causa::agora tem uma revista eletrônica::

É exatamente isso: o redator:: , depois de anos procurando, pesquisando, indo e voltando, acaba de de publicar a versão “revista eletrônica”. O recurso utilizado foi o amigável e eficiente scribd. (http://scribd.com/). A revista é um desenvolvimento do blogue, que, como poucos sabem, é  publicado desde 2007, com certa regularidade. Não se assustem os fãs de causa:: (os já famosos oito ou nove leitores): o recursos de pesquisa menos alentado da Grande Rede continuará existindo, pois o redator diverte-se à larga com ele. Entretanto, posts que já estejam “antigos” (quem consulta busca basicamente a homepage) serão revisados, reformatados e publicados na versão eletrônica – continuaram também aqui. O redator:: sabe que causa é um recurso especializado pra caramba, e só agrada a quem se interessa por esse tipo de coisa. Entretanto, gostaria muito de contar com a ajuda de todos os leitores, para divulgação. Afinal, todo mundo tem um ou outro parente, amigo ou vizinho que “gosta de guerra” (o redator:: acreditem ou não, detesta).
O formato dos arquivos é PDF, de modo que podem ser baixados sem problemas. Como está escrito na capa da revista, tudo é redigido pelo próprio:: (que espera, eventualmente, ter colaboradores… alguém se habilita?..), então, é aberto, livre de copyright e pode ser usado a vontade – não precisa nem mesmo citar autor e fonte (embora causa:: agradeça penhoradamente a quem o fizer). Os que conhecem um pouco o redator:: sabem que ele não acredita em nenhuma forma de conhecimento fechada. Nem mesmo conhecimento inútil…  
 
O primeiro número da versão eletrônica de causa:: pode ser encontrado em http://www.scribd.com/doc/32475104/causapub-01

Um rapaz da Forças Especiais::Luís Alves de Lima e Silva::

Precisa dizer mais?

Não, mas digamos assim mesmo. O Duque de Caxias nasceu Luís Alves de Lima e Silva, em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, província do Rio de Janeiro (o lugar é hoje o pouco conhecido Parque Histórico Duque de Caxias, no município de Duque de Caxias). De uma linhagem de militares, seu pai, marechal-de-campo Francisco de Lima e Silva foi figura muito ligada ao Primeiro Reinado. Em 1808 o pequeno Luis Alves foi titulado Cadete de 1ª Classe – tinha então 5 anos de idade. Na época, isso não era nada de tão extraordinário, mas apenas uma forma da nobreza garantir vaga na carreira militar. O fato entrou para uma espécie de mirabilia militaris do futuro duque, forma de dizer – “nasceu para o exército”. Aos quinze anos, matriculou-se na Real Academia Militar, de onde saiu tenente, em 1821. Ao longo de sua carreira, mostrou-se tão hábil comandante militar quanto negociador político: participou ativamente das campanhas do Exército para pacificar a província do Maranhão, da qual foi presidente; em 1842 foi enviado com tropas do Império para as rebeladas província de São Paulo e de Minas Gerais, envolvidas na “Revolução Liberal”; foi chamado para pacificar a Região Sul do país, incendiada pela Revolta Farroupilha, a “Guerra dos Farrapos”. Em todos essas missões, mostrou-se negociador político sensato e sagaz: não humilhava os vencidos, visando sempre a conciliação, tendo em vista a unidade da formação política em construção, o Império do Brasil. Mas também era competente líder militar, que não hesitava em se colocar à frente de seus homens, como na batalha da Ponte de Itororó, em 6 de dezembro de 1868: “sigam-me os que forem brasileiros!”. Segundo Affonso de Carvalho, “…toda aquela massa que há pouco amolecera e se desfibrara sob a ação do pânico, readquire de súbito sua vitalidade e poder combativo…”; já Dionísio Cerqueira aponta: “…houve quem visse moribundos, quando ele passou, erguerem-se brandindo espadas ou carabinas para caírem mortos adiante…”. É claro, são exageros literários, mas a atitude de Caxias, que não era rara entre os militares de sua época, em todo o mundo, expressa a dedicação desses homens à carreira militar. Poderíamos falar muito sobre seu período no comando do exército em campanha no Paraguai, mas o talento do duque pode ser facilmente constatado em muitos livros e milhares de entradas na Internet.

Em sua homenagem, o dia de seu nascimento, 25 de agosto, passou a ser a data oficial do Dia do Soldado. Foi de Vargas a iniciativa de elevar Caxias à patrono do Exército, e colocá-lo a repousar, definitivamente, diante do quartel maior da força terrestre, desde sempre: o campo de Santana, no Rio de Janeiro. O fato é que a escolha foi tardia, e foi política, numa época em que Vargas procurava mobilizar símbolos da nacionalidade, e encontrou no duque uma expressão da unidade nacional. Até então, o “patrono informal de todos os soldados” era o marquês do Herval, Manuel Luís Osório, exemplo de soldado de carreira, cavalariano, homem do povo e liberal por profunda convicção. Caxias sempre foi homem do establishment conservador, último pilar do Império do Brasil, ao qual serviu dedicadamente por mais de 50 anos. Mas essa é outra história, e não denigre em nada a trajetória do marechal.

O visconde de Taunay,  major-engenheiro militar, autor do clássico “A Retirada da Laguna” descreveu os funerais do velho marechal, em 1880: “Carregaram o seu féretro seis soldados rasos; mas, senhores, esses soldados que circundam a gloriosa cova e a voz que se levanta para falar em nome deles, são o corpo e o espírito de todo o Exército Brasileiro. Representam o preito derradeiro de um reconhecimento inextinguível que nós militares, de norte a sul deste vasto Império, vimos render ao nosso velho Marechal, que nos guiou como General, como protetor, quase como pai durante 40 anos; soldados e orador, humildes todos em sua esfera, muito pequenos pela valia própria, mas grandes pela elevada homenagem e pela sinceridade da dor”.

O sociólogo Gilberto Freyre, tendo tido sua atenção chamada para o termo “caxias”, usado tanto por militares quanto por civis para definir alguém que não tergiversa diante de seus deveres, escreveu, sobre o assunto: “Caxiismo não é conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis. Os “caxias” devem ser tanto paisanos como militares.” O jornalista Barbosa Lima Sobrinho encontrou no duque um  “Patrono da Anistia”, em função da sensibilidade política do marechal. O povo brasileiro ainda hoje continua usando a expressão no mesmo sentido analisado por Freyre. Uma coisa é certa: precisamos de mais “caxias” neste país::

Uma moça (em uniforme) às Segundas::

Já que o Logan, um dos famosos “poucos” aqui do causa:: clama por assuntos relativos à Segunda Guerra Mundial…

Alguns especialistas dizem que os exércitos entraram na 1a GM usando uniformes de corte, e quando saíram, os combatentes trajavam uniformes de fábrica adaptados. É uma boa observação. Quando a 2a GM começou, os exércitos trajavam uniformes da 1a GM e, no fim do conflito, trajavam a moda ditada pelas novas doutrinas: velocidade, mecanização, logística. Assim, a moda militar segue a doutrina. Os uniformes alemães e norte-americanos, por exemplo, foram adaptados para o uso no ambiente estreito dos veículo de combate: túnicas mais curtas, jaquetas sem golas ou outros elementos que pudessem atrapalhar a mobilidade do combatente, agarrando-se em volantes, travas, alavancas.

Os uniformes femininos seguiram essa tendência, tendo seus desenhos adequados às novas funções femininas. Mas quais foam as “funções femininas” na 2a GM? Até muito recentemente, nenhum Estado pensaria em colocar uma arma nas mãos de uma mulher e mandá-la para o combate. De fato, até a 1a GM, a participação da mulher nas corporações militares era bastante restrita. Casos como os de Maria Quitéria, da condessa Emilia Platter, que serviu no exército polonês em 1831, de Mollie Bean e Calamity Jane, que serviram na Guerra Civil Norte-americana, a primeira no lado dos confederados, a segunda como batedora da cavalaria da União, são extremamente raros. Não configuravam alistamento feminino, mas mulheres que se disfarçaram de homem, para ter acesso às formações militares. Na 1a GM, as mulheres foram convocadas em números sem precedentes, mas, ainda assim, os casos de combatentes do sexo feminino ainda foram muito raros. Geralmente, as mulheres eram alistadas para servir em funções masculinas abertas pela convocação em números sem precedentes: policiais, funcionários públicos, trabalhadores em ferrovias e, principalmente, operários. Nos exércitos, a situação era a mesma, e as mulheres prestaram serviço principalmente em funções de escritório e como enfermeiras. Durante a Segunda Guerra Mundial, a situação não mudou, e as mulheres continuaram sendo convocadas a ocupar espaços abertos pela convocação maciça de homens. A moça acima é uma militar norte-americana, em uniforme classe B, de passeio. Observe-se que é um uniforme padrão do exército, adaptado para uso de convocadas: elementos como as cores e o desenho das peças, como o dolmã, são os mesmos usados pelos homens. Apenas a cobertura foi modificada, pois o quepi não era considerado funcional diante do corte de cabelo feminino. As cores e distintivos são exatamente os mesmos (claro, observando-se que cada posto e função tinha os seus). A participação em combate inexistia, embora algumas funções, como conduzir aviões até as bases de retaguarda (é o caso da moça da foto, que usa as asas de piloto da Força Aérea do Exército dos EUA) e como enfermeiras, em hospitais de campanha, fossem novidade. Nas forças armadas britânicas a participação feminina também foi grande, mas, como nos EUA, em funções consideradas “adequadas à constituição feminina“. Apenas a URSS mandou mulheres para a frente, em função da dramática falta de homens para convocação. Não se sabe exatamente quantas mulheres perderam a vida em combate, mas muitas combatentes soviéticas foram condecoradas como “Herói da União Soviética”::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::

parte3O redator imagina que, no momento que iniciar a leitura desta parte 3 da interminável série sobre a evolução histórica e tecnológica do tiro, os sete leitores (ou oito, sabe-se lá…), já estejam cansados de saber que dois problemas acompanham essa prática desde sua origem: a quantidade de energia impressa ao projetil e a estabilização do vôo, de modo que a trajetória possa ser controlada. O problema da quantidade de energia começou a ser resolvido com a invenção da pólvora negra; o da estabilização demoraria mais. Começou a ser ultrapassado com a invenção do processo chamado “raiamento” (em inglês, rifling, daí a expressão rifle). Tratava-se de escavar, no interior do cano, uma série de sulcos muito rasos, que lhe percorriam o comprimento em um movimento de hélice. O projetil, ao ser violentamente tirado da inércia pela expansão dos gases, passava a correr por esses sulcos e começava a girar sobre si mesmo. O efeito giroscópico da rotação axial estabilizava o vôo, tornando a trajetória mais precisa e previsível.

Esse processo foi inventado na segunda metade do século 15, na Europa Central. É provável que, inicialmente, o raiamento tenha visado aproveitar melhor a pressão gerada pelos gases da explosão, visto que as primeiras raias eram retas, e foram aplicadas em armas de caça, de alto luxo. Geralmente, um par de raias dividia o interior do cano em duas seções. (O Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro, possui um exemplar desse tipo de arma em suas coleções). Havia, entretanto, o problema da dificuldade do carregamento, que ficava mais lento. Pressionar o projetil ao longo do cano, por meio da vareta, o amoldava às raias e fazia o processo funcionar, mas exigia força e certo cuidado. Em armas de caça, isso não era problema; em armas de combate carregadas pela boca, essa operação tinha de ser rápida, e, como já vimos, o projetil simplesmente “escorria” pelo cano, empurrado suavemente até alcançar a câmara. Os especialistas dizem que, em meados do século 18, um soldado dotado de cartuchos conseguia carregar um mosquete Brown Bess em cerca de vinte segundos; já um rifle de caça tomava do atirador cerca de um minuto para um tiro cuja precisão (caso fosse um bom atirador) podia alcançar 400 metros. Determinados rifles, armas de caça de pederneira feitas nos EUA por armeiros de origem alemã, também se distinguiam pelos longos canos, forma de potencializar a expansão dos gases. Ainda no século 18, a habilidade de civis que lidavam com armas de caça, particularmente na Europa Central, levou à criação de tropas especializadas, formadas por homens que sabiam lidar com “canos raiados”: Jägern, Chasseurs, Cazadores, eram os nomes que receberam esses soldados. Formavam uma espécie de infantaria ligeira, que podia se deslocar buscando melhores posições para o tiro. Nos último quartel do século 18, a eficiente participação de caçadores civis nas milícias que combateram os ingleses durante a Guerra da Independência dos EUA, e depois as guerras contra a França, levaram ao estudo, pelos ingleses, de novas táticas baseadas no tiro de precisão, e a formação de tropas especiais, os Corpos de Rifles. No caso, “rifle” designa um soldado equipado com esse tipo de arma. O Departamento de Armamento (em inglês, Board of Ordnance) foi então autorizado a encomendar certa quantidade de rifles de caça fabricados na Prússia, para testes. Uma série de equívocos, ao longo do processo, despertou certa implicância com a nova arma, e atrasou sua adoção. O grosso das tropas de infantaria continuou equipado com mosquetes e o Board começou a buscar, na indústria local, uma arma semelhante.  

O modelo escolhido (embora não se saiba exatamente o motivo) foi o Rifle Baker, produzido pela oficina do armeiro Ezequiel Baker, que baseou seu produto numa arma de produção prussiana, utilizada pelas Tropas de Caçadores daquele reino. A arma apresentada tinha muitas características comuns com os mosquetes do exército, os Brown Bess, a começar pelo calibre .75 (19,05 mm), e o cano de 32 polegadas (81,3 cm), se bem que, posteriormente, algumas modificações foram feitas, para adequar a nova arma ao uso da cavalaria. Os rifles eram carregados pela boca e podiam ser equipados com um enorme sabre-baioneta com uma lâmina de 61 cm.

Entretanto, se o raiamento melhorava o rendimento do tiro, não resolvia todos os problemas e ainda criava alguns novos. Um deles era, exatamente, a dificuldade do carregamento. Um manual da época indicava o seguinte procedimento: “O soldado, por seu lado esquerdo, coloca o rifle no chão deixando-o deslizar através da mão esquerda, com o cano para cima, com cuidado, mantendo-a perto da boca da arma, o polegar esticado ao longo do suporte de madeira do cano, e a coronha apoiada entre os calcanhares. O cano fica entre os joelhos, que devem estar dobrados para a tarefa; o cartucho é posto dentro do cano e a vareta, posicionada entre o indicador e o polegar da mão direita. A vareta, agarrada com a esquerda, e colocada em posição, forçada cerca de três e meio  centimetros dentro do cano. O cartucho é então empurrado até cerca de 9 centímetros; o soldado se coloca em posição ereta novamente, retira a vareta com a mão direita e a coloca no suporte.” Um atirador muito bem treinado levaria uns 40 segundos para completer toda a operação.

Apesar dos problemas, o Baker se tornou o primeiro rifle a ser distribuído em grandes números entre as tropas inglesas, a partir de 1801. Conforme a guerra contra Napoleão se desenrolava, novos modelos foram sendo introduzidos, inclusive uma versão mais curta e leve, destinada à cavalaria.  

Custaria até que os rifles se tornassem comuns. O processo de raiar canos ainda era complexo embora a tecnologia da Revolução Industrial Inglesa tivesse melhorado os materiais disponíveis. O processo continuou a ser feito com ferramentas manuais e envolvia um grau bastante alto de imprecisão, o que não impediu a melhora da qualidade do tiro. Entretanto, passaria ainda algum tempo até que armeiros e atiradores percebessem que ainda havia um terceiro elemento envolvido no processo: o desenho do projetil. O formato das balas não ajudava, mas algum elemento tornava o tiro em cano raiado mais preciso. Pela comparação com flechas e outros projetis alongados, os engenheiros perceberam que o formato alongado funcionava melhor, em vôo, quando em giro axial. Um outro detalhe que eles perceberam é que, ao ser forçada através do cano, adquiria um formato alongado.

Os séculos 18 e 19 foram, sem sombra de dúvida, os séculos da ciência. A pressão exercida pela expansão do sistema econômico sobre o conjunto da sociedade levou a que a atividade científica se tornasse parte integrante do processo produtivo. De observadores e intérpretes da natureza, em busca de um conhecimento racional sobre a realidade, os cientistas se tornaram elementos de uma cadeia cujo objetivo era ampliar a capacidade de produção da indústria. O século 19 se tornaria o século do vapor e do metal, da produção mecanizada e da expansão industrial. Os processos laboratoriais de experimentação foram incluídos na estrutura da indústria, com a produção de conhecimento relativa. Isso significa que estava terminando a época do erudito amador, generalista interessado em todas as ciências, foi deixada para trás, com século 18. Os novos métodos permitiam medições que tornavam os resultados das experiências mais precisos.

E o século 19 foi também o da industrialização da guerra. As guerras napoleônicas foram as últimas travadas com tropas formadas e equipadas segundo a lógica pré-industrial, lutadas por soldados com equipamentos produzidos em oficinas que ainda usavam métodos artesanais. Os novos projetis são produtos dessa nova organização social.::

Cultura material militar::As primeiras armas de fogo de infantaria::

parte2Estivemos examinado, ao longo das últimas postagens, alguns tópicos relativos à teoria e história do tiro e das armas de fogo. O redator imagina que os sete leitores (contadinhos…) já saibam, à esta altura, que o tiro por arma de fogo começou a se desenvolver no final da Idade Média, depois da introdução, no Ocidente, da pólvora negra e das primeiras armas de fogo. Essas tinham diversas limitações, que foram sendo resolvidas conforme a tecnologia, em diversos campos, avançava. A ciência do tiro, de início, era empírica, ou seja, ia se desenvolvendo por uma série de experiências de acerto e erro. Os maiores problemas eram decorrentes da baixa confiabilidade da pólvora, das limitações da metalurgia e o pouco conhecimento de física. O tiro é influenciado por diversas variáveis que têm de  ser calculadas a partir de questões matematicamente formuladas. Por sinal, sejamos mais precisos: o tiro é uma questão de matemática e de física. A precisão só pode ser implementada conforme a física se desenvolve e a matemática consegue traduzir, naquela estranha e fascinante linguagem, as questões colocadas pelos artilheiros e atiradores. Dentre elas, talvez a principal fosse a criação de instrumentos de pontaria que permitissem ao atirador um certo controle sobre a trajetória do projetil. De fato, esse problema estava ligado à diversas condicionantes.

Por exemplo: qual a carga de pólvora necessária para fazer o projetil voar? Uma quantidade muito pequena tornava o tiro inocuo; muito grande, rebentava a arma. Ferramentas matemáticas (equações) que permitissem calcular a potência da explosão só surgiram no século 18. Até então, era um exercício de experimentação. As quantidades de pólvora iam sendo reguladas, e, após determinadas, passavam a constar de manuais que ensinavam aos soldados as quantidades corretas, sem muitas perguntas. O atirador conduzia, no século 16, diversas unidades de uma espécie de bisnaga, chamada *polvorinho, com as quantidades adequadas de pólvora. Para carregar a arma (uma explicação mais detalhada e – louvado seja! – em português, aqui) esta era posta com a coronha no chão (o “cabo” da tal bengala) e a pólvora despejada lá dentro. Um pouco de estopa era socada, por intermédio da vareta, sobre a pólvora e, em seguida, o atirador colocava a *bala (essa palavra deriva do inglês ball, “bola”; o substântivo inglês bullet, por sua vez, deriva do francês boulette, “bolinha“) no cano e socava tudo com uma peça integrante do conjunto, a vareta. O projetil descia através do cano com facilidade por ser este último liso e estar aquele envolvido em uma bucha, um pequeno pedaço de couro embebido em óleo ou gordura. O passo seguinte era expor a caçoleta e colocar nela um pouco de pólvora de escorva, uma pólvora mais fina destinada a servir de “pavio”. A escorva ficava em outro recipiente, de modo que é possível calcular o número de operações necessárias para carregar um arma, dessa maneira. Em seguida, o atirador puxava o cão para trás, até que ficasse preso com a mola distendida. Para o disparo, a arma era apoiada numa forquilha (uma coisa dessas podia pesar até vinte quilos…) e o disparo feito. Entre a ignição da escorva e a da carga, ocorria certo tempo, visto que a pólvora negra era de queima lenta. Isso significava que o atirador deveria ficar firme, no momento da primeira explosão, esperando que a carga explodisse – e a primeira explosão gerava um monte de fumaça quente e fagulhas, bem próximo ao rosto do coitado… Que Deus protegesse esses primeiros atiradores – e eles deviam viver rezando, já que as principais guerras do período eram por motivos religiososos. Nessas guerras, talvez para matar mais rápido a cavalaria católica, o campeão da causa protestante, o Rei Gustavo Adolfo, da Suécia,  durante a Guerra dos Trinta Anos, introduziu uma série de importantes inovações teóricas e técnicas, todas relativas à implementação do tiro em combate. Uma dessas foi a do cartucho, que não passava de uma carga preparada para uso, levada pelo atirador em um embornal. O cartucho reunia, numa embalagem de papel encerado, o projetil, a carga e a escorva, e eliminava a necessidade da bucha, visto que o papel que enrolava tudo passava a cumprir essa função. A tropas de Gustavo Adolfo atiravam muito mais rápido que todas as outras, e logo a inovação se difundiu. entre seus aliados e logo entre todos os beligerantes.

A questão é que, por serem as armas de cano liso, o projetil ficava meio solto lá dentro. A folga entre a parede interna do cano e o projetil decorria do fato de que ele tinha de deslizar para dentro com alguma facilidade. Só que essa folga criava uma pequena folga entre as paredes do projetil e as do cano, e a pressão exercida pelo gás gerado pela explosão da pólvora acabava sendo desigualmente distribuída. O resultado é que o projetil iniciava sua corrida até a boca ricocheteando na parede interna do cano. As consequências resultantes dessa situação acabavam fazendo com que a trajetória final não pudesse ser minimamente controlada (dependendo da seção do cano da arma com que o projetil se chocasse por último, ele podia iniciar o vôo mais para cima, para baixo ou para os lados). Além do mais, o projetil deixava o cano numa rotação axial que não era suficiente para vencer a resistência do ar. 

A idéia de fazer um projetil girar em torno do próprio eixo (esse movimento é chamado “hélice”, um curva cuja torção é constante e proporcional à curvatura), ao longo de uma trajetória tensa não era nova. De fato, era aplicada a projetis de formato alongado, tais como flechas e dardos, de modo a compensar a resistência do ar. Em sistemas mecânicos de lançamento, imprimir ao projetil um movimento de rotação, ainda que instável, não era difícil. Em flechas, uma carenagem constituída por penas ou qualquer elemento que oponha suficiente resistência à passagem do ar, situada na extremidade posterior do corpo, era suficiente para provocar um movimento giratório. Como o ar é um fluído, a resistência a penetração de um corpo (chamada de “arrasto”) é inversamente proporcional à capacidade desse corpo em rompê-la, ou seja, à quantidade de energia impressa a ele e existente no elemento de oposição. O problema seria, então, a quantidade de energia. A invenção da pólvora negra colocou à disposição dos projetistas de armas um processo de geração de energia que resolveu o entrave da quantidade, embora tenha criado outros. Um deles, talvez o principal, foi o descrito mais acima, diretamente relacionado com o formato desses primeiros projetis. Mas levaria tempo até que cientistas e engenheiros da época (que não eram chamados “cientistas” e “engenheiros”) conseguissem transformar a invenção num processo prático. Examinaremos os motivos na parte 3::

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

Tudo bem, ainda é segunda, mas o redator não resistiu esperar até amanhã… Caros sete leitores (ou oito, sei lá…), conheçam Yang Guoxigiang. Porque vocês devem conhecer um obscuro piloto da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China? Boa pergunta… Leia para saber. A entrevista foi publicada na edição de janeiro de 2010 da Revista Air&Space Smithsonian, feita pelo repórter especializado Bob Bergin. A entrevista completa (e o redator tem certeza que os sete leitores vão querer ler) pode ser lida em www.airspacemag.com::

O piloto Yang Guoxing, da Força Aérea do Exército de Libertação do Povo da China, quando em treinamento, por volta de 1959. Em 1971, no período final da Revolução Cultural, os postos tinham sido abolidos das forças armadas chinesas, por serem "desvios burgueses". Haviam apenas "oficiais" e "soldados", o que não necessariamente traduzia uma cadeia hierárquica, pois as unidades eram "comandadas democraticamente" por assembléias populares (era esse exército que pretendeu entrar em combate contra a URSS, em 1968...). Yang era, então, um jovem oficial, mas sua competência estava acima de questão, pois o programa nuclear chinês foi mantido, de forma sensata, fora do alcance dos Conselhos Revolucionários e dos Guardas Vermelhos.

Nascido nas remotas montanhas da província de Yunnan, Yang teve de se esforçar muito para freqüentar a escola. Tornou-se guerrilheiro e depois soldado do Exército de Libertação do Povo. A carreira militar levou-o à função de piloto de ataque ao solo. Nos anos 1970, quando a China desenvolveu o caça tático supersônico Qiang 5, ele foi selecionado como piloto de teste, tendo tido papel fundamental no desenvolvimento da aeronave. Ele também foi selecionado para lançar uma bomba de hidrogênio em teste. A detonação bem sucedida colocou o armamento termonuclear chinês em status operacional.

Seu primeiro vôo de lançamento falhou. O que deu errado? Em 30 de dezembro de 1971 eu decolei e subi até a altitude de 300 metros, e então aproei em direção ao alvo em Lop Nor, a 300 quilômetros de distância. A cerca de 11 quilômetrosdo alvo, iniciei uma subida de 45 graus até alcançar o teto de 1200 metros, quando liberei a bomba. Nada aconteceu! Ela não se soltou do cabide onde estava presa (nota do editor:: – observem que o sujeito fala de uma bomba de hidrogênio como se fosse uma garrafa de limonada). Havia três mecanismos de liberação iguais, dois dos quais eram reservas. Nenhum deles funcionou. Segui os mesmos procedimentos na segunda passagem, mas outra vez nada aconteceu. A mesma coisa na terceira passagem. Eu estava ficando sem combustível. Poderia abandonar a aeronave e deixá-la cair na região próxima de Lop Nor, onde se espatifaria sem ferir ninguém. Ou poderia tentar levá-la de volta à base. Refleti sobre o tempo e esforço gastos no projeto da bomba-H, e o dinheiro que custara ao povo chinês, e tomei minha decisão. Quando notifiquei a torre de controle que estava retornando com a bomba, soaram as sirenes de evacuação. Todo mundo pôs máscaras de gás e correu para dentro dos abrigos.

Qual era sua maior preocupação, durante o retorno? Pendurada no cabide, a bomba ficaria a aproximadamente 10 centímetros acima da pista de pouso, e havia a possibilidade de que ela explodisse ao contato. Todo mundo naquela base ainda lembra meu nome: eu quase levei até eles o Juízo Final. Mas fiz um pouso perfeito. Quando cortei o motor, tudo estava em silêncio. Todo o pessoal estava nos abrigos. Eu não podia deixar a cabine: não havia escada que me permitisse sair do avião. Eu chamei a torre para pedir ajuda. O pessoal lá estava furioso, pois eu havia posto dez mil vidas em risco. Disseram-me que me arrastasse até a cauda e pulasse de lá. Como eu trouxera de volta, inesperadamente, a bomba-H de teste, não havia viaturas de serviço equipadas com escudos de segurança (antirradiação). Fiquei no campo de pouso por longo tempo.

O que causou o defeito? Os mecanismos de liberação do cabide estavam guardados em uma área aquecida, até poucos momentos antes de serem montados na aeronave. Depois da decolagem, da rápida subida e do choque com o ar frio, a súbita mudança de temperatura pode ter afetado as tolerâncias do material e emperrado o mecanismo.

E seu vôo seguinte? Em 7 de janeiro de 1972. Dessa vez, quando liberei a bomba, ela se separou do avião. Reverti o curso de forma a deixar a área de explosão, e ativei os escudos que me protegiam dentro da cabine. A 12 milhas da área de detonação, vi um grande clarão. A onda de choque sacudiu o avião como se fosse um barquinho no oceano, e então vi a nuvem em forma de cogumelo. Meu nome foi mantido em sigilo até que fui formalmente reconhecido, numa conferência comemorando os sucessos da bomba-A, da bomba-H e do primeiro satélite artificial, os mais importantes projetos desenvolvidos pelo Exército de Libertação do Povo, depois da fundação da República Popular da China::

Uma moça (de uniforme) às Terças::

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A lourinha é da Força Terrestre das Forças Armadas do Canadá. As FAC (Canadian Armed Forces/Forces Armées du Canada – lá tudo é bilingue…) são o ramo de serviço das Forças Canadenses, organização responsável pela defesa nacional. Essa organização, e a concomitante unificação dos três ramos das F AC, foi conseqüência da Lei de Defesa Nacional, de 1968. A organização faz parte do Ministério da Defesa nacional e está estruturada em três comandos: o Comando Marítimo, o Comando das Força Terrestres e o Comando do Ar. Essas corporações são supervisionadas por um órgão superior, o Conselho das Forças Armadas, liderado pelo Chefe do Estado-maior da Defesa. Segundo as normas da Comunidade Britânica, o chefe supremo é a Rainha Elizabeth II, representada no Canadá pelo Governador-Geral. Ao que parece, a moçoila está matriculada em um curso de formação de atiradores de escol. A arma maior que ela é um rifle *Barrett M82A1, fabricado pela empresa norte-americana Barrett Firearms. A Barrett é especialista em rifles de alta potência (embora atualmente também fabrique um *fuzil de assalto que está sendo dado como substituto da linhagem M16), e começou sua trajetória em 1982, com esse produto. A arma pesa 12,9 quilos sem a munição. Aí o assunto começa a ficar interessante: trata-se de um fuzil de precisão projetado em torno do cartucho *.50BMG (12,7X99 mm Browning MachineGun). É isso aí: essa coisa dispara um projetil “pontocinquenta”! Ele mesmo – o daquela metralhadora que equipava aviões de caças da 2a GM e da Guerra da Coréia e está em serviço até hoje, em veículos militares e helicópteros. A velocidade de boca desse projetil é de 854 m/s e o alcance útil mais-ou-menos 2000 metros. O peso então se explica, pois para segurar o recuo de um cartucho de tamanha potência, a plataforma tem de ser muito estável. A arma é semi-automática e a munição é arrumada em um carregador “caixa” de 10 cargas (pesando, com as cargas, quase dois quilos). É claro que um negócio assim irá precisar de um tremendo aparelho de pontaria, e geralmente é usada a mira telescópica Swarovski 10X42 (de origem austríaca), já que instrumentos de pontaria laser ou holográficos não funcionam em distâncias tão grandes. O Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA também utilizam essa arma. A estréia em ação aconteceu durante a operação Desert Storm (a reação contra a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1991), quando o Exército adquiriu algumas unidades, que receberam a denominação SASR (Special Applications Scoped Rifle – Fuzil de Precisão para Aplicações Especiais). Os militares notaram a extrema precisão em distâncias que um atirador aquipado com fuzil calibre 7.62 nem sonharia atingir. A munição de alta potência facilmente penetrava qualquer tipo de colete, inclusive os da Classe IV (camadas superpostas de fibra de aramida, capaz de deter projéteis 7.62X51 e 7.62X63) à uma distância de até 2500 metros. Os SEAL da Marinha perceberam, na Somália, em 1993, a utilidade dessa arma contra os veículos que transportavam as milícias locais: acertavam o motorista e o resto acontecia… Talvez algum dos sete leitores (contadinhos…) já tenha visto essa arma contracenando com o arquicanastrão Dolph Lundgren em um filme chamado Silent Trigger (1996, Russel Mulcahy; apareceu aqui, na TV, como “Atirador de elite”). Vale à pena ver o filme: a atuação do M82A1 é digna de um Oscar::