Reequipamento da Força Aérea Indiana::Dinheiro não é problema::

Mesmo se levarmos em conta os meios especializados, nosso país não parece ter dado lá muita bola para o resultado do MMRCA indiano. Está certo que a Índia é muito longe (uma viagem aérea, começando em São Paulo, vai ter duas escalas até Nova Delhi, e demorará 19 horas, pelo menos…) e nossos “formadores de opinião” estão mais interessados em locais civilizados, como Paris e Nova Iorque (qu´eu saiba, nossa Der Ang… – que dizer, nossa intimorata “Veja” não mantém “correspondentes exclusivos” informando a nós, tupiniquins, sobre as lojas de grife e restaurantes da moda em Bombaim…). Mas como o Brasil assinou, recentemente, um tratado com a Índia (o ministro Celso Amorim esteve lá, embora eu não tenha entendido muito bem para fazer o quê…), e, segundo o excelente blogue especializado “Poder Aéreo, os dois países compartilharão a avaliação do concurso MMRCA. Para causa::, foi motivo suficiente para uma pesquisa sobre o concurso. Às voltas com mais essa empreitada, descobri o excelente (e longo) artigo do jornalista austríaco especializado em aviação Georg Marder (sobre o qual não consegui levantar maiores informações). Ao que parece, Marder foi enviado à Índia, em fevereiro de 2011, para cobrir, como correspondente do site especializado ACIG.org (que aconselho os assíduos a colocar nos “favoritos”) a feira de aviação Aero-Índia 2011. Marder tece diversos comentários interessantes em torno da renovação da Força Aérea Indiana, com detalhes que oferecem um quadro bem completo da situação, a começar pelo título da matéria: “Aero-Índia 2011: Dinheiro não é problema.” Este curioso cabeçalho parece traduzir o espanto dele diante do que via – e, serei franco: não foi suficiente para traduzir o meu… Mas vamos ver o que o cara tem a dizer. Não esqueçam que a tradução é livre (trata-se de um austríaco, falante de alemão, escrevendo em inglês), a começar pelo título, editado por mim. O original é uma expressão alemã vertida para o inglês, e que não faz muito sentido em nossa língua. A edição do conteúdo foi feita para torná-lo mais claro e dirimir certas dúvidas, como colocar por extenso algumas abreviaturas que o autor parece nem ter notado; também resolvi converter os postos militares para os equivalentes das FFAA brasileiras, prática que não é consenso entre os tradutores-editores, mas que, para fins de esclarecimento, acho razoável. Por fim, espero não encher o saco dos assíduos mais do que o necessário. O original, para quem esteja disposto a tanto, pode ser conferido aqui::

Desafiada pelo que possível cenário de ser espremida entre os dois rivais, a China, em franca expansão, e seu “procurador militar”, o Paquistão, a Índia está envolvida num grande esforço para fazer equivaler sua capacidade militar e seu crescimento econômico. Na maior exposição aeronáutica e espacial da Ásia, a Aero Índia 2011, realizada no Aeroporto Internacional de Bengalaru, perto da cidade de Bangalore, entre 9 e 13 de fevereiro, a Força Aérea Indiana (Indian Air Force – IAF), apresentou vários de seus projetos. Até 2020, aproximadamente 1000 novos jatos e helicópteros serão adquiridos, fazendo da base aérea de Yelahanka a “feira multibilionária da vez” para a indústria aeroespacial internacional. Todo mundo estará lá. Bem, quase todo mundo…

O ministro indiano da Defesa, Shri A. K. Antony, abriu o evento sob os olhares atentos de uma “galáxia” de embaixadores, funcionários, representantes da indústria aeroespacial, expositores, interessados e jornalistas, procedentes de mais de 40 países. Em seu discurso inaugural, Antony expressou confiança de que o evento irá “aumentar ainda mais a emergência da Índia como um mercado atraente e um hub de terceirização chave para as empresas aeroespaciais globais”.

Para entender o alcance do que ocorre em torno do compromisso dos líderes indianos com a rápida modernização das forças armadas indianas, vejamos alguns números impressionantes fornecidos por Antony à imprensa especilizada presente: “Nosso país foi capaz de manter, entre 2009 e 2010, o crescimento do PIB em 7,2%, acima dos 6,7% registrados no crise dos anos de 2008-2009. O PIB deverá crescer a uma taxa de 8,5% durante 2011 e, portanto, as despesas com a defesa também vão aumentar substancialmente nas próximas duas décadas.” Na verdade, logo após o final da feira, em 28 de fevereiro, o ministro das Finanças Pranab Mukherjee anunciou um aumento de 12% no orçamento de defesa, com relação ao ano anterior – chegando a um total de US$ 36,5 bilhões.

Aos ouvidos dos observadore da “segura” e saturada Europa, isso provavelmente soou como música. No entanto, oficiais militares indianos em Yelahanka informaram ao ACIG que o esforço para aumentar o orçamento de defesa até 2,5% do PIB será, em parte, “neutralizado” pela inflação, que está em alta. É esperado, para o ano fiscal de 2011, que alcance 9,3%. Portanto, os gastos militares indianos poderão reduzir-se para 1,83% do PIB, muito menos do que 3% exigido pelas despesas com as forças armadas. Seria a segunda vez em três décadas que os gastos militares da Índia cairiam abaixo de 2% do PIB.

Então, por que o montante de recursos financeiros, junto com uma farra de compras sem paralelo – ainda que dificultada pela inflação – que, juntos vão dando a impressão de que, se o dinheiro não é problema, ainda não será suficiente? As respostas foram dadas pelo ministro da defesa, juntamente com o tenente-brigadeiro do ar (Air Chief Marshall) PV Naik, da Força Aérea Indiana: “Trata-se de China e do Paquistão – nesta ordem -, mas também a crescente esfera de interesses relativa às linhas de suprimentos que mantém o crescimento econômico da Índia”.

Guerra em duas frentes

“Sim, a modernização das forças armadas da China e seu crescente orçamento militar são questões que despertam grande preocupação”, disse Antony. O brigadeiro Naik confirmou a encomenda de um estudo sobre o novo caça chinês de quinta geração, o Chengdu J-20. Pequim aumentou seu orçamento de defesa para 2011 em 12,7%, para US$ 91,4 bilhões. Na sequência de um aumento de 7,5% em 2010, nos três anos anteriores o orçamento de defesa da China teve crescimento de 14,9%, 17,6% e 17,8%, respectivamente. Um relatório do departamento de Defesa dos EUA sobre o poder militar da China estima que os gastos militares reais nos últimos anos sejam pelo menos duas vezes maiores do que dizem os números oficiais.

Os dois países têm, de longa data, disputas de fronteiras na linha do Himalaia e, apesar de Antony sublinhar a vontade de continuar a trabalhar pela paz junto aos chineses, a Índia diz que a China ocupa ilegalmente 38000 km2 de seu território no noroeste, e Pequim ainda apresenta reivindicação sobre 90000 km2 do estado de Arunachal Pradesh. Em função dessa situação, a Índia tem reforçado sua presença militar ao longo da fronteira com a China. Foram transferidos para a região milhares de efetivos terrestres, equipados com blindados e artilharia, e bases aéreas capazes de receber os Su30MKI, situadas a 9000 pés acima do nível do mar estão sendo ampliadas. A China instalou, no Tibete ocupado, uma base capaz de receber os clones locais do Su27SK, os J11.

Por outro lado, oficiais militares indianos, funcionários da indústria e jornalistas presentes em Bengaluru confirmaram ao ACIG a opinião geral de que o rival Paquistão é “cada vez mais uma colônia militar chinesa.” Para os indianos, parece óbvio que as relações entre Paquistão e China estão se tornando mais estreitas, de modo que os dois países poderiam juntar-se contra a Índia. Segundo essas fontes, as evidências são numerosas, a começar pela crescente presença chinesa na Caxemira, ocupada pelo Paquistão. Assim, uma guerra em duas frentes é vista como possibilidade real e tem influenciado a doutrina indina de defesa, mas a estratégia tem sido manter a moderação e aumentar, de forma segura, suas próprias capacidades militares. Estes dois aspectos foram apresentados como as razões para as recentes aquisições de aeronaves de transporte C17 Globemaster e Hercules C130J, da aeronave de combate leve Tejas, do novo patrulheiro marítimo P-8I Poseidon, e os investimentos no caça de quinta geração russo-indiano PMF, bem como no contrato MMRCA.

Outra ilustração do motivo pelo qual a Índia está no foco de todos os players mundiais do “circo” da indústria aeroespacial é que – sublinhou para o ACIG o brigadeiro Naik – nos vemos como “uma potência regional com interesses globais. Nossa esfera de interesses econômicos, políticos e culturais está em causa, pois se espalha em uma área que, partindo do estreito de Ormuz, vai além do estreito de Málaca. É preciso compreender que as necessidades energéticas indianas também estão crescendo e temos de nos preparar defender os interesses nacionais além de nossas fronteiras… ”

A modernização “Mãe de todos os negócios”

A Índia pretende assinar, por volta de setembro de 2011, um contrato de US$10-12 bilhões, para 126 Aeronaves de Combate Médias Multifunção (Medium Multirole Combat Aircraft – MMRCA), vista por todos os fabricantes de aviões militares como o negócio mais lucrativo da década. Começando com 126 unidades, pode chegar a duzentas. O brigadeiro Naik explicou, durante a feira: “Na sequência das avaliações técnicas feitas nos próprios países de origem, em 2010, o ranking técnico foi estabelecido. Os seis fornecedores atenderam a 95% dos 643 requisitos. Agora espero que a comissão de negociação comercial (CNC) para o MMRCA se reúna em março para começar as avaliações de preço no sentido de selecionar os mais vantajosos, e espero assinar o contrato antes de sair em julho – desde algum fornecedor insatisfeito não jogue areia na máquina e atrase todo o processo ..! ”

No entanto, as considerações estratégicas mencionadas também estão influenciando o concurso. Em 2010, os EUA forneceram ajuda militar de US$ 2,29 bilhões ao Paquistão, levantando sérias preocupações entre o establishment de segurança da Índia. Delhi também está inquieta sobre o fornecimento de F16 lote 52+, a maioria dos quais está baseada em Shahbaz, no sudeste do Paquistão. Por este motivo o Lockheed-Martin F16IN Super Viper pode ter de enfrentar uma “dura batalha” na Índia, agravada pelo fato de ser um conceito que remonta à década de 1970. Ainda assim, dois F16C da USAF, estacionados na base de Misawa, Japão, e dois F16F lote 25, dos anos 1970, pertencentes à Força Aérea dos Emirados Árabes Unidos, foram trazidos para Yelahanka. O astro da versão “bollywoodana” de “Top Gun”, Shahid Kapoor (“Mausam“) puxou alguns Gs nessas aeronaves…

Outro aspecto que comprometem as chances do F16 – e também as dos Boeings 18E/F SuperHornet – é a questão da plena transferência de tecnologia, cláusula pétrea do contrato indiano. O ITAR (International Traffic in Arms Regulations – “Regulação para o Comércio Internacional de Armas”) é uma lei norte-americana que impõe restrições à exportação e importação de artigos relacionados com a defesa. O Departamento de Defesa dos EUA impõe essas regras com o objetivo de salvaguardar a segurança nacional dos EUA e implementar os objetivos de política externa do país. Declarações feitas ao ACIG deixaram clara a disposição do Congresso dos EUA em “interpretar” esses regulamentos do modo como a Índia espera, que pode significar “tudo ou nada” para os dois concorrentes norte-americanos.

O F18E-F tornou-se, na Aero Índia, o primeiro caso de “jato mutante” visto em qualquer linha de vôo. A versão apresentada no primeiro dia da feira foi um modelo “F”, biposto, pertencente ao esquadrão VFA113 da Marinha dos EUA – o industrial indiano Ratan Tata fez um vôo neste avião; no dia seguinte, a aeronave transformou-se num  “Inseto Silencioso” [nota de causa:: tradução livre de “Silent Bug”, possível trocadilho intraduzível resultante da combinação, pelo autor, do nome Silent Hornet, atribuído pela Boeing a nova versão (sem compradores) do SuperHornet, e a expressão bug, que no jargão da área tecnológica significa “problema” – ao pé da letra, Hornet e Bug são insetos]. Não tinha marca alguma, e trazia nos controles o piloto de testes da Boeing, Ricardo Traven. Juntos, tinham a função de explicar o programa SuperHornet International Road Map. Claro, os novos acessórios, como tanques de combustível e pods de armamento conformais para aumentar as capacidades stealthy da aeronave, indicadores de iluminação por laser, um equipamento de IRST (Infra-Red Search Track – “busca e rastramento de ondas infra-vermelhas”) colocado embaixo do nariz, eram apenas mock-ups de plástico, e ainda não existem de fato. Foi dito que não constavam da oferta apresentada ao MMRCA. Estas melhorias estariam disponíveis, posteriormente, para os clientes internacionais, como talvez seja o caso do Japão (que, mais tarde, pode, entretanto, ter outros problemas …).

A impressão geral, para nós do ACIG, em Bengaluru, foi que os concorrentes mais fortes no concurso são os “Eurocanards” – Dassault Rafale, Eurofighter Typhoon e um pouco atrás,  o Gripen NG. Estes seriam as escolha preferidas e que a IAF irá decidir entre eles.

O Rafale foi apresentado como substituto para o Mirage 2000-5, originalmente o concorrente para a ser apresentado ao concurso, mas que foi retirado em função do fechamento das linhas de produção do Mirage e da entrada de aeronaves muito mais avançado na competição. Apresentado na Índia pelo comandante da Armée De l´Air general Jean Paul Palomeros, é um projeto de origem cem por cento da francesa Dassault, o que constitui uma vantagem no que diz respeito à questão da transferência de tecnologia. Alegou o general que o Rafale tem uma vantagem sobre o Typhoon e sobre o Gripen: ao contrário destes, não têm componentes fabricados nos EUA e não está sujeito às restrições dos ITARs. O governo francês autorizou a transferência de tecnologia completa para a Índia, incluindo o radar AESA RBE2-AA, bem como dos códigos-fontes dos softwares da aeronave, o que permitirá a IAF integrar qualquer equipamento, aviônico ou arma, às aeronaves adquiridas.

O Gripen NG impressionou a IAF por suas capacidades de pouso e decolagem em distâncias curtíssimas e certamente terá uma chance, caso a comissão leve em consideração que originalmente o MMRCA seria um concurso para aeronaves de capacidades intermediárias. Por ora o sueco continua a ser um azarão: um candidato consideravelmente mais barato (mas estamos vendo um concurso onde o dinheiro parece não ser problema!). Por outro lado, o radar AESA Selex-Saab ES-05 “Raven” está com seu desenvolvimento atrasado  – e esses radares são um critéiro básico para a IAF. A versão “engordada” do NG é ainda apenas um protótipo e, muito semelhante ao LCA indiano, o Tejas.

O desempenho mais convencional foi o do russo MiG35 – que tem aparecido pouco. Com vários problemas relatados durante os testes da fase de avaliação, é considerado pelo IAF como pouco mais que um upgrade do MiG29. É verdade que o único demonstrador do MiG35 é o ex-MiG29M2 n° 154, no qual o autor voou em 2003 e cujo piloto ele encontrou novamente como pareceiro no seminário que aconteceu em paralelo à Aero Índia. O caça russo parece que efetivamente fora da disputa. Mas, de acordo com as mesmas fontes, a Rússia não estaria muito ofendido com isso. Devido a irritação do Kremlin com o insucesso  do MiG35, o diretor de longo data da estatal United Aircraft Corporation – o legendário projetista do Su30MKI, Alexey Fedorov – teria sido substituído pouco antes do início da feira pelo influente executivo dos projetos Sukhoi e MiG,  Mikhail Pogosian. No entanto, outro grande bolo russo está sendo  assado no forno indiano…

Tentativa de quinta geração

Talvez devido aos temores da Lockheed-Martin e do Pentágono de que o F16IN não seria selecionado – nos meses anteriores à abertura da feira correu um boato sobre a possível participação indiana no programa longo programa F35. Questionado sobre essa idéia, uma obviamente irritado ministro Antony esclareceu: “Já estamos associados a Rússia na produção de um caça de quinta geração. Nenhum outro país ofereceu-nos estas tecnologias no passado, ou para o futuro. Estamos muito à frente agora na parceria com a Rússia. Um recuo está fora de questão..!”

Em dezembro de 2010, as russas UAC  e Sukhoi assinaram um protocolo de intenções com a gigante indiana do setor aeroespaccial HAL (Hindustan Aeronautics Limited), para desenvolver conjuntamente o projeto para um novo caça multifunção de quinta geração, baseado no desenho Sukhoi T50 (PAK FA), cujo segundo protótipo voou em 3 de março de 2011. Os custos globais do projecto podem alcançar US$ 6 bilhões e, de acordo com o executivo-chefe da UAC. Mikhail Pogosyan, “… o trabalho entre a Índia e a Rússia será distribuído na proporção 35/65. Entre 200 e 250 unidades estão previstas para ambas as forças aéreas. “Pogosyan também disse ao ACIG que a demanda indiana volta-se principalmente para a versão biposto, que hoje chamamos PMF (Perspectival Multirole Fighter – “Caça Multifunção em Perspectiva’), que não estava, originalmente, na agenda da Sukhoi. O brigadeiro Naik acrescentou: “Estamos à procura de um avião de quinta geração. Estamos à procura de uma aeronave, que seja capaz de desempenho supercruise, equipado com armas de longo alcance, dotado dos mais avançados sistemas de aviônica, que não existem em uma aeronave de quarta geração. Nós também achamos que em cenários modernos altamente saturados da guerra eletrônica e contramedidas eletrônicas, com o engamento de alvos em tempo real e por enlaçamento de dados, e num ambiente BVR com novos mísseis, você precisará de um segundo tripulante. Nossa data de para começar com este projeto é 2017 … ”

Teimosia local

A Índia se diz a maior democracia do mundo e parece que, de alguma forma, sua burocracia também tem de ser tratada nessa ordem de grandeza. Várias vezes, suas instituições pararam, interromperam ou revisaram aquisições de defesa, e recentemente uma tentativa de adquirir reabastecedores A330 foi cancelada pela burocracia financeira devido à questões de preços (superfaturados). Devido a tais fatores – em alguns casos, justificados – mas também a contratempos técnicos, muitos dos assim chamados “projetos locais” [nota de causa:: tradução livre de um trocadilho intraduzível – e meio besta – entre as palavras “indigenous”  e “indian“], e até  mesmo algumas parcerias internacionais acabaram arrastando-se por anos, até por décadas. Ainda assim, esses projetos foram teimosamente  continuados por vários governos, e dois deles deram eloquente sinal de vida na Aero Índia 2011.

Somente em janeiro o HAL-ADA [nota de causa:: Aeronautical Development Agency – um consórsio governamental estabelecido em 1984 para gerencial o projeto] do LCA (Light Combat Aircraft “Aeronave de Combate Leve”) “Tejas“. Esta aeronave foi homologada pela IAF, abrindo caminho para o recebimento das primeiras 100 unidades do Mark 1, equipado com o propulsor GE404. O projeto remonta a 1990, numa tentativa de substituir uma centena de obsoletos MiG21, mas seu primeiro vôo não aconteceu até 2001. E foi preciso esperar até 2008 para que voasse a versão de produção. Agora, uma versão “Mark 2” muito melhorada, assim como uma versão naval biposto, foram anunciadas para 2014, equipados com o propulsor  GE414. Enquanto o coronel (group captain) Krishna colocava o protótipo PV2 para mostrar suas qualidades, foi explicado que o “Tejas” pode transportar quase 60 por cento ​​de seu peso básico de 7 toneladas em carga bélica, uma relação inigualável por qualquer aeronave moderna. O delta sem cauda indiano é chamado “o menor dos modernos aviões de combate” e incorpora (pelo menos parcialmente) um sistema  quadruplex de controle digital (fly-by-wire), um avançado glass-cockpit e será uma aeronave multimissão para qualquer tempo. O radar é um ELTA EL/M2032 multimodo.

Não menos importantes são alguns dos impressionantes números em torno das aquisições da IAF, que deverão tornar ainda mais eriçada a imagem da Índia: 80 Mi171V5 estão sendo adquiridos e uma outra competição para definir a aquisição de 22 helicópteros de assalto deverá ser vencida pelo AH64 lote III e uma outra, similar, está avaliando helicópteros pesados de transporte, estando entre o Mi26T, CH47F e uma variante do CH53. Claro, esses não tem nada a ver com o novo helicóprtero leve de combate (LCH) da HAL, de 5,5 toneladas, e que voou mais ou menos um ano atrás e deverá ser adquirido pelo Exército Indiano em números de até 180 unidades. O primeiro protótipo voou durante a feira, o outro, apresentado em exposição estática, numa camuflagem pixelizada. Cento e vinte e três jatos de treinamento avançado e ataque leve Hawk, vinte anos depois do processo de seleção, estão em produção na HAL, enquanto 120 Jaguar e 57 Mirage 2000 estão em vários estágios de modernização::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: mais história imediata para curiosos::

A formação política da Venezuela, que gerou a figura amada-odiada e (do ponto de vista de seus “admiradores” da imprensa “democrática”) um tanto pantagruélica (julguem os nove ou dez assíduos de causa:: se a comparação não cabe…) de Hugo Chávez, é particular, na América Latina. O interessante é que o exame dessa trajetória corrobora, totalmente, a máxima de Winston Churchill (e que faz deste conservador e imperialista inglês o “muso” aqui do redator::): “quem não sabe história, não sabe nada”. Churchill também dizia que “a democracia é o pior regime, tirando todos os demais”, máxima  esta não tão apreciada pelo redator::, já que é conhecida e repetida ad nauseam por nove entre dez liberticidas e dez entre dez moderninhos. A questão é – de que democracia estaríamos falando, mesmo?.. Apenas um mergulho na história permite dizer. Assim, causa:: depois de apontar algumas pistas, afirma e prova: Chávez não é diferente de todos os líderes políticos que marcaram a Venezuela, desde o século 19; suas práticas se plantam na história e na cultura política local. A grande diferença entre o tenente-coronel mais falastrão atualmente em ação na América do Sul e os outros líderes políticos venezuelanos é a mudança de foco. Mas… Julguem essa afirmativa do redator:: os nove ou dez leitores deste blogue…::  

A história política da Venezuela é marcada, no século 19, pela figura de líder conhecida como “caudillo“. O termo é espanhol, e surge pela primeira vez na edição de 1729 do Dicionário da Real Academia de España, definido como el más enérgico o el más violento, que se convierte en el primero de su pueblo o de la república. Não é um termo estranho aos outros países do continente, que, em cada lugar, assume formas particulares. De comum caudillos como Perón ou Porfirio Diaz têm os elementos dramáticos, tenebrosos e pitorescos. Podemos entende-los como líderes locais oriundos de regiões específicas, capazes de empalmar o poder central ou desafiá-lo com certa eficácia (causa:: sugere aos nove ou dez leitores que não deixem de ler este artigo). Na Venezuela, marcaram um longo período, que se seguiu à independência, de guerra civil e desordens locais. A base do poder desses líderes era o controle da produção econômica, baseada na monocultura e na relação com grupos comerciais que cuidavam da exportação, ou seja – da relação com as economias centrais. O período após a guerra de independência foi de desorganização econômica e social – o país foi praticamente destruído. Entretanto, a partir dos meados do século 19, a economia passou a avançar, baseada principalmente na produção de café, cacau e em investimentos originados na Inglaterra e nos EUA, em infra-estrutura (portos, estradas de ferro e equipamento urbano). Esse período é marcado pelo governo do general Antonio Guzmán Blanco, que estabeleceu uma ditadura de dezoito anos de duração (1870-1888). Guzmán era um general que se notabilizou por incrementar uma burocracia de estado bastante competente e extremamente fiel, recrutada entre a classe média de Caracas. A queda de seu regime foi motivada pela extrema riqueza acumulada por ele, que começou a incomodar os próprios aliados. Claro, existiram outros motivos, todos tributários do extremo centralismo e do fato de que o general tornou-se especialista em chicanas legislativas, e reformava a constituição de modo a conseguir reeleger-se presidente. Em 1888, eleito pela terceira vez, e tendo adoecido gravemente, foi para a Europa e acabou aconselhado a não retornar.

Guzmán (conheça a cara da figuraça aqui) era um tipo pitoresco: passava boa parte do tempo em Paris, dizia que seu maior prazer era abrir escolas, queria transformar Caracas em uma espécie de “Paris equatorial” e colocou em si mesmo o apelido de “Ilustre Americano”. Embora cobrasse de seus auxiliares “honestidade e austeridade”, levava uma vida de nababo e gastava fortunas para gozar de “pequenos prazeres”, como promover apresentações de ópera que assistia sozinho. Seu governo era fortemente associado à Caracas, que, dadas as devidas diferenças, cumpria o papel político de Buenos Aires, na época das Províncias Unidas do Rio da Prata, ou seja, atrair a implicância do resto do país. 

O sucessor de Guzmán foi eleito em um pleito que ninguém levou a sério, e acabou derrubado, só que o governo militar que assumiu não tinha base política alguma e passou seis anos gastando muita energia e ainda mais dinheiro para manter-se no poder. Derrubado, abriu-se um período de ditaduras de caudillos procedentes do estado de Táchira na região andina da Venezuela. O primeiro deles é emblemático: o militarmente competente (embora não fosse militar…) e – segundo é dito – totalmente maluco (de tanto que gostava de imitar Napoleão, recebeu o apelido de El Cabito –  “O pequeno cabo”…) Cipriano Castro Ruiz. Membro da elite autonomista dominante de Táchira, onde atuava como jornalista e político, Castro organizou um exército privado financiado por aliados e marchou sobre Mérida e  Caracas em 1899. Uma vez no poder, iniciou uma sangrenta repressão sobre a população local. Castro era de tal forma violento e dado a acessos de fúria que chegou a ser chamado  de “doido brutal” pelo então secretário da Guerra dos EUA, advogado, político imperialista e (não é piada – causa:: é um blogue sério…) detentor do prêmio Nobel da Paz,  Elihu Root. É possível que o desgosto do insigne norte-americano mais fosse provocado pelo viés nacionalista revelado pelo ditador do que propriamente por sua índole violenta. Possibilidade bastante possível, assim digamos: Castro passou boa parte de seu governo tentando “enquadrar” as atividades econômicas das empresas estrangeiras que proliferavam na Venezuela, bem como as atividades políticas das grandes colônias de imigrantes que viviam na Venezuela, particularmente espanhóis e italianos. O resultado: um desfile de navios ingleses, alemães e italianos que sucesivamente bombardeavam a costa venezuelana e desembarcavam tropas para “garantir os interesses” de seus cidadãos ofendidos. 

Entretanto, sejamos justos – os problemas venezuelanos com os estrangeiros não se resumiam nem começaram com a maluquice de Castro. A existência de colônia britânicas, francesas e holandesas bem próximas, em Trinidad, Curaçao e Martinica (nas Antilhas) e nas Guianas, (particularmente na Guiana Inglesa), colocava o país ao alcance dos interesses dessas potências, criando intenso tráfego de indivíduos, mercadorias, valores e (nem sempre boas…) idéias – os jornais publicados nessas colônias circulavam livremente na Venezuela. Esses interesses eram fonte constante de pressão sobre o ocupante do governo em Caracas, pois as colônias funcionavam como ponto de apoio para forças navais. Assim, cada vez que um grupo de cidadãos estrangeiros alegava, real ou imaginariamente, estar sendo alvo de perseguição, a costa venezuelana recebia a “visita” de um esquadrão naval. Só que o meio mais eficaz de pressão e desestabilização não era o “bengalão” (tradução para big stick), mas a concessão de “asilo político” a dissidentes venezuelanos, que também recebiam auxílio financeiro e militar para montar incursões contra o território do país. Assim, a implicância que Chávez manifesta pelo “ocidente” não é recente nem invenção dele e, admitamos, nem sem razão (um excelente artigo sobre o tema, em inglês, aqui).

Em 1902 os EUA tentaram colocar ordem naquele canto do quintal, enviando uma delegação de diplomatas a bordo de uma força-tarefa, com a oferta de créditos financeiros e apoio político. O governo norte-americano mediou, em 1903, um acordo entre Castro e as potências européias que bloqueavam a costa venezuelana. O ditador pareceu sossegar durante pouco tempo, mas logo voltou a criar caso com empresas estrangeiras, o que acabou levando ao rompimento de relações diplomáticas com a França e Holanda. O apresamento de navios mercantes holandeses surtos em portos venezuelanos levou à uma intervenção holandesa (!!!). O resultado desse incidente foi a destruição da “marinha venezuelana” (um punhado de navios totalmente obsoletos) por um esquadrão naval baseado em Curaçao. Esse evento, acontecido em 1907, apressou a queda do ditador, substituído por seu ministro da guerra e compadre, Juan Vicente Gómez, talvez a mais tenebrosa figuraça da história venezuelana. Gómez abriu outro período ditatorial, que viria a durar até 1935. 

Politicamente, desde o século 19, a Venezuela tem uma característica única na América Latina. Nos longos períodos ditatoriais, a presidência não era ocupada, necessariamente, pela mesma figura. Desde a ditadura de Guzmán, tornou-se comum que o ditador se alternasse no poder com aliados fiéis, que o substituíam através de “eleições” e nomeavam o antecessor “ministro da guerra” – já que a base da estabilidade era o exército. 

Gómez seguiu essa regra e a aperfeiçoou, não apenas se alternando entre os postos de presidente e ministro da guerra como também empossando legislaturas e juízes “de fantasia”. Não é por outro motivo que o período de vinte e sete anos de sua ditadura foi marcado por seis constituições, promulgadas para permitir sua continuação no governo, como presidente e ministro.  

A base de poder era o exército, cuja oficialidade era recrutada principalmente das regiões de Táchira e Zulia. Essa oficialidade recebia salários desproporcionais e, principalmente, benefícios resultantes do uso da administração pública e da prática da corrupção. O exército, nessa época, era treinado por militares chilenos de formação alemã, e armado com equipamento up-to-date importado da Alemanha. Por outro lado, o período Gómez também inaugurou a prática da vigilância social por uma polícia secreta onipresente. Por outro lado, o presidente entendia perfeitamente o perigo que representava a proximidade das potências imperialistas, a começar pelos EUA. Procurou manter-se em bons termos com os interesses estrangeiros instaladas no país, ao mesmo tempo que impedia a fuga de oponentes para as colônias próximas – estes eram presos e geralmente “morriam na cadeia” durante os longos períodos em que “esperavam julgamento”.

Por outro lado, afirmava que os venezuelanos, “primitivos e miscigenados”, preferiam um governo violento, que os mantivesse em ordem. Seu governo tinha suporte teórico no livro “Cesarismo democrático” (uma interessante resenha analítica, em espanhol, aqui), escrito pelo historiador, jornalista e teórico racista Laureano Vallenilla Lanz (uma biografia crítica desse avô da “democracia” venezuelana, aqui), que se tornou uma espécie de doutrina do regime. Com base nessa doutrina, Gómez também afirmava que o desenvolvimento nacional somente poderia acontecer sob liderança de uma base de criollos (a classe dominante e seus clientes, brancos de origem hispânica), apoiados por estrangeiros tecnologicamente superiores.

O período do  regime de Gómez foi marcado por certa prosperidade econômica, em função da situação internacional que se seguiu à 1ª GM. A partir de 1918, um novo elemento passou a influenciar fortemente os rumos da Venezuela: o início da exploração, por empresas norte-americanas, do petróleo. Embora essa fase só viesse a explodir nos fim dos anos 1920, a exportação de hidrocarbonetos significou o acesso a uma renda inconcebível no século 19. A explosão da economia dos EUA, depois da guerra, e a crise das economias européias ofereceu oportunidades brilhantes (claro que todas perdidas) à América Latina. A  Venezuela equilibrou sua balança de pagamentos e iniciou um programa de obras públicas que mudou a face das principais cidades. Esses programas, bem como o controle das rendas do petróleo, aumentaram e solidificaram uma classe-média branca e urbana e possibilitaram vantagens para as classes proprietárias que tinham suas rendas baseadas nas antigas produções. A expansão da indústria de petróleo criou um tipo de relação entre capital estrangeiro e classes dominantes locais que não se observava em nenhum outro país da América latina. A exploração e exportação de petróleo dependia de uma base técnica mais complexa do que as exportações de produtos agrícolas, que eram base das economias nacionais de Argentina, Uruguai, Brasil e Peru, então as maiores potências econômicas do continente. Por outro lado, a presença do capital estrangeiro em convivência “pacífica” com uma sólida classe média criou uma ilusão de “ambiência liberal” que também não se observava no resto do continente.

Se o leitor de causa:: (que se caracteriza por uma paciência verdadeiramente paulina…) chegou até aqui, já deve estar percebendo que Hugo Chávez reúne, como figura política, diversas características que têm base na cultura política desenvolvida na Venezuela, ao longo dos cento e tantos anos que o precederam. Mas o interessante é que a oposição “democrática” que o demoniza – e é por ele demonizada – também. Fica claro que o pacto de Punto Fijo, que abriu o período de “estabilidade democrática” que marcou os anos 1960 e 1970 planta suas bases na alternância de governantes de fachada, inventada no século 19. Por outro lado, o “ambiente liberal” era outra fachada, visto que o controle das rendas nacionais era solidamente empalmado por uma classe dominante que o usava para manter o poder – exatamenteo que Chávez vem fazendo, desde que foi eleito.

O buraco chavista é, pois, mais embaixo. Vamos voltar a ambos – esse moderno caudillo e ao buraco, sistematicamente cavado pela situação construída na Venezuela ao longo de meio século de alternância no poder da classe dominante criolla. A quebra desse “equilíbrio” é um dos motivos que fazem Chávez aproximar-se do gigante Pantagruel. Por sinal, essa piadinha hermética os cultos nove ou dez assíduos de causa:: devem ter percebido: na língua falada na Bretanha, durante a Idade Média, “pantagruel” quer dizer “tudo alterado”::

Um outro lado da moeda?..::Venezuela: história imediata para curiosos::

Divertida nota do “colunista gracinha”  Ancelmo Gois, do vibrante matutino carioca (aquele mesmo…): “Lula e Kirchner podem voltar ao poder pelo voto soberano. Jogo jogado. Mas Chávez quer se eternizar porque despreza a democracia. Na minha terra, isso se chama ditadura.” (9 de agosto de 2010).

Parece que na terra do jornalista fofolete, “democracia” é a possibilidade de que a grande mídia se esconda atrás de algo vagamente chamado “liberdade de opinião” para emitir sandices em causa própria como aquelas que, em bloco, os empregados de O Globo costumam lavrar. causa::, como já foi dito inúmeras vezes, não tem opinião política (o redator:: tem, mas essa é outra história…) e considera que a dos os nove ou dez assíduos são problemas de fôro íntimo (como se diz por aí…). A função auto-atribuída por este blogue que se pretende “recurso de pesquisa” é veicular informação o mais objetiva possível. E já que amanhã o novo presidente colombiano deverá encontrar-se com o espantalho mais querido de nossa imprensa, causa::, para contribuir com a cultura política geral, publica alguns dados interessantes sobre a história recente da Venezuela, esse exemplo de “democracia assassinada” que tanto comove e indigna nossa grande imprensa e seus empregados…::   

A carreira militar de Hugo Chávez desenrolou-se num período em que a Venezuela esteve, sem interrupção, em “estado de direito” (coisa que, como os nove ou dez assíduos sabem, não significa, necesssariamente, “estado de justiça”) iniciado em 1959. A Venezuela do século 20 é marcada, a  partir dos anos 1930, pela descoberta de enormes jazidas de petróleo na região do lago Maracaibo. A partir de então, tornou-se um país potencialmente rico e politicamente instável. A riqueza surgida com o petróleo criou uma elite aristocrática apartada do resto do país – era comum que membros dessa classe mandassem as famílias viverem no EUA -, ao mesmo tempo que ampliou a classe de despossuídos que historicamente vivia no limite da sobrevivência.  Ao mesmo tempo que os novos ricos, produzidos por níveis sem precedentes de corrupção optavam por viver nos EUA, as cidades creciam de forma descontrolada. É claro que, nesse período, sucederam-se os governos militares. Em janeiro de 1958, depois de seis anos de governo discricionário comandado pelo general Rafael Pérez-Jiménez , sua derrubada do poder produziu as condições para que uma coalizão de grupos políticos tornasse possível a restauração do estado de direito. Essa restauração tomou forma no chamado Pacto de Punto Fijo (residência de Rafael Caldera, em Caracas, e não o porto por onde se escoa o petróleo venezuelano). Basicamente um acordo de cooperação entre partidos políticos em torno de uma agenda comum e da divisão de cargos executivos, o acordo culminou na eleição de Rómulo Betancourt (1959-1964). Em 1961, uma nova constituição foi estabelecida e, desde então, o país tem estado sob uma série não interrompida de governos civis. O fato é que a democracia em moldes liberais, marcada pela alternância no poder de representantes das elites não chegou a contribuir para modificar a situação econômica interna, e os indicadores sociais continuaram entre os mais baixos da América Latina. Alguns especialistas também colocam o período de Punto Fijo como de intensa repressão política e de crescimento no país do ativismo político de esquerda revolucionária. Este foi influenciado pela revolução cubana e alimentado pelas diferenças sociais que se tornaram mais visíveis com a prosperidade possibilitada pelo petróleo. O período “democrático”, era, na verdade, de alternância no poder dos partidos tradicionais e de “tranquilidade”, e teve em Rafael Caldera (1969-1974) sua principal figura. Caldera tentou criar um regime estável com sólida base econômica, baseado na exportação de petróleo.  

Em 1974, a primeira eleição de Carlos Andrés Pérez (1974–1979) da Acción Democrática coincidiu com o aumento dos preços do petróleo, promovido pelos países árabes a partir da OPEP, em 1973. Em seu governo, no ano de 1976, a produção de petróleo foi nacionalizada. Esse foi um importante evento, visto que a nacionalização era reivindicação de praticamente todas as facções políticas. Pérez  assumiu a liderança do processo, tomando a bandeira da oposição, e como tática para auferir maiores ganhos para o estado, visto que a Venezuela, com a crise do petróleo, havia se transformado em principal fornecedor dos EUA. A partir de então, o estado passou a praticar uma política social populista, repassando parte dos ganhos com os preços internacionais para a população sob a forma de benefícios públicos tais como transportes praticamente gratuitos, serviços médicos e auxílios diversos. Por outro lado, a ascendente classe média, composta por funcionários públicos civis e militares e clientes do governo, foi beneficiada por importações subsidiadas e benefícios fiscais. De modo generalizado e fácil de prever, a corrupção, que já era endêmica no país, explodiu. Essas eram as bases da “estabilidade” venezuelana,  e crise econômica local foi apenas postergada. No final dos anos 1970 a crise econômica nos EUA obrigou a um realinhamento, em que os “benefícos sociais” que mantinham os “barrios” tranquilos começaram a ser retirados, enquanto a política de subsídios à classe média e de repasses à elite, foi mantida enquanto possível. A situação política tornou-se, então, de virtal insurreição.

Esse período é considerado como o fim do acordo entre as elites que possibilitou, no apagar dos anos 1950, o restabelecimento da democracia formal na Venezuela. Por outro lado, os dez anos de constantes altas no preço do petróleo encerraram-se de vez quando os produtores alinhados na OPEP começaram a aumentar sua produção, como forma de concorrer com a crescente produção soviética saída dos enormes e recém-abertos campos siberianos. O resultado foi uma baixa generalizada no preço internacional do barril, que acabou de vez com a prosperidade venezuelana – e levou a reboque a estabilidade política. Isso significou a abertura de uma crise econômica sem precedentes, com a renda nacional recuando em mais de 20% em apenas cinco anos. O resultado foi clássico e bem conhecido em toda a América latina: uma crise da balança de pagamentos. Em 1989, a eleição de Pérez para novo mandato abriu-se com medidas de austeridade típicas das “soluções milagrosas” do FMI (bem conhecidas entre nós, por sinal…): “austeridade fiscal”, reajuste linear de 100% no preço dos combustíveis seguido de reajustes em todos os preços relacionados, ao mesmo tempo que facilidades fiscais para a exportação de petróleo foram decretadas. Imediatamente registrou-se aumento brutal nos custos dos transportes públicos e de certos gêneros de primeira necessidade, que fez explodir um levante popular. Pérez decretou a suspensão das garantias constitucionais e convocou o Exército para restaurar a ordem em Caracas – o número de mortos resultante até hoje não foi esclarecido, mas as cifras variam entre duzentos e três mil. As medidas “sugeridas” pelo FMI, claro, não deram em nada que não fosse a rápida deterioração da situação econômica.  

Foi esse o caldo de cultura de uma tentativa de golpe militar, em fevereiro de 1992. Declarando-se dispostos a “salvar o país reagindo à crise econômica” – a Venezuela estava mergulhada numa espiral inflacionária e  com altíssimos índices de desemprego; por outro lado, os preços internacionais do petróleo não davam mostras de reagir -, um grupo de militares tentou um “pronunciamento” (método em que um grupo de militares manifesta-se contra o governo e conta com a adesão do restante das forças armadas para tomar o poder). Eram oficiais militares de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis) ligados direta ou indiretamente a um movimento chamado MBR-200. Fracassaram. O líder dessa tentativa de golpe? Precisa dizer?

Mas diremos assim mesmo: tenente-coronel das tropas pára-quedistas Hugo Chávez, então comandante de uma unidade de elite das forças aeroterrestres.

Chávez já tinha, nessa época, forte ativismo político encoberto, dentro do exército. Em 1983, quando ainda instrutor na Academia Militar, lançou, juntamente com o  colega Felipe Acosta Carles, o Ejercito Revolucionario Bolivariano, que tinha por abreviatura EBR-200 — o  “200” em alusão ao bicentenário do nascimento de Simón Bolívar. O programa do movimento foi denominado pelos fundadores como “Bolivarianism0” (uma visão descritiva, aqui; uma mais à esquerda, aqui) que objetivava a Revolução Bolivariana (uma abordagem à esquerda, mas com boa descrição dos fatos, aqui). Em 1989, a jovem oficialidade do Exército tinha ficado bastante traumatizada com a ordem para atirar nas multidões de revoltosos, e Chávez conta ter recebido diversas consultas de oficiais que se declaravam dispostos a não obedecer uma tal ordem outra vez.

Chávez declarou que os acontecimentos de Caracas mostravam a falência de um sistema político que nunca havia servido ao povo venezuelano, por estar comprometido com os interesses da classe dominante, baseados esses na corrupção. Os líderes do MBR-200 e os outros envolvidos foram presos, excluídos do exército, julgados e condenados.

Seja lá como for, o fato é que o movimento sacudiu o panorama político do país. Diante da agitação popular, começaram a surgir protestos na própria elite política contra a corrupção fora de controle, e menos de um anos depois, o Congresso venezuelano votou o impeachment de Pérez, sob acusações de corrupção. Em 1994, o descontentamento público com o regime levou Rafael Caldera, novamente ocupando a presidência para o período1994–1998, a indultar Chávez, já então idolatrado pela população. Do ponto de vista da elite, encurralada pela insatisfação popular e paela agitação nas forças armadas, foi um magnífico tiro no pé. Após a anistia, Chávez abandonou a vida militar e se dedicou à política, sendo favorecido pelo agravamento da crise social e o crescente descrédito nas políticas tradicionais.

Em 1997, fundou o Movimiento V República, movimento de oposição que visava disputar as eleições presidenciais marcadas para 1998. Recebeu o apoio da coligação “Pólo Patriótico”, e acabou eleito com 56% dos votos. Assumiu a presidência em 1999, para um mandato de cinco anos. O problema é que a situação econômica ia de mal a pior, e as constantes baixas no preço do petróleo não permitiram um enfrentamento eficiente da crise. Além do mais, o ano também foi marcao pela promulgação de uma nova constituição, que aumenta os poderes do Executivo. Ao longo dos anos seguintes, o presidente implementou uma série de mudanças que, na prática, visavam diminuir os poderes de importantes parcelas dos setores dominantes, particularmente os proprietários de terras e a burocracia do petróleo, encastelada na PDVSA, a empresa estatal coordenadora da área de produção de óleo.

A partir de então se inicia um enfrentamento que culminará numa tentativa de golpe conservador. O desenvolvimento foi paulatino, iniciando-se num processo chamado goteo militar (“gotejo militar” – uma série de pequenos pronunciamientos, um atrás do outro, de autoridades militares), realizado, ao longo do mês de fevereiro de 2002. Abria-se uma disputa pelo controle do estado. Observou-se a mobilização de classes empresariais, realizada através de associações como a Fedecámaras, Consecomercio, PDVAL (então a federação dos supermercados e atacadistas de alimentos, não a subsidiária da PDVSA criada depois por Chávez…) e por aí vai mobilizando um enorme lockout pelas classes produtoras locais. No dia 7 de abril,  conforme o governo anuncia mudanças na direção da PDVSA, as lideranças de oposição convocam manifestações para o dia 9, e no dia seguinte, após tentativas de lockout e de manifestações de rua, que resultaram em tiroteio (provado por franco-atiradores não-identificados). A oposição e setores do comando militar declararam, diante da situação, que o presidente seria responsável pelas mortes, não tinha “autoridade moral” e passaram a exigir sua renúncia. Com as televisões, rádios e jornais repetindo as acusações praticamente de dez em dez minutos, em 11 de abril um grupo de oficiais-generais, políticos, empresarios, dignitários da Igreja Católica e representantes dos meios de comunicação declararam vaga a presidência com a prisão de Chávez e indicaram o presidente da Fedecámaras, empresário Pedro Carmona como “presidente da República” de um “governo  de transição democrática e unidade nacional”. As atitudes de Carmona surpreenderam até mesmo seus partidários: emitiu um único decreto, destituindo todas os representantes de todos os poderes e anulando todos os decretos do governo anterior. As novas “autoridades” bem que tentaram iniciar um amplo processo de repressão, que começou com a prisão de qualquer pessoa que fosse suspeita, real ou imaginariamente, de ligação com o regime deposto. Segundo os meios de comunicação, totalmente alinhados com o golpe, as milhares de prisões realizadas visavam encontrar os “criminosos chavistas”. O problema é que a atuação de base dos partidários de Chávez no Movimento Bolivariano Revolucionário baseava-se em células denominadas “círculos bolivarianos”, que não tinham sido proibidas depois de 1992, e transformaram o movimento de militar em movimento de massas. Calcula-se que, na época do golpe, o movimento tivesse entre dois e três milhões de ativistas. Sua capilaridade atingia a toda Venezuela.

No terceiro dia do golpe, os golpistas já manifestavam fortes dissensões internas. Sem conseguir apresentar provas convincentes do envolvimento do governo no tal tiroteio, e das ligações dos “assassinos” com o MBR, a cúpula golpista sequer conseguiu colocar o exército na rua, o que provavelmente teria provocado um massacre, dado volume que atingiam as manifestações contrárias ao golpe. Carmona, depois de um pronunciamento destrambelhado feito em rede nacional (em que teve um acesso de raiva e uma crise de choro…), desapareceu.

O que os golpistas não pareceram contar foi com a reação popular. E, principalmente, não contavam que as dissensões dentro das forças armadas fossem tão fortes. Generais e coronéis não tinham a menor simpatia da oficialidade de patente média e dos praças graduados (sargentos e cabos) e, portanto, não tinham controle sobre a tropa. O comando das forças armadas era constituído por oficiais que haviam atingido o generalato no período de governo de Carlos Andres Pérez, cuja marca fora a corrupção descontrolada. A tropa os via como incompetentes e corruptos, jogando em causa própria. Muitos deles, como coronéis, haviam comandado o massadre do Caracazo. As lideranças golpistas subestimaram grosseiramente a penetração do Bolivarianismo entre a tropa. Em 13 de abril, a prisão de alguns generais e coronéis e um pronunciamento militar partido de unidades de elite, como os “tigres de Aragua” encerra o golpe. Chávez voltou ao poder nos braços da tropa.

Continuaremos no assunto… É então que a coisa começa a ficar divertida…::

Um rapaz das Forças Especiais::Tenente-coronel Hugo Chávez::

É uma provocação, mas também é uma solução. Chávez, antes de se transformar em presidente da Venezuela, principal propagandista do “socialismo bolivariano” e espantalho favorito da grande imprensa brasileira, realmente começou sua carreira no Exército Venezuelano. Hugo Rafael Chávez Frías nasceu na cidade de Sabaneta (estado de Barinas, sudoeste da Venezuela), em 28 de julho de 1954. Era o segundo filho de uma família de classe média baixa, que empobreceu com a crise econômica.  Aos dezessete anos, ingressou na Academia Militar de Venezuela, tendo sido nomeado segundo-tenente (subteniente, em espanhol) em 1975, especializado em Comunicações. Sua primeira comissão foi em uma unidade de forças especiais, o Batalhão de Infantaria de Montanha Manuel Caldeño, tendo se envolvido em ações de repressão contra guerrilheiros ligados ao “Partido Bandera Roja”, de linha marxista albanesa, na região de Cumaná. Em 1977, já primeiro-tenente, Chávez foi designado para o Centro de Operações Táticas, em San Mateo, onde recebeu treinamento em operações de contra-insurgência. Segundo sua biografia oficial, foi nessa época que o futuro presidente começou a simpatizar com os movimentos populares, e a observar o alto nível de corrupção disseminado no exército e na política. Em 1978, foi transferido para uma unidade blindada equipada com carros de combate  AMX30, situada na cidade de Maracay (capital do estado de Aragua – não confundir com Maracaibo, principal região petrolífera do país). Em 1980, promovido a capitão, foi destacado para a Academia Militar de Venezuela, onde veio a cumprir as funções de chefe do Departamento de Educação Fìsica e, logo depois, do Departamento de Cultura. Promovido a major e inscrito na Escola de Estado-maior do Exército, em Caracas, Chávez se destacou pelo interesse por política, e eventualmente era indicado como conferencista. Destacava-se pelas palestras longas sobre assuntos diversos, e as opiniões sobre seus talentos de orador são díspares: alguns dizem que suas falas eram interessantes e prendiam a audiência durante horas; outros afirmam serem perorações disparatadas de inspiração esquerdista, ao longo das quais o desafio era permanecer acordado.

Depois da Academia, Chávez serviu em diversas unidades até chegar a comandante do Batallón 422 (Batallón Coronel Antonio Nicholas Briceño) da 42ª Brigada de Infanteria Paracaidista, na cidade de Maracay – os “tigres de Aragua” (o que explica a boina carmim usada por ele em dezenas de fotografias). 

Na atualidade, Hugo Chávez embora já tenha deixado o serviço ativo, ainda se interessa por assuntos militares – tem se esmerado em tornar a Venezuela uma potência militar regional, com o auxílio da Rússia. Presidente da República Bolivariana de Venezuela já por dois mandatos, goste-se ou não do cara, ele se transformou numa personalidade latino-americana e levou a Venezuela ao papel de ator mundial, através de um ativismo contra o capitalismo e contra os EUA que, por vezes, parece meio maluco. Pregando o que ele chama de “socialismo do século 21”, tem sido o principal financiador de Cuba, e utiliza os recursos gerados pela riqueza petrolífera da Venezuela para apoiar regimes que se mostrem dispostos a aderir ao “bolivarianismo”. Chávez tem sido acusado de “acabar com a democracia“, ser um “liberticida“, ser inimigo da “liberdade de imprensa” “estar arrasando a economia da Venezuela“, etc., etc (todas essas inserções foram apanhadas de maneira aleatória, na Internet). Existem, por outro lado, manifestações simpáticas e até mesmo radicais, de apoio, mas geralmente partem de indivíduos e associações de caráter quase privado (por exemplo…).  A implicância, entretanto, ganha de longe.

Assim, a carreira militar do tenente-coronel PQd Chávez nem é tão importante, apesar do homem tê-la cumprido de maneira destacada (ninguém chega a comandante de pára-quedistas por saber manipular talheres, dizia o – insuspeito, no caso – general norte-americano Maxwell D. Taylor). A de presidente da Venezuela… Bem…

Winston Churchill costumava a dizer que quem não sabe história, não sabe nada. Chávez, apesar de pára-quedista, não caiu de pára-quedas na história venezuelana. Nossa grande imprensa o trata como tirano, liberticida e “inimigo da democracia”. Mas como teria sido a democracia venezuelana antes de Chávez? Ou melhor- existia uma “democracia venezuelana” antes de Chávez? Isso, nossos simpáticos jornalões não contam.

Fiquem atentos. Vamos ver – talvez seja possível aclarar um pouco essa história::

Entre tapas e … beijos?…::Colômbia e Venezuela:perspectivas::

parte1Não é mais novidade para ninguém, claro, mas a Colômbia tem novo presidente. Juan Manuel Santos, eleito há duas semanas, é uma figura política envolvida em polêmica, tanto em seu país quanto no resto do continente. Dois anos atrás, ministro da Defesa do governo de Álvaro Uribe, Santos liderou a Operação Fenix, bem planejada special op  realizada em março de 2008, contra um santuário das FARC em solo equatoriano – que quase resultou numa guerra com Equador e seu “irmão maior”, a Venezuela. Essa “operação especial aérea” teve, dentre outros resultados, matar um dos principais planejadores militares das FARC,  Raúl Reyes, e mais dezessete guerrilheiros. Desde então, tramita na própria Colômbia um processo no qual o agora presidente é acusado pelas mortes de vinte e cinco pessoas, registradas nessa operação.

O principal problema, digamos, “diplomático” da Colômbia tem sido com a Venezuela e Hugo Chávez – os constantes entreveros com os “bolivarianos” Equador e Bolívia estão nessa linha de confronto: Uribe acusa, embora não consiga provar, os governos desses países de apoio à “narcoguerrilha”. No caso de Santos, a briga com Chávez remonta ao apoio público daquele a uma tentativa frustrada de golpe na Venezuela, em 2002. Como se não bastasse, o agora presidente defendeu que a Colômbia recebesse o líder golpista Pedro Carmona como “asilado político”. Foi o bastante para que Chávez pusesse Santos no topo de uma lista de supostos inimigos públicos de seu país e (por conseguinte…) aliados do imperialismo ianque, ao lado de Geoge W. Bush e, claro, do próprio Uribe. 

A vocação do novo presidente para a polêmica, entretanto, não se limita aos bate-bocas com o espantalho mais popular entre a grande imprensa brasileira. Em 1997 foi acusado de golpista por ninguém menos que o então presidente colombiano, Ernesto Samper. O motivo da acusação esteve numa reunião clandestina, que pôs  Santos em contato com líderes do Exército de Libertação Nacional da Colômbia (ELN), naquela época o principal grupo de oposição armada ao governo. O atual presidente teria por objetivo provar acusações (dele mesmo…) de que Samper receberia dinheiro do narcotráfico. O resultado mais palpável da tal reunião foi um processo parlamentar – que, é claro, não deu em nada. O fato é que governo Uribe, ainda hoje assombrado por esse evento, divulga uma versão oficial de que a reunião buscava “abrir negociações para uma saída política e pacífica para o país”, muito embora Santos fosse, na época, um dos principais críticos da “falta de pulso” do então presidente Ernesto Samper. Desde então, de improvável “pomba” Santos converteu-se em ativo “falcão”: condena qualquer negociação com as FARC e só aceita o desarmamento incondicional do grupo – pelo menos é o que diz em público. 

Santos não é neófito na política colombiana. Nascido em 1951, em uma tradicional família da oligarquia local, o avô, Eduardo Santos Montejo, presidiu o país entre 1938 e 1942 e ficou conhecido pela oposição às tendências fascistas que então vigoravam no país. Nesse período teve origem o “santismo”, corrente moderada do Partido Liberal, ainda muito ativa e que, até meados da década passada, teve no neto de Santos Montejo um de seus principais animadores. O pai, Enrique Santos Castillo, foi editor do diário conservador El Tiempo, de propriedade da família. O próprio Santos também trabalhou no jornal, durante pouco tempo. A sua entrada na política nacional ocorreu no governo César Gaviria, que em 1991 o nomeou para a pasta do Comércio Exterior. Desde então tem tido intensa atuação na política local. 

Entusiasta dos EUA e do Plano Colômbia, essa simpatia é facilmente explicável – Santos fez toda a sua formação superior naquele país (a parte um período em Londres), inclusive como bolsista de fundações norte-americanas. Antes de decidir-se pelo jornalismo e pela política, o jovem Santos descobriu em si mesmo (ou assim quer que acreditem) forte vocação militar, tendo passado algum tempo como aspirante a oficial da Marinha da Colômbia. Segundo conta, seu interesse pela diplomacia e pelos assuntos militares surgiu no período que passou na Escola Naval de Cartagena. 

Foi no governo do ex-correligionário liberal Álvaro Uribe, quando cumpria mandato de senador, que Santos deu seu maior golpe: desligou-se do partido de seu “amado abuelo” para juntar-se, em 2004, ao governo Uribe, tendo inclusive coordenado a organização de um novo partido, que juntou em uma legenda todos os uribistas – o “Partido de la Unidad Nacional”, conhecido como “Partido de la U”. Nessa época Uribe já tinha se constituído como principal força política da Colômbia, tendo sido eleito presidente pela primeira vez em 2002, concorrendo contra Horacio Serpa. 

Cabe aqui um parêntesis (sempre existem, em política…). O sucesso político de Uribe tem base em sua bem-sucedida política de enfrentamento contra os grupos de oposição armada. Baseado na premissa (não muito distante da realidade) de que a política de apaziguamento seguida por seus antecessores, Samper e o conservador Andrés Pastrana, não tinha dado resultados, Uribe passou a estabelecer pré-condições para negociar com os grupos de oposição armada, independente da coloração política, e o desarmamento tornou-se a base dessas condições. Nos anos seguintes, elas foram recusadas pelas FARC, aceitas de forma relutante pelo ELN e entusiasticamente pelas AUC. Uribe trombeteia, desde então, que trinta mil paramilitares e oito mil guerrilheiros teriam entregue as armas. Sem oferecer outra alternativa à oposição armada, sua política reduz, por todos os meios, os grupos guerrilheiros a meros criminosos armados – basta observar o uso indiscriminado  e pouco explicado da expressão “narcoguerrilha”. Nessa direção não resta outra alternativa que não seja a escalada do conflito militarizado. A nova estratégia não oculta – até ao contrário – a outra face dessa política: o Plano Colômbia.  

Entretanto, não são poucos os analistas que consideram essa política extremamente ambígua.  Denominada, para fins de propaganda, “Política de Segurança Democrática”, sua matriz é a premissa  que a luta do estado e de seus órgãos de segurança contra a insurreição armada e o narcotráfico é problema de toda a sociedade colombiana, e que esta deve ser mobilizada para atuar. A partir dessa premissa, se planeja estratégia: as forças armadas e os órgãos de segurança buscam estabelecer uma rede cobrindo o território nacional, com comunidades e grupos civis atuando como primeira linha de vigilância. A criação de redes de informantes, o estabelecimento de recompensas em dinheiro premiando a deserção e a delação dentro dos grupos armados, a criação de “unidades de autodefesa camponesa”, são algumas das propostas tidas como “fatores de sucesso”. Essa estratégia (nota do redator:: os assíduos de causa:: devem, neste ponto, lembrar que a estratégia é desdobramento da política…) teria, entretanto, sido elaborada com base em canais de informação estabelecidos com o narcotráfico e os violentos grupos paramilitares colombianos, como as Autodefesas Unidas de Colombia, que teriam sido estabelecidos durante seu mandato com prefeito de Medellin. A colaboração com setores do narcotráfico e com os paramilitares de extrema-direita já foi levantada por fontes tão díspares quanto a apresentadora de TV sensacionalista Virgínia Vallejo e o serviço de inteligência do Departamento de Defesa dos EUA. Embora negue com veemência essas ligações, o agora quase ex-presidente nunca as conseguiu explicar direito. Outro aspecto, admitido mas menos propagandeado pelo governo é o aumento exponencial do orçamento de defesa e a aproximação, nunca muito bem esclarecida, com os órgãos de segurança dos EUA. 

Fecha parêntesis. O golpe ideológico espertíssimo, que não se pode deixar de reconhecer, é jogar para a sociedade colombiana parte considerável da responsabilidade de reprimir os grupos armados; embora não pareça, seria uma reestruturação da “política de segurança nacional”, ou seja, segurança de setores de elite como classe dominante do Estado, implementada pelas forças armadas e orgãos de repressão – como era nos anos 1960 e 1970. Parte dessas observações são da escritora Diana Duque Gómez, autora de um livro sobre o governo Uribe, “Uribe: el gran embuste” (uma texto dela sobre a PSD pode ser lido aqui). Segundo Duque, nessa nova abordagem, a política de segurança nacional de triste (e persistente) memória ( e que o vibrante matutino paulistano “Folha de São Paulo” adoraria ver reeditada) pode ser adaptada a um ambiente democrático, sem violar de forma flagrante o estado de direito negociado com a sociedade civil. Com sua “Segurança Democrática” e o forte apoio dos EUA, em termos de treinamento, equipamento e suporte estratégico (fornecimento de equipamento adequado e apoio em Inteligência Eletrônica – ELINT), Uribe conseguiu encurralar a guerrilha em determinadas regiões do país. O apoio dos EUA traduziu-se não apenas em assessoramento militar, mas também em privilégios econômicos e no suporte de instituições acadêmicas e de pesquisa. Políticas urbanas e sociais e projetos de obras públicas, resultantes daí, melhoraram  visivelmente a situação de segurança pública e social, em cidades como Bogotá, Antióquia e Medellin. Não é pouca coisa, reconheçamos: em um país arrasado durante mais duas décadas por uma guerra civil não declarada, a população teria de apoiar quem conseguisse colocar alguma ordem no terreiro. Esse aprovação, que chegou a 95 por cento, tornou o uribismo aparentemente imbatível nas urnas. 

Em 2005, com altíssima popularidade, Uribe obteve da Corte Constitucional mudança na Constituição Nacional, que lhe permitiu apresentar-se para disputar a reeleição. Em 2006 tornou-se o primeiro presidente a ser eleito em primeiro turno, desde a introdução do duplo escrutínio na carta magna colombiana, quinze anos antes. Reeleito, nomeou Santos Ministro de Defesa Nacional, e, como não poderia deixar de ser, a política de confronto escalou. Com apoio crescente dos EUA, as forças armadas aplicaram nas FARC golpe sobre golpe. Além da morte de Raúl Reyes, houve a defecção de Nelly Ávila Moreno, (a líder guerrilheira “Karina”, a mais importante figura feminina da estrutura de comando da FARC), seguida da rendição de centenas de guerrilheiros das FARC. Em julho de 2008, outro golaço: a libertação da senadora Íngrid Betancur, refém das FARC por mais de seis anos. Santos a recebeu pessoalmente, cercado pela imprensa numa base das forças especiais. O sucesso da operação foi possibilitado por um planejamento extremamente cuidadoso e pela infiltração de agentes do governo nos escalões de comando superior das FARC. A integridade dos reféns era considerada como condição não negociável, e a operação deveria ser abortada caso houvesse qualquer sinal de risco para o grupo. 

Foi como executor da “Política de Segurança Democrática” de Uribe que Santos se qualificou para concorrer à sucessão do presidente. A escritora Diana Duque aponta, juntamente com diversos outros analistas, que a guerra interna se tornou, depois de 25 anos, um grande negócio para as elites locais (apesar do radicalismo, exagerado mesmo para o gosto aqui do redator::, o blogue dessa criatura é uma das leituras que causa:: indica aos assíduos). 

Entretanto, é discutível se sucesso da guerra contra a “narcoguerrilha” aconteceria não fosse o “Plano Colômbia” e os enormes recursos aplicados no país pelos EUA. Calcula-se hoje que aproximadamente dez mil operativos, civis e militares, estejam em missão na região, mesmo depois da desmobilização da base de Manta, no Equador. O desgaste político provocado pelo Plano, entretanto, não tem sido pequeno, tanto para os EUA quanto para a Colômbia. As bases operacionais das forças armadas dos EUA acabam, quer se queira ou não, lembrando a história de intervenções norte-americana na região e do uso das forças armadas locais para manter a população sob controle. Entre nós, no Brasil, a questão é menos incisiva – nunca tivemos marines desembarcando na praia de Copacabana -, mas no Caribe e América Central, a memória das intervenções dos EUA é muito marcante, sendo recentes as últimas interferências, diretas ou indiretas na região – basta lembrar o plano Irã-Contras e a manutenção da base naval de Guantanamo, em Cuba, sob pretextos considerados espúrios.  

Além de evocar passado e presente, as bases suscitam, no plano interno local, possibilidades futuras que estão além de qualquer missão militar específica. O “Plano Colômbia” foi originalmente concebido como forma de apoiar e implementar, durante dois anos, ações militares locais, que visavam isolar os territórios sob controle da guerrilha, no sul do país. Para os anos posteriores, eram vagas  e sem prazo claramente fixado as propostas de desmobilização das bases e desengajamento do pessoal norte-americanos.

As instalações não são propriamente militares, quer dizer, não abrigam tropas, não armazenam equipamento de combate, e a maioria dos operativos são civis. Esse é um dos cavalos de batalha usados pelos EUA – e pelas claques conservadoras locais – para alegar a “inocência” e “boa-intenção” do plano.  O problema são as atividades desenvolvidas nas bases: inteligência eletrônica. Monitoramento de comunicações e dados, vigilância por radar e micro-ondas, interferência em ações eletrônicas de possíveis adversários, coordenação e controle, voltados, pelo menos teoricamente (muito teoricamente…), para os movimentos do tráfico de drogas, imigração ilegal para os EUA e “outras atividades ilícitas”. Mas, segundo observações de organizações civis e de setores do próprio governo dos EUA, não são transparentes e nem têm mecanismos que permitam o acompanhamento pela sociedade civil, seja dos EUA, seja dos países onde se encontram. Esse ponto é especialmente delicado: desde 2001, os objetivos da presença dos EUA na Colômbia foram expandidos para incluir “contra-terrorismo”. A partir do início da década passada, tem sido denunciado o envolvimento de militares norte-americanos em operações de campo na Colômbia, o que não é negado nem pelos EUA nem pelo governo colombiano. A proximidade dessas operações com as fronteiras de países como o Equador e a Venezuela é uma das razões para a tensão na região; exagero ou não dos governos desses países, operações como a  “Fênix” ou a “Jaque” não seriam possíveis sem os recursos de ELINT disponibilizados a partir das bases norte-americanas para as unidades de forças especiais colombianas. E essas, por sua vez, dependem, para poder usar eficientemente esses recursos, da colaboração de campo de especialistas militares dos EUA. Durante a campanha eleitoral em 2008, Barack Obama levantou críticas sobre a situação de direitos humanos na Colômbia e apontou a responsabilidade da política dos EUA para a região nessa situação; segundo o então candidato, o Plano Colômbia merecia seu apoio mas talvez precisasse sofrer ajustes. Entretanto, depois de eleito, o novo governo anunciou a instalação de novas bases em território colombiano. Segundo estudos feitos por analistas independentes nos EUA, as novas bases seriam instaladas muito mais perto da fronteira venezuelana do que em locais que permitiriam a compensação da extinta base de Manta (Equador – uma nota sobre o assunto, en inglês, aqui). A seguir, a eletrizante continuação dos tapas e… Bom, por enquanto, tapas, mesmo, entre Santos e Chavez. Fiquem sintonizados::

Um rapaz das Forças Especiais::Regimento Sampaio::

Formatura comemorativa na passagem do 242° aniversário.

Como todos os oito ou nove leitores assíduos já devem ter percebido, toda vez que causa:: passa por um período de vacas magras (em função das 202 atividades que o redator:: mantém ao mesmo tempo…), no período seguinte, uma porção de textos desencontrados começam a ser postados. É quase como se todos os assíduos tivessem de ter seus  variados gostos em torno de história militar, estratégia, cultura material militar, curiosidades, etc., etc.,  satisfeitos. Assim, visto que ante-ontem foi publicado um texto mais “cabeça”, hoje o redator:: continuará dando vaza a sua insistência nessa coisa antiga e fora de moda chamada “tradição”, abominada por cada nove entre dez intelectuais moderninhos.

E para fazer com que essas pessoas (que não entenderam os objetivos do apelo de Dunga ao patriotismo – voltaremos a esse assunto, que dá muita liga…) torçam o nariz com ainda maior intensidade, vamos apresentar, hoje, a mais tradicional dentre as tradicionais unidades de “infantaria combatente” (como são chamadas, no EB as unidades de pronto emprego): o Primeiro Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), mais conhecido como “Regimento Sampaio”.

Como pesquisador amador de assuntos militares, o redator:: , embora entenda a importância da tradição como fator aglutinador de qualquer corporação, civil ou militar, não simpatiza com a genealogia de unidades militares que descobre origem de tropas blindadas brasileiras lá no Portugal manuelino. O contexto dos exércitos e da guerra no Antigo Regime torna impossível, na opinião aqui do blogue, traçar continuidades reais entre as unidades atuais e aquelas apontadas, trezentos ou quatrocentos anos atrás, como suas antecessoras. Assim, causa:: não irá buscar as origens do Regimento Sampaio no Terço do Rio de Janeiro (ou “Terço Velho“), tropa criada por ordem do governador-geral do Brasil, Mem de Sá, em 1567. O Terço Velho existiu de modo mais-ou-menos intermitente ao longo de todo o período colonial, e, em 1793, formou, com uma unidade trazida de Portugal em 1767, o Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Essa unidade foi depois incorporada ao exército da nação que se formou em 1822.

A Guerra do Paraguai, por outro lado, já permite traçar maiores continuidades com nossa época. Em 1864 a abertura das hostilidades do Paraguai contra Brasil e Argentina, encontra o “Primeiro de Infantaria” na região sul do continente, onde havia participado das guerras no Uruguai. Em 1865, o comandante do Exército Imperial na região do conflito, general Manuel Luís Osório, mandou criar uma nova unidade, a Terceira Divisão de Infantaria (3ª DI), que reuniu algumas unidades. Seu primeiro comandante foi o coronel Antônio de Sampaio. Dentro da genealogia militar que causa:: prefere levantar, este é o primeiro galho da árvore genealógica do Regimento Sampaio.

A 3ª DI, em função de ser lançada sempre na primeira linha, acabou recebendo dos soldados o apelido de “Divisão Encouraçada“. Seu comandante, pouco depois promovido a brigadeiro, sempre se destacava por “comer chumbo” junto com a tropa. Não é tão estranho: era um soldado de carreira, tendo iniciado sua trajetória militar em 1830, quando sentou praça no Exército Imperial. Seriamente ferido na batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866 (curiosamente, data de seu aniversário…), morreu quando era evacuado para a retaguarda. Os restos do brigadeiro cumpriram um périplo que deve ter sido quase tão grande quanto as marchas que a “Encouraçada” cumpriu durante os mais de cinco anos da conflagração (o leitor que se interessar pelas andanças dos ossos do patrono da infantaria brasileira pode clicar aqui; um histórico da 3ª DI, aqui). O título honorífico de “Divisão Encouraçada” foi atribuído à 3ª Divisão de Exército, uma grande unidade de cavalaria mecanizada constituída em 1979, dentro da reorganização do Exército Brasileiro.

O segundo – e muito mais frondoso – “galho genealógico” do “Regimento Sampaio” cresce a partir da reorganização do Exército Brasileiro levada a efeito a partir de 1908, pelo ministro da Guerra marechal Hermes da Fonseca. A reorganização era reivindicação dos militares que vinha desde a segunda metade do século 19. Uma das principais proposições era a profissionalização do exército. A partir de 1905, o péssimo estado da força terrestre (e também da Marinha, mas as desventuras desta ficam para outra vez…) e as constantes questões de fronteiras, que poderiam exigir, eventualmente, intervenção militar, tornavam urgente uma completa reforma. Uma das providências foi a negociação do envio de uma “missão militar” à Alemanha. Entre 1908 e 1910, três grupos de oficiais militares brasileiros lá estagiaram, para observar as doutrinas e métodos utilizados naquele país. De volta ao Brasil, esses jovens oficiais tornaram-se alvo do interesse, principalmente, da jovem oficialidade, grupo que via com desconfiança os generais (“gordos e acomodados”) e, principalmente, os civis (os “casacas”, “egoístas e dissimulados”) . Um forte movimento de conotação política, disfarçado sob a égide de “profissionalização”, surgiu entre essa oficialidade, e seus integrantes foram apelidado, algo pejorativamente, de “jovens turcos”. O termo acabou sendo adotado pelo próprio movimento, pois os militares brasileiros simpatizavam com o espírito reformador dos oficiais turcos. Esses, aglutinados em um movimento militar liderado pelo major Mustafah Kemal Atatürk (“pai dos turcos”), reivindicavam a modernização da sociedade turca no início dos anos 1910. Durante a 1ª GM, Kemal revelou-se competente comandante de tropas, o que só fez aumentar sua popularidade entre os militares brasileiros (mais sobre os jovens turcos?.. Dê uma paradinha aqui).

Esses oficiais brasileiros criaram, em 1913, a revista “A Defesa Nacional“, a princípio destinada a veicular as idéias do grupo. Logo a publicação (que existe até hoje) se tornou veículo das idéias políticas da jovem oficialidade, e foi fator para o sucesso das reformas.

Um dos principais pontos da reorganização era a transferência das principais unidades militares para sítios situados fora das cidades. Muitos oficiais “tarimbeiros” (de tropa) reclamavam que, dispersa pela cidade do Rio de Janeiro, a corporação não tinha como realizar exercícios em nível maior que o de batalhão. Uma das propostas setoriais apresentadas e levadas a cabo foi a construção da Vila Militar (hoje em dia bairro de classe média na Zona Oeste da cidade). O lugar era, originalmente, uma grande fazenda, e, no início do século 20, gastava-se um dia de marcha para chegar até lá. A construção de quartéis e residências começou em meados de 1908, e correu paralela à reestruturação do exército, ficando pronta em 1915. A demora deveu-se, em parte, a dificuldades em se localizar um sítio que fosse adequado a grandes exercícios militares, e à necessidade de instalar uma via férrea que ligasse a capital aos quartéis.

A reforma do Exército também implicou na introdução de nova doutrina, que tornasse a força capaz adotar, pelo menos em parte, os procedimentos da guerra moderna que as potências  européias estavam praticando, desde meados do século 19. Esse novo estilo de guerra tinha ficado evidente no rápido conflito entre franceses e alemães: movimentos amplos e rapidamente executados, iniciativa e poder de fogo superior apontavam para a superioridade da organização militar alemã. Foram essas novas normas organizativas que a reforma de Hermes da Fonseca tentou implantar no Brasil – embora não houvesse comparação possível entre a formação social alemã e a brasileira. Dentro desse espírito, o Exército da República – que então não tinha completado ainda duas décadas – buscou se reinventar, e foi criado, em 1908, o Primeiro Regimento de Infantaria, depois de extinto o antigo, aquele criado no final do século 18. Como diversas outras criadas na época, a nova unidade baseava-se no modelo “ternário”, adotado pelo exército alemão. Isso quer dizer que era organizado em torno de três batalhões, cada um com aproximadamente 700 homens (três companhias mais tropas especializadas). Para a formação do “Primeiro”, foram reunidos três batalhões, que já existiam desde o Império: o Primeiro de Infantaria (cujo quartel ficava em São Cristóvão), o Sétimo de Infantaria e o Vigésimo de Infantaria, unidades que remontavam ao Império, com longa tradição militar e experiência de combate. Essas unidades foram reformadas e reunidas na nova unidade orgânica.

O “Primeiro de Infantaria” foi uma das primeiras unidades do EB a emigrar para a Vila Militar. A partir de então, esteve presente em diversos eventos de caráter político, como a Revolução de 1930, a Guerra Civil de São Paulo, em 1932, e a repressão à Intentona Comunista de 1935. Em 1940, seguindo a tendência do Estado Novo em valorizar a história como fonte da tradição e do espírito de corpo, que levou à adoção de diversos personagens militares como patronos das forças singulares, armas e especialidades militares, o então “Primeiro de Infantaria” recebeu a denominação de “Regimento Sampaio”. O próprio Sampaio foi guindado à condição de “patrono da arma de infantaria”. 

Em 1943, com o Brasil em guerra contra o Eixo e a criação da  FEB, o “Regimento Sampaio” foi designado para integrar a divisão de infantaria a ser formada. Um dos motivos (talvez o principal) é bastante prosaico: geralmente, os chefes políticos do Exército cumpriam seus períodos de oficiais inferiores (segundos- e primeiros-tenentes, capitães e majores) em regimentos aquartelados na Vila Militar, para ficarem perto do Rio de Janeiro; outro motivo é que o “Primeiro” sempre foi considerado unidade de elite, e não passava pela cabeça dos chefes do Exército deixá-lo de fora da FEB – ainda que o estado de aprestamento não fosse lá dos melhores. Como, diga-se de passagem não era em todo o Exército.

A formação da FEB incluiu também os regimentos 6º de Infantaria (de Caçapava, São Paulo, o “Regimento Ipiranga“) e 11° de Infantaria (de São João Del Rei, Minas Gerais, atualmente 11° Batalhão de Infantaria de Montanha, o “Regimento Tiradentes”, atualmente os “boinas cinzas”, unidade de Pronto Emprego). Claro que a inclusão dessas unidades visava premiar, politicamente, os principais estados da Federação, embora a incorporação de efetivos tenha sido feita em todo o Brasil. O país teria certa dificuldade (para sermos condescendentes…) em formar uma tropa capaz de combater em contexto moderno. A organização do Exército baseava-se ainda nos ensinamentos da Missão Militar Francesa, contratada depois da 1ª GM. A FEB teve de se adequar à organização adotada pelos norte-americanos, que, por sua vez, vinham reorganizando suas forças armadas desde o final dos anos 1930. Os EUA tinham adotado, a partir de 1939, uma estrutura orgânica e administrativa semelhante aquelas adotadas na Europa. Contando com um potencial humano superior ao da Alemanha (em 1940, tinha uma população de uns 170 milhões de habitantes, contra 90 milhões da Alemanha), os planejadores norte-americanos imaginaram que poderiam contornar certos problemas aumentando o tamanho das grandes unidades (as divisões).

Neste porto, vale um parentese para examinar exatamente o que constitui uma “divisão” – no caso que nos interessa, uma divisão no formato norte-americano, aquele que foi copiado pela FEB – e pelo “Primeiro de Infantaria”.

Os EUA mobilizaram sessenta e sete divisões de infantaria durante a 2ª GM, dentre as  quais em torno de quarenta eram consideradas “de primeira linha”. Quarenta e duas divisões serviram no ETO (Teatro de Operações Europeu) e no MTO (Teatro de Operações do Mediterrâneo); as restantes 23 foram alocadas no PTO (Teatro de Operações do Pacífico). Essas unidades eram baseadas em conceito relativamente novo – de fato, tinham sido formadas para a guerra que se avizinhava.

A primeira forma de organização divisional adotada pelos EUA surgiu durante a 1ª GM. Eram organizadas com base no modelo francês, mas, depois da Guerra esse modelo foi substituído por outro, híbrido, que adotava a organização “ternária” – cada divisão possuía três regimentos de infantaria e cada regimento era dotado de três batalhões. Completavam a unidade elementos de artilharia divisionária, formados por quatro batalhões; um esquadrão motorizado de reconhecimento com certa capacidade de choque; unidade de engenharia, serviços médicos e pessoal administrativo. O Estado-maior era único, atendendo a toda divisão, embora os regimentos tivessem os seus.  O comandante era um general de duas estrelas (no exército dos EUA, major-general), que podia ter um general de uma estrela (brigadeiro, posto inexistente no Exército Brasileiro) ou um coronel como assistentes. A artilharia era comandada por outro brigadeiro, os regimentos de infantaria, por coronéis, e tenente-coronéis comandavam os batalhões. Essa organização foi consolidada em 1940-1941. Por volta do início de 1943, com a estabilização da frente do Pacífico e o início dos preparativos para os desembarques no norte da África, a dificuldade de formar oficiais e, principalmente, encontrar oficiais para serem promovidos a generais fez com que os postos de comando intermediários fossem rebaixados. Os regimentos de menor efetivo (como os de cavalaria, ou seja, infantaria blindada) ou de segunda linha (como os de colored troops, unidades de negros comandadas por oficiais brancos da Guarda Nacional e de engenharia de contruções) passaram a ser comandados por tenentes-coronéis, e os batalhões de infantaria, por majores com experiência de tropa (mais tarde, de combate).

A dotação de pessoal e veículos das grandes unidades era constantemente aumentada, com base na experiência de combate. Em meados de 1944, chegou ao ponto de reunir pouco mais de 14.300 efetivos, uns cinqüenta canhões de campanha (três baterias de obuses 105 mm – em inglês, field howitzer , rebocados por caminhões, e uma bateria de obuses 155 mm); havia também uma bateria de canhões AT de 57 mm e cerca de 1400 veículos. As divisões de infantaria “de primeira” também dispunham de algo entre oito e doze aeronaves ligeiras de observação.

Os regimentos de infantaria reproduziam a organização da divisão, cada qual com três batalhões, cada um com três companhias; em cada batalhão, uma quarta companhia encarregava-se dos “petrechos pesados”, ou seja, metralhadoras pesadas – montadas em tripés e operadas por uma “seção” de quatro homens – e morteiros leves. Os batalhões dispunham de uma quarta companhia, “de comando e serviços”, que reunia Inteligência, Reconhecimento, Comunicações, Engenharia, Saúde e Administração, alcançando, quando completos, pouco mais de 900 efetivos, comandados por um tenente-coronel ou major. No total, um regimento de infantaria, comandado por um coronel, reunia cerca de 3.300 efetivos. Já as unidades “divisionárias”, que reuniam o pessoal da artilharia divisionária, comunicações, engenharia de combate, transportes, logística, saúde, administração, o Estado-maior e, em certos casos, infantaria de reserva, chegavam a 5.000 efetivos.

Em teoria, era um organização capaz de dar conta de um setor de frente de aproximadamente trinta quilômetros de largura e profundidade variável, conforme o terreno. A experiência de combate mostrou que a teoria, na prática, era outra, e de fato, bastavam algumas semanas em combate para que a frente se tornasse “porosa”, já que as baixas não eram repostas em tempo hábil. Esse era o problema que os alemães não tinham conseguido resolver, depois de 1943; os norte-americanos só vieram a senti-lo plenamente no final de 1944, com a inesperada contra-ofensiva das Ardenas.

A FEB foi organizada como um tropa norte-americana do tipo descrito acima, o que não foi feito sem bastante trabalho. A principal unidade era a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária que, com pequenas diferenças (por exemplo, não recebeu obuses 105 automóveis, que se tornaram comuns na época da chegada à Itália, não tinha artilharia anti-aérea e o principal armamento de infantaria era o fuzil M1903 Springfield), era igual às divisões de infantaria norte-americanas. O “Primeiro de Infataria” era o primeiro regimento da FEB. A organização da tropa começou com estágios de oficiais nos cursos regulares de infantaria e artilharia, em Fort Benning, Georgia e, mais tarde, com toda a tropa instruída no Brasil conforme os  padrões norte-americanas e complementando a instrução na Itália, nas diversas “Escolas Treinamento de Comando e Combate” (Leadership and Battle Training School). Valeu à pena – apesar das controvérsias que existem até hoje, no geral, a tropa brasileira se saiu bem. E graças ao período de quase nove meses integrado ao MTO, o Exército Brasileiro tomou contato com as doutrinas militares que iriam prevalecer nas seguintes três décadas, adquiriu experiência de combate e, principalmente, constituiu uma tradição de inestimável valor memorial. 

De volta ao Brasil, a FEB foi mantida como base para o que talvez tenha sido a maior reorganização pela qual o EB passou desde sua criação como corporação de estado, em 1822. Envolvidos na Guerra Fria, os norte-americanos queriam conquistar a fidelidade das forças armadas de seus aliados periféricos, cujas sociedades consideravam suscetíveis à “influência de Moscou”. Dentre outros, dois métodos se destacaram: oferecer o concurso de instrutores militares e disponibilizar a esses aliados certa quantidade de armamento relativamente moderno a preços subsidiados, através dos Acordos de Cooperação Militar e dos Programas de Vendas Estrangeiras (Foreign Military Sales) que decorreram deles, a partir de 1947. O resultado é que, dez anos após o final da 2ª GM, o Brasil estava entre os aliados mais confiáveis dos EUA e o Exército tinha alcançado o maior efetivo desde a Guerra do Paraguai, sendo o maior da América Latina, e talvez um dos três maiores do Hemisfério Sul. No início dos anos 1960, podia colocar em campo, caso necessário, um corpo blindado (uma divisão blindada e duas motorizadas) e cinco divisões de infantaria, com um complemento de umas 200 peças de artilharia de campanha dos mais variados calibres.

Embora a base da estrutura persistisse aquela adotada para a FEB e depois disseminada pelos instrutores norte-americanos, diversas reorganizações administrativas e orgânicas foram implementadas, ao longo da segunda metade do século 20. Um aspecto que, entretanto, ainda ligava o exército de então aquele reformado em 1908 era a Vila Militar, que, em 1960, era o maior aquartelamento de tropas terrestres da América Latina.

Do ponto de vista organizacional, algumas mudanças foram sendo implementadas nos anos 1950, de modo a aumentar a eficiência administrativa. Mas apenas nos anos 1970 o Exército passou por nova reestruturação, que viria a modificar a organização adotada nos anos imeditamente posteriores à Segunda Guerra Mundial. O novo formato começou a ser estudado no final dos anos 1960, e buscava dar à força terrestre maior flexibilidade, baseada sobretudo em padrões mais avançados de integração e mobilidade. As antigas grandes unidades de armas (divisões de cavalaria e infantaria e os regimentos de cavalaria mecanizada e blindada) foram reunidas em grandes unidades denominadas “Divisões de Exército”, formações de todas as armas, capazes de alto grau de iniciativa. As principais unidades orgânicas passaram a ser as brigadas, unidades de arma, de efetivo maior do que o dos antigos regimentos, organizadas em torno de tropas motorizadas, com complementos próprios de artilharia e engenharia. Essa nova proposta de organização levou, em 1971, à extinção do Primeiro Regimento de Infantaria e, em seu lugar foi criado o 1° Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), ou 1° BIMtz(Es). Essa unidade é concebida para ser referência do Exército Brasileiro, no que tange à aplicação de doutrinas e métodos, e foi integrado à uma nova grande unidade,  a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, núcleo do Grupamento de Unidades Escola do EB.

A 9ª BdaInfMtz, dentro da nova doutrina, que vem sendo implantada no Exército desde os anos 1980, é uma das unidades da Força de Deslocamento Rápido/Pronto Emprego. A idéia do Pronto Emprego firmou-se quando o Exército, a partir dos anos 1980, posto diante de sucessivos cortes de verba e da diminuição progressiva de seu orçamento, passou, na prática, a ser divido em dois (embora nenhum milico admita isso…): o Pronto Emprego e o resto. O Pronto Emprego – cujo conceito baseia-se em discussões realizadas, nos anos 1990, no âmbito da ONU – é parte do EB capaz de ser rapidamente mobilizada e colocada, em caso de necessidade, em condições de deslocamento, por terra, ar ou mar. Sob a essa designação estão unidades consideradas de elite, com dotação de pessoal, equipamentos e suprimentos mantidos, tanto quanto possível, próximos do ideal. A FDR está subordinada administrativamente à 1ª Divisão de Exército, e a 9ª Motorizada é considerada núcleo dessa força, juntamente com os pára-quedistas, os “boinas cinzas” e os aeromóveis – e também os Fuzileiros Navais. Suas principais unidades são o “Primeiro de Infantaria”, o “Segundo de Infantaria” (o tradicionalíssimo “Dois de Ouro”, que disputa com o “Sampaio” a honra de ser a mais antiga unidade do EB…), o 15° Regimento de Cavalaria Mecanizado (Escola), o também tradicional “ReCMec”, a primeira motorizada do Exército formada no espírito das novas doutrinas, em 1946 (vale à pena dar uma paradinha aqui), o Batalhão Escola de Engenharia, o tradicional (como não seria, devem estar se perguntando os oito ou nove leitores…) “Batalhão Villagran Cabrita”  e o Batalhão Escola de Comunicações. Outras unidades estão integradas à esta brigada, mas o “Primeiro de Infantaria” junto com as outras duas (o “Dois de Ouro” e o “ReCMec”), são as jóias da coroa, não só do GUES, mas do Exército Brasileiro::

Drops para o fim de semana::Futebol e Grande Estatégia – apenas outro delírio?..

Na área específica do blogue das boas causas, frequentemente o redator:: se pega defendendo o Stalin. Calma! Ninguém precisa protestar: na média, causa:: concorda com tudo que tem sido dito desde que Isaac Deutscher começou a levantar o legado de Trotsky: Stalin foi um tirano genocida e começou a enterrar o comunismo soviético (embora seja tolice querer fazer comparações com Hitler, por motivos que aqui não interessam). Mas num tópico, em específico, não se pode negar a parte dele: sob sua liderança, a União Soviética venceu setenta por cento da 2ª GM e saiu do conflito como potência mundial. Como causa:: tem como assunto estratégia, e o redator:: vê estratégia em tudo, vamos, mais uma vez, correr o risco de enfiar o pé na jaca.
Estratégia é, antes de mais nada, o conjunto dos movimentos amplos e coordenação entre teatros de operações e teatros táticos. Atualmente, esse conceito é usado nas áreas mais disparatadas (“estratégia empresarial”, “estratégia sensível“, e por aí vai), ao ponto de um de seus teóricos clássicos, o filósofo chinês Sun Tzu ter se tornado leitura até para auto-ajuda. Assim, podemos falar um pouco de estratégia nessa Copa do Mundo.
Em teoria, podemos ver “estratégia” e “tática” no futebol. A “estratégia”, ou seja, (segundo o marechal  barão de Jomini),  a arte de articular e ordenar a ação das forças militares, pode ser pensada na preparação da campanha de um time: criação de uma infra-estrutura, contratação de jogadores, preparação do time, e por aí vai; a “tática” ou seja (segundo o mesmo barão) é a parte da arte da guerra que trata de como proceder durante um combate ou batalha, manobrando tropas para alcançar a melhor posição em relação ao inimigo. Qualquer um que acompanhe futebol entende do que estamos falando aqui. As táticas no campo de futebol servem de termo de comparação com as táticas militares: em ambos os casos profissionais qualificados movimentam-se dentro do campo para conseguir vantagens e vencer o inimigo – a diferença é que num campo de futebol não morre ninguém. Caso fossemos estender o assunto, até mesmo as “doutrinas” – na guerra, orientam a utilização da combinação meios+material humano – podem ser encontradas no futebol. Por sinal, essa comparação talvez explique o medíocre futebol atual, comparado com aquele praticado, digamos, na Copa de 1970. Não é só uma questão de genialidade individual, pois, hoje em dia, gênios como Pelé, Beckenbauer e Gerson provavelmente não surgiriam. 
 
Também podemos ver no futebol uma “Grande Estratégia”, ou seja, gerenciamento dos recursos de uma nação (população, economia, energia moral, lideranças) para a realização de objetivos políticos. Política e Estratégia, reunidas, constituem atualmente uma área de conhecimento transdisciplinar, que interage, em especial, com: ciências políticas, sociologia, administração, economia, história, ciências militares, geografia e relações internacionais. Esmiuçado, aprofundado e aperfeiçoado, o pensamento político-estratégico tem sido fundamental para o sucesso das organizações no mundo cambiante em que vivemos. Por meio dele, os dirigentes adotam uma atitude prospectiva em relação ao futuro, estabelecendo ações preventivas contra as ameaças e explorando as oportunidades que o ambiente externo pode oferecer, tudo com base nas fortalezas e debilidades que a própria instituição deve reconhecer em seu ambiente interno. Deste modo, no planejamento da Grande Estratégia, o componente militar é apenas um dos fatores a serem levados em consideração. O comando e controle de grandes unidades militares (divisões, corpos de exército e exércitos) passa a ser totalmente subordinado a movimentos totalizantes, que, na atualidade, consideram todo o mundo. Alguns teóricos sugerem que, com o aumento exponencial do tamanho das forças militares, e o avanço das tecnologias de controle e comunicação, a “estratégia militar” tornou-se mais um aspecto da “Grande Estratégia”, e tem de ser considerada para além da situação de guerra.
 
E o que isso tudo tem com a Copa do Mundo? Nosso país tem agora, um delineamento de “Grande Estratégia” bem diverso do que teve desde o fim da ditadura militar (se é que tivemos algum, após o abandono da política externa independente elaborada durante o governo Geisel).
Esses novos delineamentos buscam colocar o Brasil numa posição de liderança global, articulado aos novos blocos formados na era pós-Guerra Fria. Se estamos ou não capacitados para isso, são outros quinhentos, mas o fato é que se trata de uma situação original, originalidade que reside na abordagem multipolar da política externa. Por outro lado, tal abordagem tende a colocar o que é visto como “nossos interesses”, em frequente rota de colisão com os interesses hegemônicos das potências centrais – EUA à frente. Não é uma situação nova, e nem produz desdobramentos que sejam novidade. A crescente diferenciação de interesses e percepções entre Brasil e EUA observada atualmente, a respeito de suas respectivas posições no sistema internacional, começa a produzir políticas divergentes, no plano das relações internacionais. Em outras épocas também surgiram divergências, decorrentes de transformações na política interna brasileira. produzidas por situações de mudança nos setores hegemônicos brasileiros, que resultavam em divergências na leitura desses grupos sobre como o país deveria colocar-se no sistema internacional. Com diferenças marcantes de enredo, essa é história ouvida antes, durante os governos militares. Notadamente a partir da administração Médici, observa-se o reordenamento das posições relativas ocupadas pelos três eixos em torno dos quais se articula o processo produtivo brasileiro, quais sejam, a grande empresa internacional, o setor público da economia e o capital nacional não-associado. Será a conjugação dessas três forças que permitirá, no momento seguinte, a gradativa diversificação das relações econômicas externas do Brasil, constituindo a base material da política exterior iniciada com Geisel.

Não seria hoje quase a mesma história? Já se observa forte reação dos interesses tradicionais da política brasileira, assim como se escuta falar muito de uma “reestatização branca” e de um “bilionário petista”.  Outras semelhanças podem ser observadas, algumas de curiosa contiguidade. 

A ação externa de Geisel passou pela recomposição da correlação de forças na estrutura doméstica de poder. Procuravam-se formas pacíficas de transição para a liberalização do regime, processo conduzido pelo próprio Presidente da República. A personalidade do general lhe possibilitaram manter-se no centro das decisões, processo denominado “centralismo burocrático”. Essa fórmula, muito calcada no pensamento de esquerda, mantinha a capacidade de decisão concentrada, capaz de articular as burocracias mais consistentes. Para Geisel, a política exterior, além de elemento indutor do desenvolvimento, se tornou fator legitimador do regime, articulando-se à proposta de abertura institucional formulada pelo próprio regime. Sua linha de força era a afirmação de independência com relação aos desígnios da política externa dos EUA no plano internacional. 

Essas reflexões baseiam-se no excelente artigo referenciado mais acima. Como bônus, talvez ajudem a explicar a admiração manifestada por Lula – e por sua candidata – com relação ao governo Geisel. E o “furor democrático” manifestado por grupos que cresceram à sombra do regime autoritário.

Um desses grupos de interesse é formado pelo amplo setor das empresas de comunicação. Claro – nem todas elas cresceram cevadas pelo regime militar, e algumas cumpriram destacado papel de resistência. Não é preciso aprofundar essa distinção, pois no momento, todas parecem alinhar-se com uma postura “ocidentalista” que, ao longo da última década, deu totalmente co´os burros n´água. O fracasso das políticas de alinhamento automático com os EUA e a Europa Ocidental ficaram patentes durante o governo FHC. E não estamos discutindo aqui as políticas do atual governo que teriam sido herdadas do anterior. Isso parece ser um fato, mas o atual governo moveu os recursos disponíveis de modo totalmente diverso do modo como o fez o anterior. E já notamos o candidato Serra levantar questões sobre os rumos da política exterior. Rumos que não têm merecido uma palavra de simpatia por parte desses grupos de comunicação. 

Dentre esses, um mais notórios é a Rede Globo de Televisão. Grupo empresarial surgido das articulações da época dos governos militares, que também beneficiaram o jornal O Globo, a Rede Globo foi um dos principais atores da moldagem da visão de nação que nos assola atualmente. Ao longo de quatro décadas, funcionou como uma área de “public relations” do regime militar, formando uma rede que atualmente alcança todos os pontos do território brasileiro – o que, temos de reconhecer, não é pouca coisa. Que faz um trabalho de excelente qualidade é inegável, tanto que os outros grupos de comunicação televisiva tentam, com sucesso no máximo mediano, copiar o “padrão Globo”. Sucesso apenas mediano porque um dos aspectos matriciais desse “padrão” é o comportamento hegemonista. A Rede Globo parece se ver como tendo adquirido uma espécie “pressuposto”, que é um direito a “chegar primeiro”. Esse direito realmente existe, e foi produzido por articulações políticas de bastidores, onde se trocam favores que acabam por resultar em vantagens econômicas reguladas pela posição dos agentes em negociação. Por vezes, entretanto, surge um boi na linha: em 1983 (se a memória do redator:: ainda vale alguma coisa…) foi Leonel Brizola; em 1990, foi a possibilidade de Lula – ainda metalúrgico e obreirista – se eleger; na mesma época, houve o caso “Igreja Universal do Reino de Deus” (uma briga que se prolonga até hoje). Mais recentemente, temos o caso “Copa do Mundo”. E é nesse ponto que o redator:: ainda vai acabar gostando de Dunga.
Nosso “Zangado” pode ser lá o que for – um jogador medíocre, treinador pouco criativo, personalidade autoritária, cidadão politicamente retrógrado, etc. (e mais alguma coisa), mas talvez esteja prestando a todos nós grande serviço, ao peitar a Rede Globo. Dunga pode até perder a Copa do Mundo – embora o futebol que a Seleção apresente não seja pior do que a média do que se vê nessa edição da competição, ou seja, uma porcaria. Entretanto, ao colocar no devido lugar a arrogância de outras mediocridades – o bando de bonifrates falantes (opa! causa:: também é inspiração…) do “jornalismo” da Globo -, Dunga certamente tornou essa Copa um evento realmente significativo para nosso país, e já fez por merecer entrar, se não para os anais do futebol brasileiro, com certeza para os do jornalismo brasileiro.
O post que deu origem às observações talvez tanto delirantes acima já circulou na Internet o suficiente para criar uma trilha entre o Jardim Botânico e África do Sul, com algumas declarações de princípios interessantes. 
Como isso pode ser elemento de “Grande Estratégia”? Ôs oito ou nove leitores, conhecedores que são de causa:: já devem ter notado que essa foi apenas outra desculpa para discutir estratégia. Mas o fato é que a postura “descontrolada” de Dunga (pelo menos segundo o valente William Bonner) abre uma brecha para pensarmos que, se por um lado a presença de formações hegemonistas é, no mínimo, um obstáculo à democracia, mas por outro, as relações de poder, mesmo no plano assimétrico, são hoje bem diferentes do que eram nos “gloriosos anos setenta-oitenta”, época de ouro da “Vênus platinada”. Na época, a Rede Globo era recurso estratégico do regime, e funcionava como fator articulador das relações políticas e, por conseguinte, da ideologia. O surgimento da Internet equilibrou essa relação de forma não-prevista. De forma ainda não bem avaliada (tanto que pode estar errada) a Globo tem de lidar com agentes em posição totalmente asimétrica. Assim, o problema não é Dunga, mas a forma como a história se espalhou, obrigando a própria frau Bernardes a desmenti-la utilizando o mesmo recurso através do qual história se disseminou – um blogue. Só que, aparentemente, a capacidade de “viralização” desse não alcança os patamares de alguns daqueles nos quais surgiu o caso. Ou seja – vivemos outra época, em que agentes antes insignificantes viraram recurso de “Grande Estratégia”…::