O estranho caso do aviãozinho iraniano::De como a vontade política é a chave para a aquisição de tecnologia::

Quando um país está preparado para “absorver tecnologia”? Essa idéia me ocorreu quando a partir do comentário do assíduo Renato Berlim1, em torno de observação do último post sobre a novela FX. Escreveu ele que “entre o F-5 iraniano e nossos F-5M creio que sou mais a versão brazuca. Os iranianos sào geniais para manter equipamento funcionando, mas não faço a menor idéia da eficiência dos projetos deles.” Boa observação, mas… O aviãozinho iraniano é um projeto novo, fruto de “engenharia reversa” feita no F5E, dos quais eles ainda devem ter talvez menos de uma centena de exemplares, remanescentes do tempo em que o Irã simpatizava com Israel – ou seja, põe tempo nisso. O que significa que Renato tem razão ao dizer que os iranianos são ótimos em manter equipamento de alta tecnologia funcionando. Mas o que é preciso para tanto? E o que é preciso para praticar “engenharia reversa”? Antes de mais nada, uma infra estrutura científica e tecnológica razoável – o que nós também temos. Mas também é preciso vontade política… Esta, bem… Resolvi, como sempre, e às custas de meu quase-inexistente tempo livre, pesquisar um pouco, e acabei levantando informações interessantes de como funciona a “vontade política”, e como são seus resultados. E, de quebra, acabei aprendendo muita coisa interessante sobre o F5 e sobre a Guerra Fria. A pergunta que eu não soube responder (e isto sempre acontece…) é se temos alguma lição a retirar daí. Espero que os dez assíduos se divirtam e tirem alguma conclusão::

Durante a primeira metade dos anos 1960, Reza Pahlevi, Xá do Irã desde os início dos anos 1950, mantinha estreito controle sobre o país. Pahlevi suprimiu a oposição organizada, matou ou baniu seus membros, eliminou a liberdade de imprensa e atribuiu poderes excepcionais à SAVAK, sua (para variar…) temida polícia secreta. O processo político era estritamente controlado, e tanto eleições quanto candidatos ao legislativo iraniano – o “Majlis” – eram supervisionados pelo governo. Naqueles tempos de Guerra Fria, nada disso era problema para o principal aliado do Xá, os EUA. A partir do fim da década, tendo como pano de fundo a “paz dos cemitérios” que reinava lá e com o beneplácito de sucessivos governos da superpotência, abriram-se anos de desenvolvimento econômico. Ao longo deste período, e sempre com apoio dos EUA, o regime iraniano fez grandes esforços para tornar-se potência regional.

Essa ambição não era novidade. No momento em que os britânicos, diante do esgotamento do império colonial e pressionados pelos EUA, começaram a deixar a região, o Xá deu trânsito, na segunda metade dos anos 1950, à suas intenções de substituir os antigos mandatários como fiadores da segurança da região do Golfo Pérsico. Desde o fim do regime nacionalista de Mohammed Mosaddeq (que tanta dor-de-cabeça deu ao Ocidente), os EUA viam no regime iraniano um aliado confiável. Essa confiança culminou, em 1972, com a decisão de Nixon de torná-los “parceiros preferenciais”, em função do crescente nacionalismo de países como o Iraque, da instabilidade dos regimes dos “estados do Golfo” e do pragmatismo do regime saudita. Somava-se a tudo isso o fato de que, dentre os regimes da região, o iraniano era o único a não antipatizar abertamente com Israel. Parte dessa aliança incluiu um plano do Xá em tornar o “Império Persa renovado” uma potência militar capaz de apoiar e implementar seus planos políticos para a região, assumindo papel de liderança na CENTO2. A partir de 1965, grandes compras de todos os tipos de armamento foram planejadas junto com os EUA, dentro de uma completa reestruturação das forças armadas. Até então essas eram organizadas em moldes britânicos: pouco mais que uma polícia colonial e, na prática, de baixissimo grau de aprestamento. No início dos anos 1970, um projeto de reestruturação da Imperial Força Aérea Iraniana foi elaborado com a assessoria direta dos EUA e base em produtos “de exportação” da indústria norte-americana. Naquela época, as considerações doutrinárias sobre a guerra em ambiência nuclear estavam levando à crescente especialização dos tipos de aeronaves postos em serviço3. Entre esses produtos “de exportação”estavam grandes números dos então novos Northrop F-5E “Tiger II”.

Este avião é um dos mais interessantes subprodutos da Guerra Fria. Seu desenvolvimento recua até 1954, quando a empresa Northrop foi consultada pelo governo dos EUA sobre a possibilidade de desenvolver uma aeronave capaz de atender às necessidades dos aliados menores, na Europa e Ásia. O objetivo era padronizar parcialmente o equipamento distribuído a esses países, sem sobrecarregar a indústria aeronáutica norte-americana. O estudo, entregue pela empresa após visitas a diversas forças aéreas, identificou a necessidade de uma aeronave “multifunção” de baixo custo e baixa complexidade, se materializou no projeto N-156F. Entretanto, um erro de avaliação da empresa levou a que o projeto fosse desenvolvido também para ser apresentado ao Exército dos EUA como aeronave de interdição. Em 1959, entretanto, o governo dos EUA, diante da disputa que de desenhou entre Exército e Força Aérea, vetou a utilização pela força terrestre de aeronaves de asa fixas, a não ser em funções altamente específicas. A Força Aérea, por sua vez, declarou não precisar de um caça tático com aquelas características. A aeronave acabou sendo desenvolvida em duas direções: o treinador avançado T-38 Talon (1961) e um projeto desenvolvido pela empresa como “iniciativa privada”: o programa “F5”. Em 1962, o Departamento de Defesa dos EUA escolheu o F5 para ser entregue a aliados estrangeiros periféricos, notadamente países sem indústria aeronáutica e com forças aéreas de porte pequeno/médio, através dos programas “de Assistência Militar” (MAP, em inglês Military Assistance Program) e “de Vendas Militares para o Estrangeiro” (FMS, em inglês, Foreign Military Sales Program). A aeronave resultante foi apresentada ao aliados secundários no âmbito da OTAN e da SEATO (Ásia), como moderna, versátil e de baixo custo: o F-5A Freedom Fighter (“Lutador da Liberdade”, trocadilho intraduzível com o sentido técnico de “caça” atribuído à palavra, em inglês).

O problema é que o F-5A tinha capacidade de combate ar-ar muito limitada e sequer chegou a ser concebido para receber um radar de controle de fogo – tratava-se, de fato, de um “caça-tático” (aeronave ligeira com funções de ataque ao solo). A versão “B”, biplace, foi apresentada como primariamente de treinamento, mas capaz de receber, no segundo posto, equipamento para missões mais sofisticadas de ataque. Em função do pequeno interesse internacional despertado pela aeronave, já que estavam disponíveis, no mercado, modelos mais poderosos e pouco mais caros (como o inglês Hawker “Hunter” e o francês Dassault “Super Mystére”), em 1965 a USAF decidiu aperfeiçoar uma doutrina para a aeronave, e enviou uma pequena quantidade de F-5A arrendados da fábrica para o Vietnã do Sul.

O programa foi chamado de “Operação  Skoshi Tiger” (a palavra japonesa Skosh significa “espaço restrito” ou “tempo restrito”). Os pilotos, que ficaram fascinados com a manobrabilidade do F-5 e sua capacidade de carregar armamento convencional, rapidamente passaram a se referir ao avião como “Tiger”. O programa “Tigre temporário” (era mais ou menos isso que a expressão queria dizer) teve, entretanto, implemento provocado por uma situação inesperada: a imprevista eficiência da defesa anti aérea do Vietnã do Norte, coordenada por especialistas soviéticos4. A USAF resolveu, repentinamente, adquirir todas as aeronaves previstas para abastecer o MAP/FMS, e que estavam encalhadas nos EUA. Era a solução possível para continuar as tarefas de contra insurgência (como as operações militares no Vietnã do Sul eram consideradas), e liberando aeronaves mais poderosas para os ataques ao Vietnã do Norte, sem desguarner postos de primeira linha no Japão e na Europa.

A aeronave foi preparada para utilizar os armamentos e a munição de uso mais comum no teatro do Vietnã do Sul: bombas de queda livre, de alto arrasto e lançadores de foguetes. Mas mesmo para os padrões das operações aéreas de contra-insurgência, os sistemas de transporte e entrega de bombas do F5 eram toscos, quando comparados aos de outras tipos utilizadas lá. A maior parte das missões era realizada com o piloto colocando o avião em mergulho suave sobre o alvo, e calculando a distância do alvo através da calculadora acoplada à mira ótica Norsight padrão, pouco diferente das adotadas durante a guerra da Coréia. Como o avião não tinha tomadas para reabastecimento aéreo, as missões eram realizadas com três tanques externo de 680 litros – o que comprometia fortemente a capacidade da aeronave em transportar armamento.

A experiência no Vietnã apontou que o F5A necessitava de maiores capacidades, inclusive de combate aéreo, que lhe dessem possibilidade de enfrentar adversários como o MiG17 e o MiG21, principais equipamentos fornecidos pela URSS a seus aliados e aos países sob sua influência econômica e militar. Ainda no Vietnã a aeronave recebeu uma tomada de reabastecimento sobre o nariz, placas de blindagem na barriga e pilones extras, que podiam ser removidos, sob as asas. Posteriormente, foram feitas importantes modificações nos aviônicos. A mira ótica fixa deu lugar a um computador de controle de armamentos, similar ao instalado nos A4 “Skyhawk”, e alguns aviônicos foram relacionados como equipamento potencial, embora não tivessem sido instalados. Algumas mudanças estruturais foram feitas, para aumentar a manobrabilidade. Essa aeronave foi redesignada “F5C”.

No final dos anos 1960, a Northrop apresentou um projeto que acrescentava ao F5A capacidade limitada de superioridade aérea: uma versão avançada designada F-5E “Tiger II”. Tratava-se de um programa denominado International Fighter Aircraft (IFA), que deveria rapidamente substituir os F-5A/C, principalmente na Força Aérea do Vietnã do Sul e em outras forças aéreas de aliados periféricos dos EUA. Neste novo tipo foi introduzido um turbojato mais potente, o General Electric J85-21, dotado de pós-queimador e com o desempenho implementado. Essa inovação, baseada na experiência de combate (o desempenho do F5A era considerado muito pobre) implicou em um completo redesenho da fuselagem, para receber o turbojato maior e tanques de combustível internos de capacidade aumentada. As asas também foram redesenhadas, tendo a superfície alar aumentada para suportar o maior peso do conjunto e implementar a manobrabilidade (que já era considerada muito boa). Uma modificação crucial foi a introdução de um radar semi-ativo tipo AN/APQ-153, “versão econômica” dos radares “pulso Doppler” em uso. Esta novidade deu ao caça a capacidade de utilizar o míssil de curto alcance AIM9 Sidewinder, mas não o AIM7 “Sparrow5, na época já considerado armamento de segunda linha.  Os dois canhões orgânicos Cadillac de 30 mm foram mantidos, dentro da filosofia, renascida na Força Aérea dos EUA depois do Vietnã, da capacidade de combate aéreo à curtíssima distância – o “dogfighting”. Uma versão biplace de treinamento/conversão, o F5F, também foi posta em produção, com menor capacidade interna de combustível e aviônicos menos sofisticados. Essa aeronave seria em princípio destinada à Força Aérea do Vietnã do Sul, mas com a retirada apressada dos norte-americanos da guerra, em 1973, o programa gorou, e os EUA ficaram atolados com mais de 300 unidades encomendadas – e pagas – em 1972. A solução foi oferece-las aos aliados periféricos, com uma novidade: aos capazes de produzir aviões foi oferecido o projeto completo e assistência para a instalação de linhas de produção – Canadá, Espanha e Suíça. À Coréia do Sul e Taiwan foi aberta a oportunidade de iniciar uma indústria local de aeronaves militares, com beneplácito, financiamento e tecnologia norte-americanos.

O Irã esteve entre as primeiras “potências regionais” a receber os F5E/F “Tiger II”. As primeiras unidades foram entregues em janeiro de 1974, vinte e oito F-5F, destinados a treinamento avançado e conversão. Nessa época, o Irã se desfez dos modelos F-5A e B, repassados a outras nações, com permissão dos EUA. Um total de 166 F-5E/F foram fornecidos ao regime do Xá, ao longo dos dois anos seguintes, compondo quase metade das vendas de aeronaves de combate feitas pela indústria dos EUA. Os caças e treinadores iranianos foram equipados com os mais avançados aviônicos disponíveis para o modelo: um sistema Litton de navegação inercial e um computador de controle de armamento.

Por volta de 1977, depois de 15 anos de resultados brilhantes, a economia iraniana começou a ter problemas. As tentativas de converter as rendas obtidas com o petróleo em um parque industrial, ao lado dos maciços investimentos na ampliação das forças armadas, acabaram por resultar em sérios problemas sociais. O programa de modernização do Xá também criou tensões com a sociedade tradicional iraniana, cuja cultura e valores eram baseados no Islamismo de vertente xiita. O aumento da repressão não chegou a diminuir a tensão, e as reformas políticas de 1975, que estabeleceram, por determinação de Pahlevi, um regime de partido único, resultaram na alienação das classes médias do processo político, empurrando largos setores de pequenos-burgueses educados para a oposição. Pahlevi estava consciente dos riscos que corria, mas contava com o apoio norte-americano. Em 1976, a eleição de Jimmy Carter para a presidência dos EUA e sua política de apoio e promoção dos direitos humanos acabou privando o regime iraniano de seu maior – e possivelmente único – apoio externo, tornando o regime ainda mais vulnerável à pressão internacional. Paralelamente a todos esses problemas, a oposição interna crescia, alimentada pelo aprofundamento da crise econômica.

Foi nessa época que começou a voltar à baila um nome que não era abertamente pronunciado no Irã desde 1963: o Ayatollah Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini. Lider da elite sacerdotal instalada em Qom, a cidade sagrada da vertente xiita do Islãmismo, Khomeini tinha sido preso naquele ano, após pronuciar violento discurso contra o Xá e seu regime. Depois de quase dez meses em prisão domiciliar, o religioso foi solto, apenas para ser novamente preso por “atividades subversivas” e “perturbação da paz”, praticadas durante suas pregações. Desta feita, o aiatolá acabou despachado para a Turquia. Cerca de um ano depois, em 1965, o regime iraquiano permitiu que ele se instalasse na cidade de sagrada de Najaf, onde permaneceu por treze anos. Apesar do compromisso de silêncio, logo Khomeini começou a atacar o governo iraniano, que considerava anti islâmico. Uma rede de opositores religiosos, apoiada por cléricos e fortemente baseada em mesquitas e comunidades religiosas começou a promover propaganda, que se tornava mais radical conforme a crise econômica se agravava. Khomeini começou a ser apresentado como líder de um estado islâmico reivindicado com cada vez maior intensidade, por todo o país. A situação foi se agravando até o ponto em que o Xá, no final de 1978, tentou abrir discussões com setores de oposição, sem sucesso, e acabou deixando o Irã, que viu a ascensão de um regime moderado liderado pelo político Shapour Bakhthiar. Entretanto, esse regime de transição durou apenas 36 dias, e acabou substituído pelo regime islâmico que perdura até hoje.

É interessante observar que a Imperial Força Aérea do Irã foi a primeira dentre as forças singulares a declarar abertamente adesão ao novo regime. No final do mês de janeiro de 1979, técnicos da Base Aérea de Khatami (sede dos F14 da IIAF) envolveram-se em uma conforntação com oficiais e, em 8 de fevereiro, graduados da Força declaram-se aliados de Khomeini; no dia seguinte, técnicos da Base Aérea de Doshan Tappeh, nas proximidades da capital iraniana, Teerã, se amotinaram. Em fevereiro de 1979, o regime de transição caiu e foi implantado um regime revolucionário. Em dezembro de 1979, junto com a aprovação de uma nova constituição, foi instituída a República Islãmica do Irã6.

O regime fundamentalista iraniano adotou uma rígida postura anti ocidental, o que resultou na proibição de comércio de armas, pela mioria dos países ocidentais. Esse embargo estendia-se ao fornecimento de peças de reposição de qualquer espécie para todos os equipamentos já entregues, o que causou problemas imediatos de manutenção para a frota de F-5E/F. O país não tinha capacidade, naquela época, de operar suas aeronaves mais modernas sem apoio dos fornecedores ocidentais, e os poucos técnicos iranianos qualificados no Ocidente passaram a ser vistos como não confiáveis. O regime islâmico promoveu diversas “limpezas” nas forças armadas, que as privaram de alguns dos quadros de maior especialização. Na força aérea, transformada em “Força Aérea da República Islâmica do Irã”, a decisão, tomada por muitos oficiais, de seguir o Xá para o exílio, praticamente a deixou sem condições de voar.

A República Islâmica do Irã logo se tornou um criador de problemas regional, já que o regime dos aiatolás não escondia sua intenção de exportar a revolução religiosa para outros países na área do Golfo Pérsico. O Iraque, com sua maioria xiita submetida à uma pretensa ditadura “socialista”, tornou-se alvo preferencial da propaganda iraniana, e o Irã se tornou um perigo de grandes proporções para o regime ba´athista. Logo começaram a ocorrer incidentes de fronteira, e em 22 de setembro de 1980, Saddam Hussein, sem aviso, lançou suas aparentemente bem organizadas forças armadas contra o Irã, realizando ataques aéreos contra bases da aviação e do exército iraniano, e abrindo uma frente da batalha de 700 quilômetros, ao longo da fronteira comum. Sadam, bem como seus apoiadores ocidentais, acreditava numa rápida vitória. O equívoco não poderia ter sido maior, E a guerra se arrastaria por oito anos.

Ambos os lados mostraram notável incompetência militar, e, neste quadro, o poderio aéreo não chegou a fazer diferença. O Irã, nesse particular, mostrou, de início, alguma superioridade, embora ambos os lados não tivessem sido capazes de estabelecer o domínio dos ares. Embora os pilotos iranianos mostrassem treinamento e motivação superiores aos de seus adversários, a desconfiança do regime xiita com relação a seus próprios militares acabou por provocar mais baixas do que conseguiram os iraquianos. Outra grande dificuldade do Irã era encontrar fornecedores de peças de reposição e munições para seu equipamento majoritariamente norte-americano. O número de F5E/F, como também dos McDonnell-Douglas F4 “Phantom” (por volta de 1980, o número de F4 e RF4 das versões D e E em disponibilidade, era calculado em 220 unidades) tornou-se crítico e, em 1983, caiu para algo em torno de 35 por cento do total original7.

A história do “aviãozinho iraniano” começa aí. Por volta de 1986, apenas 10 por cento dos F5E/F iranianos estavam em condições de vôo, e o Irã buscava peças de reposição onde quer que fosse possível, através de operações que envolviam contrabando de petróleo ou pagamento à vista. No fim da guerra, em 1988, talvez menos de uma dúzia dos “Tiger” estivesse em condições de vôo, mas haviam dezenas deles, danificados ou canibalizados, em estoque. Os técnicos iranianos começaram, então, a reconstruí-los. No processo, as peças eram revisadas e algumas delas, em mau estado, particularmente da fuselagem, asas e estabilizadores, começaram a ser refeitas. Não existem maiores informações de como os iranianos conseguiram desenvolver o projeto, mas é possível que tenham tido apoio dos chineses, que já foram bem sucedidos em praticar engenharia reversa com aeronaves de fabricação soviética. De fato, em 1997 foi noticiado que o Irã teria realizado testes de vôo com um caça tático similar ao F5E, denominado “Azarakhsh” (Em farsi, “relâmpago”). As informações sobre essa aeronave são desencontradas, e não existem sequer fotografias que a mostrem. Segundo informações divulgadas no Ocidente em 2000, trata-se de uma cópia em tamanho aumentado do F5E, equipada com aviônicos e radar russos. A revista especializada “Jane’s Internetional Defense Weekly” sugeriu que o protótipo iraniano parecia ser entre dez e quize por cento maior do um F5F e teria por função primária operações ar-terra. Entretanto, a análise de fotografias e material de TV divulgados pelos iranianos mostra que essa aeronave, de fato, não chegou a entrar em produção, e, possivelmente, não mais que dez unidades tenham saído da fábrica.

O “Saegheh 80” (“Trovão”, em farsi) é dado pelas publicações especializadas como um aperfeiçoamento do “Azarakhsh”. O sítio “não oficial” da Força Aérea da República Islâmica do Irã não fornece detalhes, apenas uma curiosa informação de que o desempenho da aeronave é semelhante ao do YF17. Esta é a notação do protótipo que deu origem ao caça naval F/A18, e poderia ser verificada em qualquer sítio especializado da Internet. Para além, mesmo os mais entusiasmados simpatizantes do Irã devem saber que uma tal proeza é impossível, nas bases que deve ter se dado o aperfeiçoamento do avião iraniano. Países bem mais capazes, cientifica e tecnicamente, que o Irã, e sem os problemas políticos deste, tiveram dificuldades em desenvolver aeronaves de primeira linha. Um exemplo que poderia ser estudado inclusive entre nós, aqui no Brasil, é o do desenvolvimento do F-CK de Taiwan8. A experiência dos chineses encontrou inúmeros obstáculos, ainda que Taiwan seja aliado preferencial dos EUA.

Não existem informações que esclareçam a introdução da empenagem dupla e das asas montadas sobre as tomadas de ar, com inclusão aletas estabilizadoras. Embora não sejam especificados exatametne quais são, é dado como certo que tenham sido introduzidos novos aviônicos, projetados com auxílio russo ou chinês, inclusive um radar de controle de fogo. A colaboração com esses países pode ter resultado em um produto que, mesmo não sendo de primeira linha, poderia tornar-se bastante eficaz, caso utilizado em conjunto com sistemas remotos de monitomento e controle. Não é possível, entretanto, estabelecer se a indústria iraniana teria capacidade de conduzir um projeto desses, ainda que com assistência estrangeira.  

Mesmo que o resultado do programa “Saegheh” seja apenas um desenvolvimento do F-5E com aviônicos e armamento melhorados, isso indica que o Irã estaria criando a capacidade de eventualmente romper com a dependência completa de fornecedores estrangeiros – porque independência total, esta é difícil de conseguir. Entretanto, o desenvolvimento de um setor de alta tecnologia é um passo a ser dado que começa, sem dúvida, com uma decisão política, dada a quantidade de recursos humanos e financeiros em que implica sua realização. E não é só isto: o estabelecimento de laboratórios e unidades industriais que compõem um setor de indústrias aeronáuticas, em um país, sempre será projeto difícil de coodenar e apresentando resultados apenas a longo prazo. Um primeiro passo precisa, entretanto, ser dado. O Irá o deu. O resto do caminho é uma incógnita.

 Notas notáveis para serem notadas e anotadas:: 

1. Operador de um blogue cujo único defeito, em minha opinião, é mudar de nome com demasiada frequência… (Na lista de indicações de causa:: ainda consta como “Um lugar para expor e trocar idéias”.) O blogue do Renato é mais voltado para especialistas em educação, mas sempre merece uma olhada devido às reflexões lá apresentadas sobre tecnologia da informação e cotidiano. O último abordou, tangencialmente, uma de minhas paixões: jogos de peças de montar. Ainda sou do tempo em que todo garoto de oito ou dez anos sonhava com um Mecbras, anunciado pelo “Tio Hélio” nas tardes televisivas-em-preto-e-branco de sábado. Era um brinquedo fabricado pela Estrela sob licença, caríssimo, cuja filosofia era mais ou menos a mesma dos trenzinhos elétricos Märklin e Leonel – o adulto compra para a criança e não deixa a coitadinha brincar.

2. Doutrina que enfatizava a necessidade de entregar armamento nuclear em alvos situados à grandes distâncias e fortemente defendidos, bem como interditar o espaço aéreo nacional contra incursões do mesmo tipo. O crescimento do tamanho e complexidade dos bombardeiros estratégicos, observado durante a Segunda Guerra Mundial, acentuou-se ao longo dos anos 1950, culminando com o surgimento de sistemas capazes manter-se em vôo durante períodos de 24 horas, desde que com reabastecimento aéreo. A existência desses sistemas no lado adversário levou ao aperfeiçoamento de interceptadores “de longa distância”, destinados a interditar o espaço aéreo dos EUA à aeronaves inimigas voando a grande altitude. Nessa época, a doutrina desenvolvida pelo Pentágono, sob supervisão de oficiais que haviam conduzido, em postos executivos (mas não no comando superior) a guerra aérea contra Alemanha e Japão, considerava que a próxima guerra seria rápida, utilizaria armas de destruição em massa e relegaria as operações de caráter tático ao segundo plano – o plano dos aliados periféricos. Essa doutrina, desenvolvida a partir da segunda metade dos anos 1950, desdobrou-se em dois eixos – por um lado o Pentágono, dirigido por Robert MacNamara, e por outro, a Força Aérea, comandada pelo general-de-exército Curtis E. LeMay – e acabou resultando em uma disputa entre duas visões, uma “econômica”, outra “militar”: a primeira enfatizava a “entrega” por mísseis de ataque instalados nos EUA e em submarinos; a segunda, a “entrega” por bombardeiros supersônicos extremamente complexos, capazes de atingir alvos dentro da União Soviética a partir do território dos EUA e a inviolabilidade dos EUA através de interceptadores “estratégicos”, que combateriam possíveis atacantes sobre o norte do Canadá e a região ártica. Exemplos interessantes e bastante acessíveis do pensamento estratégico e das doutrinas militares durante a Guerra Fria são os filmes “Limite de segurança” (Failsafe, de Sydney Lumet, 1964) e “Doutor Fantástico” (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, de Stanley Kubrik, 1964). O primeiro mostra, de modo tangencial, o debate entre “políticos” (os civis) e “militares”. Também é chocante, tanto quanto esclarecedor o documentário “Névoa da guerra” (Fogs of war, de Errol Morris, 2003),uma biografia intelectual e política de Robert McNamara. A compreensão dos desdobramentos da estratégia norte-americana nesse período é impossível sem a leitura dos livros de LeMay, que chegou a ser considerado “psicopata” por seus adversários: America is in Danger, de 1968 (publicado em português sob o título de “USA em perigo”) e Superfortress: The Story of the B-29 and American Air Power, de 1988.

3. A Organização do Tratado Central (em inglês, Central Treaty Organization, ou CENTO) originou-se no Pacto de Bagdá, que reuniu, em 1955, o Irã, o Iraque, Paquistão, Turquia e o Reino Unido. Seu principal objetivo era conter o avanço da União Soviética na região, constituindo uma linha de estados pró-ocidentais ao longo da fronteira sul da URSS. Embora os EUA não tivessem participado inicialmente, é possível dizer que foi a pressão norte-americana, traduzida em promessas de ajuda econômica e militar, que impulsionou a constituição da aliança. O pacto foi marcado, desde o primeiro momento por dissensões internas, pontuadas pelo forte nacionalismo que caracterizava os países membros, todos eles ex-colônias cuja autonomia era então recente. A principal dessas era a oposição contra a presença da Grã-Bretanha entre os membros, mas haviam também diferenças pontuais entre entre eles. Esses problemas internos contribuíram para que a CENTO nunca chegasse a se organizar de forma eficaz, e assim torna-la a menos bem-sucedida entre as alianças militares e políticas do período constituídas com base no modelo da OTAN. Diferente da Aliança do Atlântico, a CENTO não constituiu um comando militar unificado, e os membros não chegaram a permitir a instalação de bases militares ou de tropas estrangeiras em seus territórios nacionais. Era este um dos objetivos dos EUA e da Grã-Bretanha, e constituiu um entrave à efetividade da aliança. O quartel-general da CENTO deveria ser instalado em Bagdá, mas, em 1958, o regime monárquico iraquiano, que gozava de forte apoio britânico, foi derrubado por um golpe militar. O governo que se seguiu mostrou, desde o início, fortes traços nacionalistas e uma intransigente oposição à Grá-Bretanha, aos EUA e ao Irã. Dentre seus primeiros atos estiveram uma declaração de posição política “não-alinhada” e o estabelecimento de relações formais com a URSS, ao mesmo tempo que promovia a própria saída do pacto. Nesse momento, a cúpula da organização modificou o nome do tratado (até então “Organização do Tratado do Oriente Médio” ou METO, do inglês Middle East Treaty Organization), adotando a sigla CENTO. A sede foi então deslocada para Ancara (Turquia). Entretanto, as deficiências da aliança ficaram dramaticamente evidentes diante das crescentes tensões entre árabes e israelenses, ao longo dos anos 1960, e das rivalidades entre Índia e Paquistão. A CENTO mostrou-se incapaz de assumir um papel sequer moderador, nas duas situações. Em 1965 e 1971, o Paquistão tentou invocar a cláusula do tratado de Bagdá que estabelecia responsabilidades de defesa mútua entre os membros, mas o conselho da Aliança recusou-se a deliberar pela ajuda militar, sob o argumento que a aliança tinha como objeto a URSS, não a Índia. Quanto aos problemas com Israel nunca houve manifestação, visto que os principais estados-membros – EUA, Irã e Turquia – eram claramente simpáticos ao estado judeu. Em janeiro de 1979, com a Revolução Iraniana, uma das primeiras atitudes do regime moderado laico, que, liderado por Shapour Bakhtiar, tentou uma transição controlada, foi retirar o Irã da CENTO. Na prática, isso significou o fim da aliança, que acabou dissolvida pouco meses depois.

4. Em 1965 se iniciaram os ataques aéreos dos EUA contra o Vietnã do Norte, como represália pelo apoio deste último à insurreição no Vietnã do Sul. Entretanto, a capacidade anti aérea norte-vietnamita surpreendeu os norte-americanos e provocou, entre 1965 e 1967 três vezes mais perdas de caças-bombardeiros – e até mesmo dos enormes bombardeiros estratégicos B52 – do que tinha sido planejado. Os primeiros jatos a serem empregados foram os Republic F105 “Thunderchief”, grandes caças táticos com manobrabilidade muito limitada e enorme capacidade de transporte de armamento. A vulnerabilidade do F105 em altitudes baixas os tornou presas fáceis tanto da artilharia quanto dos MiG17 e 21. Logo essas aeronaves foram substituídas na primeira linha McDonnell-Douglar F-4H “Phantom II”. Originalmente uma aeronave multifunção embarcada, seu projeto baseava-se no McDonnell FH-1 “Phantom”, primeira aeronave a jato a ser operado a partir de navios aeródromos, em 1948. Os “Phantom II” eram configurados como aeronaves de dois lugares, com a maioria do armamento operado por um “oficial de sistema de armas” (WSO, do inglês “Weapons Systems Officer”), encarregado de operar os sistemas baseados no radar pulso Doppler AN/APQ72, e os mísseis ar-ar AIM7 “Sparrow” e AIM9 “Sidewinder”. Os “Phantom” mostraram-se capazes de engajar todos os tipos de aeronaves soviéticas fornecidas à Força Aérea da República Democrática do Vietnã.

5. O AIM7 Sparrow (“Pardal”) é um míssil de superioridade aérea projetado entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1950. Adota a tecnologia de guiamento por radar semi-ativo (SARH, ou “Semi-Active Homing Radar”). O modo SARH implica que a aeronave perseguidora ilumine o alvo durante todo o vôo do míssil, mantendo o curso mais ou menos estável durante esse período. A aeronave se torna vulnerável, pois qualquer manobra mais brusca faz o míssil perder o alvo. O modo SARH não permite engajar alvos múltiplos, mas, ainda assim, foi, inicialmente considerado vantajoso, visto que o quase permanente mau tempo do teatro europeu, para o qual foi projetado, fornecia cobertura para a aeronave perseguidora. Ainda assim, o sistema nunca se mostrou ideal. No teatro aéreo do Vietnã, atuando contra oponentes bem-treinados, decididos e utilizando aeronaves altamente manobráveis, a porcentagem de acertos pelo Sparrow foi extremamente baixa, o que indicou com clareza os limites dessa tecnologia. Testes extensivos realizados entre 1974 e 1978 pela USAF, denominados AIMVAL/ACEVAL (Multiple Air-to-Air Combat/Short Range Air-to Air Missile), conduzidos em seqüência para avaliar conceitos de mísseis que apontariam o substituto do AIM-9L “Sidewinder” mostraram que o problema não era o AIM9, mas o Sparrow, considerado bastante ineficiente. Também ficou clara a necessidade de sistemas de engajamento múltiplo ou mísseis “inteligentes”, da categoria “atire e esqueça”, armamentos capazes de voar até o alvo utilizando meios incorporados ao próprio vetor.

6. A nova constituição do Irã, aprovada em dezembro de 1979, colocava a suprema autoridade na figura do “faqih”, “jurista justo e piedoso”. Este é escolhido pelo povo de Deus – representado pelo clero (os mullahs) –, entre os clérigos mais qualificados (os ayatollahs). O “faqih” teoricamente não intervém no governo civil, mas indica o “Conselho de  Guardiões”, que, por sua vez, supervisiona a indicação dos governantes –juízes supremos, comando das forças armadas, comando da Guarda Revolucionária e alguns dos ministros. Embora a chefia do Estado seja destinada a um Presidente, o “faqih” deve aprovar os candidatos, às eleições presidenciais e pode demitir o Presidente durante seu mandato, desde que este tenha sofrido impeachment pelo impeached by the “Majlis”.  O chefe do governo civil é o Primeiro Ministro, indicado pelo Presidente com a aprovação do “Majlis”.   Embora o “Mahjlis” tenha seja o poder supremo da República, na prática esse poder é dividido com o Conselho de Guardiões, que examina toda a legislação aprovada naquela câmara, de modo a assegurar que esteja de acordo como a lei islâmica.

7.  O apoio declarado do Ocidente ao regime iraquiano traduziu-se em treinamento e fornecimento de armamentos up-to-date. Os franceses viram a oportunidade e, aproveitando-se da relutância dos EUA em fornecer material de primeira linha ao Iraque, em função da proximidade do regime ba´athista com Moscou, entregaram dezenas de caças táticos Super Etendard e interceptadores Mirage F1. O F1 era em tudo superior aos MiG21, 23 e Sukhoi 20/22, tipos soviéticos mais comuns na Força Aérea do Iraque. Seu principal armamento era o míssil Matra R-550 “Magic”, capaz de alcançar alvos situados em angulo aberto com relação ao atacante, e alcance de até 10 quilômetros. Os Mirage iraquianos logo se mostraram superiores em qualquer condição, e as aeronaves iranianas começaram a evitar travar combate, situação inversa à do início do conflito.

8. O projeto “IDF” (do inglês Indigenous Defense Fighter, algo como “Caça de Defesa de Origem Nacional”) começou em 1982. Taiwan buscava modernizar sua força aérea, e mostrou interesse em receber o então recente General Dynamics F16 e o projetado Northop F20. Diante da recusa dos EUA, o AIDC (Centro de Desenvolvimento da Indústria Aeronáutica), entidade governamental destinada a implementar a indústria aeronáutica nacional, abriu o programa “IDF” em 1983. Este consistia em quatro projetos, desenvolvidos de modo coordenado, para desenvolver a estrutura (fuselagem, asas, estabilizadores e partes relacionadas), o turbojato, os aviônicos e um míssil ar-ar. Embora o governo norte-americano tivesse cedido à pressões do governo da China comunista para não vender armamento aos chineses de Formosa, permitiram e até indicaram que indústrias do parque aeronáutico estabelecessem acordos de coperação com a AIDC, inclusive para o desenvolvimento de um radar pulso Doppler. O primeiro protótipo voou em 1989, designado pelo Ministério da Defesa Nacional como “F-CK1”. O desenvolvimento mostrou-se muito mais problemático do que o previsto, com a indústria local se mostrando incapaz de fabricar alguns dos itens projetados com auxílio dos norte-americanos. Posteriormente, especulou-se, diante dos problemas encontrados no processo, que o governo dos EUA indicou os participantes do processo como forma de não permitir que Taiwan recorresse a outros parceiros, como Israel ou a França, o que implicaria na possibilidade de que o produto final excedesse as especificações apresentadas à China comunista como “seguras”: alcance e capacidade de armamento ar-solo similares às do F5E e do F16. O item que mais provocou problemas foi o Sistema Digital de Controle de Vôo, um conjunto integrado de hardware-software destinado a gerenciar a planta de potência, sistema “fly-by-wire”, sensores e armamento. O projeto acabou se arrastando por mais de dez anos, e resultou numa aeronave multifunção com similaridades ao F16 e F/A18, devido à assistência dada ao projeto pelas empresas fabricantes dessas aeronaves. As primeiras unidades fossem entreque à Força Aérea da República da China (ROCAF) em meados de 1994::

Não tinha pensado nisso::Quer entender o Islã moderno? Asabiyyah, então::

Não sei se é uma boa idéia (e o redator:: apela para essa figura apenas como exagero explicativo…), o mundo islâmico encontra-se, politicamente, num momento semelhante ao que passou a Europa, principalmente a Ocidental, no final da Idade Média, quando a Reforma protestante jogou lenha na fogueira da formação dos estados unificados politicamente. Essa trajetória acabou por resultar (nos séculos 18 e 19), nos estados nacionais. Desde os tempos dos debates com o Chesterton, o Mr X, o Dino, o Elias, e outros direitobas e esquerdobas, no velho e bom WebLog, o redator:: acreditava que, se dessem uns duzentos ou trezentos anos para o mundo islâmico, ele acabaria evoluindo, talvez não na direção da “democracia”, mas de alguma outra coisa… E desde então, causa:: tem procurado imaginar como será essa coisa… 

parte2/4Só que o ambiente hoje em dia não tem nada de parecido com o do século 15 na Cristandade, e os líderes políticos dessas formações são obrigados, ora a lutar contra, ora a fazer alianças com lideranças laicas e religiosas. Alguns são mais bem-sucedidos, como vimos (muito superficialmente…) por condições específicas; outros têm menos sucesso também por condições específicas. Não se trata de repressão pura e simples, como às vezes podemos crer.

De fato, talvez o momento histórico e político vivido pelas sociedades islâmicas (com a possível exceção do Irã, mas vamos deixar essa parte para depois…) possa ser explicado, como pretente o historiador Albert Hourani. Este faz uma interpretação monumental do pensamento do filósofo Ibn Khaldun (1332-1406), cuja teoria da “renovação cíclica” introduz o conceito de “asabiyyah“, que Hourani interpreta como “um espírito corporativo orientado para a obtenção e manutenção do poder”. Na teoria de Khaldoun, asabiyyah (uma definição bastante clara, mas, infelizmente em inglês, pode ser lida aqui) é a principal força que move a história. As primeiras sociedades humanas bem-sucedidas foram os povos das estepes e das montanhas, entre os quais a autoridade se formava a partir de laços de parentesco que estabeleciam a coesão social, um conceito chamado asabiyyah – “espírito de parentesco”. Os interesses do clã eram o interesse de cada um de seus membros (na biografia de Átila – um líder de povos das estepes –, escrita pelo bizantino Prisco, essa qualidade fica bem evidente). Um líder com asabiyyah estava em boas condições de fundar uma dinastia e poderia impor-se sobre a cidade, uma vez que os habitantes urbanos careciam dessa qualidade. Enquanto o domínio dinástico fosse próspero, gerando estabilidade e justiça, a vida da cidade floresceria. Mas ainda segundo Khaldun cada dinastia trazia consigo a semente de seu declínio, pois os governantes degeneravam em tiranos ou eram corrompidos pela vida fácil (as virtudes da vida simples dos líderes dos nômades das estepes também ficam evidentes na biografia de Átila). No tempo devido o poder acabaria passando para um novo grupo de governantes valentes, vigorosos, não-corrompidos, e vindos de alguma região periférica, onde a Fé no Islã ainda fosse pura e a Lei, aplicada.

De acordo com Hourani, a teoria de Khaldun ainda pode propiciar uma interessante base para a análise política das sociedades árabes modernas. Por sinal, agora os oito ou nove leitores devem ter entendido também porque o delirante redator:: fez a comparação delirante entre o mundo cristão do séculos 14 e 15 e o mundo árabe atual. Poderíamos mesmo falar em um choque cultural – também fazendo as devidas relativizações.   Lá, eram os príncipes norte-europeus, cortados em suas rendas pela Igreja e pelo regime de vassalagem, e mobilizados por um padre casado que dizia não ser pecado ler a Bíblia por conta própria; cá, foi o choque maciço sofrido pelo mundo muçulmano com a dominação européia e seu pensamento racional, que o aporrinhou a partir de 1830. Assim como a Cristandade defendeu-se como pôde diante do avanço do Protestantismo, o mundo islâmico também, tentando manter suas concepções culturais e políticas. O núcleo da sociedade islâmica manteve seus padrões sócio-culturais, adaptando ou simplesmente recusando as práticas ocidentais. O período pós-colonial encontrou formas híbridas, que moldaram os estados nacionais formados desde entre os meados da década de 1950 e o início dos anos 1960. Observou-se, desde então, pouca mudança na natureza geral da maioria dos regimes árabes: na Arábia Saudita, nos países do Golfo, na Jordânia, na Tunísia e no Marrocos, não houve mudança substancial por mais de uma geração; na Líbia, Síria e Iraque, onde os governantes originais foram apeados do poder, os grupos que os substituíram embora adotassem um discurso nacionalista e laico, não chegaram a propor mudanças estruturais, e mantiveram as práticas anteriores.

Mas haviam fatores de tensão que eram – e são – diversos. O contato com interesses econômicos e empresas ocidentais, que traziam recursos e tecnologias modernas indisponíveis nesses estados ampliou de forma exponencial as fontes de poder das elites tradicionais. Por outro lado, gerou instabilidade social em face da estrutura social tradicional e religiosa. Para essas tensões, as elites, laicas ou religiosas, não tinham resposta. O crescimento da população, em função da introdução, ainda que lenta e errática, de práticas alimentares e de saúde modernas, inclinou a balança demográfica para o lado da juventude; o ritmo da urbanização, provocado pela mudança econômica, a melhoria da educação e das comunicações, exigida pelas práticas administrativas herdadas dos governos coloniais despertaram grau de consciência sobre o local e o mundo até então desconhecidos. A cereja do bolo são os contínuos conflitos armados na região: do Saara ocidental à Palestina e ao Golfo Pérsico, a montagem de uma estrutura militar com base na tecnologia ocidental criou uma classe de funcionários públicos e militares relativamente educados e competentes, capaz de formular projetos alternativos para suas sociedades.

Qual a resposta oferecida à crise? Asabiyyah. A idéia de Khaldun/Hourani sugere que a estabilidade de um regime político dependia de uma combinação de três fatores. Era estável, primeiro, quando um grupo governante coeso conseguia ligar os interesses dos elementos poderosos da sociedade – inclusive os religiosos, que não podem ser ignorados –, aos seus (o que significa dizer “de seu clã”); segundo, quando essa aliança de interesses se expressasse numa idéia política, e, terceiro, que essa idéia política tornasse legítimo o poder dos governantes aos olhos de, no mínimo, boa parte da sociedade, ou seja, dos outros clãs.

Átila, o Huno, podia manter os líderes dos clãs de sua tribo sob suas vistas; Maomé comunicava as palavras do Profeta a seus parentes diretos, e esses repassavam aos próprios, que repassavam ao restante da tribo. Os regimes modernos não têm tal capacidade, porque suas alianças de clãs reúnem milhões de pessoas. Cria-se  instrumentos novos, como o culto à personalidade, a propaganda do regime e ubíquos serviços de informação e segurança. Paralelamente as formas novas, as tradicionais são mantidas, os conselhos de líderes de clã. Como a Loia Jirga, que se reúne periodicamente no Afeganistão e ao qual o “presidente” Hamid Karzai não ousa deixar de comparecer… Os líderes do passado tinham seus aliados políticos nas proximidades, e eram legitimados pela capacidade de cooptar as lideranças locais, através inclusive da ligação entre estado e religião, sendo que a religião levava a proposta política até as regiões mais remotas. Os líderes modernos mesclam formas novas e antigas, de forma a estender suas capacidade políticas.

Na maioria dos países, o poder do governo estende-se agora às partes mais remotas do interior, onde seu domínio era outrora, fraco, quase ignorado ou totalmente dependente de líderes locais. O que não significa que, na moderna política árabe, a asabiyyah do grupo governante não seja fator talvez crucial na aquisição e manutenção do poder. 

Por exemplo, Sadam Hussein. Ele deveria ter caído após o fracasso militar na guerra contra o Irã, entre 1980 a 1988. Não caiu, e, ao contrário, reforçou seu poder. A humilhação nacional imposta pela derrota diante da coalizão internacional, que resultou na Desert Storm, em 1991, comprometeu até mesmo a soberania do país sobre o que seria o território nacional. A imposição de zonas de interdição policiadas por forças americanas e britânicas, e do estabelecimento no nordeste do Iraque, do governo regional autônomo curdo, sob proteção da coalizão, entretanto, não chegou a abalar-lhe a posição. Ao contrário. A oposição iraquiana não foi capaz de formar um governo, nem mesmo na esteira dos tanques aliados. Onde estava a fonte da capacidade de Sadam em sustentar-se no poder? Asabiyyah. Seu clã, estabelecido na região de Tikrit, ao norte de Bagdá, controlava uma ampla rede de clãs e tribos com origens nessa área. Nessa região, de maioria sunita, era recrutada parte significativa dos oficiais e funcionários do regime defenestrado pelo golpe militar que levou Sadam ao poder, em 1968. Embora aderindo formalmente ao nacionalismo árabe-secular do baathismo, a asabiyyah do grupo revelou-se mais duradoura, por mais eficaz, do que sua orientação política. Manipulando lealdades e rivalidades dos clãs, Sadam montou um formidável sistema baseado não só na coerção e no medo, mas principalmente no clientelismo.

A distribuição das terras dos oponentes apeados do poder e os gastos da receita do petróleo, promovidos pelo ditador, estão no centro dessa teia de relações. Num estado moderno como o implantado no Iraque, desde 1920, numerosos outros benefícios podem ser mobilizados, além de petróleo e terras. No caso do Iraque baathista, foi montada uma estrutura civil e militar movida não apenas, e nem mesmo principalmente, pela preocupação geral de melhorar as condições econômicas do país, mas pela preocupação de criar redes de clientelismo que reforçariam a posição daqueles que estavam no poder.

A Guarda Republicana, dominada por gente de Tikrit, preservada por Sadam durante e após Desert Storm era um exemplo da asabiyyah de seu clã. Jamais chegou a ser afetada pelo espírito de revolta que se espalhou pelo país depois de 1991. Ao contrário, a prática sunita de seus integrantes atuou como fator a mais da ferocidade contra os levantes dos curdos, no norte, e dos xiitas na região meridional de Basra, Najaf e Karbala, de maioria xiita. Os mullahs sunitas convocavam os habitantes da região de Bagdá, que incluía Tikrit, a resistir contra o infiel, como tinham feito na guerra contra o Irã, conclamando a resistência contra os persas. A asabiyyah de Sadam permaneceu intocada, visto que ele usava os recursos obtidos com o contrabando de petróleo para manter privilégios de seus aliados laicos e também dos religiosos sunitas. Os interesses políticos nacionalistas e religiosos sunnis podem vir, inclusive, a explicar a simpatia observada na Jordânia e na Palestina, para onde Sadam enviava quantidades substanciais de dinheiro. Foi preciso uma operação política de desdobramentos imprevisíveis, em que foram falsificadas informações pelos serviços secretos norte-americanos e britânicos, com a conivência das lideranças desses países, para inventar uma desculpa para a operação militar que afinal removeu Sadam do poder. Funcionou para colocar os exércitos aliados lá, mas o líder da coalizão “pela liberdade” e seu principal aliado, perderam a paz, na medida em que, removido Sadam, afragilidade institucional do Iraque tornou-se evidente.

E a rede de asabiyyah manteve-se, intocada, no centro da teia de relações clientelistas que predomina na maior parte do mundo árabe-muçulmano. Outro exemplo acabado dessa eficácia – e de como o Ocidente não tem meios de lidar com ela – é a Arábia Saudita e seus “proprietários”, a família nobre al´Saud. Tendo conquistado o poder na década de 1920, com a conivência dos britânicos,  a família al Saud talvez nos proporcione lição ainda mais exemplar de como, no mundo muçulmano, a banda toca por outro compasso. Bom, a conversa sobre os al Saud e suas peripécias, que incluem um diabrete chamado Osama bin Laden, fica para depois… Morram de curiosidade…::

Uma lambança às quartas::Uma flotilha de problemas::

Oficialmente, causa:: ainda não encerrou o mês de comemorações do final da 2ª GM. Os maiores especialistas no tema dizem que a configuração do mundo atual é produto, dentre outros motivos, do resultado da 2ª GM. Se é verdade, eis mais um motivo para amaldiçoarmos, em alto e bom som, o fascismo. Se Hitler tivesse feito sucesso como arquiteto ou pintor, é possível que hoje não estivéssemos tendo de aturar os frequentes insultos dos governantes do estado de Israel contra nossa inteligência. Os mais recentes dizem respeito à lambança praticada por seus estrategistas em águas internacionais, tendo como móvel meia-dúzia de navios mercantes carregados de carga não-bélica e boas intenções. E o redator:: não estaria tendo de rever um de seus mais preciosos conceitos: a competência das IDF (sigla de Forças de Defesa de Israel, em inglês). Mas como causa:: é, sobretudo, um blogue carregado de wishful thinking, tentemos fazer desse limão, uma limonada: estamos lançando uma nova coluna (que provavelmente se juntará à todas as outras que não deram certo…): Uma lambança às quartas:: (que, como é de praxe, pode sair – se sair – quinta, sexta… Sábado…). Claro que assunto não faltará: da Baía de Baffin ao Estreito de Magalhães, das ilhas Sacalinas à Baía de Guantánamo, lambança é o que as potências, reais ou pretensas, mais aprontam… 

Em diversas oportunidades, este blogue/recurso de pesquisa já explicitou que não tem posição política. Nos damos bem com blogues de todo o espectro político, desde a direita hidrófoba (que, claro, nunca se admite como tal) até a esquerda mais delirante (que claro, faz questão de se admitir como tal). Assim, causa:: se limita aos assuntos técnicos em torno dos grandes temas de interesse de estrategistas amadores, pesquisadores de história militar amadores, bem como outros amadores das mais diversas categorias que passam por aqui. Já apareceram nessas páginas virtuais muitos textos que abordam questões ligadas ao Oriente Médio e, por certo, Israel aparece em alguns. Nenhum, entretanto, tem por objetivo tomar posição, contra ou a favor. Entretanto, como observador (amador, claro) de política e relações internacionais, o redator:: não consegue deixar de se perguntar: onde estavam com a cabeça os governantes de Israel ao permitir que suas forças “de defesa” cometessem tal desastre? 

É certo que a Marinha de Israel (alguns dados gerais sobre a força, aqui) sempre foi, dentre os três ramos das IDF, o mais fraco. Sua história se inicia na época em que a Agência Judaica tentava enviar, da Europa, colonos judeus que se fixariam na Palestina e buscariam uma posição de força para o momento em que o Mandato Britânico se encerrasse. Lá ia o ano de 1938. Durante a 2ª GM, cento e poucos voluntários se juntaram à Marinha Britânica, atuando principalmente em ramos técnicos (eletrônica e mecânica, principalmente) – poucos estiveram em combate. Depois da fundação do estado de Israel, em 1948, a força naval israelense manteve-se como uma força de defesa costeira, com capacidade ofensiva quase nula. Durante a Guerra dos Seis Dias sua atuação limitou-se a algumas incursões contra a costa do Egito. Poucos meses depois, o “incidente Eilat” seria marcante na trajetória da Marinha de Israel: sua principal unidade, o contratorpedeiro-de-escolta “Eilat“, foi afundado numa ação de lanchas-patrulhas egípcias, ao largo de Port Said. Embora o incidente tenha sido abafado na época, com a ajuda das agências de imprensa norte-americanas, teve forte impacto na população em geral e na Marinha de Israel. Até então, população e governo israelenses davam pouca importância ao poder naval, visto que a principal influência, na região, era das marinhas norte-americana e soviética. A principal potência naval regional, a Turquia, mantinha, então, boas relações com o estado judeu. O “incidente Eilat” mostrou que, no estado em que se encontrava sua marinha, Israel não tinha o controle nem mesmo das águas adjacentes. O estado-maior das IDF começou, então, a desenvolver planos que focavam navios de pequeno porte, adequados ao combate de mísseis, capazes de bloquear a costa israelense e incursionar contra a costa dos principais estados árabes adversários – na época, Síria e Egito. Táticas e técnicas que possibilitassem esse tipo de atuação começaram a ser desenvolvidas, bem como vetores de armas capazes de cumpri-las. Foram adquiridos na França alguns navios-patrulha rápidos classe Sa´ar 2 (concebidos em Israel com base em um desenho alemão) e projetado, no próprio país, o míssil superfície-superfície Rafael. Em 1973, a mudança de foco mostrou resultados no encontro de Baltim-Damietta, contra um grande grupo de lanchas-patrulhas egípcias, durante a guerra do Yom-Kippur. Essa “mini-batalha naval” marcou uma espécie de redenção do “incidente Eilat”. Desde então, a Marinha de Israel transformou-se numa força de porte médio, dotada de meios modernos, centrados em corvetas e submarios. A ação diante de Gaza mostrou que a força naval tornou-se agente ativo na execução da “política de defesa” de Israel.

O problema é que essas políticas começam a se tornar contraproducentes. Atualmente, um dos eixos dessa política é o bloqueio de Gaza (maiores informações aqui), estabelecido em 2007. Inicialmente, essa ação tinha como alegação a tomada do poder na região pelo grupo islâmico fundamentalista de orientação sunita Ha´mas (acrônimo de Harakat Al-Muqawama al-IslamiaMovimento de Resitência do Islã), considerado por quase todos os governos interessados na questão como terrorista. Desde os anos 1980 gente ativo da questão da autonomia palestina, ora opositor, ora aliado do partido laico Fatah, o Ha´mas é visto com grande desconfiança pelas principais potências ocidentais, que não o aceitam como interlocutor político. Isolado, o Ha´mas acabou por abrir uma brecha para o aumento da influência iraniana sobre as atividades da militância palestina. O governo da Fatah na Cisjordânia mantem-se prudentemente distante dos iranianos, visto que busca o apoio da comunidade internacional para a causa do estado palestino. Em função dessa busca de apoio, o partido Fatah já aceita a convivência pacífica com o estado de Israel. O que não é o bastante – essa questão é mais ampla e problemática. Desde os anos 1960, e particularmente, da Guerra dos Seis Dias, os setores conservadores política israelense apoiam-se nos partidos religiosos que vêem com grandes ressalvas a criação de um estado árabe ocupando o que é, em geral, considerado como “a terra de Israel” (Eretz Israel), a região de Canaã, prometida por Deus ao “povo escolhido”. Esse é um fator que leva a questão palestina a um impasse, em função da exigência dos fundamentalistas judeus que parte da região fique sob controle de cidadãos de Israel, na forma de colônias povoadas por ortodoxos ligados aos partidos religiosos. Em Gaza o problema se torna mais sério: se o partido Fatah se dispõe a negociar uma saída política, a região um estreita faixa de terra de 41 kms de comprimento por 12 kms de largura, que consegue ser ainda mais pobre do que a Cisjordânia, o Ha´mas é o governo de fato – e não se mostra disposto à negociação, mas ao confronto (basta citar o caso dos foguetes Qassam). O governo de Israel, por outro lado, parece sentir-se autorizado, em função das restrições internacionais ao Ha´mas, a aplicar uma política que acaba por penalizar um povo que já vive no limite da sobrevivência.

No último dia 31 de maio, essa política de busca do confronto teve um desdobramento inesperado: pelo menos nove pessoas morreram  em uma ação militar israelense contra um grupo de pequenas embarcações que tentava desembarcar em Gaza gêneros de primeira necessidade. As versões são totalmente contraditórias, mas de concreto foi estabelecido, pelo autópsia realizada na Turquia, que os mortos foram atingidos por disparos de armas automáticas, pelo menos dois deles atingidos à queima-roupa. Embora Israel tenha, inicialmente, mostrado intenção de tratar todos os presos como potenciais terroristas, a falta de elementos e a ação injustificada diante do direito marítimo internacional, bem como a arrogância da postura das autoridades locais acabou por levantar uma onda, aparentemente inesperada em Israel, de protestos internacionais. Aparentemente incapaz de responder satisfatoriamente aos pedidos de explicação de inúmeros governos estrangeiros, o governo de Israel acabou por decidir pela atitude menos danosa: centenas de ativistas presos foram rapidamente deportados. Essa atitude não impediu o Conselho de Segurança da ONU de emitir declaração pedindo que o caso seja investigado de forma “imparcial, crível e transparente”.

Ao que parece, a abordagem dos navios visava dar reforçar a posição de Israel quanto ao bloqueio e à sua política palestina – não admitir nenhum tipo de apoio aos partidos palestinos que não passe por seu próprio projeto: um estado palestino com autonomia apenas parcial. Também parece ter buscado mostrar a admissão de interlocução apenas com governos. O uso de meios e força desproporcionais parece que visava reforçar a política de bloqueio total a Gaza, e marcar que qualquer tentativa de contato direto seria encarada como ato hostil, independente da procedência e das proporções. O ataque à “Flotilha da Liberdade” teve, proporcionalmente, a mesma intencidade da operação militar contra Gaza, em janeiro de 2009. Mas se o resultado daquela ação já foi duvidoso, o dessa foi um desastre. O ataque trouxe resultados inversos aos pretendidos, e abriu espaço para uma debate internacional totalmente indesejado, mesmo entre os aliados de Israel, que começaram a fazer associações diretas entre o bloqueio e a realidade observada em Gaza. Pior: as ações militares do governo de Israel passaram a ser tratados abertamente como “terrorismo de Estado”. Israel passou a ser cobrado pela situação de direitos humanos naquela região, até mesmo – ainda que, nesse caso, de forma ainda tímida – pelo governo dos EUA. Aliados tradicionais de Israel, tais como a Turquia, ameaçaram rever acordos de parceria e o apoio diplomático ao estado judeu, em fóruns internacionais. Segundo alguns analistas, o principal erro de avaliação de Israel foi a demonstração de indiferença ao Direito internacional, que se caracterizou com a abordagem não avisada dos navios em águas internacionais. Os acordos observados em tempo de paz negam tal autoridade a qualquer estado, salvo alguns casos específicos. Analistas, inclusive alguns reverberados pela própria imprensa de Israel, afirmaram que a “Flotilha da liberdade” não se enquadra em nenhuma dessas excessões. Segundo analista norte-americano, a operação visava provocar danos letais pois o uso de armas automáticas em locais restritos não é observada em método de controle de multidões. Essa constatação é agravada pelo fato de que dificilmente tiros instintivos atingem o alvo na cabeça. Qualquer força militar medianamente treinada e disciplinada dispõe de meios não letais que preservam, sem perder a eficiência, a integridade física de ambos os lados – munição de borracha, gás lacrimogênio, gás de pimenta, armas paralisantes, bombas de efeito moral – a lista é imensa e a força atacante não levava nenhum deles.

Foi, pois, um tiro no pé. Qualquer um que leia jornais diários sabe o quanto é difícil fazer cobranças ao estado de Israel, dado o apoio incondicional que esse país tem dos EUA. Entretanto, o atual governo norte-americano parece empenhado em recuperar, pelo menos parcialmente, a credibilidade internacional, perdida ao longo dos anos da presidência Bush. Além das relações com a Turquia, país por onde passam a maior parte das linhas de suprimento para as forças dos EUA no Afeganistão, além do perigo de tais atitudes fornecerem munição aos movimentos fundamentalistas, os norte-americanos se encontram empenhados em conseguir fazer passar na ONU sanções ao Irã, em função de suposto programa  de pesquisas nucleares bélicas. A antipatia internacional por Israel, proclamada em alto e bom som por dezenas de nações que viram seus cidadãos inculpados como terroristas e seus apelos arrogantemente descartados pelas autoridades judias certamente não ajuda a diplomacia norte-americana, principalmente considerando-se o fato de que a Turquia é um dos principais opositores as sanções pretendidas::

Datas relevantes de causa::O Irã dos aiatolás se torna balzaquiano::

O blogue das boas causas anda meio devagar, em função das muitas atividades que o redator cumpre, e que por vezes cobram seu preço, em tempo e concentração. Entretanto, não o blogue não podia deixar de acender umas velinhas (31, mais exatamente) para a passagem, em Primeiro de Fevereiro, de mais um aniversário da Revolução Islâmica no Irã. De fato, é uma data que também deveria ser comemorada nos EUA, mais particularmente nos salões de festas secretos da CIA e da menos votada Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês – responsável pelo monitoramento de comunicações eletrônicas e operações de inteligência eletrônica – ELINT/SIGINT).  Uma festa dessas certamente reuniria um monte de gente, viva e morta: Jimmy Carter e Zbigniew Brzezinski, Richard Helms (diretor da CIA nos governos Johnson e Nixon), Henry Kissinger, Saddam Hussein, os executivos das companhias de petróleo, e por aí vai.  É interessante observar que, se o mundo for justo (e sabemos que é…), o aiatolá Ruhollah Khomeini, sua trupe de radicais e até mesmo os atuais espantalhos-mores iranianos, o aiatolá Khamenei e o presidente iraniano Ahmedinejad também estariam lá, comendo bolo. Entretanto, como essa festa não vai acontecer, causa:: catou na Internet um excelente artigo publicado no blogue do jornalista especializado em relações internacionais Argemiro Ferreira. O blogue de Ferreira é parada obrigatória deste humilde redator, pela qualidade das análises que apresenta. Passemos à leitura.

O artigo começa interessante já no título – BLOWBACK. Este termo designa, em inglês, a ação do gás gerado pela detonação da carga de propelente de um cartucho ou foguete, que provoca o recuo da arma, no caso de um tiro, ou uma chama de expansão rapidíssima e extremamente quente, no caso de um foguete. Os oito leitores de causa:: talvez lembrem daquela língua de fogo que se sucede ao disparo de um RPG7/7B. Embora nunca tenha pensado no assunto, o redator imagina se a expressão também não teria o significado da nossa “tiro no pé”. Se não tem, deveria ter. É a mais adequada definição para os resultados da atuação norte-americana naquelas plagas.

Posteriormente, causa:: tecerá alguns comentários que são mais da praia que frequenta – a análise militar. Argemiro comete alguns deslizes, nesse campo, mas que nem chegam a arranhar a blindagem de sua erudição::

Um sistema de armas…::ASTROS II::

 

Os agitados anos 70… Época de John Travolta rebolando em ritmo discoteque e de Tio Sam voltando pra casa com o rabo entre as pernas, depois de dez anos no Vietnam; a época da gasolina cara, e, no Brasil, dos grandes feitos (1970) e fracassos (1974 e 1978) da Seleção Brasileira e da consolidação do padrão Globo de qualidade. Mas os anos 70 também foram, neste país, talvez a época mais favorável à decolagem de uma indústria nacional de produtos de defesa.

Para as forças armadas brasileiras, os anos 70 não foram assim tão brilhantes. Embora seja outra história, os “setenta” presenciaram o auge da grave obsolescência dos equipamentos das FA nacionais. Não que isso piorasse as coisas: por mais paradoxal que pareça, dificilmente o estado geral de equipamento e aprestamento militar, durante o regime militar, poderia ficar pior. Essa situação resultava de anos de subordinação absoluta à estratégia norte-americana da Guerra Fria e a conseqüente ênfase na preparação para uma hipotética “guerra de contra-insurgência” e na “defesa localizada” (que transformou a Marinha numa força anti-submarino, sem nenhuma capacidade ofensiva ou defensiva de superfície). Depois de um salto qualitativo notável, no período entre 1942 e 1952, resultante da 2a GM, os EUA começaram a selecionar rigidamente o tipo de equipamento de que podiam dispor seus aliados menores, inclusive o Brasil. A superpotência parecia achar que o maior país sul-americano não precisava de armas. Geralmente os pedidos de armamento moderno vindos daqui eram arquivados sem consideração, e os aliados europeus dos EUA sofriam pressão para não vender armas modernas para o Terceiro Mundo. Como se não bastasse, a crise nas relações bilaterais  com a assinatura, pelo presidente Ernesto Geisel, do Acordo de Cooperação Nuclear Brasil-Alemanha, em 1975, a briga com o governo de Jimmy Carter e a denúncia do acordo de cooperação militar, em 1976, apartaram o país de sua principal fonte de equipamento militar. Por outro lado, aquela situação mostrou o que devia ser evidente: tinhamos não apenas de diversificar nossas fontes de equipamento, mas também tentar desenvolver e expandir uma indústria autóctone de defesa.

O Exército já vinha, desde o início dos anos 1950, através da ETE (Escola Técnica do Exército) e do IME, tentando clonar equipamento fornecido pelos EUA, ou produzir versões nativas desses materiais. Entre esses tipos esteve um foguete pesado, que chegou ao estágio de protótipo, notação X-40. Tratava-se de um vetor de trajetória não-guiada, capaz de portar uma cabeça de combate de até 250 quilos e com alcance máximo de 70 quilômetros. Alguns lançamentos de teste chegaram a ser feitos, mas o sistema não foi adiante em função da redemocratização do país (que colocou em cheque TODAS as iniciativas dos governos militares, inclusive as que prestavam…) e da crise econômica dos anos 1980. Entretanto, os resultados do projeto foram repassados à indústria civil, para desenvolvimento e concepção de produtos. É essa a origem mais distante do o sistema ASTROS (Artillery Saturation ROcket System).

Localizada em Jacareí, estado de São Paulo, a Avibras Indústria Aeroespacial S.A. é uma empresa privada que tem se mostrado capaz de alguns feitos interessantes, num país (o nosso, infelizmente…) que nunca chegou a apoiar plenamente sua indústria de defesa – se é que já tivemos alguma. Criada em 1961, Avibras especializou-se em sistemas de alta tecnologia e se tornou pioneira, no Brasil, em produtos aeroespaciais. Desde sua fundação, entrou no setor de defesa, fornecendo equipamentos para as forças armadas daqui e de outras nações. O primeiro produto direcionado à esse mercado foi uma aeronave de treinamento básico denominada “Falcão”, que trazia a inovação de ser fabricada com materiais compostos. Pouco depois vieram os foguetes “Sonda”, com tecnologia e componentes desenvolvidos pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e pela própria empresa. Além de contribuir decisivamente para a implementação do Programa Espacial Brasileiro, a série “Sonda” – I, II e II-C – forneceu a base científica e de engenharia para o desenvolvimento posterior de produtos militares, caminho que, por sinal, é o de todos os países desenvolvidos, nesse setor.

Foi, justamente, o passo seguinte. Ainda nos anos 1960, a empresa passou a desenvolver e fabricar materiais militares. O primeiro desses produtos foi a linha SBAT, em três calibres: 37 e 70 e 127 mm. Trata-se de foguetes ar-terra não-guiado, estabilizados por aletas, com um alcance de uns 8.000 metros, para o SBAT-70. Este último é equipamento-padrão da FAB, e pode ser equipado com diversos tipos de cabeça de combate. O SBAT-127 é mais pesado, com alcance de uns 12 quilômetros e uma cabeça de combate de mais de 20 quilos.

O desenvolvimento da linha SBAT levou a Avibras a redesenhar esses produtos para o uso terrestre, visto que a tecnologia desse tipo de vetor permite sua fácil adaptação a qualquer tipo de plataforma de lançamento.

O problema, entretanto, é que a indústria brasileira de defesa tinha muito pouco apoio do próprio governo brasileiro. Os governos militares, embora apoiassem, nominalmente, as iniciativas para fabricar armamento, esperavam que uma indústria nacional de defesa atuasse principalmente como exportador, já que as sucessivas crises econômicas do período pós-milagre faziam, curiosamente, minguar o orçamento militar do regime militar. Assim, muitos dos produtos oferecidos a países do Terceiro Mundo não tinham similares na forças armadas brasileiras.

A possibilidade de que qualquer empresa se tornasse um sucesso teria de vir de fora. No caso da Avibras, veio, mais exatamente, de Bagdá. Um grande sucesso: em meados dos anos 1980, a Avibras atingiu a marca de US$ 1 bilhão em exportações de material de defesa – bombas especializadas, lançadores de foguetes de saturação, cargas propelentes e ogivas de combate. Todos sabemos que o Iraque passou a maior parte dos anos 1980 em guerra com o Irã. É possível afirmar que a empresa foi um dos principais parceiros do regime iraquiano, durante a luta de oito anos. Nesse período, o país de Saddam Hussein se apresentou não apenas como cliente preferencial dos sistemas que a indústria bélica brasileira oferecia, mas como proponente de certos produtos – como o sistema ASTROS II.

A demanda resultou de uma das características daquela guerra: os ataques maciços da Guarda Revolucionária Iraniana. Composta por milhares de homens com algum treinamento militar e muito bem armados, a Guarda chegou a mudar o resultado de algumas batalhas, ao longo dos anos de 1985 e 1986. A melhor maneira de deter esse tipo de ataque era através de operações que se apoiassem no método chamado de “fogo de barragem“.

O sistema ASTROS II passou a ser entregue ao Iraque a partir de 1985. Em combate, era posicionado com a ajuda das informações de satélites, passadas pelos norte-americanos, na época aliados do regime ba´athista iraquiano. Esse sistema de armas foi um dos fatores que possibilitaram equilibrar a situação militar, pois o emprego maciço de barragens de foguetes mostrou-se eficaz em deter o avanço iraniano nas ofensivas de 1986 e 1987, com grandes perdas para as forças daquele país.

Durante a Guerra do Golfo, em 1991, os norte-americanos manifestaram certa preocupação com as baterias ASTROS II iraquianas. O impacto operacional do sistema brasileiro era bem lembrado pelos EUA, e um relatório apresentado ao Congresso dos EUA após a guerra (Final Report to Congress Conduct of the Persian Gulf War, datado de abril de 1992) apontava o ASTROS II como superior, em alguns aspectos, aos outros sistemas de saturação testados no conflito.

Não se sabe exatamente quantas baterias ASTROS II foram entregues ao Iraque, pois os números nunca foram divilgados pela Avibras, mas se calcula não tenham sido inferiores a 50 baterias, o que envolveria mais de 600 veículos, entre lançadores e remuniciadores.

Uma bateria típica de ASTROS II tem 12 veículos: 6 lançadores e 6 remuniciadores, cada qual com tripulação entre seis e dez homens. Um décimo-terceiro veículo transporta uma central diretora de tiro e pode ser acrescentado à unidade. Todos esses veículos são idênticos: caminhões 6X6 (tração independente nas seis rodas) com cabine blindada para a tripulação, baseados em um chassi Mercedes-Benz modificado.

Essa integração/modularidade é considerada característica diferencial do produto. O usuário pode optar por foguetes de vários calibres, alcance e cargas úteis, o que torna o sistema taticamente muito flexível. Estão disponíveis cinco tipos de vetores: SS-30, SS-40 e SS-60 e SS-80 e AV/MT (este guiado), com alcances variando de 9 a 300 km e opção de 8 tipos de cabeça de combate.  Montados em uma espécie de container, os foguetes são preparados para uso muito rapidamente, bastando que sejam colocados na plataforma basculante do veículo lançador.  Uma vez disparados, voam até o alvo e explodem por contacto ou antes de atingir o solo, conforme a regulagem do fuso de ativação.

O sistema de direção de tiro é objeto de certa controvérsia. Seu desenvolvimento deveu-se exatamente ao alcance dos maiores foguetes disponíveis, respectivamente 60, 80 e 90 km. Não existe concordância entre os usuários, inclusive no Brasil, se sua presença realmente aumenta a precisão ou se o item é desnecessário. Inicialmente a Estação Diretora de Tiro era uma Skyguard, da empresa suíça Contraves, bastante simplificada. Posteriormente, a Avibrás passou a fabricar, sob licença, uma versão própria.

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Desde agosto de 2001, o inventário do sistema ASTROS II incorporou o Míssil Tático (MT) AV/MT 300 “Matador” , também produzido pela Avibrás. Capaz de atingir alvos a 300 km de distância com grande precisão, o “Matador” é guiado por um sistema digital de navegação (GPS) dotado de inteligência eletrônica, que lhe permite selecionar, procurar e localizar eletronicamente entre uma série de alvos programados em um computador embarcado. Esse sistema está entre os mais modernos disponíveis no mercado, e coloca o “Matador” como  alternativa mais econômica ao “Tomahawk” norte-americano e “Brahmos” russo-indiano.  Outro produto que tem sido desenvolvido pela empresa é o Fiber Optical GuidedMulti- Purpose-Missile (FOG/MPM), 
iniciado em 1985. É um míssil bastante simples, de concepção engenhosa, para uso anti-carro ou anti-aéreo. O vetor tem um comprimento de 1,50m, pesa 33 kg e alcance de 10 km ou 20 km. A cabeça de combate é do tipo “carga oca” e pode penetrar 1.000mm de blindagem homogênea. Uma versão com alcance de 60km foi apresentada em 2001. Tanto o AV/MT MATADOR como o FOG-MPM podem ser disparados através do sistema ASTROS II.

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A indústria de defesa brasileira vai, assim, seguindo, aos trancos e barrancos. O fato é que, sem apoio interno, a tendência é que ela desapareça, já que nesse mercado se observa duas situações: ou quem vende são os governos ou as vendas se dão com garantia dos governos. E como se trata de indústria de ponta – indutora de produção de alta tecnologia, grande consumidora de alta tecnologia, financeiramente exuberante – o jogo do mercado é, para se dizer o mínimo, pesado. É um jogo de governos, e o governo brasileiro sempre se mostrou muito sucetível à pressões internas (fatores econômicos e opinião pública) e externas. De fato, as duas tendências se confundem. Sob a capa de “manter sob controle a corrida armamentista”, “manter a estabilidade internacional” e “fomentar a paz”, fornecedores tradicionais, principalmente os EUA, atuam contra a concorrência. Esse jogo de interesses freqüentemente induz à posições equivocadas dos formadores de opinião nacionais. Após a Guerra do Golfo, a indústria brasileira de defesa foi colocada na posição de vilã, e cientistas brasileiros que colaboravam com o esforço bélico do Iraque foram taxados de “mercenários modernos” (a imprensa diária chegou a pedir punição para o brigadeiro Hugo Piva, nosso maior especialista em tecnologia aeroespacial). 

De fato, o Brasil não precisa de forças armadas gigantescas, mas não pode prescindir delas; também é uma posição hilariante, de tão equivocada, imaginar que o melhor papel para as FA nacionais seja o de combater criminalidade urbana. Precisamos de forças armadas proporcionais ao lugar que ocupamos na comunidade internacional e à nossa posição geopolítica. Talvez fosse o caso de refletir mais seriamente sobre nosso papel militar na 2a GM… – o ataque alemão nos encontrou praticamente sem condições de defesa. Por outro lado, mesmo uma posição periférica no dinâmico mercado internacional de defesa pode significar entrada de recursos da ordem de 3 ou 4 bilhões de dólares, anualmente. Não é pouco, diante do montante das exportações brasileiras. Quem sabe não seria bom pensar pelos dois lados?::  

Um sistema de armas às terças::Grumman F14A Tomcat da Força Aérea da República Islâmica do Irã

Pois não é que os israelenses andaram se aventurando pelo espaço aéreo da síria? O motivo, ninguém sabe direito, mas certamente ninguém acreditou no “bombardeio de instalações nucleares mantidas por técnicos da Coréia do Norte” – principalmente agora que os norte-coreanos parecem ter cansado de seus buscapés nucleares.

O mais provável é que estivessem mesmo testando alternativas para uma special op contra o Irã, cuja melhor rota passa pelo espaço aéreo sírio – visto que provavelmente nem Iraque nem Turquia abririam seus espaços aéreos para os aviões israelis, já que ambos não querem problemas com o Irã.

Caso tentem, o que encontrarão pela frente os judeus? A aviação síria não se revelou, em diversas oportunidades, páreo para a Hel´ha´Avir, a força aérea de Israel. A Síria tem recebido alguns MIG29 e sistemas de defesa anti-aérea TOR M1, mas sua capacidade de usá-los eficazmente é uma incógnita. No caso do Irã, a coisa é diferente. Desde a época do Xá, este país desenvolveu uma enorme força aérea, e dispõe de alguns dos itens mais letais do arsenal norte-americano, além de pilotos com grande experiência de combate – contra os iraquianos – e mais recentemente, contra os russos, embora atualmente tenham boas relações com os rapazes de Putin.

Um desses itens é o Grumman F14A. Trata-se de um osso duro de roer, no entender de todos os analistas. Vamos ser apresentados a ele em seguida…

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Na primeira metade dos anos 1970, o Império do Irã era um confiável aliado do Ocidente, considerado como uma “primeira linha” da Guerra Fria. Desde os anos 1950, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o país beneficiou-se indiretamente da crise do petróleo de 1973, aderindo tardiamente ao boicote comandado pela Arábia Saudita. Segundo exportador mundial de petróleo e primeiro fornecedor dos EUA, o Irã não chegou a diminuir suas exportações, mas praticou os aumentos de até 300 por cento no preço do barril, determinados pela OPEP. O resultado foi um fluxo de dinheiro nunca antes imaginado, que o tornou cliente preferencial das indústria norte-americana de armamentos.

Compartilhando extensa fronteira com a então URSS, além de responsabilidades localizadas no Golfo Pérsico, no Oriente Médio e no Oceano Índico. O dinheiro do petróleo permitiu que o Irã, até então cliente de sistemas de armas “tipo exportação” (por exemplo, Sabres F86, F5A Freendom Fighters em 1965 e, a partir de 1967, um pequeno número de F4E Phantom). Com os petrodólares fluindo, o Xá, embora fosse considerado um aliado instável, passou a merecer atenção dos EUA, uma vez que a proximidade da União Soviética, e a inexistência de sistemas defensivos de última geração constituíam, indiretamente, ameaça aos interesses norte-americanos na região.

Dois fatores apressaram a possibilidade da aquisição, pela então Nirouyeh Havaiyeh Shahanshahiye Iran, ou Imperial Força Aérea do Irã, de aeronaves de última geração. Por um lado, a entrada em serviço, no final dos anos 1960, de uma nova geração de aeronaves soviéticas, da classe do MIG23 Flogger e MIG25 Foxbat. Essas aeronaves passaram a sobrevoar o território iraniano freqüentemente, em missões de reconhecimento. Equipadas com radares Lookdown-shotdown e mísseis de longo alcance (“beyond visual range”), os Flogger se revelaram bem superiores aos F4E iranianos, que eram entregues pelos EUA com sensores e armamento de segunda linha. O território do Irã, muito montanhoso, exigia uma complexa cobertura de radar articulada a sistemas de mísseis de defesa aérea de grande altitude, que vinha sendo reivindicada pelos iranianos desde os anos 1960, até então sem resposta. No final da década, os norte-americanos já tinham manifestado simpatia às solicitações iranianas (em 1971, a venda de 1811 mísseis superfície-ar Hawk foi aprovada), o que abriu ao Irã a possibilidade de aquisição de quase todos os sistemas norte-americanos de última geração. O aval oficial, dado pelo presidente norte-americano Richard Nixon, em maio de 1972, foi o passo inicial para que o Xá e seus comandantes começassem a planejar a criação da maior força aérea da região.

Por outro lado, também contribuiu para a decisão norte-americana de abrir ao Irã seu arsenal a aproximação, nos anos 1960, do Iraque com a União Soviética, bem como as manifestações de hostilidade aos EUA, por parte do regime ba´athista. Embora a partir de 1969, o presidente iraquiano Saddam Hussein fizesse uma política pendular, aproximando-se tanto dos EUA quanto da URSS, as fortes aquisições de armamentos, combinadas com uma política externa independente e de caráter terceiro-mundista, e uma política econômica agressiva apressaram a decisão norte-americana de favorecer o Irã. Os dois países não tinham problemas aparentes, mas havia uma disputa não resolvida na região do canal Shat-el-Arab, estuário dos rios Tigre e Eufrates, fronteira territorial mas reivindicado por ambas as nações.

Desde 1971 os iranianos vinham avaliando a aquisição de um novo interceptador para sua força aérea, decisão apressada pelas freqüentes provocações da Força Aérea da URSS, que se tornaram constantes após a entrada em serviço do MIG25 Foxbat. O MIG25 voava muito alto e muito rápido, e os Phantom e F5E Tigers iranianos sequer conseguiam aproximar-se dos incursores soviéticos.

Os motivos pelos quais os F14 foram escolhidos pelos iranianos foram diversos, mas o principal deles é que a geometria variável (que o MIG23 também tinha), uma tecnologia considerada revolucionária, permitia o uso de pistas curtas (tanto que os Tomcat eram aeronaves projetas para uso em navios-aeródromos) e relativamente pouco preparadas. Os sensores dos F14, centrados no radar pulso-Doppler, que utiliza o chamado “efeito Doppler”, uma característica das ondas que distorce sua recepção pelo observador, em relação ao emissor. Esse efeito é muito útil para determinar a distância a que se encontra um alvo. Os F14 estavam equipados com um radar AN/AWG9, fabricado pela Hughes, capaz de rastrear 24 alvos e operar até 6 mísseis Phoenix AIM54 simultaneamente. Até então, os F14 e seus sistemas de armas ainda não haviam sido testados em combate, mas exercícios extensivos feitos no Pacífico pela Marinha dos EUA indicavam que a combinação F14/ AN/AWG9/AIM54 mostravam ser a combinação letal.

Inicialmente, a Imperial Força Aérea Iraniana adquiriu 30 F14A, diversos kits de sobressalentes e 454 AIM54. Esse contrato, conhecido como Persian King e fechado em janeiro de 1974, se afigurava como a maior venda de armamento da história dos EUA, no valor de 320 milhões de dólares. No final do ano, os iranianos manifestaram interesse em adquirir mais 50 F14A e quase 300 mísseis, bem como um sistema de radar terrestre no valor de cerca de 600 milhões de dólares. Toda a encomenda alcançava os 2 bilhões de dólares e era, de fato, a maior venda de armas feita para um único pais, até então.

O Grumman F-14 Tomcat é uma aeronave de geometria variável projetado para operação em navios-aeródromos de esquadra. Trata-se de uma história de sucesso típica da Guerra Fria. Testado diversas vezes em combate, revelou-se, quando bem operado, um sistema de armas eficiente e altamente confiável.
O F14 foi projetado partir do conceito introduzido nos EUA pelo mal-sucedido F111, colocado em serviço em 1967 pela General Dynamics. Originalmente, havia a proposta de se criar uma versão navalizada do F111, que evoluiu para a o conceito de um caça de defesa de esquadra, desenvolvido junto com a Grumman.

Como o F111, o F14 aplica o conceito de “geometria variável”, estudado pela primeira vez pelos alemães, em 1944, e extensivamente pesquisado tanto por norte-americanos, quanto por soviéticos, ao longo dos 30 anos seguintes. A possibilidade de variar o enflechamento das asas possibilita a aeronave aumentar o arrasto aerodinâmico durante a decolagem e o pouso, o que implica em uma maior sustentação em baixa velocidade, tornando possível o aumento do peso do conjunto e o uso de pistas menores – conceito ideal para o uso em navios-aeródromos.

O fracasso do F111, que logo foi relegado à funções de guerra eletrônica, fez com que a GD abandonasse o projeto. Vendo-se sozinha na empreitada, a Grumman resolveu por alterar todo o conceito. Na época (1968), o surgimento do míssil AIM54 e de um radar multi-modo funcional levou a que a companhia modificasse o desenho da aeronave para ser preferencialmente um vetor dessa nova arma. A complexidade do conjunto radar-míssil e o estágio ainda relativamente rudimentar dos computadores de bordo tornou necessária a manutenção de um segundo posto de tripulante, na parte traseira do cockpit,ocupado por um especialista em controle de armas. Posto em serviço em 1971, o F14A mostrou alguns problemas, mas estava claro que o desenvolvimento do conjunto acabaria resultando num sistema de armas de alta confiabilidade.

O F-14A alcançou plena operabilidade por volta dos meados dos anos 1970, chegando, após essa data, a registrar algumas vitórias contra aeronaves líbias e iraquianas. Deve-se destacar que boa parte do desenvolvimento do tipo deveu-se às observações feitas nas operações da versão vendida aos iranianos, que chegou a ser testada contra aeronaves soviéticas de primeira linha.

Alguns dos sistemas instalados no F14 eram muito novos e foram efetivamente testados nas aeronaves entregues ao Irã. Um dos melhores exemplos é o interrogador de IFF (identification, friend or foe) APX82A. Tratava-se de um sistema que, na época, era ultra-secreto, e visava identificar o sinal IFF emitido pelas aeronaves adversárias, possibilitando sua localização precisa em distâncias de até 200 quilômetros. Até então, os sistemas IFF baseavam-se num sinal criptografado, enviado por uma aeronave e captado conforme um radar iluminava essa aeronave. O APX82A permitia que o sinal IFF fosse identificado sem que o radar de bordo tivesse de ser ligado. Esse sistema tinha sido desenvolvido em função do surgimento de mísseis chamados “anti-radiação”, que eram atraídos por emissões de rádio. A versão iraniana desse sistema era programada para identificar apenas sinais com características soviéticas, mas incapaz de decifrar sinais norte-americanos, ingleses ou franceses.

Os norte-americanos também modificaram diversos outros sistemas dos F14A, que se tornaram menos eficazes ou simplesmente foram omitidos: sistemas de navegação inercial, sistemas de orientação por satélite, sistemas de contra-medidas eletrônicas simplesmente desapareceram da versão iraniana. O grupo propulsor formado, na versão norte-americana, por duas turbinas Pratt and Whitney TF30-PW412 foram substituídas por duas TF30-PW414, um pouco menos potentes. O motivo era que as PW412 apresentavam problemas de manutenção, enquanto as 414 eram mais robustas e adequadas para as condições encontradas no Irã.

A ativação das primeiras unidades de F14A iranianas foram cercadas por problemas de todos os tipos. Apesar da permissão para que a aeronave fosse entregue, o acordo de venda continha diversas cláusulas que virtualmente faziam dos norte-americanos “sócios” dos iranianos. Como os sistemas da aeronave, ainda que simplificados, eram extremamente avançados, a manutenção não era feita no Irã, mas nos EUA; e tanto fornecedores quanto os militares norte-americanos não permitiam a presença de iranianos durante o processo. A maioria das partes componentes (inclusive turbinas e atuadores de enflechamento das asas) tinha de ser enviada aos EUA sob responsabilidade de técnicos norte-americanos, que trabalhavam nas bases da RFAI (a principal delas situada na cidade de Esfahan, aproximadamente 400 quilômetros ao sul de Teerã, e a meio caminho entre o Golfo Pérsico e o Mar Cáspio) pagos pelo governo iraniano. Essa situação criava tensão entre iranianos e norte-americanos, além de manter mais da metade dos F14 no chão, a maior parte do tempo. O mesmo acontecia – e de certa forma, de modo ainda mais restritivo – com os AIM54.

Os iranianos adquiriram também mísseis de guiagem IR AIM9P Sidewinder, e também o AIM7 Sparrow, na versões E4 e E2, de guiagem a radar, que não eram versões de último tipo, mas eram compatíveis com o radar AN/AWG9, e também podiam ser usados nos F4E.

Gostaram? Pois os F14A continuam em operação, e, segundo dizem, melhores do que antes. Vamos ver na próxima semana.

O filminho é interessante não tanto pela qualidade – não tem nenhuma – mas por mostrar um panorama bem atual da FARII, inclusive  apresentando os mais de 150 aviões iraquianos que os xiitas da força aérea de Saddam Hussein simplesmente presentearam ao Irã, nas duas Guerra do Golfo. Entravam nos aviões e iam pousar nas bases iranianas – e estão lá até hoje. Notem, no final da peça (bem ruim, por sinal – até o You Tube tem lá seus limites…), o caça que está sendo desenvolvido pela indústria local, com base no F5E::