessoal que, na manhã do dia 24 de dezembro, foi encarregado de se fazer passar por “ajudantes de Papai Noel” e responder às chamadas das milhares de crianças, ficou à-toa.

Quem se viu no meio de uma tremenda roubada foi o Chefe de Operações do Comando Continetal de Defesa Aérea da Força Aérea (CONAD, Continental Air Defense Command, como era designada, então, a coordenação de defesa anti-aérea dos EUA), coronel Harry W. Shoup, cujo telefone ficava na base de Cheyenne Mountain, nas proximidades da cidade. O chefe do CONAD  não achou nada engraçado quando atendeu o primeiro telefonema. Uma vozinha infantil pedia, de presente, um foguete de brinquedo… Devia ser um trote. É provável que o militar tenha sentido vontade de mandar o interlocutor enfiar o foguete… Bem, vocês podem imaginar onde, em Papai Noel. Seja como for, conseguiu se controlar e desligou o  aparelho. Após vários telefonemas do mesmo teor, Shoup percebeu o que estava acontecendo e ordenou a cada membro desocupado de sua equipe que passasse a dar as coordenadas da “posição de Papai Noel” para toda criança que telefonasse para aquele número. A imprensa soube do acontecido, que recebeu ampla cobertura e foi considerado “show de bola” de relações públicas da Força Aérea. Na época do Natal, desde então, telefones são disponibilizados no centro de controle de Cheyenne Mountain e na base área de Peterson, no dia 24 de dezembro. Milhões de crianças fazem milhões de telefonemas, atendidos por centenas de militares voluntários. Nenhuma criança fica sem resposta, e a conversa com os “elfos” dura, em média, 30 segundos.

Em 1997, o NORAD passou a alimentar um sítio na Grande Rede, para alívio dos voluntários militares que passam, em média, duas horas conversando com as crianças. Entretanto, NORAD ainda mantém um Centro de Operações de Rastreamento de Papai Noel (TSOC – Tracks Santa Operations Center ) com linhas de telefone que entram em operação às 4:00 da manhã (hora local) em 24 de dezembro. causa::, prestando (para variar…) um serviço à paz mundial, coloca à disposição de seus leitores o número do telefone vermelho (ou será branco?..): 1-877-HI-NORAD (1-877-446-6723). Um membro da equipe do TSOC tentará explicar a exata localização de Papai Noel no espaço aéreo norte-americano, na hora do telefonema. Se o chegado de causa:: preferir um meio menos dispendioso (uma chamada de 1 minuto para Colorado Springs ficará em uns sete reais…), poderá, em 24 de dezembro, enviar um email (em inglês) para NORAD, e receberá de volta a última posição conhecida de Papai Noel.

O redator ficou imaginado se o momento ideal para um ataque nuclear contra o território norte-americano não seria a véspera de Natal…::

Acho que todos os leitores perceberam que o objetivo dessa historinha é dar ao redator a oportunidade de desejar a todos exatamente o contrário, e bem o contrário, do que costumamos a discutir e nos deleitar aqui no blogue – ou seja: fiquemos todos em paz, e que a paz seja, sempre, nossa maior e definitiva causa::

A história da guerra do ponto de vista dos micróbios::

Pensei nesse tema ao ler um texto já meio antigo (neste ambiente, um mês é tempo pra caramba…) no Darwiniano. Falo do comentário sobre um livro que eu já conhecia. Trança daqui, trança dali, acabei lembrando de outro e de outro, que considero também muito interessantes. E trança daqui, trança dali (com uns pulos na Grande Rede), acabou me ocorrendo o óbvio: com freqüência, micro-organismos acabam sendo convocados para a guerra, para serem engajados na modalidade que é chamada “guerra biológica”. Bom, trança daqui, trança dali, acabei fazendo um pequeno (mas pequeno mesmo…) resumo do “estado atual da questão”. Quem quiser saber mais pode ler dois excelentes textos aqui e aqui. Sugiro que o façam – acaba sendo divertido: no fim, a gente concluí que, sem sombra de dúvida, a humanidade é maluca…

O uso de toxinas produzidas por organismos vivos como armas de guerra, de modo a causar toxinfecções capazes de interferir no esforço de guerra do inimigo é mais difundido do que se possa imaginar. Talvez tão velho quanto a própria guerra. Sociedades de nível tecnológico muito rudimentar perceberam a possibilidade de usar toxinas produzidas por animais como forma de potencializar suas próprias armas, tanto na caça quanto na guerra – suponho que todo mundo já tenha ouvido falar do veneno curare, empregado por sociedades indígenas. Na Antiguidade, não era incomum que fontes de água fossem contaminadas com animais mortos – comportamento que os romanos consideravam “digno de bárbaros e escravos”; também não são incomuns os relatos de cidades sob sítio alvejadas com carcaças de animais e até corpos de vítimas de doença.  A partir do século 18 e, marcadamente, no século 19, os mesmos estudos que identificavam e isolavam agentes microbianos e seus produtos tóxicos, buscando curar ou controlar doenças, acabaram por mostrar ao Estado e seus agentes militares as possibilidades para esse tipo de guerra. No final do século 19, a Alemanha já promovia pesquisas visando determinar o potencial de determinados micro-organismos como arma militar. Na 1a GM, gado contaminado com antraz (infecção bacteriana comum no gado que, em certas condições, pode ser letal para humanos) e melioidose (infecção bacteriana de alta taxa de letalidade) chegou a ser contrabandeado para a Bélgica e França. A convenção de Genebra de 1925 tentou banir o uso desse tipo de meio, pela proibição do uso de armas químicas e biológicas (proibição depois confirmada pela Conferência Mundial de Desarmamento, de 1932), mas sem grande sucesso. Os países não-signatários (como o Japão) ignoravam as normas e os signatários, alegando necessidades de defesa, diminuiam mas não interrompiam as pesquisas.

Desde então, os estudos sobre o uso de armas biológicas colocam diante da humanidade um cenário de pesadelo (e também de non-sense). Os japoneses, durante a 2a GM, utilizaram amplamente os resultados de pesquisas nesse campo, inclusive sobre os melhores vetores dessas armas: milhões de pulgas contaminadas com agentes bacterianos letais foram espalhadas pela China, e também foi testada a pulverização de aerosóis (microgotículas) com culturas de Yersinia Pestis, bactéria causadora da peste pneumônica. Findas as hostilidades, embora diversos militares japoneses fossem julgados como criminosos de guerra por promoverem essas experiências e propor sua utilização maciça, os resultados das pesquisas e a possibilidade de seu uso não foram banidos. Os EUA já tinham suas próprias pesquisas desde 1941, num centro instalado em Fort Detrick, situado em Frederick, Maryland. Por ironia (ou não, sabe-se lá…), essa base estava subordinada ao Comando Médico do Exército dos EUA, e sediava o Programa de Armas Biológicas do Exército. Durante muito tempo, uma das principais linhas de trabalho desse programa foi a viabilização da produção, em escala industrial, de botulina, toxina de altíssimo grau de letalidade produzida por uma bactéria anaeróbica. Embora os EUA neguem até hoje, diz-se que certa quantidade desse material foi levada para a Europa em 1944, em um navio que acabou atingido durante um ataque aéreo. Em 1969, os EUA resolveram ratificar a Conferência de Genebra de 1925, e, na prática, o governo norte-americano passou a assegurar que armas biológicas e químicas nunca seriam usadas ofensivamente. As pesquisas para produção dessas armas foram desativadas e uma agência intergovernamental encarregada de pesquisas sobre bio-defesa passou a coordenar os órgãos existentes.  A União Soviética começou a pesquisar armas biológicas antes da 2a GM, e essas pesquisas foram aceleradas durante a Guerra Fria. No final dos anos 1970, eram conhecidos onze laboratórios em atividade. É interessante (bem, digamos que mais parece humor negro) observar que a pesquisa em engenharia genética, na ex-URSS, se desenvolveu a partir das buscas por armas biológicas eficazes – inclusive uma cepa de varíola que pudesse ser colocada em um míssil intercontinetal. Mesmo após a détente dos anos 1970, os laboratórios soviéticos continuaram funcionando. Com o fim da URSS e as dificuldades econômicas da Rússia, acredita-se que as pesquisas tenham sido reduzidas ao mínimo.

Na atualidade, a ameaça dos agentes biológicos não diminuiu. EUA e Rússia conservam, em laboratórios de alta segurança (mas conservam…) coleções de micro-organismos letais, inclusive da varíola. Embora sem fornecer provas convincentes, os serviços secretos dos EUA e da Grã-Bretanha acusaram o regime baathista do Iraque de promover pesquisas com agentes biológicos; atualmente, a mesma acusação é feita pelos EUA e Israel contra o Irã; a Coréia do Norte é frequentemente acusada pelos EUA e Coréia do Sul de promover pesquisas desse tipo; da China também é dito possuir estoques secretos de agentes biológicos letais. E, por fim, o bioterrorismo é posto como uma das principais ameaças. Todos sabemos que já foram ensaiados ataques que tentavam promover a contaminação por antraz, colocado, em pequenas quantidades, dentro de envelopes de correspondência. Mas, o que não sabemos é que, até agora, foi a única ameaça objetiva registrada::

Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::

Parte 2 Os EUA mantêm uma rede de postos e instalações militares na América Latina e no Caribe, em torno do chamado Comando Sul (SouthComm, no jargão do Departamento de Defesa). Algumas dessas instalações militares remontam à expansão imperialista dos EUA, no final do século 19; outras, à 2ª GM; outras à Guerra Fria, mas a maioria, atualmente, expressa o esforço empenhado pelo país numa até agora fracassada “guerra contra as drogas”. Por trás dessa fachada, entretanto, persistem os interesses estratégicos norte-americanos: garantir, caso necessário, um possível acesso aos recursos econômicos da região e manter sob vigilância regimes políticos recalcitrantes.

A maior parte dessas rede de instalações foi constituída em articulação com o “Plano Colômbia”, programa militar de grande porte destinado a dar apoio ao combate ao plantio de coca produção e tráfico de drogas no interior da Colômbia e na região do Caribe. Esse plano, embora não declaradamente, também busca apoiar as autoridades colombianas no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O “Plano Colômbia” tem levado ao estabelecimento de instalações militares dos EUA em diversos países da América Latina, em geral de pequeno porte e cumprindo funções de apoio às forças armadas e policiais locais. Esta foi uma forma encontrada pelos EUA de manter a presença militar na região, depois da retirada final, em 1999, das bases instaladas na chamada “Zona do Canal” – até então sede do “Comando Sul”. Desde então, os governos latino-americanos, independente da coloração ideológica, não mostram simpatia pela idéia de ter grandes contingentes norte-americanos em seus territórios. As bases de pequeno porte são uma forma de evitar uma retirada total.

Depois da retirada dos EUA da Zona do Canal, parte da estrutura lá existente foi deslocada para a Flórida (atual sede do Comando Sul) e parte das unidades operacionais foi realocada em Porto Rico. Desde então, cortes orçamentários e mudanças de doutrina, além da sempre delicada situação política local, têm resultado no fechamento de instalações militares situadas naquele protetorado norte-americano – em 2003 a importante estação de treinamento de Vieques e, em 2004, a base naval de Roosevelt Roads, em atividade desde 1943. Embora parte dessas instalações continuem ativas, existem planos para desativá-las definitivamente nos próximos anos.

Fora de Porto Rico, as principais bases norte-americanas na região situam-se em Manta (Equador), Aruba, Curaçao e Comalapa (El Salvador). Essas são estações de pequeno porte, resultado de tratados com os governos locais (no caso de Aruba e Curaçao, com o governo holandês), com a finalidade estabelcida de monitorar atividades ligadas ao narcotráfico e contrabando de armas e coordenar ações de interdição com as forças de segurança locais. Por motivos de propaganda, essas bases são chamadas de “estações de segurança cooperativa” (CSL, em inglês), não alocam equipamento de combate além do armamento individual da guarnição e os militares em serviço lá não tem permissão para interferir nas operações internas, nem mesmo se convidados. Essas bases geralmente possuem pequenos aeroportos, mas não tem provisão para estoque e tratamento de combustíveis. O Comando Sul também instalou, ao longo dos últimos dez anos, duas dezenas de estações de radar, principalmente no Equador, Peru e Colômbia. Essas estações geralmente não tem capacidade de combate e suas guarnições também só dispõem de armamento individual.

As CSLs e estações de radar, segundo o Comando Sul, tem como principal função fornecer subsídios para implementar ações de inteligência na “guerra contra as drogas”. Suas guarnições dificilmente ultrapassam 150 homens, sendo que a maior delas é a de Manta, Equador, ativada em 1999, e que tem, atualmente, quase quinhentos efetivos, comandados por um tenente-coronel. Algumas bases, situadas, respectivamente, na Ilha Ascensão e em Honduras, monitoram testes de mísseis balísticos e alojam unidades SAR (busca e salvamento), além, claro de monitorar atividades ilícitas (inclusive de contrabando de pessoas). A Estação Naval da Baía de Guantânamo, em Cuba, tem uma guarnição de mais de 500 efetivos, entre pessoal da Marinha e Fuzileiros Navais. Seu valor militar é considerado discutível, visto que as atividades de monitoramento eletrônico ficam situadas na Flórida. Com a “guerra contra o terrorismo”, foi estabelecida lá uma prisão militar que tem sido fonte constante de dores-de-cabeça para os EUA.  

O reduzido tamanho das guarnições das CSLs latino-americanas dos EUA explica-se pelo fato de que a administração e manutenção das estações tem sido repassada, nos últimos cinco anos, para empresas civis atuantes no mercado de defesa. Até mesmo a segurança de algumas dessas instalações é fornecida por empresas privadas, como a notória Blackwater. Na Colômbia e no Equador, cláusulas dos acordos de instalação exigem que pessoal local acompanhe os vôos militares sobre o território nacional. Acordos menores, bastante setorizados, permitem aos EUA manter vôos de transporte militar em aeronaves desarmadas na região do Canal do Panamá.

É interessante observar que a famigerada “escola de ditadores”, a “Escola das Américas”, instalação destinada a treinar militares latino-americanos em técnicas de informações e contra-insurgência foi inicialmente realocada em Fort Benning, no estado da Georgia. A péssima fama da unidade e a reação de setores da própria sociedade norte-americana à sua presença nos EUA levou o Pentágono a redenominá-la “Instituto Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança”. Um outro projeto é a criação, na Costa Rica, de uma “Academia de Defesa da Lei”. Esse projeto está suspenso, devido aos protestos que levantou entre a população do país.

Não é possível determinar exatamente o número de militares norte-americanos estacionados nas bases instaladas na América Latina. Cálculos conservadores falam em 10.000 efetivos, entre militares e funcionários civis. É certo que a maior parte desse pessoal não é combatente, o que, de fato, não significa grande coisa. Em diversas situações, o pessoal norte-americano atuou como fator de subversão e desestabilização para regimes mal-vistos pelos EUA – casos notório foram o da Guatemala, em 1954, República Dominicana, em 1965 e Chile, em 1973. Em todas essas situações, a CIA atuou como um espécie de “agência de coodenação”; no caso dominicano, a incapacidade dos militares locais acabou por levar à uma intervenção militar, sob a alegação de “garantir a ordem”.

Não se pode comparar o “Plano Colômbia” com as intervenções norte-americanas da época da Guerra Fria. Trata-se de um projeto muito mais complexo, inclusive por envolver fatores internos dos EUA. Falaremos um pouco do assunto na Parte 3. Como eu disse antes, é conversa longa – afinal, as maquinações dos EUA sempre dão prosa pra mais de metro::