Uma outra visão – não tão agradável – sobre o dilema brasileiro::

TENHO OPTADO por postar meus delírios no Facebook, de modo que quase abandonei – quase não: abandonei mesmo – o blogue das boas causas durante anos. A agilidade do FB, que descobri tem pouco tempo, é bem maior, e posso ter a ilusão de que serei lido. Entretanto, tenho de reconhecer que o FB também tem lá suas limitações. A agilidade é justamente, e paradoxalmente, uma delas. Aquela plataforma não parece feita para textos muito longos. causa:: não: aqui já publiquei textos de dez páginas, sem o menor pudor, e os leitores sempre foram poucos mas fiéis. Assim, tomei a decisão (tentarei cumprir) de usar o Facebook como uma espécie de letreiro para os textos maiores, que publicarei aqui. Assim, posso ter a certeza de que não encherei o saco de ninguém lá::

Um exercício interessante a leitura de A tolice da inteligência brasileira (São Paulo: Casa da Palavra, 2015, 220 p.) do advogado e doutor em sociólogo e atual presidente do IPEA Jessé Souza. O doutor Souza é professor de Sociologia Política da Universidade Federal Fluminense, e suas teses são bastante polêmicas, embora relativamente pouco conhecidas entre nós – ele passou boa parte de sua carreira em universidades alemãs, onde conseguiu seu doutorado, em 1991. Modéstia à parte, eu conheço bem as teses dele, e até já as levantei anos atrás, em um dos posts aqui no causa:: juntamente com a tese dos professores (e contemporâneos, com toda honra) João Fragoso e Manolo Florentino, sobre o “arcaísmo como projeto”. No momento, não resisto a, respeitosamente, colocar Fragoso e Florentino de lado e comentar sobre as  teses do doutor Souza. Considero indispensável, neste momento, chama-lo para o debate sobre o momento pelo qual o Brasil passa.

Em resumo, é mais ou menos o seguinte: diz Souza que indivíduos inteligentes, bem formados e informados, e os grupos sociais a que pertencem são feitos de tolos (eu diria “idiotas”, mas respeitemos a letra do autor…) como parte da estratégia usada pela elite para reproduzir os privilégios injustos com que convivemos e que – sejamos precisos – também nos atingem e nos vitimam. É a tese central do livro: a classe média, da qual faz parte a inteligência, se deixa enganar por falácias como a da “meritocracia”. Se crê (no sentido, acho eu, religioso do conceito) como o extrato social cujos membros se fizeram por “mérito próprio”, conquistado através do esforço e do trabalho. Por outro lado, tende a negar os seus privilégios culturais que lhes são concedidos, e como tais previlégios resultam de benefícios que são negados ao resto da população. Essa elite intelectual, ocupando a universidade, os laboratórios e parte da burocracia estatal, tende a buscar integra-se a um projeto político que, pensam, os beneficia, e constroem uma imagem distorcida do Brasil. Essa imagem tira o foco dos problemas de fundo – que residem  justamente no sistema  de privilégios que o projeto político da elite visa manter e ilumina problemas que são meras decorrências: conforme Souza, a corrupção é uma dessas decorrências.

Plutocratas e oligarcas precisam, na atualidade, desse “exército de intelectuais”. Estes, principalmente na burocracia do Estado, na produção e reprodução do conhecimento, nos meios de comunicação (as hoje ditas “mídias”) e na industria cultural irão burilar e aperfeiçoar o discurso que ilumina as decorrências e oculta a questão de fundo. É assim que a contradição de base desaparece da tela e as decorrências mantém a sociedade no estado em que está: 1 por cento da população brasileira consegue se apropriar do resultado do trabalho dos outros 99 por cento.

Não é que os intelectuais façam isso de caso pensado – é uma questão de acabar enredado na própria teia, a visão de mundo que orienta o pensamento e a ação. Essa teia tem um nome: ideologia. Considero este um dos pontos em que o livro de Souza deixa a desejar.

A democracia formal vigente é uma dessas distorções: é essa uma conclusão inevitável e dramática, quando começamos a entrar na vibe de Souza (quero dizer que as reflexões a seguir são enfeitadas com algumas de minhas pérolas). A “democracia formal” é instituída por um processo histórico, mas desse regime se torna parte um processo de violência simbólica, que se disfarça em convencimento pelo “melhor argumento” e pela prevalência do “debate civilizado” – parlamentar e civil. Em teoria, toda a sociedade organizada e regulada, a “sociedade civil”, participa desse “debate civilizado” (“civil”, “cidadão” e “civilizado” têm a mesma raiz, o vocábulo latino “civis” – a cidade política). Só que cabe, neste momento, perguntar quais são os canais de manifestação de que dispõem as categorias periféricas, os grupos cuja cidadania se expressa mais em deveres do que em direitos. Via de regra, os movimentos sociais são demonizados em suas reivindicações (um exemplo? Lembram-se do MST?..) ou mesmo criminalizados.

Tal violência simbólica só consegue vigir porque os tais 1 por cento aparelham e usam as estruturas políticas – a tal “democracia formal, liberal e parlamentar”, para controlar todas as estruturas, não apenas do poder “de vara” – estruturas judiciárias. militares e policiais –, mas também – e talvez principalmente, diria eu – da produção de conhecimento, de formação da população e da informação. A construção da sociedade política em um regime como o nosso, a construção da exclusão, inclusive da classe média. Os detentores dos privilégios monopolizam recursos que deveriam estar ao alcance de todos, como, por exemplo, o acesso à educação básica de qualidade, enquanto escamoteiam a questão da qualidade da educação. Como fachada programática disseminam a ideia de que “a educação resolverá todos os problemas” e, num futuro perdido no tempo mítico, instituirá a meritocracia – enquanto o que a realidade do tempo presente mostra que a “educação de qualidade” nunca é posta a disposição das classes periféricas. Outro ponto onde tal violência simbólica fica evidente é o que tenta apresentar nossa sociedade como “sem racismo”. Não é que os intelectuais acreditem nisso, mas Ali Kamel e William Waack, que disseminam essa ideia através das Organizações Globo, contam com a colaboração involuntária de milhares de professores universitários que, meio envergonhadamente, dizem que “as cotas vão acabar com a universidade pública”.

Discursos como os que temos visto nos meios de comunicação, que legitimam tamanha violência simbólica, só são possíveis em função do “sequestro” (eu diria “desapropriação”, mas já e outro debate…)  de boa parte da inteligência brasileira que, mesmo sem saber, são postos a trabalhar em prol do 1% de detentores de bens e recursos, sejam materiais ou simbólicos. A tal “democracia formal” é o sistema que permite a manutenção da exploração do trabalho sob a capa de um “estado de direito”, “liberdade de expressão”, “direitos individuais” e outras belas construções erguidas ao longo da trajetória da sociedade ocidental, que o sistema político liberal transformou em meras falácias. Esse sistema mostra sua face cheia de dentes toda vez que suas bases são, de alguma forma – mesmo que inócua – postas em questão. Ou dizendo de outra forma – toda vez que um Lula aparece e tenta arranhar os privilégios seculares que nos mantém a beira do pântano que no momento vemos transbordar.

O livro está à venda na amazon.com.br por 29 reais, e em e-book por 25. Diria que é uma leitura indispensável.

Para quem estiver disposto a saber um pouco mais sobre o pensamento de Souza, uma entrevista com o autor publicada em 11 de março de 2016 pelo jornal Gazeta do Povo, e uma resenha muito mais completa que o texto acima, recolhida no Cidadania e cultura, do professor Fernando Nogueira da Costa.

Divirtam-se! E pensem no assunto::

 

 

 

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra2::Rosie the Riveter ou A mulher americana entra na guerra::

Rosie the Riveter, por Norman Rockwell. Trata-se da versão mais conhecida do icone da mulher norte-americana na guerra

Rosie The Riveter’ (“Rosinha, a Rebitadora”) nunca existiu. Ela foi inventada por diversos artistas e publicitáriosnorte-americanos, no momento em que idéias estapafúrdias eram mais do que necessárias para ajudar a tirar o país da maior encrenca em que já se vira metido (e não é de hoje que os EUA são criativos para se meterem em encrancas…): uma guerra mundial para qual não estavam preparados.

A idéia de ter mulheres em funções de combate hoje em dia não chega a despertar estranheza; a idéia de que mulheres trabalhem fora de casa, então, não chega a espantar qualquer pessoa. Mas nem sempre foi assim. Até o ataque japonês a Pearl Harbour, fato que lançou os EUA na 2ª GM, a quase totalidade da força de trabalho norte-americana era masculina. Até mesmo nas grandes cidades, era algo incomum encontrar mulheres em postos de trabalho remunerado. A partir dos anos 1920, alguns tipos de trabalho passaram a ser ocupados majoritariamente por mulheres, como, por exemplo, telefonistas, secretárias e professoras do ensino básico. Eram normalmente trabalhos adequados “à natureza feminina”: não exigiam força física (que, segundo se dizia, as mulheres não tinham) nem muita agilidade intelectual (idéia que até hoje surge por aí…) e lhes permitiam expressar a delicadeza e a “graciosidade”. De fato, o lugar reservado para as mulheres, na sociedade, era mesmo a família, cuidando de crianças e fazendo biscoitos…

Para que as mulheres deixassem tal posição, seria preciso uma crise grande o suficiente para que faltasse mão-de-obra no mercado de trabalho. Ao longo do século 19, as crises não chegaram a tal ponto: haviam homens suficientes para ocupar os postos de trabalho existentes sem que os salários aumentassem muito. O interessante é que, durante a segunda metade do século 19, conforme a economia se expandia com a Segunda Revolução Industrial, não houve guerras muito grandes e longas, que obrigassem a convocação de número considerável de homens adultos. A coisa mudou com a 1ª GM: a convocação maciça da porção masculina da sociedade, notadamente após 1916, chegou a obrigar alguns países europeus a lançar mão de grande número de mulheres jovens como força de trabalho industrial, embora tais números não tenham chegado a provocar uma inversão notável na composição da mão-de-obra. Nos EUA, a entrada tardia na guerra, e o número relativamente pequeno de efetivos enviados à Europa, a partir da segunda metade de 1917, não chegou a constituir problema sério para a constituição da força de trabalho. Nos anos posteriores ao fim do conflito, a expansão da economia criou postos de trabalho para todos aqueles que retornavam do front. A crise geral de 1929, por sua vez, expulsou do mercado de trabalho, nos EUA, cerca de vinte por cento do trabalhadores, e reduziu drasticamente o salário dos restantes. Nessa conjuntura, as mulheres permaneceram em casa enquanto os homens perambulavam pela rua a procura de uma ocupação.

O enfrentamento da crise econômica só seria encaminhado a partir de 1932, com a implementação do conjunto de políticas intervenconistas denominado “New Deal“. De início, as políticas de revitalização econômica através de fortes investimentos governamentais em obras públicas e assitência social não incluíram as forças armadas, cujo tamanho tinha sido drasticamente reduzido depois da 1ª GM. Além do mais, durante os anos 1930 a crise não deu sinais de que recuaria rapidamente, de modo que a eclosão da guerra na Europa encontrou a “grande depressão” apenas parcialmente resolvida. Isto explica, em parte, a conhecida relutância dos EUA em encarar uma possível participação no conflito, ainda que seus interesses nacionais no Pacífico estivessem fortemente ameaçados. Mas o país tinha sido tomado, após o fim da Grande Guerra, por forte mentalidade isolacionista, e o grosso da população, maltratada pela crise econômica, tendia a enxergar os problemas europeus como “problemas estrangeiros”. Ainda assim, a partir de 1940 o governo norte-americano passou a projetar uma participação “relativa” na guerra, com o presidente Franklin Delano Rooselvelt disposto a auxiliar os ingleses em sua luta contra o nazismo através de apoio econômico e industrial (concretizados na política de “Empréstimos e aluguel” – Lend-lease – concretizada no início de 1941). O potencial militar dos EUA (aquela altura, nada muito considerável) seria empenhado apenas na defesa hemisférica – defesa das águas domésticas no atlântico norte e apoio e liderança às políticas de defesa dos países latino-americanos.

Entretanto, a mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. De fato, os planos de mobilização industrial e militar já vinham sendo elaborados desde 1930 e examinaram detalhadamente a forma como o país organizaria a administração civil, as forças armadas e a indústria numa possível guerra generalizada. A base era a doutrina de que a gestão da economia e particularmente o controle da indústria nessa possível guerra seriam funções presidenciais por excelência. Essas funçôes seriam delegadas à agências executivas, em grande parte compostas por civis especializados e chefiadas por um staff de total confiança do chefe da nação. O planejamento antecipado foi uma boa solução: a idéia era de que o problema, quando e se surgisse, provavelmente seria maior do que qualquer serviço ou departamento, sozinho, poderia dar conta. Em 1940 a equipe presidencial convocada já dispunha de um projeto que previa os métodos e instrumentos de controle econômico em tempo de guerra, a partir de listas de necessidades e prioridades para instalações, indústrias e produtos, para o controle do comércio exterior, e até mesmo para o estabelecimento de empresas estatais de emergência, controle de preços e da opinião pública.

Em maio de 1940, o Roosevelt lançou, numa mensagem dirigida ao Congresso dos EUA, o desafio dos “50 mil aviões” (uma Força Aérea de 50.000 aeronaves e a produção de outras 50.000 a cada ano) e encaminhou um pedido de dotação orçamentária suplementar para a defesa. Paralelamente, montou, no gabinete presidencial, o “Escritório de Gerenciamento de Emergências”, que deveria coordenar o esforço de mobilização. A “Comissão Consultiva de Defesa Nacional”, mais ampla, avaliaria os problemas de mobilização de recursos e prepararia planos abrangentes para vários estágios do processo. Essa comissão se não durar um ano, e foi sucedida pelo “Escritório de Gestão da Produção”, também logo dissolvido. O clima político não foi lá muito receptivo a uma mobilização em escala industrial e a população também olhava a guerra como um problema europeu.

A mobilização propriamente dita começou no final de 1939 e se acelerou no clima um tanto deprimente (para o governo Rooselvelt) dos sucessos militares alemães da primavera de 1940. Esta fase, uma transição ordenada prevista no plano de mobilização industrial de 1939, logo foi abandonada. Se por um lado o ataque aéreo contra Pearl Harbour  mobilizou a população para a causa da guerra, por outro o problema mostrou-se ainda maior do que tinha sido imaginado: o teatro do Pacífico exigia intervenção imediata, os ingleses queriam mais do que ajuda econômica e os soviéticos, tornados aliados a partir de junho de 1941, passaram a clamar pela abertuda de uma “segunda frente”. A mobilização da sociedade passou a ter como objetivo aguentar o tranco até a montagem de forças armadas grandes o suficiente para intervir em todas essas frentes, mas seriam necessários, para começo de conversa, algo em torno de 1.o00.000 de efetivos no Exército, 50.000 na aviação e 300.000 na marinha,  e num prazo de aproximadamente seis meses.  É claro que as forças armadas precisariam de equipamentos e munições, e essas teriam de proceder das fábricas que as próprias forças armadas iriam esvaziar. Inicialmente, se pensou em uma convocação que preservaria as áreas mais sensíveis da produção. Foram precisos apenas poucos meses para que ficasse evidente: não ia dar certo. A sucessão de vitórias japonesas, ao longo da primeira metade de 1942, e a campanha dos submarinos alemães contra a navegação mercante na costa oriental dos EUA mostrou que a magnitude da convocação exigiria soluções radicais.

Pouco antes, o o governo começara a encarar seriamente a convocação de mulheres para ocupar os postos de trabalho que iriam vagar com a incorporação dos homens adultos às forças armadas. As pesadas baixas iniciais mostraram com clareza e crueza a crise em que o país se via mergulhado. Em função da propaganda, não seria difícil fazer com que as mulheres aderissem ao esforço de guerra, mas não se poderia esperar que elas o fizessem de forma absolutamente espontânea, como os homens estavam fazendo no que tange ao alistamento nas forças armadas. Seria preciso apelar ao sentimento patriótico das mães e esposas norte-americanas, e isto teria de ser feito através de grandes campanhas publicitárias.

O governo norte-americano passou a montar, a partir de 1942, com a assistência de grandes agências, sucessivas campanhas que conclamavam as mulheres a assumir,  na indústria, funções até então vistas como masculinas. Tais funções seriam indicadas tais funções como “postos de combate” de um “frente interna” (em inglês, Homefront) que exigiria a participação de todos. É interessante observar que a campanha We can do it!, lançada em fevereiro de 1942 – quer dizer, logo no início da guerra –, mostra uma mulher jovem, com o rosto determinado, fazendo um gesto tipicamente masculino. Era a  primeira cara de Rosie, the Riveter (“Rosinha, a rebitadora”), personagem que se tornou o símbolo da mulher norte-americana durante a 2ª GM.

A imagem foi criada pelo artista J. Howard Miller, por encomenda do Comitê de Coordenação da Produção de Guerra da empresa The Westinghouse Company, indústria eletroeletrônica produtora de peças para aeronaves de combate. A mais famosa dessas imagens foi baseada em uma fotografia feita numa fábrica da empresa em Michigan, e retratava uma trabalhadora de 27 anos de idade chamada Geraldine Doyle. Nessa época, a personagem não era chamada de “Rosie”, nome que, por incrível que pareça, só foi adotado no final dos anos 1970, ou seja, mais de quarenta anos depois do lançamento.

A campanha teve enorme sucesso e o objetivo inicial foi rapidamente cumprido: a indústria conquistou a força de trabalho feminina. O setor aeronáutico viu crescer de forma notável o número de mulheres em suas linhas de produção. Mais de 310.000 delas trabalhavam nessa indústria em 1943, representando mais de 65 por cento do total da força de trabalho dessa indústria. A magnitude desse porcentual não precisa ser frisada: em 1939, cerca de um por cento da mão de obra dessa indústria era composta por mulheres. A indústria de munições também passou a recrutar trabalhadoras em grande número.

O sucesso feminino nas novas atividades devia-se, em parte, às características do trabalho desenvolvido. De fato, fabricar aviões ou preparar cartuchos não exigia força física, já que a força propriamente dita era feita pela máquina. A indústria moderna, organizada no final do século 19, colocava os trabalhadores como operadores de máquinas, e o conjunto máquina-operador executava pequenas tarefas de forma mais ou menos automatizada e altamente repetitiva. O conjunto dessas tarefas resultava no produto acabado. Os movimentos realizados eram poucos e simples (apertar um gatilho ou acionar uma alavanca ou um pedal, por exemplo), em posições próximas uma das outras. O operário não precisava se deslocar, ou o fazia em extensões muito pequenas, visto que o objeto do trabalho é que se deslocava, ao longo de uma linha. Ferramental acionado por força eletromecânica, pneumática ou hidráulica tinha de ser deslocado até um ponto bastante preciso dentro de um objeto maior. Dessa forma, o operário não precisava entender plenamente o que estava fazendo, desde que seguisse a risca uma série de instruções. Caso tivesse dúvidas, remetia-se a um esquema gráfico que indicava por imagens ordenadas sucessivamente o que tinha de ser feito. Um operário desses precisava ter um grau de instrução relativamente baixo, e o treinamento era muito fácil, aprendido na própria linha de montagem. O decorrer do trabalho era supervisionado o tempo todo por capatazes – estes, em geral, do sexo masculino. E, apesar da admitida necessidade da força feminina para o esforço de guerra, isto não significou vantagens salariais: dificilmente uma operária ganhava mais do metade do ordenado pago a um operário. Os capatazes quase nunca eram mulheres, e os cargos de supervisores e gerentes eram virtualmente fechados ao sexo feminino.

Conforme as mulheres se juntavam às linhas de produção, as campanhas começaram a mostrar as qualidades que se esperava de uma “combatente da frente interna”: forte, disciplinada, dedicada. Masculinizada, mas sem perder certas características femininas. Essas campanhas começaram a apresentar, a partir de maio de 1943, a nova “Rosie”. Esse redesenho da personagem aparece com uma ilustração do artista gráfico Norman Rockwell, na capa da revista Saturday Evening Post. Rockwell é conhecido por seus desenhos altamente realistas do americano comum, apanhado em cenas cotidianas. Sua “Rosinha”, entretanto, incorpora todos os atributos geralmente atribuídos aos operários industriais, inclusive o macacão de zuarte (um tecido de mescla de algodão, juntando fios mais grossos e mais finos, muito parecido com os blue-jeans), que os fazia serem chamados de “colarinhos azuis”, em oposição aos “colarinhos brancos” da administração. Ela é mostrada na hora do almoço – um sanduiche, que pode ser consumido rapidamente nos vinte minutos de intervalo que as operárias tinham para almoçar. É interessante observar que a cena, um verdadeiro discurso patriótico feito com imagens, incorpora a “arma” da “combatente”: um rebitador, mas de proporções bem maiores do que aqueles usados na indústria de equipamento militar (que tinha aproximadamente as proporções de uma furadeira elétrica de impacto), uma enorme bandeira dos EUA e, debaixo dos pés de Rosinha, um exemplar do “Mein Kampf”, o panfleto de Hitler transformado em livro sagrado dos nazistas. O mais interessante nessa imagem são as proporções masculinas que Rockwell atribuiu à sua personagem, a começar pelos braços musculosos. Alguns intérpretes afirmam que essa imagem tem atributos das imagens religiosas compostas durante a Renascença, e que a composição teria sido intencional, feita para dar tons religiosos à mensagem patriótica buscada com a composição.

As campanhas publicitárias prosseguiram por toda a Guerra. As revistas ilustradas estampavam reportagens fotográficas com “Rosinhas da vida real”: uma rebitadora da General Motors na cidade de North Tarrytown, NY, que instalou 3.345 rebites em um bombardeiro Avenger, merecendo pelo feito uma carta de agredecimento do presidente Rooselvelt. Essas “mulheres da vida real” passaram a merecer atenção da imprensa não propriamente como trabalhadoras empenhadas em funções industriais regulares, mas como ocupantes de funções ”masculinas” num momento atípico em que os homens não estavam disponíveis::

Diário de viagem das férias de causa::Sobre democracia, crises e bombeiros::

Pois é… Ninguém ainda reclamou que causa:: está de férias já vão mais de dois meses. O que não significa que, neste período, eu não tenha visitado o blogue com frequência: alguns de meus próprios recursos de pesquisa estão plantados nele. Um de meus objetivos sempre foi esse: compor, para meu próprio benefício, uma pequena enciclopédia, facilmente acessível, de assuntos aleatórios em torno de temas militares, estratégia, e seus desdobramentos. E, nessas visitas, não tive como não ficar que feliz e algo pimpão ao verificar que o número de visitas diárias manteve-se constante. Com satisfação, noto que o benefício migrou para outras pessoas, que continuam a ver interesse no conjunto de postagens e, possivelmente, nas indicações de recursos de pesquisa. Tive, recentemente, duas demonstrações desse palpite – um tanto egocêntrico, reconheço: artigos do blogue foram citados por um catálogo de museu e durante um simpósio acadêmico.

Assim, sinto-me animado a continuar, apesar de uma curiosa falta de assunto que me assola – e o interessante é que assuntos não faltam. As revoltas populares no Oriente Médio, os dilemas da OTAN, que parece cada vez mais sem função; a special op meio bufa, que resultou na morte de Osama bin Laden; o estado de guerra entre Líbia e as potências (atualmente nem tão potências assim…) européias; a postura cada vez mais “assertiva” da China, cujas forças armadas crescem de maneira notável – e dentre esse crescimento, o mais notável é o da Marinha (os gastos chineses em defesa mais do que dobraram), coisa que pode indicar pretensões de projeção estratégica de poder. Também poderíamos dizer que a crise econômica européia, com a recente bancarrota da Irlanda, Grécia e Portugal, que logo podem ser seguidas por Espanha e Itália, é assunto de interesse estratégico e militar, pois já está provocando contração nos gastos militares locais. Essa contração – por sinal, observada em todo o mundo – poderá significar que logo teremos generosos oferecimentos das indústrias militares européias, de sistemas de armas modernos em condições de pai para filho. O que isso poderá significar, para nosso país? Sabe-se lá. As principais pendências das forças armadas brasileiras continuam em suspenso: não se fala mais nos caças, nem nos navios de superfície. De positivo, a aquisição, pelo Exército, de uma nova linha de VBTPs (“Viatura Blindada de Transporte de Pessoal”) – o “Guarani”, a ser fabricada pela IVECO, em Minas Gerais. Fala-se da incorporação, nos próximos 15 anos,  de algo em torno de dois e meio milhares de unidades; também anda sendo discutida a substituição do FAL como arma padrão da força terrestre.  Também poderia ser um bom assunto a aquisição, pela MB, de oito aeronaves C1Trader, dos estoques na Marinha dos EUA. Trata-se de um modelo adequado às funções de COD (Cargo Onboard Delivery, ou seja, “Abastecimento direto a bordo”) e REVO (“Reabastecimento em vôo”). São aeronaves obsoletas, mas passarão por programas de modernização, nos EUA. O que isto pode significar? Que, a médio prazo, a MB tem planos de adquirir um outro navio-aeródromo, de maior porte, e talvez ampliar a aviação naval. Ao que parece, estamos às vésperas de uma significativa reestruturação da Marinha, que se seguirá à que vem sendo feita, desde os anos 1980, nas outras forças singulares. As principais unidades da Força Terrestre tem sido retiradas das grandes cidades e transferidas para as fronteiras; a FAB começa a reposicionar seus principais meios. No caso do EB, a tendência é que nos grandes centros fiquem as organizações de ensino e treinamento, administrativas e de referência; a FAB pretende voltar parte de sua atenção para o “vazio amazônico” e para as “fronteiras verdes” onde o EB já se encontra, com seus “Pelotões de Fronteiras”, suas excelentes unidades de infantaria de selva e parte das unidades aeromóveis. A integração terá de ser considerada visto que a FAB deverá oferecer ao EB e às polícias capacidade de vigilância aérea avançada (Early Air Warning) e apoio aéreo. É claro que, em termos de Brasil, nunca se sabe, visto que os políticos daqui, independente da coloração e de serem governo ou oposição, parecem achar que o país não precisa de forças armadas (temos de admitir que a excessão foi o governo Lula, e isto os próprios militares reconhecem).

Mas o assunto militar que me pareceu mais interessante não diz respeito propriamente às forças armadas, mas à uma das “forças auxiliares” – como são chamadas, eufemisticamente, algumas das corporações policiais brasileiras: a greve do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Por que? Alguns dos assíduos devem lembrar que causa::andou mexendo no assunto. Emboran ninguém pareça lembrar que os bombeiros fazem parte das corporações militares estaduais, os “soldados do fogo”, militarizados desde o final do século 19, são parte  das pequenas forças militares com que, no início do século passado, foram dotados os governos estaduais. Essas forças tinham por função manter a ordem interna (que dizer: o poder nas mãos certas), tornando mais difícil a intervenção do governo federal nos assuntos locais. De toda forma, PMs e bombeiros são corporações militares, reguladas por regras diversas daquelas que regem as categorias civis da sociedade.

E é esse o “xis” da questão: até onde eu saiba, militares não podem fazer greve. Esta é uma característica estritas dessas corporações, em todo o mundo, em função de terem sua base plantada sobre os princípios da disciplina e da hierarquia.

As corporações militares não são democracias. Isto é o mesmo que dizer que, num estado de direito, estão subordinadas aos poderes civis, e são diretamente comandadas pelo chefe do estado, visto que as FAs fazem parte da estrutura permanente do estado. Por outro lado, as regras que regem e dirimem conflitos em outras categorias da sociedade civil não têm efeito no cotidiano militar.  Vale dizer: num estado de direito, a sociedade civil é caracterizada pelo respeito à lei, pluralidade de idéias e pelo conflito mediado. Nas FAs, em última análise, o conflito não existe e as ordens e determinações de comandantes designados independente de consulta pública devem ser obedecidas sem questionamento – e ponto final. Existem mecanismos que possibilitam a um subordinado reclamar de uma ordem injusta ou de um comportamento considerado inaceitável, por parte de um comandante, mas esses mecanismos são constituídos por canais estritos, e não se assemelham aqueles vigentes na sociedade civil. Se a tropa tem reivindicações, estas devem estar de acordo com o regulamento (por exemplo: não é possível reivindicar a mudança do modelo de uniforme ou da saudação militar) e devem subir seguindo a cadeia de comando, até onde se encontre um agente autorizado a examiná-las – sempre dentro do regulamento. Pressupõe-se, entretanto, que certas questões, por serem de juízo superior, não podem ser discutidas e muito menos postas em dúvida. Questões salariais são uma dessas.

Um soldado, ou grupo deles, que se recuse a cumprir o regulamento estará comentendo uma violação gravíssima: rompendo a cadeia de comando. Em qualquer país do mundo, democrático ou não, isto tem um nome: insubordinação. Assim, “greve” numa corporação militar não passa de motim; passeata de militares, abandono não autorizado de posto. Motim não é justificável: o militar amotinado é excluído e penalizado. O abandono de posto até pode ser eventualmente justificado, mas depois de ser o transgressor preso e submetido a procedimento disciplinar. 

Assim, em primeiro lugar, a “greve” do CBMRJ é gravíssimo caso de indisciplina militar, e como tal deve ser tratado. Mas é também um angu de caroço político, dados os fatores que o cozinharam e o temperam, a começar pelo fato de que os bombeiros são muito mal pagos, e a população civil é amplamente simpática à corporação e a seus membros. Os bombeiros estão dentre as poucas categorias profissionais amadas pela sociedade (de forma mais-ou-menos semelhante, só consigo lembrar dos professores primários e de ensino médio, que os governos também vem maltratando, sistematicamente, há mais de trinta anos…). É interessante observar que até mesmo a imprensa, que não passa dia sem falar no “excesso de gastos com o serviço público” (e frequentemente acusa grevistas: causam problemas e atrapalham tudo, do trânsito à vida dos homens bons) tem colocado como “justas” as reivindicações dos soldados do fogo. A invasão do Quartel Central, no Rio tornou a situação ainda mais complicada, visto que a atitude do governador – que, em princípio, não poderia ter sido outra – de ordenar o uso da força para retomada das instalações daquela organização militar e a prisão de 429 efetivos envolvidos, catalisou a simpatia da população da cidade. Talvez facilite um pouco imaginar os soldados do BOPE entrando em greve e invadindo  o quartel da Rua Campo Belo, e logo depois, os “caveiras” promovendo uma passeata na Avenida Atlântica. É muito pouco provável que os moradores das redondezas estendessem panos negros nas janelas, como fizeram no dia do evento.

Toda essa situação foi precipitada pelo estado de penúria em que vivem  esses profissionais e, por extensão, suas famílias. Afinal, a profunda cisão que existe na sociedade brasileira, com elites gozando de todos os privilégios e a grande massa popular vivendo com dificuldades, repete-se nas forças armadas. O uso que vinha sendo feito pelo governo do estado do Funesbom, formado pela arrecadação da “taxa de incêndio”, é prova acabada do modo perverso como tais vicissitudes batem continência nas corporações militares. Tal situação tornou-se mais perceptível na medida em que, nos últimos anos, o desenvolvimento econômico do país, que possibilitou maiores chances de progresso pessoal e social a profisionais com qualificação técnica, também colocou em evidência a má situação social e econômica das categorias militares. O “oba-oba” do governo com relação ao sucesso econômico (culminando com a conversa do “pibão”, no início do ano) teve como efeito colateral evidenciar o fato de que esse mesmo governo (considerando todas os níveis), tem deixado seus servidores como última prioridade. As autoridades pedem “sacrifícios” e “paciência” a categorias que não fazem outra coisa – e no caso das categorias militares, sem instrumento algum de negociação.

A panela de pressão apitou, como se dizia em meu tempo de estudante. O apito, em minha opinião, avisa que a “questão militar” tem de ser tratada pelas autoridades com maior seriedade, e não com a tática de empurrar com a barriga e tentar jogar a opinião pública contra elas – tática por sinal usada com todo o serviço público. O governador do Rio de Janeiro, pelo modo como enfrentou a crise, parecia não dispor de informações completas sobre o problema. Quando teve de se manifestar sobre o evento do Quartel Central, o fez de meneira totalmente inepta. Pouco tempo atrás, Cabral tomou a atitude inédita – podemos dizer, histórica – de restabelecer a autoridade civil e a ordem sobre um enclave controlado por marginais armados. Naquele episódio, agiu com ponderação notável; já neste… Deveria ter chamado a atenção do público para a questão da hierarquia e da disciplina, e colocadado a questão salarial de forma honesta e direta. Preferiu invocar histórias chorosas e não comprovadas sobre “criancinhas postas em risco por baderneiros e inocentes úteis” e tentar uma saída pela tangente: oferecer gratificações que não resolveriam nada.

A mesma coisa, certamente, não acontecerá com a outra força militar estadual: a PMERJ – esta muito mais perigosa do que os simpáticos bombeiros. E é altamente improvável que aconteça nas forças armadas regulares, onde a disciplina estrita mantém tais situações sob controle. Claro que sempre pode aparecer um maluco do tipo do capitão paraquedista Jair Bolsonaro, que, em 1987, mostrou-se disposto a usar seus conhecimentos técnicos como forma de protesto contra os baixos salários que tornavam os oficiais militares reféns de administradoras de imóveis e agiotas. É muito mais provável que oficiais da FAB cada vez mais peçam dispensa muito antes do tempo para usar o excelente treinamento como pilotos de asa fixa e asa rotativa – pago com meu-seu-nosso dinheirinho – em empresas de taxi aéreo; e que oficiais e graduados da Marinha dêem baixa para ocupar lugar nos passadiçoes e casas-de-máquinas dos supply vessels que abastecem as plataformas oceânicas que logo irão tornar nosso país o terceiro ou quarto maior produtor de petróleo do mundo… Essa situação, além de deixar bem claro o uso irracional feito do dinheiro público por nossas autoridades, torna o país potencialmente refém de qualquer potência média que venha a nos atacar. Mas… Somos um país pacífico, não é o que dizem?..::

A batalha do Rio de Janeiro::Planejando para depois::

Eis aí uma bela foto, pelo menos para quem se preocupa com os assuntos geralmente tratados aqui no causa:: Pois é… Não consigo parar de falar na “batalha do Rio de Janeiro”, mas confesso: começo a mudar de opinião… É uma guerra, sim. E uma guerra com um detalhe interessante: planejada, desde o começo.  Talvez pelo fato de que não é propriamente uma “guerra”, mas uma ação decidida do estado, ou seja, das autoridades constituídas, para retomar o controle de porções significativas do território formal.

Até o momento tem sido bem sucedido. O motivo, me parece, é o fato de que as populações que habitam esses territórios querem ser tratadas como cidadãos, e não propriamente como habitantes de uma região ocupada. Alguns dias atrás, prestei atenção em uma cena transmitida pela TV, na qual um helicóptero Agusta Bell 212 voa sobre o Complexo do Alemão, com atiradores de escol posionados em ambas as portas laterais. O cenário de fundo era o panorama interminável de casinhas, e a função dos policiais posicionados não era, de fato, dar tiros – até porque o complexo está totalmente pacificado. A função desses policiais – altamente especializados – seria vigiar as atividades no chão. Abre parentese: o AB 212 é aquela aeronave adquirida diante da situação de pânico criada pela má qualidade das informações disseminadas na época  em que um helicóptero Esquilo foi derrubado por tiros disparados durante uma operação policial; na época, fiquei esperando o momento em que os jornais exigiriam a aquisição de helicópteros de ataque “Apache” para a polícia carioca, embora, pessoalmente, se o negócio é tanque voador, prefiro o Mil Mi24. Fecha parentese.  

Encontrei um bom texto num dos foruns especializados da Internet. É claro, como não podia deixar de ser, o infográfico da notícia dava informações estapafúrdias, que foram corrigidas pelo editor do fórum – paciência, não se pode esperar nada melhor. O texto, um pouco cortado, é o seguinte…

“De olho na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016, uma frota de helicópteros comuns e blindados, já em processo de compra, vai reforçar o patrulhamento aéreo da Região Metropolitana da cidade. O projeto prevê a aquisição para o Grupamento Aéreo e Marítimo (GAM) da Polícia Militar de 16 aeronaves, que vão permitir vigiar as vias expressas, bairros e favelas. ´O uso do helicóptero no patrulhamento permite baixar os índices de violência, já que a presença dele inibe a ação de criminosos. Sem contar que este recurso como apoio permite a redistribuição das viaturas, aumentando a área de atuação e a eficácia do policiamento´, define o comandante do GAM, tenente-coronel Eduardo Ribeiro. Semana passada, O DIA acompanhou uma manhã de patrulhamento do GAM nas zonas Norte e Oeste e no Centro. Saindo da base do grupamento, em Niterói, a aeronave modelo Esquilo chegou à Avenida Brasil em poucos segundos. Em apenas dois minutos, já sobrevoava Bangu e, na sequência, foi para o Méier checar informação recebida pelo rádio sobre o bloqueio numa rua onde ocorria manifestação. Pendurados nas laterais do helicóptero, que transporta até seis passageiros, PMs armados com fuzis ficavam atentos à movimentação lá embaixo. ´Passamos próximos para ter melhor visualização e compreensão do que se passa. Dá para ver as pessoas, as casas, a movimentação nas ruas e carros, tudo´, frisou um dos sargentos que monitoram a cidade do alto. Outra novidade atende pelo nome de ‘PMCop’. Serão aeronaves equipadas com câmeras de alta definição, capazes de monitorar vários pontos da cidade. A ideia é que esses helicópteros façam uma espécie de ‘Big Brother’ aéreo, captando imagens para identificar, ainda mais rápido, os crimes ocorridos. Os aparelhos também são blindados.”

Um dado é interessante de ser observado: a ampliação da dimensão de abordagem da cidade, que agora inclui a vigilância aeromóvel em tempo real. Vale à pena lembrar o fato de que um dos intelectuais chamados a comentar a “batalha do Rio de Janeiro” tentou estabelecer uma comparação entre a operação planejada pelas autoridades cariocas e a Blitzkrieg. O engano do respeitável professor, um dos grandes especialistas acadêmicos em  Guerra do Paraguai, em atuação, foi achar que Blitzkrieg é necessariamente algo que envolve tanques. Eu diria que, mais do que isso, a Blitzkrieg, como doutrina, envolve uma ampliação exponencial das dimensões do teatro tático, possibilitada, inicialmente, pela introdução da “busca da iniciativa” como fator definidor dos limites do campo de batalha. É interessante pensar que as “Tropas de choque” alemãs, durante a 1ª GM, buscavam na iniciativa uma forma de romper o impasse da “perda do movimento” – o fenômeno que resultou, no final de 1914, na guerra de trincheiras. 

Certamente não posso dizer se a guerra européia do início do século 20 teria estado na cabeça dos planejadores cariocas. Eu duvido: nossas autoridades não tem o hábito de estudar história. Mas que alguns aspectos daquela guerra estiveram presentes nos dias memoráveis que vivemos por aqui, estiveram. A começar pela negação às quadrilhas cariocas, do uso do território (seria o de outra pergunta, ainda mais esdrúxula: as autoridades cariocas leram Clausewitz?..). Também é interessante lembrar que Rommel, ao fim de sua experiência como comandante da 7ª Divisão Panzer, no teatro ocidental, declarou que a única forma de comandar uma unidade dessas seria com um rádio no ouvido… de dentro de um avião. Isso permitiria ao comandante estar em todos os lugares ao mesmo tempo. É isso que permitem, agora, os helicópteros, e a experiência dos repórteres de O DIA, apresenada acima, mostra como muda a capacidade de intervenção das forças de segurança, quando lhes são dadas asas.

Também é interessante observar como se estrutura a “guerra em rede”: informações em tempo real são alticuladas em postos de comando, que redirigem os agentes envolvidos para os pontos do “teatro” onde eles poderão ser mais necessários. É claro que o piloto de um helicóptero Apache, pairando sobre um bairro de Bagdad, observando uma tela minúscula na qual apareciam homens que “pareciam portar armas” deve vir à cabeça de todo mundo, neste momento (essa imagem foi um dos primeiros golaços do site Wikileaks). A questão é que, em Bagdad, os militares norte-americanos estavam em uma situação de confronto aberto, e este não é o caso do Rio de Janeiro. No caso de Bagdad, foi dado aos tripulantes do “Apache” o direito de decidir se abriam fogo, com um canhão de 30 mm (capaz de derrubar uma casa com uma rajada padrão de três segundos), contra um grupo mal-identificado. No Rio de Janeiro, não deve ser dado este direito aos tripulantes de helicópteros – ou seja: a cadeia de comando não pode ser rompida em hipótese alguma. Por sinal, Bagdad não lembra o Complexo?.. Vamos miniaturizar: boa parte das centenas de “baixas colaterais” observadas nos enfrentamentos entre policiais e traficantes pode ser atribuídas à liberdade de ação dada aos policiais em campo. Numa operação militar, essa é a via mais curta para o desastre::

A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé::

Parece que minha análise sobre a “guerra de imagens” em torno da “batalha do Rio de Janeiro” não chegou a agradar totalmente. Isto a julgar por algumas das mensagens postadas nas caixas de comentários dos dois postos, e as mensagens de correio eletrônico enviadas diretamente (até o momento, no total, foram 26 comentários). Talvez minha busca por “ferramentas de análise” não tenha chegado a dar conta do objeto.

Lamento, companheiros, mas o fato de que vocês não concordem comigo – coisa que acho absolutamente normal – não invalida a análise. Por sinal, essa tentativa se enquadra no que é chamado “análise do discurso”, uma disciplina acadêmica que merece a atenção inclusive de agências de informação. A análise do discurso político contemporâneo pede que se leve em consideração o aparato áudio-visual de informação, que mobiliza uma enorme quantidade de imagens. Com base nessa premissa é que afirmo que nada do que foi dito ou mostrado o foi por acaso. Nem a mobilização de um aparato militar em meio à vida cotidiana da cidade, com ampla cobertura da imprensa, e nem o uso de expressões que estavam aparentemente esquecidas. E muito menos a farta exibição de bandeiras nacionais drapejando sobre o território “reconquistado”.

Assim, minha conclusão é que a “batalha do Rio de Janeiro” foi mais um desdobramento da “guerra de 2010” – acho que está claro de que “guerra” falo, não?.. – e que estivemos, de fato, diante de uma “batalha de imagens” que foi desdobramento de uma “batalha de discursos”. De um lado, aquele mobilizado pelas autoridades; do outro, um que ordenava argumentos para provar a incapacidade daquelas autoridades.

Continuo também afirmando que a forma como se estruturou a cobertura da “batalha” pelos principais meios de comunicação da cidade indica que a inesperada competência das autoridades constituídas do Rio de Janeiro (coisa rara, reconheço) em mobilizar ordenadamente todo o aparato burocrático e tecnológico posto à disposição dos Estados modernos surpreendeu os jornalistas da grande imprensa, tanto quanto a ofensiva das forças policiais-militares surpreendeu o exército mambembe do tráfico. Mais: também afirmo que a imprensa tradicional esperava um retumbante fracasso das autoridades estaduais, e a análise dos quatro dias de cobertura do jornal “O Globo” e da Rede Globo de Televisão indica um crasso erro de avaliação desses órgãos de imprensa, que caíram na própria manipulação. Por este motivo escolhi cuidadosamente a segunda tese de Debord: “A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio.”

Quando o mentiroso “mente para si mesmo”, o resultado é o festival de imagens manipuladas da quinta-feira, dia 25, e de ambigüidades escritas, na sexta e no sábado seguintes. A televisão replicou de modo interminável as imagens do “exército do tráfico” e suas “armas pesadas” em debandada pela “rota de fuga”, e a manchete do “vibrante”, no sábado, estampava “Intenso tiroteio entre Exército e tráfico abre Batalha do Alemão”.

Aparício Torelli deve ter rolado no túmulo…

O fato é que ontem (segunda-feira) os dois órgãos de imprensa já tinham, aparentemente, reconhecido, internamente, a sucesso da estratégia do governo – que, diga-se de passagem, tinha adotava quase todas as reivindicações veiculadas pela própria imprensa, ao longo de anos, em suas matérias, principalmente a mobilização das forças armadas. Melhor aderir. Suas páginas, impressas e eletrônicas, cobriram amplamente o restabelecimento da ordem pública naqueles espaços do território político, pela PMERJ e pelas forças armadas nacionais. As manchetes passaram a celebrar a retomada do Alemão e as imagens, a mostrar as forças policiais-militares triunfantes e o entusiasmo da população local; os comentaristas acadêmicos e suas patacoadas sumiram e foram substituídos por um dos gozadores água-com-açúcar do humorístico “Casseta e Planeta”… elogiando a polícia (isto sim, “é inédito em 30 anos”, se me permitem parafrasear o cometarista Paulo Storani). No “Fantástico”, as imagens mostraram o jornalista Marcos Uchoa percorrendo a mesma a “rota de fuga do exército do tráfico”, como se fosse um correspondente de guerra, comentando sobre os destroços e conversando com efetivos do BOPE. Mais significativa ainda foi a matéria “Operação muda até a rotina na TV”. Não consegui localizar o texto na Internet (prometo que continuarei procurando e, se encontrar, o coloco aqui), mas é muito significativa a foto, de três colunas, de um repórter não identificado, mostrado em tomada frontal, plano médio, vestido com uma proteção corporal e um microfone, bem visível. Não é possível dizer que aquilo tenha sido “casual”. Não foi: a linguagem da foto em tudo emula fotografias de soldados, individualmente. Ao que parece, o “vibrante” tentava se associar ao movimento que, em toda a cidade, reconhecia e comemorava o evento.

E hoje? No que tive oportunidade de passar os olhos pelo jornalão (ontem o trabalho impediu-me de ver televisão ou escutar rádio), dois assuntos estampados da primeira página me chamaram atenção (acho que chamariam de qualquer um, mas agora… sei lá… posso estar delirando…). “Duas perguntas”, forma colocadas na boca da “população carioca”: “para onde foram todos os traficantes?” e “onde estão suas armas?”. Em seguida, o mesmo texto, numa espantosa manobra semântica (que não foi inventada por meu “lulopetismo”, descoberto pelo Luís Candido – acabei de verificar, por via de dúvidas), informa o “vibrante matutino” que a polícia está investigando a fuga de “muitos dos 600 traficantes pela galeria fluvial do PAC”. Sim – descobrimos que não é uma galeria pluvial, mas uma galeria pluvial “do PAC”. Uma galeria pluvial do governo federal. E, como se já não bastasse, Merval Pereira, o colunista que não sabe distinguir entre um Urutu e um M113, já não sugere, mas afirma: “as bandeiras hasteadas no teleférico do Complexo do Alemão que, se por um lado sinalizavam uma vitória das forças legais, também relembram que as obras do PAC estavam sendo feitas com a favela dominada pelo tráfico, o que demonstra que havia um acordo com os traficantes.” Então ficamos combinados assim: para quem não sabe, o governo “do chefe de facção” maior, o presidente da República, combina obras com os chefes de facção do Complexo do Alemão.  

Até admito, por outro lado, que posso estar exagerando com a análise do discurso, mas diria, parafraseando o ministro Juraci Magalhães, que “o que é bom para as agências de informação dos EUA, é bom para o causa:: Mas, mesmo dando o desconto, acho que concordaremos todos que uma grande estrela emergiu desse “xóu”: o FMC M113A1 do Corpo de Fuzileiros Navais. A seguir, vamos falar um pouco neles, até para prestar um serviço ao Merval, que talvez aprenda a distinguir entre VBTP(L) e VBTP(R). Mas vamos deixar claro desde já: embora eu tenha uma preferência descarada (garanto que bem maior do que por lulistas e petistas) pelos APCs alemães de meia-lagarta, isso não significa que eu nutra a menor simpatia pelo “exército do Alemão”… Uma coisa é uma coisa… Outra coisa é outra coisa::

A batalha do Rio de Janeiro::The show must go on::

Acabo de escutar no rádio que a entrada das forças policiais-militares no Complexo do Alemão começou hoje, e está acontecendo sem resistência. Parece que a “batalha do Rio de Janeiro” se encaminha para o fim. Segundo um oficial superior da PMERJ, do estado-maior da operação, estão empenhados em campo uns dois mil homens, força com o efetivo de três batalhões de infantaria motorizada leve (caso somemos, apenas para termo de comparação, policiais militares – por volta de 600 –, fuzileiros navais – uns 100 –, pára-quedistas – uns 800 – e policiais civis estaduais e federais – uns 600), apoiada por elementos aéreos. Ainda não se sabe se os criminosos, diante do deslocamento das forças do Estado e sua exibição de poder, abandonaram suas “armas pesadas” e apelaram à maior vantagem de que desfrutam: são, em boa parte, membros daquela comunidade e se ocultam em meio a ela. Estão, como dizia Mao Zedong, “como peixes dentro d´água”. Respeitemos, entretanto, o inventor das modernas táticas de guerrilha. Quem ler a carta de Mao, escrita em 1920, verá que ele fala o tempo todo de organização política. Guerra revolucionária é um fato político. Não é o caso do Rio de Janeiro. De fato, qualquer um que saiba do que fala não tirará conclusão diferente.

Ou seja: o “crime organizado”, investindo num confronto direto com o Estado, encontrou seus limites – bastante estreitos, diga-se de passagem. Não poderia ser diferente: como vimos no posto anterior, trata-se tão somente de uma turba de pés-rapados com armas longas, elevados à condição de “inimigos do Estado”. Como puderam chegar lá? A fórmula não poderia ser mais simples: três décadas de inércia e inépcia de todos os níveis de governo, absoluta falta de políticas públicas para amparar os setores mais desassistidos da sociedade, militarização da segurança pública e o sensacionalismo, por vezes irresponsável, da imprensa.

Esse sensacionalismo parece ter culminado com a exibição, em repetições intermináveis, das cenas, filmadas de um helicóptero, da fuga do “exército do tráfico”. Não havia o que analisar: eram apenas marginais armados, sem nenhum grau perceptível de organização ou disciplina, correndo para salvar a própria pele. Foi curioso (e, como sempre, irritante), ver a locutora global Fátima Bernardes tentando forçar o capitão reformado da PMERJ e analista de segurança Rodrigo Pimentel a encontrar naquela cena incompetência por parte das autoridades policiais e militares. Não conseguiu. E então, tome-lhe a repetição, ad nauseam, da mesma cena.

Todos que lêem causa:: regularmente (os – agora – dez assíduos, bem contados), sabem que moro em Belo Horizonte, depois de uma vida passada entre Rio de Janeiro e Petrópolis. O que talvez não saibam é que foi uma vida que passava diariamente em frente às favelas do Complexo do Alemão; uma vida olhando os campos de futebol, pistas de atletismo, escolas públicas, pracinhas, pequenas lojas. Me chamem de idiota, mas eu achava estranho ver pessoas, de manhã cedo, praticando jogging numa pista fronteira à Linha Vermelha. Favelado também se preocupa com a barriga?.. Pois é, aquilo não era “outro mundo”: eram cenas absolutamente comuns, até um pouco bucólicas. Foi um de meus encontros mais brutais com a realidade da ideologia. Tenho pensado muito nisto, nos últimos dias.

Deslocado para Minas, continuo carioca como era quando vivia em Petrópolis: sem nenhum entusiasmo. O Rio de Janeiro é minha cidade, para bem e para mal, só que, agora, à distância. Continuo consumindo muita informação sobre a cidade, mas pelo rádio, já que nem sempre tenho tempo para os jornais, e, depois do segundo turno da batalha de 2010, exige cada vez mais paciência aturar o PIG.

A batalha do Rio de Janeiro tem chegado até mim via rádio CBN, televisão, jornais e Internet, nessa ordem. Curioso: a mais antiga das mídias eletrônicas é ainda uma ótima fonte de informação. Os jornalistas “de campo” e “de redação” da CBN, que escuto via Internet, enquanto escrevo, parecem mais objetivos (não digamos “imparciais” – seria dizer besteira) que seus colegas da imprensa escrita e da televisão. Deve ser impressão, eu penso, mas parecem lidar com a informação de modo mais direto e, aparentemente, com menor distorção.

Em comparação, as imagens produzidas pela Rede Globo parecem saídas de um filme – na última quinta-feira, foi impossível não pensar em um filme. “Tropa de elite 3”? “A transmissão ao vivo e sem comerciais para o Rio de Janeiro da operação da polícia fluminense no Complexo do Alemão, uma espécie de Tropa de Elite 3, está rendendo muito ibope para a Globo” observou o jornalista Lauro Jardim, no dia da escalada militar, quinta-feira, 25 de novembro.

Ainda mais interessante foi o jornalista Merval Pereira. O dito gastou as duas mil palavras de sua coluna diária, que intitulou “Capitão Nascimento”, para desfiar um discurso incompreensível ao longo do qual disse não saber se o fato do “capitão” ter se tornado herói nacional ser “um bom sinal”. A coluna foi replicada dezenas de vezes, em dezenas de blogues conservadores. Não era possível entender direito o que jornalista pretendia dizer. Surpreendente: afinal, um renomado especialista em encontrar defeito e má-intenção em tudo que o governo federal faça ou deixe de fazer deveria conseguir ser mais direto. A explicação para a aparente paralisia verbal do MP, entretanto, estava clara: não só ele, mas a imprensa toda pisava em ovos, em função do aparentemente inesperado fato de que as autoridades estaduais (argh!), com apoio das federais (arghhh!!) estarem fazendo exatamente o que todos eles sempre reivindicaram, em situações do gênero: tomando uma providência (arghhhhh!!!), e pior ainda, com amplo apoio da sociedade.

Não vou esmiuçar o texto, cheio de contradições: ora a situação é grave, ora o tráfico é “poderoso”, ora a reação da polícia “deu a sensação de ter sido bem coordenada”, ora “a realidade lá fora mostrava uma cidade apavorada”. Mas… Lá fora onde, cara-pálida? Fora dos estúdios da Rede Globo? Possivelmente: a realidade “real” estava na tela da Globo, onde “tudo era mostrado ao vivo pelos helicópteros das televisões, que deixaram os telespectadores espantados com o poder de fogo dos bandidos, e a quantidade de pessoas envolvidas nessa guerra”. Segundo Merval, essa “realidade real” não estava nos planos do governo, que acabaria por render-se à evidência de que não pode com o tráfico. Pelo menos não este governo…

Mas havia o fator “apoio a eles”, então… Como meter o pau sem meter o pau? Claro, não pegaria lá muito bem falar mal do governo-estadual-incompetente-apoiado-pelo-governo-facção-federal-criminoso-que-nos-roubou-a-eleição. Mas se podia tentar, desenhando idas e vindas, nas quais a cada aparente elogio (“é preciso apoiar a ação do governo”) corresponde distorção igual e diretamente contrária (“mesmo que a Secretaria de Segurança não planejasse a ocupação da Vila Cruzeiro, ela se tornou inevitável depois que a TV Globo mostrou aquelas imagens…”). Ao fim e ao cabo, Merval não parece ter sido muito bem sucedido na tarefa de engarrafar fumaça, e, no dia seguinte (sábado), com a expectativa da “batalha sangrenta” contra 600 “criminosos armados” nas vielas do Complexo do Alemão – que infelizmente não aconteceu –, o “vibrante” resolveu soltar alguns de seus cachorros mais ferozes.

Mas tenho de agradecer ao MP (algum dia ainda vou fazê-lo pessoalmente): foi graças a ele que lembrei do livrinho magnífico do Guy Debord. Este artista (inventou os “itinerários afetivos”), crítico de arte e filósofo, morto em 1994, publicou, em 1967, um estudo intitulado “A sociedade do espetáculo” (o livro todo está na Internet – podem deixar para me agradecer depois…). Trata-se de uma obra complicada, toda escrita em forma de aforismos (ou “teses”, como diz ele). Na minha opinião, aquele que melhor sintetiza a idéia geral de Debord está logo no início e tem o número 2: “As imagens fluem desligadas de cada aspecto da vida e fundem-se num curso comum, de forma que a unidade da vida não mais pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente reflete em sua própria unidade geral um pseudo mundo à parte, objeto de pura contemplação. A especialização das imagens do mundo acaba numa imagem autonomizada, onde o mentiroso mente a si próprio. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo.”

Escutei, ontem, o comandante da PMERJ incitando os bandidos a se entregarem. Aplausos: bandido tem de ser preso. E ponto. É exatamente o que tenho dito, em algumas oportunidades, aqui no causa:: Hoje de manhã, o encarregado de relações públicas da corporação, tenente-coronel Lima Castro, continuava a convidar os marginais a se entregar. É curioso: aquilo que deveria ser decorrência – a autoridade emanada do Estado – acaba adquirindo uma espécie de aura de espetáculo. Declarações, embora pertinentes, de autoridades e especialistas de todos os graus, acabam parecendo bombásticas. A cobertura da imprensa transforma a re-imposição da autoridade do Estado sobre uma região do território nacional formal em mero espetáculo, sucessão de cenas dramáticas: tanques, tiroteios, helicópteros em manobras rasantes, gente ferida, armas em profusão. E o apoio da população, fato reconhecido pelo capitão da reserva da PMERJ e professor univeristário Paulo Storani – além de diversos outros – como “algo inédito em trinta anos”.

Se levarmos Debord em consideração, esse lado “espetáculo” da “batalha do Rio de Janeiro” era para ser esperado, visto que “… toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação.” A realidade se transforma em encenação, e autoridade do Estado só pode ser vivida através de um espelho. Não basta mais o tal “monopólio da aplicação da força”, de que falam os cientistas políticos, uma das bases do estado moderno, é preciso que essa condição seja um espetáculo. O espetáculo, ao mesmo tempo que é instrumento de unificação, é também relação entre os agentes sociais, que estabelecem relações através de imagens. O espetáculo é, ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente, e sendo projeto-resultado, repete-se de forma perene. O espetáculo cria sua própria condição de existência: “a liberdade ditatorial do Mercado temperada pelo reconhecimento dos Direitos do homem-espectador.”

Ou seja – a partir da tela da Globo se institui a “realidade real”, aquela “lá fora”. Mas se as imagens, “o espetáculo em geral”, não forem bem absorvidas, surge a imagem-da-imagem (resultado-projeto e projeto-resultado). A imagem-da-imagem não precisa ser explicada: está nas manchetes garrafais e fotografias sensacionalistas. Foi assim que o “vibrante matutino”, nosso bom e velho “O Globo”, tornou o TBP M113 o principal personagem do evento.

O interessante é que as reportagens nem mesmo chegavam a dar detalhes corretos sobre os veículos, que chamam, genericamente, de “tanque”. Faz diferença? Claro que não. O que importa são as imagens. As pessoas fotografavam a passagem das colunas blindadas em miniatura, como se quisessem perenizar o espetáculo. Até mesmo os intelectuais pareceram se entusiasmar com a imagem-da-imagem. O professor Viktor Izeckson (organizador de um ótimo livro sobre as forças armadas brasileiras), levou seu entusiasmo ao ponto de comparar a tática do BOPE à Blitzkrieg alemã. Claro, uma Guerra-Relâmpago tupiniquim jamais poderia ser um avatar da competência germânica. Segundo o professor Izeckson… “A Blitzkrieg iria além dos pontos e isolaria aquele ´exército´ (os traficantes) de maneira super-rápida. Ela deixaria bolsões de resistência, que seria aniquilados. A idéia é que parte do seu efetivo passe à frente do inimigo e a outra parte se mantenha avançando dentro do território.” Em português claro: a mini-divisão panzer carioca fez uma ofensiva de fancaria e deixou os criminosos escaparem.

Mas que seja – se as pessoas gostam de veículos blindados (seria uma forma mais correta de se referir a esses equipamentos), aproveitem. São, de fato, artefatos muito impressionantes, mas, em regimes de normalidade institucional, é raro vê-los fora dos quartéis. Mas eles estavam lá, fora dos quartéis. Talvez a imagem-da-imagem precise, pelo menos um pouco, ser explicada.

Volto ao ponto – ao Merval Pereira. Um especialista em falar mal do governo, apaixonado combatente da causa da liberdade de imprensa, se deixaria intimidar por uma Wehrmacht de tal forma mambembe?.. Não. O problema é que a imagem gera outra imagem, para que quiser ver. Merval a viu. Achei estranho que, a certa altura, ele tenha começado a se referir… ao “Urutu”. Sim, claro, todos sabemos que se trata do Engesa EE-11, transporte blindado de pessoal anfíbio, projetado no fim dos anos 1960 e atualmente sendo retirado de serviço, tanto no EB quanto no CFN. Foi um excelente produto da Engesa, exportado ao longo de dez anos para 16 países, a maioria do mundo árabe. Merval sabe muito bem que não haviam “Urutus” empenhados na ocupação da Vila Cruzeiro – o “vibrante” até que tinha cortado os dados técnicos dos veículos blindados direito, da Internet. Por que se referiu aos TBPs como “Urutus”? O fato é que “Urutu” se tornou também quase um símbolo da ditadura militar. Lá estava a imagem-da-imagem: os tanques saindo dos quartéis, onde deveriam ter ficado, em função da incompetência de um governo que não soube impor sua autoridade com os meios de que dispõe. Um governo que produz um espetáculo indevido, feito de imagens-equívocos. “A cada barreira que um Urutu ultrapassava parecia uma vitória da sociedade sobre a bandidagem.” Aí está a imagem-da-imagem-da imagem: “… parecia uma vitória da sociedade…” Mas não é. Foi conseguida às custas da ameaça ao estado de direito. É continuação lógica e natural, da operação que na opinião explícita do jornalista, tungou a eleição de seus ganhadores naturais – dentre os quais ele mesmo se coloca.

Aparentemente, essa interpretação poderia ser invertida com a simples colocação de que o termo “Urutu” pode ter sido usado para designar a apropriação, pela sociedade, de um dos ativos simbólicos mais importantes da ditadura militar, ao qual se referiu, frequentemente, o regime de transição inaugurado em 1985. A expressão, cunhada pelo general Figueiredo em 1983 (se bem que a forma correta fosse “olha que eu chamo o Pires”, referência ao então ministro do Exército, general-de-exército Walter Pires de Carvalho e Albuquerque), e era usada pela imprensa, durante a “Nova República” para designar as Forças Armadas, convocadas para defender refinarias de petróleo, em 1987 e a planta siderúrgica de Volta Redonda, em 1988.

É interessante observar que a intervenção de tropas da Marinha na “batalha do Rio de Janeiro” não se tem dado totalmente sem controvérsia. Embora muito timidamente, têm sido levantados pela imprensa alguns “senões”, o principal deles hoje, pelo jornalão “O Estado de São Paulo”. É notável como não se usa a expressão “intervenção”, mas “apoio logístico”, e que foi enfatizado em diversos momentos que os militares não iriam participar de eventuais choques contra traficantes. Entretanto, parece que a questão tem suscitado dúvidas. Segundo o jornal, a “preocupação com essa ‘forma nebulosa’ e juridicamente questionável do emprego da Marinha no Rio, considerado ‘um jeitinho carioca’, foi o assunto que dominou a reunião de seu Alto Comando na sexta-feira, na capital fluminense”. Esta questão teria sido o motivo da “falta de apoio do Exército”, citada de forma descontextualizada em diversos momentos, desde quarta-feira. A questão foi resolvida com uma consulta ao Ministro da Defesa, que por sua vez remeteu-a ao presidente da República, que a resolveu com um “jeitinho”, resolvendo de vez a dúvida sobre a questão jurídica: forças armadas só poderiam ser enviadas ao estado com a solicitação do governador, no contexto de uma intervenção federal – o que nunca iria acontecer, pois implicaria em Sérgio Cabral Filho admitir a perda de controle da situação. Não pretendo entrar em questões de jurisprudência, mas tanto a solução adotada quando a circunspecção do Comandante Militar do Leste fazem todo sentido, pois a solução formal criaria uma crise política sem precedentes.

Enfim, o resumo da ópera: a re-imposição da autoridade do Estado no Rio de Janeiro implica, de forma subjacente, numa “batalha de imagens”. Por enquanto, a imprensa está quieta em função do amplo apoio popular desfrutado pela ação da autoridade. Mas a abordagem de Merval Pereira, um dos principais dirigentes do Jornal o Globo, mostra que certos setores da sociedade questão, para mim, não estão vendo com lá muito bons olhos a ofensiva do governo estadual para restabelecer a cadeia de autoridade. Merval falou, em sua coluna, sobre “ativo político importantíssimo”, e, em seguida, completa “mesmo que falte a essa política uma imprescindível ação de planejamento”. O problema é que, com ou sem planejamento, Cabral certamente sairá dessa situação muito fortalecido. Parece ser este o ativo político real: o restabelecimento da cadeia de autoridade na cidade.

E pior: por tabela, o governo federal sairá também em posição de vantagem. Por enquanto, Lula tem sido poupado de qualquer citação, seja boa ou ruim. O fato é que não se pode deixar de associar a entrada das forças federais no batalha ao governo federal. O colunista Elio Gaspari, que ultimamente assumiu um papel notável na “frente PIG” contra o governo federal, já começa a falar em “marketing”. “Marketing” diz respeito à imagem… Portanto… O fato é que a “batalha de imagens” envolve dois lados. O lado global, por enquanto, retraiu-se. Vamos ver como fica a coisa, daqui para diante. Que promete, promete::

A essa altura, o assíduo que tenha conseguido paciência para chegar até aqui deve estar se perguntando porque resolvi pegar Merval Pereira para Cristo. Imagina! Quem sou eu… Apenas achei curiosas suas colocações, e resolvi fazer algo que, em minha opinião, sempre valeu à pena: buscar ferramentas de análise.

Tenho até certa simpatia pelo jornalista: afinal, ninguém chega até onde ele chegou sem ser muito competente. Também admiro sua paixão antigoverno. É difícil encontrar um cruzado tão puro em seus ideais.

Cruzado? Não é por nada, não, mas…  É impressão minha ou o MP é a cara do Ned Flanders, o fundamentalista religioso vizinho de Homer Simpson?.. Bem, devo estar delirando…::

 

A batalha do Rio de Janeiro::Não é uma “guerra”, é uma “batalha”::

causa:: dá o braço a torcer e, com ele, os parabéns à administração e à polícia do Rio de Janeiro. Estas, numa demonstração inusitada de vigor, restauraram a cadeia de autoridade na “Cidade Maravilhosa”. Sem hesitar, responderam à altura a um bando de pés-rapados que, protegidos pelas paredes de presídios de segurança máxima e pelas garantias que são inerentes ao estado de direito, insistem em desafiar o Estado. Não havia outra coisa a fazer, a não ser agir. O que impressionou a mim e a todos quantos prestem atenção no assunto foi a competência com que as autoridades e os planejadores distribuídos pela cadeia de comando, demonstraram – coisa que nem sempre acontece.

Vários dos aspectos que se observa na “batalha do Rio” já foram cantados, em diversos momentos, aqui no causa:: Por exemplo, a lapidar declaração do secretário de segurança do Rio de Janeiro, o delegado da Polícia Federal José Mariano Beltrame: ”Se tirou dessas pessoas o que nunca foi tirado: o território”. Essa é a base da questão, e todas as outras devem decorrer daí: não importa se o adversário for um Estado ou um grupo radical de oposição, derrotá-lo significará, antes de tudo, negar-lhe o uso do próprio território, por interdição ou ocupação, e desta forma, impedi-lo de fazer uso organizado da força. Só que a negação do terrotório fala de parte do território nacional. Não é o caso de “interditar” ou “ocupar”, mas “recuperar” através da presença do Estado como organizador da sociedade. É exatamente o que a estratégia das Unidades de Polícia Pacificadora está fazendo. E foi essa estratégia que motivou a reação desproporcional do “crime organizado” – que, no confronto, mostrou seus limites.

A estratégia de que os governantes lançaram mão está sendo de tal maneira inteligente que até mesmo a fuga do “exército do tráfico” (como se referiu a jornalista Fátima Bernardes, musa da desinformação das Organizações Globo, à turba de criminosos que corria para se salvar dos Fuzileiros Navais e da Polícia Militar) e suas “armas pesadas” (idem, idem) pode ser considerada produto dela. O tráfico, expulso dos morros e das “zonas de influência” em que, de modo informal e desorganizado dividiu a cidade durante anos, tinha transformado as enormes favelas da Vila Cruzeiro e do Alemão em um tipo de “santuário”. As forças policiais-militares poderiam entrar lá? Claro, mas a questão é que um confronto dentro de uma área fechada como é uma favela implicaria numa possibilidade considerável de que o lugar acabasse destruído ou muito danificado. Não podemos, em momento algum, esquecer que não estamos em guerra, que as favelas cariocas não são território inimigo e os cidadãos que lá residem são nossos compatriotas. Até mesmo numa guerra entre Estados, em certas situações são feitas considerações sobre a intensidade do emprego da força em função da segurança dos civis.

Isso leva à uma outra questão que está se respondendo por si mesma, e de forma cristalina – e é pedra que também já foi cantada aqui no causa:: – o  “crime organizado” tem, de fato, certa capacidade de organização, mas essa capacidade tem limites que agora estão ficando bem perceptíveis. A capacidade do tráfico, como organização, em estabelecer, perseguir e realizar objetivos está toda centrada em manter a venda drogas. Através da venda de drogas, os agentes da organização conseguem recursos para obter armas e bens de ostentação, além de prestar alguns serviços às comunidades que controlam – embora o controle, mesmo se dê pelo terror. Não existe nenhuma espécie de planejamento de longo prazo, estabelecimento de estratégias e determinação de prioridades; não existe intenção de formar quadros e aperfeiçoar as atividades. Tudo se resume a vender drogas e ostentar armas como forma de ostentar poder. Isso é determinado por um fato que ninguém parece querer examinar: trata-se de um movimento pré-político.

Ainda bem – se fosse um movimento político, estaríamos todos lascados, pois só um movimento político tem condições de praticar a guerra. O motivo, simples (e sempre atual), é que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Em contextos nos quais o Estado funciona (e o Estado ou funciona ou não funciona – não há meio-termo) movimentos pré-políticos não têm condições de oferecer-lhe oposição com qualquer possibilidade de sucesso. Neste sentido, é interessante a postulação do historiador Marco Pamplona: “os grupos que tomavam parte nos movimentos ditos pré-políticos não se apresentavam unificados, isto é, não possuíam um Estado nem partilhavam uma unidade cultural forte, como acontecia com os grupos e classes dominantes. Estes últimos estavam, na maioria das vezes, em posições de mando ou governo na sociedade e, não raro, se encontravam em condições, também, de fazer a história aparecer como sua história, isto é, do ’seu’ Estado e dos grupos pertencentes a esse Estado.” (se o assíduo estiver interessado em ler o artigo todo, clique aqui). Parece complicado, mas não é: os traficantes são produzidos por uma sociedade desbalanceada e fazem parte das chamadas “classes subalternas”, econômica e culturalmente submetidas. Não conseguem ver a própria história, e nem se situar num movimento mais geral. Sua história é a história das classes subordinadas, sejam elas denominadas “campesinato”, “proletariado”, ou como se quiser dizer. Não possuem uma ideologia que condicione a articulação das informações que consomem (e – acreditem – essa gente consome muita informação): a deles é a mesma dos grupos que controlam o Estado, devidamente amplificada pelos meios de comunicação de massa. Ou seja – traficante também vê a Globo. Essas informações fazem com que as classes subalternas transportem para sua vida privada contradições que não podem ser resolvidas.

“Coisa de esquerdista”, alguém já deve estar pensando… Querem ver? Aspirar ter bens de consumo, como roupas de marca e TVs de plasma é absolutamente legítimo. Mas, caso não se possa comprá-los, não se pode roubá-los (seja diretamente, seja roubando dinheiro para comprá-los no mercado), portanto, se deve continuar apenas aspirando a tê-los, algum dia, ainda que não seja nesta vida. Da mesma forma, consumir drogas é considerado por diversas categorias de formadores de opinião (que já têm bens de consumo para distingui-los) como decisão particular de foro íntimo, na qual ninguém pode se meter; por outro lado, vender drogas é crime que deve ser enfrentado com a força do Estado. Curiosamente, nesses dois exemplos mixurucas que mobilizei, subjaz a questão do mercado como lugar de interação e legitimação social – quando deveria ser a sociedade.

Antes que alguém aponte o dedo, a resposta é “não”. “Não” sou comunista (comunista é o Roberto Freire, o que significa que já não existem mais comunistas…) e “não” estou tentando demonizar o mercado. O que estou afirmando é que essas – e inúmeras outras – contradições são vividas dentro dos limites da ideologia dominante e que só serão resolvidas na esfera política, com o objetivo de reformar a sociedade.

Portanto, um grupo de marginais armados não trava guerra porque nunca fez política, e como a guerra é a continuação da política por outros meios, para travar uma um grupo precisa, antes de mais nada, de uma ideologia que os faça encontrar sentido na própria história. E não é coisa apenas de Estados. Como já foi dito, aqui mesmo no causa:: – “No Oriente Médio, na Caxemira, no Afeganistão e em diversas outras zonas de conflito, a guerra não é travada apenas por Estados organizados. Organizações políticas, milícias organizadas e redes fundamentalistas adquiriram poder suficiente para começar e dar continuidade à guerras. Podemos chamar essa nova fase de guerra pós-clausewitiziana.” Portanto, independente da intensidade, guerra, para ser guerra, pressupõe uma organização política, coisa que os traficantes cariocas não têm. Eles não são uma “narcoguerrilha”, termo inventado nos EUA, para justificar a intervenção na Colômbia e, eventualmente, em outros pontos da América Latina. O que define a “narcoguerrilha” é a existência, por trás do qualificativo “narco”, de uma ideologia. A apropriação dos recursos dos cartéis está a serviço de um objetivo maior – mudar a história. É a mesma coisa com os fundamentalistas islâmicos. Seus objetivos não são meramente continuar a ler o Corão ou a obrigar as mulheres a usar aquelas roupas horrorosas. Eles se explodem (e aos outros) porque estão buscando a reforma do mundo, dentro de padrões que consideram “justos”.

Não é o caso dos traficantes cariocas: esses não querem mudar coisa alguma. Se lhes for permitido continuar vendendo substâncias ilegais, comprando (ou roubando) armamento de infantaria e assim adquirir meios para comprar (ou se apoderar) de bens de ostentação, os problemas terminam e a cidade volta ao equilíbrio – que é um equilíbrio, além de precário, perverso, no qual o crime é tolerado pelas autoridades, tem consequências desastrosas (por exemplo, milhares de horas de trabalho e milhões de reais perdidos pela morte e ferimentos provocados por ações criminosas) e, à população, resta se virar num ambiente de insegurança perene. Não há política nem ideologia nisso, e quem disser que vê “fundo político” nas ações criminosas – como foi o caso do professor Tião Santos, coordenador da ONG Viva Rio – está equivocado e mistura alhos e bugalhos (mistura extremamente difícil de desfazer…). Mais espantosa é a declaração do professor Francisco Carlos Teixeira da Silva, que encontra semelhanças entre a batalha do Rio e as guerras do Iraque e do Afeganistão. Digo “espantosa” porque o site pilotado pelo doutor Francisco e seus alunos de pós-graduação é uma das leituras obrigatórias de causa::. Mas confesso que fiquei sem entender uma declaração de tal forma estapafúrdia feita por alguém que eu pensava ser especialista: “O que se assiste é uma guerra assimétrica que consiste em ações de grupos não estatais contra o Estado. Eles usam métodos terroristas. Ainda é um conflito de baixa intensidade porque não usa artilharia pesada, mas equivale ao que se vê hoje no Afeganistão e no Iraque. Nosso erro foi reconhecer tardiamente a situação…” (Leia a íntegra da matéria publicada em O Globo, aqui).

Devagar com o andor: não existe guerra nem isso aqui é a Faixa de Gaza ou a cidade de Falujah (onde o exército dos EUA suou sangue para entrar). Alguém precisa explicar ao professor Francisco que “guerra assimétrica”, na origem do conceito (que remonta a um estudo feito pelo Estado-maior conjunto das Forças Armadas dos EUA em 1955) refere-se a um conflito generalizado no qual se observa uma diferença notável de capacidade entre os dois lados. Atualmente, entende-se que em conflitos assimétricos a resposta de um dos lados, ao enfrentar o outro, assume que não há igualdade de forças, e emprega táticas não convencionais. Essa forma de operar implica em grande diferença, no que refere à organização, treinamento e mobilização de sistemas de armas. O teórico militar Steven Metz soma a tudo isso a indicação de que um dos lados tentará, com choque ou confusão, produzir tal impacto psicológico que chegue a afetar a iniciativa, a liberdade de ação ou os desejos do oponente. Até aí, certamente podemos ver na ação do tráfico carioca táticas assimétricas. A questão é que a determinação das vulnerabilidades do adversário, dos métodos, táticas e sistemas de armas requer estudos anteriores  sobre o oponente e implicará no emprego de armas e tecnologias inovadoras e não-tradicionais. Volto a repetir: esse tipo de guerra, como qualquer guerra, pressupõe uma ideologia e uma organização política que as quadrilhas cariocas não têm. Eles são meros subprodutos de uma sociedade hierarquizada e desigual, e são direcionados à ação pela mesma ideologia que cimenta o conjunto da sociedade. Não pretendem implodir a sociedade da qual são parte integrante: pretendem, tão-somente continuar levando a própria vidinha.

As cenas vistas na televisão são impressionantes para o leigo que vive a insegurança diária provocada pelo descontrole urbano. Um especialista veria no “exército do tráfico” um efetivo de companhia de infantaria, sem nenhuma organização militar e simplesmente debandando; um especialista também saberia a diferença entre um tanque e um transporte blindado de pessoal; sabe que seis TBPs consistem força em nível de pelotão, e que esse nível de força só é empregado em situação de oposição quase nula – que era exatamente o caso. A aplicação de força foi clássica: destinou-se exclusivamente a prevenir baixas no lado das forças policiais.

É também muito provável que a decisão de não fechar a tal “rota de fuga” tenha sido intencional. Não seria difícil para a polícia desembarcar vinte ou trinta policiais do BOPE em algum ponto, com armas automáticas e uns cinco ou dez atiradores de elite, e garanto que o “exército do tráfico” teria permanecido engarrafado na Vila Cruzeiro. Os planejadores devem ter levado dois fatores em consideração.

O primeiro: a possibilidade de que a população da Vila acabasse refém dos traficantes. Este seria o pior dos mundos, visto que ou se aplica força total, com a possível destruição do lugar e número imprevisível de baixas colaterais, ou se negocia com os chefes do tráfico – e, em qualquer dos casos, o governo teria um enorme abacaxi político para descascar. A grande imprensa, que está pisando em ovos, pois é visível o apoio da população às medidas do governo, cairia em cima da “incompetência das autoridades”, o governador Cabral – em fim de mandato e prestes a iniciar outro – na frente de todas.

O segundo: engarrafar os traficantes e suas armas no Complexo do Alemão. A mobilização no dia 26 de novembro, de força em nível de batalhão de infantaria, e de grande número de policiais federais, permitiu que os inúmeros acessos do aglomerado de favelas fossem isolados. Os traficantes poderão, eventualmente, sair, misturados à população, mas terão de abandonar armas, munições e drogas. Muitos serão, provavelmente, identificados e presos. Neste caso, a entrada das forças policiais poderá se dar sem oposição, ou com oposição mínima.

Resta enfrentar as ações terroristas que estão sendo conduzidas nas ruas do Rio de Janeiro. Elas certamente têm essas características. Como foi dito acima, visam semear a confusão e o pânico e produzir impacto psicológico que afete a iniciativa, a liberdade de ação ou os objetivos do oponente. O que os líderes do tráfico não contaram foi com a decisão das autoridades em resistir e a intensidade da resposta. Talvez o governador do Rio de Janeiro tenha elaborado seus planos com base no exame da decisão do governo de São Paulo, em 2006, de negociar com a liderança da organização criminosa “Primeiro Comando da Capital”. A situação lá era semelhante, e essa decisão só não se transformou num desastre político de grandes proporções em função do abafamento dos fatos e de sua persistente negação pelo governo paulista (um ótimo exemplo aqui), desde então. Provavelmente, Cabral não quis repetir o erro, já que não tem o mesmo apoio da imprensa que o então potencial candidato a presidente pelo PSDB desfrutava.

Resumo da ópera: todas as providências tomadas pelas autoridades têm sido corretas e, por ser corretas, estão todas funcionando – exatamente por não caracterizarem um ambiente de guerra, mas de controle urbano. O Estado mobilizou, dentro de condições de respeito ao limites impostos pelo estado de direito em que vive o país, a intensidade adequada de aplicação de força; o uso de pessoal e equipamento militares se dá sob comando e supervisão das autoridades de segurança pública estaduais.

Vamos esperar, porque a operação policial-militar é muito impressionante, mas o que realmente importa é o “depois”. Medidas que resgatem as centenas de milhares de cidadãos brasileiros vivendo nessas comunidades urbanas, não para o Estado, mas para a Nação. Só assim deixaremos de ter de repetir o óbvio: não existe guerra::