O estranho caso do aviãozinho iraniano::De como a vontade política é a chave para a aquisição de tecnologia::

Quando um país está preparado para “absorver tecnologia”? Essa idéia me ocorreu quando a partir do comentário do assíduo Renato Berlim1, em torno de observação do último post sobre a novela FX. Escreveu ele que “entre o F-5 iraniano e nossos F-5M creio que sou mais a versão brazuca. Os iranianos sào geniais para manter equipamento funcionando, mas não faço a menor idéia da eficiência dos projetos deles.” Boa observação, mas… O aviãozinho iraniano é um projeto novo, fruto de “engenharia reversa” feita no F5E, dos quais eles ainda devem ter talvez menos de uma centena de exemplares, remanescentes do tempo em que o Irã simpatizava com Israel – ou seja, põe tempo nisso. O que significa que Renato tem razão ao dizer que os iranianos são ótimos em manter equipamento de alta tecnologia funcionando. Mas o que é preciso para tanto? E o que é preciso para praticar “engenharia reversa”? Antes de mais nada, uma infra estrutura científica e tecnológica razoável – o que nós também temos. Mas também é preciso vontade política… Esta, bem… Resolvi, como sempre, e às custas de meu quase-inexistente tempo livre, pesquisar um pouco, e acabei levantando informações interessantes de como funciona a “vontade política”, e como são seus resultados. E, de quebra, acabei aprendendo muita coisa interessante sobre o F5 e sobre a Guerra Fria. A pergunta que eu não soube responder (e isto sempre acontece…) é se temos alguma lição a retirar daí. Espero que os dez assíduos se divirtam e tirem alguma conclusão::

Durante a primeira metade dos anos 1960, Reza Pahlevi, Xá do Irã desde os início dos anos 1950, mantinha estreito controle sobre o país. Pahlevi suprimiu a oposição organizada, matou ou baniu seus membros, eliminou a liberdade de imprensa e atribuiu poderes excepcionais à SAVAK, sua (para variar…) temida polícia secreta. O processo político era estritamente controlado, e tanto eleições quanto candidatos ao legislativo iraniano – o “Majlis” – eram supervisionados pelo governo. Naqueles tempos de Guerra Fria, nada disso era problema para o principal aliado do Xá, os EUA. A partir do fim da década, tendo como pano de fundo a “paz dos cemitérios” que reinava lá e com o beneplácito de sucessivos governos da superpotência, abriram-se anos de desenvolvimento econômico. Ao longo deste período, e sempre com apoio dos EUA, o regime iraniano fez grandes esforços para tornar-se potência regional.

Essa ambição não era novidade. No momento em que os britânicos, diante do esgotamento do império colonial e pressionados pelos EUA, começaram a deixar a região, o Xá deu trânsito, na segunda metade dos anos 1950, à suas intenções de substituir os antigos mandatários como fiadores da segurança da região do Golfo Pérsico. Desde o fim do regime nacionalista de Mohammed Mosaddeq (que tanta dor-de-cabeça deu ao Ocidente), os EUA viam no regime iraniano um aliado confiável. Essa confiança culminou, em 1972, com a decisão de Nixon de torná-los “parceiros preferenciais”, em função do crescente nacionalismo de países como o Iraque, da instabilidade dos regimes dos “estados do Golfo” e do pragmatismo do regime saudita. Somava-se a tudo isso o fato de que, dentre os regimes da região, o iraniano era o único a não antipatizar abertamente com Israel. Parte dessa aliança incluiu um plano do Xá em tornar o “Império Persa renovado” uma potência militar capaz de apoiar e implementar seus planos políticos para a região, assumindo papel de liderança na CENTO2. A partir de 1965, grandes compras de todos os tipos de armamento foram planejadas junto com os EUA, dentro de uma completa reestruturação das forças armadas. Até então essas eram organizadas em moldes britânicos: pouco mais que uma polícia colonial e, na prática, de baixissimo grau de aprestamento. No início dos anos 1970, um projeto de reestruturação da Imperial Força Aérea Iraniana foi elaborado com a assessoria direta dos EUA e base em produtos “de exportação” da indústria norte-americana. Naquela época, as considerações doutrinárias sobre a guerra em ambiência nuclear estavam levando à crescente especialização dos tipos de aeronaves postos em serviço3. Entre esses produtos “de exportação”estavam grandes números dos então novos Northrop F-5E “Tiger II”.

Este avião é um dos mais interessantes subprodutos da Guerra Fria. Seu desenvolvimento recua até 1954, quando a empresa Northrop foi consultada pelo governo dos EUA sobre a possibilidade de desenvolver uma aeronave capaz de atender às necessidades dos aliados menores, na Europa e Ásia. O objetivo era padronizar parcialmente o equipamento distribuído a esses países, sem sobrecarregar a indústria aeronáutica norte-americana. O estudo, entregue pela empresa após visitas a diversas forças aéreas, identificou a necessidade de uma aeronave “multifunção” de baixo custo e baixa complexidade, se materializou no projeto N-156F. Entretanto, um erro de avaliação da empresa levou a que o projeto fosse desenvolvido também para ser apresentado ao Exército dos EUA como aeronave de interdição. Em 1959, entretanto, o governo dos EUA, diante da disputa que de desenhou entre Exército e Força Aérea, vetou a utilização pela força terrestre de aeronaves de asa fixas, a não ser em funções altamente específicas. A Força Aérea, por sua vez, declarou não precisar de um caça tático com aquelas características. A aeronave acabou sendo desenvolvida em duas direções: o treinador avançado T-38 Talon (1961) e um projeto desenvolvido pela empresa como “iniciativa privada”: o programa “F5”. Em 1962, o Departamento de Defesa dos EUA escolheu o F5 para ser entregue a aliados estrangeiros periféricos, notadamente países sem indústria aeronáutica e com forças aéreas de porte pequeno/médio, através dos programas “de Assistência Militar” (MAP, em inglês Military Assistance Program) e “de Vendas Militares para o Estrangeiro” (FMS, em inglês, Foreign Military Sales Program). A aeronave resultante foi apresentada ao aliados secundários no âmbito da OTAN e da SEATO (Ásia), como moderna, versátil e de baixo custo: o F-5A Freedom Fighter (“Lutador da Liberdade”, trocadilho intraduzível com o sentido técnico de “caça” atribuído à palavra, em inglês).

O problema é que o F-5A tinha capacidade de combate ar-ar muito limitada e sequer chegou a ser concebido para receber um radar de controle de fogo – tratava-se, de fato, de um “caça-tático” (aeronave ligeira com funções de ataque ao solo). A versão “B”, biplace, foi apresentada como primariamente de treinamento, mas capaz de receber, no segundo posto, equipamento para missões mais sofisticadas de ataque. Em função do pequeno interesse internacional despertado pela aeronave, já que estavam disponíveis, no mercado, modelos mais poderosos e pouco mais caros (como o inglês Hawker “Hunter” e o francês Dassault “Super Mystére”), em 1965 a USAF decidiu aperfeiçoar uma doutrina para a aeronave, e enviou uma pequena quantidade de F-5A arrendados da fábrica para o Vietnã do Sul.

O programa foi chamado de “Operação  Skoshi Tiger” (a palavra japonesa Skosh significa “espaço restrito” ou “tempo restrito”). Os pilotos, que ficaram fascinados com a manobrabilidade do F-5 e sua capacidade de carregar armamento convencional, rapidamente passaram a se referir ao avião como “Tiger”. O programa “Tigre temporário” (era mais ou menos isso que a expressão queria dizer) teve, entretanto, implemento provocado por uma situação inesperada: a imprevista eficiência da defesa anti aérea do Vietnã do Norte, coordenada por especialistas soviéticos4. A USAF resolveu, repentinamente, adquirir todas as aeronaves previstas para abastecer o MAP/FMS, e que estavam encalhadas nos EUA. Era a solução possível para continuar as tarefas de contra insurgência (como as operações militares no Vietnã do Sul eram consideradas), e liberando aeronaves mais poderosas para os ataques ao Vietnã do Norte, sem desguarner postos de primeira linha no Japão e na Europa.

A aeronave foi preparada para utilizar os armamentos e a munição de uso mais comum no teatro do Vietnã do Sul: bombas de queda livre, de alto arrasto e lançadores de foguetes. Mas mesmo para os padrões das operações aéreas de contra-insurgência, os sistemas de transporte e entrega de bombas do F5 eram toscos, quando comparados aos de outras tipos utilizadas lá. A maior parte das missões era realizada com o piloto colocando o avião em mergulho suave sobre o alvo, e calculando a distância do alvo através da calculadora acoplada à mira ótica Norsight padrão, pouco diferente das adotadas durante a guerra da Coréia. Como o avião não tinha tomadas para reabastecimento aéreo, as missões eram realizadas com três tanques externo de 680 litros – o que comprometia fortemente a capacidade da aeronave em transportar armamento.

A experiência no Vietnã apontou que o F5A necessitava de maiores capacidades, inclusive de combate aéreo, que lhe dessem possibilidade de enfrentar adversários como o MiG17 e o MiG21, principais equipamentos fornecidos pela URSS a seus aliados e aos países sob sua influência econômica e militar. Ainda no Vietnã a aeronave recebeu uma tomada de reabastecimento sobre o nariz, placas de blindagem na barriga e pilones extras, que podiam ser removidos, sob as asas. Posteriormente, foram feitas importantes modificações nos aviônicos. A mira ótica fixa deu lugar a um computador de controle de armamentos, similar ao instalado nos A4 “Skyhawk”, e alguns aviônicos foram relacionados como equipamento potencial, embora não tivessem sido instalados. Algumas mudanças estruturais foram feitas, para aumentar a manobrabilidade. Essa aeronave foi redesignada “F5C”.

No final dos anos 1960, a Northrop apresentou um projeto que acrescentava ao F5A capacidade limitada de superioridade aérea: uma versão avançada designada F-5E “Tiger II”. Tratava-se de um programa denominado International Fighter Aircraft (IFA), que deveria rapidamente substituir os F-5A/C, principalmente na Força Aérea do Vietnã do Sul e em outras forças aéreas de aliados periféricos dos EUA. Neste novo tipo foi introduzido um turbojato mais potente, o General Electric J85-21, dotado de pós-queimador e com o desempenho implementado. Essa inovação, baseada na experiência de combate (o desempenho do F5A era considerado muito pobre) implicou em um completo redesenho da fuselagem, para receber o turbojato maior e tanques de combustível internos de capacidade aumentada. As asas também foram redesenhadas, tendo a superfície alar aumentada para suportar o maior peso do conjunto e implementar a manobrabilidade (que já era considerada muito boa). Uma modificação crucial foi a introdução de um radar semi-ativo tipo AN/APQ-153, “versão econômica” dos radares “pulso Doppler” em uso. Esta novidade deu ao caça a capacidade de utilizar o míssil de curto alcance AIM9 Sidewinder, mas não o AIM7 “Sparrow5, na época já considerado armamento de segunda linha.  Os dois canhões orgânicos Cadillac de 30 mm foram mantidos, dentro da filosofia, renascida na Força Aérea dos EUA depois do Vietnã, da capacidade de combate aéreo à curtíssima distância – o “dogfighting”. Uma versão biplace de treinamento/conversão, o F5F, também foi posta em produção, com menor capacidade interna de combustível e aviônicos menos sofisticados. Essa aeronave seria em princípio destinada à Força Aérea do Vietnã do Sul, mas com a retirada apressada dos norte-americanos da guerra, em 1973, o programa gorou, e os EUA ficaram atolados com mais de 300 unidades encomendadas – e pagas – em 1972. A solução foi oferece-las aos aliados periféricos, com uma novidade: aos capazes de produzir aviões foi oferecido o projeto completo e assistência para a instalação de linhas de produção – Canadá, Espanha e Suíça. À Coréia do Sul e Taiwan foi aberta a oportunidade de iniciar uma indústria local de aeronaves militares, com beneplácito, financiamento e tecnologia norte-americanos.

O Irã esteve entre as primeiras “potências regionais” a receber os F5E/F “Tiger II”. As primeiras unidades foram entregues em janeiro de 1974, vinte e oito F-5F, destinados a treinamento avançado e conversão. Nessa época, o Irã se desfez dos modelos F-5A e B, repassados a outras nações, com permissão dos EUA. Um total de 166 F-5E/F foram fornecidos ao regime do Xá, ao longo dos dois anos seguintes, compondo quase metade das vendas de aeronaves de combate feitas pela indústria dos EUA. Os caças e treinadores iranianos foram equipados com os mais avançados aviônicos disponíveis para o modelo: um sistema Litton de navegação inercial e um computador de controle de armamento.

Por volta de 1977, depois de 15 anos de resultados brilhantes, a economia iraniana começou a ter problemas. As tentativas de converter as rendas obtidas com o petróleo em um parque industrial, ao lado dos maciços investimentos na ampliação das forças armadas, acabaram por resultar em sérios problemas sociais. O programa de modernização do Xá também criou tensões com a sociedade tradicional iraniana, cuja cultura e valores eram baseados no Islamismo de vertente xiita. O aumento da repressão não chegou a diminuir a tensão, e as reformas políticas de 1975, que estabeleceram, por determinação de Pahlevi, um regime de partido único, resultaram na alienação das classes médias do processo político, empurrando largos setores de pequenos-burgueses educados para a oposição. Pahlevi estava consciente dos riscos que corria, mas contava com o apoio norte-americano. Em 1976, a eleição de Jimmy Carter para a presidência dos EUA e sua política de apoio e promoção dos direitos humanos acabou privando o regime iraniano de seu maior – e possivelmente único – apoio externo, tornando o regime ainda mais vulnerável à pressão internacional. Paralelamente a todos esses problemas, a oposição interna crescia, alimentada pelo aprofundamento da crise econômica.

Foi nessa época que começou a voltar à baila um nome que não era abertamente pronunciado no Irã desde 1963: o Ayatollah Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini. Lider da elite sacerdotal instalada em Qom, a cidade sagrada da vertente xiita do Islãmismo, Khomeini tinha sido preso naquele ano, após pronuciar violento discurso contra o Xá e seu regime. Depois de quase dez meses em prisão domiciliar, o religioso foi solto, apenas para ser novamente preso por “atividades subversivas” e “perturbação da paz”, praticadas durante suas pregações. Desta feita, o aiatolá acabou despachado para a Turquia. Cerca de um ano depois, em 1965, o regime iraquiano permitiu que ele se instalasse na cidade de sagrada de Najaf, onde permaneceu por treze anos. Apesar do compromisso de silêncio, logo Khomeini começou a atacar o governo iraniano, que considerava anti islâmico. Uma rede de opositores religiosos, apoiada por cléricos e fortemente baseada em mesquitas e comunidades religiosas começou a promover propaganda, que se tornava mais radical conforme a crise econômica se agravava. Khomeini começou a ser apresentado como líder de um estado islâmico reivindicado com cada vez maior intensidade, por todo o país. A situação foi se agravando até o ponto em que o Xá, no final de 1978, tentou abrir discussões com setores de oposição, sem sucesso, e acabou deixando o Irã, que viu a ascensão de um regime moderado liderado pelo político Shapour Bakhthiar. Entretanto, esse regime de transição durou apenas 36 dias, e acabou substituído pelo regime islâmico que perdura até hoje.

É interessante observar que a Imperial Força Aérea do Irã foi a primeira dentre as forças singulares a declarar abertamente adesão ao novo regime. No final do mês de janeiro de 1979, técnicos da Base Aérea de Khatami (sede dos F14 da IIAF) envolveram-se em uma conforntação com oficiais e, em 8 de fevereiro, graduados da Força declaram-se aliados de Khomeini; no dia seguinte, técnicos da Base Aérea de Doshan Tappeh, nas proximidades da capital iraniana, Teerã, se amotinaram. Em fevereiro de 1979, o regime de transição caiu e foi implantado um regime revolucionário. Em dezembro de 1979, junto com a aprovação de uma nova constituição, foi instituída a República Islãmica do Irã6.

O regime fundamentalista iraniano adotou uma rígida postura anti ocidental, o que resultou na proibição de comércio de armas, pela mioria dos países ocidentais. Esse embargo estendia-se ao fornecimento de peças de reposição de qualquer espécie para todos os equipamentos já entregues, o que causou problemas imediatos de manutenção para a frota de F-5E/F. O país não tinha capacidade, naquela época, de operar suas aeronaves mais modernas sem apoio dos fornecedores ocidentais, e os poucos técnicos iranianos qualificados no Ocidente passaram a ser vistos como não confiáveis. O regime islâmico promoveu diversas “limpezas” nas forças armadas, que as privaram de alguns dos quadros de maior especialização. Na força aérea, transformada em “Força Aérea da República Islâmica do Irã”, a decisão, tomada por muitos oficiais, de seguir o Xá para o exílio, praticamente a deixou sem condições de voar.

A República Islâmica do Irã logo se tornou um criador de problemas regional, já que o regime dos aiatolás não escondia sua intenção de exportar a revolução religiosa para outros países na área do Golfo Pérsico. O Iraque, com sua maioria xiita submetida à uma pretensa ditadura “socialista”, tornou-se alvo preferencial da propaganda iraniana, e o Irã se tornou um perigo de grandes proporções para o regime ba´athista. Logo começaram a ocorrer incidentes de fronteira, e em 22 de setembro de 1980, Saddam Hussein, sem aviso, lançou suas aparentemente bem organizadas forças armadas contra o Irã, realizando ataques aéreos contra bases da aviação e do exército iraniano, e abrindo uma frente da batalha de 700 quilômetros, ao longo da fronteira comum. Sadam, bem como seus apoiadores ocidentais, acreditava numa rápida vitória. O equívoco não poderia ter sido maior, E a guerra se arrastaria por oito anos.

Ambos os lados mostraram notável incompetência militar, e, neste quadro, o poderio aéreo não chegou a fazer diferença. O Irã, nesse particular, mostrou, de início, alguma superioridade, embora ambos os lados não tivessem sido capazes de estabelecer o domínio dos ares. Embora os pilotos iranianos mostrassem treinamento e motivação superiores aos de seus adversários, a desconfiança do regime xiita com relação a seus próprios militares acabou por provocar mais baixas do que conseguiram os iraquianos. Outra grande dificuldade do Irã era encontrar fornecedores de peças de reposição e munições para seu equipamento majoritariamente norte-americano. O número de F5E/F, como também dos McDonnell-Douglas F4 “Phantom” (por volta de 1980, o número de F4 e RF4 das versões D e E em disponibilidade, era calculado em 220 unidades) tornou-se crítico e, em 1983, caiu para algo em torno de 35 por cento do total original7.

A história do “aviãozinho iraniano” começa aí. Por volta de 1986, apenas 10 por cento dos F5E/F iranianos estavam em condições de vôo, e o Irã buscava peças de reposição onde quer que fosse possível, através de operações que envolviam contrabando de petróleo ou pagamento à vista. No fim da guerra, em 1988, talvez menos de uma dúzia dos “Tiger” estivesse em condições de vôo, mas haviam dezenas deles, danificados ou canibalizados, em estoque. Os técnicos iranianos começaram, então, a reconstruí-los. No processo, as peças eram revisadas e algumas delas, em mau estado, particularmente da fuselagem, asas e estabilizadores, começaram a ser refeitas. Não existem maiores informações de como os iranianos conseguiram desenvolver o projeto, mas é possível que tenham tido apoio dos chineses, que já foram bem sucedidos em praticar engenharia reversa com aeronaves de fabricação soviética. De fato, em 1997 foi noticiado que o Irã teria realizado testes de vôo com um caça tático similar ao F5E, denominado “Azarakhsh” (Em farsi, “relâmpago”). As informações sobre essa aeronave são desencontradas, e não existem sequer fotografias que a mostrem. Segundo informações divulgadas no Ocidente em 2000, trata-se de uma cópia em tamanho aumentado do F5E, equipada com aviônicos e radar russos. A revista especializada “Jane’s Internetional Defense Weekly” sugeriu que o protótipo iraniano parecia ser entre dez e quize por cento maior do um F5F e teria por função primária operações ar-terra. Entretanto, a análise de fotografias e material de TV divulgados pelos iranianos mostra que essa aeronave, de fato, não chegou a entrar em produção, e, possivelmente, não mais que dez unidades tenham saído da fábrica.

O “Saegheh 80” (“Trovão”, em farsi) é dado pelas publicações especializadas como um aperfeiçoamento do “Azarakhsh”. O sítio “não oficial” da Força Aérea da República Islâmica do Irã não fornece detalhes, apenas uma curiosa informação de que o desempenho da aeronave é semelhante ao do YF17. Esta é a notação do protótipo que deu origem ao caça naval F/A18, e poderia ser verificada em qualquer sítio especializado da Internet. Para além, mesmo os mais entusiasmados simpatizantes do Irã devem saber que uma tal proeza é impossível, nas bases que deve ter se dado o aperfeiçoamento do avião iraniano. Países bem mais capazes, cientifica e tecnicamente, que o Irã, e sem os problemas políticos deste, tiveram dificuldades em desenvolver aeronaves de primeira linha. Um exemplo que poderia ser estudado inclusive entre nós, aqui no Brasil, é o do desenvolvimento do F-CK de Taiwan8. A experiência dos chineses encontrou inúmeros obstáculos, ainda que Taiwan seja aliado preferencial dos EUA.

Não existem informações que esclareçam a introdução da empenagem dupla e das asas montadas sobre as tomadas de ar, com inclusão aletas estabilizadoras. Embora não sejam especificados exatametne quais são, é dado como certo que tenham sido introduzidos novos aviônicos, projetados com auxílio russo ou chinês, inclusive um radar de controle de fogo. A colaboração com esses países pode ter resultado em um produto que, mesmo não sendo de primeira linha, poderia tornar-se bastante eficaz, caso utilizado em conjunto com sistemas remotos de monitomento e controle. Não é possível, entretanto, estabelecer se a indústria iraniana teria capacidade de conduzir um projeto desses, ainda que com assistência estrangeira.  

Mesmo que o resultado do programa “Saegheh” seja apenas um desenvolvimento do F-5E com aviônicos e armamento melhorados, isso indica que o Irã estaria criando a capacidade de eventualmente romper com a dependência completa de fornecedores estrangeiros – porque independência total, esta é difícil de conseguir. Entretanto, o desenvolvimento de um setor de alta tecnologia é um passo a ser dado que começa, sem dúvida, com uma decisão política, dada a quantidade de recursos humanos e financeiros em que implica sua realização. E não é só isto: o estabelecimento de laboratórios e unidades industriais que compõem um setor de indústrias aeronáuticas, em um país, sempre será projeto difícil de coodenar e apresentando resultados apenas a longo prazo. Um primeiro passo precisa, entretanto, ser dado. O Irá o deu. O resto do caminho é uma incógnita.

 Notas notáveis para serem notadas e anotadas:: 

1. Operador de um blogue cujo único defeito, em minha opinião, é mudar de nome com demasiada frequência… (Na lista de indicações de causa:: ainda consta como “Um lugar para expor e trocar idéias”.) O blogue do Renato é mais voltado para especialistas em educação, mas sempre merece uma olhada devido às reflexões lá apresentadas sobre tecnologia da informação e cotidiano. O último abordou, tangencialmente, uma de minhas paixões: jogos de peças de montar. Ainda sou do tempo em que todo garoto de oito ou dez anos sonhava com um Mecbras, anunciado pelo “Tio Hélio” nas tardes televisivas-em-preto-e-branco de sábado. Era um brinquedo fabricado pela Estrela sob licença, caríssimo, cuja filosofia era mais ou menos a mesma dos trenzinhos elétricos Märklin e Leonel – o adulto compra para a criança e não deixa a coitadinha brincar.

2. Doutrina que enfatizava a necessidade de entregar armamento nuclear em alvos situados à grandes distâncias e fortemente defendidos, bem como interditar o espaço aéreo nacional contra incursões do mesmo tipo. O crescimento do tamanho e complexidade dos bombardeiros estratégicos, observado durante a Segunda Guerra Mundial, acentuou-se ao longo dos anos 1950, culminando com o surgimento de sistemas capazes manter-se em vôo durante períodos de 24 horas, desde que com reabastecimento aéreo. A existência desses sistemas no lado adversário levou ao aperfeiçoamento de interceptadores “de longa distância”, destinados a interditar o espaço aéreo dos EUA à aeronaves inimigas voando a grande altitude. Nessa época, a doutrina desenvolvida pelo Pentágono, sob supervisão de oficiais que haviam conduzido, em postos executivos (mas não no comando superior) a guerra aérea contra Alemanha e Japão, considerava que a próxima guerra seria rápida, utilizaria armas de destruição em massa e relegaria as operações de caráter tático ao segundo plano – o plano dos aliados periféricos. Essa doutrina, desenvolvida a partir da segunda metade dos anos 1950, desdobrou-se em dois eixos – por um lado o Pentágono, dirigido por Robert MacNamara, e por outro, a Força Aérea, comandada pelo general-de-exército Curtis E. LeMay – e acabou resultando em uma disputa entre duas visões, uma “econômica”, outra “militar”: a primeira enfatizava a “entrega” por mísseis de ataque instalados nos EUA e em submarinos; a segunda, a “entrega” por bombardeiros supersônicos extremamente complexos, capazes de atingir alvos dentro da União Soviética a partir do território dos EUA e a inviolabilidade dos EUA através de interceptadores “estratégicos”, que combateriam possíveis atacantes sobre o norte do Canadá e a região ártica. Exemplos interessantes e bastante acessíveis do pensamento estratégico e das doutrinas militares durante a Guerra Fria são os filmes “Limite de segurança” (Failsafe, de Sydney Lumet, 1964) e “Doutor Fantástico” (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de Stanley Kubrik, 1964). O primeiro mostra, de modo tangencial, o debate entre “políticos” (os civis) e “militares”. Também é chocante, tanto quanto esclarecedor o documentário “Névoa da guerra” (Fogs of war, de Errol Morris, 2003),uma biografia intelectual e política de Robert McNamara. A compreensão dos desdobramentos da estratégia norte-americana nesse período é impossível sem a leitura dos livros de LeMay, que chegou a ser considerado “psicopata” por seus adversários: America is in Danger, de 1968 (publicado em português sob o título de “USA em perigo”) e Superfortress: The Story of the B-29 and American Air Power, de 1988.

3. A Organização do Tratado Central (em inglês, Central Treaty Organization, ou CENTO) originou-se no Pacto de Bagdá, que reuniu, em 1955, o Irã, o Iraque, Paquistão, Turquia e o Reino Unido. Seu principal objetivo era conter o avanço da União Soviética na região, constituindo uma linha de estados pró-ocidentais ao longo da fronteira sul da URSS. Embora os EUA não tivessem participado inicialmente, é possível dizer que foi a pressão norte-americana, traduzida em promessas de ajuda econômica e militar, que impulsionou a constituição da aliança. O pacto foi marcado, desde o primeiro momento por dissensões internas, pontuadas pelo forte nacionalismo que caracterizava os países membros, todos eles ex-colônias cuja autonomia era então recente. A principal dessas era a oposição contra a presença da Grã-Bretanha entre os membros, mas haviam também diferenças pontuais entre entre eles. Esses problemas internos contribuíram para que a CENTO nunca chegasse a se organizar de forma eficaz, e assim torna-la a menos bem-sucedida entre as alianças militares e políticas do período constituídas com base no modelo da OTAN. Diferente da Aliança do Atlântico, a CENTO não constituiu um comando militar unificado, e os membros não chegaram a permitir a instalação de bases militares ou de tropas estrangeiras em seus territórios nacionais. Era este um dos objetivos dos EUA e da Grã-Bretanha, e constituiu um entrave à efetividade da aliança. O quartel-general da CENTO deveria ser instalado em Bagdá, mas, em 1958, o regime monárquico iraquiano, que gozava de forte apoio britânico, foi derrubado por um golpe militar. O governo que se seguiu mostrou, desde o início, fortes traços nacionalistas e uma intransigente oposição à Grá-Bretanha, aos EUA e ao Irã. Dentre seus primeiros atos estiveram uma declaração de posição política “não-alinhada” e o estabelecimento de relações formais com a URSS, ao mesmo tempo que promovia a própria saída do pacto. Nesse momento, a cúpula da organização modificou o nome do tratado (até então “Organização do Tratado do Oriente Médio” ou METO, do inglês Middle East Treaty Organization), adotando a sigla CENTO. A sede foi então deslocada para Ancara (Turquia). Entretanto, as deficiências da aliança ficaram dramaticamente evidentes diante das crescentes tensões entre árabes e israelenses, ao longo dos anos 1960, e das rivalidades entre Índia e Paquistão. A CENTO mostrou-se incapaz de assumir um papel sequer moderador, nas duas situações. Em 1965 e 1971, o Paquistão tentou invocar a cláusula do tratado de Bagdá que estabelecia responsabilidades de defesa mútua entre os membros, mas o conselho da Aliança recusou-se a deliberar pela ajuda militar, sob o argumento que a aliança tinha como objeto a URSS, não a Índia. Quanto aos problemas com Israel nunca houve manifestação, visto que os principais estados-membros – EUA, Irã e Turquia – eram claramente simpáticos ao estado judeu. Em janeiro de 1979, com a Revolução Iraniana, uma das primeiras atitudes do regime moderado laico, que, liderado por Shapour Bakhtiar, tentou uma transição controlada, foi retirar o Irã da CENTO. Na prática, isso significou o fim da aliança, que acabou dissolvida pouco meses depois.

4. Em 1965 se iniciaram os ataques aéreos dos EUA contra o Vietnã do Norte, como represália pelo apoio deste último à insurreição no Vietnã do Sul. Entretanto, a capacidade anti aérea norte-vietnamita surpreendeu os norte-americanos e provocou, entre 1965 e 1967 três vezes mais perdas de caças-bombardeiros – e até mesmo dos enormes bombardeiros estratégicos B52 – do que tinha sido planejado. Os primeiros jatos a serem empregados foram os Republic F105 “Thunderchief”, grandes caças táticos com manobrabilidade muito limitada e enorme capacidade de transporte de armamento. A vulnerabilidade do F105 em altitudes baixas os tornou presas fáceis tanto da artilharia quanto dos MiG17 e 21. Logo essas aeronaves foram substituídas na primeira linha McDonnell-Douglar F-4H “Phantom II”. Originalmente uma aeronave multifunção embarcada, seu projeto baseava-se no McDonnell FH-1 “Phantom”, primeira aeronave a jato a ser operado a partir de navios aeródromos, em 1948. Os “Phantom II” eram configurados como aeronaves de dois lugares, com a maioria do armamento operado por um “oficial de sistema de armas” (WSO, do inglês “Weapons Systems Officer”), encarregado de operar os sistemas baseados no radar pulso Doppler AN/APQ72, e os mísseis ar-ar AIM7 “Sparrow” e AIM9 “Sidewinder”. Os “Phantom” mostraram-se capazes de engajar todos os tipos de aeronaves soviéticas fornecidas à Força Aérea da República Democrática do Vietnã.

5. O AIM7 Sparrow (“Pardal”) é um míssil de superioridade aérea projetado entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950. Adota a tecnologia de guiamento por radar semi-ativo (SARH, ou “Semi-Active Homing Radar”). O modo SARH implica que a aeronave perseguidora ilumine o alvo durante todo o vôo do míssil, mantendo o curso mais ou menos estável durante esse período. A aeronave se torna vulnerável, pois qualquer manobra mais brusca faz o míssil perder o alvo. O modo SARH não permite engajar alvos múltiplos, mas, ainda assim, foi, inicialmente considerado vantajoso, visto que o quase permanente mau tempo do teatro europeu, para o qual foi projetado, fornecia cobertura para a aeronave perseguidora. Ainda assim, o sistema nunca se mostrou ideal. No teatro aéreo do Vietnã, atuando contra oponentes bem-treinados, decididos e utilizando aeronaves altamente manobráveis, a porcentagem de acertos pelo Sparrow foi extremamente baixa, o que indicou com clareza os limites dessa tecnologia. Testes extensivos realizados entre 1974 e 1978 pela USAF, denominados AIMVAL/ACEVAL (Multiple Air-to-Air Combat/Short Range Air-to Air Missile), conduzidos em seqüência para avaliar conceitos de mísseis que apontariam o substituto do AIM-9L “Sidewinder” mostraram que o problema não era o AIM9, mas o Sparrow, considerado bastante ineficiente. Também ficou clara a necessidade de sistemas de engajamento múltiplo ou mísseis “inteligentes”, da categoria “atire e esqueça”, armamentos capazes de voar até o alvo utilizando meios incorporados ao próprio vetor.

6. A nova constituição do Irã, aprovada em dezembro de 1979, colocava a suprema autoridade na figura do “faqih”, “jurista justo e piedoso”. Este é escolhido pelo povo de Deus – representado pelo clero (os mullahs) –, entre os clérigos mais qualificados (os ayatollahs). O “faqih” teoricamente não intervém no governo civil, mas indica o “Conselho de  Guardiões”, que, por sua vez, supervisiona a indicação dos governantes –juízes supremos, comando das forças armadas, comando da Guarda Revolucionária e alguns dos ministros. Embora a chefia do Estado seja destinada a um Presidente, o “faqih” deve aprovar os candidatos, às eleições presidenciais e pode demitir o Presidente durante seu mandato, desde que este tenha sofrido impeachment pelo impeached by the “Majlis”.  O chefe do governo civil é o Primeiro Ministro, indicado pelo Presidente com a aprovação do “Majlis”.   Embora o “Mahjlis” tenha seja o poder supremo da República, na prática esse poder é dividido com o Conselho de Guardiões, que examina toda a legislação aprovada naquela câmara, de modo a assegurar que esteja de acordo como a lei islâmica.

7.  O apoio declarado do Ocidente ao regime iraquiano traduziu-se em treinamento e fornecimento de armamentos up-to-date. Os franceses viram a oportunidade e, aproveitando-se da relutância dos EUA em fornecer material de primeira linha ao Iraque, em função da proximidade do regime ba´athista com Moscou, entregaram dezenas de caças táticos Super Etendard e interceptadores Mirage F1. O F1 era em tudo superior aos MiG21, 23 e Sukhoi 20/22, tipos soviéticos mais comuns na Força Aérea do Iraque. Seu principal armamento era o míssil Matra R-550 “Magic”, capaz de alcançar alvos situados em angulo aberto com relação ao atacante, e alcance de até 10 quilômetros. Os Mirage iraquianos logo se mostraram superiores em qualquer condição, e as aeronaves iranianas começaram a evitar travar combate, situação inversa à do início do conflito.

8. O projeto “IDF” (do inglês Indigenous Defense Fighter, algo como “Caça de Defesa de Origem Nacional”) começou em 1982. Taiwan buscava modernizar sua força aérea, e mostrou interesse em receber o então recente General Dynamics F16 e o projetado Northop F20. Diante da recusa dos EUA, o AIDC (Centro de Desenvolvimento da Indústria Aeronáutica), entidade governamental destinada a implementar a indústria aeronáutica nacional, abriu o programa “IDF” em 1983. Este consistia em quatro projetos, desenvolvidos de modo coordenado, para desenvolver a estrutura (fuselagem, asas, estabilizadores e partes relacionadas), o turbojato, os aviônicos e um míssil ar-ar. Embora o governo norte-americano tivesse cedido à pressões do governo da China comunista para não vender armamento aos chineses de Formosa, permitiram e até indicaram que indústrias do parque aeronáutico estabelecessem acordos de coperação com a AIDC, inclusive para o desenvolvimento de um radar pulso Doppler. O primeiro protótipo voou em 1989, designado pelo Ministério da Defesa Nacional como “F-CK1”. O desenvolvimento mostrou-se muito mais problemático do que o previsto, com a indústria local se mostrando incapaz de fabricar alguns dos itens projetados com auxílio dos norte-americanos. Posteriormente, especulou-se, diante dos problemas encontrados no processo, que o governo dos EUA indicou os participantes do processo como forma de não permitir que Taiwan recorresse a outros parceiros, como Israel ou a França, o que implicaria na possibilidade de que o produto final excedesse as especificações apresentadas à China comunista como “seguras”: alcance e capacidade de armamento ar-solo similares às do F5E e do F16. O item que mais provocou problemas foi o Sistema Digital de Controle de Vôo, um conjunto integrado de hardware-software destinado a gerenciar a planta de potência, sistema “fly-by-wire”, sensores e armamento. O projeto acabou se arrastando por mais de dez anos, e resultou numa aeronave multifunção com similaridades ao F16 e F/A18, devido à assistência dada ao projeto pelas empresas fabricantes dessas aeronaves. As primeiras unidades fossem entreque à Força Aérea da República da China (ROCAF) em meados de 1994::

Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

Não tinha pensado nisso: planejamento estratégico fundamentalista::

O Oriente Médio não sai do foco. Ainda que não pretendamos pensar no caso (o redator:: bem que tentou, por bastante tempo…), aquele pedaço de terra volta ao campo de atençao. De fato, é difícil não pensar nele: nossa civilização nasceu lá, de fato, quando o povo judeu inventou o monoteísmo, depois um grupo de dissidentes (sempre eles) resolveu repensar a relação com o Céu; tempos depois, um judeu que recolhia impostos para os imperialistas da época descobriu que talvez fosse possível conciliar o inconciliável e, para completar a salada, passados mais alguns séculos, um jovem guardador de camelos saiu por aí (ou por lá, melhor dizendo) tentando – e conseguindo – convencer as pessoas que conversava com o único Deus.  E desde então, a humanidade, que adora pegar em armas, e o faz por qualquer causa::, não parou mais de se matar em nome dessas idéias.Examinemos algumas dessas questões – em partes, é claro, pois os ocupados frequentadores de causa:: não têm tempo para ler dez páginas de delírios do redator::

parte1/4É claro que o resumo acima é uma visão simplista que poderia ser entitulada “origens história mundial do ponto de vista das religiões”. Foi, entretanto, suficiente para colocar no espírito do redator:: uma idéia que, embora parecesse, de início, estapafúrdia, acabou mostrando-se bastante razoável: o fundamentalismo religioso pode ser fundamento de uma análise estratégica? 

Certamente foi, na época da expansão do Islã, entre o meio e o fim da Idade Média. Foi a época em que exércitos e navios saídos do Oriente Médio e da Turquia levaram as palavras do Profeta (aquele jovem guardador de camelos…) ao mundo, e legiões de novos fiéis foram convencidos – pelo brilho do Livro ou pelo excelente aço sarraceno. Posteriormente, a maioria das guerras européias da Idade Moderna, quando foram lançados alguns dos mais duradouros fundamentos da arte militar, tiveram parte de suas motivações baseadas na idéia de reformar a Cristandade, de modo a levar os homens de volta ao caminho de Deus – ou matar os que não concordassem em trilhá-lo. A mesma trajetória política que levou a 150 anos de guerras religiosas produziu, na Europa do século 18, a consolidação da separação entre Estado e religião. A idéia de que o bispo de Roma, chefe mundial da Igreja Católica, seria também preposto de um grande ditador onipresente e onisciente acabou relegada aos limites de uma praça-estado situada no meio de Roma. A direção dos estados – e de suas guerras – foi colocada sob a responsabilidade das lideranças formadas nesse espírito. Em prazo relativamente curto, essas lideranças empalmaram o poder de levar cidadãos, ou seja, todos aqueles vivendo sob um proclamado (e nem sempre praticado) “império da lei”, ao campo de batalha, quisessem estes ou não. A grande estratégia, ou seja, o modo como, modernamente, as nações mobilizam seus recursos de modo a alcançar seus objetivos políticos, deixou de levar a religião em consideração, embora esta continue a ser importante fator de mobilização ideológica.

Volta o redator:: ao ponto, para consideração dos oito ou nove leitores que aqui aparecem de vez em quando: a religião pode ser considerada aspecto de planejamento estratégico? Certamente, se a considerarmos fator de mobilização. Nos estados laicos criados pelo racionalismo e pelas revoluções burguesas do século 18, e que se consolidaram no século seguinte, a religião ainda hoje é fator de aglutinação das sociedades, em caso de guerra, real ou virtual. Não passamos 50 anos ouvindo que um dos motivos da Guerra Fria foi o ateísmo dos comunistas? Os soldados dos EUA não eram apresentados como a primeira linha de defesa da “civilização cristã-ocidental”? Pergunte a um cidadão médio norte-americano se ele não acredita que um dos motivos da superioridade conquistada pelos EUA é a disposição para o trabalho missionário, de “trazer almas para o Reino de Deus”. Os missonários sempre foram parte importante das frentes de expansão dos Estados ocidentais. Desde a “Companhia de Jesus”, criada no século 16 e estruturada em moldes militares (mas sem portar armas que não fossem a Cruz e a Bíblia), até os pregadores protestantes que percorriam a África na retaguarda (e – sejamos justos – muitas vezes na vanguarda) do exército britânico, a difusão da palavra de Deus abriu a porta para a penetração do “estilo ocidental”, seja ele lá qual for.

Embora se possa observar forte sinergia entre exércitos de missionários e de militares, na atualidade eles não se misturam, e isso é parte do “estilo ocidental”. Em última análise, prevalece a lei dos homens – ou do estado, por consenso dos cidadãos – sobre a lei de Deus. A lei do estado não pode ser desobedecida, sob pena de punição, enquanto a de Deus é seguida por decisão de “fôro íntimo”, como gostam de dizer os advogados. Ela não é fundamento para a imposição de obrigações civis, como a convocação militar. É, entretanto, fundamento para a “obrigação moral” de expandir a Palavra e lutar contra o ateísmo, por exemplo. Ou pela paz, ainda que a tiros. Por outro lado, a sinergia entre o “fôro civil” e o “fôro íntimo” observa-se quando o cidadão é chamado a lutar por seu modo de vida, que inclui a liberdade de praticar uma religião ou (pelo menos em teoria) o respeito à opção religiosa alheia. Boa parte da mobilização para a Primeira Guerra do Golfo (para não irmos muito longe no tempo) foi feita dentro de pequenos templos protestantes, nas cidadezinhas dos EUA. O próprio George Bush Sr. frequentou alguns cultos e falou neles sobre a necessidade de lutar pela liberdade no Oriente Médio.

Esse é o estilo ocidental. A idéia de um “reino” abrangente, governado pela lei e povoado por cidadãos “nascidos iguais” e governados com justiça, guarda fortes continuidade com as idéias cristãs surgidas no Oriente Médio. Sabemos, entretanto, que existem atualmente uma penca de estados estruturados em torno da lei de Deus: falamos, claro, dos estados islâmicos. A questão é como se dá a estruturação desses estados: o “Livro” (al´Koram) está na base do que chamaríamos de “sociedade civil” e regula as relações entre cidadãos. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao redator:: (que não tem a menor vocação para Ali Kamel) estabelecer – sugere-se perguntar a um cidadão da República Islãmica do Iran, ou do Reino Saudita. 

É notável que, nos últimos setenta anos, desde meados do século passado, movimentos políticos laicos tentaram liderar um redesenho do estado. Os partidos nacionalistas nos estados islãmicos, dos quais o nacionalismo iraniano, os diversos “baathismos” e o “Fatah” são bons exemplos, talvez tenham fracassado em função de certa incapacidade de limitar a presença da religião e de suas lideranças na vida civil. Fracasso compreensível: a religião, nesses lugares, molda as instituições de um modo que, vivendo em sociedades laicas, torna-se difícil conceber. O sistema escolar, por exemplo, é totalmente organizado e ordenado por agentes religiosos. O exemplo mais acabado disto são a “madrassas” sunitas, escolas religiosas cuja função é ensinar a Palavra do Profeta para a vida e formar sábios (um excelente texto sobre o tema, no falecido Weblog de Pedro Dória). Madrassas formam Fiéis, homens dispostos a seguir com retidão o caminho da Fé – ou, como dizem eles, do “Coração” (tradução quase literal da palavra árabe Islan). Um desses princípios e a expansão da Fé – o que é conhecido como Jihad. O seguidor de Deus é um jihadista, ainda que nem saiba distinguir entre o cano e a coronha de um AK47. Entretanto, em alguns lugares, como o Paquistão, as madrassas formam ativistas que levam a religião como bandeira. Como o Islã é, antes de tudo, a luta pela Fé, essa luta começa no interior dos próprios estados islãmicos, de modo a não permitir qualquer desvio dos Fiéis, principalmente quando esses Fiéis meio perdidos estejam no governo e queiram adotar um modo de vida que não se paute pela Lei verdadeira – aquela do “Livro”.

Ou seja: os estados islâmicos são formas ainda híbridas entre uma estrutura política formada por séculos de organização da vida cotidiana e das relações sociais com base na religião, e um modelo de certa forma copiado a partir das relações assimétricas com estados ocidentais, estabelecidas no século 19. Após a 1ª GM, com a substituição do Império Otomano por mandatos coloniais europeus, abriu-se o caminho para a formação de partidos nacionalistas ao estilo europeu, que logo se mostraram uma dor de cabeça para as potências mandatárias. Também foi nesse período que se formaram monarquias que aceitaram dividir o poder com os religiosos, desde que estes não se metessem nos assuntos de estado. Exemplos disso são a Arábia Saudita, a Jordânia e o Iraque. De modo algo diferente, também a monarquia marroquina do rei Hassan II, menos falado porque bem mais comportado e sem petróleo (como Arábia Saudita e Iraque) ou posição estratégica chave (como a Jordânia).

Mesmo ditaduras laicas extremamente violentas como a Síria, a Líbia ou – last but not least – o Iraque baathista, são produto desse hibridismo.  Nesses casos, o modo de enfrentar a religião foi fazer acordos, por um lado, e encanar os dissidentes religiosos, por outro, o que significou dar vantagens e tomar funções. No caso da Líbia, o projeto foi mais bem-sucedido que no Iraque, visto que na lá – como na Argélia francesa, outro caso de “sucesso” – os colonizadores europeus conseguiram formar um núcleo consistente de sociedade europeizada nas regiões urbanizadas da costa mediterrânica. Nesses estados, após a independência (muito menos problemática na Líbia – colônia italiana – do que na Argélia – colônia francesa), assim como na Síria (colônia francesa fortemente influênciada pelos ingleses), os grupos políticos que receberam ou tomaram o poder após as independências, herdaram esses núcleos ocidentalizados, dentre os quais se encontrava o exército e boa parte do serviço público.  Na Líbia, Muammar el Ghadafi, líder (cuja a ambição secreta deve de ser fundar um fã-clube de Cauby Peixoto) produzido em uma disputa política de facções, após tomar o poder, manteve certos privilégios dos religiosos, mas ao mesmo tempo os reprimiu fortemente. Paralelamente, “ocidentalizou” a vida social (trata-se do estado árabe onde a religião menos influencia a vida cotidiana) e transformou o Ocidente em espantalho. Ghadafi era um nacionalista de origem militar, em um exército formado ao estilo ocidental – sem mullahs dentro dos quarteis ou califas no comando – coisa que o coronel Gamal ab´del Nasser também era. Nasser tentou, bem antes, “ocidentalizar” o Egito, só que com sucesso relativo, já que precisava dos religiosos para enfrentar Israel. E, pior, sempre que enfrentava, perdia, o que fornecia mais munição para o discurso religiosos, que afirmavam ser a derrota produto do desvio do caminho da Fé.

Outro ponto que merece atenção é o fato de que essas ditaduras nacionalistas laicas (ou quase) utilizaram-se da disputa ampla da Guerra Fria para consolidarem suas posições. Isso era mais fácil para aquelas que dispusessem de algum trunfo – o petróleo, no caso de algumas, a posição estratégica, em caso de outras (a União Soviética se interessava mais por posição estratégica do que por riquezas minerais, o que levou à aposta na parceria com o Egito e a Síria). De qualquer maneira, é inegável que Nasser, seu sucessor Anwar el Sadat, Gadafi, o sírio Haffez al Assad e claro, Sadam Hussein tentaram, até certo ponto um meio nacionalista e socialista que criou grandes tensões internas, solucionadas pela via da repressão, por um lado, e de concessões à população, geralmente em detrimento da religião – o que acabava por criar mais tensão. O sucessor de Nasser, general Sadat, percebeu mais cedo que a parceria com a União Soviética criava um problema a mais para a sobrevivência do regime, e acabou optando por negociações em separado com os EUA, sobre a questão de Israel. Isso criou novos problemas: por um lado, uma fratura no bloco nacionalista laico (a Síria e a Líbia quase chegaram à guerra contra o país) e, por outro, problemas internos com os religiosos, que viam na aceitação Israel uma traição que colocava as lideranças como passíveis de condenação. Para esses movimentos não importa onde está o inimigo, se dentro ou fora. Na visão religiosa, o Islã funciona como uma espécie de duplo terreno e imperfeito de uma formação celestial, governada pela Lei (Sharia). Este é o conjunto de normas que o Fiel deve observar, elaborado por estudiosos, sobre questões do cotidiano. A base dessas interpretações é o Corão, em primeiro lugar, e os Hadith (os “bons ditos”, conjunto de observações do Profeta sobre assuntos diversos, e que incluem sua biografia). A comunidade do Islã é formada pelo conjunto dos Fiéis, e não propriamente por cidadãos de estados nacionais. A Lei deve ser, pois, observada inclusive pelos governantes, que, se a transgridem, desautorizam a si mesmos diante de Deus – ou seja, da comunidade do Islã::

Uma lambança às quartas::Uma flotilha de problemas::

Oficialmente, causa:: ainda não encerrou o mês de comemorações do final da 2ª GM. Os maiores especialistas no tema dizem que a configuração do mundo atual é produto, dentre outros motivos, do resultado da 2ª GM. Se é verdade, eis mais um motivo para amaldiçoarmos, em alto e bom som, o fascismo. Se Hitler tivesse feito sucesso como arquiteto ou pintor, é possível que hoje não estivéssemos tendo de aturar os frequentes insultos dos governantes do estado de Israel contra nossa inteligência. Os mais recentes dizem respeito à lambança praticada por seus estrategistas em águas internacionais, tendo como móvel meia-dúzia de navios mercantes carregados de carga não-bélica e boas intenções. E o redator:: não estaria tendo de rever um de seus mais preciosos conceitos: a competência das IDF (sigla de Forças de Defesa de Israel, em inglês). Mas como causa:: é, sobretudo, um blogue carregado de wishful thinking, tentemos fazer desse limão, uma limonada: estamos lançando uma nova coluna (que provavelmente se juntará à todas as outras que não deram certo…): Uma lambança às quartas:: (que, como é de praxe, pode sair – se sair – quinta, sexta… Sábado…). Claro que assunto não faltará: da Baía de Baffin ao Estreito de Magalhães, das ilhas Sacalinas à Baía de Guantánamo, lambança é o que as potências, reais ou pretensas, mais aprontam… 

Em diversas oportunidades, este blogue/recurso de pesquisa já explicitou que não tem posição política. Nos damos bem com blogues de todo o espectro político, desde a direita hidrófoba (que, claro, nunca se admite como tal) até a esquerda mais delirante (que claro, faz questão de se admitir como tal). Assim, causa:: se limita aos assuntos técnicos em torno dos grandes temas de interesse de estrategistas amadores, pesquisadores de história militar amadores, bem como outros amadores das mais diversas categorias que passam por aqui. Já apareceram nessas páginas virtuais muitos textos que abordam questões ligadas ao Oriente Médio e, por certo, Israel aparece em alguns. Nenhum, entretanto, tem por objetivo tomar posição, contra ou a favor. Entretanto, como observador (amador, claro) de política e relações internacionais, o redator:: não consegue deixar de se perguntar: onde estavam com a cabeça os governantes de Israel ao permitir que suas forças “de defesa” cometessem tal desastre? 

É certo que a Marinha de Israel (alguns dados gerais sobre a força, aqui) sempre foi, dentre os três ramos das IDF, o mais fraco. Sua história se inicia na época em que a Agência Judaica tentava enviar, da Europa, colonos judeus que se fixariam na Palestina e buscariam uma posição de força para o momento em que o Mandato Britânico se encerrasse. Lá ia o ano de 1938. Durante a 2ª GM, cento e poucos voluntários se juntaram à Marinha Britânica, atuando principalmente em ramos técnicos (eletrônica e mecânica, principalmente) – poucos estiveram em combate. Depois da fundação do estado de Israel, em 1948, a força naval israelense manteve-se como uma força de defesa costeira, com capacidade ofensiva quase nula. Durante a Guerra dos Seis Dias sua atuação limitou-se a algumas incursões contra a costa do Egito. Poucos meses depois, o “incidente Eilat” seria marcante na trajetória da Marinha de Israel: sua principal unidade, o contratorpedeiro-de-escolta “Eilat“, foi afundado numa ação de lanchas-patrulhas egípcias, ao largo de Port Said. Embora o incidente tenha sido abafado na época, com a ajuda das agências de imprensa norte-americanas, teve forte impacto na população em geral e na Marinha de Israel. Até então, população e governo israelenses davam pouca importância ao poder naval, visto que a principal influência, na região, era das marinhas norte-americana e soviética. A principal potência naval regional, a Turquia, mantinha, então, boas relações com o estado judeu. O “incidente Eilat” mostrou que, no estado em que se encontrava sua marinha, Israel não tinha o controle nem mesmo das águas adjacentes. O estado-maior das IDF começou, então, a desenvolver planos que focavam navios de pequeno porte, adequados ao combate de mísseis, capazes de bloquear a costa israelense e incursionar contra a costa dos principais estados árabes adversários – na época, Síria e Egito. Táticas e técnicas que possibilitassem esse tipo de atuação começaram a ser desenvolvidas, bem como vetores de armas capazes de cumpri-las. Foram adquiridos na França alguns navios-patrulha rápidos classe Sa´ar 2 (concebidos em Israel com base em um desenho alemão) e projetado, no próprio país, o míssil superfície-superfície Rafael. Em 1973, a mudança de foco mostrou resultados no encontro de Baltim-Damietta, contra um grande grupo de lanchas-patrulhas egípcias, durante a guerra do Yom-Kippur. Essa “mini-batalha naval” marcou uma espécie de redenção do “incidente Eilat”. Desde então, a Marinha de Israel transformou-se numa força de porte médio, dotada de meios modernos, centrados em corvetas e submarios. A ação diante de Gaza mostrou que a força naval tornou-se agente ativo na execução da “política de defesa” de Israel.

O problema é que essas políticas começam a se tornar contraproducentes. Atualmente, um dos eixos dessa política é o bloqueio de Gaza (maiores informações aqui), estabelecido em 2007. Inicialmente, essa ação tinha como alegação a tomada do poder na região pelo grupo islâmico fundamentalista de orientação sunita Ha´mas (acrônimo de Harakat Al-Muqawama al-IslamiaMovimento de Resitência do Islã), considerado por quase todos os governos interessados na questão como terrorista. Desde os anos 1980 gente ativo da questão da autonomia palestina, ora opositor, ora aliado do partido laico Fatah, o Ha´mas é visto com grande desconfiança pelas principais potências ocidentais, que não o aceitam como interlocutor político. Isolado, o Ha´mas acabou por abrir uma brecha para o aumento da influência iraniana sobre as atividades da militância palestina. O governo da Fatah na Cisjordânia mantem-se prudentemente distante dos iranianos, visto que busca o apoio da comunidade internacional para a causa do estado palestino. Em função dessa busca de apoio, o partido Fatah já aceita a convivência pacífica com o estado de Israel. O que não é o bastante – essa questão é mais ampla e problemática. Desde os anos 1960, e particularmente, da Guerra dos Seis Dias, os setores conservadores política israelense apoiam-se nos partidos religiosos que vêem com grandes ressalvas a criação de um estado árabe ocupando o que é, em geral, considerado como “a terra de Israel” (Eretz Israel), a região de Canaã, prometida por Deus ao “povo escolhido”. Esse é um fator que leva a questão palestina a um impasse, em função da exigência dos fundamentalistas judeus que parte da região fique sob controle de cidadãos de Israel, na forma de colônias povoadas por ortodoxos ligados aos partidos religiosos. Em Gaza o problema se torna mais sério: se o partido Fatah se dispõe a negociar uma saída política, a região um estreita faixa de terra de 41 kms de comprimento por 12 kms de largura, que consegue ser ainda mais pobre do que a Cisjordânia, o Ha´mas é o governo de fato – e não se mostra disposto à negociação, mas ao confronto (basta citar o caso dos foguetes Qassam). O governo de Israel, por outro lado, parece sentir-se autorizado, em função das restrições internacionais ao Ha´mas, a aplicar uma política que acaba por penalizar um povo que já vive no limite da sobrevivência.

No último dia 31 de maio, essa política de busca do confronto teve um desdobramento inesperado: pelo menos nove pessoas morreram  em uma ação militar israelense contra um grupo de pequenas embarcações que tentava desembarcar em Gaza gêneros de primeira necessidade. As versões são totalmente contraditórias, mas de concreto foi estabelecido, pelo autópsia realizada na Turquia, que os mortos foram atingidos por disparos de armas automáticas, pelo menos dois deles atingidos à queima-roupa. Embora Israel tenha, inicialmente, mostrado intenção de tratar todos os presos como potenciais terroristas, a falta de elementos e a ação injustificada diante do direito marítimo internacional, bem como a arrogância da postura das autoridades locais acabou por levantar uma onda, aparentemente inesperada em Israel, de protestos internacionais. Aparentemente incapaz de responder satisfatoriamente aos pedidos de explicação de inúmeros governos estrangeiros, o governo de Israel acabou por decidir pela atitude menos danosa: centenas de ativistas presos foram rapidamente deportados. Essa atitude não impediu o Conselho de Segurança da ONU de emitir declaração pedindo que o caso seja investigado de forma “imparcial, crível e transparente”.

Ao que parece, a abordagem dos navios visava dar reforçar a posição de Israel quanto ao bloqueio e à sua política palestina – não admitir nenhum tipo de apoio aos partidos palestinos que não passe por seu próprio projeto: um estado palestino com autonomia apenas parcial. Também parece ter buscado mostrar a admissão de interlocução apenas com governos. O uso de meios e força desproporcionais parece que visava reforçar a política de bloqueio total a Gaza, e marcar que qualquer tentativa de contato direto seria encarada como ato hostil, independente da procedência e das proporções. O ataque à “Flotilha da Liberdade” teve, proporcionalmente, a mesma intencidade da operação militar contra Gaza, em janeiro de 2009. Mas se o resultado daquela ação já foi duvidoso, o dessa foi um desastre. O ataque trouxe resultados inversos aos pretendidos, e abriu espaço para uma debate internacional totalmente indesejado, mesmo entre os aliados de Israel, que começaram a fazer associações diretas entre o bloqueio e a realidade observada em Gaza. Pior: as ações militares do governo de Israel passaram a ser tratados abertamente como “terrorismo de Estado”. Israel passou a ser cobrado pela situação de direitos humanos naquela região, até mesmo – ainda que, nesse caso, de forma ainda tímida – pelo governo dos EUA. Aliados tradicionais de Israel, tais como a Turquia, ameaçaram rever acordos de parceria e o apoio diplomático ao estado judeu, em fóruns internacionais. Segundo alguns analistas, o principal erro de avaliação de Israel foi a demonstração de indiferença ao Direito internacional, que se caracterizou com a abordagem não avisada dos navios em águas internacionais. Os acordos observados em tempo de paz negam tal autoridade a qualquer estado, salvo alguns casos específicos. Analistas, inclusive alguns reverberados pela própria imprensa de Israel, afirmaram que a “Flotilha da liberdade” não se enquadra em nenhuma dessas excessões. Segundo analista norte-americano, a operação visava provocar danos letais pois o uso de armas automáticas em locais restritos não é observada em método de controle de multidões. Essa constatação é agravada pelo fato de que dificilmente tiros instintivos atingem o alvo na cabeça. Qualquer força militar medianamente treinada e disciplinada dispõe de meios não letais que preservam, sem perder a eficiência, a integridade física de ambos os lados – munição de borracha, gás lacrimogênio, gás de pimenta, armas paralisantes, bombas de efeito moral – a lista é imensa e a força atacante não levava nenhum deles.

Foi, pois, um tiro no pé. Qualquer um que leia jornais diários sabe o quanto é difícil fazer cobranças ao estado de Israel, dado o apoio incondicional que esse país tem dos EUA. Entretanto, o atual governo norte-americano parece empenhado em recuperar, pelo menos parcialmente, a credibilidade internacional, perdida ao longo dos anos da presidência Bush. Além das relações com a Turquia, país por onde passam a maior parte das linhas de suprimento para as forças dos EUA no Afeganistão, além do perigo de tais atitudes fornecerem munição aos movimentos fundamentalistas, os norte-americanos se encontram empenhados em conseguir fazer passar na ONU sanções ao Irã, em função de suposto programa  de pesquisas nucleares bélicas. A antipatia internacional por Israel, proclamada em alto e bom som por dezenas de nações que viram seus cidadãos inculpados como terroristas e seus apelos arrogantemente descartados pelas autoridades judias certamente não ajuda a diplomacia norte-americana, principalmente considerando-se o fato de que a Turquia é um dos principais opositores as sanções pretendidas::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

O rapaz é bem conhecido. Gostemos ou não, temos de admitir – um tremendo organizador (também… aprendeu com os melhores – os norte-americanos). Ao fundo, sua arma favorita: AKS74U, versão do AK74 distribuída ao exército russo a partir dos anos 1990, facilmente reconhecível pelo freio de boca. Foi desenhada especialmente para forças especiais, com o alcance notavelmente menor do que o das versões convencionais, devido ao encurtamento do cano, que, nessa versão, tem apenas 210 mm. O desempenho geral em distâncias maiores que 200 metros é pobre, e a arma chega a ser considerada, por algumas fontes especializadas, como uma submetralhadora.

Datas relevantes de causa::O Irã dos aiatolás se torna balzaquiano::

O blogue das boas causas anda meio devagar, em função das muitas atividades que o redator cumpre, e que por vezes cobram seu preço, em tempo e concentração. Entretanto, não o blogue não podia deixar de acender umas velinhas (31, mais exatamente) para a passagem, em Primeiro de Fevereiro, de mais um aniversário da Revolução Islâmica no Irã. De fato, é uma data que também deveria ser comemorada nos EUA, mais particularmente nos salões de festas secretos da CIA e da menos votada Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês – responsável pelo monitoramento de comunicações eletrônicas e operações de inteligência eletrônica – ELINT/SIGINT).  Uma festa dessas certamente reuniria um monte de gente, viva e morta: Jimmy Carter e Zbigniew Brzezinski, Richard Helms (diretor da CIA nos governos Johnson e Nixon), Henry Kissinger, Saddam Hussein, os executivos das companhias de petróleo, e por aí vai.  É interessante observar que, se o mundo for justo (e sabemos que é…), o aiatolá Ruhollah Khomeini, sua trupe de radicais e até mesmo os atuais espantalhos-mores iranianos, o aiatolá Khamenei e o presidente iraniano Ahmedinejad também estariam lá, comendo bolo. Entretanto, como essa festa não vai acontecer, causa:: catou na Internet um excelente artigo publicado no blogue do jornalista especializado em relações internacionais Argemiro Ferreira. O blogue de Ferreira é parada obrigatória deste humilde redator, pela qualidade das análises que apresenta. Passemos à leitura.

O artigo começa interessante já no título – BLOWBACK. Este termo designa, em inglês, a ação do gás gerado pela detonação da carga de propelente de um cartucho ou foguete, que provoca o recuo da arma, no caso de um tiro, ou uma chama de expansão rapidíssima e extremamente quente, no caso de um foguete. Os oito leitores de causa:: talvez lembrem daquela língua de fogo que se sucede ao disparo de um RPG7/7B. Embora nunca tenha pensado no assunto, o redator imagina se a expressão também não teria o significado da nossa “tiro no pé”. Se não tem, deveria ter. É a mais adequada definição para os resultados da atuação norte-americana naquelas plagas.

Posteriormente, causa:: tecerá alguns comentários que são mais da praia que frequenta – a análise militar. Argemiro comete alguns deslizes, nesse campo, mas que nem chegam a arranhar a blindagem de sua erudição::

A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?::

A trégua foi declarada unilateralmente pelos dois oponentes, o que parece um paradoxo. E é: tanto Israel quanto o Hamas consideram que “o outro lado” ainda está em posição beligerante, embora, tecnicamente, não haja guerra…E os dois lados estão mesmo. É difícil de entender, mas para infantes israelis, militantes do Hamas e os civis dos dois lados, pelo menos é possível relaxar. E, para nós aqui, é possível voltar a uma tentativa de análise minimamente desapaixonada.

 

O redator fanático por tecnologia e doutrinas militares tentará incursionar pela política e pela história – embora reconheça que tem gente mais qualificada para tanto… No caso desse caldeirão que é o a Palestina, pode-se até escolher uma data e um evento. Todos eles se misturam para delinear a tragédia atual. Vamos então escolher uma e ir adiante.

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Consideremos então a Guerra dos Seis Dias, entre os dias 5 e 10 de junho de 1967.  Num exemplo brilhante de guerra de movimento, Israel derrotou os exércitos do Egito, Síria e Jordânia, ocupou a Península do Sinai e Faixa de Gaza, do primeiro, a Cisjordânia e o setor oriental de Jerusalém, da segunda e as colinas de Golã, da terceira. O mapa geopolítico do Oriente Médio viu mudar o traçado estabelecido entre 1948 e 1956. De quebra, o embargo de armas pelos tradicionais fornecedores europeus, particularmente a França, tornou a nação judia ainda mais dependente da simpatia americana. E abriu o problema dos territórios árabes ocupados. Pode-se dizer que Israel ganhou a guerra e perdeu a paz.

Essa vitória inaugurou o mito da invencibilidade israelense. Segundo se costuma ler por aí (existem muito material acessível na Internet…), depois de uma série de provocações da Síria, estimuladas pela União Soviética, o presidente da República Árabe Unida, Nasser, pediu a retirada da força de paz das Nações Unidas na Península do Sinai (estava lá desde 1956) e fechou o Estreito de Tiro, em 22 de maio, bloqueando o acesso marítimo israelense ao Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, grandes deslocamentos de tropas egípcias da RAU colocaram exércitos às portas de Israel num total de mais de 600.000 efetivos. O governo israelense tomou essas ações como atos de guerra e lançou um ataque aéreo preventivo, destruindo as forças aéreas inimigas no solo, em menos de três horas.

Neste primeiro dia, os árabes perderam mais de 400 aviões; Israel perdeu 22, abatidos pela defesa anti-aérea. Privando o adversário de apoio aéreo aproximado, adquiriu uma vantagem decisiva nas batalhas de movimento acontecidas em seguida, no deserto. Embora a superioridade numérica árabe fosse teoricamente esmagadora, a situação tática era totalmente favorável aos judeus. A hipótese de destroçar as forças de defesa árabes não tinha sido considerada até então, mas a desorientação que se seguiu, particularmente no Egito, levou a que as Forças de Defesa de Israel considerassem afastar os adversários de suas fronteiras, ocupando parcelas do território daqueles.

Assim, as forças blindadas e a infantaria motorizada de Israel deslocaram-se rapidamente para a Península do Sinai e Faixa de Gaza, cercando a maioria do exército egípcio, que se viu isolado de suas bases – naquele momento debaixo de forte pressão pela Força Aérea de Israel – e sem acesso a reforços e suprimentos. No segundo dia, quando o desastre já estava desenhado, o presidente do Egito telefonou ao rei Hussein, encorajando-o a lutar, alegando que as forças egípcias estavam penetrando o território de Israel desde a manhã daquele dia. Nasser vinha recebendo informes incorretos de seu Estado-maior, que não queria admitir a falta de informações e a confusão na linha de frente. A Jordânia acabou derrotada em pouco mais de 24 horas, mas foi o único dentre os aliados árabes que ensaiou ações ofensivas contra Israel e, nos últimos dois dias, conseguiu impedir que Israel tomasse Aman.

O resultado foi a ocupação da metade oriental de Jerusalém e a Cisjordânia.

A Jordânia não era o adversário principal, e Israel apressou-se a aceitar o cessar- fogo proposto pelas Nações Unidas. A ofensiva jordaniana tinha obrigado as FDI a dividir forças. Acordado o cessar-fogo, Israel tratou de redirecionar forças blindadas e infantaria para o Sinai, iniciando uma grande ofensiva no final do dia seguinte, concentrando com três brigadas blindadas, duas motorizadas e uma de paraquedistas, além de grande quantidade de infantaria convencional (transportada em todos os veículos motorizados que podiam andar, em Israel, boa parte deles dirigidos por civis convocados às pressas). Debaixo do forte embargo europeu, Israel tinha problemas de suprimentos, principalmente gasolina e lubrificantes, importados em grande quantidade da Itália. Assim, a guerra só poderia durar poucos dias. Todos os recursos das FDI forma lançados no Sinai. Os egpcios recuaram desordenadamente para a margem oriental do Canal, abandonando virtualmente todo seu equipamento. No final do dia 10, as FDI controlavam toda a Península do Sinai e o Egito aceitou o cessar-fogo. A Síria aceitou em seguida, o que para Israel foi providencial, visto que as bem entrincheiradas forças sírias, aferradas ao terreno acidentado da região, ofereceram maior resistência do que era esperado.

Foi realmente uma vitória avassaladora: a guerra foi decidida em quatro dias, e somente não acabou antes devido à inesperada resistência do exército jordaniano (Israel não esperava que o rei Hussein cerrasse fileiras com seus parceiros republicanos e nacionalistas). O resultado lançou a população de Israel num estado de euforia coletiva. O esfacelamento da coalizão árabe trouxe, como uma espécie de “bônus extra” a conquista do setor árabe de Jerusalém e de todo o território da “Israel Bíblica”, e estimulou interpretações religiosas da guerra e a fantasia de uma “Grande Israel”, estabelecida no território bíblico.

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Pois é, essa passou a ser uma fonte de problemas, ou, quem sabe, uma das fontes de problemas… Em breve, vamos, continuaremos o assunto. Não é pouco assunto…