A batalha do Rio de Janeiro::Observações depois da ocupação::

Passada a novidade da “batalha do Rio de Janeiro”, ou “Segunda Batalha de Itararé” (como o blogue prefere chamar tão grandioso evento), a vida no Complexo vai voltando à normalidade. Sábado passado um pequeno grupo de turistas apareceu por lá, liderados por uma artista plástica do Espírito Santo. Bom sinal – parece que as pessoas estão passando a ver o Complexo como mais outro lugar. Aliás, a semana passada foi repleta de bons sinais, visto que o Estado parece ter chegado ao local para não mais sair – e conta com a confiança da população local. Então é tempo de convocar os planejadores: senhores, chegou a hora do planejamento – das ações de médio e longo prazo. De qualquer forma, tão simbólico quanto a bandeira nacional drapejando no local mais alto da região, foi a implantação de placas de rua e códigos de CEP, o que significa que  a enorme área, que reune quase oito por cento da população da cidade, foi finalmente incorporada ao município. Algum tempo atrás, eu tinha dito, aqui mesmo no causa:: que a região precisava de um “banho de política”. Uma coisa exatamente assim. Aliás, um banho dado inclusive pela COMLURB, que parece que não tinha permissão de entrar lá…

Surge também o projeto de uma “Força de Paz” (FPaz – milico adora essas siglas…), visando colocar a presença do Exército em apoio às ações policiais, até a instalação da UPP local. A doutrina seria baseada na grande experiência do EB e da Marinha em forças internacionais de emergência, como a que atualmente está aquartelada no Haiti. A idéia é controversa por vários motivos. Dois são os principais.

Intelectuais locais, ligados às ONGs de fomento à cidadania e às universidades, não vêem com bons olhos o engajamento do EB em missões de segurança interna. Não deixam de ter certa doze de razão. Rubem Césas Fernandes, um dos coordenadores da superong “Viva Rio”, atualmente instalada em Port-au-Prince, diz que à atuação dos militares precisa corresponder uma forte supervisão civil. Segundo ele, no Haiti a presença de organizações internacionais fortemente apoiadas pelos governos de seus países de origem e pela ONU é um contrapeso à atuação militar, que frequentemente extrapola. Segundo Fernandes, no Rio de Janeiro a maioria dos formadores de opinião tende a achar que defender direitos humanos é defender bandidos, então a tal supervisão tenderia a ser menos incisiva. Chego a concordar com esse antropólogo. As atitudes militares não poucas vezes acolhem comportamentos que deveriam ser encarados como desvios comportamentais – veja-se, por exemplo, o sargento que, sem motivo algum atirou em um civil, num aparente acesso de fúria motivado pela simples presença, à vista de um quartel, de um homossexual; uns dois anos atrás, um segundo-tenente temporário, aparentemente para mostrar autoridade, entregou um grupo de adolescentes a um traficante de drogas, que prontamente os executou. Dias depois, chorando copiosamente, o oficial declarou “não saber por que tinha feito aquilo”. Não que os cidadãos pobres estranhem a violência em seu cotidiano, e boa parte dos desmandos da Polícia Militar deve-se à uma ideologia de que todo pobre é um bandido em potencial. As PMs, pelo Brasil todo, têm poucos oficiais e as frações (o policiamento é feito por pequenos grupos de homens) são geralmente comandadas por graduados. Os oficiais saem pouco dos quarteis, não andam junto com a tropa e fazem política de baixo nível num grau incomparavelmente mais alto do que nas FAs. 

Talvez oficiais superiores, em campo, pudessem manter a tropa sob controle estrito, mas resta saber se majores e tenentes-coronéis estariam dispostos a comer poeira e deitar suor nas vielas do Alemão… Por outro lado, os comandantes militares têm manifestado preocupação com a extensão do tempo da presença militar no local, dada a possibilidade de contaminação dos efetivos do EB e da Marinha pelo contato com policiais corruptos – e embora não tenha sido dito, inclusive (e talvez principalmente) da oficialidade. Essas preocupações não parecem totamente infundadas: a Polícia Civil do Rio começou, afinal, ontem (4 de dezembro) a investigar a denúncia de que o traficante “Polegar” (ex-chefe do tráfico no Morro da Mangueira, que estava refugiado no Complexo do Alemão) foi retirado (ou “extraído”, no jargão militar) do local num carro descaracterizado da Polícia Civil. As notas publicadas nos jornais não deixam muito claro como a coisa aconteceu, mas a Corregedoria da Polícia do Rio de Janeiro apressou-se em desmentir a informação. A questão é: até que ponto as FAs estarão imunes à corrupção?

A convivência promíscua entre polícia e criminosos não é novidade e nem característica do Rio de Janeiro. No mundo inteiro, policiais lançam mão de contatos que fazem no submundo para obter informações que lhes permitam antecipar os movimentos do crime. O recurso aos informantes – alcaguetes, “caguetes”, “x-noves”, “orelhões”, como são chamados na gíria policial – é parte da atividade policial em todos os países do mundo, e implica desde pequenas recompensas a esses criminosos até a chantagem. O problema é quando setores da polícia começam a se aliar a setores do crime organizado, e a situação se inverte: policiais corrompidos começam a informar o crime organizado sobre os movimentos da polícia.

É interessante observar que, na operação da Vila Cruzeiro, os traficantes devem ter recebido informações internas, visto que tiveram tempo de preparar o terreno para reter as unidades especiais da PMERJ, e chegaram a conseguir inutilizar um dos “Caveirões” do BOPE. Está certo que o *”Caveirão” não é um veículo militar, mas uma espécie de carro-forte adaptado para transportar um “grupo de ações táticas”, nome que, no BOPE, recebem as esquadras de policiais militares especialmente treinados e equipados. Mas é uma improvisação. O “outro lado”, ou seja, o tráfico, também conta com alguns elementos que receberam o excelente treinamento das unidades elite das FAs brasileiras: páraquedistas e fuzileiros navais. Esses militares são, em muitos casos, moradores de comunidades carentes, tentam conseguir uma carreira profissional estável nas FAs. Acabam dispensados, na maior parte dos casos, depois de 4 anos de serviço ativo, caso não conseguir passar num concurso interno para cabo ou num concurso aberto para graduado. Os jovens soldados, sem emprego e sem o suporte moral da corporação (que faz enorme diferença), ficam totalmente vulneráveis ao canto de sereia do dinheiro fácil.

Assim se justifica a preocupação das autoridades militares. “Recrutados” pelo crime organizado, ex-militares das tropas pára-quesdistas cuidam da segurança dos chefes e dos locais onde acontece o “movimento”. Não são incomuns as informações sobre apreensões de cadernos com esquemas de táticas de retardamento e retração organizada, bem como de montagem de armadilhas e instruções para o uso de armamento. Esses cadernos são escritos por pessoal militar “recrutado” pelo tráfico, e é assim que os criminosos aprendem como lidar com as forças de intervenção da polícia militar. Pode parecer muito impressionante, mas não é (a não ser para o sensacionalismo da imprensa): o que normalmente acontece é que os “soldados” do crime organizado postos à disposição dos “instrutores” não são sequer milicianos. Carecem de qualquer idéia de disciplina e não têm nenhuma cadeia de comando. São apenas marginais armados, e o treinamento deles limita-se a como municiar e disparar uma arma.

A não-contaminação das FAs e dos setores superiores das forças de segurança fica meio evidente (para nosso alívio) no fato de que os criminosos não pareciam esperar a intervenção das VBTP do Corpo de Fuzileiros Navais. A intervenção foi resultado de uma negociação, em plena crise, entre o governo estadual e o Comando da Marinha Brasileira, na qual o governador interviu pessoalmente. A negociação foi rápida e a Marinha respondeu com rapidez, lançando mão das guarnições que, em qualquer quartel militar, ficam sempre em serviço. Seis M113A3, dois *Carros-lagarta Anfibios (CLAnf, no jargão da MB) de 25 toneladas e três VtrBldEsp SR 8X8 MOWAG “Piranha IIIC“, com as respectivas guarnições e equipes de apoio, integrantes da Divisão Anfíbia (principal unidade do CFN/MB, com escala de brigada reforçada) foram transportados de seu quartel na Ilha do Governador e lançados diretamente no “teatro”. A surpresa observada entre os criminosos indica que estes não contavam com a intervenção militar, não sabiam como confrontá-la e nem tinham armamento adequado. Os militares tinham instruções para não intervir na operação da PMERJ, a não ser que a integridade das viaturas fosse diretamente ameaçada. O armamento orgânico das viaturas M113 e CLAnf, a *metralhadora Browning M2 .50 (12,7 mm) é considerado capaz de opor qualquer viatura militar não protegida, com proteção leve e pequenas aeronaves; no caso dos “Piranha”, a arma orgânica  é uma metralhadora FN Herstal 7.62.

A utilização dos blindados correspondeu à doutrina de lançamento de esquadra de infantaria em teatro tático. Entre nove e onze policiais militares do BOPE (um grupamento de ações táticas), com armamento completo foram conduzidos até o ponto focal e lá desembarcaram. Durante a busca por posições de fogo, se beneficiaram da massa do blindado como proteção. A VBTP permanecia durante alguns instantes no local e em seguida se retirava, para dar passagem a outra, trazendo um novo “grupo tático”. Uma vez consolidada a posição, os blindados retornavam ao ponto de reunião para lançar grupos táticos em novas posições. Em ação de deslocamento, os blindados se lançaram contra obstáculos deixados pelos “combatentes adversários” (vamos chamá-los assim, com alguma condescendência…). Depoimento de militares do CFN dão conta de que, em pelo menos três oportunidades, pequenos veículos foram esmagados pelo peso das viaturas. Um dos motoristas declarou que em momento algum houve oposição que pudesse ser considerada relevante, e os criminosos eram vistos fugindo pelas vielas, em muitos casos abandonando armas e pertences pessoais, além, claro, das enormes quantidades de drogas que não puderam ser deslocadas em função do volume. Os policiais militares, uma vez desembarcados, não tinham nenhuma dificuldade em consolidar posição e progrediam de maneira escalonada pelo terreno (grupos de 3 elementos avançavam, cobertos por um atirador que buscava a melhor posição de fogo), usando os próprios meios.

Os traficantes teriam alguma forma de oposição eficaz? A resposta é um redondo “não”. Segundo depoimento de militares das tripulações das viaturas, disparos de armas leves atingiam a chapa frontal das VBTPs M113, e pelo menos três granadas de mão foram lançadas, mas apenas uma chegou a explodir. As “bazucas” encontradas pela polícia não eram ameaça, de fato. Por sinal,  “bazuca” é uma denominação inapropriada para indicar o armamento encontrado. O que foi mostrado são duas categorias de armas bem diversas. A primeira é um lança-rojão , ao que parece  modelo M67 de 90 mm (é possível comparar as duas fotos). A reportagem da TV Globo, para variar, dá um monte de informações disparatadas e sensacionalistas, comparando essa arma a um canhão de 90 mm (são coisas completamente diferentes). Esse tipo de lança-rojão já foi descontinuado no EB, substituído por um modelo mais moderno, de origem sueca. É muito pouco provável que houvesse munição para ele (os tais “rojões”, um foguete chamado, pelos especialistas, “de carga oca”) e, mesmo que houvesse, provavelmente estaria fora de validade, visto que tem de ser armazenada em condições altamente controladas. E mesmo se a munição estivesse válida, é muito provável que a arma na hora do “vamuvê” negasse fogo: o disparo de um lança-rojão depende de um pulso elétrico obtido de uma bateria (um tipo de pilha); caso essa bateria não esteja instalada ou esteja descarregada, o disparo não acontece nem por vontade divina. A *segunda arma é um *M72 LAW (Light Anti-tank Weapon), armamento já retirado de serviço no Exército dos EUA, e que nunca fez parte do inventário das FAs brasileiras. Pelo que é possível entender da foto, a arma não deve ter mais o rojão, pois caso ele estivesse lá dentro, o risco de disparo acidental pelo policial que a demonstra seria muito grande (observe o diagrama – o PM está com a coisa armada). Como se trata de um “pacote descartável” (pode ser lançado fora depois de usado, embora seja possível recarregá-lo), é provável que tenha sido roubado ou comprado de um colecionador.

Entretanto, as fotos do armamento apreendido após a ocupação do Complexo do Alemão são *realmente preocupantes. Isso porque boa parte dos fuzis automáticos visíveis (em meio a muita porcaria, como armas de colecionador, armas claramente danificadas e peças de armas) são, na maioria, os FAL FN Herstal, arma padrão do Exército Brasileiro.  Parece que também foi apreendido um HK G3, arma da infantaria da aeronáutica. São pouco notáveis (eu, pelo menos, contei quatro) os AK47, e também se conta algumas carabinas Colt AR15. Digo “preocupente”, e muito, pois os FAL devem estar saindo dos quarteis militares, roubados ou comprados de efetivos do EB e da própria polícia (nos últimos anos, milhares dessas armas foram transferidas das FAs para as polícias militares e civis). 

É preciso que essas coleções de armamento apresado sejam estudado (e deve estar sendo)  com cuidado pela inteligência policial e das FAs, e que se apure a procedência, o que irá determinar se o contrabando é realmente considerável. Eu apostaria que talvez ainda seja para armas curtas. Mas também apostaria que a maior parte desses itens deve vir mesmo das indústrias locais, Taurus e Rossi, que fabricam excelentes pistolas semi-automáticas e revólveres, que podem ser desviados ou roubados aos magotes. O controle da distribuição de armas é realmente uma necessidade, apesar da controvérsia que sempre desperta, e as campanhas de “entrega voluntária” devem continuar::

A batalha do Rio de Janeiro::The show must go on::

Acabo de escutar no rádio que a entrada das forças policiais-militares no Complexo do Alemão começou hoje, e está acontecendo sem resistência. Parece que a “batalha do Rio de Janeiro” se encaminha para o fim. Segundo um oficial superior da PMERJ, do estado-maior da operação, estão empenhados em campo uns dois mil homens, força com o efetivo de três batalhões de infantaria motorizada leve (caso somemos, apenas para termo de comparação, policiais militares – por volta de 600 –, fuzileiros navais – uns 100 –, pára-quedistas – uns 800 – e policiais civis estaduais e federais – uns 600), apoiada por elementos aéreos. Ainda não se sabe se os criminosos, diante do deslocamento das forças do Estado e sua exibição de poder, abandonaram suas “armas pesadas” e apelaram à maior vantagem de que desfrutam: são, em boa parte, membros daquela comunidade e se ocultam em meio a ela. Estão, como dizia Mao Zedong, “como peixes dentro d´água”. Respeitemos, entretanto, o inventor das modernas táticas de guerrilha. Quem ler a carta de Mao, escrita em 1920, verá que ele fala o tempo todo de organização política. Guerra revolucionária é um fato político. Não é o caso do Rio de Janeiro. De fato, qualquer um que saiba do que fala não tirará conclusão diferente.

Ou seja: o “crime organizado”, investindo num confronto direto com o Estado, encontrou seus limites – bastante estreitos, diga-se de passagem. Não poderia ser diferente: como vimos no posto anterior, trata-se tão somente de uma turba de pés-rapados com armas longas, elevados à condição de “inimigos do Estado”. Como puderam chegar lá? A fórmula não poderia ser mais simples: três décadas de inércia e inépcia de todos os níveis de governo, absoluta falta de políticas públicas para amparar os setores mais desassistidos da sociedade, militarização da segurança pública e o sensacionalismo, por vezes irresponsável, da imprensa.

Esse sensacionalismo parece ter culminado com a exibição, em repetições intermináveis, das cenas, filmadas de um helicóptero, da fuga do “exército do tráfico”. Não havia o que analisar: eram apenas marginais armados, sem nenhum grau perceptível de organização ou disciplina, correndo para salvar a própria pele. Foi curioso (e, como sempre, irritante), ver a locutora global Fátima Bernardes tentando forçar o capitão reformado da PMERJ e analista de segurança Rodrigo Pimentel a encontrar naquela cena incompetência por parte das autoridades policiais e militares. Não conseguiu. E então, tome-lhe a repetição, ad nauseam, da mesma cena.

Todos que lêem causa:: regularmente (os – agora – dez assíduos, bem contados), sabem que moro em Belo Horizonte, depois de uma vida passada entre Rio de Janeiro e Petrópolis. O que talvez não saibam é que foi uma vida que passava diariamente em frente às favelas do Complexo do Alemão; uma vida olhando os campos de futebol, pistas de atletismo, escolas públicas, pracinhas, pequenas lojas. Me chamem de idiota, mas eu achava estranho ver pessoas, de manhã cedo, praticando jogging numa pista fronteira à Linha Vermelha. Favelado também se preocupa com a barriga?.. Pois é, aquilo não era “outro mundo”: eram cenas absolutamente comuns, até um pouco bucólicas. Foi um de meus encontros mais brutais com a realidade da ideologia. Tenho pensado muito nisto, nos últimos dias.

Deslocado para Minas, continuo carioca como era quando vivia em Petrópolis: sem nenhum entusiasmo. O Rio de Janeiro é minha cidade, para bem e para mal, só que, agora, à distância. Continuo consumindo muita informação sobre a cidade, mas pelo rádio, já que nem sempre tenho tempo para os jornais, e, depois do segundo turno da batalha de 2010, exige cada vez mais paciência aturar o PIG.

A batalha do Rio de Janeiro tem chegado até mim via rádio CBN, televisão, jornais e Internet, nessa ordem. Curioso: a mais antiga das mídias eletrônicas é ainda uma ótima fonte de informação. Os jornalistas “de campo” e “de redação” da CBN, que escuto via Internet, enquanto escrevo, parecem mais objetivos (não digamos “imparciais” – seria dizer besteira) que seus colegas da imprensa escrita e da televisão. Deve ser impressão, eu penso, mas parecem lidar com a informação de modo mais direto e, aparentemente, com menor distorção.

Em comparação, as imagens produzidas pela Rede Globo parecem saídas de um filme – na última quinta-feira, foi impossível não pensar em um filme. “Tropa de elite 3”? “A transmissão ao vivo e sem comerciais para o Rio de Janeiro da operação da polícia fluminense no Complexo do Alemão, uma espécie de Tropa de Elite 3, está rendendo muito ibope para a Globo” observou o jornalista Lauro Jardim, no dia da escalada militar, quinta-feira, 25 de novembro.

Ainda mais interessante foi o jornalista Merval Pereira. O dito gastou as duas mil palavras de sua coluna diária, que intitulou “Capitão Nascimento”, para desfiar um discurso incompreensível ao longo do qual disse não saber se o fato do “capitão” ter se tornado herói nacional ser “um bom sinal”. A coluna foi replicada dezenas de vezes, em dezenas de blogues conservadores. Não era possível entender direito o que jornalista pretendia dizer. Surpreendente: afinal, um renomado especialista em encontrar defeito e má-intenção em tudo que o governo federal faça ou deixe de fazer deveria conseguir ser mais direto. A explicação para a aparente paralisia verbal do MP, entretanto, estava clara: não só ele, mas a imprensa toda pisava em ovos, em função do aparentemente inesperado fato de que as autoridades estaduais (argh!), com apoio das federais (arghhh!!) estarem fazendo exatamente o que todos eles sempre reivindicaram, em situações do gênero: tomando uma providência (arghhhhh!!!), e pior ainda, com amplo apoio da sociedade.

Não vou esmiuçar o texto, cheio de contradições: ora a situação é grave, ora o tráfico é “poderoso”, ora a reação da polícia “deu a sensação de ter sido bem coordenada”, ora “a realidade lá fora mostrava uma cidade apavorada”. Mas… Lá fora onde, cara-pálida? Fora dos estúdios da Rede Globo? Possivelmente: a realidade “real” estava na tela da Globo, onde “tudo era mostrado ao vivo pelos helicópteros das televisões, que deixaram os telespectadores espantados com o poder de fogo dos bandidos, e a quantidade de pessoas envolvidas nessa guerra”. Segundo Merval, essa “realidade real” não estava nos planos do governo, que acabaria por render-se à evidência de que não pode com o tráfico. Pelo menos não este governo…

Mas havia o fator “apoio a eles”, então… Como meter o pau sem meter o pau? Claro, não pegaria lá muito bem falar mal do governo-estadual-incompetente-apoiado-pelo-governo-facção-federal-criminoso-que-nos-roubou-a-eleição. Mas se podia tentar, desenhando idas e vindas, nas quais a cada aparente elogio (“é preciso apoiar a ação do governo”) corresponde distorção igual e diretamente contrária (“mesmo que a Secretaria de Segurança não planejasse a ocupação da Vila Cruzeiro, ela se tornou inevitável depois que a TV Globo mostrou aquelas imagens…”). Ao fim e ao cabo, Merval não parece ter sido muito bem sucedido na tarefa de engarrafar fumaça, e, no dia seguinte (sábado), com a expectativa da “batalha sangrenta” contra 600 “criminosos armados” nas vielas do Complexo do Alemão – que infelizmente não aconteceu –, o “vibrante” resolveu soltar alguns de seus cachorros mais ferozes.

Mas tenho de agradecer ao MP (algum dia ainda vou fazê-lo pessoalmente): foi graças a ele que lembrei do livrinho magnífico do Guy Debord. Este artista (inventou os “itinerários afetivos”), crítico de arte e filósofo, morto em 1994, publicou, em 1967, um estudo intitulado “A sociedade do espetáculo” (o livro todo está na Internet – podem deixar para me agradecer depois…). Trata-se de uma obra complicada, toda escrita em forma de aforismos (ou “teses”, como diz ele). Na minha opinião, aquele que melhor sintetiza a idéia geral de Debord está logo no início e tem o número 2: “As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.”

Escutei, ontem, o comandante da PMERJ incitando os bandidos a se entregarem. Aplausos: bandido tem de ser preso. E ponto. É exatamente o que tenho dito, em algumas oportunidades, aqui no causa:: Hoje de manhã, o encarregado de relações públicas da corporação, tenente-coronel Lima Castro, continuava a convidar os marginais a se entregar. É curioso: aquilo que deveria ser decorrência – a autoridade emanada do Estado – acaba adquirindo uma espécie de aura de espetáculo. Declarações, embora pertinentes, de autoridades e especialistas de todos os graus, acabam parecendo bombásticas. A cobertura da imprensa transforma a re-imposição da autoridade do Estado sobre uma região do território nacional formal em mero espetáculo, sucessão de cenas dramáticas: tanques, tiroteios, helicópteros em manobras rasantes, gente ferida, armas em profusão. E o apoio da população, fato reconhecido pelo capitão da reserva da PMERJ e professor univeristário Paulo Storani – além de diversos outros – como “algo inédito em trinta anos”.

Se levarmos Debord em consideração, esse lado “espetáculo” da “batalha do Rio de Janeiro” era para ser esperado, visto que “… toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” A realidade se transforma em encenação, e autoridade do Estado só pode ser vivida através de um espelho. Não basta mais o tal “monopólio da aplicação da força”, de que falam os cientistas políticos, uma das bases do estado moderno, é preciso que essa condição seja um espetáculo. O espetáculo, ao mesmo tempo que é instrumento de unificação, é também relação entre os agentes sociais, que estabelecem relações através de imagens. O espetáculo é, ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente, e sendo projeto-resultado, repete-se de forma perene. O espetáculo cria sua própria condição de existência: “a liberdade ditatorial do Mercado temperada pelo reconhecimento dos Direitos do homem-espectador.”

Ou seja – a partir da tela da Globo se institui a “realidade real”, aquela “lá fora”. Mas se as imagens, “o espetáculo em geral”, não forem bem absorvidas, surge a imagem-da-imagem (resultado-projeto e projeto-resultado). A imagem-da-imagem não precisa ser explicada: está nas manchetes garrafais e fotografias sensacionalistas. Foi assim que o “vibrante matutino”, nosso bom e velho “O Globo”, tornou o TBP M113 o principal personagem do evento.

O interessante é que as reportagens nem mesmo chegavam a dar detalhes corretos sobre os veículos, que chamam, genericamente, de “tanque”. Faz diferença? Claro que não. O que importa são as imagens. As pessoas fotografavam a passagem das colunas blindadas em miniatura, como se quisessem perenizar o espetáculo. Até mesmo os intelectuais pareceram se entusiasmar com a imagem-da-imagem. O professor Viktor Izeckson (organizador de um ótimo livro sobre as forças armadas brasileiras), levou seu entusiasmo ao ponto de comparar a tática do BOPE à Blitzkrieg alemã. Claro, uma Guerra-Relâmpago tupiniquim jamais poderia ser um avatar da competência germânica. Segundo o professor Izeckson… “A Blitzkrieg iria além dos pontos e isolaria aquele ´exército´ (os traficantes) de maneira super-rápida. Ela deixaria bolsões de resistência, que seria aniquilados. A idéia é que parte do seu efetivo passe à frente do inimigo e a outra parte se mantenha avançando dentro do território.” Em português claro: a mini-divisão panzer carioca fez uma ofensiva de fancaria e deixou os criminosos escaparem.

Mas que seja – se as pessoas gostam de veículos blindados (seria uma forma mais correta de se referir a esses equipamentos), aproveitem. São, de fato, artefatos muito impressionantes, mas, em regimes de normalidade institucional, é raro vê-los fora dos quartéis. Mas eles estavam lá, fora dos quartéis. Talvez a imagem-da-imagem precise, pelo menos um pouco, ser explicada.

Volto ao ponto – ao Merval Pereira. Um especialista em falar mal do governo, apaixonado combatente da causa da liberdade de imprensa, se deixaria intimidar por uma Wehrmacht de tal forma mambembe?.. Não. O problema é que a imagem gera outra imagem, para que quiser ver. Merval a viu. Achei estranho que, a certa altura, ele tenha começado a se referir… ao “Urutu”. Sim, claro, todos sabemos que se trata do Engesa EE-11, transporte blindado de pessoal anfíbio, projetado no fim dos anos 1960 e atualmente sendo retirado de serviço, tanto no EB quanto no CFN. Foi um excelente produto da Engesa, exportado ao longo de dez anos para 16 países, a maioria do mundo árabe. Merval sabe muito bem que não haviam “Urutus” empenhados na ocupação da Vila Cruzeiro – o “vibrante” até que tinha cortado os dados técnicos dos veículos blindados direito, da Internet. Por que se referiu aos TBPs como “Urutus”? O fato é que “Urutu” se tornou também quase um símbolo da ditadura militar. Lá estava a imagem-da-imagem: os tanques saindo dos quartéis, onde deveriam ter ficado, em função da incompetência de um governo que não soube impor sua autoridade com os meios de que dispõe. Um governo que produz um espetáculo indevido, feito de imagens-equívocos. “A cada barreira que um Urutu ultrapassava parecia uma vitória da sociedade sobre a bandidagem.” Aí está a imagem-da-imagem-da imagem: “… parecia uma vitória da sociedade…” Mas não é. Foi conseguida às custas da ameaça ao estado de direito. É continuação lógica e natural, da operação que na opinião explícita do jornalista, tungou a eleição de seus ganhadores naturais – dentre os quais ele mesmo se coloca.

Aparentemente, essa interpretação poderia ser invertida com a simples colocação de que o termo “Urutu” pode ter sido usado para designar a apropriação, pela sociedade, de um dos ativos simbólicos mais importantes da ditadura militar, ao qual se referiu, frequentemente, o regime de transição inaugurado em 1985. A expressão, cunhada pelo general Figueiredo em 1983 (se bem que a forma correta fosse “olha que eu chamo o Pires”, referência ao então ministro do Exército, general-de-exército Walter Pires de Carvalho e Albuquerque), e era usada pela imprensa, durante a “Nova República” para designar as Forças Armadas, convocadas para defender refinarias de petróleo, em 1987 e a planta siderúrgica de Volta Redonda, em 1988.

É interessante observar que a intervenção de tropas da Marinha na “batalha do Rio de Janeiro” não se tem dado totalmente sem controvérsia. Embora muito timidamente, têm sido levantados pela imprensa alguns “senões”, o principal deles hoje, pelo jornalão “O Estado de São Paulo”. É notável como não se usa a expressão “intervenção”, mas “apoio logístico”, e que foi enfatizado em diversos momentos que os militares não iriam participar de eventuais choques contra traficantes. Entretanto, parece que a questão tem suscitado dúvidas. Segundo o jornal, a “preocupação com essa ‘forma nebulosa’ e juridicamente questionável do emprego da Marinha no Rio, considerado ‘um jeitinho carioca’, foi o assunto que dominou a reunião de seu Alto Comando na sexta-feira, na capital fluminense”. Esta questão teria sido o motivo da “falta de apoio do Exército”, citada de forma descontextualizada em diversos momentos, desde quarta-feira. A questão foi resolvida com uma consulta ao Ministro da Defesa, que por sua vez remeteu-a ao presidente da República, que a resolveu com um “jeitinho”, resolvendo de vez a dúvida sobre a questão jurídica: forças armadas só poderiam ser enviadas ao estado com a solicitação do governador, no contexto de uma intervenção federal – o que nunca iria acontecer, pois implicaria em Sérgio Cabral Filho admitir a perda de controle da situação. Não pretendo entrar em questões de jurisprudência, mas tanto a solução adotada quando a circunspecção do Comandante Militar do Leste fazem todo sentido, pois a solução formal criaria uma crise política sem precedentes.

Enfim, o resumo da ópera: a re-imposição da autoridade do Estado no Rio de Janeiro implica, de forma subjacente, numa “batalha de imagens”. Por enquanto, a imprensa está quieta em função do amplo apoio popular desfrutado pela ação da autoridade. Mas a abordagem de Merval Pereira, um dos principais dirigentes do Jornal o Globo, mostra que certos setores da sociedade questão, para mim, não estão vendo com lá muito bons olhos a ofensiva do governo estadual para restabelecer a cadeia de autoridade. Merval falou, em sua coluna, sobre “ativo político importantíssimo”, e, em seguida, completa “mesmo que falte a essa política uma imprescindível ação de planejamento”. O problema é que, com ou sem planejamento, Cabral certamente sairá dessa situação muito fortalecido. Parece ser este o ativo político real: o restabelecimento da cadeia de autoridade na cidade.

E pior: por tabela, o governo federal sairá também em posição de vantagem. Por enquanto, Lula tem sido poupado de qualquer citação, seja boa ou ruim. O fato é que não se pode deixar de associar a entrada das forças federais no batalha ao governo federal. O colunista Elio Gaspari, que ultimamente assumiu um papel notável na “frente PIG” contra o governo federal, já começa a falar em “marketing”. “Marketing” diz respeito à imagem… Portanto… O fato é que a “batalha de imagens” envolve dois lados. O lado global, por enquanto, retraiu-se. Vamos ver como fica a coisa, daqui para diante. Que promete, promete::

A essa altura, o assíduo que tenha conseguido paciência para chegar até aqui deve estar se perguntando porque resolvi pegar Merval Pereira para Cristo. Imagina! Quem sou eu… Apenas achei curiosas suas colocações, e resolvi fazer algo que, em minha opinião, sempre valeu à pena: buscar ferramentas de análise.

Tenho até certa simpatia pelo jornalista: afinal, ninguém chega até onde ele chegou sem ser muito competente. Também admiro sua paixão antigoverno. É difícil encontrar um cruzado tão puro em seus ideais.

Cruzado? Não é por nada, não, mas…  É impressão minha ou o MP é a cara do Ned Flanders, o fundamentalista religioso vizinho de Homer Simpson?.. Bem, devo estar delirando…::

 

Um rapaz das Forças Especiais::Equipes médicas numa guerra burra::

Encontrei esse material zapeando blogues a partir de um post do excelente Catatau. Em outro momento, talvez comente o post, mas acho que vale dizer, desde já, que o ótimo texto do blogueiro contém uma série de equívocos, um deles o único que, na opinião deste redator::, não deve ser cometido: confundir uma guerra cuja justeza e utilidade são altamente questionáveis com os soldados que a travam. Mas isso é conversa mais longa e para outro momento, pois, por ora – como já notaram os nove ou dez leitores, causa:: está com suas baterias apontadas para Venezuela, Colômbia, e os trancos-e-barrancos desses dois países.

Mas como o fim de semana está aí, e provavelmente demorará um pouco até o próximo post::, vale à pena olhar o fotoblogue do jornal The Denver Post,  jornalão da cidade de Denver, Colorado, bem mais conservador do que podemos imaginar aqui no Brasil. O cotidiano de equipes médicas está bem documentado na longa reportagem fotográfica, e o texto (em inglês, lógico…) contém algumas informações interessantes. Mas interessante mesmo é o discurso que costura as imagens. Se alguém quiser tentar decifrar… causa:: coloca no ar. Em tempo: a imagem aí de cima foi cortada do PLog do The Denver Post, mas recebeu alguma fotoxopagem. 

Para abrir o fotoblogue, passe por aqui. Algumas das imagens podem incomodar quem tenha muita sensibilidade para cenas sangrentas, embora possam ser consideradas surpreendentemente leves (não mostram mortos, por exemplo… Se você lê inglês, causa:: sugere uma passadinha por aqui). Parece que, desde o Vietnam, existe um acordo tácito entre os meio de comunicação e o governo dos EUA: vocês nos toleram, e nós pegamos leve. E, uma observação: ferimento de combate doi pra caramba…::

Um rapaz das Forças Especiais::Tenente-coronel Hugo Chávez::

É uma provocação, mas também é uma solução. Chávez, antes de se transformar em presidente da Venezuela, principal propagandista do “socialismo bolivariano” e espantalho favorito da grande imprensa brasileira, realmente começou sua carreira no Exército Venezuelano. Hugo Rafael Chávez Frías nasceu na cidade de Sabaneta (estado de Barinas, sudoeste da Venezuela), em 28 de julho de 1954. Era o segundo filho de uma família de classe média baixa, que empobreceu com a crise econômica.  Aos dezessete anos, ingressou na Academia Militar de Venezuela, tendo sido nomeado segundo-tenente (subteniente, em espanhol) em 1975, especializado em Comunicações. Sua primeira comissão foi em uma unidade de forças especiais, o Batalhão de Infantaria de Montanha Manuel Caldeño, tendo se envolvido em ações de repressão contra guerrilheiros ligados ao “Partido Bandera Roja”, de linha marxista albanesa, na região de Cumaná. Em 1977, já primeiro-tenente, Chávez foi designado para o Centro de Operações Táticas, em San Mateo, onde recebeu treinamento em operações de contra-insurgência. Segundo sua biografia oficial, foi nessa época que o futuro presidente começou a simpatizar com os movimentos populares, e a observar o alto nível de corrupção disseminado no exército e na política. Em 1978, foi transferido para uma unidade blindada equipada com carros de combate  AMX30, situada na cidade de Maracay (capital do estado de Aragua – não confundir com Maracaibo, principal região petrolífera do país). Em 1980, promovido a capitão, foi destacado para a Academia Militar de Venezuela, onde veio a cumprir as funções de chefe do Departamento de Educação Fìsica e, logo depois, do Departamento de Cultura. Promovido a major e inscrito na Escola de Estado-maior do Exército, em Caracas, Chávez se destacou pelo interesse por política, e eventualmente era indicado como conferencista. Destacava-se pelas palestras longas sobre assuntos diversos, e as opiniões sobre seus talentos de orador são díspares: alguns dizem que suas falas eram interessantes e prendiam a audiência durante horas; outros afirmam serem perorações disparatadas de inspiração esquerdista, ao longo das quais o desafio era permanecer acordado.

Depois da Academia, Chávez serviu em diversas unidades até chegar a comandante do Batallón 422 (Batallón Coronel Antonio Nicholas Briceño) da 42ª Brigada de Infanteria Paracaidista, na cidade de Maracay – os “tigres de Aragua” (o que explica a boina carmim usada por ele em dezenas de fotografias). 

Na atualidade, Hugo Chávez embora já tenha deixado o serviço ativo, ainda se interessa por assuntos militares – tem se esmerado em tornar a Venezuela uma potência militar regional, com o auxílio da Rússia. Presidente da República Bolivariana de Venezuela já por dois mandatos, goste-se ou não do cara, ele se transformou numa personalidade latino-americana e levou a Venezuela ao papel de ator mundial, através de um ativismo contra o capitalismo e contra os EUA que, por vezes, parece meio maluco. Pregando o que ele chama de “socialismo do século 21”, tem sido o principal financiador de Cuba, e utiliza os recursos gerados pela riqueza petrolífera da Venezuela para apoiar regimes que se mostrem dispostos a aderir ao “bolivarianismo”. Chávez tem sido acusado de “acabar com a democracia“, ser um “liberticida“, ser inimigo da “liberdade de imprensa” “estar arrasando a economia da Venezuela“, etc., etc (todas essas inserções foram apanhadas de maneira aleatória, na Internet). Existem, por outro lado, manifestações simpáticas e até mesmo radicais, de apoio, mas geralmente partem de indivíduos e associações de caráter quase privado (por exemplo…).  A implicância, entretanto, ganha de longe.

Assim, a carreira militar do tenente-coronel PQd Chávez nem é tão importante, apesar do homem tê-la cumprido de maneira destacada (ninguém chega a comandante de pára-quedistas por saber manipular talheres, dizia o – insuspeito, no caso – general norte-americano Maxwell D. Taylor). A de presidente da Venezuela… Bem…

Winston Churchill costumava a dizer que quem não sabe história, não sabe nada. Chávez, apesar de pára-quedista, não caiu de pára-quedas na história venezuelana. Nossa grande imprensa o trata como tirano, liberticida e “inimigo da democracia”. Mas como teria sido a democracia venezuelana antes de Chávez? Ou melhor- existia uma “democracia venezuelana” antes de Chávez? Isso, nossos simpáticos jornalões não contam.

Fiquem atentos. Vamos ver – talvez seja possível aclarar um pouco essa história::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

É um bom jogo, esse. Está dando pra ver um dos caras na foto, não é? Mas existem três deles. Dá pra encontrar, na lata, primeira olhadinha? Sem ter de examinar com algum cuidado? Experimente e, depois, conte aqui para o redator: difícil de acreditar, não é? A foto foi publicada na capa do “Jornal da Infantaria”, de fevereiro de 1944, e mostra três snipers durante testes com padrões disruptivos de camuflagem, em um campo de provas do Exército dos EUA, em Nevada. O exército norte-americano tomou contato com a camuflagem através dos alemães, que, no início da guerra, já a utilizavam de forma mais-ou-menos generalizada. Peças de uniforme e de equipamento (como, por exemplo, os Zeltbahnen, ponchos que podiam ser usados como  tendas) nos padrões *Splittermuster (“padrão lascado”) e *Sumpfmuster (“padrão-pântano”) remontavam a 1931 e foram adotados em 1932 tanto pelo exército quanto pela infantaria da Luftwaffe. Conforme a guerra avançava, a disseminação de tecidos sintéticos na confecção de uniformes e peças de equipamento em tecido tornou ainda mais comuns os padrões de camuflagem. A questão é que os norte-americanos não simpatizavam com os padrões camuflados, e só a contragosto resolveram avaliar padrões disruptivos. Em 1942, o Exército dos EUA distribuiu um uniforme camuflado reversível, para uso nas selvas do Teatro do Pacífico: um dos lados tinha um padrão de formas irregulares arredondadas, em tons predominantemente verdes, o outro, em tons de marrom. Segundo fontes da época, o padrão marrom reproduzia o traje geralmente usado por caçadores de patos, e foi chamado, por este motivo Duck Pattern.  Os fuzileiros navais, que também receberam o traje, não o avaliaram bem. Relatórios apontavam que o padrão era muito eficaz para indivíduos estáticos, mas tinha efeito contrário quando usado em movimento. O Exército logo desistiu do uso de tais uniformes; os fuzileiros o mantiveram para a cobertura de capacete, que se tornou bastante característico do uniforme do USMC na 2a GM. É provável que a avaliação de campanha dos padrões camuflados tenha levado a testes de padrões como os da foto. Em campanha, o uniforme verde-oliva predominou até a Guerra do Vietnam, quando os padrôes camuflados começaram a ser adotados de forma mais ampla, primeiro por forças especiais, depois pela infantaria.::

Um rapaz (das Forças Especiais)às Terças::Forças Especiais do Exército Brasileiro::

ForçasEspeciais_BR

Integrantes do 1 ° Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro. Em primeiro plano, um atirador de escol, vestindo “traje Ghillie“, carrega um Fuzil M964 7,62 dotado de mira telescópica OIP Belgio 3X6 (p´ra lá de obsoleta…).  Em segundo plano, elementos de Forças de infiltração portam o modelo-padrão. O FAL é uma boa arma para atiradores de escol (snipers, em inglês), devido à potência do cartucho e ao peso da arma, que a torna bastante estável durante o disparo. Como disse o leitor “Anônimo”, um dos famosos sete (contadinhos…) os “cabôco”  usam o padrão chamado Ragged Leaf Lizard Pattern, disruptivo de três cores: verde-escuro e castanho sobre fundo verde-claro. Apesar do nome (também aparece como Brazilian Army Lizard Pattern, segundo a terminologia adotada pelo International Camouflage Pattern Index), esse padrão foi desenvolvido por aqui mesmo, nos anos 1980, baseado no padrão M63 usado na Africa pelo exército colonial português. É considerado excelente para combate em ambiente tropical. Esses uniformes deixam no leigo incauto (como boa parte dos jornalistas da imprensa diária…) a impressão de desbotados, o que indicaria a indigência em que vivem as FA nacionais. É apenas parcialmente correto, e vale esclarecer que a aparência é proposital. O padrão busca inclusive simular o brilho provocado pelo excesso de luz característico das regiões equatoriais::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

020124-N-6550T-005

Segundas?.. Não seria às Terças?.. Tanto faz. E já que continuamos no assunto “marinha”, um membro do SEAL da Marinha norte-americana durante a invasão do Afeganistão. A carabina M4A1 calibre 5.56 mm NATO com visor telescópico Trijicon ACOG (Advanced Combat Optical Gunsight) 4X, retícula iluminada de fibra ótica, instalado em  RIS (Rail Interface SystemDaniel Defense Inc. tipo Picantinny e empunhadura de plástico de alto impacto, está com a coronha rebatida. A coloração da arma, aplicada com uma película plástica, destina-se a dificultar a visualização. Trata-se de uma arma especial para forças especiais, e é exatamente o que o *SEAL (acrônimo de Sea, Air and Land, que também quer dizer “foca” em inglês) é. Essa força foi criada em 1962, pela Marinha dos EUA. Em 1961 o Chefe de Operações Navais recomendou a formação de tropas especializadas em contra-guerrilha, capazes de operar a partir do mar, terra e ar. Não foi à-toa. A época era a do envolvimento norte-americano no Vietnam, em 1961-1962.  John Kennedy ficou muito impressionado com a atuação dos “boinas-verdes“, e imaginava poder vencer a guerra com tropas treinadas em táticas não-convencionais, altamente motivadas e politicamente engajadas. No caso do SEAL, os primeiros voluntários eram membros de Equipes de Demolição Submarina (UDT, em inglês), formadas durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidos como Frogmen (“homens-rãs”).  O primeiro teatro de operações foi o Vietnam do Sul, fazendo levantamento subaquático, reconhecimento de áreas de desembarque e demolição, além de assessorar as forças especiais do Vietnam do Sul. Eventualmente, atendiam demandas da CIA em operações encobertas, mas essa é outra história::