Uma fortificação, posto que é Segunda::Fort Drum, Filipinas::

Maquete do Fort Drum, conforme fotos, 1922-1941

Maquete do Fort Drum, conforme fotos, 1922-1941

Conhecido como “Encouraçado de Concreto”, essa curiosa fortificação tem o nome oficial de “Fort Drum”, em homenagem ao general Richard C. Drum. No local, a ilha El Fraile, na baía de Manila, já existia uma fortificação espanhola, antes de 1898. Depois da tomada das Filipinas pelos EUA, na curta guerra Hispano-Americana, em 1898, foram feitos planos para o estabelecimento de uma rede de fortificações, entre Bataan e Corrigidor. O forte a ser instalado na ilha El Fraile, poderosamente artilhado, deveria garantir o acesso sul da baía de Manilha. Entre 1909 e 1919, a ilha foi aplainada até pouco acima do nível do mar e coberta com uma espécie de cúpula de concreto, cujo formato lembrava um navio, com pouco menos de 110 metros de comprimento e 43 metros em seu ponto mais largo. O que seria a coberta principal ficava 12 metros acima da superfície do mar, e chegava a ter a espessura de 6 metros, em concreto e ferro. Instaladas sobre essa “coberta” estavam duas torres blindadas, cada uma delas montando dois canhões de 14 polegadas (350 mm), que constituíam a bateria principal. As baterias secundárias, instaladas nas muralhas laterais norte e sul (“bombordo” e “estibordo”), montavam quatro canhões de 6 polegadas (150 mm), em casamatas de aço. No que seria a “popa” do “navio”, os projetistas colocaram uma espécie de superestrutura e um “mastro”, onde estavam instaladas cabines de observação e levantamento de dados para controle de fogo. O apelido de “Encouraçado de Concreto” veio do fato de que, à distância, até mesmo marinheiros experientes costumavam confundir a instalação com um navio de guerra real. Em entre dezembro e abril de 1942, quando do ataque japonês contra as Filipinas, Fort Drum, cujos canhões eram usados para apoiar as tropas que lutavam em Bataan, foi alvo de cerca de um milhão de disparos, feitos por artilharia naval japonesa e bombas lançadas por aviões, sem que sua proteção fosse rompida. De fato, segundo o testemunho de membros da guarnição de quase 500 homens, aprisionados pelos japoneses em 6 de maio de 1942, a falta de fontes de água doce foi o que condenou a fortaleza. Em abril de 1945, elementos da 38a Divisão de Infantaria do Exército dos EUA empreenderam, juntamente com unidades da Marinha, uma campanha para anular Fort Drum, no qual se entrincheirava uma guarnição japonesa. Diversas ações se iniciaram no dia 11 e, pouco menos de uma semana depois, os norte-americanos voltavam a subir à bordo do “Encouraçado de Concreto”. 

62 anos, esta noite::Okinawa, o moedor de carne

Não sei se as pessoas estão dispostas a comemorar, mas hoje é dia de um aniversário: 62 anos atrás, o recém-empossado Harry Truman decidia pelo alvo japonês a ser engajado por uma nova arma: a bomba nuclear. O alvo? Uma cidade japonesa que, mesmo depois da tempestade de fogo trazida diariamente pelos Boeing B29 sobre as cidades metropolitanas, ainda se encontrava surpreendentemente intacta: Hiroshima.

O desenvolvimento de uma arma nuclear embora seja um dos principais desdobramentos da 2ª Guerra Mundial, é suficientemente conhecido, e não é o objetivo desta postagem. Quero discutir o motivo pelo qual Truman teria resolvido passar para a história como o primeiro – e, até o momento, único – assassino de massas da era nuclear. Até poucos anos atrás, eu mesmo achava que o lançamento da Little Boy sobre Hiroshima, na manhã de 6 de agosto de 1945 foi um desnecessário ato de selvageria, destinado a constituir uma advertência aos soviéticos, no alvorecer da Guerra Fria. Vamos aos meus argumentos, e vamos ver se os leitores concordam comigo::

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O debate em torno desse assunto, quando acontece (o que, apesar do tempo passado, ainda é relativamente comum) costuma a travar-se entre posições expressas em termos absolutamente maniqueístas: o Japão estaria derrotado, bastaria um cerco para minar a resistência da população sem que grande baixas fossem necessárias, em ambos os lados. A ordem de lançamento da bomba teria sido, portanto, um ato de crueldade totalmente desnecessário, provocado por um novo ambiente que se desenhava entre as potências surgidas da guerra.

É uma pergunta cabível, por qualquer critério, se o extermínio repentino e não avisado de quase 200.000 pessoas seria, naquele momento, justificável. Seja qual for o parâmetro de análise, no início de julho de 1945, o Japão tinha perdido a guerra. Sua Marinha está inteiramente destruída; suas forças aéreas, com umas 5.000 aeronaves, sofriam carências crônicas de combustível, munição e pessoal treinado. O bloqueio naval esgotava os recursos da indústria; a fome era uma ameaça real. Três quartos da indústria tinha cessado de funcionar, incendiado junto com as cidades por bombardeios incessantes. Dois milhões de feridos amontoavam-se em hospitais desprovidos de tudo. No início de maio, a capitulação alemã fez o futuro ficar ainda mais negro, pois liberou do ETO (Teatro de Guerra Europeu) parte das forças militares lá empenhadas – uns dois milhões de efetivos, entre ingleses, canadenses e norte-americanos, e 12.000 aeronaves, para o Pacífico. Como cereja do bolo, a 5 de abril, Moscou denunciou o pacto de neutralidade, pressagio da entrada da URSS na guerra. Por todo lado, os exércitos imperiais recuavam: na segunda metade de 1944, MacArthur completou a reconquista das Filipinas. Na Birmânia, lord Mountbatten, o enfant térrible da Família Real, aproximava-se de Rangum. O general Curtis O. LeMay, apóstolo do “bombardeio por área”, futuro comandante da USAF, planejava estender a todas as cidades japonesas suas experiências com bombas incendiárias, que culminaram, em março de 1945, com a quase total destruição de Tóquio, em incêndio apocalítico. E, logo após a conclusão da tomada de Iwo Jima, a esquadra americana deslocava-se para o arquipélago Riu Kiu. Ao alcance da vista, estava o Japão.

Estas ilhas, cerca de 150, constituem uma espécie de “ponte natural” entre Formosa e o extremo sul de Kiu Shiu, no arquipélago japonês. A ilha principal, com uma centena de quilômetros de extensão por 12 km de largura, situa-se no centro, e a partir dela, alcança-se Tóquio, em menos de 3 horas de vôo. É montanhosa, quente e superpovoada. Os planejadores de estado-maior, tanto da Marinha quanto do Exército, observavam-na com ansiosa e sombria expectativa: consideravam que seria um laboratório do desembarque no Japão.

O nome do lugar? Okinawa.

A invasão de da ilha foi a maior das operações militares realizadas no Pacífico. Nimitz, comandante-em-chefe das operações navais, um cultor clássico do poder naval, exige o comando de todas as forças na área, inclusive dos 1500 B-29 de LeMay, naquele momento parecia obcecado por destruir o Japão. Apesar dos protestos irados do general, o almirante pretende, em Okinawa, uma operação combinada clássica, na qual todos os meios disponíveis deverão, sob comando único, ser utilizados para neutralizar as defesas inimigas.

Os japoneses defendem furiosamente o perímetro marítimo de Riu Kiu, e as baixas norte-americanas, surpreendem os comandantes. Um ataque de mais de 100 kamikaze contra os porta-aviões do almirante Mitscher atingem três deles, pesadamente avariados. Ainda assim, a supremacia naval norte-americana é indiscutível, inclusive no momento em que o fim da guerra na Europa liberou 50 navios, inclusive 26 ingleses, para o esforço no Pacífico.

No dia 1o­ de abril, começou a invasão de Okinawa, pelo centro da ilha, na foz de um rio chamado Busha. Mais de 1.200 navios, incluindo 700 transportes de todos os tipos lançam a terra 4 divisões de infantaria, duas do Exército e duas dos Fuzileiros Navais. Num primeiro momento, não se observa qualquer resistência: Okinawa parece abandonada. Para o alívio geral (mas principalmente dos Marines, moídos em Iwo um mês antes), a ilha é atravessada logo no primeiro dia e a conquista dos principais aeródromos acontece sem baixas.

Escondidos em suas fortificações, no entanto, estão 100.000 japoneses, dos quais 24.000 da guarda metropolitana (uma espécie de guarda nacional, formada por reservistas além da idade de convocação, mas com treinamento militar razoável). Seu comandante, o tenente-general Ushijima, renunciara à defesa da totalidade da ilha, concentrando suas forças no sul, em torno das duas principais cidades, Shuri, e a capital, Naha. No norte, cerca de um terço dos efetivos disponíveis defendem a península de Motobu e a ilha de Jima. O resto foi abandonando. Os invasores avançam diretamente para essa linha de defesa.

No Japão, o novo desembarque americano desorganizou o governo, que renunciou coletivamente diante do Imperador Hirohito. O novo chefe do governo, almirante Kantoro Suzuki, de 77 anos, um moderado, foi tirado do ostracismo por parecer um bom instrumento para reunir os meios buscados pelo Imperador para encontrar uma saída honrosa.

Em Okinawa, a 6 de abril é lançada, pelos japoneses, a partir de Kiu Shiu e do Mar Interior, uma contra-ofensiva aeronaval: mais de 1000 aeronaves, boa parte delas kamikaze, lançam-se contra a esquadra americana. Em menos de 12 horas, o custo é estonteante: 355 kamikaze e 444 aeronaves regulares são dadas como perdidas, tendo os invasores sofrido perdas de 16 unidades navais (seis metidas a pique) e 38 aeronaves; um porta-aviões de escolta foi a perda mais significativa. O ataque que deveria se seguir, realizado por um esquadrão naval carente de munição e combustível, encontrou a esquadra norte-americana intacta.

Várias centenas de bombardeiros e de caças norte-americanos alcançam o pequeno grupo de japoneses (cuja capitânea é o enorme – e obsoleto – couraçado Yamato, de 72.000 toneladas) em vagas sucessivas. O Yamato é atingido pela primeira vez às 12h41. Pouco mais de duas horas depois, o esquadrão japonês tinha deixado de existir.

Os dias seguintes são bem mais custosos para os atacantes, sob ataque massivo de kamikaze. Os japoneses usam uma nova tática aérea que se revela, na confusão do combate, bastante eficaz: bombardeiros convencionais, a grande altitude, infiltram-se entre os ataques rasantes de kamikaze. As centrais de direção de tiro não conseguem coordenar a artilharia anti-aérea de modo eficaz, nessa forma de ataque. O resultado: 30 navios afundados, 350 avariados em diferentes graus, entre estes o veterano porta-aviões Enterprise.

O relativo sucesso dos kamikaze, naquele período, cria nos soldados e marinheiros – e no público norte-americano – a impressão de que o Japão só poderá ser vencido pelo extermínio dos japoneses. É, de fato, um engano, cujas proporções são multiplicadas pelo calor do combate. Ataques kamikaze revelam-se muito pouco eficazes, mas provocam, nos atacados, um nível de estresse maior do que o normalmente observado. Mas diante dos radares instalados em aeronaves, coordenando patrulhas de interceptação em diversas camadas e terminado em DCA aperfeiçoada, dificilmente um avião-suicida consegue atingir o alvo. As vítimas são, sobretudo, embarcações leves, menos defendidas: LST, transportes e destróieres. Não se registra a perda de nenhum grande navio.

E o Japão não tinha aviões e combustível para sustentar a orgia suicida. A indústria japonesa foi, ao longo de 1944 e 1945, sistematicamente desorganizada pela campanha naval e aérea norte-americana. Uma campanha submarina, intensificada a partir de 1943, baseada na campanha dos U-boats alemães no Atlântico Norte, levara ao colapso as longas e desprotegidas linhas de suprimentos do Pacífico – como tinha previsto, em 1942, o almirante Yamamoto. Na China, as fontes de matérias-primas, embora mantivessem a produção, não conseguiam fazer chegar seus produtos ao Japão,por obra da eficiente guerrilha comunista, a única que revelava – na visão do general-de-exército Joseph Stiwell, o ácido comandante norte-americano do Teatro China-Burma -, “disposição em matar japoneses”.

A segunda ofensiva, a 12 de abril, reúne 184 kamikaze; daí por diante, os efetivos se reduzem ainda mais. Quase 1.900 kamikaze foram sacrificados durante a batalha de Okinawa sem inflingir ao adversário baixas nem de longe proporcionais. A aviação japonesa perdeu na batalha de Riu Kiu: 7.800 aviões, abatidos ou destruídos no solo. O poder aéreo nipônico deixou de existir.

Em terra, o 3o Corpo Anfíbio alcança, em 4 de abril, o extremo norte da ilha. Isolada a península de Motobu, começam as operações de consolidação. No Sul, a luta foi mais dura. O terreno escarpado foi muito bem fortificado, e serve de base para uma defesa encarniçada. Ushijima ainda imagina ser possível expulsar o inimigo da ilha e, depois de quase um mês, em 4 de maio, lança uma divisão de infantaria completa e bem aprovisionada, mantida em reserva, numa contra-ofensiva, que não leva um dia para falhar. Os norte-americanos continuam, metodicamente, se lançando contra o labirinto de fortificações na península, num tipo de batalha que se assemelha às da 1a. Guerra Mundial. Em 27 de maio, Ushijima resolve abandonar Naha, mas não sem antes tranqüilizar Tóquio: afirma que seu exército está intacto e que a retirada é, na verdade, uma concentração de forças.

Não deixa de ser verdade, embora não nos termos otimistas do comandante japonês. As pesadas baixas obrigam que a população civil seja convocada a combater. São formados “corpo escolares”, com mais de 2.000 rapazes e moças, que, como armas, recebem lanças e porretes. São comandados por instrutores políticos sem formação militar. As privações, a intensificação dos bombardeios sobre a região superpovoada e a desconfiança dos invasores tornam a situação dos civis ainda pior que a dos militares. A infantaria norte-americana começa a testemunhar, com freqüência, suicídios coletivos.

Em 4 de junho, dois terços dos efetivos japoneses já não existem, e o que resta é constituído por milicianos da guarda metropolitana e civis convocados. Apenas um em cada cinco combatentes tem uma arma; não existe mais artilharia. Os americanos arrasam cidades, estradas e instalações; limpam as defesas com lança-chamas e tiros diretos de canhão. Em 22 de junho, ocupam toda a costa, e a resistência japonesa é esparsa e não tem mais coordenação. Os generais em comando, Ushijima e Cho cometem suicídio. As perdas japonesas elevam-se a 131.000 mortos, dos quais 42.000 civis. Os norte-americanos sofreram mais de 14.000 baixas fatais e por volta de 20.000 feridos. Um clamor levanta-se entre a opinião pública norte-americana: como a guerra está sendo conduzida? É possível confiar nos comandantes supremos?

E, sobretudo: pelo número de vidas humanas que devoraram Iwo e Okinawa, quanto custará a invasão do Japão?::