Já com vistas ao aniversário, um sistema de armas revisitado::Flak 36 “acht-acht” e suas variantes::

Ultimamente a imprensa só tem falado, em termos de “datas importantes, sobre 2014 e 2016. Nem vou dizer o que significam estas datas. Mas vou acrescentar que, em 2014, completam-se 150 anos de um evento que, pelo menos para mim (e, suponho, para as duas dúzias de assíduos do blogue das boas causas), tem muito maior significado. Não vou dizer qual, mas dou uma dica: a data correta é dezembro de 1864. Em 2015, por outro lado, fecham-se 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não sei se as datas serão lembradas embora tenha certeza que nos meios militares e acadêmicos, certamente acontecerão eventos comemorativos, que envolverão rememoração e análise. A questão, para mim, é se a sociedade lembrará desses fatos com a intensidade que deveria.

De toda forma, tenho dedicado parte de meu tempo a recolher dados visando, quem sabe, um livro sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Existem excelentes histórias da guerra, e atualmente tenho observado, em nosso país, um saudável interesse pela questão talvez empurrado pela emergência do Brasil na cena internacional, bem como pela consolidação, no meio acadêmico e científico, dos estudos de “relações internacionais”. O fato é que notei, anos atrás, que nenhum acadêmico, militar ou não, se interessou por abordar o tema. Vamos ver no que dá. Não sei se terei pernas para dar tal salto, mas, quando comecei a levantar material bruto, reparei que quase quarenta por cento do material publicado em causa:: diz respeito à “guerra mundial”. E, livro ou não, continuará sendo assim. E, mais ainda: o material publicado aqui tem, em alguns momentos, absoluta  originalidade, no que diz respeito aos temas, no âmbito da língua portuguesa “brasileira”. Não é novidade, dado o pouco interesse que o meio científico manifesta pelo assunto, no geral.

Quando comecei a fazer a estatística citada acima, encontrei alguns artigos que se remetem a temas que poderiam ser chamados “de domínio público” – já que quase todo mundo, do sexo masculino, pelo menos, acha que entende de guerra em geral e da Segunda Guerra, em particular. causa:: já abordou o capacete alemão, a submetralhadora ERMA e o tanque “Tigre”. Por motivos que têm relação com a propaganda aliada durante e depois da guerra, essas peças de equipamento são, ainda hoje, ícones da 2ª GM: toda vez que alguém põe os olhos ou ouve falar de uma delas, lembra imediatamente dos nazistas. Mas existe outro ícone da 2ª GM, mais “técnico”, digamos assim: o canhão antiaéreo Krupp 8,8 cm, conhecido de todos os especialistas como “oitenta e oito”. É uma das peças de equipamento militar mais bem sucedidas da história, e foi responsável, em diversas ocasiões, pela superioridade, ainda que temporária alcançada pela Wehrmacht. Pois causa:: já publicou, anos atrás, um artigo sobre essa peça de artilharia. Como o artigo ainda me parece bastante completo (diria eu, uma das melhores pesquisas que já fiz para o blogue), resolvi que seria boa providência uma reedição, revista e ampliada. A “primeira edição”, datada de agosto de 2007 será mantida, devido as imagens, que não serão reproduzidas. A “segunda edição” terá duas partes: a “primeira”, como sempre, “revista e aumentada”, e uma extensão publicada, como “parte 2”, conforme a metodologia já conhecida de todos. E é muito possível que, dentro de alguns anos, os assíduos encontrem o texto todo nas páginas do tal livro – se é que ele irá virar realidade. Portanto, divirtam-se e torçam para que minhas pernas sejam tão fortes quanto imagino…::

parte1/2O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”( “oito-oito”, em alemão), e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870.

Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observar o movimento das tropas prussianas, e, no final da campanha, para levar autoridades para fora da cidade. Na época, os prussianos não dispunham (e nem ninguém mais) de canhões capazes de disparar para o alto, já que os reparos de campanha dificilmente conseguiam elevar mais de 15°. Também não existiam fusos capazes de atuar eficientemente contra alvos da densidade de um balão, embora os fusos de tempo pudessem ser adaptados para fazer o projétil estourar nas proximidades de um alvo aéreo. Mas este nem era o maior problema. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm, normalmente usada contra alvos levemente protegidos. Montada num reparo que perdeu as rodas e ganhou suportes cruciformes de madeira, teve o mecanismo de elevação modificado para permitir uma elevação de aproximadamente 60 graus. A coisa toda era montada numa carroça. Visto que o alcance do projétil não passada de 4000 metros, ainda por cima desenhado para uma trajetória quase tensa, a idéia era seguir o balão através de sua trajetória, até que o dito entrasse no alcance. O desempenho era pífio, dada a baixa cadência de tiro, mas o modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 1500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Nessa época foram introduzidos reparos capazes de receber tubos de 6,5 cm e 7,7 cm Krupp. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente antiaérea.

O desenvolvimento da aviação militar durante a Grande Guerra foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento antiaéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos adaptados para que permitir ampla elevação e maior estabilidade de tiro. Para aeronaves que voavam no máximo a 1000-1500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multimotores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a velocidades maiores que 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. O problema é que a munição disponível, desenhada para os canhões de “tiro rápido”, cuja velocidade de saída dificilmente ultrapassava 600 m/s, era ineficaz contra os novos tipos de alvos aéreos. Para manter o projétil em vôo estável num ângulo aberto com relação a zero (o tubo paralelo ao chão), era necessária maior velocidade de saída. Isto significava não apenas uma carga de propelente maior como também aerodinâmica aperfeiçoada – ou seja: desenhos totalmente novos. Em vista dessa nova situação, em 1916 as Usinas Krupp adaptaram um calibre naval já existente, 8,8 cm, produzindo um tubo mais longo e com novo tipo de alma raiada. O conjunto foi colocado numa plataforma com rodas, própria para ser rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos mantinham o conjunto em posição. A nova arma foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). A munição foi redesenhada, para funcionar bem em trajetórias de vôo muito abertas em relação ao solo. Durante a guerra, o 8,8 chegou a ser utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rühr, e alguns foram instalados em Berlim.

A guerra acabou antes que o novo canhão estivesse totalmente desenvolvido. Como o Tratado de Versalhes, de 1919 proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas antiaéreas, os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

A solução inventada para burlar o tratado de paz foi estabelecer um acordo com o governo da Suécia, que possibilitou as empresas alemãs utilizar instalações industriais suecas para desenvolver novos projetos de armas.

O intenso desenvolvido observado pela aviação militar durante o período entreguerras condicionou as requisições da Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra. Os estudos realizados pelas áreas especializadas concluíram que havia necessidade de uma artilharia antiaérea pesada. Nos anos 1920 começaram a aparecer aeronaves que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h alcançando um teto máximo de 6000 m. A velocidade de saída do projétil passou a ser crucial, para que a aceleração não fosse perdida muito rapidamente devido à força da gravidade. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors.

O desempenho do 7,5 foi considerado insatisfatório. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall. O calibre “oito-oito” da Krupp, com novo desenho, foi o vencedor. Essa nova munição tinha o projétil montado junto com o estojo, e pesava cerca de 9500 g, 2770 g no projétil de alto explosivo. A velocidade de boca inicial era de 785 m/s, e o desenho ogival alongado permitia um vôo estável até a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada como peça de artilharia de campanha, tinha alcance máximo de 8.000 m em trajetória tensa ou 14.800 m em trajetória elíptica aberta).

O sistema de armas criado em torno dessa munição foi denominado “Flak 18”, como forma de burlar as regras impostas pelo Tratado de Versalhes (o “F” mudado para Fliegende “equipamentos voadores”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”), e logo se revelou um sucesso. O tubo forjado em uma única peça, de 56 calibres ou seja, 4.938 cm de comprimento tinha o raiamento torcido para a direita, formado por 32 sulcos de profundidade decrescente, que aumentavam progressivamente o fechamento da hélice conforme aproximava-se a boca da arma, de modo a otimizar a pressão dos gases. A câmara, selada por bloco deslizante, de operação semi automática permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da volta do conjunto à posição. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação.

O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.

A construção e testes dos protótipos deu-se na Suécia, cercada de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. Logo foi notado que o desgaste do cano era muito mais rápido do que o esperado e não se dava por igual. O motivo era a rapidez da cadência de fogo, que tornava o desgaste maior na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade de saída combinada com a alta taxa de giro axial do projétil e com o escape dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência.  A fabricação em única peça, embora facilitasse o processo industrial, tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8,8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados entre 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas, de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão/reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia antiaérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, o passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria integrado a um centro de controle de fogo. Este sistema, em sua primeira versão era conhecido como Kommandogerät 36 (“aparelho de comando modelo 1936”). Tinha como centro um aparelho denominado como Voraussichter (“preditor”), operado por um especialista e formado por duas peças principais: um computador eletro mecânico analógico integrado a um telêmetro ótico estereoscópico chamado Entfernungsmessgerät, de uns 4 m de largura. Este era constituído por diversos conjuntos de lentes e espelhos graduados. Os operadores moviam uma série de chaves fazendo coincidir a imagem da aeronave inimiga com as diversas graduações observáveis nos visores, obtendo assim dados constituídos por velocidade aproximada, altitude, direção e posição da aeronave inimiga com relação à posição da bateria AAe. Os dados eram fornecidos a outro aparelho, chamado Kommandohilfsgerät 35 (numa tradução livre, “aparelho de apoio ao comando” modelo 1935). Este era o computador propriamente dito, de fato uma calculadora mecânica que compilava os dados e os enviava, via um comutador denominado Übertragung 30 (“transportador” modelo 1930) para um conjunto de lâmpadas situado na plataforma das peças que constituíam a bateria (até quatro Flak 36). Acesas as lâmpadas, o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes as cobrissem. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou inicialmente insatisfatório, e, em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo preditor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Em 1937 esse novo sistema de controle de fogo foi introduzido experimentalmente, e a peça de artilharia assim adaptada foi denominada “Flak 37”. Este sistema começou a ser distribuído em 1938-1939, e constituiu o Kommandogerät 40, que também recebeu um telêmetro aperfeiçoado. Revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa antiaérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre. O sistema do canhão era projetado para ser rebocado por diversos tipos de veículos, sendo os mais comuns o caminhão Opel de 3,6 t Blitz e o meia lagarta Sd.Kfz. 7. Também foram feitas tentativas de transformar a peça em automóvel, instalando um conjunto tipo Flak 37, chamado provisoriamente de Flak 37 Selbstfahrlafette auf 18 ton Zugkraftwagen. O sistema, projetado em 1940, visava prover unidades motorizadas de proteção antiaérea em campanha, mas revelou-se muito canhestro, e acabou sendo suspenso.

A partir de 1935, com a reorganização das forças armadas alemãs, a defesa antiaérea do Reich passou a ser controlada pela nova Luftwaffe,sugestão encaminhada pelo então general Kesselring.   Em 1938, o braço antiaéreo da the Luftwaffe empregava 6700 canhões leves, para defesa de baixo nível (2 cm e 3,7 cm) e uns 2700 canhões pesados, dentre os quais a maioria eram “oito-oito”. Uns poucos eram Flak 38 e 39, de 10,5 cm. Este era um canhão antiaéreo projetado para uso naval, que o complicado sistema de planejamento industrial nazista tentou “empurrar” para as forças armadas. Como se revelou muito pesado e canhestro para uso em campanha, acabou tendo uns duzentos exemplares instalados em posições fixas.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. Ou seja – era capaz de estourar qualquer coisa em qualquer frente::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Forte do Leme::

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Construído entre 1776 e 1779, por ordem do Vice-Rei, Marquês do Lavradio, o Forte do Vigia cruzava fogos com o Forte de Copacabana e terminava sua linha de defesa com um portão de cantaria até hoje existente na Ladeira do Leme. Reformado pelo engenheiro militar capitão Augusto Tasso Fragoso em 1895. Nessa época passou a ter o nome de “Forte do Leme”. Em 1913, foi determinado que, no local do antigo forte, uma moderna fortificação para a defesa da entrada da barra da baía de Guanabara fosse erguida. O projeto da nova instalação foi de novo entregue a Fragoso, então o maior engenheiro de fortificações brasileiro. Em 1915 o detalhamento do projeto foi entregue à Krupp, cujos técnicos propuseram o uso de peças de concreto pré-moldadas e o artilhamento com quatro obuses de 120 mm. Essas peças deveriam ser capazes de tal elevação que os disparos ultrapassariam as os morros da Urca e Pão de Açucar. Com a eclosão da 1ª GM, as obras ficaram inconclusas e o forte foi guarnecido provisoriamente pela 11ª Bateria do 4º Grupo de Artilharia de Costa (11a Bia/4° GACos). A dificuldade no transporte dos materiais alemães acabaram por atrasar a obra, que só seria concluída bem depois de terminada a guerra, em 1919. Entre 1922 e 1930, o forte viu considerável ação, levando tiros do forte de Copacabana em 1922 e atirando contra o couraçado “São Paulo” em 1924. Em 1935 recebeu o nome de “Forte Duque de Caxias”. Em 1943, durante a 2ª GM, depois do alarme dado por um vigia que observava o mar com binóculos, de que vários U-boats alemães tentavam forçar a barra do Rio, o comandante da praça, capitão Sadock de Sá, ordenou fogo. Seguiu-se forte canhoneio de todas as fortalezas da barra. Após alguns minutos de bombardeio, um avião verificou que se tratava de baleias (que, aparentemente, escaparam incólumes da artilharia de costa brasileira…). Em 1955, o forte abriu fogo contra o Cruzador “Tamandaré”, que forçara a barra na revolta civil-militar denominada Novembrada, com o objetivo de alcançar a cidade de Santos. Nenhum dos 11 disparos atingiu o alvo, ainda que a belonave estivesse sem munição embarcada e com sérios problemas nas máquinas. A diminuição da importância da artilharia de costa, nos anos 1960, fez com que o Exército Brasileiro desativasse a instalação em 1965.::

Uma fortificação, posto que é Segunda::Forte da Laje, Rio de Janeiro::

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Oficialmente denominado “Forte Tamandaré”, o Forte da Laje encontra-se instalado na ilhota do mesmo nome. De fato se trata de um afloramento de rocha na baía de Guanabara, que na baixa-mar tem aproximadamente 100 metros de comprimento por 60 metros, em sua parte mais larga. A primeira referência ao lugar como sítio adequado à uma obra defensiva é da década de 80 do século 16. A iniciativa da contrução aconteceria 60 anos mais tarde, mas o surgimento da fortificação só iria se concretizar quase 150 anos depois. Apesar da posição estratégica, voltada para a entrada da baía, era considerada de pouca valia, por sua silhueta baixa e interior descoberto o que a tornava bastante vulnerável a tiros de artilharia embarcada -, artilhada com 20 peças de antecarga consideradas, em 1845, como obsoletas. Em 1863, em função da questão Christie, foi proposta a instalação de uma torre blidada, montando canhões de grosso calibre.  Logo após a proclamação da República, em 1892, sua guarnição, juntamente com a da Fortaleza de Santa Cruz, levantou-se contra o governo, incidente de curta duração que não teve conexão com a Revolta da Armada, no ano seguinte. Duramente bombardeada durante o levante de 1893, foi modernizada a partir de 1896. Em 1901 foi concluída a montagem de cúpulas de aço de procedência alemã e pouco depois, a artilharia foi melhorada, com a instalação de dois canhões de 240mm e dois de 150mm, em torres girantes, e dois de 75mm, acasamatados. A ilha foi dotada de instalação elétrica e as obras foram completadas em 1906. Ao longo do século, foi recebendo pequenas melhorias (como aperfeiçoamento do controle de fogo e instalações de renovação de ar). Em 1997 ainda era sede de uma bateria de artilharia de costa. Com a extinção desse ramo da artilharia no Exército Brasileiro, foi afinal desativada.

Uma fortificação, posto que é segunda::

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Desde a instalação da cidade do Rio de Janeiro na região do morro do Castelo, sua defesa era feita por um anel de fortificações – cuja eficácia era bastante questionável. A posição mais avançada dessa linha de defesa era uma bateria instalada na Ponta da Igrejinha, na Praia de Nossa Senhora de Copacabana, citada desde a segunda metade dos Setecentos. No início do século 20, a Revolta da Armada mostrou que a capital da República era bastante vulnerável a um ataque por navios. Foi então decidida a construção de uma grande fortificação no antigo sítio. O major-engenheiro Tasso Fragoso fez o projeto, que foi depois detalhado nas Usinas Krupp. A construção foi feita com peças de concreto pré-moldadas, fabricadas na Alemanha. Tratava-se de uma estrutura acasamatada, projetada em torno de canhões de grosso calibre e grande alcance. A instalção foi iniciada em 1908. Ocupando uma área de cerca de 114.000 m2, o Forte de Copacabana foi inaugurando em 28 de setembro de 1914 (veja aqui uma outra interessante foto do Forte). As paredes externas, voltadas para o mar, tem 12 m de espessura, e protegem salas de comando, unidades de direção de tiro, paióis, casas de máquinas, tudo servindo às baterias principais, equipadas com canhões Krupp de 305mm e secundárias, de 190mm e 75mm. As duas primeiras montam 4 bocas de fogo (duas de cada calibre) assentadas em torres giratórias de aço, acionadas por motores elétricos. Na ápoca da inauguração, era a mais moderna fortificação da América Latina. A eficácia da tecnologia alemã foi testada em 1922, quando o encouraçado “São Paulo”, um Dreadnought da Marinha Brasileira disparou cinco salvas, contra o forte, conseguindo dois impactos diretos (gostaria de saber onde caíram os outros disparos…). A instalação permaneceu intacta, e a marca de um dos impactos ainda é visível em uma das cúpulas de aço. O Forte de Copacabana foi desativado como unidade militar em 1986.

Um sistema de armas às terças Krupp Fliegendabwehrkanonne 8,8::

O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”, e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870. Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observação do movimento das tropas prussianas. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm que, perdendo as rodas e ganhando traves de madeira, era montada em uma carroça, num reparo que permitia uma elevação de aproximadamente 60 graus. Esse modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 2500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente anti-aérea.

O desenvolvimento da aviação, durante a Grande Guerra, foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento anti-aéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos que permitiam uma ampla elevação. Para aeronaves que voavam no máximo a 3000-3500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multi-motores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a uma velocidade de 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. Em vista dessa nova ameaça, em 1916 a Krupp adaptou o canhão de campanha de 8,8 cm colocando-o sobre numa plataforma com rodas, rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos estabilizavam o conjunto, que pesava uns 7300 kg. A elevação máxima chegava a 70 graus, pois descobriu-se que um valor maior poderia desestabilizar a arma durante o disparo. Essa, de ação semi-automática (expulsava o cartucho vazio da câmara sem necessidade de ação humana), foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). Utilizava munição de 9500 g, sendo que o projétil de alto explosivo pesava 2770 g, com uma velocidade de boca de 785 m/s, o que permitia que atingisse a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada em terra, tinha alcance de 10.800 m).







Um dos primeiros exemplares de Geschütze 8,8 Flak Flug Abwehr Kanonne em testes de fábrica, por volta de 1916



 

 

 

Durante a guerra, o 8,8 cm foi utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rhür, sendo que alguns chegaram a ser instalados em Berlim. Depois do final da guerra, o Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas anti-aéreas, de modo que os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

Durante o período entreguerras, o desenvolvimento da aviação militar foi notável. Nos anos 1920 começaram a aparecer aviões que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h e alcançavam um teto máximo de 6000 m. A velocidade de boca do projétil passou a ser crucial, visto que era necessário um projétil que não desacelerasse muito rapidamente devido à força da gravidade.

A resposta dos engenheiros alemães seria o Flak 18 (o “F” mudado para Fliegend “equipamento voador”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”). Este começou a ser concebido na primeira metade dos anos de 1920, quando o Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra, realizando estudos chegou a conclusão de que havia necessidade de uma artilharia anti-aérea pesada. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall.

O calibre 8,8 foi considerado ideal, mas se teve de desenhar um novo cartucho. Essa nova munição, de projétil ogival, montada junto com o estojo, pesava 10400 g e tinha uma velocidade de boca de 820 m/s, alcançando um teto máximo de 8900 m. Empregado como peça de artilharia de campanha, tinha um alcance de 14800 m. Os protótipos não poderiam ser testados na Alemanha, de modo que a equipe de projeto transferiu-se para a Suécia, iniciando o projeto de um canhão em torno desse novo cartucho.

O resultado foi um canhão cujo tubo era forjado em uma única peça, de 56 calibres de comprimento, com câmara de operação semi-automática, que permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da parada do recuo. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação. O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.







As duas primeiras versões do acht-acht, em primeiro plano o Flak 18 e Flak 36, ao fundo. Note as diferenças no cano das duas versões



 

 

 

A construção e testes dos protótipos cercou-se de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. O cano era fabricado em uma peça única, o que tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Isso se devia ao fato de que, em função da rapidez da cadência de fogo, o desgaste do cano mostrou-se muito maior do que o esperado, sendo que a taxa maior acontecia na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade e alta taxa de giro axial do projétil e pela saída dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8.8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados em 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas ,de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão,
reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia anti-aérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.








Vista lateral e superior do Flak 37. Observe-se a versão final da plataforma



 

 

 

 

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, não constituía, por si só, um real sistema de defesa anti-aérea. O passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria, que passou a ser integrado a um sistema de controle de fogo. O centro desse sistema de controle de fogo era o aparelho conhecido como Übertragung 30 (“transportador 30”). Um computador de dados analógico, conhecido como Voraussichter (“preditor”) compilava dados de telemetria, constituídos por velocidade aproximada, altitude e direção da aeronave inimiga, levantados através de observação via instrumentos óticos. Compilados os dados, eram convertidos em sinais elétricos e transmitidos para um sistema de lâmpadas situado na plataforma do canhão. O impulso elétrico acendia uma lâmpada, e o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes cobrissem a lâmpada acesa. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou insatisfatório, e, em em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo previsor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Este sistema revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa anti-aérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos em no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. O Flak 41 deu origem à primeira versão do canhão 8,8 especializada para luta antitanque: o PAK 43/41 (Panzer Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra blindados”).





Flak 36 como canhão de apoio terrestre, no norte da África, 1941. Note-se o escudo protetor da guarnição


 

 

A carreira do acht-acht abrangeu toda a guerra, e esse se tornaria praticamente sinônimo de canhão alemão. A última versão especializada seria produzida, com pequenas modificações, para instalação como armamento de blindados, denominada KwK 36 (KampfwagenKanonn, “canhão de carro de combate”), de 56 calibres.


O projetil 8,8 cm AAe, visto em corte. Note-se o fuso de pressão e o receptáculo interior, capaz de conter mais de três quilos de alto explosivo


 

 

Dados não muito precisos indicam que por volta de 17000 tubos calibre 8,8 cm tenham sido produzidos durante a guerra, número que sobre a cerca de 19000 tubos caso sejam somados aqueles especialmente projetados para uso em veículos blindados::