Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Tropas britânicas embarcando para evacuação, nos primeiros dias da "Operação Dínamo", Dunquerque (costa norte da França), maio, 1940: avaliação política equivocada ou erro militar crasso?..

Em 2006 caiu nas mãos do redator:: um livro fascinante: “As entrevistas de Nuremberg” (o livro pode ser consultado, com restrições, aqui). Não é preciso explicar a nenhum leitor assíduo ou eventual de causa:: o que foi o Tribunal Militar Internacional. Leitor de causa:: ou não, todo mundo sabe que o TMI, ao longo da ano de 1946, julgou os principais criminosos nazistas. Foram réus do, tribunal, instalado na cidade de Nuremberg, Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Robert Ley, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosemberg, Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Wilhelm Funk, Hjalmar Sclacht, Gustav Krupp, Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur Von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martins Borman, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath e Hans Fritzche. Os vinte e três “grandes criminosos” foram indiciados por diversos crimes, sendo alguns deles responsabilizados por provocarem deliberadamente a Segunda Guerra Mundial (planejar uma guerra de agressão) e ter cometido atrocidades durante as operaações militares para a conquista de territórios estrangeiros (violação das leis e costumes da guerra), oprimindo e matando a população inocente (crimes contra a humanidade). As acusações específicas iam do assassínio político ao extermínio de etnias religiosas, passando por crimes militares, escravização e pilhagem. O Tribunal Militar Internacional não se encerrou no grande processo, mas continuou, em uma série de treze julgamentos realizados entre 1945 e 1949. Nesses processos foram acusados e julgados uma série de funcionários civis e militares, responsabilizados por crimes relacionados aos “grandes crimes”.

Durante o julgamento principal, um médico do Exército dos EUA, major Leon Nathaniel Goldensohn, especializado em psiquiatria, foi designado para monitorar a saúde mental dos acusados.  Seu trabalho era feito com base em entrevistas diárias que abrangiam dezenas de nazistas de primeira linha, entre os levados ao tribunal como réus e outros convocados como testemunhas. O trabalho durou até meados de 1946 e resultou em dentenas de páginas de anotações, que, após ser transferido, Goldenshn conservou em seu poder. O médico morreu  em 1961. Suas notas ficaram esquecidas, até seu irmão as recuperar e editar para publicação, em 2004. O livro foi lançado em nossa língua no ano seguinte.

As entrevistas, em si, não têm nada de surpreendente: todos os acusados tentam se safar, e, em geral, da maneira usual. Nenhum deles foi responsável por nada, tudo tinha sido culpa de Hitler, de Himmler, de Borman (mortos, claro…) ou dos outros envolvidos, presentes ou não. Interessante mesmo é o panorama da Alemanha pré-Hitler que vaza das falas dos entrevistados, assim como a trajetória  dos acusados até o poder – enfim, a visão de mundo daquela gente.

Baseado nas entrevistas de alguns líderes militares, o redator:: resolveu fazer a experiência de analisar uma grande operação da 2ª GM mesclando a fala de homens que tiveram indubitável importância na direção da guerra, e trechos que são esclarecedores sobre esses mesmos temas, recolhidos em outras excelentes publicações disponíveis em português.

Um dos entrevistados que fala de forma mais clara é o general-marechal-de-campo (em alemão, general feldmarshall) Ewald von Kleist. Este cavalariano clássico, que, quase por acaso se viu comandando tanques, teve uma carreira destacada durante a guerra. Na campanha da França, foi designado comandante de um grupo blindado, o “Panzergrüppe Kleist“, formado a partir do 22° Corpo de Exército. O “grupo blindado Kleist” (na 2ª GM, unidades assim designadas tinham a primeira letra do nome do comandante estampadas em todos os veículos) alcançou e cruzou o rio Meuse, nas proximidades de Sedan em 13 de maio, abrindo assim uma brecha em forças francesas muito superiores. Continuou avançando, tendo os especialistas Guderian e Reinhardt como pontas-de-lança, no melhor estilo “guerra-relâmpago”, até as margens do canal Aire-Saint Omer, alcançado três dias depois. Uma vez cumprido esse objetivo, recebeu a surpreendente ordem superior de deter suas forças, que estavam virtualmente intocadas (tinham sofrido 11 por cento de baixas) e dispunham de combustível suficiente. Kleist decidiu ordenar que alguns elementos de vanguarda cruzassem o canal explorando o caminho até a cidade de Hazebrouck, importante entrocamento ferroviário. O Oberkommando des Heeres (OKH, Alto comando do Exército, formado em 1936) entretanto, reforçou a ordem de alto e Kleist teve de retirar os dois regimentos que estavam às portas da cidade. Ao longo dos três dias seguintes, todo o grupo foi mantido em posição. Depois se descobriu que o alto-comando do Exército tinha desconfiado de uma armadilha, dada a facilidade com que os blindados estavam avançando por toda a França. Durante a segunda fase da campanha, Kleist recebeu o controle da 16ª Divisão Blindada e do 14° Corpo Motorizado. Seu grupo de combate atacou a partir de Amiens e conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio Oiser. Dali até o porto de Dunquerque seria um pulo. Entretanto, em 24 de maio, Kleist novamente recebeu ordens de alto, desta vez no canal do rio Aa, à sudeste de Dunquerque. A tropa de Kleist terminou a campanha alguns dias depois, às portas de Lyon. O general soube, mais tarde, que a ordem tinha partido de Hitler, em pessoa.

Convocado pelo TMI como testemunha (posteriormente, foi julgado e condenado por crimes de guerra cometidos sob sua direção, na Iugoslávia, em seguida entregue aos soviéticos para novo julgamento), seu depoimento é um dos mais interessantes dentre os que aparecem no livro de Goldensohn. Sobre a surpreendente ordem de alto no canal do Aa, diz Kleist que…

“… os ingleses conseguiram escapar da armadilha em Dunquerque, tão cuidadosamente armada por mim, apenas com a ajuda pessoal de Hitler. Havia um canal de Arras a Dunqurque e eu já havia atravessado esse canal, e minhas tropas ocupavam que se projetavam sobre Flandres. Portanto, meu grupo de blindados tinham o controle de Dunquerque e da área onde os britânicos estavam imobilizados. O fato é que os ingleses não teriam conseguido chegar em Dunquerque porque estavam sob a minha mira. Aí Hitler ordenou pessoalmente que eu retirasse minhas tropas daquelas colinas.”

Essa situação tem muitas interpretações. Inúmeros historiadores costumam a dizer que talvez Hitler pretendesse dar um refresco aos britânicos, para que estes pudessem decidir o que fazer. Até então a intuição política de Hitler tinha funcionado bem, e ele possivelmente imaginava que os britânicos iriam acabar resolvendo negociar. Em uma excelente síntese publicada na Inglaterra em 1990 e no Brasil em 1993, o historiador canadense Martin Kitchen parece ter dúvidas exatamente nessa direção:

“Os motivos de Hitler continuam a ser uma espécie de mistério. Rundestedt afirmou … que Hitler permitiu deliberadamente que os britânicos escapassem, na esperança de chegar a um acordo político. No dia 17 de maio ele comunicara … sua intenção de dividir o mundo com os britânicos. … os britânicos tinham de … aceitar a dominação germânica no continente europeu e poderiam conservar a supremacia naval e o Império. No dia 21 de maio, Halder foi informado de que o governo alemão tinha esperança de chegar a um acordo com a Grã-Bretanha sobre a divisão do mundo. … no dia 2 de junho, Hitler declarou … que tinha confiança em que a Grã-Bretanha aceitaria uma ´paz razoável´, que o deixaria livre para dar prosseguimento à sua ‘missão realmente grande’ de esmagar a União Soviética. O Império Britânico, insistira, tinha um papel vital a desempenhar, em nome da raça branca.”

O historiador britânico Ian Kershaw pensa diferente. Falando sobre o incidente, no livro “1940-1941 – Dez decisões que mudaram o mundo“, ele coloca diretamente sua discordância:

“Quando Hitler visitou o quartel-general de seu comandante ocidental, coronel-general Gerd von Rundestedt, na manhã de 24 de maio, os panzers já estavam menos de 24 quilômetros ao sul de Dunquerque. Depois de avaliar a situação militar com Rundestedt, Hitler deu a ordem para o avanço ser interrompido naquele ponto e não prosseguir até Dunquerque. A decisão logo veio a ser vista como uma oportunidade crucial perdida de acabar com as forças derrotadas do Exército britânico. Tentando justificar um grande erro militar, Hitler posteriormente sugeriu que não quisera destruir o Exército britânico, a espinha dorsal do Império. Isso não passou de uma racionalização para salvar as aparências. Na verdade, ele estava apenas seguindo a recomendação militar de seu comandante de campo, Rundestedt, que quisera preservar suas unidades motorizadas para a investida final para o sul, para concluir a campanha. Longe de querer preservar o Exército britânico, Hitler foi levado por Göring, comandante-em-chefe da Aeronáutica alemã, a acreditar que a Luftwaffe acabaria com tudo.”

É provável que ambos os historiadores estejam corretos (Kitchen não descarta a hipótese do erro militar), mas o depoimento de von Kleist aponta para a análise de Kershaw:

“Hitler achou que era arriscado demais. Eram absurdas as ordens dele naquela época. Poderíamos ter aprisionado ou exterminado totalmente o exército britânico, não fosse a ordem estúpida de Hitler. A prova é que, três dias depois, os ingleses ocuparam as colinas, e fui obrigado a atacá-los de novo para tirá-los de lá. O grosso das tropas inglesas, porém, já havia atingido Dunquerque e estava fugindo em pequenos barcos. O triste disso é que eu poderia ter capturado o exército britânico, ou uma parte tão grande, que uma invasão da Inglaterra teria sido uma questão simples.”

Um outra questão, entretanto, são as divergências que haviam dentro do próprio exército alemão, entre os generais “de blindados” e os tradicionais – estes no comando. Rundestedt fazia parte da ala tradicional, que via limites nas possibilidades das forças motorizadas. Aristocrata prussiano, no exército desde 1892, oficial de estado-maior desde 1907, general-de-brigada em 1932, general-de-exército em 1938, Rudestedt expressava as mais arraigadas tradições da infantaria prussiana. De fato, emanava dele a preocupação com a distensão aparentemente excessiva dos blindados. Rudestedt era um infante que buscava a modernização da infantaria, tanto que, em 1934, juntou-se a um projeto que introduzia caminhões como transportes de tropas, ao invés das tradicionais carroças; também se interessou pelo uso de tanques como “artilharia móvel” nas divisões de infantaria. O general advogava a coordenação entre blindados e forças de infantaria, ainda que da forma tradicional. Mas, em geral, os analistas acham que ele, de fato, não acreditava nos blindados. Convocado da reserva para o serviço ativo, em 1939, durante a Campanha do Ocidente foi designado comandante do Grupo de Exércitos A. O Sichelschnitt (“Golpe de foice”), desbordamento através das Ardenas, idéia de Manstein, foi entusiasticamente advogado pelo velho comandante. Entretanto, também foi o militar que esteve no meio da “crise de Arras”.

Foi um momento de pânico no alto-comando, cuja origem esteve na facilidade, não prevista, do avanço das forças motorizadas através da França e da Bélgica. Quando, em 21 de maio, um contra-ataque britânico mostrou-se surpreendentemente bem sucedido, e quase resultou numa derrota da 7ª Divisão Blindada, a “Divisão Fantasma” de Rommel, na área de Arras, alguns comandantes alemães parecem ter perdido a calma. O comandante do 4° Exército suspendeu todos os movimentos das forças motorizadasaté que a situação fosse controlada, e o resultado é que o rápido avanço do Grupo Blindado Kleist foi também desacelerado. Rundstedt, reunido com Hitler, mostrou-se muito preocupado com a falta de coordenação entre tropas motorizadas e infantaria, que poderia deixar os blindados descobertos.  Em 23 de maio, ele sugeriu que as formações blindadas fossem detidas. Hitler mostrou-se favorável à medida, e desautorizou as ordens em contrário emitidas pelo OKH. A diminuição de velocidade transformou-se numa ordem de alto, que durou até 27 de maio. Foi nesse período que as tropas da Força Expedicionária Britânica escaparam através do Canal. Essa prudência excessiva seria apenas a expressão da personalidade de um comandante pouco afeito a assumir riscos. Sempre tinha sido assim, desde a execução do plano de Manstein. Segundo o historiador militar Earl F. Ziemke, autor de uma biografia militar de Rundestedt…

“No quartel-general do Grupo de Exércitos A, na tarde do dia 17, Hitler deu pleno apoio a uma avaliação na qual Rundestedt ‘enfatizava a situação delicada do flanco sul’, e acreditava que nada era mais importante para toda a operação do que uma prontidão defensiva, absolutamente segura no Aisne e no Somme. … preocupava-se com a possibilidade de seu flanco esquerdo ficar exposto com a travessia do Meuse que, esperava, estivesse fortemente defendido. Guderian ficou desolado ao descobrir que Rundestedt acreditava que divisões panzers e motorizadas não poderiam cruzar rios sem ajuda da infantaria.”

Von Brauchitsch e Halder discordaram, e tomaram a decisão – correta – de ordenar que o ataque prosseguisse, ainda que sem consultar Hitler. Esses dois também não confiavam totalmente nos tanques, mas acreditavam no que estavam vendo – o enorme sucesso do novo estilo de guerra. Segundo o historiador Andrew Roberts, no excelente “Hitler e Churchill: segredos da liderança”caso Rundestedt pudesse ter decidido, ainda assim seguiria as diretrizes de Hitler, que, durante toda a campanha do Ocidente, mostrou-se hesitante. Para ele, a blitzkrieg teria sido mais krieg e menos blitz. Em meio a essas hesitações que a Inglaterra pôde salvar-se, naquele momento.::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Um dos livros que maior curiosidade despertou no redator:: até hoje, dentre tudo o que já leu sobre a 2ª GM, foi “Eichmann em Jerusalém”, da filósofa alemã Hannah Arendt. Arendt é *figura muito conhecida no universo da Filosofia e da Ciência Política, com uma obra notável e uma militância destacada – que quase a colocou, em 1933, num campo de concentração. Em 1961 foi enviada a Israel pela revista norte-americana New Yorker, para cobrir o julgamento do tenente-coronel SS Karl Adolf Eichmann, arquicriminoso de guerra nazista. Da reportagem, publicada em cinco partes (se você lê inglês, uma resenha excelente aqui, das próprias páginas da revista mais bem-pensante e pedante dos EUA…), resultou o livro (o pós escrito, de autoria da própria Arendt deve ser lido aqui). Nesse texto, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, hoje bastante difundida entre diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Esse conceito expressa a tese que propõe enxergar sob outra perspectiva as pessoas que cometem crimes indiscritíveis, daqueles que em muito superam as possibilidades de qualquer relés Al Capone ou Fernandinho Beira-Mar. É o caso dos planejadores e administradores da máquina industrial de genocídio dos nazistas, entre 1941 e 1945. Essas pessoas não podem ser consideradas simplesmente fanáticos ensandecidos: na maioria dos casos, são gente comum. Essa gente simplesmente aceitou a premissa de que o Estado, entidade impessoal e onipresente, “sabe o que faz”, e a partir daí se dispôs a participar e empenhar o melhor de suas competências em realizar a tarefa – sem chegar a perguntar, em momento algum, sobre o que estava fazendo. Burocratas, em todos os sentidos, nem piores nem melhores do que os outros burocratas. O trabalho de Arendt insere-se numa crítica à modernidade iluminista que deu co´os burros n´água em duas guerras mundiais, muitas ditaduras assassinas e “lutas pela liberdade” , que no conjunto mataram sabe-se lá quantas dezenas de milhões de pessoas. Arendt, atenta para essa ordem de questão, refletia sobre a responsabilidade coletiva, ou seja, a responsabilidade, que, para bem ou para mal, que a dinâmica histórica aponta. Dizendo de outra maneira – não existe quem esteja isento. Mas, por outro lado, responsabilidades não podem ser consideradas inteiramente individuais. 

Quando Napoleão, ao tomar o poder na França depois da Revolução, disse ‘Assumo a responsabilidade por tudo o que a França já fez, de são Luís ao Comitê de Segurança Pública’, ele estava apenas formulando um tanto enfaticamente um dos fatos básicos de toda a vida política. Em termos gerais, significa pouco mais que afirmar que toda geração, em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais. Mas esse tipo de responsabilidade não é o que estamos discutindo aqui; não é pessoal, e só num sentido metafórico alguém pode dizer que sente culpa por aquilo que não ele, mas seu pai ou seu povo fizeram. (Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa.) É bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos” (aqui, o redator:: fará o que nunca fez até agora, neste blogue: insistir para a leitura do texto indicado acima, do qual essa citação foi retirada).

O redator vê essa problemático sob dois ângulos, complementares. E não vamos falar apenas dos nazistas. Aqueles doze anos foram o reinado do mal absoluto, um curto-circuito moral que apagou consciências no mundo inteiro – para dizer o mínimo, não foram poucos os países e indivíduos que se deixaram fascinar pelo formigueiro de ordem e trabalho em que a Alemanha pareceu se transformar. É certo que, ao fim e ao cabo, a luta contra o fascismo acabou por mobilizar as melhores energias de parte considerável da humanidade, considerada por indivíduos e instituições. 

Por outro lado, o nazismo tem servido como uma espécie de justificativa moral para boa parte dos absurdos cometidos ao longo dos cinquenta anos seguintes. Afinal, fala-se muito em “liberdade”, “justiça”, “democracia”, “prosperidade”, justificativas para ações injustificáveis como o Vietnam, o Afeganistão, o Iraque. E, em nome desses “princípios”, os estados sentem-se autorizados a tudo.

Fala-se na “pátria”; no “país”; no “sistema”. Figuras abstratas que metaforicamente expressam os interesses e aspirações do que seria “o povo”, a coletividade do país. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Essa pela construção de retórica esconde uma construção lógica nem tão bela assim. Cada indivíduo pode ser mobilizado por razões que, no fim, ele talvez desconheça. “Eu recebia ordens, não me cabia discuti-las”, disse Eichmann. Militares, cientistas, burocratas, envolvidos  com questões eufemisticamente chamadas “de defesa”, atrás de escrivaninhas, painéis de controle ou computadores, em uniformes ou trajes civis, recebem ordens. Por trás da competência e da impessoalidade, são seres humanos comuns, com sentimentos comuns. Esperam a hora de ir para casa; preocupam-se com filhos, parentes e amigos; têm passatempos que pouco praticam. O excesso de trabalho e de responsabilidades são a tônica de suas tarefas profissionais e carreiras. E mais: usam, constantemente, a expressão “apenas faço meu trabalho”, independente de qual seja esse. Tudo muito natural. Tudo parte da vida.

Assim, essas pessoas, pilotos de jato lançando bombas de fragmentação ou napalm sobre cidades indefesas, cientistas civis planejando mísseis, burocratas coordenando informações militares, não são, de forma alguma, criaturas odientas ou odiosas. São apenas “parte da máquina”, “fazem seu melhor”, “não inventaram o sistema”. Pois bem: em meio a essa vida esmagadoramente comum – banal, enfim – se infiltra o mal.

Em 1984,  gente comum assim ajudou a fazer o “Relógio do Juízo Final” chegar a dois minutos da meia-noite. 

“Fazer coisas terríveis de forma organizada e sistemática baseia-se na ‘naturalização’. Esse é um processo no qual atos feios, degradantes, criminosos e indizíveis tornam-se rotina, e são aceitos como ‘a maneira que as coisas são feitas’. Existe uma forma de dividir e racionalizar o impensável, com a brutalização e morte cometidas por um grupo de indivíduos, outros administrando a máquina (manutenção, suprimentos), e outros mais produzindo equipamentos de matança, ou trabalhando na melhoria da tecnologia (melhores crematórios, napalm aperfeiçoado, bombas de fragmentação cujos fragmentos sejam mais difíceis de localizar dentro do corpo…). É função dos intelectuais militares e outros especialistas, bem como da grande imprensa, naturalizar o impensável para o público em geral. No final de sua vida, Herman Kahn gastou muito tempo tentando tornar palatável a guerra nuclear (On Thermonuclear War: Thinking About the Unthinkable), e este Doutor Strangelove fajuto teve boa aceitação na imprensa. Num excelente artigo intitulado “Normalizing the unthinkable”, publicado no ‘Boletim dos cientistas atomicos’ (Bulletin of Atomic Scientists) de março de 1984, Lisa Peattie descreveu como nos campos de morte nazistas  o trabalho era ‘naturalizado’ para aquelas pessoas aprisionadas a longo tempo, bem como para o pessoal administrativo: ‘Os encanadores da prisão mantinham em bom estado a bomba d´água no crematório e os eletricistas trabalhavam nas cercas eletrificadas. Os gerentes do campo mantinham padrões e processos bem ordenados. Os faxineiros que limpavam o pátio do crematório em Auschwitz tinham de deixá-lo perfeitamente esfregado.’ Peattie foca-se no paralelo entre rotinização nos campos de morte e na preparations para a guerra nuclear, na qual o ‘impensável’ é organizado e preparado, numa divisão de trabalho na qual participam pessoas em muitos níveis. A distância da execução ajuda a obscurecer a resposabilidade. ‘Adolph Eichmann era um funcionário com responsabilidades, deacordo com seu entendimento de responsabilidade. Para ele, estava claro que os líderes do Estado tinham estabelecido as políticas. Sua função era implementá-las, e, afortunadamente, matar qualquer um nunca foi parte de seu trabalho’.” (Se o leitor se safa em inglês, pode ler a íntegra, em inglês,  num desses preciosos blogues perdidos na rede. A palavra “naturalizar” foi usada, aos invés de “normalizar”, que é a do original, visto que essa última tem, em nossa língua, um significado um tanto diverso do que parece ter sido pretendido pelo autor.)

O texto não está focado propriamente na matança industrial executada pelos nazistas, com o beneplácito da população alemã, mas nas diversas matanças, industriais ou não, que tiveram lugar no século 20. Essas, embora sem alcançar o azimute daquela perpetrada pelos nazistas, cabem na linha da reflexão de Arendt: como distribuir a culpa por crimes impensáveis? Até que ponto o estado deve ser chamado a dividir com seus burocratas, a culpa pelo impensável?

Napoleão assumiu a responsabilidade pelas culpas e benefícios da França. Era uma metáfora, claro, e se “a França” foi responsabilizada moralmente pela Argélia, o general Jacques Massu, o carrasco de Argel, agente do estado francês, morreu altamente condecorado e tranquilamente reformado. O estado nazista pôde ser criminalizado por ter sido eliminado em uma guerra. Assim, seus servidores foram co-responsabilizados (e continuam sendo) pelo papel que cumpriam no contexto mais amplo: são considerados cúmplices conscientes, mesmo os que não apertaram nenhum gatilho. Sem a ocorrência de guerras convencionais ou revoluções, essa atribuição-distribuição de responsabilidades fica bem mais difícil. Somente em situações nas quais tal rompimento ocorre, é possível a responsabilização de que fala Arendt, “… [é] bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos…”

Se tal criminalização só é possível com Estados derrotados por condições externas ou internas (e mesmo assim, nem sempre), como chamá-los à responsabilidade?  Ninguém jamais tomará a iniciativa de pedir a criminalização do regime stalinista, ainda que a União Soviética tenha desaparecido; o estado sérvio pós-Tito jamais chegou a ser diretamente acusado pelo genocídio acontecido durante as guerras de agressão que promoveu contra a Croávia, Bósnia e Kosovo. De fato, houve responsabilização, por parte do Tribunal Penal Internacional, de gente como Slobodan Milošević, Radovan Karadzic e Ratko Mladic (dentre outros), responsabilizados como indivíduos (alguns chefes militares croatas também foram levados a julgamento). O mesmo aconteceu com o premiê de Ruanda e de alguns outros indivíduos, acusados de crimes contra a humanidade e genocídio, e cujas penas foi consideradas geralmente insuficientes. O governo ruandês instalado após a queda do regime responsável pelo massacre tratou de executar mais de duzentas pessoas consideradas culpadas, após julgamentos sumários. Uma boa pergunta é o que mais poderia ser feito, visto que o TPI não tem os poderes que, de fato, seriam necessários para que as nações de que fala Arendt, fossem responsabilizadas. Por outro lado, um personagem ruandês, Paul Rusesabagina, responsável por salvar as vidas de 1.268 pessoas, em Kigali (capital de Ruanda) e que se tornou uma espécie de consciência nacional, exilado na Bélgica, fez duras declarações tanto contra o regime no poder quanto contra as instituições internacionais.

Nações latino-americanas que passaram por ditaduras homicidas tomaram caminhos diversos. Na Argentina, leis que beneficiavam militares de patente inferior com a impunibilidade por crimes no exercício de função foram revogadas por determinação judicial em 2004, durante o governo de Néstor Kirchner; no Uruguai foi tomada a mesma decisão, em 2008, pelo do governo do presidente Tabaré Vázquez. O conceito de “obediência devida”, invocado para justificar as ações de militares, foi revogado, e em ambos os países, um grande debate ainda tem lugar em torno do tema. “Se o comando superior decide dissolver o Parlamento, uma ordem inconstitucional e ilegal, não deveria ser cumprida pelas Forças Armadas”, declarou o ministro da defesa do Uruguai, José Bayardi. Por outro lado, Brasil e Chile optaram por iniciativas mais brandas.

Temos que admitir que cada caso é um caso. Na Argentina, o Estado de excessão dissolveu-se após uma série de trapalhadas que culminaram com a humilhação nacional do país, a derrota nas Malvinas; no Uruguai, erros sucessivos de administração do governo militar e a oposição popular que daí decorreu levaram à uma transição em que os militares abandonaram o governo sem nenhuma condição prévia; no Brasil e no Chile, saídas negociadas com os regimes implicaram em acordos até hoje contestados. Cada caso é um caso, mas caracterizou esses regimes de excessão s a enorme quantidade de crimes de estado cometidos por seus agentes. Nunca houve nenhum movimento para internacional para responsabilizar esses governos, ou mesmo suas lideranças individuais. Pode-se alegar que foram lutas de facções políticas no contexto da Guerra Fria, e que os EUA e a URSS também deveriam ser responsabilizados por coisas como o Vietnam e o Afeganistão, onde muito mais gente morreu. A idéia da “banalidade do mal” aplica-se à todas as situações descritas acima, e nem todos os servidores dessas ditaduras eram um Sérgio Paranhos Fleury (que dispensa apresentações), um Alfredo Astiz ou um Manuel Contreras. Agentes como esses podem perfeitamente ser comparados aos nazistas, mas outros achavam, sinceramente, estar “apenas cumprindo ordens”. Para os nazistas, essa desculpa não valeu. Mas e para os outros? 

Voltaremos ao assunto, quando os oito ou nove leitores tiverem tido tempo para digerir essas questões::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Drops extraídos do excelente livro Alemanha, 1945: Da guerra à paz, de Richard Bessel (Companhia das Letras, 2009, 483 p.). O Doutor Bessel é conhecido nos arraiais especializados como dos pesquisador dos temas “fim da guerra”  e “pós-guerra”, e não apenas “pesquisador” (isto o redator:: aqui também é…), mas “bom pesquisador”. O tema é particularmente interessante pois as análises militares frequentemente desviam a atenção, mesmo quando o leitor é especialista, do fato de que, em 8 de maio de 1945 a Europa – incluindo aí os vencedores (claro, com excessão dos EUA) – estava arrasada. Enormes problemas políticos, sociais, econômicos  e humanitários se colocaram diante das potências que ocuparam a Alemanha. Embora tenha sido a base sobre a qual construiu-se a Europa moderna, particularmente sua metade ocidental, esse período traumático tem merecido pouca atenção. O ponto alto da pesquisa de Bessel é exatamente chamar atenção para o fato de que, em 8 de maio, o povo alemão, sem governo, com a instituições civis em colapso e o país em ruínas, mergulhou nas trevas. Também é interessante observar que, dentre as maiores preocupações dos Aliados – que tinham plena consciência dos problemas e da urgência em enfrentá-los -, no topo estava  a assim chamada “desnazificação”, objetivo associado à extirpação do “militarismo prussiano”. O professor Bessel, que leciona História do Século Vinte na Universidade de York, reconhece (e com ele, este redator::) que a desmontagem das estruturas cuja origem era muito anterior ao surgimento do nazismo, e  sobre as quais cresceu a asquerosa besta fascista foi o mais importante e durador produto da vitória. Tudo bem que os acordos entre as potências urdidos meio às pressas e com cada um querendo garantir sua parte do botim nos legaram um mundo injusto, desigual e problemático. E cheio de guerras, quentes e frias. Mas pelo menos a humanidade que vive sobre ele pode pensar em cuidar da vida sem armar, periodicamente, uma matança em escala global. Vale à pena lembrar de vez em quando, que talvez devamos nossas existências ao período que se abriu em 9 de maio daquele ano::

O povo alemão combina, da maneira mais letal, as qualidades do guerreiro e do escravo. Não valorizam a liberdade, e o espetáculo da liberdade alheia lhes parece odioso. Sempre que se tornam fortes buscam uma presa, e seguem com disciplina férrea qualquer um que os lidere nessa busca. O cerne da Alemanha é a Prússia. Ali está a fonte da recorrente pestilência. … A tirania nazista e o militarismo prussianosão os dois principais elementos da vida alemã que precisam ser inteiramente destruídos se a Europa e o mundo quiserem evitar um terceiro conflito ainda mais devastados. (Winston Churchill em discurso na Câmara dos Comuns, 21 de setembro de 1943  – grifo do redator::

É nosso objetivo inflexível destruir o militarismo e o nazismo alemães e garantir que a Alemanha nunca mais perturbe a paz no mundo. Estamos decididos a desarmar e dispersar as forças armadas alemãs; dissolvel para sempre o Estado-Maior alemão, que reiteradamente encontrou meios de fazer ressurgir o militarismo alemão; remover e destruir todos os equipamentos militares alemães; eliminar ou controlar toda a indústria alemã que possa ser usada para a produção militar; exterminar o Partido Nazista, as leis, organizações e instituições nazistas; extirpar todas as influências nazistas e militaristas da vida cultural e econômica do povo alemão; e tomar outras medidas necessárias para a paz e aa segurança do mundo. Não é nosso objetivo destruir o povo da Alemanha, mas só quando o nazismo e o militarismo forem extirpados haverá esperança de vida descente para os alemães e um lugar para eles na política de boa vizinhança das nações. Declaração final da Conferência de Ialta (4-11 de fevereiro de 1945) — grifo do redator::

Convencidos que a causa principal da mais terrível das guerras está na natureza predatória da economia capitalista, do imperialismo do capital financeiro e da consequente depravação moral e política do lumpenproletariat e da pequena burguesia, exigimos que a crise social seja resolvida por intermédio de uma economia socialista. A Alemanha só poderá ser reconstruída economicamente numa base socialista. Construir ou destruir cidades como empreendimento capitalista é tão impossível quanto a reconstrução da indústria com o dinheiro dos contribuintes. Trecho do “Manifesto de Buchenwald”, redigido pelo ativista social-democrata doutor Herman Brill (1895-1959), depois chefe da administração civil da cidade de Weimar, instalado no cargo pelo Exército dos EUA em maio de 1945. Brill vagou de prisão nazista em prisão nazista entre 1938 e 1945, até ser libertado pelos norte-americanos do KZ (campo de concentração) Buchenwald, na Turíngia. Em julho, quando a administração da região foi entregue aos soviéticos, Brill não durou 15 dias no cargo. Opositor da administração comunista instalada a partir de então, acabou se  transferindo para a zona ocidental no fim do ano. Em 1948, foi um dos fundadores do reconstruído SPD (Soziademocratische Partei Deutschlands).

Os horrores do fascismo podem ter ficado para trás, mas temos de aguentar juntos suas consequências catastróficas também no futuro, evitar pacificamente os distúrbios que já se verificam. A educação para a democracia, para a paz e para a liberdade continua sendo a tarefa comum de uma frente unida antifascista tão ampla quanto possível. Não sabemos quais e quantos partidos surgirão na zona francesa. Mas seja a União Democrata-Cristã, sejam os liberais democratas, sejam socialistas ou comunistas, todos hão de reconhecer que a cooperação e a união são a mais importante força-motriz da reconstrução de nossa economia e de nosso novo Estado. [Esta é] a garantia do cumprimento das resoluções dos Aliados em Potsdam, na verdade da existência da nação alemã. Pois nunca mais a velha Alemanha nazista, militarista, imperialista e reacionária deverá ressurgir dos mortos; uma nova Alemanha de trabalho, de democracia forte e de paz honesta deve ser construída. O bloco livre antifascista, formado por todas as forças democráticas, será sempre seu firme alicerce. Trecho do “Manifesto” da Frente Antifascista de Kontantz, publicado pelo jornal Südkurier, da cidade de Konztantz, zona de ocupação francesa.

O Terceiro Reich está praticamente esquecido, todos se opõem a ele, “sempre” se opuseram; e as pessoas têm as idéias mais absurdas sobre o futuro. Victor Klemperer (1881-1960), intelectual mischilinge, no livro To the bitter end: The diaries of Victor Kemplerer 1942-1945.

Quado chegamos à cidade industrial de Halle no fim da tarde, as casas não destruídas estavam ocupadas por tropas de combate. Procuramos um lugar para passar a noite, mas não havia nada. Uma moça russa dirigiu-se a mim num alemão estropiado e perguntou onde estava o Kommandantur. Ela acabara de chegar à cidade, depois de fugir da fazenda onde trabalhava como escrava, e procurava desesperadamente alguém que pudesse ajudá-la. Não tinha nada, só o que levava nas costas, e seus olhos estavam úmidos de choro. Quero ir para casa“, disse, soluçando. Por favor, me ajude a ir para casa. Tenho apenas dezessete anos.” Saul Padover (1905-1981), historiador e professor universitário norte-americano, capitão do Exército do EUA destacado para o Departamento de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), , abril de 1945.

O (segundo) mês da Guerra do Paraguai::Para finalizar, um pouco sobre tradição::

Parte2-3É interessante observar que, em todo o mundo, dentre as forças singulares, as marinhas de guerra parecem as mais ligadas às tradições. Por outro lado, as que parecem menos ligar para essas coisas são as Forças Aéreas. A explicação não é difícil: do ponto de vista de corporação, as marinhas de guerra são as forças singulares mais antigas. Se estruturaram antes que os exécitos nacionais. Esquadras de guerra passaram a ser mantidas pelos estados pelo menos desde o século 16. Operar navios com canhões exige uma estrutura que não está só no mar, mas também em terra: escolas de treinamento de oficiais e marinheiros, bases navais, estaleiros e assim por diante. Marinhas são forças caras. Com o advento dos canhões, só os estados tinham capacidade de reunir e manter , permanentemente, recursos e competências para tanto. Certamente existiram marinhas privadas, operando navios com grandes canhões à bordo: as chamadas “companhias privilegiadas”, com a permissão das Coroas exploravam o ultramar – as colônias. Uma dessas – a “Companhia das Índias Ocidentais“, dos Países Baixos, praticamente financiou a invasão do nordeste brasileiro, a partir de 1624. 

Mas essa é outra história. A partir do século 18, as marinhas passaram a ser corporações exclusivamente estatais. E um dos primeiros países a reservar ao Estado o controle de esquadras de guerra foi a Inglaterra. A Marinha Real – cujas tradições navais boa parte das marinhas (inclusive a brasileira) procura copiar – remonta ao rei Henrique VIII, que a tornou um braço da Coroa (daí o designativo “real”), com um corpo de funcionários militares e civis permanente e profissional. Mas o desenvolvimento da Real Marinha  começou, de fato, sob a liderança de Oliver Cromwell, durante seu período como “Lord Protetor do Trono Inglês”, depois do fim das guerras civis, em 1649. Nessa época, a ilha já tomada pelo Protestantismo, começou a confiar em sua marinha como garantia de suas riquezas e segurança. Entre 1646 e 1659 a marinha inglesa cresceu para mais de 200 navios. Depois da morte de Cromwell e da restauração dos Stuart, em 1660, mais navios foram construídos.  Mas o crescimento da marinha não garantia sucesso imediato, especialmente contra outro povo considerado, por excelência, marinheiro: os holandeses. A disputa com essa nação européia, pelo Atlântico e pelas rotas do Oriente resultou em três guerras, nos seguintes 25 anos. Nessa época nasce a grande tradição da Marinha Inglesa.

Boa parte da oficialidade era oriunda da pequena nobreza, o que explica parcialmente o comportamento à bordo. Além disso, os oficiais mantinham a disciplina exigindo da marujada o tratamento respeitoso que, em terra, dariam a seus senhores. Em países como Portugal, Espanha e França, todos de antiga tradição naval, as marinhas também se profissionalizaram, mas as Coroas mantiveram no oficialato grande número de membros da nobreza, da qual dependiam para governar. Em Portugal e na Espanha, os postos de comando eram frequentemente exercidos por figuras da alta nobreza, sem a menor ligação com a profissão naval; na França, com a consolidação do Estado centralizado, a profissão marinheira acabou destinada a naturais de regiões como a Normandia e a Bretanha – onde as profissões do mar já eram tradicionais; os oficiais eram, geralmente, membros da pequena nobreza, que assim tinha garantido um meio de vida. Esses homens acabaram por se tornar marinheiros muito competentes (basta ver o exemplo do almirante-corsário DuGuay Trouin).

No Brasil, a Marinha foi criada em 1821, às vésperas da independência. Nessa época, a carreira naval, no mundo inteiro, já era uma profissão altamente especializada, de modo que o governo que se constituía precisou contratar oficiais estrangeiros ou lançar mão  dos inúmeros portugueses que, ligados ao Brasil, se apresentaram ao serviço. De toda maneira, uma tradição começou a se constituir, a partir de eventos memoráveis (como o bloqueio de Salvador, em 1823), e continuou a se consolidar nas campanhas da Guerra da Independência, das Guerras no Sul, da Guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial. É curioso o fato de que o patrono da Marinha seja o almirante marquês de Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa, e não lord Cochrane, um inglês que realmente criou a Marinha, por organizar a oficialidade e introduzir o uso de táticas modernas. Isso é compreensível: Cochrane, um oficial de patente intermediária (no final das Guerras Napoleônicas, tinha o posto equivalente ao de capitão-de-fragata, na Marinha Real) era, de fato, um mercenário que, com problemas políticos em seu país, a Escócia ofereceu seus serviços aos governos que se constituíam na América Latina. Manteve relações com Simon Bolívar e organizou a Marinha do Chile. Em 1822, foi convidado a comandar a marinha do Império do Brasil, mas manteve com seus contratantes relações tensas, que culminaram com o abandono do serviço, em 1827. Cochrane tinha cansado de esperar pelo pagamento combinado com o governo brasileiro. Já o marquês manteve-se em serviço ininterrupto desde 1821, quando se alistou como aprendiz-marinheiro, tendo chegado ao posto de vice-almirante (posto máximo, na Marinha Imperial). Em 1889, já bastante idoso, retirou-se do serviço público sem renegar a República, e principalmente, mantendo distância dos oficiais que, em 1891 e 1893, promoveram um enorme motim na esquadra e na Escola Naval, contra o governo de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Essas revoltas também entraram na tradição da Marinha, que, a partir delas, passou a se ver como apolítica e defensora das instituições. O fato é que a segunda revolta arrasou parte do Rio de Janeiro e acabou provocando a intervenção estrangeira em assuntos brasileiros: Floriano, sem condições de opor resistência eficaz contra os canhões da esquadra amotinada, negociou o apoio de navios de guerra estrangeiros surtos na baía de Guanabara.  Tamandaré, assim, apresentava as qualidades que a Marinha buscava como suas: profissionalismo e neutralidade política. Em 1948, no dia de seu nascimento – 13 de dezembro – passou a ser comemorado como “dia do marinheiro”.

Por outro lado, a parte as “disputas da memória”, a Marinha Brasileira comemora, (como todas as outras marinhas), suas tradições,  batizando os navios com os nomes de eventos da República (os nomes dos Estados da federação ou acidentes geográficos notáveis), eventos importantes da força (nomes de batalhas) e vultos memoráveis (comandantes destacados e heróis). Assim, os navios se tornam um tipo de monumento, no qual as gerações do presente homenageiam seus marcos e seus antecessores. É curioso, entretanto, que as tais “batalhas pela memória” se travam mesmo nesse campo. No final dos anos 1960, quando a Marinha decidiu adquirir, na Alemanha, quatro navios-varredores de minas (NV) classe Schütze (aqui denominada “classe Aratu“), houve quem discordasse que um deles recebesse o nome de “Anhatomirim”. Explica-se: essa classe de navios costuma receber nomes de acidentes geográficos notáveis pela grandeza ou por estarem ligados a eventos navais. Acontece que, em Anhatomirim, ilha situada na baía de Santa Catarina), foi afundado, em 1894, por um torpedo o encouraçado Aquidabã (um excelente artigo sobre o assunto, aqui), um dos últimos eventos da Revolta da Armada. O tiro torpédico que inutilizou o encouraçado foi o primeiro realizado com sucesso em operação de combate, no mundo; foi aquele que demonstrou a viabilidade do torpedo automóvel como arma naval; durante muitos anos, foi o único evento brasileiro citado nos cursos de história naval da Academia Naval dos EUA. Por outro lado, o evento de Anhatomirim demonstrou certa incompetência por parte dos “nobres oficiais” comandados pelo almirante Saldanha. Pior: foi uma vitória indiscutível da “esquadra legal” comandada pelo “detestável” almirante Gonçalves, único oficial que se apresentou para comandar os navios de Floriano Peixoto. Deu para entender a implicância? Outro caso:  em 1994, quando foram completados entendimentos para a aquisição na Inglaterra, de fragatas tipo 22/1 pela Marinha Brasileira, o então ministro resolveu batizar duas delas com os nomes de “Rademaker” e “Bosísio”. Augusto Haman Rademaker Grünewald é mais conhecido – trata-se de um personagem ligado a triste memória do golpe militar de 1964. Paulo Bosísio é mais conhecido dentro da própria Marinha: trata-se do ministro que, em 1965, atendeu ao chamado do general Castello Branco para conduzir o desfecho da séria crise da Aviação Naval, que quase provocou um cisma dentro das forças armadas (um artigo sobre esse episódio bizarro, aqui). É interessante que a escolha dos nomes dos novos navios, que no caso da MB, seriam os principais meios flutuantes , incorporassem nomes de duas figuras de legitimidade duvidosa. Os dois estariam ao lado do aspirante Greenhalg, herói da Guerra do Paraguai, e do vice-almirante Jorge Dodsworth Martins, ministro da Marinha do governo interino de José Linhares e primeiro ocupante da pasta no governo Dutra (1946). Ainda que sem muito brilho, Dodsworth Martins parece ser considerado como paladino naval da transição democrática de 1946 – uma transição em que as forças armadas tiveram papel destacado (derrubaram Getúlio e foram fiadoras do processo político). Pois então temos um mártir da defesa da integridade do território, um fiador da liberdade,  um almirante que conduziu a marinha na “luta pela liberdade contra o comunismo”, e um oficial que soube colocar-se ao lado de seu chefe, na melhor tradição da Marinha. É possível ver nessa lista de nomes, a forma como a Marinha Brasileira vê a si mesma, ainda que essa visão seja para os civis, um tanto embaçada::

Um rapaz da Forças Especiais::Luís Alves de Lima e Silva::

Precisa dizer mais?

Não, mas digamos assim mesmo. O Duque de Caxias nasceu Luís Alves de Lima e Silva, em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, província do Rio de Janeiro (o lugar é hoje o pouco conhecido Parque Histórico Duque de Caxias, no município de Duque de Caxias). De uma linhagem de militares, seu pai, marechal-de-campo Francisco de Lima e Silva foi figura muito ligada ao Primeiro Reinado. Em 1808 o pequeno Luis Alves foi titulado Cadete de 1ª Classe – tinha então 5 anos de idade. Na época, isso não era nada de tão extraordinário, mas apenas uma forma da nobreza garantir vaga na carreira militar. O fato entrou para uma espécie de mirabilia militaris do futuro duque, forma de dizer – “nasceu para o exército”. Aos quinze anos, matriculou-se na Real Academia Militar, de onde saiu tenente, em 1821. Ao longo de sua carreira, mostrou-se tão hábil comandante militar quanto negociador político: participou ativamente das campanhas do Exército para pacificar a província do Maranhão, da qual foi presidente; em 1842 foi enviado com tropas do Império para as rebeladas província de São Paulo e de Minas Gerais, envolvidas na “Revolução Liberal”; foi chamado para pacificar a Região Sul do país, incendiada pela Revolta Farroupilha, a “Guerra dos Farrapos”. Em todos essas missões, mostrou-se negociador político sensato e sagaz: não humilhava os vencidos, visando sempre a conciliação, tendo em vista a unidade da formação política em construção, o Império do Brasil. Mas também era competente líder militar, que não hesitava em se colocar à frente de seus homens, como na batalha da Ponte de Itororó, em 6 de dezembro de 1868: “sigam-me os que forem brasileiros!”. Segundo Affonso de Carvalho, “…toda aquela massa que há pouco amolecera e se desfibrara sob a ação do pânico, readquire de súbito sua vitalidade e poder combativo…”; já Dionísio Cerqueira aponta: “…houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante…”. É claro, são exageros literários, mas a atitude de Caxias, que não era rara entre os militares de sua época, em todo o mundo, expressa a dedicação desses homens à carreira militar. Poderíamos falar muito sobre seu período no comando do exército em campanha no Paraguai, mas o talento do duque pode ser facilmente constatado em muitos livros e milhares de entradas na Internet.

Em sua homenagem, o dia de seu nascimento, 25 de agosto, passou a ser a data oficial do Dia do Soldado. Foi de Vargas a iniciativa de elevar Caxias à patrono do Exército, e colocá-lo a repousar, definitivamente, diante do quartel maior da força terrestre, desde sempre: o campo de Santana, no Rio de Janeiro. O fato é que a escolha foi tardia, e foi política, numa época em que Vargas procurava mobilizar símbolos da nacionalidade, e encontrou no duque uma expressão da unidade nacional. Até então, o “patrono informal de todos os soldados” era o marquês do Herval, Manuel Luís Osório, exemplo de soldado de carreira, cavalariano, homem do povo e liberal por profunda convicção. Caxias sempre foi homem do establishment conservador, último pilar do Império do Brasil, ao qual serviu dedicadamente por mais de 50 anos. Mas essa é outra história, e não denigre em nada a trajetória do marechal.

O visconde de Taunay,  major-engenheiro militar, autor do clássico “A Retirada da Laguna” descreveu os funerais do velho marechal, em 1880: “Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”.

O sociólogo Gilberto Freyre, tendo tido sua atenção chamada para o termo “caxias”, usado tanto por militares quanto por civis para definir alguém que não tergiversa diante de seus deveres, escreveu, sobre o assunto: “Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.” O jornalista Barbosa Lima Sobrinho encontrou no duque um  “Patrono da Anistia”, em função da sensibilidade política do marechal. O povo brasileiro ainda hoje continua usando a expressão no mesmo sentido analisado por Freyre. Uma coisa é certa: precisamos de mais “caxias” neste país::

Um rapaz das Forças Especiais às Terças::Alferes Pio Correia da Rocha, 1866

Alferes (segundo-tenente) de infantaria (o sabre distingue um oficial dessa arma) do 7° Batalhão de Voluntários da Pátria Pio Corrêa da Rocha, de Araraquara, na província de São Paulo. O alferes Pio morreu aos 22 anos, possivelmente em decorrência de ferimentos de combate sofridos na batalha de Curupaiti, em junho de 1866 (leia a história completa da batalha aqui, e a de Pio, aqui). Não se conhece maiores informações sobre a breve carreira militar do alferes Pio, apenas que teria sido um voluntário disciplinado, foi promovido a primeiro-tenente por merecimento e era portador de condecorações. O alferes é hoje nome de uma rua em São Paulo, e a cidade de Araraquara tenta preservar sua memória. Existem muitos monumentos à memória de generais, mas, até onde saiba esse redator, nenhum homenageia o soldado sem sepultura, pois, depois da guerra, o Império do Brasil não se importou em identificar cemiterios de campanha. Em Campos dos Goitacazes (RJ), desde 1947, o capitão de Voluntários da Pátria Manuel Teodoro Batista, morto em 1866 em um hospital de Buenos Aires, por ferimentos sofridos na Batalha de Tuiuti, descansa em um dos ângulos do “Monumento ao Soldado Brasileiro”; em Monte Alegre de Minas encontra-se o único cemitério identificado onde repousam mortos da Guerra do Paraguai; em Barra dos Bugres (MS), um monumento lembra os mortos sem rosto daqueles seis anos memoráveis.  Quem conhecer algum outro, manifeste-se…::