Um rapaz da Forças Especiais::Luís Alves de Lima e Silva::

Precisa dizer mais?

Não, mas digamos assim mesmo. O Duque de Caxias nasceu Luís Alves de Lima e Silva, em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, província do Rio de Janeiro (o lugar é hoje o pouco conhecido Parque Histórico Duque de Caxias, no município de Duque de Caxias). De uma linhagem de militares, seu pai, marechal-de-campo Francisco de Lima e Silva foi figura muito ligada ao Primeiro Reinado. Em 1808 o pequeno Luis Alves foi titulado Cadete de 1ª Classe – tinha então 5 anos de idade. Na época, isso não era nada de tão extraordinário, mas apenas uma forma da nobreza garantir vaga na carreira militar. O fato entrou para uma espécie de mirabilia militaris do futuro duque, forma de dizer – “nasceu para o exército”. Aos quinze anos, matriculou-se na Real Academia Militar, de onde saiu tenente, em 1821. Ao longo de sua carreira, mostrou-se tão hábil comandante militar quanto negociador político: participou ativamente das campanhas do Exército para pacificar a província do Maranhão, da qual foi presidente; em 1842 foi enviado com tropas do Império para as rebeladas província de São Paulo e de Minas Gerais, envolvidas na “Revolução Liberal”; foi chamado para pacificar a Região Sul do país, incendiada pela Revolta Farroupilha, a “Guerra dos Farrapos”. Em todos essas missões, mostrou-se negociador político sensato e sagaz: não humilhava os vencidos, visando sempre a conciliação, tendo em vista a unidade da formação política em construção, o Império do Brasil. Mas também era competente líder militar, que não hesitava em se colocar à frente de seus homens, como na batalha da Ponte de Itororó, em 6 de dezembro de 1868: “sigam-me os que forem brasileiros!”. Segundo Affonso de Carvalho, “…toda aquela massa que há pouco amolecera e se desfibrara sob a ação do pânico, readquire de súbito sua vitalidade e poder combativo…”; já Dionísio Cerqueira aponta: “…houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante…”. É claro, são exageros literários, mas a atitude de Caxias, que não era rara entre os militares de sua época, em todo o mundo, expressa a dedicação desses homens à carreira militar. Poderíamos falar muito sobre seu período no comando do exército em campanha no Paraguai, mas o talento do duque pode ser facilmente constatado em muitos livros e milhares de entradas na Internet.

Em sua homenagem, o dia de seu nascimento, 25 de agosto, passou a ser a data oficial do Dia do Soldado. Foi de Vargas a iniciativa de elevar Caxias à patrono do Exército, e colocá-lo a repousar, definitivamente, diante do quartel maior da força terrestre, desde sempre: o campo de Santana, no Rio de Janeiro. O fato é que a escolha foi tardia, e foi política, numa época em que Vargas procurava mobilizar símbolos da nacionalidade, e encontrou no duque uma expressão da unidade nacional. Até então, o “patrono informal de todos os soldados” era o marquês do Herval, Manuel Luís Osório, exemplo de soldado de carreira, cavalariano, homem do povo e liberal por profunda convicção. Caxias sempre foi homem do establishment conservador, último pilar do Império do Brasil, ao qual serviu dedicadamente por mais de 50 anos. Mas essa é outra história, e não denigre em nada a trajetória do marechal.

O visconde de Taunay,  major-engenheiro militar, autor do clássico “A Retirada da Laguna” descreveu os funerais do velho marechal, em 1880: “Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”.

O sociólogo Gilberto Freyre, tendo tido sua atenção chamada para o termo “caxias”, usado tanto por militares quanto por civis para definir alguém que não tergiversa diante de seus deveres, escreveu, sobre o assunto: “Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.” O jornalista Barbosa Lima Sobrinho encontrou no duque um  “Patrono da Anistia”, em função da sensibilidade política do marechal. O povo brasileiro ainda hoje continua usando a expressão no mesmo sentido analisado por Freyre. Uma coisa é certa: precisamos de mais “caxias” neste país::

Datas relevantes de causa:: Dois de fevereiro::

Houve noites tépidas ou manhãs claras, eu lembro. Mas não importa ao monstro. Ele é apenas dentes e morte, o cheiro do frescor não lhe causa espécie. O que olha são apenas os ossos a esmigalhar. (Isaak Bluhmnstein, 16 anos, morto em Stalingrado, ca. novembro, 1942)

Quase ninguém lembrou- o próprio redator ia esquecendo, mas no dia 2 de fevereiro, 66 anos atrás, entre as ruínas da cidade de Stalingrado, às margens do rio Volga, o fascismo entrava em curva descendente. Esse redator sem o menor talento literário poderia escrever outro texto analítico, mas certamente eles já existem por aí, melhores. Então… Rendamos tributo. E, nas entrelinhas, deixemos claro: não podemos esquecer!::

Carta a Stalingrado (Carlos Drummond de Andrade)

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!/ O mundo não acabou, pois que entre as ruínas outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,/ e o hálito selvagem da liberdade/dilata os seus peitos, Stalingrado,/ seus peitos que estalam e caem,/ enquanto outros, vingadores, se elevam.//A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais./Os telegramas de Moscou repetem Homero./ Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo/ que nós, na escuridão, ignorávamos./ Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,/ na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,/ no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,/ na tua fria vontade de resistir.// Saber que resistes./ Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes./ Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página./ Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena./ Saber que vigias, Stalingrado,/ sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos/pensamentos distantes/dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.// Stalingrado, miserável monte de escombros,/ entretanto resplandecente!/ As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio./ Débeis em face do teu pavoroso poder,/ mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,/as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,/ aprendem contigo o gesto de fogo./Também elas podem esperar.// Stalingrado, quantas esperanças!/ Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!/ Que felicidade brota de tuas casas!/ De umas apenas resta a escada cheia de corpos;/ de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança./ Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
trabalho nas fábricas,/ todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,/ mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,/ ó minha louca Stalingrado! // A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,/ apalpo as formas desmanteladas de teu corpo, / caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,/ sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?/ Uma criatura que não quer morrer e combate,/ contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,/ contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,/ e vence.// As cidades podem vencer, Stalingrado!/ Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga./ Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo./ Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.::

Regras de área, bombardeios estratégicos, armas atômicas e, no meio, um digno cidadão japonês::

Dias atrás, o redator em férias, lendo um jornal, de papo para o ar numa rede, com um chapéu de palha na cabeça e uma limonada na barriga (bem, a maior parte disso é exagero…) teve a atenção chamada para a notícia da morte de Tsutomu Yamagushi. Esse japonês é um dos heróis aqui do blogue, pois foi protagonista de uma das mais dignificantes histórias de vida dos tempos contemporâneos. Com o coração de luto (por sinal, a humanidade deveria estar de luto…), o redator ficou matutando sobre a insânia da guerra nuclear, a única guerra que não pode ter vencedores (apesar das afirmações contrários de anões amorais-homicidas como Curtis LeMay e Edward Teller). Largando o chapéu de palha e pondo a limonada na geladeira, correu então para a Internet, pois esse evento merece algumas considerações. Aproveitem!::

parte1A única pessoa oficialmente reconhecida como sobrevivente dos dois ataques nucleares contra o Japão, Tsutomu Yamagushi, morreu no último dia 4 de janeiro, de um câncer no estômago (ao que parece, não provocado pela exposição à radiação). A história desse japonês de 93 anos beira às raias do absurdo, e poderia torná-lo, a depender do ponto de vista, ou um dos maiores sortudos ou um dos maiores azarados do século 20. Em 5 de agosto de 1945, Yamagushi, engenheiro empregado pelo conglomerado Mitsubishi, então com 39 anos de idade, tinha chegado a Hiroshima por razões de trabalho. No dia seguinte, a cidade foi atacada (se você lê inglês, vale à pena dar uma olhada neste artigo; se não ler, também vale…) pelo B29 Enola Gay, do coronel Paul Tibbets. O japonês se encontrava a aproximadamente três quilômetros do centro da explosão, que o deixou gravemente queimado. Tendo recebido socorro médico, e considerado em condições de se locomover, resolveu, em 7 de agosto, retornar a Nagasaki, a uns 300 quilômetros de distância, onde residia e trabalhava. Dois dias depois, um grupo de aviões liderados pelo B-29 denominado Bock´s Car, lançou a segunda bomba – exatamente lá. No momento da explosão, Yamagushi, em um escritório localizado a uns quatro quilômetros do “marco zero”, narrava à sua equipe de trabalho como tinha sido a explosão nuclear em Hiroshima. Desta vez, ele não ficou ferido, mas a confusão que se espalhou na cidade acabou por impedir que recebesse atendimento médico para as queimaduras da explosão anterior. Os curativos reduzidos a farrapos e os ferimentos infeccionados quase lhe custaram a vida. Depois da guerra, Yamagushi aos poucos tornou-se um entusiasmado crítico da posse e uso de armas nucleares por todas as nações, chegando a escrever um livro sobre sua experiência. Em 2006, ele e outros “duplos sobreviventes” foram apresentados em um documentário, projetado em sessão solene, nas Nações Unidas. Após a projeção, Yamagushi pronunciou veemente discurso contra a existência de armas atômicas, que ele pediu que fossem totalmente abolidas e proibidas, para o “bem do futuro”.

O redator já conhecia a história de Tsutomu Yamagushi, que, nos anos 1960, chegou a ser considerado personna non grata pelo governo dos EUA. Sua cruzada contra as armas atômicas talvez não emocionasse estrategistas empedernidos nos EUA ou na União Soviética, mas tocava qualquer ser humano dotado de um mínimo de senso moral. Em suas entrevistas, dizia coisas como “A razão pela qual eu odeio as armas atômicas é o que elas fazer com a dignidade dos seres humanos.”

O que uma explosão nuclear faz “com a dignidade dos seres humanos” é exatamente reduzi-los a nada, a “megamortes”, unidade que corresponde a um milhão de mortos num prazo menor que 48 horas (para termo de comparação, a 2a GM provocou 55 “megamortes” em quase seis anos de matança). Como começou tudo isso? Em diversas oportunidades, as pesquisas de causa:: levaram o blogue perto de concuir que a humanidade é maluca. Digamos que estamos um pouco mais perto. Vejamos o motivo…::

Datas relevantes de causa::25 anos de democracia no Brasil e na Argentina

E eis que causa::  das férias… Os oito leitores, com certeza, já estarão com saudades desde… Desde… causa:: saiu de férias em 26 de dezembro do agora ano passado. Pouco tempo antes, o redator tinha aberto uma nova seção, chamada… Bem, como aí em cima. Mas janeiro marcou realmente uma data relevante – ou duas: em 15 de janeiro de 2010 completou-se um quarto de século desde a ascensão ao cargo de presidente da República do senador Tancredo Neves. Não é preciso lembrar de tudo o que aconteceu nos meses seguintes, mas a data, com certeza, tem de ser. É como dizia  comemorada. De lá para cá, nossa jovem democracia tem, suportada por toda a população, ido adiante. Como dizia Winston Churchill, a democracia é o pior dos regimes políticos, com excessão de todos os outros. Churchill sabia o que falava: quando lhe perguntaram se não tinha se apressado em oferecer apoio a Stalin e à URSS, após a invasão alemã, ele respondeu: “Se Hitler invadisse o inferno, eu teria algumas boas palavras para dizer sobre Satanás.” Não é preciso dizer o que pretendiam os fascistas.

Menos conhecido por aqui é o aniversário do final desmoralizante da ditadura terrorista implantada em 1976 sob o beneplácito dos EUA (bem, alguém se lembra de um regime de excessão implantado na América Latina sem o beneplácito dos EUA?..). Bem, pois em 10 de dezembro de 1983, os generais argentinos, após lançarem o país numa guerra de três meses, no ano anterior, contra a Inglaterra, então governada por Margareth Tatcher, esperando pelo apoio dos EUA… Bem… Curiosamente, o maior apoio acabou vindo mesmo da União Soviética (que passou a rastrear a esquadra britânica por via de satélites de reconhecimento) e a Líbia, que forneceu armamento e peças de reposição compradas com seus fartos petrodólares. Alguma ajuda da ditadura brasileira (menos terrorista, admitamos e com um general de fancaria como chefe de governo, mas… Ditadura é ditadura) também veio: empréstimo de aeronaves de vigilância (dois Bandeirulha P95A de vigilância marítima, equipados com um radar Eaton APS/AN-128 e vista grossa para os aviões de carga de Muammar el-Gaddafi que faziam escala no Brasil, a caminho da Argentina). Nada disso ajudou: depois de uma campanha muito bem organizada e dois meses de combates que custaram aos britânicos oito navios metidos a pique e mais de 700 militares, mortos a rendição foi o destino inevitável. Os militares argentinos bem que tentaram (inclusive com algumas demonstrações de coragem suicida por parte de pilotos da marinha e da força aérea), mas sabe como é: uma coisa é bater em gente amarrada, outra, muito diferente, é tentar bater em gente armada e que sabe se defender::

Datas de causa::7 de dezembro, 1941::

As datas de causa:: são comemoradas quando o redator lembra de alguma, relevante em termos dos temas abordados aqui no blogue. Pois é… Hoje de manhã, lendo a imprensa diária pela Internet (aquela imprensa não paga que agora os jornalões incompetentes querem cobrar), lembrei que, 68 anos trás, em 1941…::

Dia da Infâmia, ataque traiçoeiro, e tal. Mas, no ponto de vista de causa:: uma operação estratégica muito bem planejada, na qual o poder aéreo se consolidou como elemento integrante do poder naval. A fotografia, tirada no dia seguinte ao ataque, é simbólica: mostra dois contratorpedeiros, Downes e Cassin, da classe Mahan, e, ao fundo, o encouraçado USS Pennsylvania, danificado. Foram todos apanhados numa doca seca. O Downes foi atingido por uma bomba penetrante de blingagem destinada ao encouraçado, lançada por um bombardeiro de mergulho, e saiu do ataque tremendamente danificado; o Cassin sofreu menos. O Pennsylvania, com danos medianos, voltou para a Califórnia por seus próprios meios. Os norte-americanos sofreram uma tremenda pancada no saco e no ego, da qual levariam algum tempo para se recuperar. Mas para os japoneses foi pior: os navios-aeródromos de esquadra não estavam na base. O que ninguém (nem os japoneses) percebeu com clareza, é que encouraçados, dali por diante, não fariam muita diferença e, nos meses seguintes, e pelo resto da guerra, teriam muito pouca utilidade.::

É um bom dia para pensar::

O historiador P. D. Smith escreveu um livro que foi recentemente traduzido para nosso português, e tem sido a leitura de cabeceira do redator nos últimos dois meses: Os homens do fim do mundo. Leitura um tanto pesada, mas esclarecedora aobre as relações entre guerra e ciência. E também sobre as relações quase sempre ambíguas dos cientistas com os assuntos da guerra e da política. Sugiro uma olhada cuidadosa não só aos sete leitores (contadinhos…), mas a todos quanto estejam realmentei interessados em entender um pouco mais sobre os nós de nossa modernidade. Em seguida, uma pequena amostra, selecionada de modo a também comemorar o fim da primeira matança industrial da história, que pudemos comemorar dois dias atrás – 11 de novembro, 1918::

Nenhum tiro foi disparado … um número considerável de russos envenenados pelo gás … jaziam deitados ou retorcidos, em condição lamentável. Senti-me profundamente envergonhado e perturbado. Afinal de contas, também sou culpado por essa tragédia. Otto Hahn, citado por P. D. Smith, p. 112.

Nunca esquecerei o que vi em Ypres, depois do ataque a gás. Homens caídos ao longo de toda a estrada entre Poperinghe e Ypres, exaustos, ofegantes, limpando um muco amarelo de suas bocas, com os rostos azuis e atormentados. Era horroroso, e era tão pouco o que podíamos fazer por eles. Nenhum texto de nenhum livro que eu tenha visto descreve, ou sequer chega perto, do horror daquelas cenas. Você saía daquele lugar com vontade de ir imediatamente ao encontro dos alemães para esganá-los, para que eles pagassem de algum modo pela sua ação diabólica. Melhor a morte súbita do que aquela agonia horrível. G. W. G. Hughes, tenente-coronel, Corpo Médico do Exército Britânico, citado por P. D. Smith, p. 117.

Como se fosse sob um mar verde/ Nos meus sonhos, diante de minha vista impotente/ Ele me procura, engasgado, soluçando e se afogando. Wilfred Owen (poeta-soldado, morto em ação na batalha do rio Sambre, 4 de março de 1918) Dulce et Decorum est, citado por P. D. Smith, p. 115.

Primeiro surpresa; em seguida, medo; depois, quando os primeiros flocos da nuvem os envolveram, deixando-os asfixiados e em agonia por não poder respirar – pânico. Os que conseguiam mover-se tratavam de escapar e de afastar-se, em geral em vão, da nuvem que os seguia inexoravelmente. Samuel Auld, químico, major do exército britânico, autor de um livro clássico sobre armas químicas, descrevendo um ataque com gás de cloro, na Frente Ocidental, em 1915, citado por P. D. Smith, p. 115.

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Dragões da Independência::

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É quase terça-feira, mas ainda é Sete de Setembro. Vocês lembraram? causa:: é, digamos, um recurso de pesquisa que se orgulha de sua Pátria, embora isso não signifique ignorar os problemas e as vicissitudes – que, todos sabemos, não são poucos. Mas, como diz o historiador Benedict Anderson, “o nacionalismo é como um corpo saudável, e ter uma nacionalidade é considerado tão natural como ter um nariz”. O redator concorda, e acrescentaria que Pátria é a soma dos valores da Nação com o sentimento individual de pertencimento. Em Sete de Setembro, nós, brasileiros, deveríamos comemorar a esperança em um futuro comum, e para cada um de nós, melhor do que o presente::

É curioso que os militares, em geral, parecem considerar-se mais “patriotas” do que o resto de nós. Por outro lado, muitos de nós, civis, parecem achar que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas“. Nem uma coisa, nem outra. A confusão, de ambos os lados, vem de que, de fato, todos conhecemos mal nossa história, e quando conhecemos, é uma “versão oficial” qualquer. A história, quando na “versão oficial” (aquela cheia de nomes, datas, batalhas, homens sérios, etc, etc), é um abrigo seguro e confortável para algumas certezas – que de certas, não tem nada. Por certo, conhecer a história que foi vivida, aquela cheia de luta, trabalho, construção, discordância, vitória, derrota – ou seja, aquela de que as pessoas, militares e civis, são os atores – é o melhor caminho para derrubar abrigos e certezas. A história mostra que, se não forem pertencimento e responsabilidade comum, o passado nunca é o que parece e o futuro, apenas incerto.

E já que estamos falando no assunto, vamos apresentar a tropa histórica do Exército Brasileiro – o 1° Regimento de Cavalaria de Guardas, também conhecido como “Dragões da Independência”. Os leitores de causa:: (os cinco, contadinhos…) já sabem do que se trata um “dragão”(um soldado de cavalaria ligeira). O que os leitores de causa:: não sabem (mas logo irão saber) é que uma coisa não tem nada com a outra.

Em 1820, quando as Cortes ordenaram a volta do então regente D. Pedro a Portugal, os grandes proprietários de terras do Rio de Janeiro resolveram recrutar uma milícia. Com aproximadamente dois mil homens, se destinava a enfrentar qualquer tentativa das autoridades portuguesas de embarcar o príncipe à força, para a Europa. Nos tumultuados meses em que a autoridade portuguesa começou a ser fortemente contestada e a região das províncias de São Paulo e Minas Gerais, entrou em estado de quase-sedição, o grupo acompanhava o futuro imperador do Brasil conforme ele tentava apagar os incêndios políticos que estouravam por toda parte. Em maio de 1822, uma revolta  na região de Sorocaba ameaçava descambar em levante, e D. Pedro se abalou para lá, acompanhado por uma escolta a cavalo que se autodenominava “Leais Paulistas” e “Leais Mineiros”. Era o grupo que tinha trazido para o Rio os tais dois mil milicianos. Homens muito ricos, proprietários de escravos e comerciantes com grandes interesses econômicos no Rio de Janeiro, podiam despender dinheiro para recrutar tropas e comprar armas. Esses “leais” passaram, após esse episódio, a se  denominar a “Guarda de Honra”.

Foi durante essa viagem que D. Pedro recebeu a conhecida carta das Cortes, e resolveu separar o Brasil de Portugal. Em dezembro de 1822, a “Guarda de Honra” transformou-se na “Imperial Guarda de Honra”. Só que não era uma unidade militar, mas uma tropa civil, na qual o serviço era temporário. Nada tinha com o exército regular (a tropa paga pelo governo). Os componentes, sendo grandes proprietários  em seus locais de origem, eram oficiais das tropas de milícias e, assim, conservavam o posto. Muito provavelmente, queriam distância da tropa regular. O uniforme e o equipamento foram desenhados pelo artista francês Jean-Baptiste Debret (também autor da bandeira nacional) e era pago pelo aspirante a guarda. A cor da farda, o branco, foi homenagem à imperatriz Leopoldina, arquiduquesa da Áustria; o capacete, de modelo bávaro, mostra não um “dragão”, mas um grifo, símbolo da Casa de Bragança, à qual pertencia o imperador e foi adotado por ocasião de seu segundo casamento.

É preciso chamar atenção para o fato de que a “Guarda de Honra”, no episódio do “Grito”, não estava fardada do jeito que aparece no quadro “Independência do Brasil” – assim como D. Pedro não usava a “jaqueta curta” e calças de montaria – por sinal, os cavalos também não eram cavalos árabes (que, naquela época, nem existiam no Brasil). Foi tudo imaginado por Pedro Américo, quando fez a pintura, em 1882. A “Guarda de Honra” foi dissolvida em 1832, pouco após a abdicação de seu inspirador.

Já o Primeiro Regimento de Cavalaria de Guarda tem origem em 1763, com a instituição do Vice-Reino do Brasil. Nessa ocasião, foram constituídos os Esquadrões de Cavalaria de Guarda do Vice-Rei, estes uma tropa paga regular, ou “tropa de linha”, como se dizia na época, com sede no Rio de Janeiro. Em 1808, essa unidade foi núcleo do Primeiro Regimento de Cavalaria do Exército, aquartelado na capital. Essa unidade existiu ao longo de todo o Império do Brasil. Um destacamento dela acompanhava D. Pedro, no episódio do Ipiranga.

Em 1824, a unidade teve seu designativo mudado para Primeiro Regimento de Cavalaria de Linha. Seu batismo de combate foi na batalha de Passo do Rosário, em janeiro de 1826. Nesse encontro, no qual teve a “honra” de não debandar, como aconteceu com a cavalaria gaúcha de milícias, o “Primeiro de Cavalaria” foi quase dizimado. Em 1831, o “Primeiro de Cavalaria” foi reunido com o “Segundo de Cavalaria”, este sediado em Vila Rica, formando o Primeiro Corpo de Cavalaria. Em 1839, com o exército já drasticamente reduzido em efetivos, passou a denominar-se Primeiro Regimento de Cavalaria Ligeira. Tinha uns 800 efetivos, comandados por um tenente-coronel.

Em 1889, o “Primeiro de Cavalaria Ligeira” passou a ser designado Primeiro Regimento de Cavalaria, e, em 1908, mudou de novo, para Primeiro Regimento de Cavalaria Independente (o que nada tem com a Independência…). Mas o nome não pegou, e, em 1915, voltou ao de antes.

Em 1916, o escritor-deputado Gustavo Barroso (dentre outras coisas, criador do Museu Histórico Nacional e, com Plínio Salgado, de uma versão nacional do fascismo europeu chamada “integralismo”) começou uma campanha para que o Exército criasse uma “tropa histórica”. A idéia não passou na Câmara dos Deputados, mas, em 1936, Getúlio Vargas, interessado em criar símbolos nacionais que referissem um passado idealizado, adotou a idéia, e fez com que o Exército passasse a designar o “Primeiro de Cavalaria” com o título honorífico de “Dragões da Independência”. Essa unidade passou a envergar, em paradas e solenidades, o uniforme da Imperial Guarda de Honra, um pouco modificado. Mesmo que uma coisa não tenha nada a ver com a outra…::