Sobre crises e projetos::

Segundo estamos cansados de saber, o Brasil está passando por uma séria crise econômica. Até aí, nada de novo. Temos passado, ao longo dos últimos 500 anos, por crise atrás de crise. As crises vêm, e depois de algum tempo, surge uma solução que, todos sabem, não irá dar certo por muito tempo. E surgem aqueles que dizem que a solução do momento é a única salvação.

Pergunto-me que lições, nós, brasileiros, já poderíamos ter tirado dessa “vida na crise” (além do fato de que os salários e pensões saem  de cada uma delas cada vez mais achatados, e o capital financeiro ganha em toda e qualquer crise…)? Nossos projetos estratégicos, estabelecidos durante os períodos de bonança, geralmente são os primeiros – junto com os projetos culturais – a ir para o saco. Tenho em mente alguns, em particular: a aquisição dos caças suecos Gripen NG, concluída em 2014, a aquisição, pela FAB, de um novo avião de transporte tático/reabatecimento em vôo, o EMBRAER KC-390, e a construção do SBN, o submarino nuclear nacional.

Com exceção do KC-390, já falei muito nos outros dois projetos, nos velhos tempos do causa::. Sei que a defesa nacional não é propriamente um tema que atravesse as preocupações de nossas instituições e de nossos formadores de opinião.  Pelo contrário, boa parte dessas instituições considera projetos de defesa nacional como desperdício de dinheiro. Em épocas de crise aguda, ouvimos dos próprios governantes que o país não precisa deles e que nossas FFAA seriam melhor utilizadas em funções de policiamento urbano e “luta contra o contrabando de armas”, o que, em última análise, implica enorme desconhecimento sobre as funções exercidas pelas FFAA no mundo contemporâneo.

E para os equivocados que acham que “somos parte do Ocidente”, e que isto nos asseguraria contra qualquer problema, um episódio bem marcante estará, em 2017, completando 35 anos – a Guerra das Malvinas.

Foi o último conflito assimétrico para valer que envolveu forças armadas formalmente institucionalizadas, fora de um contexto de alianças, em um teatro estratégico altamente específico, num panorama ainda bipolar. Não conheço nenhum estudo (deve haver, eu é que não encontrei) sobre a influência do contexto estratégico e do panorama bipolar no desenrolar da guerra, mas o fato é que a Argentina poderia ter vencido. Não venceu exclusivamente pelas sandices militares cometidas pela ditadura argentina – que tinha se entupido de armamento, moderno, mas tendo em vista uma possível guerra contra o Chile, em função da contenda do canal de Beagle – que quase aconteceu, em 1978, mas , se tivesse acontecido, seria basicamente um conflito de teatro terrestre, onde as marinhas não teriam contado grande coisa. Só que, contra uma potência de primeira linha (e isso a Inglaterra ainda era, na época) o armamento adquirido pela Argentina era “meia-boca”: caças táticos norte-americanos dos anos 1950, versões xumbrega dos Mirage V fabricadas pelos israelenses (um caça chamado “Dagger”, que nem radar tinha), todos operando armamentos “burros”.

Não era, evidentemente, o caso da Inglaterra. Um dos pilares da OTAN, tinha FFAA muito bem organizadas e aprestadas. Mas não em número suficiente para manter seus compromissos com a aliança ocidental e montar uma expedição do porte da que montou – envolveu dois terços da Marinha Real, que era de primeira linha.

Não é o caso de examinar a guerra, aqui – existem livros que o  fazem muito melhor do que eu seria capaz. Vale apontar apenas o seguinte: foi uma guerra de teatro estratégico, e neste caso, uma marinha conta, e muito (primeiro); contra um potência, o que conta é a dissuasão (segundo) e (terceiro), as potências se alinham automaticamente, dentro de suas alianças – foi este ponto que tirou da Argentina qualquer possibilidade de vitória.

Neste caso, a dissuasão teria sido a única possibilidade da Argentina pelo menos tornar a balança menos desequilibrada – digamos: tivessem eles uns dez ou doze submarinos convencionais, certamente a Marinha britânica não teria como montar divisões capazes de prover escolta para os transportes de tropas e equipamentos – não tinham navios suficientes para isso.

Tivessem eles um par de submarinos nucleares de ataque (equipados com torpedos), os ingleses provavelmente nem sairiam de suas bases. E aí entra a história do projeto “SBN BR”, que boa parte dos formadores de opinião consideram “desperdício de dinheiro”.

A Marinha Brasileira começou a se interessar por esse tipo de coisa no início dos anos 1970, ainda na época do “Brasil Potência”. Desde os anos 1950, o país buscava  domínio do ciclo atômico, com a instalação de laboratórios de pesquisa nuclear nas principais universidades do país (USP, UFRJ e UFMG), a criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Laboratório Nacional de Pesquisas Físicas, dentre outras iniciativas que constituiram os primeiros passos nessa direção.

Não se pode esquecer do Almirante Álvaro Alberto da Motta Silva, pioneiro nas pesquisas brasileiras sobre energia nuclear, no início  dos anos 1940. O almirante representou o Brasil na Comissão de Energia Atômica da ONU, numa época em que os EUA pressionavam para que as reservas de tório e urânio, não importa em que país estivessem, fossem colocadas sob controle da entidade, proposta consubstanciada no chamado “Plano Baruch”, de 1946. O almirante qualificou essa proposição dos EUA de “tentativa de desapropriação”, e foi apoiado pelos representantes russo e da França.

Não tenho ideia se Álvaro Alberto chegou a estudar o papel estratégico dos submarinos nucleares – suponho que sim, na medida em que sua carreira, entre o fim dos anos 1940 e os final dos 1960, correu paralela ao desenvolvimento dessa arma. No entanto, já temos pensadores de ponta sobre o tema: os almirantes de esquadra Maximiano da Fonseca e Mário Jorge da Fonseca Hermes, o contra-almirante Mário Cezar Flores, e, mais recentemente, o vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. Os três primeiros são pensadores estratégicos, que estiveram muito ativos durante a ditadura; o último é um cientista, e foi, nos anos 1970 e 1980, responsável pelos programas de pesquisa militar que buscaram dar ao país o controle do ciclo de produção de combustível nuclear. Boa parte das informações geradas, e da trajetória desses programas (na época havia um da Marinha, mais genérico, e um do Exército, mais voltado para produzir explosivo nuclear) continua cercada de segredo, e nem poderia ser diferente: perguntem a qualquer um se os EUA divulgam suas pesquisas militares nos jornais…

Independente de qualquer juízo de valor (a conjuntura estratégica e política da época, nacional e internacional, tem de ser avaliada cientificamente, por historiadores e cientistas políticos especializados), o Brasil é hoje um dos poucos países do mundo (ao todo, são 11) a dominar todo o ciclo do combustível atômico. É também um dos três que possuem reservas de urânio (os outros dois são Estados Unidos e Rússia) conhecidas em seu território. Nosso país tem, identificadas, jazidas de mais de 300 mil toneladas, das quais um terço já teve atestada a viabilidade econômica. Temos autonomia para uns 100 anos, caso nosso consumo se mantenha nos níveis atuais e o resto se revele inviável.

Ao longo de trinta anos, e a um custo estimado em 3 bilhões de dólares, o Brasil aperfeiçoou um método de enriquecimento de urânio que se mostrou eficaz e barato (alguma coisa chamada “centrífugas em cascata”). Boa parte das necessidades de materiais radioativos para uso industrial, científico e de pesquisa já são atendidas no próprio país, em plantas estatais. Por isso, na década passada começou a se falar, novamente, em energia elétrica produzida em plantas acionadas a combustível nuclear. E, curiosamente, nas últimas duas décadas, pressões internacionais lideradas pelos EUA tentam fazer que o país assine um tal “protocolo adicional” ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que coloca sob controle da ONU não apenas a produção de combustível nuclear em escala industrial, como também submete a controle internacional a pesquisa científica para criação das tecnologias que permitam tal produção em qualquer escala. O “império” e seus “duques” passariam a nos dizer não apenas o que fazer, mas o que pensar em fazer. Isso nos significaria um controle incontornável da ONU (ou seja, dos EUA) dentro do próprio território nacional. Como nenhum país do mundo fornece ou vende tecnologia nuclear a terceiros, continuaríamos a receber combustível nuclear pronto, a conta-gotas e passível de controle estrito sobre o uso. E a “ganhar de presente” – como certa vez escreveu um comentarista – tecnologias obsoletas (como a sujíssima usina de Angra I, dos EUA) ou pagar rios de dinheiro pelas que não deram em nada (ou o detentor achava que não iam  dar em nada, como foi o caso do acordo com a Alemanha, na década de 1970).

Não que o Brasil não deva assinar tratados de salvaguarda – de fato, não precisamos de bombas atômicas. Nos anos 1970, dentro da conjuntura estratégica e política de então – a chamada “abordagem geopolítica” – o país se recusou a aderir ao TNP, mas, na década seguinte assinou uma “versão regional” com a Argentina, considerada muito bem construída do ponto de vista das relações com nosso vizinho, prevendo de forma muito detalhada obrigações e reciprocidades. Nos anos 1990, o governo FHC (sempre ele…), doido para conseguir dinheiro e vantagens econômicas, aceitou “aderir” ao TNP, por pressão norte-americana e contra a posição de diplomatas e militares.  O tal tratado se revelou uma arapuca estratégica sem saída, e colocou todos os programas – militares ou não – sob supervisão da Agência de Energia Nuclear da ONU – e nos obriga, periodicamente, a convencer inspetores estrangeiros que submarinos de propulsão nuclear não são “armas atômicas”. Por sinal, graças ao “príncipe dos sociólogos”, quase nos comprometemos a não produzir mísseis antiaéreos e não podemos, por lei, produzir mísseis balísticos com alcance superior a 300 quilômetros…

Durante a ditadura militar, o país buscou adquirir outras tecnologias sensíveis de caráter militar: aeronaves, carros de combate, mísseis e navios de superfície. E submarinos, que, a duras penas, adquirimos, incompleta, da Alemanha. Em 2010, já debaixo do cobertor da Estratégia de Defesa Nacional e do conceito de “Amazônia Azul”, um acordo assinado com os franceses foi além: a aquisição de tecnologia completa para projetar submarinos, e a aquisição de um casco para o primeiro SSN.

Construir submarinos convencionais não é grande coisa, a não ser que o interessado os construa às dúzias – coisa que ninguém faz. Um submarino convencional (SSK) é movido a motor diesel e baterias. Numa tal embarcação, o curso imerso é impulsionado por motores elétricos, cuja força é provida por grandes grupos de baterias. Na velocidade máxima (que, no caso dos modelos mais modernos, é de uns 20 nós – 35 km/h) a carga se esgota em quatro horas. Numa velocidade mediana (uns 8 nós), se esgota em 24 horas. Esgotadas as baterias, o submersível tem de usar o “snort” (ou “schnorkel”), um mecanismo que permite, submerso, acionar os motores a diesel. Mas este mecanismo, além de detectável com certa facilidade, por causa do barulho e do calor, torna a vida da tripulação um inferno. Ou então, sobe à superfície e fica lá por pelo menos 6 horas, navegando em velocidade máxima (no caso uns 11 nós) para que os motores a dieses acionem dínamos que recarregam os conjuntos de baterias.

Um SSN não tem nenhum desses problemas. Visto que não tem motores a diesel, mas uma turbina acionada por vapor produzido pelo reator nuclear (em suma é miniusina termonuclear e móvel), pode ficar meses embaixo da água, enquanto a tripulação aguentar. Em função de não  ter motores elétricos, baterias e outros quetais, tem mais espaço a bordo para a tripulação, equipamentos e armamento. E é muito mais rápido: os modelos mais modernos alcançam 35 nós (70 km/h) em imersão. Uma arma dessas é quase absoluta: nos anos 1970, apesar dos esforços da OTAN, 80 por cento dos submarinos nucleares soviéticos deixavam suas bases no Mar Báltico e ganhavam o Atlântico sem serem detectados pelos piquetes aeronavais no Mar do Norte. E os SSBNs soviéticos iam se posicionar em suas estações ao longo da costa norte-americana, cada um com oito mísseis balísticos, onde ficavam por cerca de 4 meses (eram frequentemente fotografados na superfície). Dá, então, para entender a opção da END: dissuasão.

Ainda assim, construir um submarino não é coisa fácil. A engenharia é extremamente complexa e o sistema incorpora sensores e armamentos que nosso aparelho produtivo ainda não domina. Um nuclear, mesmo sem mísseis balísticos, é muito mais cavernoso. Somente cinco países os constroem: Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França, sendo que os dois últimos o fazem em doses homeopáticas, apenas para continuar achando que contam alguma coisa, como potências. Alguns outros poucos, como Israel e Alemanha reúnem condições tecnológicas de realizar tal projeto, mas não o fazem por restrições orçamentárias ou políticas. Recentemente, a Rússia alugou dois SSNs para a Índia. Este último país fez tal opção exatamente pelas restrições orçamentarias: a preços de hoje, um SSN novo custaria cerca de 2 bilhões de dólares por unidade. A MB provavelmente pagará um pouco mais barato, já que os custos para montar os sistemas do SSN BR serão em boa parte pagos por tabelas nacionais, bem mais baratas que as estrangeiras, e os sensores e sistemas de armas não serão de última geração. Segundo especialistas, um SSN “top de linha”, como os 6 que a Rússia está construindo, sairiam por uns 3 bilhões de dólares cada.

A parte mais importante do projeto, mas que estava bastante adiantada até 2013, era o desenvolvimento do reator – que implica em diminuir seu tamanho ao ponto de faze-lo caber nas dimensões de um submarino. Um reator nuclear em miniatura, no dizer  de um técnico. Segundo foi divulgado, o projeto, desenvolvido pelo IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) em Aramar, São Paulo, já se encontra em fase de testes. Também estão sendo desenhados, com apoio francês, mísseis de cruzeiro adaptados para serem lançados através dos tubos lançatorpedos. Já existe um sistema de datalink naval em fase de testes e um sistema de análise de dados táticos em funcionamento.

Pós escrito::

Rascunhei o texto acima uns anos atrás, quando a Guerra das Malvinas estava fazendo 30 anos. Agora, me surpreendo ao encontrar, na Internet, o texto de autoria do juiz federal, doutor Narciso Alvarenga Monteiro de Castro – que prova que nem toda a Justiça Federal tem a cara do doutor Sérgio Moro. Os textos são basicamente a mesma coisa, já que existe muita gente preocupada com os rumos da “Operação Lava-Jato e suas coadjuvantes. Acho que os dois textos poderiam ser lidos um após o outro (o do juiz, primeiro).  Sua argumentação central é nada menos que excelente, mas merecia algumas ressalvas especializadas, que, respeitosamente, achei que poderia fazer.

Para concluir, peço licença ao autor do excelente artigo O desmonte de nossos programas estratégicos em que me inspirei para reapresentar o que acabou se ser lido, e usar a conclusão dele.

“É inconcebível que um suposto combate à corrupção possa conduzir ao desmonte em programas estratégicos da nação. Seria até risível se pensar que americanos, russos ou franceses encarcerariam seus heróis, seus cientistas mais proeminentes, ainda que acusados de supostos desvios.

Portanto, somente aos estrangeiros ou seus prepostos no país, pode interessar o atraso ou o fim dos programas estratégicos brasileiros. É mais que hora de uma intervenção do governo ou, no mínimo, uma supervisão bem próxima da nossa Contra Inteligência para a verificação do que realmente está por trás das investigações da PF (FBI? CIA?), MPF e dos processos a cargo da 13a Vara Federal de Curitiba.”::

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A DAAe do EB chega ao presente::Uma geringonça de primeira linha no inventário, afinal::

parte1Não se trata de notícia nova – até pelo contrário: em fevereiro último, o governo brasileiro decidiu pela aquisição, em um primeiro momento, de cinco baterias AAe de origem russa. Duas são do tipo Igla-S, de defesa de ponto (curto alcance) e três são do tipo Pantsir S-1.

A “carta de intenções” entre brasileiros e russos foi assinada em fevereiro, e é apenas o começo da discussão visando estabelecer o preço final da aquisição e conseguir maiores vantagens da parte dos russos. A assinatura do contrato definitivo deve acontecer em julho e as primeiras entregas, dezoito meses depois. O produto pode ser customizado segundo exigências pontuais do comprador: no caso brasileiro podem ser adotados alguns componentes fabricados por aqui, como as carretas blindadas, que têm um equivalente nacional, fabricado pela Avibrás para o sistema Astros-2. Já a adoção do radar nacional Saber 200, citada em alguns informes da imprensa, parece muito pouco provável pois implicaria em modificações de sistema que dificilmente os russos (ou qualquer outro fabricante) estariam dispostos a fazer. De toda forma, estimativas especializadas colocam o valor do pacote completo em pelo menos US$ 1 bilhão.

São ambos sistemas antiaéreos “estado da arte”. Pode-se dizer que o Igla já existe por aqui, e é conhecido tanto pelo EB quanto pela FAB – numa versão considerada ultrapassada, embora ainda eficaz, e que desperta um bocado de controvérsia (causa:: falou do assunto recentemente). A linhagem Igla faz parte dos sistemas conhecidos genericamente como MANPADS (acrônimo, em inglês de MAN Portable Air Defense  System – “Sistema de Defesa Antiaérea Portável por Homem”). O conceito surgiu como desdobramento da ideia, datada da 2ª GM, de armamentos de infantaria operados por pequenas equipes (dois ou três elementos), apontados a partir do ombro de um deles. O alcance dessas armas é “visual” – o operador tem de colocar o lançador mais ou menos na direção do alvo –, e o elemento-vetor é um foguete ou míssil de pequeno porte (no máximo dois metros de comprimento e 12-15 kg de peso).

O MANPADS típico é dividido em duas partes. Uma peça chamada, em inglês, handgrip (“empunhadura”) é considerada por alguns especialistas como o armamento, de fato: contém os sistemas de pontaria e (dependendo do modelo) guiagem, os sistemas eletrônicos e mecânicos que acionam a “munição” (em seguida explico por que as aspas), a bateria e a unidade “esfriadora” (no caso dos “buscadores de calor”); nesta peça, que pesa entre seis e dez quilos, dependendo do modelo considerado, é alojada a “munição”, um míssil auto ou teleguiado a combustível sólido, com uma cabeça de guerra de alto explosivo pesando entre um e três quilos. O míssil, pesando entre 8 e 12 quilos, é contido num tubo descartável, que, em alguns casos, pode ser reutilizado. Parte da literatura técnica considera a bateria e a “unidade esfriadora” como uma “terceira parte” do conjunto, pois têm de ser trocadas após certo tempo, ou após o disparo de uma “carga de munição”. Aqui no causa::, tendo a considerar a geringonça toda como um “sistema de armas”, visto que um não serve para nada sem o outro.

A quase totalidade dos MANPADS adota um entre dois tipos de sistema de guiagem: o primeiro, mais comum, é chamado “guiagem passiva” (passive homing em inglês): não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. Esses sistemas são colocados no próprio míssil, de modo que o operador, depois do lançamento, não tem mais controle sobre a trajetória. Estes sistemas de armas são os mais comuns: setenta por cento dos que estão ativos, o adotam. O segundo é menos comum: numa tradução livre, podemos chama-los de “guiagem de comando” (em inglês, command guidance). A trajetória do míssil é determinada por uma fonte externa, comandada pelo operador e captada por um receptor instalado no míssil. Um terceiro sistema é bem mais raro nesse tipo de arma: guiagem semi-ativa (semi-active homing, em inglês). Nesta, uma fonte externa “ilumina” o alvo através de uma fonte emissora de ondas, e míssil “percebe” a posição da interferência.

Os Igla são a terceira geração dos sistemas de guiagem passiva. Estes sistemas de armas se tornaram possíveis a partir do desenvolvimento, durante os anos 1950, de aparelhos de guiagem “buscadores de calor” (tradução livre da expressão heat-seekers). São equipamentos “passivos” porque não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. No caso, radiação do espectro eletromagnético em amplitudes de ondas que geram calor, mas são invisíveis aos olhos, conhecidas como “infravermelhas” (IR, do inglês infrared). O princípio é relativamente simples: a impulsão proporcionada por motores à reação baseia-se na emissão de jatos de gás em alta velocidade, numa única direção. O atrito provocado pelo movimento do gás gera “calor”, ou seja, uma súbita emissão de micro-ondas que se concentra em grande quantidade junto à cauda da aeronave, antes de se dispersar (por sinal, muitos corpos físicos têm essa propriedade de emitir, concentrar e dispersar calor). A cabeça de guiagem “buscadora de calor” possuí pequena quantidade de uma substância semicondutora (na primeira geração, sulfeto de chumbo II – PbS –, ou “galena”; nos mais modernos, antimoneto de índio – InSb – ou mercúrio-cádmio-telurídio – HdCdTe), todos elementos minerais com a propriedade de “medir” emissões de fótons em sequência (fotocorrente ou corrente fotelétrica). Essas emissões causam alteração no comportamento físico da substância, alteração que gera energia suficiente ser repassada a uma unidade de comando e controle eletrônica. Na primeira geração e em alguns tipos da segunda, essas unidades de controle eram analógicas; em partes da segunda e na terceira geração, digitais. A unidade de comando e controle interpreta os dados e aciona controles mecânicos dos aerofólios móveis, que mudam a direção de vôo do míssil.

Esse processo foi aplicado pela primeira vez no míssil ar-ar AIM9 Sidewinder, que começou a ser desenvolvido em 1949 e entrou em serviço em 1956. Nos final dos anos 1950 o sistema foi diminuído o suficiente para ser colocado em uma arma portátil, no caso o FIM- 43 Redeye, da empresa Convair (depois General Dynamics), que entrou em serviço em 1965, abrindo a primeira geração de MANPADS. Pouco depois, apareceu uma versão soviética, o sistema 9K32, desenvolvido pelo escritório de projetos (em russo, OKB) 134, dirigido pelo engenheiro Turopov nas proximidades da cidade de Tushino. Estreou em 1968, apelidado pelos soviéticos Strela e foi referenciado pela OTAN como SA-7 Grail. O SA-7 é geralmente tratado pela bibliografia especializada como cópia do Redeye obtida através de engenharia reversa, embora a história nunca tenha sido definitivamente provada.

Um problema dos MANPADS que não existia nos armamentos de ombro até então era o jato de chamas gerado pelo propelente do míssil, que poderia torrar o operador. A solução imaginada foi introduzir uma carga menos potente, chamada “de ejeção”, situada na extremidade posterior do míssil. Esta serve apenas para fazer o vetor deixar o tubo de lançamento, gerando um bocado de fumaça, inócua para o operador. Alguns segundos após o acionamento da “carga de ejeção” é acionado o “motor de vôo”, um motor-foguete que rapidamente acelera o vetor até velocidades que podem chegar até 1200 m/s, nos modelos mais modernos (para uma visão geral dos sistemas MANPADS, clique aqui).

Os MANPADS da primeira geração não eram lá muito eficientes: tinham de ser colocados pelo operador diretamente na direção da fonte de calor, ou seja, da cauda da aeronave e, ainda assim, o tempo de reação do míssil era geralmente menor do que a velocidade da aeronave, de modo que eram plenamente eficazes apenas contra helicópteros ou aeronaves voando em velocidades relativamente baixas, ou que passassem diretamente sobre a posição do míssil. Ainda por cima, as primeiras cabeças de guiagem não conseguiam distinguir faixas muitos amplas do espectro de micro-ondas, de modo que podiam ser “enganadas” por outras fontes próximas. Assim, não demorou a aparecerem contramedidas altamente eficazes, conhecidas como flares – uma cápsula ejetada por uma aeronave que, ao ser ativada gera, por reação química e sem explosão, uma grande quantidade de luz e calor durante um período que varia entre cinco e dez segundos.

A estreia em combate real do MANPADS deu-se na Guerra do Yom Kippur (1973), em grande estilo: a vantagem inicial egípcia deveu-se, em grande parte, à anulação da eficiente aviação israelense por sistemas de defesa AAe repassados às forças árabes pela União Soviética. A tática israelense de voar baixo com caças-bombardeiros A-4 Skyhawk, de modo a evitar a vigilância de radar foi anulada pela presença de 2000 SA-7 Strela-2, responsáveis pela derrubada de doze aeronaves, e por danos incapacitantes em outros dezoito (algumas fontes elevam este número para 45 baixas). A presença desse armamento acabou obrigando os israelenses a mudarem parcialmente suas táticas, passando a voar em altitudes médias, e assim entrando na faixa de alcance dos sistemas Tunguska (o avô do Pantsir S-1, mas disso a gente fala depois…) e dos SAMs convencionais. O melhor treinamento dos pilotos egípcios de caça (dentre os quais o mal fadado Hosni Mubarak) fez o resto, de forma que a guerra aérea, naquele conflito, pode ser considerada quese um empate.

As segunda e terceira gerações de MANPADS têm seus principais representantes no Stinger dos EUA, no SA-14 Strela-3 soviético, FN-6 chinês, Mistral francês e Blowpipe, da Grã Bretanha. O uso de cabeças de guiagem baseadas em antimoneto de índio e mercúrio-cádmio-telurídio aumentou a eficiência da leitura do espectro de cores IR, e as mais atualizadas conseguem distinguir faixas do espectro ultravioleta (UV), o que possibilitou que os mísseis passassem a distinguir entre o emissor primário e os secundários e, desta forma, adquirissem o alvo de forma correta, evitando interferência. Um aspecto decisivo que aumentou exponencialmente a eficácia dos MANPADS da segunda geração foi a introdução de “baterias termais”, unidades geradoras de eletricidade de maior eficiência, e “unidades resfriadoras de bateria” (em inglês, BCU – battery coolant unity), também conhecidas  como. Essas unidades abaixam a temperatura do buscador IR até cerca de -200°, aumentando a sensibilidade do semicondutor da cabeça de guiagem e, por consequência, a eficácia do sistema.

Entretanto, a partir da segunda geração começaram a surgir – ou ser retomados – métodos de guiagem ativa, a tal ”guiagem de comando”. Em última análise, é a releitura de um sistema usado na 2ª GM, pelos alemães, em bombas planadoras e mísseis antiaéreos. O operador dirige o vetor utilizando a combinação de um visor e um pequeno manche (em inglês, joystick). É o sistema utilizado pelo MANPADS britânico Blowpipe (“zarabatana”). Este adota uma variação do sistema denominado MCLOS (abreviatura, em inglês, de Manual Command Line Of Sight, ou “Comando Manual por Linha de Visada”).  Através de emissões de rádio estimuladas pelo movimento do joystick, a trajetória do vetor é corrigida até alcançar o alvo. O operador tem de colocar o míssil na direção do alvo, dispara-lo e, após três segundos, passa a dirigir a trajetória movimentando um pequeno joystick com o polegar, até conseguir o impacto. Parece fácil? Tente faze-lo com uma geringonça de sete quilos apoiada no ombro. Tratava-se de um processo complexo, que exigia equipes muito bem treinadas e conhecedoras do sistema, o que rompia a filosofia básica do conceito MANPADS. Em 1985 a arma foi descontinuada pelos britânicos. Umas cinquenta unidades foram vendidas aos argentinos no final dos anos 1970, de modo que, durante a Guerra das Falklands, ironicamente, os dois lados estavam armados com o produto britânico. Os britânicos afirmam ter derrubado nove aeronaves argentinas por meio dessa arma e os argentinos dizem ter abatido dois helicópteros e uma aeronave VSTOL Harrier.

Também foi nos anos 1980 que a entrega, pela CIA, de 1000 FIM-92 Stinger aos guerrilheiros afegãos fez deste sistema de armas um verdadeiro astro da guerra de guerrilha contra os soviéticos. Segundo informações distribuídas pela agência de inteligência norte-americana, entre 400 e 500 aeronaves soviéticas e afegãs, aviões e helicópteros foram abatidos em pouco mais de cinco anos. No Afeganistão, o conceito de MANPADS chegou à maturidade e tornou-se motivo para que tanto soviéticos quanto, posteriormente, os próprios norte-americanos mudassem, suas táticas de apoio aéreo aproximado, passando a evitar perfis de ataque muito próximos do solo. A eficiência dos MANPADS contra aeronaves voando em altitudes ultrabaixas, em solo acidentado, as tornava alvos fáceis para irregulares com baixo nível de treinamento, alta consciência do terreno e altamente motivados. Em função do curto alcance dos mísseis “buscadores de calor”, as incursões soviéticas passaram a ser feitas de altitudes médias e altas, que, dada a alta mobilidade das unidades de guerrilheiros, eram muito pouco efetivas. Posteriormente, em sua guerra afegã “contra o terrorismo”, os norte-americanos passaram a usar ataques de uma única aeronave em grande altitude e usando armamento inteligente – também sem grande eficiência e com alto número de baixas colaterais.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil tem adquirido alguns lotes do SA-18 Grouse. Os SA-18 são a versão anterior do sistema de armas adquirido agora, este referenciado pela OTAN como SA-24 Grinch (um tipo de duende que rouba motivos de satisfação alheia – no caso, dos pilotos de aeronaves…) e apresentado pelos fabricantes em 2008. Com relação à versão usada pelas FFAA brasileiras, o SA-24 tem maior alcance (6 km contra 4,5 km) e maior eficiência noturna. Esta é provida pela combinação de um rastreador de alvos baseado em amplificador de luz passivo (instalado na empunhadura), que se combina ao tradicional, baseado no buscador de emissões IR. Segundo os fabricantes, é plenamente eficaz contra alvos em vôo em altitudes de até 3500 m, mas ainda se destina-se principalmente a opor alvos em velocidade subsônica: helicópteros, mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Contra aeronaves em velocidades transônicas, sua eficácia decai exponencialmente. Ainda assim, o Igla-S é bastante versátil, podendo ser adaptado para vários tipos de plataformas estáticas, em navios e em helicópteros.

A aquisição de duas baterias faz sentido em função do fato de uma complementar a outra.  Os Igla-S, instalados em lançadores duplos operados por um único homem, podem ser rapidamente transportados e postos em bateria, em locais bastante discretos, como topo de prédios ou mesmo em pequenos veículos do porte de um pequeno caminhão. A outra parte da compra, o Pantsir S-1, é bem mais complexa, e constitui um sistema pelo menos em princípio mais eficiente, voltado para a aquisição de alvos em distâncias médias. Combina mísseis e armamento de tubo, orientados por radar. Falaremos deste em outra hora, para termos uma visão ampla da aquisição brasileira, suas possíveis vantagens e desvantagens::

Causa também tem saudades::Para complementar, alguns assuntos relevantes::Parte 1::

Faz alguns meses que causa:: está meio largado às traças devido a meus projetos prioritários. Mas como não é, para mim, possível ficar afastado dos assuntos relevantes, e estes são muitos, resolvi eleger um deles e tecer algumas considerações em torno – como sempre. Um dentre os que realmente parecem interessantes é a revitalização da artilharia AAe de nosso sofrida Força Terrestre::

Algumas observações gerais (e nem precisam ser muito aprofundadas…) nos mostram que, como todo o resto, a capacidade AAe da Força Terrestre nacional é pífia.  Pode-se dizer que esta especialização da arma de artilharia foi introduzida no Brasil nos anos 1930, com a criação de um centro de instrução nas dependencias da Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos, Rio de janeiro. Em 1938 foi criado o “Núcleo da Bateria de Metralhadores AAe”, em torno de alguns canhões AAe Madsen de 20 mm. Na mesma ápoca, a artilharia antiaérea (cuja sigla, para os militares é AAAe) veria uma expansão notável com a aquisição, em 1939, de alguns canhões Krupp modelo 18 (este mesmo – o primeiro da linhagem do fabuloso acht-acht). Em função da época complicada, o contrato mostrou-se muito difícil de ser concretizado – a Europa vivía a abertura das hostilidades da Segunda Guerra Mundial.  Apenas parte da encomenda original foi honrada pelos alemães, que acabaram por incorporar à Wehrmacht os equipamentos originalmente destinados ao Brasil.

O surgimento, de fato, da arma AAe em nosso país teria de esperar até o alinhamento com os aliados, a partir de 1942. Foi então que começaram a ser recebidas peças de origem norte-americana: canhões de 37 mm automáticos e 90 mm, contra alvos em média/alta altitude. No final dos anos1950 certa quantidade de canhões automáticos Bofors C/60 foi disponibilizada para o EB. Ao longo dos anos 1960 e 1970, foram adquiridos os Bofors C/70. Este é, basicamente, o mesmo C/60 (isto significa “60 calibres” – 40 mmX60 –, ou seja, o comprimento do tubo-alma entre o fim da cámara e a boca) com diversos melhoramentos, inclusive uma cadencia de fogo – TPM, no jargão militar – de até 300 salvas por minuto. Estes forma distribuídos entre o EB e os Fuzileiros Navais. O controle de fogo (“direção de tiro”, para o EB) ainda era baseado em sistemas óticos e calculadores analógicos, chamados de “preditores”, no jargão militar.

O grande problema do Brasil era, de toda forma, a dependência quase total de fornecedores externos, notadamente os EUA. Visto que estes se recusavam a disponibilizar armamento de tecnologia avançada, durante os anos 1960 a obsolescência material das FA era crítica: a totalidade do equipamento disponível era coisa que chegava no máximo aos meados dos anos 1950. Na final da década dos sessenta, após ter sucessivos pedidos de equipamento atualizado negados, o governo militar resolveu mandar os EUA às favas e foi às compras na Europa. Foi adquirida uma esquadra “zero bala” na Inglaterra e aeronaves “estado da arte” na França. Mas não foi só: também foi adquirido um sistema de controle do espaço aéreo baseado em radares franceses que, na época, eram o melhor disponível fora dos EUA. A estruturação do sistema incluiu o Controle de Trafego Aéreo e um sistema de orientação de aeronaves militares.

A Força Terrestre entrou nessa “festa tecnológica” com a aquisição dos canhões automáticos bitubos de tiro rápido Oerlikon GDF 001 de 35 mm/90 calibres. Foi um verdadeiro “choque de modernidade”. Na época era o que havia de mais avançado em termos de armamento de tubo para defesa de ponto, inclusive por terem vindo acompanhados por algumas unidades de controle de fogo Skyguard. Este era o descendente, muito melhorado, da EDT Superfledermaus (algo como “Supermorcego”, em alemão), um sistema de radar e optrônicos para localização,  acompanhamento e marcação de alvos, instalado num container autorrebocado. O container, quando posto em posição, apoia-se em quatro sapatas com regulagem coordenada de precisão, capazes de manter o conjunto totalmente estabilizado – requisito básico para um sistema de radar móvel.  A unidade de antena contém o radar de busca (search radar, em inglês) o radar de acompanhamento (tracking radar) e uma câmera de televisão coaxial (acoplada ao radar de rastreamento). A unidade recolhe-se para dentro de um compartimento no container, quando em deslocamento e é automaticamente colocada em posição quando o sistema é ligado. Tanto o radar busca quanto o de rastreamento (acompanhamento de alvos) operam pelo princípio pulso Doppler, capaz de fornecer rapidamente a direção, altitude e velocidade de deslocamento do alvo. O sistema é capaz de avaliar e selecionar automaticamente os alvos. O equipamento de TV coaxial (“optrônico”) dá ao conjuto certa capacidade de oposição à Contramedidas Eletrônicas (ECM), pois é acionado logo que alguma interferência antirradar é detectada e permite que o alvo seja acompanhado e enquadrado visualmente, embora em distâncias menores.  O alcance máximo é de 20 quilômetros, e cada sistema é capaz de adquirir diversos alvos e coordenar o fogo de duas unidades de duplo cano, cada uma com cadência de fogo de até 1100 disparos por minuto. É uma arma extremamente eficaz contra aeronaves voando a baixa altitude a uma distancia de até 4000 metros.

Desde essa época a arma antiaérea do EB foi reorganizada, sendo formados cinco Grupos de Artilharia AAe e nove baterías ligadas à principais brigadas. A essa reorganização correspondeu a desativação do equipamento de origem norte americana e a introdução de novas unidades Bofors C/70.

Paralelamente, entre meados dos anos 1970 e o início da década de 1990 foram feitos esfprços, baseados principalmente no Centro de Tecnológico do Exército (CTEx) e no ITA, da Força Aérea para desenvolver tecnologia militar autóctone. O processo, estrategicamente bem elaborado, tropeçava em alguns obstáculos. O primeiro era a baixa capacitação dos laboratórios brasileiros no que tange à pesquisa aplicada. Isto quer dizer que, embora os princípios fundamentais fossem dominados, não havia quem soubesse aplicá-los direito ao desenvolvimento de geringonças do tipo descrito. O segundo problema, que englobava o primeiro, era o modelo de desenvolvimento brasileiro: os militares esperavam que a indústria nacional – não apenas a indústria de defesa – pudesse se expandir copiando tecnologias ultrapassadas disponibilizadas pelas potências centrais. Essa proposta se desdobrou do sucesso obtido aqui em certos ramos da indústria metal-mecânica, particularmente a automobilística. Quando se tentou fazer a mesma coisa com ramos mais complexos, como a eletrônica e a aeronáutica, o projeto deu gloriosamente com os burros n´água. Ainda assim, certos casos de sucesso contribuíram para estender o equívoco: foi o que se deu com experiências do tipo da Engesa, que chegou a ser um dos grandes fabricantes de blindados sobre rodas do Ocidente. O problema é que o oba-oba da época ocultou o fato de que os produtos fabricados eram tecnologicamente defasados (hoje se sabe que o Cascavel, por exemplo, estava no patamar do final dos anos 1950, e até o canhão era cópia de um modelo belga já então ultrapassado). O sucesso internacional baseava-se no fato de que, como o país copiava tecnologias ultrapassadas e o modelo político mantinha os custos gerais baixos, o preço final acabava sendo muito competitivo. Para piorar as coisas, as forças armadas nacionais, que em todos os países do mundo são o principal cliente da indústria de defesa local, por aqui não pareciam dispostas a comprar os produtos nacionais. Não que não quisessem: o governo militar é que investia relativamente pouco em pesquisa e desenvolvimento, deixando claro que o complexo industrial militar local devia se virar com exportações. Foi assim que países como a Líbia e o Iraque se entupiram de Cascavéis e Urutus, trocados por créditos em petróleo, sem chegar a contribuir para aperfeiçoar os produtos e as doutrinas de uso.

Foi nesse contexto que, em 1978, o Brasil adquiriu uma bateria do sistema franco-germânico Roland II, na época um produto tecnologicamente avançadíssimo. A aquisição chegou a quatro lançadores duplos e 50 mísseis e foi dito que o objetivo era prover a capital federal de um sistema eficaz de defesa antiaérea. A explicação fazia sentido, já que essa função era cumprida por uma bateria de canhões AAe Bofors L/70. Entretanto, os militares brasileiros imaginavam que, aplicando engenharia reversa, conseguiriam copiar o míssil, o lançador e (talvez) os sistemas de guiagem. A história toda até hoje não foi bem contada, mas parece que o fabricante, a empresa franco-germânica Euromissile, começou a desconfiar da quantidade de pequenas encomendas de peças específicas sob o selo “reposição”. Em 1984, o CTEx tentou desenvolver uma plataforma (“shelter”, no jargão técnico) autorrebocada, cujo mockup (espécie de modelo em escala 1/1 e usando os materiais do produto real) chegou a ser divulgado na imprensa especializada. Só que fazer uma espécie de maquete é bem mais simples que fazer a coisa real, e não é possível dizer se teria funcionado como protótipo. Mas nessa época o fabricante europeu já tinha cortado o fornecimento de peças totalmente, e como o objetivo brasileiro não era, de fato, constituir um sistema de defesa AAe de ponto expandido (defesa de alvos de grande porte, como aeroportos bases  e depósitos militares), as unidades não chegaram a se tornar totalmente operacionais e foram abandonadas, sendo uma delas mantida durante alguns anos no CTEx.

Também na década de 1980  a empresa privada Avibrás conseguiu – desta vez com assitência da Contraves – produzir um sistema semelhante ao Skyguard, só que, na época, um pouco mais aperfeiçoado. Mantidas as características do Skyguard, a versão brasileira apresentava0 certos aperfeiçoamento, como a introdução da “banda Ka” de micro ondas, de maior potência, unidade de antena aperfeiçoada, um telêmetro a laser e analizador de dados digital. Falamos aqui da EDT FILA. A palavra é o acrônimo de Fighting Intruders Low Altitude – “combatendo incursores a baixa altitude” -, nome que indica a filosofía da época: uma palavra que pudesse ser lida mais ou menos da mesma forma nas principais línguas, já que o objetivo principal era exportar a geringonça. Foi um processo bem sucedido, principalmente em função da quantidade de recursos injetados no proceso: quem pagava eram os iraquianos. A EDT FILA destinava-se, inicialmente, a funcionar como sistema de guiagem para as baterías de saturação ASTROS II, cujo desenvolvimento, na primeira metade dos anos 1980, foi totalmente financiado pelo (na época) altamente confiável governo iraquiano. As traquinagens de Saddam Hussein, no início dos anos noventa, acabaram com a parceria e resultaram num calote iraquiano, mas, ainda assim, o EB viu no FILA a possibilidade de dotar os canhões de cano singelo Bofors C/70 de 40 mm de um EDT atualizado. O FILA deveria colocar a Força Terrestre em novo patamar tecnológico, mas o fato é que as 100 unidades pretendidas nunca chegaram a ser entregues, em função dos sucessivos contingenciamentos e cortes de verbas ocorridos ao longo dos anos 1980 e 1990. Atualmente, o EB dispõe de 13 unidades, em variados estados de disponibilidade.

Em 1994, outro “choque de modernidade”: o EB recebeu 50 conjuntos  do MANPADS (acrônimo em inglês de man portable air defense system) 9M38 Igla (“ferrão”, em russo) referenciado pela OTAN como SA-18 Grouse (“perdiz”), que foram distribuídos também à FAB. Um “choque” talvez nem tão chocante: até hoje a eficácia do Igla é fator de controvérsia, e não são poucos os comentaristas, militares ou não, que afirmam ter o Brasil comprado gato por lebre.

O SA-18 é uma versão mais sofisticada do SA-16, conhecido como Gimlet pela OTAN. O equipamento disponível pelo EB e pela FAB utiliza o míssil 9M39, bem mais avançado que as versões anteriores e colocado em serviço no final dos anos 1980. Este pode ser usado contra aeronaves em vôo transônico de baixo nível, helicópteros, mísseis de cruzeiro e VANTS. Entrega uma cabeça de guerra com aproximadamente 400 g de alto explosivo (HE), detonada por uma espoleta de proximidade acionada a laser. Com a velocidade final, adquirida em poucos segundos, de 502 m/s, o 9M39 pode atingir um alvo voando a até 5200 m de distância, adquirido por um sensor termal capaz de distinguir entre o alvo e contramedidas baseadas em flares.

O sistema, cujo peso total é de pouco mais de 17 kg, sendo que mais de 10 kg são do míssil, é tido como de uso muito simples, exigindo quase nenhuma manutenção e relativamente pouco treinamento por parte do operador. O problema é que não há unanimidade em torno da eficácia, e boa parte dos analistas diz que se trata de um sistema ultrapassado. Os sistemas do tipo MANPADS adquirem o alvo através de sensores de calor, mas têm de ser colocados pelo operador na direção do alvo, ainda que este esteja na direção contrária do ponto de emprego. Isto significa que a capacidade dessas armas de atuar a noite é limitada. Existem sistemas eletrônicos que auxiliam a aquisição do alvo, mas o Brasil não os adquiriu.

A chegada do Igla apontou, antes de mais nada, para a forte desmobilização da indústria de defesa nacional e para a falta de um programa estratégico de renovação das FA brasileiras. Tratou-se de outra “compra de oportunidade”, tipo de transação baseado na capacidade das Forças Armadas em identificar chances de adquirir material barato e relativamente atualizado, descontinuado pelos países centrais, então às voltas com o fim da Guerra Fria. Tem sido a principal forma de aquisição de equipamento pelo Brasil, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Não que não tenham sido feitas, de lá para cá, diversas tentativas para criar armas e equipamentos autóctones. No ramo AAe, uma relativamente interessante (por reveladora das mazelas nacionais) é a tentativa de criar um equivalente ao norte-americano Chaparral (uma versão superfície-ar do míssil ar-ar AIM9 Sidewinder) baseado míssil MAA1A “Piranha”, denominado SIMDABA (acrônimo de “Sistema de Mísseis de Defesa Antiaérea de Baixa Altitude”). O MAA1A, resultante de um projeto que levou quase trinta anos para ser completado, nasceu obsoleto, mas era para ser assim mesmo (um excelente histórico do projeto pode ser encontrado aqui). Os projetistas, alocados no CTA da FAB e em diversas empresas privadas tocaram o projeto para adquirir conhecimentos sobre a tecnologia de mísseis. Atualmente em serviço em sua versão “1A”, é considerado pelos especialistas como, no máximo, uma plataforma de desenvolvimento e treinamento. Assim, o projeto de tornar esse produto base de uma “família de armamentos” não chegou a ir para a frente, embora volta e meia o assunto volte à baila. Também voltaremos à baila, porque atualmente, embora a artilharia AAe do EB tenha se expandido de forma notável, não existe a menor concordância entre os analistas se essa expansão significa, de fato, um avanço cosistente::

A Internet e a sabedoria estrategica popular: pau que dá em Chico…::

Anos atrás, causa:: publicou um post que comentava sobre uma das traquinagens do tarado/paladino da liberdade de expressão (a grande imprensa nacional e internacional precisa decidir-se logo sobre o que ele é…) Julian Assange: a publicação de 92.000 documentos sobre a campanha do Exército dos EUA no Iraque e Afeganistão. Na época, fazia-se um escarcéu daqueles em torno do conteúdo, que revelaria o comportamento das forças armadas norte americanas – algo digno de um Einsatzgruppe nazista na Frente Oriental. Hoje em dia todo mundo parece concordar que atitudes do tipo das de Assange precisam ser controladas, e que alguns dos motivos pelos quais os estados têm segredos não são apenas provas da má intenção dessas formações políticas. Na época, um exame não muito aprofundado do material me convenceu que a totalidade dos jornalistas brasileiros que tirava casquinha do assunto (sejamos justos – dos estrangeiros, a quase totalidade) não fazia a mais vaga idéia sobre o que estava falando. Não sei se, de lá para cá, alguém além de mim mesmo deu-se ao trabalho de examinar o material com maior cuidado. Afinal, apareceram coisas mais interessantes no Wikileaks, para aqueles que querem provar que os EUA são mesmo o “Grande Satã” – como a divulgação de centenas milhares de cabogramas do serviço diplomático dos EUA, ou de mais de 750 dossiês em torno de prisioneiros mantidos na base naval de Guatanamo. Não faço idéia sobre se o conteúdo desses vazamentos foi examinado com cuidado por especialistas – imagino que, como das outras vezes, provavelmente não. Continuo achando (e parece que outras pessoas também pensam de modo parecido) que o problema do Wikileaks é o direito a que se atribuiu seu (digamos assim…) gestor em não respeitar regras de espécie alguma, e que muito do que já foi vazado no site do enfant terrible Assange constitui, de fato, precedente perigoso com no que diz respeito à segurança nacional dos EUA.

E pois é – recentemente, zapeando pela Grande Rede, descobri, na conta do Exército dos EUA no Facebook (p´ra você ver: US Army também está no Facebook…)uma postagem que me pareceu bastane curiosa. Numa tradução um tando descuidada…

Aos nossos fãs,

Os militares são pessoalmente responsáveis ​​por todo o conteúdo que publicam em sites de redes sociais, blogs ou outros sites. De modo a garantir que o conteúdo relacionado ao Exército seja preciso e adequado, os militares também devem ser cuidadosos sobre o material não-relacionado ao serviço que publicam, já que as linhas que separam a vida pessoal da profissional, no espaço online muitas vezes se tornam tênues. O pessoal militar deve ter consciência de que perdem o controle sobre o conteúdo que publicado na internet, e que muitos sites de mídia social têm políticas que dão esses sites a propriedade sobre os conteúdos e informações postados ou armazenados em seus sistemas. Assim, o pessoal do Exército deve usar seu bom senso em todos os momentos e ter em mente a forma como o conteúdo de suas mensagens vão refletir sobre si mesmos, seu comando e sobre o Exército.

 Tal como acontece com outras formas de comunicação, ao fazer publicações não-oficiais na internet, o pessoal militar é responsável pelo conteúdo, diante das leis federais, do Ministério do Exército e dos regulamentos que regem essas instituições e suas políticas. O pessoal militar deve respeitar certas restrições e políticas, de forma a garantir a boa ordem e disciplina. A lei federal e os regulamentos e políticas que atingem diretamente a conduta do pessoal do militar incluem as que regulam os padrões pessoais de conduta, as operações de segurança, a garantia de informações, divulgação de informações de identificação pessoal, a regulamentação ética e a divulgação de informações ao público. Militares que violem a lei federal e os regulamentos ou políticas através de atividades pessoais inadequadas online são sujeitos à ação disciplinar sob o Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ).

Obrigado a todos, e por favor, mantenham suas postagens. Apenas certifiquem-se de ter em mente o que foi exposto acima.

 Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército.

Certamente o pessoal que acha o Assange um paladino da liberdade de expressão pensará que o texto acima é apenas mais uma demonstração do grau de paranóia de um instituição criptofascista, sempre disposta a incursionar contra a liberdade das pessoas. Como eu compartilho essa opinião apenas parcialmente, resolvi zapear um pouco mais, e descobri que o texto foi retirado  do United States Army Social Media Handbook, (“Manual para Midias Sociais do Exército dos EUA”, numa tradução livre) publicado em 2011 pela tal divisão citada acima. O texto é responsabilidade do “Chefe de Relações Públicas” do Exército dos EUA, cargo ocupado por um general de brigada (general de duas estrelas, ou major general, em inglês). A publicação desse manual gerou um intenso debate na Internet, com muita gente concordando e outros discordando.

Mas se deve levar em consideração que existem razões objetivas para tais regras, de caráter estritamente militar. Essas regras remetem exatamente ao que foi comentado aqui no causa::, com relação ao assunto Wikileaks. Documentação de campanha é assunto de segurança. A maior parte desse material é classificado em função de questões que, no decorrer de uma campanha, podem ser muito sensíveis e chegar a colocar vidas e recursos em risco. Se os assíduos de causa:: acham que estou exagerando, e que uma inocente postagem em um blogue não pode fazer mal a um exército, leiam o post abaixo (também traduzido com certa leniência…), descoberto no blogue da revista australiana SC.

O Exército dos EUA alertou os muitos caçadores de fotos existentes entre os militares norte americanos sobre os perigos das fotos georreferenciadas, depois de que informações contidas nessas imagens foram utilizadas pelos insurgentes iraquianos para localizar e destruir quatro helicópteros Apache AH64D. O incidente, ocorrido em 2007 foi contado pelo US Army Maneuver Center of Excellence (MCOE) [“Centro de Excelência em Manobras do Exército dos EUA”, numa tradução livre – trata-se de um centro de formação de tropas blindadas, motorizados e aeromóveis, situada em Fort Benning, no estado da Georgia] pelo oficial de inteligência Steve Warren. “A nova frota de helicópteros integrava uma unidade de aviação recém-chegada a uma base no Iraque [e] alguns soldados tiraram fotos da linha de vôo … que foram enviados pela Internet, permitindo ao inimigo determinar a localização exata dos helicópteros dentro do complexo e realizar um ataque de morteiros, destruindo quatro dos Apaches AH-64″, disse Warren. “A consciência situacional de um efetivo em serviço inclui o mundo da mídia social. Se um soldado publica uma foto tirada em seu smartphone no Facebook, este efetivo pode estar transmitindo a localização exata de sua unidade. Coordenadas de longitude e latitude em fotos georreferenciadas são suficientemente precisas para comprometer a localização do soldado”, explicou o oficial. Fotos georreferenciadas são também rastreáveis em serviços como o Flickr. O sargento-ajudante Dale Sweetnam, da Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército, disse que o timing do Facebook aumentou o problema, pois as fotos tiradas por usuários podem ser colocadas em um mapa. “Algumas dessas pessoas têm centenas de”amigos” que podem não ser realmente conhecidos delas”, disse Sweetnam. “Honestamente, é muito assustador pensar que um conhecido que se torna um “amigo” do Facebook pode descobrir sobre suas rotinas e hábitos, se você tem o costume de marcar sua localização em suas mensagens.” As informações dadas pelo Exército como não classificadas, quando combinadas em sequência, podem criar padrões de conjuntos de dados sensíveis [foi exatamente o que explicamos no causa::, anos atrás…]. “Em operações de segurança, falamos sobre o adversário”, disse o oficial de operações de segurança do MCOE, Kent Grosshans. “O adversário pode ser um hacker, pode ser um terrorista, um criminoso, ou qualquer um com a intenção de causar dano. Esse adversário recolhe peças de informação para montar um quebra-cabeça inteiro. Seja consciente das informações você está colocando na rede”, disse ele. “Não compartilhar informações com estranhos. Uma vez que está lá fora, ele está lá fora. Não há como as ter de volta.

Eu diria mais: compartilhar esse tipo de informação na Grande Rede, sem maiores cuidados, é burrice. Mas se deve levar em consideração que os alistados do exército dos EUA têm, em media, não menos que dezenove e não mais que vinte e poucos anos – inclusive os oficiais dos postos iniciais da carreira militar. Não há como impedir que esse pessoal tenha as mesmas atitudes de todos os outros garotos da mesma idade, e dentre essas atitudes mais comuns, atualmente, está a de postar baboseiras e inutilidades no Facebook. Depois de alguns anos discutindo o assunto, as autoridades do Exército dos EUA concluíram que os riscos gerados pelo tráfego de informações publicadas por pessoal militar eram superados pelas vantagens – dentre outras, é uma forma de diminuir o estresse. Na atualidade, qualquer militar pode ter páginas no Tweeter, Facebook, Flickr, blogues pessoais, e por aí vai. As informações podem ser publicadas até mesmo de computadores pertencentes ao Exército, desde que essas máquinas não sejam classificadas como “de segurança” – por exemplo, os lap tops usados para operar sistemas de combate, como radares de defesa antiaérea ou de comunicações militares. Existem, entretanto, limites bem claros, que aqueles expostos acima, e que se destinam a defender o Exército contra a exposição a hackers, e limitar ao máximo o acesso a sites de pornografia, jogos de azar e incitação ao ódio.

Nada garante que a sensibilização dos militares para o perigo da circulação sem controle de informações na Rede diminua esse perigo. E, pior, é possível que entre os militares que vazam informações sensíveis inconscientemente, estejam alguns que se aproveitem dessa liberalidade. O caso mais famoso, nos últimos tempos, é exatamente o do soldado de primeira classe (algo como segundo cabo, posto inexistente no Exército brasileiro) Bradley Manning. Manning, um “nerd” cheio de problemas pessoais, treinado como analista de inteligência eletrônica, na época com 22 anos, cumpria serviço no Iraque quando foi preso, depois que um hacker o denunciou como fonte de milhares de arquivos digitais classificados do Pentágono – os tais comentados aqui no causa::. Como foi discutido na época, na maioria eram arquivos cujo conteúdo dizia respeito ao cotidiano operacional de unidades em campanha. O problema é que, entre relatórios de operações que falavam de acidentes de carro, apreensões de pequenas quantidades de armas, uso de viaturas militares para transportar doações de natal e por aí vai, haviam informações realmente valiosas sobre posicionamento e regularidades de unidades em campo. Estas, avaliadas por especialistas, podem realmente ser perigosas. São mantidas na categoria “reservado” durante uns vinte anos, após acabada a guerra. Passado esse prazo, costumam a ser abertas aos interessados (quase sempre pesquisadores acadêmicos especializados) sem maiores restrições. O problema é que em meio a essa massa encontram-se também informações e imagens altamente embaraçosas por expressar à perfeição lambanças monumentais cometidas no campo de batalha e nas proximidades dele – no caso coisas como o fuzilamento sumário “por via das dúvidas” de um grupo de civis iraquianos em Bagdá e a eliminação, pela Força Aérea, de uma perigosa festa de casamento na aldeia de Granai, no sudoeste do Afeganistão. Porque os militares não eliminam tais coisas? Os motivos são diversos. Primeiro, por motivos meramente técnicos e legais: como instituições de estado compostas por servidores públicos, as forças armadas precisam registrar em documentos oficiais os próprios atos, inclusive como base de “segurança jurídica” – num estado de direito, as corporações militares, subordinadas ao Executivo, são supervisionadas pelos poderes Judiciário e Legislativo. Em segundo lugar porque, por mais absurdo que pareça, milico não costuma a considerar problema “sentar o dedo” em quem quer que lhes faça cara feia, principalmente em zona de guerra. Assim, essas informações são mantidas sob sigilo e sua abertura depende de iniciativas da sociedade civil ao legislativo e ao judiciário – é o caso, por exemplo, dos arquivos do Exército Brasileiro sobre a “guerra suja” do período ditatorial.

Assim, o governo norte americano tem agido com a sensibilidade característica: esconde os motivos dos eventos e a identidade dos militares envolvidos e mantém o soldado preso incomunicável, na prisão militar de Fort Mead, sob suspeita de traição. Trata-se de uma tentativa de se preservar, visto que, m geral, se o piloto de um helicóptero de combate mata uma dúzia de civis por “achar” que um deles porta um fuzil, ao fim e ao cabo, quem acabará responsabilizado é o oficial em comando. Casos assim são o sonho dos grupos civis que, nos estados de direito, cobram o Executivo e seus servidores. Do outro lado do espectro está o sargento do Corpo de Fuzileiros Navais Gary Stein, de 27 anos, lotado na base de Camp Pendleton. Frequentador de sites de extrema direita, simpatizante do populismo radical do Tea Party, Stein declarou em sua página no Facebook, no início do ano, algo como “Dane-se Obama. Não obedeço ordens dele.” Embora tenha, ao que parece, se arrependido da postagem, o comando da corporação não achou lá muita graça da coisa toda: Stein acabou tendo “baixa sem honras”. Embora a extrema direita o tenha transformado em “herói da liberdade de expressão”, não poderia ter dado outra: as regras militares norte americanas são bem claras, e proíbem declarações políticas de qualquer espécie, principalmente aquelas que podem ser consideradas uma declaração de motim, visto que o presidente, quer queira a extrema direita ou não, é comandante em chefe das forças armadas, instituição de estado ao qual Stein estava ligado. “Penso que está muito bem estabelecido há muito tempo que o direito de expressão é uma área da qual as pessoas abrem mão parcialmente, ao entrar para as forças armadas. Ordem e disciplina requerem que os militares mantenham respeito pela cadeia de comando”, declarou sobre o assunto o professor de Direito e ex-militar David Glazier. Faz sentido – em todas as corporações militares é a mesma coisa. E com as capacidades chamadas “virais” da Internet, esse tipo de caso talvez preocupe tanto as autoridades militares quanto o vazamento de documentos de campanha. Pensando bem, talvez preocupe até mais…

O carnaval que os sites de extrema direita têm feito em torno de Stein é tão grande quanto o carnaval que a esquerda liberal – inclusive norte americana – tem feito em torno de Julian Assange. Tanto quanto o soldado Manning parece ter sido aliciado por um hacker colaborador do Wikileaks, o mesmo pode ter se dado com Stein, visto suas ligações com a direita boquirrota. Nesse ponto, a Internet não tem posição política. Ambos pagam, merecidamenteo, o pato.

Nem responsabilidade militar: em 2006, durante a invasão do Líbano, soldados israelenses de dezoito anos (talvez os mesmos que são vistos neste vídeo ridículo e engraçadíssimo, postado no you tube algum tempo atrás), provavelmente achando, na esteira de seus oficiais comandantes, que seria “mamão com açúcar” enfrentar o Hizb´Allah (grupo xiita radical militarizado e muito bem treinado pelos iranianos e sírios) em campo aberto, danaram a tirar fotos dos locais por onde passavam suas unidades blindadas. Os guerrilheiros libaneses, demonstrando esperteza e conhecimento soberbo do terreno, recuaram com extrema habilidade e acabaram por atrair uma brigada de infantaria, apoiada por 40 blindados Merkava IV para uma armadilha, que, reconheceram os israelenses, foi muito bem tramada. Esse evento foi, mais tarde, chamado Batalha de Bint Jbeil, e terminou empatado, o que seria normal, não fosse o fato de que o lugar, uma cidade de porte médio dominada pelos xiitas, em meio a um bosque, era defendido por uns 200 milicianos. Não satisfeitos com a burrice extrema de lançar tanques e unidades mecanizadas em uma floresta, os militares israelenses, continuaram a tirar fotos e enviarem pela Internet, através de celulares plugdos às linhas telefônicas locais. Rastreando as comunicações do inimigo, os xiitas – segundo os israelenses, apoiados pelos sírios – determinavam os pontos de reunião das forças israelenses e montavam emboscadas do tipo “bate e foge”, atraindo o inimigo para cima de minas de alto poder explosivo. No fim, os israelenses não conseguiram consolidar a posição, sofreram baixas consideráveis e acabaram por admitir que “acabar com o Hizb´Allah é um sonho”. Parece que acabar com a irresponsabilidade natural do pé de poeira pós adolescente, também…::

Algumas reflexões sobre o Exército Brasileiro::Colinas, cavernas, esqueletos::

Um mês atrás (ou talvez mais…) começamos a discutir algumas questões sobre o Exército Brasileiro, uma dentre as mais antigas instituições de estado de nosso país. O EB, para bem ou para mal – em geral as duas coisas – esteve envolvido em praticamente todos os grandes eventos históricos que marcam nossa trajetória como Nação. História é história, e nem tudo que está nela é brilhante. Mas, por vezes, tendo a concluir que nosso EB (ou “GEB”, como diz, de modo estudadamente irônico, meu amigo Adler Homero Castro – ganha um FAL com munição fora da data de validade quem adivinhar o que significa isto…) pensa diferente.. Por exemplo, essa questão da “Comissão Nacional da Verdade”.

Em teoria, a “Comissão” é um desdobramento da Lei do Acesso à Informação (que regulamenta o acesso a documentos públicos). Trata-se, em última análise, de uma lei bem chinfrim, pois buscará (se é que vai mesmo ser implantada…), levantar fatos obscuros ocorridos durante o regime militar e esclarece-los. Não irá apurar nem punir nada. O que, então, faz com que Exército (e as outras FFAA, deve-se pontuar) se feche em copas toda vez que o assunto é trazido à baila? Por que é tão complicado debater os fatos acontecidos durante a “guerra suja” brasileira? Por que alguns oficiais-generais da reserva se dispõem ao papel um tanto ridículo de tentar dar nó em pingo d´água e justificar certos atos militarmente injustificáveis?

O general de exército Rocha Paiva é um desses voluntários. Depois de sua entrevista à jornalista Miriam Leitão, virou um “popstar” dos blogues de extrema direita. Com um discurso intelectualmente pouco sofisticado, o general, na reserva há poucos anos, utiliza alguns truques retóricos rasteiros para tentar, dentre outras coisas, culpar as vítimas. Ele se diz “contra a Comissão Nacional da Verdade”, com o argumento de que será “parcial e maniqueísta”.

A manifestação do general Rocha Paiva poderia ser tratada com base no regulamento, visto que aos militares, sejam da ativa ou da reserva, não cabe assuntar sobre tema da estrita alçada do Legislativo e do Executivo. Por outro lado, as manifestações dos chamados “milicos de pijama” ou “síndicos da reserva” – o general ocupa, atualmente, um desses postos honoríficos – são interessantes por expressarem o pensamento de certos setores da sociedade, dos quais os militares fazem parte – alguns dos tais “setores médios urbanos da população brasileira”.

Não é difícil encontrar tais manifestações na Internet. Ao procurar informações sobre a tal “Comissão”, encontrei muitas delas, boa parte emitidas por anciãos respeitáveis (outros, nem tanto, é verdade…). Uma das  que me pareceu mais interessantes é a do general-de-divisão Francisco Batista Torres de Melo, de 87 anos, residente em Fortaleza, Ceará. Em uma “Carta ao Presidente das organizações Globo“, o general manifesta seu estupor em uma longa diatribe, aparentemente redigida no final de outubro do ano passado. O problema, lógico, é a “Comissão da Verdade”.

A carta do general, provavelmente fora da ativa já deve fazer mais de vinte anos, não é uma peça lá muito bem escrita. Tampouco é conceitualmente rigorosa ou historicamente precisa. Afinal, o general não é um literato, nem historiador, e muito menos filósofo político. É um homem de armas, naquilo que, em nosso país, a expressão significa. Exatamente por isso vale à pena examinar o texto: se o soubermos ler, encontraremos lá a expressão do pensamento de um militar profissional que viveu toda a sua carreira em meio às efervescências do século passado. Nasceu em um Brasil e morrerá em outro, que não consegue entender direito.

A primeira questão é o valor da democracia, para essas pessoas. Para alguns desses anciãos é difícil, se não impossivel, olhar o mundo atual com olhos que não sejam aqueles que, na juventude, viam na ordem-unida a solução para o país. Afinal, Luís Carlos Prestes, se vivo fosse, provavelmente também continuaria pensando que numa ditadura stalinista se encontraria a melhor solução para o mundo e, principalmente, para uma sociedade “tumultuária” como a nossa (a expressão é de Gustavo Barroso, político cearense, pensador integralista e historiador militar, morto em 1959). Certa vez um poeta escreveu que “na juventude, nossos ideais são colinas do alto das quais olhamos o mundo; na velhice, são cavernas no fundo das quais nos escondemos do mundo”. É totalmente compreensível que, depois de uma vida passada no mundo até certo ponto tranquilo dos quartéis, o general ache que o regime democrático não passe de desordem. Para além: tendo passado a vida numa instituição que só admite idéias unívocas, e que divide o mundo, de modo absolutamente cartesiano, entre vitoriosos e derrotados (e, no dicionário da tropa, “derrotar” é sinônimo de “subjugar”), um mundo no qual os derrotados estejam no poder só pode estar virado de ponta-cabeça. Diz o bom general, em sua “Carta”:

No dia 28, no Bom Dia Brasil, veio o atual senador Aloysio Nunes Ferreira pregar mentira, quando, deveria encontrar-se preso, por ser assaltante do trem pagador. Se ele fosse um pé-de-chinelo da vida estaria preso, mas, como é comunista e ladrão, e o nosso povo, em sua maioria, ainda não sabe eleger seus legisladores, acaba chegando a senador da república. Pobre Senado. Onde ele gastou o dinheiro roubado? Deve ter sido nos cabarés de PARIS para onde fugiu. Agora, vem dar uma de democrata, quando era motorista do senhor Carlos Marighella, autor da CARTILHA DO GUERRILHEIRO URBANO. Não leu? Só um pouco: “Este é o núcleo doutrinado e disciplinado com uma estratégia de longo alcance e uma visão tática consistente com a aplicação da teoria Marxista, dos desenvolvimentos do Leninismo e Castro—Guevaristas, aplicados às condições específicas da situação revolucionária. Este é o núcleo que dirigirá a rebelião à fase da guerra de guerrilha.” Este é um dos democratas da guerrilha que lutou contra a sociedade brasileira.

Nesse curto trecho é fácil notar que o general não consegue descolar a figura do senador do PSDB, paladino neoliberal, daquela do militante da ALN, guerrilheiro urbano com origem no movimento estudantil e na classe média paulista. O general continua vivendo uma guerra, a guerra contra os “subversivos”, na qual o povo brasileiro, ignorante, por não saber votar elege os derrotados que, agora disfarçados de democratas, chegaram ao poder. Povo de “boa índole” mas, mal-preparado, não sabe que aos derrotados resta danação perpétua, como foi feito com nazistas alemães e comunistas soviéticos, ambos derrotados em guerras e “guerras”, “contra a sociedade brasileira”.

A guerra desses homens é outra questão interessante. Por vezes parece espantoso como alguns militares da geração de 1964 afirmam ter estado em uma guerra, travada contra o “Movimento Comunista Internacional”. O general foi um dos combatentes. Ao longo de uma longa vida, foi disciplinado soldado em uma longa guerra – a Guerra Fria. A guerra dos blocos, na qual o Brasil posicionou-se do lado da “liberdade”. Embora eu não tenha levantado sua biografia, imagino que ele tenha saído aspirante a oficial em meados dos anos 1940, por volta do final da 2ª GM; viveu a redemocratização de 1946, a sucessão de eleições, de crises e de quarteladas, a transformação do país em uma sociedade urbana, múltipla em agentes e posições políticas – fato tido por muitos militares e por setores da sociedade civil como raiz da “desordem”. Destes setores esses anciãos fazem parte, e com um carma a mais que seus confrades civis da classe média: “injustiçados”. Afinal, são frequentemente acusados de responsáveis por parte da desordem que por aí campeia. Neste sentido, o general é muito claro. Em uma entrevista replicada em um bom blogue de assuntos militares, diz ele:

… os militares estavam sempre … ao lado dos governos. É muita injustiça, portanto, dizer que nós éramos contra o governo. O militar, normalmente, é sempre governo. … em 30 não foram os militares que fizeram a revolta que levou à queda de Washington Luis. Houve, de fato, militares que fizeram parte daquele movimento, mas, na verdade, quem fez a revolta foi Minas Gerais, foi o Rio Grande do Sul, foi a Paraíba, foram os políticos que revoltaram-se contra Washington Luis. Não foram os militares os responsáveis pela revolta de 32, em São Paulo, foram os políticos paulistas em reação ao … Getúlio Vargas, que era um ditador. Os militares não fizeram a revolta de 35, consequência da ação de pessoas de fora … o senhor sabe que a coisa nasce lá pela União Soviética … Em 45, quando o Getúlio caiu … não foram os militares que o derrubaram, foram os mineiros, lembremos do grande Manifesto Mineiro, que balançou o sistema político. Se o senhor for em 54, não foram os militares que mataram Getúlio, foram os elementos que o cercavam, o exploravam …. Eram elementos podres cercando-o e que levaram àquela explosão. No caso do Jânio, ele, na sua loucura, … largou o governo e foi embora, não fomos nós. Da mesma maneira que não fomos nós, militares, que botamos o João Goulart pra fora do governo. Ninguém fala, ninguém diz, todo mundo permanece calado, mas Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Meneghetti , no Rio Grande do Sul, Ney Braga, no Paraná…

Está aí um outra questão: a relação dos militares com a política. A culpa, então, é sempre dos políticos. Este era, por sinal, o discurso dos militares que, no final do século 19, resolveram meter-se na política que mantinha o país no atraso – e o atraso era representado pela monarquia; também era o discurso dos tenentes dos anos 1920, os que promoveram levantes dos mais diversos matizes políticos, mas tendo sempre no egoísmo e corrupção dos “casacas” a explicação de todos os males.

Temos, então, dois cenários que se cruzam: por um lado, a “guerra contra a sociedade brasileira”, que obrigou os militares a tantos sacrifícios;  por outro, a sociedade “tumultuária”, composta por um povo bom mas ignorante e por “casacas” mal-intencionados. A guerra não foi provocada pelos militares brasileiros – afinal, qualquer criança sabe da “índole pacífica” de nosso povo. A “guerra” foi iniciada pela União Soviética, “contra a sociedade brasileira”. Os atos que agora esses políticos querem atribuir aos militares foram necessários (um) e justificados (dois), e estiveram integrados ao único momento em que as classes armadas se manifestaram – cumprindo seu dever. Afinal, havia uma guerra contra a sociedade brasileira, guerra disfarçada de política. Assim, os desaparecidos nada mais foram que soldados do outro lado, “mortos em combate”. Não foram atos ignóbeis , pois mortos houveram dos dois lados. C´est la guerre... Por que, então, esclarecer apenas os de um lado? Coisa da esquerda, que, segundo o general, perdeu a guerra e …  precisa, até hoje, justificar a situação e investe na tese de que os militares não prestam, os militares são os causadores de tudo. No entanto, o senhor não vê, nessa confusão toda que está ai, nesses roubos todos, nenhum militar envolvido.

A “Comissão da Verdade” não irá resolver essas questões, pois elas são da ordem da ideologia. As posições dos militares podem ser explicadas, em parte, pelo espírito de corpo, ou seja, pelo apelo à uma tradição que alimenta a identidade e reforça a coesão de uma corporação, seja civil ou militar. Quando o general invoca o espírito progressista do militar brasileiro, que participou de todo o processo de evolução desse País, apela à uma tradição que remonta aos militares positivistas do últimos quartel do século 19. Partidários do progresso, os militares se vêem como essencialmente patriotas e amantes da paz. Como na “Canção do Exército”: “A paz, amamos com fervor, a guerra só nos causa dor. Porém se a Pátria amada for um dia ultrajada lutaremos sem temor”. Quase como se ecoasse a canção, diz o general… eles é que começaram a matar. Quem jogou a bomba no aeroporto de Guararapes? Fomos nós? Não! Lá, mataram um almirante reformado, mataram um jornalista e um pobre de um jogador de futebol, um grande jogador de futebol, perdeu uma perna. Se eles estavam na disposição de tomar o poder pela força, por isso criaram a Guerrilha do Araguaia, na certeza de que teriam um território livre para atuar. Como eles estavam na teoria da força, a reação só poderia se dar na base, também, da força.

Todo discurso ideológico tem fraturas e neste, o problema é que os fatos “militares” ocorridos durante o regime militar não se justificam militarmente – e os militares sabem disso. Em seu imaginário está outro tipo de guerra, como a do Paraguai ou da campanha da Itália. Nessas ecoam as canções, a “glória refulgente”. Mas o treinamento que os milicos receberam a partir dos anos 1950 foi para outro tipo de guerra. Nesta, o inimigo é insidioso, e não aceita a derrota. Os atos que deveriam ser comemorados viram esqueletos a serem escondidos.

Neste ponto é que, possivelmente, iniciativas como a “Comissão da Verdade” talvez abram a possibilidade de soldar a fratura. Os norte-americanos, na formação de seus militares, estudam a Guerra do Vietnã. Foi uma guerra tão suja quanto nossa miniatura, a “Guerrilha do Araguaia”. Gerou fatos abomináveis como o massacre de My Lay, e pobres figuras como o tenente William Calley e seu comandante, o tenente-coronel Frank Barker, que ordenou o massacre. Mas também foi a guerra em que uma doutrina, então ainda nascente, amadureceu – a das tropas aeromóveis. Foi lá que o helicóptero turbo-eixo começou a adquirir o papel que tem hoje em dia; foi lá que se inventou o helicóptero “canhoneiro”; foi lá que o apoio aéreo aproximado foi reinventado. Execrada nos anos 1960 e 1970, a guerra do Vietnã foi transformada num evento militar porque os fatos abomináveis foram separados dos fatos militares. Claro que ainda gera muita controvérsia, e claro que o Exército dos EUA não frisa os fatos abomináveis, e nem mesmo admite claramente que foram abomináveis. Quando da apuração do massacre de My Lai, o único condenado foi o segundo tenente Calley, quando até mesmo o general comandante da divisão (a 23ª Infantaria, a “Americal“, uma das mais tradicionais grandes unidades do Exército dos EUA) no episódio, meteu os pés pelas mãos.

Algum dia se poderá dizer, por aqui, que a “Guerrilha do Araguaia” foi uma campanha militar? Algum dia, não sei, mas tenho certeza que hoje não se pode, porque se é que a “Campanha do Araguaia” foi uma campanha militar, se é que deixou algum ensinamento militar, foi também uma campanha suja. Quaisquer que sejam seus aspectos militares, não poderão ser invocados, estudados ou lembrados (deixemos claro, aqui: nunca com a ressonância da campanha da Itália…) caso a sujeirada não militar, ainda que cometida por militares, não venha a ser esclarecida.

Muito bem – acham nosso militares que foi uma guerra? Então talvez o Exército Brasileiro devesse admitir que nas guerras também se cometem os piores erros, e que os militares, por serem militares, não estiveram imunes a comete-los. É uma desculpa um tanto capenga, mas é melhor do que tentar negar os fatos. Esclarecidos esses, talvez se possa dizer que os militares brasileiros não veneram figuras como a do tenente-coronel Rodrigues de Moura… E a “guerrilha do Araguaia” poderia virar uma campanha. Não tão comemorada quanto a da Itália, mas pelo menos lembrada, se pouco, nas salas de aula dos cursos de formação.

Pensando bem, talvez fosse o caso de invocar Golbery do Couto e Silva. General da reserva, figura ambigua da política brasileira, Golbery era favorável à apuração dos atos da “guerra suja”, particularmente os da era Médici. Dizia ele que caso se tirasse os equeletos do armário, eles ficariam em cima do tabete durante algum tempo, mas acabariam sendo enterrados de vez, mais cedo ou mais tarde. Entretanto, se forem mantidos no armário persistirão fedendo. E, digo eu, assombrando. A todos nós. Tirar os esqueletos do armário, através de iniciativas como a “Comissão da Verdade” permitirá devolve-los, finalmente, às suas famílias. Traze-los de volta para serem enterrados em casa. E também talvez possibilitasse aos últimos remanescentes de uma geração que se considera injustiçada sair de suas cavernas para morrer em paz no alto de suas colinas.

Voltaremos ao assunto, qualquer hora dessas::

Já ouviram a “Canção do Exército”? Pois aí está uma chance.

Continuam as observações estratégicas… Ah, todo mundo já sabe::Outra P#### de adendo!::

Esses adendos estão começando a encher o próprio redator::! Tomara que esse período passe logo, para que causa:: volte aos assuntos mais interessantes, e mais familiares, tipo… tecnologia de blindados, doutrinas militares, e tal. Claro que algum dos nove ou dez assíduos poderia perguntar- mas qual o motivo de ter  o blogue das boas causas se voltado para às causas ruins?.. Responderia, na lata, o redator:: – ninguém estava mesmo prestando atenção…

Mas qual é o adendo, afinal? O anterior referia-se aos pequeno-burgueses equivocados, extrato social do qual fazem parte os frequentadores do Clube Militar que se dispuseram a ouvir as diatribes do colunista classudo Merval Pereira e do colunista sem classe Reinaldo Azevedo. Não deixa de despertar certa curiosidade as raízes do ódio que essa gente vota ao cidadão Lula e a seus projetos políticos. Pois bem – quase como por telepatia, Idelber Avelar, o popular Biscoito Fino resolveu refletir sobre o assunto. Independente da posição política, o assíduo de causa:: está obrigado a fazer essa leitura, e, em seguida, remeter-se a um post antiguinho, colocado aqui mesmo, no causa:: Na época, de forma um tanto premonitória, o post foi intitulado com uma pergunta: “Estamos em guerra?” Relendo hoje, depois da reflexão do Idelber, o tal post, o redator foi, mais uma vez, tomado pela certeza de que compreender o próprio país deveria ser uma obrigação. E, quando nada, poupa a todos nós de falar muita bobagem…::

causa::agora tem uma revista eletrônica::

É exatamente isso: o redator:: , depois de anos procurando, pesquisando, indo e voltando, acaba de de publicar a versão “revista eletrônica”. O recurso utilizado foi o amigável e eficiente scribd. (http://scribd.com/). A revista é um desenvolvimento do blogue, que, como poucos sabem, é  publicado desde 2007, com certa regularidade. Não se assustem os fãs de causa:: (os já famosos oito ou nove leitores): o recursos de pesquisa menos alentado da Grande Rede continuará existindo, pois o redator diverte-se à larga com ele. Entretanto, posts que já estejam “antigos” (quem consulta busca basicamente a homepage) serão revisados, reformatados e publicados na versão eletrônica – continuaram também aqui. O redator:: sabe que causa é um recurso especializado pra caramba, e só agrada a quem se interessa por esse tipo de coisa. Entretanto, gostaria muito de contar com a ajuda de todos os leitores, para divulgação. Afinal, todo mundo tem um ou outro parente, amigo ou vizinho que “gosta de guerra” (o redator:: acreditem ou não, detesta).
O formato dos arquivos é PDF, de modo que podem ser baixados sem problemas. Como está escrito na capa da revista, tudo é redigido pelo próprio:: (que espera, eventualmente, ter colaboradores… alguém se habilita?..), então, é aberto, livre de copyright e pode ser usado a vontade – não precisa nem mesmo citar autor e fonte (embora causa:: agradeça penhoradamente a quem o fizer). Os que conhecem um pouco o redator:: sabem que ele não acredita em nenhuma forma de conhecimento fechada. Nem mesmo conhecimento inútil…  
 
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