O Natal de causa::Presentes para assíduos e não assíduos::

Como os assíduos devem ter notado (se é que continuam assíduos…) causa:: anda meio em férias – forçadas. Mas como é fim de ano, Natal, etc, eu já estava pensando em um tema que fechasse condignamente este ano de muitos temas que mereceriam exame mas poucos posts que o fizessem. Mas sobretudo, um ano que me surpreendeu com muitas visitas. Sem que eu consiga entender exatamente o motivo, o blogue das boas causas, mesmo tendo ficado praticamente parado depois de maio, manteve a média de 8500 visitas mensais… (no andor do santo, serão 98000 visitas, este ano).

Considero este meu presente de fim de ano. Um presentão, porque causa:: é um de meus mais antigos e queridos projetos. Assim, resolvi retribuir da melhor maneira possível – com alguns novos posts.

Assim, vão, em seguida, dois “presentes”, para assíduos e não assíduos. O primeiro deles resulta de um levantamento que fiz nas centenas de páginas que já escrevi, e que costituem uma espécie de “reserva técnica” do blogue. Só que esse material consiste em anotações, umas mais, outras menos, editadas. Encontrei lá algumas quase prontas, dentre as quais uma que se destinava a constituir a segunda parte de estudo que estava sendo publicado no causa:: em 2009, sobre a evolução das armas de fogo. Este segue em primeiro, no post seguinte. Destina-se à árvore de Natal dos leitores interessados em história da tecnologia militar.

O segundo presente é uma prenda natalina para os interessados em questões mais recentes. Resultou do fato de que, ao examinar o site após quase um mês sem sequer olhar para cá, descobri alguns comentários e uma – digamos… – prenda do leitor (não sei se assíduo) André Arruda. Não conhecia o André, até o momento. Parece tratar-se de um ótimo fotógrafo, dedicado a clicar pessoas e… “aviões“. Após passear durante uns bons vinte minutos pelo site do cara, fiquei imaginando o que ele e sua camera não fariam com máquinas de guerra (faltam bons fotógrafos de temas militaes, em nossa imprensa). Porque “aviões”, pelo que vi, ele clica muito bem. André brindou-me com um comentário algo enigmático, dias atrás…

Quem quiser saber mais, vá até o post, que irei publicar amanhã (não por acaso, véspera de Natal…). Espero que todos os amigos, próximos e distantes, gostem, e se considerem presenteados. E que continuem brindando-me, durante o ano de 2012, com suas visitas – como eu disse acima, eu não poderia receber maior presente, de Natal, e de todas as outras datas que possa imaginar…::

Historinhas de Natal de causa::O Natal da FEB

Ano Novo (31 de dezembro, 1944) em Porreta, nos Apeninos. Da esquerda para a direita, capitães Figueiredo, Salamini, Pará; general de divisão Mascarenhas, tenente Abott; capitães Brandão, Romaguerra e Melo Cahu

Digamos que a Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma das maiores contribuições brasileiras à luta contra o fascismo, também não era uma instituição natalina. Mas, ainda assim, o país que lhe deu origem era já naquele tempo, uma nação de católicos, onde o Catolicismo era uma espécie de religião oficial informal. Assim, a tropa brasileira foi para a guerra levando sua religiosidade junto com o equipamento. Melhor seria dizer que a religiosidade era parte do equipamento…

A Força Expedicionária Brasileira passou um Natal na Itália, o de 1944, debaixo de um frio infernal, visto que aquele inverno foi o pior registrado no continente europeu, em muitos anos. Ainda assim, os soldados brasileiros não deixaram de comemorar, e esse Natal quase sempre aparece nas recordações dos expedicionários ainda vivos. A maioria deles fala na saudade da família e dos amigos. Também comentam sobre a neve “que não era tão branquinha quanto aparecia nas gravuras natalinas que circulavam, naquela época” (como ainda hoje) pelo Brasil. O frio extremo (em alguns pontos dos Apeninos alcançou 20 graus negativos) interrompeu as operações, pois tornava o terreno montanhoso, já extremamente difícil para ações militares, impraticável. Os combatentes de ambos os lados se escondiam onde podiam. O soldado Aribides Pereira, da Bateria de Comando da Artilharia Divisionária, então com 24 anos, procedente de Santa Maria, no Rio Grande, recorda ter passado o Natal num casario nas proximidades de Porreta. Não deixou de ter festa: os soldados brasileiros arrumaram carne de carneiro fresca junto aos italianos. A festa deu direito, inclusive, a uma ou duas doses de grappa, uma aguardente italiana fortíssima, e que muitos dos que estiveram lá consideram a única forma eficaz de espantar o frio. O lugar tinha até árvore de Natal. Por sinal, são muitos os testemunhos que declaram que esse símbolo da festa cristã se espalhava apor toda a frente. Segundo o correspondente de guerra Joel Silveira, se viam árvores de Natal “nas estradas, nas vitrines das cidades, nos hospitais e no abrigo das patrulhas avançadas”. O depoimento de Joel, que foi correspondente dos “Diários Associados”  junto a FEB, sintetiza o que, com certeza, era o sentimento de todos os combatentes, em todas as frentes (talvez até entre os soviéticos, mas é suposição…): “Aqui no nosso quartel, o correspondente Bagley já levantou sua árvore e nela dependurou esferas iluminadas e pequenas velas de todas as cores. É um grande prazer, à noite, quando o frio é total lá fora, olhar aqueles verdes e tão retos ramos de pinheiro, distrair os olhos no mundo brilhante da árvore e pensar nos amigos e pessoas queridas que estão muito longe.”::

Historinhas de Natal de causa::Wehrmachtweinachten::

Dando continuidade a nosso levantamento de instituições nada natalinas afetadas pelo espírito de Natal, causa:: localizou um interessante artigo (em inglês) publicado pelo pesquisador Jason Pipes, do excelente sítio de história da Wehrmacht Feldgrau. Pipes descreve, com muitos detalhes, como eram as comemorações de Natal da Wehrmacht. Por mais esquisito que possa parecer falar em nazistas comemorando o Natal, devemos lembrar que pouco menos de 90 por cento da população da Alemanha, em 1939, se declarava cristã, protestante ou católica. A ditadura implantada em 1933 nunca chegou a declarar-se anti-religiosa ou anti-clerical, de modo que os alemães  continuaram a praticar suas crenças. Por sinal, muitos religiosos colaboraram intensamente com os nazistas. Para além, o Natal é uma festa particularmente significativa na Europa Central e do Norte, onde se originaram muitas das tradições associadas à festa natalina. A árvore de natal, por exemplo, é resquício de práticas das antigas tribos germânicas, assim como o uso de guirlandas de folhas de carvalho na porta das casas (visavam afastar os maus espíritos). Os nazistas tentavam capitalizar essas (e muitas outras) tradições ancestrais do povo alemão.

Muitos combatentes alemães, dos mais fanáticos, consideravam que a “superioridade ariana” derivava, dentre outros motivos, da religiosidade. O coronel SS e líder dos rexistas valões, Leon Degrelle, se declarava “profundamente católico”. Após a guerra, falou sobre o Natal que, em 1943, passou junto aos valões (belgas que reivindicavam uma nacionalidade própria) que atenderam em grandes números à convocação para formar uma força com o efetivo de brigada, que, para fins de propaganda, recebeu o nome de 28ª Divisão de Infantaria Waffen SS “Wallonien”:

“De madrugada, os tiros foram cessando. Nosso capelão, deu a Comunhão às tropas, que chegavam da frente, esquadrão após esquadrão, para tomar lugar na capela ortodoxa onde os padres valões, trajados em seus uniformes acinzentados juntaram-se, de modo verdadeiramente cristão, ao velho sacerdote do vilarejo russo, que usava sua mitra púrpura. Os corações, dos soldados, tristes e amargurados, se acalmaram. Seus amados pais, esposas e filhos, em casa, tinham participado da mesma Missa e recebido a mesma Eucaristia. Os soldados voltaram para suas posições com suas almas simples, puras como a grande estepe branca, que cintilava na manhã de Natal.”

Depois da guerra, Degrelle fugiu para a Espanha, ode viveu de forma considerada faustosa e espalhafatosa, sempre se declarando cristão e anticomunista. Abaixo, causa:: publica algumas fotos que mostram como era a comemoração de Natal entre as tropas da Wehrmacht. Não devia, por sinal, ser muito diferente daquelas festejadas pelo inimigo.

Efetivos da companhia de metralhadoras do Regimento de Infantaria 24, da 21ª Divisão de Infantaria, comemora o Natal nos alojamentos da unidade, em território polonês, dezembro de 1939.

A ceia de Natal, numa unidade não-identificada da Luftwaffe, provavelmente em dezembro de 1942. Muitas dessas fotos eram tomadas por elementos das Propaganda Kompanie, unidades equivalentes aos correspondentes de guerra dos aliados.

Graduados de uma unidade do exército (Heer; Wehrmacht - "Força Militar" - era a denominação do conjunto das forças armadas) recebem cartas e pacotes de casa. É, provavelmente, o Natal de 1943, pois o soldado no centro usa um uniforme do padrão de camuflagem denominado Erbsenmuster ("padrão grão de ervilha"), que começou a ser distribuído no final desse ano.

Historinhas de Natal de causa::

E quem disse que o espírito de Natal não existe? Pois existe, e se manifesta das formas mais esdrúxulas, e afeta as até mesmo as instituições menos natalinas que possamos imaginar. Querem uma? Fazem 50 anos que o NORAD (acrônimo de North American Aerospace Defense Command, Comando de Defesa Aérea e Espacial da América do Norte), coloca seus radares para monitorar a chegada de Papai Noel… Absurdo? Pois curtam a comemoração de Natal aqui de causa::.

Em 1955, um anúncio publicado nos jornais dos EUA, pela loja de departamentos Sears (que existiu aqui no Brasil, até o início dos anos 1990), convidava as crianças norte-americanas a fazer telefonemas para Papai Noel – e divulgou um número para contato. Tudo bem – se o telefone não estivesse miseravelmente errado. Aliás, diria o redator (e creio que os oito leitores concordarão…) que foi o número de telefone mais errado da história do telefone. De fato, o anúncio designava um aparelho que deveria tocar numa seção da cadeia de lojas, na cidade de Colorado Springs. Só que alguém no Departamento de Propaganda da Sears cometeu um baita de um engano. O número publicado era, de fato, da área de Colorado Springs, mas não o da loja. O pessoal que, na manhã do dia 24 de dezembro, foi encarregado de se fazer passar por “ajudantes de Papai Noel” e responder às chamadas das milhares de crianças, ficou à-toa.

Quem se viu no meio de uma tremenda roubada foi o Chefe de Operações do Comando Continetal de Defesa Aérea da Força Aérea (CONAD, Continental Air Defense Command, como era designada, então, a coordenação de defesa anti-aérea dos EUA), coronel Harry W. Shoup, cujo telefone ficava na base de Cheyenne Mountain, nas proximidades da cidade. O chefe do CONAD  não achou nada engraçado quando atendeu o primeiro telefonema. Uma vozinha infantil pedia, de presente, um foguete de brinquedo… Devia ser um trote. É provável que o militar tenha sentido vontade de mandar o interlocutor enfiar o foguete… Bem, vocês podem imaginar onde, em Papai Noel. Seja como for, conseguiu se controlar e desligou o  aparelho. Após vários telefonemas do mesmo teor, Shoup percebeu o que estava acontecendo e ordenou a cada membro desocupado de sua equipe que passasse a dar as coordenadas da “posição de Papai Noel” para toda criança que telefonasse para aquele número. A imprensa soube do acontecido, que recebeu ampla cobertura e foi considerado “show de bola” de relações públicas da Força Aérea. Na época do Natal, desde então, telefones são disponibilizados no centro de controle de Cheyenne Mountain e na base área de Peterson, no dia 24 de dezembro. Milhões de crianças fazem milhões de telefonemas, atendidos por centenas de militares voluntários. Nenhuma criança fica sem resposta, e a conversa com os “elfos” dura, em média, 30 segundos.

Em 1997, o NORAD passou a alimentar um sítio na Grande Rede, para alívio dos voluntários militares que passam, em média, duas horas conversando com as crianças. Entretanto, NORAD ainda mantém um Centro de Operações de Rastreamento de Papai Noel (TSOC – Tracks Santa Operations Center ) com linhas de telefone que entram em operação às 4:00 da manhã (hora local) em 24 de dezembro. causa::, prestando (para variar…) um serviço à paz mundial, coloca à disposição de seus leitores o número do telefone vermelho (ou será branco?..): 1-877-HI-NORAD (1-877-446-6723). Um membro da equipe do TSOC tentará explicar a exata localização de Papai Noel no espaço aéreo norte-americano, na hora do telefonema. Se o chegado de causa:: preferir um meio menos dispendioso (uma chamada de 1 minuto para Colorado Springs ficará em uns sete reais…), poderá, em 24 de dezembro, enviar um email (em inglês) para NORAD, e receberá de volta a última posição conhecida de Papai Noel.

O redator ficou imaginado se o momento ideal para um ataque nuclear contra o território norte-americano não seria a véspera de Natal…::

Acho que todos os leitores perceberam que o objetivo dessa historinha é dar ao redator a oportunidade de desejar a todos exatamente o contrário, e bem o contrário, do que costumamos a discutir e nos deleitar aqui no blogue – ou seja: fiquemos todos em paz, e que a paz seja, sempre, nossa maior e definitiva causa::