Já com vistas ao aniversário, um sistema de armas revisitado::Flak 36 “acht-acht” e suas variantes::

Ultimamente a imprensa só tem falado, em termos de “datas importantes, sobre 2014 e 2016. Nem vou dizer o que significam estas datas. Mas vou acrescentar que, em 2014, completam-se 150 anos de um evento que, pelo menos para mim (e, suponho, para as duas dúzias de assíduos do blogue das boas causas), tem muito maior significado. Não vou dizer qual, mas dou uma dica: a data correta é dezembro de 1864. Em 2015, por outro lado, fecham-se 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não sei se as datas serão lembradas embora tenha certeza que nos meios militares e acadêmicos, certamente acontecerão eventos comemorativos, que envolverão rememoração e análise. A questão, para mim, é se a sociedade lembrará desses fatos com a intensidade que deveria.

De toda forma, tenho dedicado parte de meu tempo a recolher dados visando, quem sabe, um livro sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Existem excelentes histórias da guerra, e atualmente tenho observado, em nosso país, um saudável interesse pela questão talvez empurrado pela emergência do Brasil na cena internacional, bem como pela consolidação, no meio acadêmico e científico, dos estudos de “relações internacionais”. O fato é que notei, anos atrás, que nenhum acadêmico, militar ou não, se interessou por abordar o tema. Vamos ver no que dá. Não sei se terei pernas para dar tal salto, mas, quando comecei a levantar material bruto, reparei que quase quarenta por cento do material publicado em causa:: diz respeito à “guerra mundial”. E, livro ou não, continuará sendo assim. E, mais ainda: o material publicado aqui tem, em alguns momentos, absoluta  originalidade, no que diz respeito aos temas, no âmbito da língua portuguesa “brasileira”. Não é novidade, dado o pouco interesse que o meio científico manifesta pelo assunto, no geral.

Quando comecei a fazer a estatística citada acima, encontrei alguns artigos que se remetem a temas que poderiam ser chamados “de domínio público” – já que quase todo mundo, do sexo masculino, pelo menos, acha que entende de guerra em geral e da Segunda Guerra, em particular. causa:: já abordou o capacete alemão, a submetralhadora ERMA e o tanque “Tigre”. Por motivos que têm relação com a propaganda aliada durante e depois da guerra, essas peças de equipamento são, ainda hoje, ícones da 2ª GM: toda vez que alguém põe os olhos ou ouve falar de uma delas, lembra imediatamente dos nazistas. Mas existe outro ícone da 2ª GM, mais “técnico”, digamos assim: o canhão antiaéreo Krupp 8,8 cm, conhecido de todos os especialistas como “oitenta e oito”. É uma das peças de equipamento militar mais bem sucedidas da história, e foi responsável, em diversas ocasiões, pela superioridade, ainda que temporária alcançada pela Wehrmacht. Pois causa:: já publicou, anos atrás, um artigo sobre essa peça de artilharia. Como o artigo ainda me parece bastante completo (diria eu, uma das melhores pesquisas que já fiz para o blogue), resolvi que seria boa providência uma reedição, revista e ampliada. A “primeira edição”, datada de agosto de 2007 será mantida, devido as imagens, que não serão reproduzidas. A “segunda edição” terá duas partes: a “primeira”, como sempre, “revista e aumentada”, e uma extensão publicada, como “parte 2”, conforme a metodologia já conhecida de todos. E é muito possível que, dentro de alguns anos, os assíduos encontrem o texto todo nas páginas do tal livro – se é que ele irá virar realidade. Portanto, divirtam-se e torçam para que minhas pernas sejam tão fortes quanto imagino…::

parte1/2O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”( “oito-oito”, em alemão), e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870.

Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observar o movimento das tropas prussianas, e, no final da campanha, para levar autoridades para fora da cidade. Na época, os prussianos não dispunham (e nem ninguém mais) de canhões capazes de disparar para o alto, já que os reparos de campanha dificilmente conseguiam elevar mais de 15°. Também não existiam fusos capazes de atuar eficientemente contra alvos da densidade de um balão, embora os fusos de tempo pudessem ser adaptados para fazer o projétil estourar nas proximidades de um alvo aéreo. Mas este nem era o maior problema. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm, normalmente usada contra alvos levemente protegidos. Montada num reparo que perdeu as rodas e ganhou suportes cruciformes de madeira, teve o mecanismo de elevação modificado para permitir uma elevação de aproximadamente 60 graus. A coisa toda era montada numa carroça. Visto que o alcance do projétil não passada de 4000 metros, ainda por cima desenhado para uma trajetória quase tensa, a idéia era seguir o balão através de sua trajetória, até que o dito entrasse no alcance. O desempenho era pífio, dada a baixa cadência de tiro, mas o modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 1500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Nessa época foram introduzidos reparos capazes de receber tubos de 6,5 cm e 7,7 cm Krupp. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente antiaérea.

O desenvolvimento da aviação militar durante a Grande Guerra foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento antiaéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos adaptados para que permitir ampla elevação e maior estabilidade de tiro. Para aeronaves que voavam no máximo a 1000-1500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multimotores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a velocidades maiores que 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. O problema é que a munição disponível, desenhada para os canhões de “tiro rápido”, cuja velocidade de saída dificilmente ultrapassava 600 m/s, era ineficaz contra os novos tipos de alvos aéreos. Para manter o projétil em vôo estável num ângulo aberto com relação a zero (o tubo paralelo ao chão), era necessária maior velocidade de saída. Isto significava não apenas uma carga de propelente maior como também aerodinâmica aperfeiçoada – ou seja: desenhos totalmente novos. Em vista dessa nova situação, em 1916 as Usinas Krupp adaptaram um calibre naval já existente, 8,8 cm, produzindo um tubo mais longo e com novo tipo de alma raiada. O conjunto foi colocado numa plataforma com rodas, própria para ser rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos mantinham o conjunto em posição. A nova arma foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). A munição foi redesenhada, para funcionar bem em trajetórias de vôo muito abertas em relação ao solo. Durante a guerra, o 8,8 chegou a ser utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rühr, e alguns foram instalados em Berlim.

A guerra acabou antes que o novo canhão estivesse totalmente desenvolvido. Como o Tratado de Versalhes, de 1919 proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas antiaéreas, os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

A solução inventada para burlar o tratado de paz foi estabelecer um acordo com o governo da Suécia, que possibilitou as empresas alemãs utilizar instalações industriais suecas para desenvolver novos projetos de armas.

O intenso desenvolvido observado pela aviação militar durante o período entreguerras condicionou as requisições da Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra. Os estudos realizados pelas áreas especializadas concluíram que havia necessidade de uma artilharia antiaérea pesada. Nos anos 1920 começaram a aparecer aeronaves que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h alcançando um teto máximo de 6000 m. A velocidade de saída do projétil passou a ser crucial, para que a aceleração não fosse perdida muito rapidamente devido à força da gravidade. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors.

O desempenho do 7,5 foi considerado insatisfatório. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall. O calibre “oito-oito” da Krupp, com novo desenho, foi o vencedor. Essa nova munição tinha o projétil montado junto com o estojo, e pesava cerca de 9500 g, 2770 g no projétil de alto explosivo. A velocidade de boca inicial era de 785 m/s, e o desenho ogival alongado permitia um vôo estável até a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada como peça de artilharia de campanha, tinha alcance máximo de 8.000 m em trajetória tensa ou 14.800 m em trajetória elíptica aberta).

O sistema de armas criado em torno dessa munição foi denominado “Flak 18”, como forma de burlar as regras impostas pelo Tratado de Versalhes (o “F” mudado para Fliegende “equipamentos voadores”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”), e logo se revelou um sucesso. O tubo forjado em uma única peça, de 56 calibres ou seja, 4.938 cm de comprimento tinha o raiamento torcido para a direita, formado por 32 sulcos de profundidade decrescente, que aumentavam progressivamente o fechamento da hélice conforme aproximava-se a boca da arma, de modo a otimizar a pressão dos gases. A câmara, selada por bloco deslizante, de operação semi automática permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da volta do conjunto à posição. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação.

O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.

A construção e testes dos protótipos deu-se na Suécia, cercada de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. Logo foi notado que o desgaste do cano era muito mais rápido do que o esperado e não se dava por igual. O motivo era a rapidez da cadência de fogo, que tornava o desgaste maior na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade de saída combinada com a alta taxa de giro axial do projétil e com o escape dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência.  A fabricação em única peça, embora facilitasse o processo industrial, tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8,8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados entre 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas, de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão/reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia antiaérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, o passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria integrado a um centro de controle de fogo. Este sistema, em sua primeira versão era conhecido como Kommandogerät 36 (“aparelho de comando modelo 1936”). Tinha como centro um aparelho denominado como Voraussichter (“preditor”), operado por um especialista e formado por duas peças principais: um computador eletro mecânico analógico integrado a um telêmetro ótico estereoscópico chamado Entfernungsmessgerät, de uns 4 m de largura. Este era constituído por diversos conjuntos de lentes e espelhos graduados. Os operadores moviam uma série de chaves fazendo coincidir a imagem da aeronave inimiga com as diversas graduações observáveis nos visores, obtendo assim dados constituídos por velocidade aproximada, altitude, direção e posição da aeronave inimiga com relação à posição da bateria AAe. Os dados eram fornecidos a outro aparelho, chamado Kommandohilfsgerät 35 (numa tradução livre, “aparelho de apoio ao comando” modelo 1935). Este era o computador propriamente dito, de fato uma calculadora mecânica que compilava os dados e os enviava, via um comutador denominado Übertragung 30 (“transportador” modelo 1930) para um conjunto de lâmpadas situado na plataforma das peças que constituíam a bateria (até quatro Flak 36). Acesas as lâmpadas, o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes as cobrissem. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou inicialmente insatisfatório, e, em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo preditor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Em 1937 esse novo sistema de controle de fogo foi introduzido experimentalmente, e a peça de artilharia assim adaptada foi denominada “Flak 37”. Este sistema começou a ser distribuído em 1938-1939, e constituiu o Kommandogerät 40, que também recebeu um telêmetro aperfeiçoado. Revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa antiaérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre. O sistema do canhão era projetado para ser rebocado por diversos tipos de veículos, sendo os mais comuns o caminhão Opel de 3,6 t Blitz e o meia lagarta Sd.Kfz. 7. Também foram feitas tentativas de transformar a peça em automóvel, instalando um conjunto tipo Flak 37, chamado provisoriamente de Flak 37 Selbstfahrlafette auf 18 ton Zugkraftwagen. O sistema, projetado em 1940, visava prover unidades motorizadas de proteção antiaérea em campanha, mas revelou-se muito canhestro, e acabou sendo suspenso.

A partir de 1935, com a reorganização das forças armadas alemãs, a defesa antiaérea do Reich passou a ser controlada pela nova Luftwaffe,sugestão encaminhada pelo então general Kesselring.   Em 1938, o braço antiaéreo da the Luftwaffe empregava 6700 canhões leves, para defesa de baixo nível (2 cm e 3,7 cm) e uns 2700 canhões pesados, dentre os quais a maioria eram “oito-oito”. Uns poucos eram Flak 38 e 39, de 10,5 cm. Este era um canhão antiaéreo projetado para uso naval, que o complicado sistema de planejamento industrial nazista tentou “empurrar” para as forças armadas. Como se revelou muito pesado e canhestro para uso em campanha, acabou tendo uns duzentos exemplares instalados em posições fixas.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. Ou seja – era capaz de estourar qualquer coisa em qualquer frente::

A batalha do Rio de Janeiro::A segunda batalha de Itararé e a estrela do show::

Todos os veículos militares sobre esteiras de tração têm um antepassado comum, o *trator de esteiras Holt, fabricado pela empresa norte-americana Caterpillar Tractor Company, a partir do finalzinho do século 19. A idéia de instalar esteiras em veículos motorizados como forma de facilitar o deslocamento deles nas condições extremamente adversas das trincheiras resultou em rebocadores de artilharia, veículos de transporte e tanques. No período entreguerras algumas experiências foram feitas com veículos sobre esteiras, na URSS, Alemanha e EUA. Essas experiências resultaram, particularmente na Alemanha e nos EUA, em viaturas de transporte de pessoal extremamente eficientes.

A vantagem de qualquer veículo de esteiras sobre seus equivalente com rodas é a distribuição da pressão exercida devido à descarga do peso do veículo sobre o solo. Um veículo com esteiras de tração é mais estável do que um sobre rodas, pois elementos como a distância do veículo com relação ao chão e o desenho da suspensão fazem com que o centro de gravidade do carro, durante o deslocamento, varie menos. Mas as esteiras também resultam em desvantagens. A maior área de contato provoca a mudança do regime de torque, ou seja, da transmissão da potência do motor para o chão. Todos sabemos que veículos sobre pneumáticos são mais velozes, e é exatamente em função do menor coeficiente de atrito com o solo (este opõe resistência ao avanço do veículo – quanto maior a área de contato, maior a resistência). Este coeficiente de atrito acaba determinando a potência do motor e o consumo de combustível que, num veículo sobre esteira, acaba sendo muito mais alto do que num veículo sobre pneumáticos.

Outro problema notável é que, nos veículos sobre esteiras de tração, a dirigibilidade depende diretamente da transmissão. Em geral, é adotado um sistema em que uma caixa de marchas especial modifica o regime de giros do eixo das *rodas tratoras (as roda ligadas ao motor), fazendo com que um dos conjuntos de esteiras se mova mais rápido do que o outro. Isso acaba fazendo com que o sistema todo seja relativamente frágil e quebre com certa facilidade. Na 2ª GM, os complicados sistemas de transmissão adotados nos veículos sobre esteiras, notadamente nos carros de combate, foi fonte de muita dor-de-cabeça para combatentes e equipes mecânicas. Por sinal, é até hoje: um carro de combate com a caixa de marchas quebrada ou as *esteiras rompidas (o que frequentemente resulta do esforço mecânico das constantes alterações de giro) tem quase a mesma funcionalidadde de uma prancha de surf debaixo da cama.

Este foi um dos motivos da adoção, imediatamente antes da guerra, de viaturas meia-lagarta. Os “meia-lagarta” resolviam esse problema adotando rodas de direção não-tracionadas, com um sistema de direção de um veículo motorizado comum: um parafuso sem-fim ligado a um volante, e uma caixa de marchas padrão, de três ou quatro velocidades. O menor peso do conjunto criava a possibilidade de usar nesses veículos motores menos possantes e muito mais econômicos, além de torná-los mais fáceis de operar, visto que a direção era semelhante a de um caminhão. Isso os tornava ideais para certas tarefas, como  transportar tropas, a chamada “infantaria blindada”.

Ainda durante a guerra, alemães e norte-americanos pensaram na introdução de veículos de transporte de tropas totalmente sobre esteiras. Os projetos alemães não chegaram a sair dos estágios iniciais; os norte-americanos examinaram um protótipo baseado no chassi do caça-tanques M18 “Hellcat”, de notação *M44. O problema é que o projeto exigia um grande dispêndio de materiais, já que o casco, suspensão, motorização e transmissão eram basicamente os mesmos do blindado. Acabou sendo deixado em “banho-maria”. Terminada a guerra, os EUA continuaram a estudar veículos blindados sobre esteiras de tração destinados ao transporte de infantaria, embora os “meia-lagarta” *M3 continuassem a ser considerados adequados para a função e estivessem disponíveis em grandes números.

No início dos anos 1950, a experiência da Guerra da Coréia provocou um reexame profundo na doutrina norte-americana de guerra de movimento. Os norte-coreanos utilizavam a mesma doutrina soviética, que dividia a infantaria em três categorias: infantaria a pé, infantaria “motorizada” (transportada em caminhões não protegidos) e infantaria “montada”, ou seja, transportada no dorso de tanques T34/85. Essa infantaria, em diversas oportunidades conseguiu, em ações combinadas com os blindados, superar tropas norte-americanas teoricamente superiores em números e armamentos. Era transportada até próximo da zona de combate em cima dos blindados, desmontava pouco antes de alcançar a área de operação e daí delocava-se a pé, protegida pelo massa dos tanques. Os norte-americanos começaram, então, a estudar novos tipos de blindados, melhor armados e protegidos. O Sherman estava fora: mostrou-se pateticamente frágil diante da artilharia dos blindados de fabricação soviética; a família “Patton”, inaugurada em 1948 com o *M46 era superior ao T34/85, em alguns aspectos, mas apresentava alguns problemas mecânicos e um canhão considerado ineficiente. Outro modelo que surgiria desses estudos foi o *M41 “Walker”, que pode ser classificado como “tanque de cavalaria”, destinado a prover proteção de flanco para unidades mais pesadas; o M47 “Patton” (de fato, um M46 com nova torre) foi considerado capaz de superar os tanques soviéticos encontrados na Coréia. Também foram pedidos estudos em torno de um veículo que pudesse prover apoio aproximado de infantaria.

Os estudos desenvolvidos desde a 2ª GM foram retomados. O primeiro veículo a ser proposto foi o *M75, projetado pela fábrica de tratores International Harvester. Essa máquina utilizava a mesma plataforma mecânica do tanque M41, com pequenas mudanças na suspensão. A motorização era a mesma: um motor Continental a gasolina, considerado relativamente frágil em condições de uso. O M75 chegou a ser empregado nos últimos estágios da Guerra da Coréia, e o ponto que despertou maior polêmica foi o desenho: os engenheiros, seguindo indicações dos militares, projetaram um habitáculo em forma de caixa e uma grande porta dupla traseira, que permitia que os 13 infantes transportados desembarcassem muito rapidamente, mas dava ao veículo uma silhueta excessivamente alta. Entretanto, o maior problema do M75 era mesmo o preço, considerado muito alto pelo Exército dos EUA. Em 1954, a empresa FMC (Food Machinery and Chemicals Inc.), que havia recebido a encomenda de 1000 M75, a pedido do Exército apresentou o projeto de uma versão menor do veículo. Este mantinha basicamente o mesmo desenho do M75, mas em tamanho ligeiramente menor, pois os engenheiros da FMC diminuíram o comprimento da máquina e aumentaram-lhe a largura. A altura foi também ligeiramente diminuída, pois foi considerado que o *rápido desembarque não era prejudicado caso os infantes embarcados ficassem levemente encurvados, ao deixarem seus assentos. Sendo feito em placas de aço laminado, encaixadas por solda, teve seu peso consideravelmente diminuído, permitiu alterações na suspensão e o uso de dois motores GMC de caminhão, o que diminuiu notavelmente o consumo sem comprometer o desempenho. A diminuição do peso e o aumento da largura também permitiram que a máquina adquirisse capacidade anfíbia, que a anterior não tinha. O sistema de direção consiste em um diferencial conectado diretamente à transmissão, e o motorista o aciona através de um par de alavancas cada uma controlando uma das seções de esteiras de tração. O veículo não tinha armamento próprio, e era, em sua versão básica, equipado apenas com uma metralhadora pesada calibre 12,7mm (a tal “ponto cinqüenta” de que a imprensa vive falando), destinada à autodefesa. Recebeu a notação M59 e surgiu no final da década de 1950.

Esse novo APC (de Armored Personnel Carrier) permaneceu em produção até o final dos anos 1960, e quase 7000 unidades foram fabricadas (o Exército Brasileiro recebeu alguns exemplares, a partir de 1962). Apesar das melhorias, ainda era considerado excessivamente pesado para, por exemplo, ser transportado em aeronaves. Esta era a principal reclamação do Exército dos EUA, e daí, a FMC começou, com base no desenho do M59, a experimentar o uso de chapas de alumínio de alta densidade, que poderiam ter quase a mesma dureza do aço, com peso razoavelmente menor. O menor peso traria diversas vantagens. O desempenho aumentaria, sem aumentar o consumo de combustível (gasolina de alta octanagem, na base de 4 litros por quilômetro rodado); também possibilitaria que a máquina fosse transportada em aeronaves cargueiras C130, a razão de dois por aeronave, e até mesmo ser lançada de pára-quedas; aumentaria a capacidade anfíbia, facilitando o deslocamento em teatros de operações com muitos rios ou pantanosos. O novo veículo teria certa capacidade NBC (em inglês, acrônimo de nuclear-biológica-química) e deveria ser adequado ao campo de batalha europeu, mas adaptável a outros teatros. Resultou desse estudo o conceito ACAV (Armored Calvary Assault Vehicle, em inglês). O veículo que correspondeu ao conceito é o *M113.  

Sua produção inicial começou em 1960, na fábrica da FMC na Califórnia. Distribuída ao Exército e Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, a nova VBTP (“Viatura Blindada de Transporte de Pessoal”, nomenclatura do Exército Brasileiro) também foi entregue a países aliados da OTAN. A viatura tornou-se a base de uma linha conhecida como FOV (Family of Vehicles), série de especificações sobre a plataforma M113, que inclui as versões aperfeiçoadas. Em 1964, a experiência de campo, nos EUA e países aliados serviu para fazer surgir a primeira, o M113A1, que tinha como principal modificação foi a troca do motor a gasolina por um diesel. Essa mudança melhorou o alcance sem comprometer notavelmente o desempenho. Em 1976, surgiu o M113A2 e, em meados dos anos 1980, o M113A3, versão com mecânica muito modificada. Todas as versões incluiam viaturas-postos de comando (com parte elétrica modificada para receber aparelhagem de radio e outros equipamentos de comunicação e controle); veículos de recuperação e manutenção (com modificações na transmissão e na suspensão, pela permitir inclusive reboque de viaturas iguais, danificadas); viaturas para tansporte de cargas; viaturas transportadoras de equipamento gerador de fumaça; diversos tipos de transportadores de morteiro (81 mm e 120 mm); posteriormente foram também adaptados M113 transpordadores de metralhadoras giratórias XM134  *Minigun 7.62 mm (bastante usados no Vietnam), M741 Vulcan (viatura de defesa anti-aérea de ponto) e carregadores de diversos tipos de mísseis.

De fato, a plataforma original baseou, desde seu lançamento, mais de 40 variantes, com milhares de pequenas modificações. Muitas dessas modificações foram desenvolvidas por usuários estrangeiros do M113, baseadas em requerimentos militares. Alguns são, de fato, sistemas inteiramente novos, que mantém o desenho da viatura original.   

Desde 1960 foram fabricados mais de 80.000 M113, e a produção da FOV está longe de terminar. Novas unidades ainda são produzidas na Inglaterra, pela BAE Systems (um bom site sobre a viatura, em inglês, é mantido pela BAE), e pacotes de modificação das existentes são usados para modernizer as configurações já em serviço.

O veículo levanta opiniões divergentes nos usuários. Embora seja considerado simples de operar, bastante resistente e fácil d reparar, é considerado frágil em combate. Usado em grandes números na Guerra do Vietnam, são comuns as fotografias em que os infantes *viajam no teto do veículo. Tanto os GIs quanto seus aliados *preferiam essa posição pois além da blindagem não resistir a nada maior do que um projétil 7.62 mm, uma mina anticarro média rompia facilmente o fundo do veículo; além do mais, o rompimento de um dos conjuntos de esteiras de tração deixava a viatura totalmente inoperante e altamente vulnerável. Segundo a experiência dos operadores, num caso desses, o melhor que a tripulação e o grupo de combate poderiam fazer era sair de perto o mais rápido possível, pois a viatura se incendiava com enorme facilidade. Como se essa fragilidade toda não fosse suficientemente ruim, o interior do habitáculo era considerado muito quente, ficava cheio de gases de combustível e nem todas as versões dispunham de ar-condicionado. Mesmo assim, entre 1964 e 1972, os EUA chegaram a manter cerca de 2000 VBTP M113 naquele teatro. Eram – como ainda são – os principais elementos da cavalaria mecanizada do Exército dos EUA.

Originalmente, os M113 foram pensados como transportadores de esquadra de infantaria. No final dos anos 1950, a doutrina estabelecia que a infantaria motorizada deveria desembarcar um pouco antes do ponto focal e alcançá-lo a pé. Logo ficou evidente que a mobilidade do sistema mecânico quando combinada à potência da metralhadora orgânica Browning de 12,7 mm, poderia ser um valioso elemento de choque adicional para a esquadra de infantaria. Essa observação, baseada na experiência de campo obtida no Vietnam, modificou a doutrina: os infantes passaram a ser lançados diretamente no ponto focal.

Embora os veículos da categoria VBTP estejam sendo discutidos em função das novas doutrinas de guerra de movimento, que exigem veículos de esteiras e de rodas bastante velozes (os ingleses falam em velocidades de até 110 km/h como ideais), capazes de transporter mais carga, seja em termos de pessoal ou material, e dotados de maior proteção, não existe ainda um veículo capaz de substituir, a curto prazo, as enormes quantidades de M113 existentes no mundo. No início dos anos 1980, o governo norte-americano tinha projetos de substituir rapidamente essas máquinas pela VBTP *Bradley, dentro de um projeto de reequipamento mais amplo. Só que o M1 revelou-se caro, frágil, de mecânica complexa. Parece que a versão M113A3 tem ainda muito futuro pela frente::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

 parte2/2Falávamos da “aceleração da história”, e o redator:: está tentando argumentar que a 2ª GM teria sido a culminância de um processo desses, característico da modernidade. Claro que, produzidos por um historiador amador, os argumentos parecerão capengas, mas pelo menos devem ser suficientes para mostrar como a sociedade alemã que produziu Hitler e seus comparsas foi a mesma formação conservadora que optou, sessenta anos antes, por um processo de unificação que desse à nova nação a cara organizada, burocrática e militarista da Prússia.

Outros sessenta anos antes, o período em que os exércitos franceses levaram a transformação social na ponta de seus estandartes e baionetas, talvez possa ser identificado como outro processo de “aceleração da história”. Embora tivesse mitigado as transformações revolucionárias na França, Napoleão contribuiu para abalar as estruturas tradicionais por toda a Europa. Apesar do conservadorismo, tradicional nos estados da região hoje chamada de “Alemanha”, as idéias liberais introduzidas lá durante a guerra pegaram. Baseada na difusão de pequenas manufaturas e companhias de comércio, certas regiões viram a formação de forte classe empresarialque influenciou o resto da região reivindicando reformas de caráter econômico e administrativo – por exemplo, unificação de padrões de medida e eliminação de restrições à circulação. Essa gente, quando teve de procurar aliados, buscou a burocracia do estado, formada por membros da empobrecida aristocracia rural e (nos extratos mais baixos) por homens de letras, professores e advogados.

A Prússia, desde o final do século 18 vinha passando por forte industrialização, baseada em certos ramos da indústria pesada. Tinha, junto com a região do Reno (também em processo acelerado de mudança econômica), interesse nessas reformas. Só não queria (de fato, seus governantes tinham arrepios diante de tal perspectiva) que elas saíssem do controle da elite política: uma coisa era fazer mudanças no regime de aduanas; outra, muito diferente, era liberalizar o regime de propriedade de terras (lá, o feudalismo só foi abolido de vez em 1900) ou de acesso e progressão no serviço público. Por outro lado, as lideranças empresariais viam na rigidez política uma vantagem, já que a unidade de princípios no governo aumentava a eficiência e prevenia que as reivindicações por mudanças políticas acabassem se desdobrando em demandas por mudanças sociais (um artigo sobre o tema aqui). Curiosamente, ambos os lados – liberais e conservadores – viam na unificação a solução para a fraqueza crônica da região, pela qual tinham desfilado, quase sem oposição, os exércitos franceses do período revolucionário. Entretanto, as diferenças políticas não eram pequenas e eram de difícil conciliação. No ano de 1848, o caldeirão ferveu: diversos Estados alemães viram estourar revoltas civis.

No início, as manifestações juntaram vários segmentos políticos num movimento por um parlamento nacional eleito, que elaborasse a constituição de uma Alemanha unificada. Uma Assembléia Nacional de deputados eleitos em todo o território germânico – o Deutscher Bund – se reuniu para a elaboração da nova constituição nacional. Parte da assembléia defendia uma união que incluísse a Áustria, enquanto outra parte defendia a liderança prussiana e a exclusão da Áustria. A solução encontrada foi entregar o governo aos Hohenzollern (a dinastia prussiana). O problema é que o rei Frederico Guilherme IV não aceitou, nem a Coroa nem a constituição, mesma atitude da casa da Áustria. A carta magna proposta teve o condão de desagradar todo mundo, inclusive a sociedade, que pretendia ver diminuído o poder da nobreza, como na França e Inglaterra. A violenta repressão ao movimento popular acabou por suspender as reformas políticas.

A Revolução de 1848 apontou o caminho que passou a ser visto como mais viável: a unificação alemã liderada pela Prússia e pelos Hohenzollern. A violência dos conflitos de rua e a agitação nas cidades acabou por aumentar a desconfiança das classes empresariais e da classe média urbana, que passaram a ver os ativistas liberais e o operariado como politicamente inconfiáveis. 

E nem todos viam a unificação com simpatia. Aristocratas dos pequenos estados anteviam seus interesses facilmente postos de lado, numa Alemanha unificada; a Áustria, predominantemente católica, temia ver sua predominância no sul da Alemanha questionada. A Prússia não via a Áustria com simpatia, pois esta tinha um peso político inegável, além de economia relativamente próspera. Além do mais, Viena era cabeça de um império multinacional e multi-étnico, onde a língua oficial podia ser o alemão, mas tinham peso grupos culturalmente diversos, que certamente não caberiam numa formação política que via na língua e na cultura mais-ou-menos uniformes sua identidade (um excelente artigo – um  tanto longo – sobre o tema aqui).

Por esses motivos a unificação alemã sob a regência dos prussianos não era projeto sem problemas, mesmo que tal formato fosse visto como mais-ou-menos natural: por volta de 1850, a Prússia, potência militar, superou economicamente a Áustria. A liderança política veio em 1862, com a ascensão ao trono de Guilherme I. O novo rei era também especialista em questões militares, e logo promoveu uma reforma nas forças armadas prussianas, particularmente no Exército Real (Königsheer) – o país tornou-se a principal potência militar centro-européia. Os industriais foram convocados a desenvolver uma forte indústria de armamentos, que se destacou na Europa e  abriu uma tradição de suporte do Estado às indústrias militares e de máquinas.

O projeto conservador de unificação foi de fato coordenado por Otto von Bismarck, ex-embaixador na Rússia e na França, nomeado kanzeller (primeiro-ministro) pelo rei no dia seguinte à coroação. Membro da aristocracia rural alemã favorável a uma monarquia forte, Bismarck sabia muito bem que a aliança com a nobreza rural (junkers), era o esteio da monarquia. Por outro lado, percebeu que a grande burguesia industrial não podia ser ignorada. Assim sua política era bipolar: internamente, apoiou a posição da nobreza rural, garantindo-lhes as prebendas – acesso automático ao Exército e ao funcionalismo público; externamente, implementou os interesses da classe empresarial, por fortalecer a união das aduanas, forma segura e já consolidada de integrar os Estados alemães. O kanzeller também estendeu as reformas militares, além oferecer os métodos prussianos a outros Estados. Exacerbando o sentimento nacionalista, reuniu os Estados contra inimigos externos, em três rápidas guerras, decisivas para consolidar a unificação: A Guerra dos Ducados (1864), contra  Dinamarca, a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Bismarck e seu principal assessor militar, o ministro von Möltke (ainda hoje considerado um dos grandes pensadores militares do século 19) promoviam uma estratégia geral de dividir o adversário através de movimentos amplos que buscavam pressioná-los pelos flancos (manobra conhecida como “desbordamento”). Esses procedimentos mostravam grande compreensão, por parte dos prussianos, do espírito da guerra moderna.

É interessante observar que, estruturalmente, as reformas militares de 1862-63 reforçaram a posição da nobreza rural prussiana. Esta comandava camponeses mobilizados na Prússia Oriental, na Silésia e no Brandenburgo. Depois da unificação parte considerável do efetivo passou a ser convocada na Baviera e no Würtemberg, mas o grosso da oficialidade de carreira, assim como o Estado-Maior Geral (de onde saía o comandando do exército), continuou a ser majoritariamente prussiana. Após a unificação, a Prússia – agora 2° Reich -, engajou-se na corrida imperialista, em grande desvantagem para a Inglaterra e a França, e até mesmo para a Itália. O controle de colônias era visto como condição sine-quae-non para a continuidade da expansão capitalista (esse processo foi descrito, de forma magistral, por Lenin, no opúsculo Imperialismo, fase superior do capitalismo) e a guerra imperialista é a resposta para tal impasse, conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, a dos monopólios e domínio do capital financeiro (mais sobre o tema aqui).

Esta guerra foi a 1a GM, que o Império Alemão lutou com a estrutura organizativa e administrativa prussiana, principalmente o Exército. O enorme esforço representado pelo conflito acabou forçando a estrutura política, depois de 1915, para um regime semelhante a uma ditadura militar. Nenhuma espécie de oposição ou obstáculo aos objetivos militares era tolerada. A coordenação geral era exercida por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa. A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, por volta de setembro de 1918, começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha (um excelente – e longo… – artigo sobre o tema aqui), por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustíveis. O Kaiser e a estrutura civil agiram rapidamente para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, e não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”.

Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança. O fim repentino da guerra – o armistício de novembro – e o  fato de que o exército não foi totalmente derrotado (de fato, a situação era de impasse estratégico) fizeram com que a Alemanha não chegasse a ser ocupada. A desmobilização imposta à Alemanha, que entregou seu armamento sem dissolver as forças armadas, acabou, de certa forma, preservando a estrutura militar. O período de agitação política inaugurado em 1919 acabou fazendo com que os aliados aceitassem que a repressão fosse conduzida pelos próprios alemães. Os exércitos privados que lutaram pelo controle das ruas, na década seguinte, se formaram nessa conjuntura, com base na estrutura dos “Corpos Francos”, unidades formadas por combatentes desmobilizados em 1918, mantidos juntos como tropas paramilitares.

Foi o caldo de cultura no qual se alastrou o radicalismo. As SA (Sturm Abteilugen – “Seções de Assalto”) tropa de rua do Partido Nacional-Socialista foram um dos muitos exércitos privados, reforçados, depois de 1929, pela crise geral. Esse período observou intensa disputa entre movimentos que, no panorama da instável democracia liberal, pretendiam mudar o Estado de modo revolucionário. Todos (inclusive os comunistas) pretendiam herdar a estrutura prussiana, embora quisessem se livrar da tradição prussiana. Ernst Röhm, radical militarista, um dos personagens mais interessantes da primeira fase do nazismo, era um desses divergentes. Tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante, com as SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Acabou assassinado em 1934 por seus comparsas.

No artigo acima (talvez um pouco longo…) vimos diversos exemplos da “aceleração da história”. Trata-se de um conceito decorrente de uma teoria – o “materialismo dialético”, tentativa de tornar científica a disciplina da história. O conjunto de fatores derivados de um determinado movimento histórico combinados, levam à sua superação (para uma introcução bastante completa, clique aqui). O materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo. Esse tipo de ativismo é bastante característico da “modernidade”: o homem se torna sujeito da ação.

Os nazistas pretendiam superar o que sua doutrina via como obstáculos estruturais da sociedade alemã, e assim acelerar a chegada a um objetivo de longo prazo – uma utopia.  Através do equilíbrio forçado e mesmo da eliminação, de contradições inerentes à formação histórica e organização política da Alemanha, visavam uma sociedade sem tensão, uma espécie de formigueiro no qual cada um sabia seu lugar e o futuro seria apenas algo a ser aguardado, e não uma incógnita decorrente do caos inerente à realidade objetiva (os pensadores iluministas já reclamavam disso). A aceleração desse processo seria buscada via rompimento institucional, mas contradições dificilmente são superadas dessa forma, pois a superação cria outras contradições, e acaba determinando a necessidade de novos movimentos de aceleração. O exemplo objetivo desse limite foi a mantenção da estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi o ponto de chegada de uma série de concessões aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção. O partido tornou-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado, e seus agentes passaram a dizer diretamente às classes empresariais o que fazer. Por outro lado, a estrutura de base continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (característica do serviço público alemão que Marx, muito tempo antes, já tinha percebido, quando ainda era estudante de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. Trata-se de uma espécie de “processo revolucionário pela metade”, mas ainda assim, a característica de rompimento era importante, tanto que os primeiros membros do movimento – Gregor e Otto Strasser, Enst Röhn, Viktor Lütze, se diziam revolucionários lutando contra a sociedade “burguesa”.  

Como não se pode esperar que todo mundo concorde conosco (outra característica inerente ao homem), a única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos óbvios. Essa instituição passou a ser diretamente subordinada aos governos das “Ländern” (algo como “províncias”, com certo grau de autonomia local – Himmler foi chefe de polícia da lande Prússia). Os nazistas esperavam mudar as estruturas do Estado a partir de uma posição interna, mas sem chegar a mudar as estruturas da sociedade alemã. Foi assim com o Exército: os nazistas não confiavam totalmente nos “aristocratas prussianos”, mas dependiam deles, inclusive para manter a disciplina. Mas, ao mesmo tempo que mantinham e ampliavam os privilégios dos militares, criavam uma estrutura paralela, a Waffen SS – apesar do nome e ter Himmler por comandante nominal , na prática separada da SS policial – que emulava a estrutura do exército. Não se pode afirmar que, com a vitória, essa estrutura acabasse por substituir o Exército tradicional. E nem se pode afirmar o contrário. Por sorte, podemos agora apenas especular:: 

Essa é uma indicação de que os nazistas tinham em mente uma espécie de revolução conservadora, baseada na reestruturação, sem modificações radicais, da sociedade e de suas instituições. Sua ascensão é evento característico da modernidade.  Talvez seja também o ápice da crise de uma modernidade que, como todos os processos humanos, surgiu cheia de defeitos, mas também teve algumas qualidades. E – na opinião do redator:: um tanto pessimista – como em todo processo humano, os defeitos prevaleceram sobre as qualidades…::

Coroação de Guilherme I Hohenzoller como Kaiser do Império da Alemanha em Versalhes (Paris, 1871). Último ato de uma curta guerra (contra os franceses) e de um longo processo. Alegenda em alemão diz "Nós levamos o reino prussiano para a cova". O tempo mostraria que nem tanto...

O mês da Guerra do Paraguai::Ainda temos alguma coisa a aprender com os gringos::

É razoável considerar que o Brasil não se mete em tantas guerras quanto os EUA e a URSS/Rússia, desde sempre, ou a Grã-Bretanha, no século passado e no anterior. Mas muitos de nossos compatriotas morreram em combate, ao longo de nossa história, e o único cemitério nacional que construímos foi o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. Tivemos mortos antes, e tivemos mortos depois. Eles mereceriam alguma homenagem. É muito bom que nossos principais combates, ao longo do século 20, tenham se dado em campos de futebol ao redor do mundo, mas também tivemos mortos em combate, desde então, a maioria deles na espúria “quase-guerra-civil” de 1964-1976. Reconciliações para esse tipo de episódio são sempre difíceis (vide as discordâncias perenes sobre a “Lei da Anistia” e a recente proposta da “Comissão da Verdade“). Mas não seria um ato de reconciliação simbólica sepultar os mortos de ambos os lados em um único cemitério nacional? Eram inimigos mas eram todos brasileiros. Estará o redator delirando? Possivelmente. Mas que seria um belo ato, lá isso seria….

Abaixo, algumas fotos de cemitérios nacionais nos EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França e Canadá. São tratados como monumentos de responsabilidade do governo dos respectivos países.

 

Cemitério Nacional de Arlington, Virgínia, o cemitério nacional dos EUA. A imagem mostra o “Dia da Recordação” (Memorial Day), um feriado nacional, por lá, no qual são lembrados os veteranos, vivos e mortos. É um dia de grandes paradas e visitas aos “cemitérios nacionais”, aos memoriais de guerra e aos museus militares. A Administração Nacional de Parques (National Park Service) é responsável pelo funcionamento de 14 cemitérios nacionais, no território norte-americano; a Administração Nacional de Veteranos (U.S. Department of Veteran Affairs), outros tantos.  

Cemitério Estadual dos Soldados, Mississipi. Soldados da União e dos Estados Confederados repousam lado a lado. Quem sabe não acabaram tendo tempo para resolver suas diferenças?.. Apesar de administrados pelos governos estaduais, muitos desses cemitérios são considerados monumentos nacionais – aqui, uma lista completa.

Memorial do Soldado Britânico em Atenas. Homenagem à memória de mais de 2500 militares britânicos mortos em combate nas operações realizadas em território grego na Segunda Guerra Mundial, mantido com fundos providos pelo governo da Grã-Bretanha. Dezenas de cemitérios de combate e memoriais são administrados pela Comissão de Sepulturas de Guerra da Comunidade Britânica, orgão multinacional sediado em Londres.

Cemitério Comunitário de Bailleul, França. Mais de 20.000 mortos de diversas nacionalidades, abatidos na batalha do Somme, na 1a Guerra Mundial.

Neepawa Riverside Cemetery, Ontário, Canadá. Soldados, aviadores e marinheiros canadenses mortos na 2a Guerra Mundial repousam ao lado de alguns de seus camaradas britânicos.

Corneteiro toca um dobrado fúnebre em homenagem aos soldados alemães que repousam em covas individuais no cemitério de Sologubovka, localidade próxima de São Petersburgo (antiga Leningrado). O monumento foi levantado pela Associação Alemã de Sepulturas de Guerra (Volksbund Deutsche Kriegsgräbefürsorge), organização civil federal dedicada a identificar sepultamentos de combate. Repousam lá os restos de cerca de 20.ooo combatentes alemães, metade deles identificados. A Associação espera que, no futuro, os restos de 80.000 combatentes alemães mortos na 2a Guerra Mundial sejam retirados de covas coletivas e sepultados individualmente. Ao contrário do que se imagina, os soviéticos, desde a época de Stalin, procuraram identificar e sepultar os militares estrangeiros mortos em combate em seu território. Existem atualmente 89 cemitérios militares lá, com cerca de 400.000 mortos, identificados ou não::

É um bom dia para pensar::

O historiador P. D. Smith escreveu um livro que foi recentemente traduzido para nosso português, e tem sido a leitura de cabeceira do redator nos últimos dois meses: Os homens do fim do mundo. Leitura um tanto pesada, mas esclarecedora aobre as relações entre guerra e ciência. E também sobre as relações quase sempre ambíguas dos cientistas com os assuntos da guerra e da política. Sugiro uma olhada cuidadosa não só aos sete leitores (contadinhos…), mas a todos quanto estejam realmentei interessados em entender um pouco mais sobre os nós de nossa modernidade. Em seguida, uma pequena amostra, selecionada de modo a também comemorar o fim da primeira matança industrial da história, que pudemos comemorar dois dias atrás – 11 de novembro, 1918::

Nenhum tiro foi disparado … um número considerável de russos envenenados pelo gás … jaziam deitados ou retorcidos, em condição lamentável. Senti-me profundamente envergonhado e perturbado. Afinal de contas, também sou culpado por essa tragédia. Otto Hahn, citado por P. D. Smith, p. 112.

Nunca esquecerei o que vi em Ypres, depois do ataque a gás. Homens caídos ao longo de toda a estrada entre Poperinghe e Ypres, exaustos, ofegantes, limpando um muco amarelo de suas bocas, com os rostos azuis e atormentados. Era horroroso, e era tão pouco o que podíamos fazer por eles. Nenhum texto de nenhum livro que eu tenha visto descreve, ou sequer chega perto, do horror daquelas cenas. Você saía daquele lugar com vontade de ir imediatamente ao encontro dos alemães para esganá-los, para que eles pagassem de algum modo pela sua ação diabólica. Melhor a morte súbita do que aquela agonia horrível. G. W. G. Hughes, tenente-coronel, Corpo Médico do Exército Britânico, citado por P. D. Smith, p. 117.

Como se fosse sob um mar verde/ Nos meus sonhos, diante de minha vista impotente/ Ele me procura, engasgado, soluçando e se afogando. Wilfred Owen (poeta-soldado, morto em ação na batalha do rio Sambre, 4 de março de 1918) Dulce et Decorum est, citado por P. D. Smith, p. 115.

Primeiro surpresa; em seguida, medo; depois, quando os primeiros flocos da nuvem os envolveram, deixando-os asfixiados e em agonia por não poder respirar – pânico. Os que conseguiam mover-se tratavam de escapar e de afastar-se, em geral em vão, da nuvem que os seguia inexoravelmente. Samuel Auld, químico, major do exército britânico, autor de um livro clássico sobre armas químicas, descrevendo um ataque com gás de cloro, na Frente Ocidental, em 1915, citado por P. D. Smith, p. 115.

Cultura material militar::O mês da Coréia::PPSh

A esta altura, todo mundo já sabe que o mês de junho marca o 59° aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Como já vimos em outro lugar, em 1945, pelo menos em aparência era concordância entre os aliados uma solução de consenso para a situação política da península. Na prática, as áreas de ocupação soviética e norte-americana passaram a se organizar por conta própria a partir de 1946. No norte, sob controle de tropas soviéticas, uma administração nos moldes da URSS foi montada, a partir de 1946, contando inclusive com um dispositivo militar, baseado nas unidades guerrilheiras sob controle centralizado. O futuro líder da Coréia do Norte, Kim Il-sung, depois de conduzir guerrilhas na fronteira entre a Manchúria e a Coréia do Norte, refugiou-se na União Soviética e acabou a 2ª GM como capitão do Exército Vermelho.  Durante a guerra, a guerrilhas coreanas eram armadas principalmente com equipamento fornecido pela China. Isto significava que o principal armamento disponível era de origem norte-americana, pois os soviéticos não queriam provocar os japoneses, mantendo-se neutros durante toda a guerra no Extremo Oriente.

Encerrada a 2ª GM, a situação mudou radicalmente. Com a ocupação da porção norte da península, os soviéticos passaram a fornecer apoio técnico e logístico ao governo estabelecido em sua zona de ocupação, logo após a Conferência de Moscou, realizada em dezembro de 1945. Nessa época, os coreanos incorporados ao Exército Vermelho retornaram à Coréia,  e os soviéticos passaram a fornecer grandes quantidades de material bélico estocado da 2ª GM, e que estava, naquele momento, sendo substituído. O novo exército norte-coreano recebeu tanques T-34/85 (que, na URSS, começou a ser substituído, em 1947, pelo *modelo T-54), canhões de emprego geral de *ZIS-3/76 mm e submetralhadoras PPSh. Esta última se tornou a principal arma da infantaria norte-coreana durante a guerra que se seguiu::

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A origem das submetralhadoras remonta ao final da 1ª GM. A tentativa de superar o impasse da guerra de trincheiras mostrou que um dos problemas (não o único) era a incapacidade das pequenas unidades de infantaria (esquadras e pelotões) em concentrar fogo de modo suficiente para superar posições de metralhadoras. A criação, pelos alemães, de forças especiais de infantaria conhecidas como “Tropas de choque” (Stösstruppen), altamente móveis e destinadas a procurar oportunidades de infiltração na linha de defesa adversária apontou a necessidade de uma nova arma de infantaria. Essa arma deveria ser leve e capaz de prover fogo em peso suficiente para confrontar posições teoricamente mais fortes. A resposta foi a adoção de uma arma com a conformação de uma pistola semi-automática, utilizando o mesmo tipo de munição (cartuchos curtos com projetis arredondados), mas capaz de disparar em rajadas.

Essa arma era a submetralhadora, ou como a chamaram os alemães, “pistola-metralhadora”. A primeira arma a incorporar totalmente o conceito de submetralha surgiu em 1918, desenhada por Louis Schmeiser e fabricada por Bergman Waffenfabrik. A *Maschinenpistole Model 1918, ou MP18 usava o cartucho Parabellum 9X19 do exército alemão. No período pós-guerra, o exame dessa arma por ingleses e norte-americanos, e seu uso durante a guerra civil na União Soviética levaram ao surgimento de diversos modelos similares, distribuídos principalmente entre forças policiais. A Guerras do Chaco foi o primeiro conflito no qual o uso militar de submetralhadoras mostrou-se viável e fez a balança pender para um dos lados. Nas guerras Civil Espanhola e Russo-Finlandesa, a submetralhadora consolidou-se como arma de infantaria, e alguns especialistas chegaram a afirmar que a era dos fuzis de ferrolho teria chegado ao fim. Essa previsão não se realizou devido a certos limitações que os engenheiros não conseguiram superar: baixa potência do projetil de pistola e sua baixa precisão. Entretanto, os teóricos da Wehrmacht consideraram, a partir de 1936, que a sub-metralhadora poderia ser complemento ao poder de fogo dos fuzis de ferrolho, principalmente no combate à curta distância. Unidades de infantaria chegaram a distribuir uma submetralhadora para cada dez fuzis; nas unidades motorizadas essa proposção chegava até 4X10, sendo que em unidades de choque (infantaria das divisões blindadas e pára-quedistas) a proporção era de 5X10.

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Entretanto, foi no Exército Vermelho que essas experiências alcançaram seu grau mais extremo. Seu instrumento foi a Pistolet-pulemjot Shpagina 41 (“pistola-metralhadora de Shpagin”) ou PPSh-41. Concebida pelo armeiro Georgii Shpagin, em 1940 e distribuída a partir da primeira metade de 1941.

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta uma PP Sh 41

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta sua PP Sh 41 versão 1943

No início de 1940, Shpagin, desenhista do ateliê Krokov (localidade nas cercanias de Moscou) começou a projetar uma nova submetralhadora. Até então, o Exército Vermelho estava equipado com o modelo PPD (Pistolet-pulemjot Degtyarova), concebido a partir de 1934 com base na alemã Bergman MP-28. Na Guerra de Inverno na Finlândia, tropas finlandesas equipadas com submetralhadoras mostraram superioridade arrasadora em situações de combate aproximado. A *PPD, modelos 34 e 38, foi modificada e distribuída com com base nessa experiência. Entretanto, era cara e difícil de fabricar, e sua manutenção, fora de condições de quartel, bastante complicada. Um ano depois, a invasão alemã e a retirada desorganizada do Exército Vermelho fez com que enormes quantidades de armas fossem abandonadas, e as fábricas não se mostravam capazes de substitui-las na mesma proporção.

A PPSh-41 foi concebida para ser uma alternativa barata e simples às PPD. Todas as partes, com excessão do cano, eram em metal estampado (o que diminuía o tempo de fabricação pela metade) e a maior parte da montagem era feita através de solda elétrica. A parte mais complexa do conjunto era o carregador tipo tambor, de 71 cargas, copiado exatamente do modelo usado pela filandesa *Suomi KP-31.

Tratava-se de uma arma acionada por ação de recuo simples, operando a partir da câmara aberta (quando armada, o extrator permanecia aberto). Sua cadência de fogo chegava a 900 salvas por minuto, o que era considerado demasiado alto para condições de combate de infantaria. Essa cadência era permitida em função do uso do cartucho “TT” 7.62X25 (Tokarev) modelo 1930 (cópia adaptada do cartucho alemão Mauser 7,63 mm), que possibilitava ao projétil uma velocidade de boca de até 450 metros por segundo. A PPSh 41 podia disparar em regime automático e semi-automático, embora os modelos posteriores a 1943 permitissem o disparo apenas em automático. A alta cadência de fogo a tornava uma arma instável, com forte tendência a elevar o cano, que um compensador/freio de boca rudimentar tentava corrigir. Essa característica tornava o tiro pouco preciso, e a efetividade do disparo dificilmente ultrapassava 100 metros. A alça de mira das primeiras versões podia ser regulada para até 500 metros; as versões posteriores passaram a ser dotadas de uma alça com apenas duas marcações: 100 e 200 metros. Em combate, a arma era geralmente apontada por alinhamento do cano com o alvo. O carregador tipo tambor (na imagem, o da Suomi, idêntico aos soviéticos) era considerado um dos pontos altos da arma. Entretanto, era difícil de municiar, seu transporte era incômido e a fabricação rústica o tornava frágil. Modelos posteriores da arma incorporaram um carregador convencional, tipo caixa, de 35 cargas.

As grandes qualidades da “pá-pá-txá” (como era chamada pelos usuários) eram a resistência e durabilidade. Capaz de suportar grande quantidade de sujeira e variações extremas de temperatura, necessitava de pouca manutenção. A *desmontagem era muito simples e o número de peças, relativamente pequeno. Um pino na parte posterior do receptor era solto, deixando que a metade superior fosse movida para cima, num movimento basculante. O interior do receptor se abria, expondo o bloco de culatra e a mola.

Quase 5,5 milhões de exemplares desta arma foram produzidos até ao fim da 2ª GM. Para termo de comparação, a Alemanha produziu, entre 1938 e 1945, aproximadamente 2,5 milhões de submetralhadoras, das quais mais de 1 milhão eram MP38/40

Depois de 1941, * unidades alemãs em combate permitiam que seus integrantesusassem a PPSh, chegando algumas a estocar munição “TT”. As dimensões entre os dois cartuchos eram próximas, o que levou a Wehrmacht a considerar a adaptação da enorme quantidade de PPSh capturadas em 1941 para disparar munição 9X19 mm. A adaptação obrigava a mudança do cano e do uso de um adaptador no receptor, de modo a permitir o uso do carregador de 32 cargas da ERMA MP38. A adaptação recebeu a notação MP717(r).

A produção continuou até pelo menos 1950, quando foi descontinuada em função da padronização do fuzil de assalto AK47. Entretanto, as grandes quantidades estocadas foram distribuídas entre os países da Europa Oriental e aos *aliados asiáticos. Quantidades consideráveis também foram fabricadas por alguns desses países. A República Popular da Coréia foi um dos países a receber enormes quantidades de armas soviéticas. Nesta *imagem, armas soviéticas da 2a GM, com uma PPSh versão 43. Essas armas foram capturadas no perímetro de Pusan. Curiosamente, o rifle no centro é um Arisaka 7,7 japonês.

As táticas desenvolvidas pelo Exército Vermelho durante a guerra baseavam-se no uso de submetralhadoras por infantes cuja atuação seguia o princípio da massa e da velocidade. Transportados até o campo de batalha em caminhões não protegidos ou montados no dorso de tanques, os infantes eram lançados diretamente contra as linhas inimigas, disparando suas armas logo após saltarem dos veículos, ou após percorrerem distâncias não muito grandes, depois de desmontarem dos caminhões. O peso de fogo era a única garantia de sucesso dessa tática, e tinha de ser conseguido a qualquer custo, daí a adoção quase universal de submetralhadoras. Entretanto, essa tática costumava a provocar grandes baixas, sem contar a dependência da disponibilidade de veículos e de quantidades consideráveis de combustível. Como forma de compensar a superioridade dos defensores alemães, em geral ocupando posições preparadas, os soviéticos faziam preceder os assaltos de infantaria móvel por pesadas barragens de artilharia. O uso massivo de foguetes não guiados articulava-se a esse contexto. Esse tipo de tática exigia grandes concentrações de tropas, o que explica a opção soviética pelo esforço ao longo da região dos rios Don-Dnieper, mobilizando forças moderadas nas outras frentes.

O Exército Popular da República Democrática da Coréia foi treinado para adotar essas mesmas táticas. A superioridade numérica e em volume de armamentos – notadamente o número de tanques e peças de artilharia) destinava-se a reproduzir, tanto quanto possível, a forma soviética de fazer a guerra. Até mesmo a proporção relativamente pequena de aviação espelhava o fato de que, no teatro europeu, as forças soviéticas acostumaram-se a lutar com pouco apoio aéreo. A vitória pareceu fácil, no início, em função da desproporção numérica. As forças armadas da República da Coréia, além de menores em efetivos, praticamente não dispunham de tanques e artilharia. Conforme os EUA, sob a bandeira da ONU, começaram não apenas a empenhar efetivos consideráveis no teatro coreano, como treinar e armar tropas sul-coreanas, a incapacidade da Coréia do Norte em substituir as pesadas baixas que sofreu entre setembro e novembro de 1950 quase significaram a derrota.

A PPSh teve, tanto nas mãos dos norte-coreanos quanto, a partir de novembro de 1950, dos 300.000 “voluntários” chineses enviados para a Coréia, notável participação na Guerra da Coréia. Pode-se dizer que foi o último conflito no qual submetralhadoras tiveram papel de destaque. A partir de então, essa praticamente desapareceu como arma de infantaria, ficando restrita às Forças Especiais e corporações de polícia.::

Cultura material militar::Capacetes::

Capacetes militares talvez estejam dentre os itens mais representativos dos exércitos. Embora sejam uma peça de equipamento militar e um item de proteção individual, a utilidade desses artefatos transcende sua mera materialidade. Capacetes praticamente simbolizam a atividade militar por excelência. Quando um general quer parecer combatente, põe na cabeça um capacete de aço (basta lembrar da famosa fotografia de Patton, fazendo pose com um capacete cromado). Mais do que isso, capacetes representam, através de uma operação lingüística chamada metonímia, a própria guerra. Afinal, o que vem à cabeça de todo mundo, diante da simples silhueta de um Stahlhelm M1935?.. O que é um Stahlhelm?.. É o que vamos ver, em seguida.

 

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Capacetes feitos de metal, madeira ou couro, foram usados desde a Antigüidade, para proteger a cabeça dos combatentes. Podem ser considerados a primeira forma de proteção corporal, juntamente com os escudos, e certamente antecederam outras peças como peitorais, perneiras e manoplas. Mas o surgimento da arma de fogo tornou esse tipo de proteção inócuo, visto que a metalurgia da época não oferecia materiais resistentes contra um tiro de pólvora. Os capacetes acabaram relegados a funções cerimoniais, .

Até o final do século 19, as “coberturas” (como os militares chamam, até hoje, qualquer tipo de chapéu) tinham a função de proteger o soldado contra condições climáticas (sol, chuva, etc.) e compor o uniforme (são ótimo lugar para se usar distintivos, insígnias, cores…). Com a eclosão da 1ª GM, as novas condições de combates nas trincheiras da Frente Ocidental provocaram enorme número de ferimentos na cabeça, em ambos os lados. Ficou evidente que era necessário algum tipo de equipamento para, pelo menos, diminuir o grau de incidência daquele tipo de casualidade.

 

 O desastre do Marne, em setembro de 1914, precipitou a mudança dos uniformes franceses, que, até aquele ano ainda eram compostos por uma túnica azul-ferrite (um azul quase negro) e calças… vermelhas (acreditem vocês  ou não). No final do ano, começaram a ser distribuídos entre as tropas os uniformes horizon-bleu (“azul-celeste”), e, junto com eles, os soldados franceses começaram a receber um novo tipo de quépi. Esses quépis trouxeram algumas tentativas de aumentar a proteção ao soldado: pequenas placas e carapaças de metal adaptadas ao interior do chapéu.

 

 Conforme a guerra avançava, os especialistas médicos notaram que a maioria dos ferimentos na cabeça não eram provocados por balas, mas por pedaços de metal pequenos, de baixa velocidade e trajetória irregular (“estilhaços”), resultantes da fragmentação de projéteis de artilharia. Contra uma bala de rifle moderna, ogival (pontiaguda) e impulsionada por pólvora química (“sem fumaça”), não havia proteção possível – a não ser que o soldado estivesse disposto a usar na cabeça uma carapaça de quatro ou cinco quilos; já contra estilhaços, uma chapa de metal relativamente delgada poderia ser suficiente.

 

 Pouco depois do Marne, pelo final do ano, surgiu o boato de que os soldados estavam usando panelas e sopeiras de metal na cabeça. Essa história talvez tenha resultado da confusão provocada, em observadores da imprensa, pelo surgimento de uma carapaça de metal, distribuída aos soldados pelo intendente-geral do exército, general Agust Louis Adrian, em 1914. Segundo se conta, essa desconfortável peça de equipamento passou a ser usada principalmente para tomar sopa. Longa vida ao sempre criativo soldado de linha, independente da nacionalidade…

 

Ainda assim, durante algum tempo, o exército francês insistiria em distinguir, em combate, tropas especiais através de elmos coloridos e brilhantes: dragões e couraceiros, sapadores e artilheiros. Esses artefatos cerimoniais, sobrevivências de uma época em que espadas e lanças eram armas efetivas, dificilmente serviam no ambiente da guerra industrial plena. Logo seriam eclipsados pelos “cascos de aço”.

 

O modelo francês, denominado “Adrian”, aperfeiçoamento do equipamento distribuído em 1914, passou a fazer parte do equipamento padrão da infantaria. Isso foi em meados de 1915. Oficialmente denominado “M15” o modelo “Adrian” era baseado no capacete usado pelos bombeiros franceses, embora sua construção fosse muito mais complexa, devido à necessidade de aumentar a funcionalidade. Várias peças de metal estampado, muito delgadas (no máximo 0,7 mm de espessura) eram soldadas e rebitadas juntas. O resultado era uma carapaça de tamanho padrão, dotada de abas, frontal e traseira, e um tipo de crista, que protegia orifícios de ventilação (quatro ou cinco, dependendo da origem). A armação interna consistia em dois anéis de tiras de couro, em forma de “D”, presos ao corpo de metal por alças. Essa estrutura, provida de cadarços, apoiava o conjunto no alto da cabeça do usuário, que o regulava para seu tamanho apertando ou afrouxando os cadarços. Esse sistema tinha a vantagem de prover alguma ventilação, pois mantinha a carapaça de metal ligeiramente afastada do couro cabeludo do usuário. O conjunto era preso à cabeça por uma alça (“jugular”), regulada por fivela deslizante. O conjunto pesava aproximadamente 1000 gramas, o que tornava seu uso um tanto desconfortável.

Cinco fábricas foram montadas para fabricar capacetes, e calcula-se que, pelo final de 1915, uns três milhões já estivessem disponíveis.

 

O “Adrian” era entregue aos soldados em acabamento horizon-bleu, semelhante ao do uniforme M14. Como a pintura, esmaltada, tendia a refletir luz, por volta do final do ano os franceses introduziram uma cobertura de tecido, azul-claro ou cáqui. Embora a idéia fosse boa, oficiais médicos imaginaram que o tecido, introduzido em ferimentos na cabeça, pudesse provocar complicações sérias, e aconselharam que fosse abandonada, o que aconteceu pouco depois.

 

O enorme número de capacetes fabricado durante a guerra (estima-se que tenha alcançado mais de seis milhões de unidades) fez com que o “Adrian” continuasse a ser utilizado também no período entre-guerras. E que fosse adotado, ainda durante a guerra, por outras nações, tão díspares quanto a Bélgica e o Brasil (que recebeu alguns em 1917, trazidos pelos observadores enviados à Europa, mas não o adotou). Os mais improváveis soldados a usar o “Adrian”, entretanto, foram os russos – tanto dos do exército do czar quanto seus sucessores comunistas.

Vamos ver este ponto depois. Como essa matéria é longa, vamos dividi-la em caítulos, para que o redator e os leitores tenham mais diversão… Ah, até lá, vejam esse filminho recolhido no… Vocês sabem onde. Eu mesmo nunca tinha visto nada tão didático…::