O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::O mês da Coréia::

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

parte 1Em três partes, este texto é voltado principalmente para fornecer ao interessado uma visão de conjunto da situação atual da península coreana. No início, eu não estava muito preocupado em aprofundar o texto – pretendia, meramente, fazer algumas observações sobre o suposto “poderio militar” da Coréia do Norte. Mas quando o Weblog do Pedro Doria divulgou um texto, supostamente especializado, de um suposto especialista, e as figurinhas carimbadas de sempre dispararam a comentar o tema, achei que valeria à pena gastar algumas horas de meu tempo livre pesquisando o tema. O professor Zhang Lianggui, pesquisador do Partido Comunista Chinês, em Pequim, faz uma única observação sensata em todo o texto: que o poderio nuclear da Coréia do Norte é uma ameaça para a China. Por outro lado, outras observações são, no mínimo, curiosas. Dentre essas, minha favorita é a seguinte: “A Coréia do Norte acredita que ter armamentos nucleares a torna mais forte. Os norte-coreanos acreditam que sua enorme superioridade militar sobre o sul os fariam vencer a guerra.” Isso contraria as opiniões de meia-dúzia de sites especializados  – este aqui, por exemplo, é bastante incisivo: Pyongyang tem a capacidade de começar uma nova guerra da Coréia, mas não de sobreviver à ela.” Certamente ninguém quer um conflito generalizado na região. Nem a Coréia de Norte: “É a lógica de afastar a guerra tornando-a o mais aterradora possível, o que constitui a essência da teoria da ´dissuasão limitada´, materializada pela capacidade de infligir um dano inaceitável através de um ataque a um centro vital.”, diz Alexandre Reis Rodrigues, no meu favorito Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Mesmo com bombas nucleares e *Taepodong-2, a Coréia do Norte pode ser qualificada apenas como uma potência militar média. O fato do país estar a beira do abismo econômico, e sem aliados a lança, talvez, num patamar mais baixo ainda.

Bem, análise doutrinária e estratégica implica em certa paciência para lidar com tecnicalidades. Tentei tornar o texto não muito chato, e dividi-lo em três pedaços é parte dessa tentativa.

A coisa é dedicada ao Antônio M, um dos assíduos lá do PD, para que ele aprenda a distinguir “estratégia” de “tática” e não coloque na boca do coitado do MacArthur palavras que ele não poderia ter dito, em 1950…:: 

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O plano de contingência dos EUA para a eventualidade de um ataque norte-coreano contra a República da Coréia passou a prever, a partir de 2003, que o grosso das tropas empenhadas no início de uma invasão estarão posicionadas bem longe da ZDC, possivelmente ao sul de Seul. Trata-se de uma mudança radical no planejamento estratégico do Pentágono, vista não sem certo alarme por funcionários tanto do governo dos EUA quanto da Coréia do Sul. O curioso é que essa mudança, que começou a ser implementada em 2004-2005, também provocou certo alarme no governo norte-coreano. Ainda hoje não existe consenso sobre a validade da medida, embora já se admita que, diante do atual balanço de forças na região, e da conjunção de fatores observável, ela foi necessária.

Desde o final da Guerra da Coréia, em 1953, as tropas americanas – atualmente uns 37.000 efetivos (quarto brigadas e diversas unidades especializadas) – estiveram posicionadas em guarnições permanentes ao longo da zona desmilitarizada. Sua presença era mais uma garantia tangível do compromisso dos EUA com a defesa da Coréia do Sul do que propriamente uma efetiva dissuasão. Até os anos 1980, a grande estratégia dos EUA para a região era que, no caso de um ataque do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia, com efetivos que, em 1979 chegavam a 1, 2 milhões de homens e mulheres, a resposta dos EUA seria um contra-ataque nuclear tático (por incrível que pareça, isso existe…). Aqueles era os tempos da “resposta flexível” (coisa que os leitores de causa:: sabem do que se trata), e se imaginava que uma resposta nuclear poderia ser mantida sob controle, principalmente depois do esfriamento das tensões entre as potências.

Atualmente, os sul-coreanos já não vêem tanta determinação dos EUA em defender a nação aliada. A remoção das tropas da área de um possível engajamento inicial tem sido vista como a retirada do “gatilho” que implicava no envolvimento automático dos americanos. O problema é que Seul, uma cidade de 17 milhões de habitants, fica a meros 75 quilômetros ao sul da ZDC. Se o  grosso das forças norte-americanas  for retirado da região, ou seja, do caminho do rolo compressor norte-coreano de 3200 tanques e 1500 peças de artilharia, nada indica que o “gatilho” será disparado depois de consolidadas as posições invasoras. Segundo analistas nos EUA e na Coréia do Sul, a nova postura norte-americana pode ter encorajado o líder norte-coreano, Kim Jong-il a se sentir mais confiante para desafiar a comunidade internacional e embarcar em aventuras expansionistas.

A nova estratégia norte-americana faz algum sentido. Na hipótese de uma invasão por tropas da República Democrática do Povo da Coréia, as tropas norte-americanas teriam de recuar, de qualquer maneira, até que reforços vindos do Japão e do Havaí permitissem um contra-ataque. Até que isso seja possível, o poder aéreo é a única garantia de certo equilíbrio da situação estratégica e tática. Sob a nova política, as tropas já estarão em posições seguras; certamente terão de sobreviver às barragens de artilharia que irão varrer a região, dada a superioridade inicial dos norte-coreanos.

Tecnicamente, os argumentos são válidos, mas existem outros possíveis. É certo que o ditador norte-coreano não é tão louco quanto pode parecer. A decisão de invadir a Coréia do Sul esbarra, por certo, em outras questões. Em números absolutos, o exército da Coréia do Norte é enorme, mas seu equipamento deixa muito a desejar. Para começar, a Coréia do Norte não possui propriamente uma indústria de armamentos. Produz, certamente, toda a munição e suprimentos de que precisa, e o país de Jong-il mantém-se funcionando mais-ou menos como se já estivesse em guerra, ou seja, estocando armas, munições e suprimentos militares. Além do mais, armas e munições são praticamente o único produto que a Coréia do Norte dispõe para comerciar, embora sejam poucos os países dispostos ao comércio com os norte-coreanos::

O mês da Coréia::Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Nas pesquisas que tenho feito na Grande Rede, sobre o tema “Coréia”, já encontrei muitas pérolas. Esta agora, entretanto, ganha de todas. Foi publicada na excelente página do fotógrafo norte-americano Eric Lafforgue, especializado em viagens – os créditos pela foto e entrevista são dele. Agora, melhor deixar que vocês curtam a coisa::

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Você sempre encontra norte-americanos que estão no lado da Coréia do Sul? | Quando em serviço, nossos homens não tem permissão para falar. | Mas os oficiais de ambos os lados se encontram? É claro, os soldados do outro lado são nossos irmãos. Mas os americanos sempre intervêm, e sempre vêem as coisas de seu próprio ponto de vista. Os americanos são mestres nisso. |
Por que os americanos não estão do outro lado agora? Que horas são? É meio dia e quinze. (Eric entende e faz um movimento indicando “hora de comer”, e o tradutor e o coronel começam a rir). | Nos soubemos, na Europe, que dois jornalistas norte-americanos entraram em território norte-coreano sem autorização. Ele pode explicar o que aconteceu? (O tradutor não deixa o coronel falar, antecipando-se à resposta. Entendi que se trata de um assunto delicado.) O coronel não tem como saber, porque isso aconteceu num lugar da fronteira mais ao norte, e nós estamos mais ao sul aqui, são lugares diferentes. | Você pode explicar a versão norte-c0reana do que aconteceu com respeito a um suposto míssil ou satélite de comunicações? Normalmente, lançar um satélite artificial é direito de qualquer país. Mas nós avisamos a todos os países, antes do lançamento, que estávamos fazendo testes científicos com um satélite artificial. Ninguém pode criticar esse lançamento, pois é uma questão de soberania, não é? É uma questão de auto-determinação. | Por que, então, tantas críticas no Ocidente? Nós lançamos um satélite artificial, mas por que ficam todos dizendo que estamos lançando mísseis? Não podem evitar espalhando boatos, nós não entendemos isso, esses boatos. Estamos muito chateados, pois se você olhar o problema de nosso ponto de vista, nós fizemos tudo conforme as regras. | O que mais assombra os turistas quando eles vem aqui? A maioria dos turistas que vem aqui estão interessados na linha de demarcação, todos os turistas dizem, quando vem aqui, que não conseguem entender porque o sofrimento do povo coreano tem de durar tanto, separados uns dos outros pelos americanos. Todos os turistas partem esperando que a Coréia possa ser reunificada, não pela guerra, mas de modo pacífico. Também dizem que as tropas americanas devem ser removidas da Coréia do Sul de qualquer maneira.  | Você está convencido de tudo o que me falou? Sim.

 

 

Um fortificação, posto que é Segunda::O mês da Coréia::

 

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A Zona Desmilitarizada Coreana (em inglês, DMZ) não é propriamente uma fortificação, mas um enorme conjunto de obras militares que se estendem ao longo de mais de 250 quilômetros, de costa à costa, na península coreana, com aproximadamente 4 quilômetros de largura, correspondente à linha de demarcação do armistício de1953.  No território adjacente aos dois lados da ZDC estão aquartelados aproximadamente dois milhões de soldados e centenas de milhares de peças de armamento de todos os tipos, o que faz daquela região a fronteira mais pesadamente fortificada da atualidade. Entretanto, por mais absurdo que possa parecer, o lado sul-coreano da ZDC tornou-se uma espécie de atração turística, recebendo, anualmente, milhares de visitantes. O lugar é cheio de monumentos (na *foto, a “Ponte da Liberdade, obra ferroviária atravessada por milhares de prisioneiros de guerra ocidentais devolvidos após o armistício; outra *foto mostra um ponto de observação usado pelos turististas para espiar a Coréia do Norte) que evocam aos sangrentos combates de meio século atrás. Por sinal, as fotografias foram recolhidas em blogs de turistas ocidentais que visitaram a região::

O mês da Coréia::Trinta dias a mais::

Estamos no assunto “Coréia” já se vão 30 dias. Assim, visto que ainda não cheguei nem à metade dos assuntos que pretendia discutir, resolvi estender o “Mês da Coréia”. Serão, assim, “dois meses da Coréia”.

Acho que vale à pena, na medida em que a península é campo representativo de uma série de questões significantes para aquela região da Ásia. Afinal, se trata de uma relíquia da conjuntura imediatamente posterior ao fim da 2a GM e da Guerra Fria: o regime que vigora lá até hoje é burocraticamente centralizado baseado no modelo de partido único, estruturado em torno da figura do líder. Enfim, um modelo stalinista. Até mesmo o esquedista mais empedernido reconhecerá (se não for empedernido E maluco…) que o anacronismo norte-coreano tornou-se uma pedra no sapato de toda a região, inclusive de seu principal patrocinador, a China.  

Funciona mais-ou-menos assim: o regime da Coréia do Norte é formalmente uma “república popular” na qual o povo governa diretamente, através da Assembléia do Partido dos Trabalhadores da Coréia. A filosofia que estrutura as relações entre o governo e o partido é a mesma desde a independência, em 1947: o governo e seus órgãos e instituições são executores das linhas gerais e políticas estabelecidas pelo partido. Tudo isso gira em torno do chuch´e, aplicação do Marxismo-Leninismo à experiência revolucionária norte-coreana, com base na autonomia e soberania do povo coreano. A aplicação do chuch´, em resumo, colocava a total autonomia coreana como objetivo a alcançar, e sua ferramenta, o desenvolvimento de uma cultura socialista própria, em cujo centro está a figura do Grande Líder e “Presidente Eterno” (esta citada na constituição).  A aplicação do chuch´e deveria guiar a revolução de forma unificada e coordenada , num “movimento de equipe” em direção às revoluções político-ideológica e técnico-científica. Dominando o materialismo científico, fonte dessas revoluções, os “corpos superiores”, organizados no partido, supervisionam “corpos menores” (os funcionários do governo) cuja função é levantar as massas de trabalhadores para a revolução. Isso não passa do velho sistema stalinista de colocar comissários políticos em todos os níveis da sociedade, urbanos e rurais, agrícolas e industriais.

Essa linha de ortodoxia deve ser examinada em função da consolidação no poder de Nikita Krushev como líder da União Soviética. O movimento de desestalinização implementado pelo líder soviético era visto na Coréia do Norte com profunda antipatia. Nessa época Kim comandava um plano de reconstrução do país, lançado em 1954 e que buscava o “aprofundamento do socialismo”, com toda a estrutura econômica centralizada e coletivizada. Seguindo o modelo estalinista dos “planos quinquenais”  dos anos 1930, o planejamento foi centrado na indústria pesada e de armamentos. A partir do cessar-fogo de 1953, que não evoluiu para um tratado de paz, a Coréia do Norte manteve forças armadas desproporcionais à sua economia, optando por assumir a defesa do pais sem tropas estrangeiras, ônus que, na Coréia do Sul foi assumido, ao longo do restante dos anos 1950, pelos EUA.

Entretanto, a opção norte-coreana teve como conseqüência o aprofundamento da ortodoxia de Kim e seu afastamento da União Soviética. Krushvev começou a ser criticado como “revisionista” e “anti-marxista”. Entretanto, mesmo a aplicação estrita da chuch´e não impediu o surgimento, no interior do partido, de uma oposição à sua liderança. O resultado foi um expurgo que atravessou o ano de 1957 e eliminou qualquer oposição. 

O cisma sino-soviético a partir de 1962 levou a Coréia do Norte a posicionar-se ao lado da linha chinesa, mas sem nunca chegar a romper com os soviéticos. Kim via os chineses como pouco confiáveis, tendentes à dominação e economicamente ineficientes. A Revolução Cultural da segunda metade dos anos 1960 pareceu confirmar as desconfianças do “líder supremo”. A remoção de Krushev do poder, em 1964 abriu a possibilidade de um reaproximação com Moscou, já que a nova liderança demonstrava pouca disposição para criticar abertamente o passado. Enquanto a China mergulhava no caos, Kim tratou de reconstruir suas relações com o bloco soviético na Europa, aprofundando relações comerciais e econômicas. Nessa época tentou, com menor sucesso, aproximar-se de países do Terceiro Mundo, notadamente árabes e africanos.

Kim foi eleito, em 1966, secretário do PTC (cargo que exerceu desde o fim dos anos 1940, sendo periodicamente reconduzido). Em 1972, uma reforma política aboliu o cargo de primeiro-ministro, e criou o depresidente da república. Essa reforma unificou, em teoria, as esferas de controle do país, e Kim foi eleito para o novo cargo. Desde então, a tendêndia tem sido estreitar o controle do partido sobre todos os órgãos de admistração e economia. A partir de 1990 a predominância tem sido o absoluto controle do partido sobre todos os aspectos da esfera pública. A razão parece ser a influência que teve sobre a Coréia do Norte o colapso dos regimes socialistas e as mudanças de rumo da China, no que tange à economia.

O colapso do “socialismo real” e particularmente as mudanças de rumo na China parecem também ter alterado fortemente o rumo que, em 1980, Kim Il Sung tinha estabelecido para a Coréia do Norte com relação à Coréia do Sul. No diversas vezes adiado 60° Congresso do Partido, realizado entre 10 e 14 de outubro daquele ano, 3.220 delegados (os trabalhos também foram assistidos por 177 delegados de 118 países) reviram, debateram e endossaram, por solicitação do Comitê Central, relatórios do Comitê de Supervisão e de diversos outros órgãos centrais, cobrindo as atividades de praticamente todos os órgãos de governo ao longo dos anteriores dez anos.

No relatório dirigido à plenária do Congresso (em teoria, o órgão supremo de direção do partido), Kim Il Sung delineou uma série de objetivos e políticas para a década que se abria. Propôs o estabelecimento de uma “República Democrática Confederacional da Coréia”, como modo possível de alcançar uma convivência pacífica e independente entre as duas Coréias, até que se chegasse à uma fórmula mutuamente aceitável  de reunificação da península. Kim Il Sung também apresentou uma “política de dez pontos” para o futuro estado unificado e sublinhou que as Coréias deveriam buscar reconhecer e tolerar-se, em seus diferentes sistemas sociais; que o governo unificado central deveria admitir uma base paritária; que ambos os lados deveriam manter autonomia para governar as respectivas regiões, até que uma fórmula razoável unificasse os governos regionais respeitando o as especificidades locais, políticas e administrativas, incorporando cada partido, cada grupo e cada setor dos povos das duas Coréias.

Kim usou, então, pela primeira vez o termo “Três Revoluções” (ideológica, técnica e cultural), enfatizando objetivos que vinham sendo perseguidos desde o início dos anos 1960, com sucesso irregular. Em meados dos anos 1960, o fracasso dos EUA em conter a insurreição comunista no Vietnam do Sul levou Kim a imaginar se conseguiria fazer o mesmo na Coréia do Sul. O resultado foi uma política cada vez mais agressiva contra a Coréia do Sul, que levou a enfrentamentos que quase resultaram em outra guerra, cujos movimentos culminantes ocorreram em 1968 e 1969.

Ao longo da década, a aplicação da chuch´e tinha resultad em um desastre econômico. O regime, encurralado pelos freqüentes insucessos, chegou ao início dos anos 1990 numa situação de virtual isolamento internacional. Os gastos crescentes com as forças armadas (em1994 a Coréia do Norte tinha a quinto maior conjunto de forças armadas do mundo) sufocavam os outros setores da economia, que não apenas estagnavam como encolhiam. Nessa época Kim tinha decidido iniciar um programa de produção de energia nuclear com fins de produção de eletricidade e procurava alternativas para a crise norte-coreana acenando com uma paz negociada e aproximação com o sul, que, desde a década anterior, vivia um extraordinário surto de prosperidade. Seu filho mais velho, Kim Jong-il tinha sido indicado, na reforma de 1972, como seu sucessor, e aparecia como funcionário disciplinado do aparato do partido, encarregado do programa de energia nuclear e de parte da administração do governo.

Em 8 de julho de 1994 Kim Il-Sung morreu repentinamente, aos 82 anos. Após cerimônias fúnebres monumentais, que tomaram 8 dias, seu corpo, embalsamado, foi depositado em um mausoléu público.::