Decisões estratégicas e de grande estratégia::O tapa-buracos aponta o futuro?::parte2

Umas duas semanas atrás iniciamos um comentário sobre a desativação dos Mirage 2000 que constituem, atualmente, a principal aeronave de interceptação/superioridade aérea da FAB, e os problemas que essa situação pode ocasionar, em função da interminável indefinição do programa F-X2 e da possível substituição do modelo a ser desativado por uma “solução de contingência”, o modernizado F5EM. Nesta segunda parte, vamos tentar estabelecer se se trata de uma boa ideia e quais seriam as alternativas disponíveis e – na minha opinião, a melhor parte – tentar entender como a situação chegou a tal ponto::

parte2Já vimos que o F5E “Mike”, embora tenha dotado a FAB de um caça com características de 4ª geração, não pode ser nada mais do  que uma solução de contingência, e não para longo prazo. É um projeto interessante, mas que dificilmente se sustentaria diante de nossos vizinhos mais bem fornidos. Entretanto, quero crer que temos algumas vantagens sobre esses vizinhos: por exemplo, o avanço seguro e sistemático no domínio, técnico e operacional, da doutrina de combate em rede. Usarei este aspecto como case study (para os que gostam de uma expressão tipicamente acadêmica…), mas poderia levantar outros – por exemplo, a crescente capacidade da indústria nacional em fabricar equipamentos – inclusive alguns tipos de armamentos – de razoável grau de sofisticação. O que quero levantar aqui é que, quando se pensa em termos de “grande estratégia”, não se pode (pelo menos não se deve) pensar apenas “no caça”, “no tanque” ou “na fragata”, mas em um conjunto de fatores que permitem projetar as demandas e a capacidade de supri-las, no médio e no longo prazo. A esta altura, alguns dos dezessete assíduos já deve estar pensando “este cara bebeu”. Esclareço – nem bebo nem tenho a tendência em pensar cor-de-rosa. Por este motivo escolhi a  “guerra centrada em rede”, ou Network Centric Warfare.

Não importa ir fundo em definir do que isto se trata. De forma geral, é o uso dos recursos disponibilizados, na modernidade, pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação, principalmente as redes de computadores, em cenários de conflito armado, não importa a intensidade. A GCR eleva de forma exponencial a consciência situacional tanto do combatente quanto da cadeia de comando, agilizando as tomadas de decisão e aumentando a possibilidade de que as decisões sejam corretamente implementadas e adaptadas às demandas apresentadas pela natural fluidez do combate.  A GCR é um ambiente teórico, no qual são construídas as “doutrinas”, quer dizer, as formas sobre como utilizar, de forma lógica e organizada, as forças militares. Os “aspectos físicos” da GCR são diversos, mas apontam todos para o  “enlace de dados militares” (a expressão em português para military datalink). Trata-se de um conjunto de meios que permitem processar e compartilhar de forma segura e em tempo real, as informações dos sensores das unidades em operação (aeronaves, veículos terrestres, navios e bases). O que um vê e/ou escuta é o que todos vêem e/ou escutam. A “rede” daí resultante aloca os comandos operacionais e os sistemas de armas disponíveis através de uma imagem comum do teatro tático – o campo de batalha -, daí o aumento da tal “consciência situacional” de todos os envolvidos. As “agências” (combinação de elementos humanos e equipamentos) em terra, no ar ou no mar, sejam essas plataformas móveis ou estações estáticas, tornam-se “nós de rede”, em condições de influir (embora nem todos possam decidir) na condução do combate.

As três forças brasileiras singulares se encontram pesquisando a GCR e os sistemas adequados às suas necessidades. Na FAB o que está atualmente disponível é baseado no que é identificado pelo acrônimo SISCENDA (“Sistema de Comunicações por Enlaces Digitais da Aeronáutica”). O uso do “enlace de dados” pela FAB remonta a um projeto, iniciado em 1998, destinado a criar um sistema de comunicações de combate entre os caças leves Embraer A-29A/B “Super Tucano” – então ainda em fase de projeto – com os Embraer ERJ145 AEW/C E-99A (então conhecido como R-99A e até hoje carinhosamente tratado, na FAB, por “grampeador”, de tão esquisito que é…). A ideia foi colocada a partir das necessidades surgidas do projeto SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), o amplo conjunto de sistemas e estruturas de vigilância aérea e comunicações que abrange a “Amazônia Verde”. Essa infraestrutura implica, para começo de conversa, em sistemas de radar, de comunicação e de apoio eletrônico, e inclui as aeronaves  E-99A, planejados para serem estações móveis de vigilância e controle, e o “Super Tucano”, este concebido para ser o “braço armado do sistema”.  O hardware do sistema é um rádio transceptor VHF/UHF desenvolvido pela empresa alemã Röhde & Schwarz. O software destinado a interligar os ST, que não são equipados com radar, ao  sistema de controle dos E-99A (este centrado em um poderoso radar AESA de origem sueca, o Erieye) foi desenvolvido de forma autóctone.

O projeto foi conduzido pela Comissão de Implantação do Sistema de Controle do Espaço Aéreo (CISCEA), que coordenou instituições de pesquisa responsáveis pelo desenvolvimento do software – o ITA e Centro de Telecomunicações (CETUC) daPUC-RJ. Até então, a FAB utilizava um software de origem suíça, desenvolvido pela empresa Crypto AG, comprado na segunda metade dos anos 1990 sob a forma de “pacote fechado”. Já nas últimas etapas do Projeto SIVAM, na segunda metade de 2003, a FAB se viu diante do fato de que as comunicações militares da defesa aérea, para serem eficazes, tinham de ser invioláveis, e não eram. O equipamento em uso nos A1A e A1B (os AMX ítalo-brasileiros) não incorporava a técnica de “salto de frequência” nem encriptação em tempo real no momento do compartilhamento de dados, já que eram  de uma geração anterior. Após uma série de seminários internos, decidiu-se incorporar de uma vez o sistema de datalink, que vinha se tornando padrão nas principais forças aéreas, e já estava sendo pesquisado pela Marinha. O hardware que os alemães ofereciam para o SIVAM incluía duas características que eram o que a FAB queria: “salto de frequência” e criptografia em tempo real. Para fechar o contrato, foi feita a exigência da inclusão de transferência de tecnologia. Este foi o “pulo do gato” – a exigência foi jogada na mesa quando a venda estava quase fechada. Os alemães concordaram, já que se tratava de um venda potencial de mais de cem unidades físicas, além de um grande contrato de manutenção. Pesquisadores civis e militares brasileiros foram despachados para a Alemanha, onde foram capacitados para iniciar o desenvolvimento de um software que nos permitisse alterar a matriz das comunicações militares em território brasileiro, tornando-as seguras contra interceptação e análise.

O “protocolo” (conjunto de instruções responsável pela formação e controle de aplicações da rede de computadores, bem como pelas características de  funcionamento e pela segurança da rede) foi denominado LinkBR 1. Tinha diversas limitações e, de fato, pode ser considerado uma espécie de “versão beta do produto”:  permitia enlaces ponto-a-ponto e, de forma mais limitada, em rede, que operava em frequência fixa e sem proteção criptográfica. Nas comunicações “ida-e-volta”, os rádios que nas aeronaves e em terra transmitem os dados empregam a técnica de “salto de frequência” para se proteger de interceptação: em intervalos de tempo muito curtos buscam a banda mais próxima que não esteja sendo utilizada e, quando encontra, “salta” (hop) de uma para outra, “escondendo” assim o conteúdo da mensagem, que já foi encriptado. Como já está “em código”, o conteúdo é assegurado contra análise.

Inicialmente, o LinkBR1 esteve operacional apenas nos E-99A e nos A-29. É preciso frisar esta característica: para as outras aeronaves de combate, que não são capazes de troca direta de dados entre si, nem diretamente com estações de controle no solo, as comunicações são “intermediadas” pela aeronave de controle, que é capaz de encriptar os dados em tempo real e operá-los sem comprometer a própria posição e a das pontas (uma interessante visão geral do sistema, aqui). Essa limitação – que na prática torna a operação em condições reais bastante problemática – será resolvida com a nova versão do sistema, atualmente em fase de testes. Entretanto, isso é o futuro, em que a troca de dados entre aeronaves, diretamente, permitirá aos “Mike” (ou qualquer outra aeronave) compartilhar os dados do radar dos E-99A ou dos próprios radares Grifo F/BR.

Isso se tornará possível com a próxima versão do datalink: a LinkBR 2. Esta utilizará o protocolo TDMA (Time Division Multiple Access – simplificando, um tipo de administração de tempo de computador que atribui a vários usuários um fatia de tempo para introduzir e  ter seus dados processados e direcionar num único sistema central, responsável pela administração do conjunto). Isto permite comunicações seguras entre vários participantes, no ar e em terra. A rede passará a ser a principal característica do sistema, o que não é ainda o caso.

O LinkBR 2 está programado para ser testado na versão modernizada dos caças táticos A-1M e em seguida deve ser incorporado aos restante do inventário da FAB – inclusive ao transporte tático-reabastecedor Embraer KC-390, que entrará em serviço em 2016. Entretanto, não existem notícias consistentes sobre a quantas anda o desenvolvimento do sistema. Em 2012 foi assinado contrato com a empresa de defesa Mectron.

Deve-se dizer que nossos vizinhos também dispõem desses sistemas – notadamente a Colômbia e o Chile os têm plenamente integrados a operação das forças singulares, mas ou são sistemas desenvolvidos nos exterior, ou não funcionam plenamente. Os da Colômbia são desenvolvidos pela empresa israelense Rafael, e não “conversam” entre si plenamente; também existem contratos voltados para “comunicações seguras”, administrados pela empresa norte-americana Motorola. O Chile desenvolve sistemas autóctones através da empresa local SISDEF, com diferentes graus de sucesso. Ainda assim, continuo dizendo que estamos em vantagem. Porque? Porque processos autóctones de cabo a rabo dão ao país certa autonomia com relação a nossos potenciais “aliados” de primeira linha. A “vantagem” brasileira, segundo especialistas, é o país ter estabelecido, ao longo dos últimos cinquenta anos, um ecossistema robusto de pesquisa e desenvolvimento, composto por institutos de pesquisa aplicada avançada (como, por exemplo o ITA, o IME e o LPqM, além dos institutos das universidades federais), capaz de formar pessoal altamente capacitado, e uma indústria de defesa que pode absorver esse pessoal. A situação de penúria em que vivem as FFAA pode ser considerada, hoje, diversa daquelas vividas no final do século 19 ou nos anos anteriores à 2ª GM. Não é o caso de nossos vizinhos, pois o sistema produtivo aqui implantado não tem comparação possível com os do Chile ou da Colômbia.

Nosso problema é bem outro: em nosso país, ter um programa qualquer em desenvolvimento não tem significado, de fato, que ele vá ser concluído no prazo estipulado. Basta olhar para a construção da corveta “Barroso” (que levou mais de dez anos para ser completada) ou para o programa da “Missão Espacial Completa Brasileira” (que se arrasta desde os anos 1960).

De toda forma, os que se completam apontam o fato de que o Brasil se distingue na América Latina (mas de forma alguma entre os BRICs) pela “massa crítica”. O resultado é que produzimos sistemas de defesa que, se não são de primeira linha, também não são quinta. Vale dizer: se o “Mike” não é o top-de-linha, por ora é o possível, é um ganho e quebra um galho. Entretanto, o Governo Federal parece considerar que isto é o suficiente, “pelo menos por enquanto”. Aí mora o perigo, com relação aos programas de reaparelhamento e modernização das FFAA.

Fico por aqui. Num próximo posto, concluirei com uma reflexão sobre a encruzilhada do FX-2, seus motivos e possíveis alternativas. Como se dizia antigamente – fiquem sintonizados::

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Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

Entre tapas e … beijos?..::Colômbia e Venezuela: perspectivas::

Cabe antes de tudo, uma explicação: o “método confuso” de elaboração de postos desenvolvido (???) pelo redator:: implica , em primeiro lugar, ter um insight, que aponte um tema que pareça interessante. Num segundo momento, o dito pesquisador amador começa a levantar material na lista de sítios especializados e blogues, que formam um extensa biblioteca de recursos de pesquisa on-line. O terceiro momento é o do início da redação. Aí a porca começa a torcer o rabo, a onça, a beber água e o macaco, a enfiar a mão na cumbuca. Por não ser jornalista nem escritor de espécie alguma (ou seja, “redator::” é apenas uma liberalidade adotada para com os oito ou nove assíduos…), o redator:: escreve um borrador e, logo em seguida, começa a modificá-lo, tanto em conteúdo quanto em estilo. Por esse motivo, os postos carregados aqui no blogue costumam a ter duas ou três “edições”. Na maior parte das vezes, aos trancos e barrancos, a coisa dá certo (salvo errinhos de digitação e algumas agressões à gramática…). Entretanto, algumas vezes, ocorrem desastres, como o q constatei ontem: a parte2 do posto sobre Colômbia e Venezuela, por algum motivo, saiu totalmente truncada. Na verdade, nem era para ser carregada naquele momento. De toda forma, está indo abaixo a primeira edição. Sugiro aos assíduos que dêem uma olhada na parte1, pois uma “segunda edição” bem ampliada foi carregada. O redador:: pede sentidas desculpas, não apenas aos assíduos, mas a todos que tenham sido incomodados por esse acidente de percurso::

parte2As provocações e vitupérios de Hugo Chávez são exagerados, certamente, mas as ressalvas de governos menos dispostos ao histrionismo, como o Brasil e a Argentina, traduzem a preocupação com a possibilidade de interferência norte-americana nos assuntos internos sul-americanos. O fato é que as forças armadas colombianas, muito bem treinadas nas operações de COIN, não parecem ter grande capacidade quando se trata de enfrentar forças armadas propriamente ditas.

Mas ninguém (possivelmente nem mesmo Chavéz…) imagina uma guerra: afinal, as forças armadas bolivarianas têm sido postas em prontidão com alguma frequência, sem ter, até agora, saído do lugar. As autoridades militares da Venezuela anunciaram ontem que estarão alertas e ofereceram “apoio incondicional” ao presidente Hugo Chavéz, após este ter rompido “todo tipo” de relações com a Colômbia. Até agora, no melhor estilo bolivariano, os militares venezuelanos parecem estar se divertindo em emitir bravatas, tipo “daremos resposta contundente se houver uma incursão militar estrangeira contra o território da Venezuela”. Já o governo colombiano parece ter ficado satisfeito em amolar Chávez: segundo o porta-voz presidencial, César Mauricio Velásquez, “da parte da Colômbia, jamais haverá um movimento de tropas. Sempre haverá fraternidade com a Venezuela” (???).

A Venezuela negou as acusações feitas pelo governo da Colômbia na Organização dos Estados Americanos. Segundo informações do embaixador colombiano, 1.500 guerrilheiros das FARC se refugiariam na Venezuela, em três acampamentos. Não foi a primeira vez que tais acusações foram veiculadas por Bogotá, e sempre foram negadas por Caracas. Esta última edição da crise chegou de modo um tanto inesperado, quando a OEA parecia estar tendo sucesso nas gestões que fazia, em busca da normalização das relações entre Bogotá e Quito, interrompidas desde a Operação Fênix, em março de 2008. As relações do governo colombiano com os EUA também levantam restrições entre todos os governos sul-americanos, e a decisão de Uribe em renovar o “Plano Colômbia”, formalizada durante visita à Washington, em outubro de 2009, não contribuiu para distencionar a situação. Os governos da região não veiculam suas restrições, e quando o fazem, mantêm o tom baixo – menos Chavéz, lógico. As relações entre os dois países não têm sido grande coisa ao longo do mandato de Uribe, mas vêm piorando desde julho de 2009. Foi quando o governo de Bogotá alegou  ter encontrado armas venezuelanas nas mãos as Farc. O acordo Bogotá-Washington piorou a situação, pois Chávez não é tão reservado em suas declarações e sabe que a Venezuela é, depois dos EUA, o principal parceiro econômico da Colômbia. Ele alegou que o acordo é uma intervenção direta na América do Sul e uma ameaça contra a Venezuela. Como se não fosse suficiente, o governo dos EUA, que tem endurecido sua posição na região, resolveu botar lenha na fogueira. Na capital americana, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Phillip J. Crowley, declarou o apoio norte-americano ao envio de uma “missão internacional” para investigar as acusações da Colômbia contra a Venezuela.  

Muitos analistas se perguntados, dariam razão a Chavéz. A Colômbia tem limites com cinco países (Venezuela, Equador, Panamá, Peru e Brasil). Com a Venezuela são 2.200 quilômetros, e uma história de conflitos de limites, que em diversas ocasiões provocaram atritos. Depois da independência, no início do século 19 sob a liderança de Bolívar, a região tornou-se um único país, a República de la Gran Colombia, integrada também pelo Equador e pelo Panamá – na época parte da Colômbia. O território equivalia ao vice-reino de Nova Granada, e o projeto não deu certo, já que haviam diferenças políticas significativas entre as elites que se reuniram para garantir a independência da região, após as guerras napoleônicas. O estabelecimento dos três países, acontecido no final da década de 1830, levantou questões de fronteiras, e algumas persistem até hoje. Colômbia e Venezuela têm um contencioso de fronteiras no Golfo da Venezuela, e quase entraram em guerra em agosto de 1987, em função de alegadas provocações da Colômbia (na época, Chavéz não existia ainda, temos de admitir…). A quase-guerra civil colombiana, que já dura mais de quarenta anos, tornou-se também fonte constante de tensão, visto que a fronteira venezuelana é altamente permeável, e tanto guerrilheiros colombianos quanto criminosos venezuelanos (o tráfico de drogas e os sequestros também são prática comum na Venezuela, só que sem coloração política) transitam de um lado para outro. O problema é que, desde sua chegada ao poder, o coronel Hugo Chavéz não faz questão de ocultar sua simpatia pelas FARC, que classifica como “combatentes da liberdade e do socialismo”; as FARC, por sua vez, se classificam como “bolivarianas”. Washington e Bogotá acusam, com frequência, o presidente venezuelano de apoiar as guerrilhas. Chávez nega, e o fato é que Uribe, que, no início de seu mandato, até que se dava bem com Chavéz, subiu o tom das acusações, sem conseguir apresentar provas indiscutíveis. Em dezembro de 2004, a prisão em Caracas do líder guerrilheiro Rodrigo Granda, representante internacional das FARC, em uma operação encoberta de um comando da polícia colombiana novamente quase levou os dois países à guerra.  O ativista andava tranquilo na Venezuela, que imediatamente alegou não saber o que ele fazia lá, como cidadão privado. Em março de 2008, a incursão aérea em solo equatoriano desencadeou movimentos de tropas de Quito e Caracas, e uma correria de diplomatas de alto nível, dos principais países da região e da Espanha. Chávez convocou seu embaixador em Bogotá e ameaçou congelar o comércio entre os países. Essa, por sinal, seria uma retaliação bem mais efetiva: o comércio entre os dois países, no âmbito do Pacto Andino, sempre foi intenso, chegando, segundo algumas fontes, a mais de 7 bilhões de dólares.

Em julho de 2009, a prova que com que o governo colombiano tanto deveria sonhar apareceu na forma de lançadores de foguetes AT4. Essa arma anti-tanque, supostamente entregue ao exército da Venezuela pela indústria sueca Saab Bofors Dynamics, foi encontrado com as FARC, em território da Colômbia. O governo da Suécia resolveu investigar o caso, que configuraria  tráfico de armas para a guerrilha, e teria comprovado que as armas realmente foram vendidas ao Exército da Venezuela em 2004. A reação de Uribe foi, por outro lado, surpreendentemente moderada: apenas teceu críticas genéricas aos países que vendem armas por fornecer a um “grupo criminoso”  armamento de grande poder de destruição, sem citar nenhum país como fonte das armas. A guerrilha, claro, negou todas as acusações e ainda afirmou não ter nenhuma relação com o o governo do Equador – o governo colombiano veiculava acusações de que a guerrilha teria feito contribuições à campanha de Rafael Correa ao governo do Equador.

É possível que a preocupação do colombiano fosse mais com o comércio bilateral. Chavéz cumpriu sua ameaça no ano passado, depois do acordo firmado entre Washington e Bogotá. O comércio bilateral foi reduzido em 70%, prejudicando as duas economias. A seriedade desse movimento de Chavéz, e o modo como a Colômbia sentiu o golpe ficaria clara nos meses seguintes, ao ponto do atual presidente eleito, então ministro da defesa ter declarado sentir “grande afeto” pelo povo venezuelano. O fato é que os outros países do Pacto Andino simplesmente não têm volume econômico suficiente para absorver os produtos colombianos que a Venezuela.  

Alguns analistas têm dito que o problema talvez não seja exatamente com a Venezuela, mas dentro da estrutura de governo da própria Colômbia. As “provas” apresentadas por Uribe sobre a presença de militantes das FARC na Venezuela são muito pouco consistentes, remontando a relatórios de 1990. As declarações de Santos ainda como ministro de Uribe podem indicar uma intenção de negociar com a Venezuela, de forma a resolver o problema das relações econômicas.

Santos já presidente eleito, demonstrou mais diretamente intenções de entabular negociações com Venezuela e Equador, que classifica como “problemas diplomáticos”. Essa intenção fica ainda mais provável com a escolha, para a pasta das Relações Exteriores de Maria Ángela Honguín. Essa diplomata de carreira foi representante colombiana na ONU, até discordar da política de Uribe para os países vizinhos. Logo após a indicação, Santos enviou Holguín a Quito, para apresentar a seu colega equatoriano, Ricardo Patiño, um convite para que o presidente equatoriano comparecesse à cerimônia de posse. A ministra nomeada também deveria ter uma reunião com o chanceler venezuelano.

Embora tenha feito elogios às iniciativas de seu sucessor, a posição de Uribe, de fato, seria outra, de discordância com as diretrizes de seu sucessor. Analistas na própria Colômbia vêem  na denúncia de Uribe objetivo de marcar posição e, mais além, enviar uma mensagem clara a seu herdeiro político. Durante sua visita a Wasington, Uribe declarou pertencer “… a uma geração que não conheceu um só dia de paz. Minha prioridade é dar manutenção à dinâmica da minha política.” Declarações como essa visam justificar as políticas de segurança adotadas ao longo de seus dois mandatos. No auge de sua popularidade, Uribe chegou a alimentar planos de um terceiro mandato, que não chegaram a entusiasmar nem mesmo seus mais entusiasmados seguidores. Desencorajado de uma segunda modificação na constituição da Colômbia, Uribe parecia esperar que sua “Seguridad Democratica” fosse continuar como diretiva política para os próximos dez anos, pelo menos, ou até as FARC serem totalmente anuladas. As indicações de Santos para o futuro gabinete o teriam desagradado fortemente, e temeria que sua política de enfrentamento com a guerrilha, acabe sendo mitigada em nome da negociação.
Ou seja: Uribe não estaria disposto a ser colocado em segundo plano. Seu objetivo seria, então, entregar ao sucessor um fato consumado, as relações com a Venezuela estremecidas a tal ponto que qualquer negociação acabasse aparecendo como recuo diante do principal adversário. Essas discordâncias internas explicariam a moderação do presidente eleito com relação às denúncias do atual. Resta agora saber como Chavéz reagirá aos acenos colombianos, e se Santos terá jogo de cintura suficiente para transformar o espantalho favorito de seu mentor em “pessoa fantástica” – o que, além de recolocar a economia colombiana nos trilhos e distensionar a região, também poderia apontar Diego Maradona como capaz de reivindicar o cargo de ministro do exterior da Argentina::

Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::

parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Forças Especiais da Colômbia

 

ColomSpOps2

Já que estamos falando no assunto… Efetivo de um batalhão aeromóvel de Forças Especiais do Exército da Colômbia, em treinamento. Esses caras foram enviados, em julho passado, para colaborar com o “esforço norte-americano” no Afeganistão. Como se não bastassem os problemas que eles tem em casa…::

Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::

Parte 2 Os EUA mantêm uma rede de postos e instalações militares na América Latina e no Caribe, em torno do chamado Comando Sul (SouthComm, no jargão do Departamento de Defesa). Algumas dessas instalações militares remontam à expansão imperialista dos EUA, no final do século 19; outras, à 2ª GM; outras à Guerra Fria, mas a maioria, atualmente, expressa o esforço empenhado pelo país numa até agora fracassada “guerra contra as drogas”. Por trás dessa fachada, entretanto, persistem os interesses estratégicos norte-americanos: garantir, caso necessário, um possível acesso aos recursos econômicos da região e manter sob vigilância regimes políticos recalcitrantes.

A maior parte dessas rede de instalações foi constituída em articulação com o “Plano Colômbia”, programa militar de grande porte destinado a dar apoio ao combate ao plantio de coca produção e tráfico de drogas no interior da Colômbia e na região do Caribe. Esse plano, embora não declaradamente, também busca apoiar as autoridades colombianas no combate às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O “Plano Colômbia” tem levado ao estabelecimento de instalações militares dos EUA em diversos países da América Latina, em geral de pequeno porte e cumprindo funções de apoio às forças armadas e policiais locais. Esta foi uma forma encontrada pelos EUA de manter a presença militar na região, depois da retirada final, em 1999, das bases instaladas na chamada “Zona do Canal” – até então sede do “Comando Sul”. Desde então, os governos latino-americanos, independente da coloração ideológica, não mostram simpatia pela idéia de ter grandes contingentes norte-americanos em seus territórios. As bases de pequeno porte são uma forma de evitar uma retirada total.

Depois da retirada dos EUA da Zona do Canal, parte da estrutura lá existente foi deslocada para a Flórida (atual sede do Comando Sul) e parte das unidades operacionais foi realocada em Porto Rico. Desde então, cortes orçamentários e mudanças de doutrina, além da sempre delicada situação política local, têm resultado no fechamento de instalações militares situadas naquele protetorado norte-americano – em 2003 a importante estação de treinamento de Vieques e, em 2004, a base naval de Roosevelt Roads, em atividade desde 1943. Embora parte dessas instalações continuem ativas, existem planos para desativá-las definitivamente nos próximos anos.

Fora de Porto Rico, as principais bases norte-americanas na região situam-se em Manta (Equador), Aruba, Curaçao e Comalapa (El Salvador). Essas são estações de pequeno porte, resultado de tratados com os governos locais (no caso de Aruba e Curaçao, com o governo holandês), com a finalidade estabelcida de monitorar atividades ligadas ao narcotráfico e contrabando de armas e coordenar ações de interdição com as forças de segurança locais. Por motivos de propaganda, essas bases são chamadas de “estações de segurança cooperativa” (CSL, em inglês), não alocam equipamento de combate além do armamento individual da guarnição e os militares em serviço lá não tem permissão para interferir nas operações internas, nem mesmo se convidados. Essas bases geralmente possuem pequenos aeroportos, mas não tem provisão para estoque e tratamento de combustíveis. O Comando Sul também instalou, ao longo dos últimos dez anos, duas dezenas de estações de radar, principalmente no Equador, Peru e Colômbia. Essas estações geralmente não tem capacidade de combate e suas guarnições também só dispõem de armamento individual.

As CSLs e estações de radar, segundo o Comando Sul, tem como principal função fornecer subsídios para implementar ações de inteligência na “guerra contra as drogas”. Suas guarnições dificilmente ultrapassam 150 homens, sendo que a maior delas é a de Manta, Equador, ativada em 1999, e que tem, atualmente, quase quinhentos efetivos, comandados por um tenente-coronel. Algumas bases, situadas, respectivamente, na Ilha Ascensão e em Honduras, monitoram testes de mísseis balísticos e alojam unidades SAR (busca e salvamento), além, claro de monitorar atividades ilícitas (inclusive de contrabando de pessoas). A Estação Naval da Baía de Guantânamo, em Cuba, tem uma guarnição de mais de 500 efetivos, entre pessoal da Marinha e Fuzileiros Navais. Seu valor militar é considerado discutível, visto que as atividades de monitoramento eletrônico ficam situadas na Flórida. Com a “guerra contra o terrorismo”, foi estabelecida lá uma prisão militar que tem sido fonte constante de dores-de-cabeça para os EUA.  

O reduzido tamanho das guarnições das CSLs latino-americanas dos EUA explica-se pelo fato de que a administração e manutenção das estações tem sido repassada, nos últimos cinco anos, para empresas civis atuantes no mercado de defesa. Até mesmo a segurança de algumas dessas instalações é fornecida por empresas privadas, como a notória Blackwater. Na Colômbia e no Equador, cláusulas dos acordos de instalação exigem que pessoal local acompanhe os vôos militares sobre o território nacional. Acordos menores, bastante setorizados, permitem aos EUA manter vôos de transporte militar em aeronaves desarmadas na região do Canal do Panamá.

É interessante observar que a famigerada “escola de ditadores”, a “Escola das Américas”, instalação destinada a treinar militares latino-americanos em técnicas de informações e contra-insurgência foi inicialmente realocada em Fort Benning, no estado da Georgia. A péssima fama da unidade e a reação de setores da própria sociedade norte-americana à sua presença nos EUA levou o Pentágono a redenominá-la “Instituto Hemisfério Ocidental para Cooperação em Segurança”. Um outro projeto é a criação, na Costa Rica, de uma “Academia de Defesa da Lei”. Esse projeto está suspenso, devido aos protestos que levantou entre a população do país.

Não é possível determinar exatamente o número de militares norte-americanos estacionados nas bases instaladas na América Latina. Cálculos conservadores falam em 10.000 efetivos, entre militares e funcionários civis. É certo que a maior parte desse pessoal não é combatente, o que, de fato, não significa grande coisa. Em diversas situações, o pessoal norte-americano atuou como fator de subversão e desestabilização para regimes mal-vistos pelos EUA – casos notório foram o da Guatemala, em 1954, República Dominicana, em 1965 e Chile, em 1973. Em todas essas situações, a CIA atuou como um espécie de “agência de coodenação”; no caso dominicano, a incapacidade dos militares locais acabou por levar à uma intervenção militar, sob a alegação de “garantir a ordem”.

Não se pode comparar o “Plano Colômbia” com as intervenções norte-americanas da época da Guerra Fria. Trata-se de um projeto muito mais complexo, inclusive por envolver fatores internos dos EUA. Falaremos um pouco do assunto na Parte 3. Como eu disse antes, é conversa longa – afinal, as maquinações dos EUA sempre dão prosa pra mais de metro::