Sobre crises e projetos::

Segundo estamos cansados de saber, o Brasil está passando por uma séria crise econômica. Até aí, nada de novo. Temos passado, ao longo dos últimos 500 anos, por crise atrás de crise. As crises vêm, e depois de algum tempo, surge uma solução que, todos sabem, não irá dar certo por muito tempo. E surgem aqueles que dizem que a solução do momento é a única salvação.

Pergunto-me que lições, nós, brasileiros, já poderíamos ter tirado dessa “vida na crise” (além do fato de que os salários e pensões saem  de cada uma delas cada vez mais achatados, e o capital financeiro ganha em toda e qualquer crise…)? Nossos projetos estratégicos, estabelecidos durante os períodos de bonança, geralmente são os primeiros – junto com os projetos culturais – a ir para o saco. Tenho em mente alguns, em particular: a aquisição dos caças suecos Gripen NG, concluída em 2014, a aquisição, pela FAB, de um novo avião de transporte tático/reabatecimento em vôo, o EMBRAER KC-390, e a construção do SBN, o submarino nuclear nacional.

Com exceção do KC-390, já falei muito nos outros dois projetos, nos velhos tempos do causa::. Sei que a defesa nacional não é propriamente um tema que atravesse as preocupações de nossas instituições e de nossos formadores de opinião.  Pelo contrário, boa parte dessas instituições considera projetos de defesa nacional como desperdício de dinheiro. Em épocas de crise aguda, ouvimos dos próprios governantes que o país não precisa deles e que nossas FFAA seriam melhor utilizadas em funções de policiamento urbano e “luta contra o contrabando de armas”, o que, em última análise, implica enorme desconhecimento sobre as funções exercidas pelas FFAA no mundo contemporâneo.

E para os equivocados que acham que “somos parte do Ocidente”, e que isto nos asseguraria contra qualquer problema, um episódio bem marcante estará, em 2017, completando 35 anos – a Guerra das Malvinas.

Foi o último conflito assimétrico para valer que envolveu forças armadas formalmente institucionalizadas, fora de um contexto de alianças, em um teatro estratégico altamente específico, num panorama ainda bipolar. Não conheço nenhum estudo (deve haver, eu é que não encontrei) sobre a influência do contexto estratégico e do panorama bipolar no desenrolar da guerra, mas o fato é que a Argentina poderia ter vencido. Não venceu exclusivamente pelas sandices militares cometidas pela ditadura argentina – que tinha se entupido de armamento, moderno, mas tendo em vista uma possível guerra contra o Chile, em função da contenda do canal de Beagle – que quase aconteceu, em 1978, mas , se tivesse acontecido, seria basicamente um conflito de teatro terrestre, onde as marinhas não teriam contado grande coisa. Só que, contra uma potência de primeira linha (e isso a Inglaterra ainda era, na época) o armamento adquirido pela Argentina era “meia-boca”: caças táticos norte-americanos dos anos 1950, versões xumbrega dos Mirage V fabricadas pelos israelenses (um caça chamado “Dagger”, que nem radar tinha), todos operando armamentos “burros”.

Não era, evidentemente, o caso da Inglaterra. Um dos pilares da OTAN, tinha FFAA muito bem organizadas e aprestadas. Mas não em número suficiente para manter seus compromissos com a aliança ocidental e montar uma expedição do porte da que montou – envolveu dois terços da Marinha Real, que era de primeira linha.

Não é o caso de examinar a guerra, aqui – existem livros que o  fazem muito melhor do que eu seria capaz. Vale apontar apenas o seguinte: foi uma guerra de teatro estratégico, e neste caso, uma marinha conta, e muito (primeiro); contra um potência, o que conta é a dissuasão (segundo) e (terceiro), as potências se alinham automaticamente, dentro de suas alianças – foi este ponto que tirou da Argentina qualquer possibilidade de vitória.

Neste caso, a dissuasão teria sido a única possibilidade da Argentina pelo menos tornar a balança menos desequilibrada – digamos: tivessem eles uns dez ou doze submarinos convencionais, certamente a Marinha britânica não teria como montar divisões capazes de prover escolta para os transportes de tropas e equipamentos – não tinham navios suficientes para isso.

Tivessem eles um par de submarinos nucleares de ataque (equipados com torpedos), os ingleses provavelmente nem sairiam de suas bases. E aí entra a história do projeto “SBN BR”, que boa parte dos formadores de opinião consideram “desperdício de dinheiro”.

A Marinha Brasileira começou a se interessar por esse tipo de coisa no início dos anos 1970, ainda na época do “Brasil Potência”. Desde os anos 1950, o país buscava  domínio do ciclo atômico, com a instalação de laboratórios de pesquisa nuclear nas principais universidades do país (USP, UFRJ e UFMG), a criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), do Laboratório Nacional de Pesquisas Físicas, dentre outras iniciativas que constituiram os primeiros passos nessa direção.

Não se pode esquecer do Almirante Álvaro Alberto da Motta Silva, pioneiro nas pesquisas brasileiras sobre energia nuclear, no início  dos anos 1940. O almirante representou o Brasil na Comissão de Energia Atômica da ONU, numa época em que os EUA pressionavam para que as reservas de tório e urânio, não importa em que país estivessem, fossem colocadas sob controle da entidade, proposta consubstanciada no chamado “Plano Baruch”, de 1946. O almirante qualificou essa proposição dos EUA de “tentativa de desapropriação”, e foi apoiado pelos representantes russo e da França.

Não tenho ideia se Álvaro Alberto chegou a estudar o papel estratégico dos submarinos nucleares – suponho que sim, na medida em que sua carreira, entre o fim dos anos 1940 e os final dos 1960, correu paralela ao desenvolvimento dessa arma. No entanto, já temos pensadores de ponta sobre o tema: os almirantes de esquadra Maximiano da Fonseca e Mário Jorge da Fonseca Hermes, o contra-almirante Mário Cezar Flores, e, mais recentemente, o vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva. Os três primeiros são pensadores estratégicos, que estiveram muito ativos durante a ditadura; o último é um cientista, e foi, nos anos 1970 e 1980, responsável pelos programas de pesquisa militar que buscaram dar ao país o controle do ciclo de produção de combustível nuclear. Boa parte das informações geradas, e da trajetória desses programas (na época havia um da Marinha, mais genérico, e um do Exército, mais voltado para produzir explosivo nuclear) continua cercada de segredo, e nem poderia ser diferente: perguntem a qualquer um se os EUA divulgam suas pesquisas militares nos jornais…

Independente de qualquer juízo de valor (a conjuntura estratégica e política da época, nacional e internacional, tem de ser avaliada cientificamente, por historiadores e cientistas políticos especializados), o Brasil é hoje um dos poucos países do mundo (ao todo, são 11) a dominar todo o ciclo do combustível atômico. É também um dos três que possuem reservas de urânio (os outros dois são Estados Unidos e Rússia) conhecidas em seu território. Nosso país tem, identificadas, jazidas de mais de 300 mil toneladas, das quais um terço já teve atestada a viabilidade econômica. Temos autonomia para uns 100 anos, caso nosso consumo se mantenha nos níveis atuais e o resto se revele inviável.

Ao longo de trinta anos, e a um custo estimado em 3 bilhões de dólares, o Brasil aperfeiçoou um método de enriquecimento de urânio que se mostrou eficaz e barato (alguma coisa chamada “centrífugas em cascata”). Boa parte das necessidades de materiais radioativos para uso industrial, científico e de pesquisa já são atendidas no próprio país, em plantas estatais. Por isso, na década passada começou a se falar, novamente, em energia elétrica produzida em plantas acionadas a combustível nuclear. E, curiosamente, nas últimas duas décadas, pressões internacionais lideradas pelos EUA tentam fazer que o país assine um tal “protocolo adicional” ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que coloca sob controle da ONU não apenas a produção de combustível nuclear em escala industrial, como também submete a controle internacional a pesquisa científica para criação das tecnologias que permitam tal produção em qualquer escala. O “império” e seus “duques” passariam a nos dizer não apenas o que fazer, mas o que pensar em fazer. Isso nos significaria um controle incontornável da ONU (ou seja, dos EUA) dentro do próprio território nacional. Como nenhum país do mundo fornece ou vende tecnologia nuclear a terceiros, continuaríamos a receber combustível nuclear pronto, a conta-gotas e passível de controle estrito sobre o uso. E a “ganhar de presente” – como certa vez escreveu um comentarista – tecnologias obsoletas (como a sujíssima usina de Angra I, dos EUA) ou pagar rios de dinheiro pelas que não deram em nada (ou o detentor achava que não iam  dar em nada, como foi o caso do acordo com a Alemanha, na década de 1970).

Não que o Brasil não deva assinar tratados de salvaguarda – de fato, não precisamos de bombas atômicas. Nos anos 1970, dentro da conjuntura estratégica e política de então – a chamada “abordagem geopolítica” – o país se recusou a aderir ao TNP, mas, na década seguinte assinou uma “versão regional” com a Argentina, considerada muito bem construída do ponto de vista das relações com nosso vizinho, prevendo de forma muito detalhada obrigações e reciprocidades. Nos anos 1990, o governo FHC (sempre ele…), doido para conseguir dinheiro e vantagens econômicas, aceitou “aderir” ao TNP, por pressão norte-americana e contra a posição de diplomatas e militares.  O tal tratado se revelou uma arapuca estratégica sem saída, e colocou todos os programas – militares ou não – sob supervisão da Agência de Energia Nuclear da ONU – e nos obriga, periodicamente, a convencer inspetores estrangeiros que submarinos de propulsão nuclear não são “armas atômicas”. Por sinal, graças ao “príncipe dos sociólogos”, quase nos comprometemos a não produzir mísseis antiaéreos e não podemos, por lei, produzir mísseis balísticos com alcance superior a 300 quilômetros…

Durante a ditadura militar, o país buscou adquirir outras tecnologias sensíveis de caráter militar: aeronaves, carros de combate, mísseis e navios de superfície. E submarinos, que, a duras penas, adquirimos, incompleta, da Alemanha. Em 2010, já debaixo do cobertor da Estratégia de Defesa Nacional e do conceito de “Amazônia Azul”, um acordo assinado com os franceses foi além: a aquisição de tecnologia completa para projetar submarinos, e a aquisição de um casco para o primeiro SSN.

Construir submarinos convencionais não é grande coisa, a não ser que o interessado os construa às dúzias – coisa que ninguém faz. Um submarino convencional (SSK) é movido a motor diesel e baterias. Numa tal embarcação, o curso imerso é impulsionado por motores elétricos, cuja força é provida por grandes grupos de baterias. Na velocidade máxima (que, no caso dos modelos mais modernos, é de uns 20 nós – 35 km/h) a carga se esgota em quatro horas. Numa velocidade mediana (uns 8 nós), se esgota em 24 horas. Esgotadas as baterias, o submersível tem de usar o “snort” (ou “schnorkel”), um mecanismo que permite, submerso, acionar os motores a diesel. Mas este mecanismo, além de detectável com certa facilidade, por causa do barulho e do calor, torna a vida da tripulação um inferno. Ou então, sobe à superfície e fica lá por pelo menos 6 horas, navegando em velocidade máxima (no caso uns 11 nós) para que os motores a dieses acionem dínamos que recarregam os conjuntos de baterias.

Um SSN não tem nenhum desses problemas. Visto que não tem motores a diesel, mas uma turbina acionada por vapor produzido pelo reator nuclear (em suma é miniusina termonuclear e móvel), pode ficar meses embaixo da água, enquanto a tripulação aguentar. Em função de não  ter motores elétricos, baterias e outros quetais, tem mais espaço a bordo para a tripulação, equipamentos e armamento. E é muito mais rápido: os modelos mais modernos alcançam 35 nós (70 km/h) em imersão. Uma arma dessas é quase absoluta: nos anos 1970, apesar dos esforços da OTAN, 80 por cento dos submarinos nucleares soviéticos deixavam suas bases no Mar Báltico e ganhavam o Atlântico sem serem detectados pelos piquetes aeronavais no Mar do Norte. E os SSBNs soviéticos iam se posicionar em suas estações ao longo da costa norte-americana, cada um com oito mísseis balísticos, onde ficavam por cerca de 4 meses (eram frequentemente fotografados na superfície). Dá, então, para entender a opção da END: dissuasão.

Ainda assim, construir um submarino não é coisa fácil. A engenharia é extremamente complexa e o sistema incorpora sensores e armamentos que nosso aparelho produtivo ainda não domina. Um nuclear, mesmo sem mísseis balísticos, é muito mais cavernoso. Somente cinco países os constroem: Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França, sendo que os dois últimos o fazem em doses homeopáticas, apenas para continuar achando que contam alguma coisa, como potências. Alguns outros poucos, como Israel e Alemanha reúnem condições tecnológicas de realizar tal projeto, mas não o fazem por restrições orçamentárias ou políticas. Recentemente, a Rússia alugou dois SSNs para a Índia. Este último país fez tal opção exatamente pelas restrições orçamentarias: a preços de hoje, um SSN novo custaria cerca de 2 bilhões de dólares por unidade. A MB provavelmente pagará um pouco mais barato, já que os custos para montar os sistemas do SSN BR serão em boa parte pagos por tabelas nacionais, bem mais baratas que as estrangeiras, e os sensores e sistemas de armas não serão de última geração. Segundo especialistas, um SSN “top de linha”, como os 6 que a Rússia está construindo, sairiam por uns 3 bilhões de dólares cada.

A parte mais importante do projeto, mas que estava bastante adiantada até 2013, era o desenvolvimento do reator – que implica em diminuir seu tamanho ao ponto de faze-lo caber nas dimensões de um submarino. Um reator nuclear em miniatura, no dizer  de um técnico. Segundo foi divulgado, o projeto, desenvolvido pelo IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) em Aramar, São Paulo, já se encontra em fase de testes. Também estão sendo desenhados, com apoio francês, mísseis de cruzeiro adaptados para serem lançados através dos tubos lançatorpedos. Já existe um sistema de datalink naval em fase de testes e um sistema de análise de dados táticos em funcionamento.

Pós escrito::

Rascunhei o texto acima uns anos atrás, quando a Guerra das Malvinas estava fazendo 30 anos. Agora, me surpreendo ao encontrar, na Internet, o texto de autoria do juiz federal, doutor Narciso Alvarenga Monteiro de Castro – que prova que nem toda a Justiça Federal tem a cara do doutor Sérgio Moro. Os textos são basicamente a mesma coisa, já que existe muita gente preocupada com os rumos da “Operação Lava-Jato e suas coadjuvantes. Acho que os dois textos poderiam ser lidos um após o outro (o do juiz, primeiro).  Sua argumentação central é nada menos que excelente, mas merecia algumas ressalvas especializadas, que, respeitosamente, achei que poderia fazer.

Para concluir, peço licença ao autor do excelente artigo O desmonte de nossos programas estratégicos em que me inspirei para reapresentar o que acabou se ser lido, e usar a conclusão dele.

“É inconcebível que um suposto combate à corrupção possa conduzir ao desmonte em programas estratégicos da nação. Seria até risível se pensar que americanos, russos ou franceses encarcerariam seus heróis, seus cientistas mais proeminentes, ainda que acusados de supostos desvios.

Portanto, somente aos estrangeiros ou seus prepostos no país, pode interessar o atraso ou o fim dos programas estratégicos brasileiros. É mais que hora de uma intervenção do governo ou, no mínimo, uma supervisão bem próxima da nossa Contra Inteligência para a verificação do que realmente está por trás das investigações da PF (FBI? CIA?), MPF e dos processos a cargo da 13a Vara Federal de Curitiba.”::

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Uma foto curiosa, um navio mais curioso ainda::

De fato, não se chegou a um acordo, até agora sobre a real nacionalidade do navio fotografado no Mar da China (embora alguns blogues refiram-se ao local como sendo o “Mar Amarelo”). O diretor da empresa de análise estratégica DigitalGlobe, dona da fotografia, Stephen Wood, disse estar certo de ter apanhado, em testes de mar, o navio-aeródromo de ataque (NAeA) Shi Lang, destinado a tornar-se capitânea da renovada e crescente esquadra da Marinha do Exército de Libertação do Povo (é este o curioso nome da marinha de guerra chinesa). O NAeA estaria conduzindo a segunda bateria de testes de mar, que duraram aproximadamente duas semanas, entre novembro e dezembro do ano passado. A análise da foto indica, pela intensidade da trilha de espuma, que deveria estar desenvolvendo dois terços de sua velocidade máxima, ou seja, uns 25 kts (a máxima seria de uns 33 kts). Depois do retorno às docas do Estaleiro Naval de Dalian, informes de inteligência dizem que começaram a ser instalados os cabos de parada, o que significa que os próximos testes serão de decolagem e pouso de aeronaves, embora seja impossível dizer ser esses testes já incluirão os pesados caças multifunção navais J15.

Este navio tem gerado crescente interesse por parte dos analistas ocidentais, pois é indicativo de que a China pretende, a médio prazo, tornar-se uma potência naval. Os  chineses tem estado, nos últimos dez anos, engajados num ambicioso programa de modernização naval. A Marinha do Exército de Libertação do Povo sempre foi uma força de grandes proporções, organizada com auxílio dos soviéticos a partir da vitória da Revolução Comunista, no Final dos anos 1940. Entretanto, oitenta por cento de seus navios, durante a Guerra Fria, eram barcos-patrulhas de pequeno porte e submarinos costeiros convencionais, cedidos pelos soviéticos ou construídos localmente, com base em tipos soviéticos da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, esses barcos estão sendo retirados de serviço e substuituídos por tipos modernos, desenhados por técnicos formados em univerisdades e estaleiros da Rússia, Ucrânia e Polônia. As novas aquisições incluem todos os tipos necessários para criar um grupo de batalha centrado em navios-aeródromos. Isso inclui contratorpedeiros porta-mísseis da nova classe 052C, Lanzhou e um tipo de fragata multitarefa, a classe Jiangkai II . Estão  também no foco dos planejadores chineses submarinos nucleares, mas parece que estes têm sido mais difíceis de desenvolver. A tecnologia naval não é algo que se consiga da noite para o  dia, e, em certos casos, tem de ser formada ao ongo de muito tempo… ou copiada. No caso de navios-aeródromos, é exatamente este o caso: são poucos os países que sabem construí-los e os que sabem hesitam em ensinar, visto que se trata de uma arma de dissuação estratégica “limpa”.

Temos, então, uma longa história. O navio começou a ser construído na época da antiga URSS. Suas origens remontam a 1981, quando o ministro da defesa soviético, marechal Dmitri Ustinov, visto como antipático a gastos com belonaves de grande porte, embarcou no “cruzador pesado porta-aviões e porta-mísseis” Kiev para assistir aos exercícios navais West 81, que reuniam os principais elementos da Esquadra Soviética do Atlântico Norte. Parece que, na ocasião, Ustinov convenceu-se da necessidade de dotar a esquadra soviética de uma arma aérea, com aviões de fato, e não apenas helicópteros e o espúrio Yakovlev Yak 38 “Forger”, um caça de decolagem vertical cujo desempenho era nada mais que pífio. Ainda em 1981 foi decidido que uma nova classe de “cruzadores pesados porta-aviões e porta-mísseis” seria desenhada pelo PKB (escritório de projetos navais) Nevsky, de Leningrado, e que a classe teria duas unidades: o Tsibili e o Riga. Contratados pouco depois, os dois navios foram construídos em estareiro ucraniano (a Ucrânia era então uma República Socialista Soviética). O Almirante Kuznetsov foi lançado ao mar em 1985 e somente tornou-se operacional em 1995, estando ainda em serviço na Marinha da Rússia. Por motivos políticos (após o fim da URSS, tanto Tsibili, na Georgia, quanto a letoniana Riga passaram a ser cidades estrangeiras com relação à Rússia) os nomes dos navios foram mudados para Almirante Kuznetsov (ministro da marinha durante a Segunda Guerra Mundial) e Varyag (“Varego”, um dos povos nórdicos conhecidos de forma genérica como vikings, que colonizaram porções do atual território europeu da Rússia).

Nessa mesma época, os soviéticos decidiram dotar sua marinha de um avião naval de verdade. A melhor opção pareceu criar uma versão navalizada da melhor aeronave multifunção então disponível, o Sukhoi Su27. A aeronave resultante foi o Su33 “Flanker D”, projetado a partir da primeira metade dos anos 1980, paralelamente à construção dos Kuznetsov. A característica interessante dessas aeronaves era que decolavam através de sky-jump, um curto ressalto de cerca de 7° positivos na porção de vante do convés de vôo dessas belonaves. Os ingleses também adotaram o mesmo desenho nos navios adaptados ao uso da versão navalizada da aeronave VTOL (Vertical Take-Off and Landing) Harrier (a que combateu nas Falklands/Malvinas). O sky-jump foi incorporado pelos russos aos “cruzadores etc.-etc” da classe Kiev, que usavam o Yak38, de peso bem menor que os SU33. Esse recurso tem a vantagem de dispensar a catapulta, mecanismo que pode aumentar o peso do navio em até 8 por cento, além de diminuir o estresse sobre a estrutura da aeronave. Por outro lado, uma aeronave convencional não consegue decolar a partir de um sky-jump com toda a carga útil, que, no caso do Su33 pode reduzir-se a pouco mais da metade. Os russos perceberam que uma das maneiras de implementar a performance da aeronave na decolagem seria acrescentar-lhe canards, pois estes ajudam a elevar o nariz, e tornam a superfície alar maior sem a necessidade de redesenhar radicalmente os aerofólios. A inserção dos canards também reduz substancialmente a velocidade de aterrissagem, devido ao aumento do arrasto aerodinâmico, além de aumentar a performance da aeronave em velocidade supersônica.

Os Su33 formariam os grupos aéreos dos novos “cruzadores pesados etc. – etc.”. O primeiro da classe, o Kuznetsov, entrou em serviço, ainda que meio aos trancos e barrancos, no prazo; o segundo da classe, o Varyag, teve um destino nada glamuroso. Começou a ser construído alguns meses depois de seu irmão mais velho, mas acabou sendo atingido em cheio pela crise da União Soviética, sofrendo diversos atrasos até ser abandonado em definitivo em 1992. O casco ficou encostado numa doca na cidade de portuária ucraniana de Nikolayev por anos, até ser vendido “no estado”, em 1998, para um “consórsio” de investidores chineses denominado Chinluck Holding, que para todos os efeitos, operava hotéis e parques aquáticos a partir de Hong Kong – embora não se soubesse do endereço dos hotéis e muito menos de alguém que tivesse dado um mergulho em suas piscinas. Entretanto, os “investidores” insistiam que pretendiam usar o casco enferrujado como “centro de diversões flutuante” na cidade de Macau, para onde a coisa foi rebocada, numa jornada rocambolesca de (acreditem ou não… ) mais de três anos. Para complicar, as autoridades de Macau, então ainda uma colônia portuguesa, recusaram-se a admitir o casco na baía da cidade, considerada muito rasa para as características daquele tipo de navio, de modo que o comboio foi desviado para a planta naval da cidade de Dalian, no nordeste da República Popular da China. Nada tão estranho: posteriormente foi revelado que o tal “consórsio” era uma empresa testa-de-ferro da Marinha do Exército de Libertação do Povo, e já tinha adquirido outros NAe desativados, inclusive o ex-HMAS Melbourne (NAeL – navio aeródromo ligeiro – da Marinha Real Australiana, da classe Majestic, igual ao brasileiro Minas Gerais) para estudos. A história acabou virando piada nos meios de inteligência, como “o segredo militar menos secreto da China”. Entretanto, e sabe-se lá o motivo, as autoridades do país guardaram silêncio sobre os planos para o navio, fotografado com frequência, por satélites de reconhecimento, sendo reformado. O tal “consórsio” chegou a distribuir notas sobre a inauguração do “cassino flutuante”.

Somente no ano passado a China admitiu estar construindo um navio aeródromo,  e que estavam sendo programados testes de mar para “muito breve”. Já que o Varyag tem um deslocamento de umas 65000 toneladas, estima-se que possa receber um grupo aéreo de umas 40 aeronaves, pelo menos. Ou seja, são bem menores do que os NAeA nucleares da classe Nimitz, de 100000 toneladas de deslocamento e com um complemento aéreo de 70 aeronaves de asa fixa. Por outro lado, é bem maior do que o NAe nuclear francês Charles DeGaulle e equivalente aos britânicos da classe Queen Elizabeth. É bem provável que o grupo aéreo do Shi Lang seja formado por caças navais J15 “Tubarão Voador”, uma cópia obtida por engenharia reversa do Sukhoi Su33. A China tentou comprar alguns SU33 novos de fábrica por volta de 2001, mas os russos já estavam desconfiados do interesse chinês em comprar pequenas quantidades de aeronaves prometendo comprar mais depois, e não fizeram a venda. Segundo consta, pouco depois os chineses conseguiram um protótipo incompleto da aeronave que tinha sido deixado na Ucrânia, e a completaram com propulssores e aviônicos produzidos localmente, de desempenho muito inferior aos dos originais russos.

A China tem tido problemas com a indústria aeronáutica russa desde que a empresa Shenyang Aircraft Corporation conseguiu copiar, sem permissão  o Su27SK, denominado lá J11B. A aquisição do Su27SK, foi feita no início dos anos 1990, diretamente da fábrica, e, em 2007, os chineses alegaram que tinham produzido uma “nova estrutura”, que “apenas se parecia” com a aeronave russa. Desde então, os dois países tem estado envolvidos numa disputa sobre quem tem razão. Não se sabe quantos J15 foram produzidos, mas certamente será esse avião que decolará do sky-jump do Shi Lang.

O fato é que a China parece empenhada em contituir uma marinha moderna, capaz de manter a superioridade sobre as águas proximas de seu litoral e sobre os acessos á essas águas. As águas próximas consideradas pela China como zonas de defesa estão cercadas por um arco de potências rivais que dispõem de alguma capacidade naval: Coréia do Sul, Taiwan e Japão. Mas a ameaça mais seriamente considerada é a base naval norte-americana de Yokosuka, a única fora dos EUA que tem um NAeA permanentemente estacionado, o USS Kitty Hawk. Em 2010, um exercício naval envolvendo uma força tarefa norte-americana liderada pelo NAeA nuclear George Washington, envolvendo dois cruzadores e dois contratorpedeiros e dez belonaves da bem organizada marinha sul-coreana foi considerado pelos chineses como uma afronta. O golpe foi ainda mais sentido pelo simples fato de que a China não possuí, por ora, meios para opôr-se eficazmente à presença de potências estrangeiras em “suas” águas. Se o Shi Lang já estivesse operacional, um força-tarefa liderada pelo NAeA chinês seria certamente enviada para “sombrear” o exercício dos EUA. E talvez tivesse feito diplomatas e militares norte-americanos considerarem se o risco de um incidente com a China valia à pena. Na época da Guerra Fria, era comum que tanto EUA quanto a URSS realizassem exercícios navais nas águas ribeirinhas (mar aberto adjacente à costa de um país) dos outros, mas nunca navios de um fizeram exercícos em frente à costa do outro. Para isso servem as FFAA – para “dissuadir”, como dizem os diplomatas.

Por isso analistas especializados têm afirmado que a China terá de criar uma força naval considerável, caso ambicione torna-se uma potência global. Esses analistas apostam que o Shi Lang  estará operacional por volta de 2015, e que nos proximos anos, os chineses irão construir pelo menos mais três desses navios. A corrida naval que parece se avizinhar envolve também a Índia, uma potência militar de bom porte, mas que se vê pressionada pela aparente disposição chinesa em estender sua presença até o Oceano Índico e a Costa Oriental Africana. A Índia tem ampliado seus gastos militares e se diz disposta a ampliá-los ainda mais, ao longo dos próximos dez anos. A Marinha Indiana deve contar, em 2016, com o primeiro de dois novos NAe’s (chamados lá de “navios de defesa aérea”) da classe Vikrant, de 40000 toneladas, construídos pela indústria local com forte apoio russo.

Tudo isso mostra como estava certo o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, que durante uma visita ao USS Theodor Rooselvelt, afirmou que, “quando chega a Washington a notícia de uma crise, não é por acaso que a primeira pergunta que vem à boca de todo mundo é: onde está o porta-aviões mais próximo?::

PRM, PAEMB, FREMM e outros quetais: a Marinha Brasileira também tem seu FX::

O projeto FX foi adiado mais uma vez, como todos sabemos. Em fevereiro, depois de colocar o Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio Exterior no grupo encarregado de reanalisar as opções relacionadas (na minha terra, isto se chama “começar tudo de novo”, mas… vá lá…), a presidente Dilma Roussef, em função de alegadas necessidades de ajuste econômico, empurrou tudo para 2012. Outro ponto forte que contribuiu para o adiamento foram as discordâncias sobre o modelo a ser escolhido. Até as pedras (francesas, norte-americanas e suecas – bem como as leitoras de causa::) sabem que o comando da FAB mostrou preferência pelo modelo sueco Gripen JC39 enquanto o Ministério da Defesa teria indicado o francês Rafale, em função de o presidente Lula ter revelado sua grande preferência pelos aviões (e pela aliança com…) franceses. Ainda assim, ele deixou a escolha final para o governo que o sucedeu, e a presidente resolveu analisar melhor a compra dos novos equipamentos, investimento que deverá subir a uns 10 bilhões de reais.

Muito dinheiro? Com certeza. Mas o fato é que, do ponto de vista estritamente militar, o adiamento da escolha do caça tem como consequência o aprofundamento do problema de obsolescência do equipamento da FAB. O F5MBR “Tiger” é uma gambiarra (muito bem elaborada pela Embraer, mas ainda assim, uma gambiarra) concebida como solução de emergência para não deixar a FAB no chão. Um problema ainda mais sério é que todos os modelos disponíveis no mercado – as aeronaves chamadas “da geração 4,5” – estarão obsoletos dentro de uns dez a quinze anos. Já começa a entrar no mercado uma variedade de tipos de quinta geração – o F22 Raptor, operacional e em desenvolvimento (agora se começa a falar em uma versão “de exportação”) , o F35 Lightining II (próximo a entrar em produção) e o T50 PAK-FA, este russo, desenvolvido em conjunto com a Índia. Essas novas aeronaves deverão estar plenamente desenvolvidas entre 2020 e 2025. As três têm capacidades que nenhum caça da geração 4,5 (inclusive os dois mais desenvolvidos, o Rafale e o multinacional Typhoon) tem.

Ou seja – existe o risco real de que a FAB enterre algo em torno de 10 bilhões de dólares num modelo de aeronave sem possibilidades de desenvolvimento. Imagino que os planejadores da FAB já tenham colocado esse fator na balança. Mas, balança por balança, o que pesa mesmo é a aparente inexistência de uma política de defesa concebida a longo prazo. Se houvesse tal política, seria decorrência a constatação de que o Brasil não tem forças armadas que correspondam às intenções do país em tornar-se ator global. E que, sem forças armadas, a Estratégia Nacional de Defesa se torna uma falácia.

Uma elocubração interessante aponta que o desenvolvimento do país acaba se tornando resposta para tudo. O país encontra-se em curso para cumprir seu “destino manifesto” de “potência global”. Realizado tal destino, todos os problemas se resolverão. Mas até lá, apela-se a um vago “patriotismo” dos atores envolvidos – classes médias urbanas educadas, servidores públicos e militares -, que significaria oferecer “sacrifícios” em pról do objetivo maior. Tal apelo (que não é feito à outras categorias da sociedade…) tem uma de suas facetas em solicitar essas categorias se virem como for possível, diante da crônica falta de dinheiro. Temos, assim, professores sem escolas equipadas, médicos sem hospitais e militares sem equipamento. 

Contra esse pano-de-fundo, não é estranho constatar que o projeto FX desenrole-se como tem se desenrolado, por duas décadas. E também não é estranho constatar que as outras forças singulares também têm seus “programas FX”, enrolados, para não irmos muito longe, ao longo de todo o atual período democrático. O problema de equipamento da FAB chama mais atenção em função da premência  e do lugar que tem no imaginário tecnológico da atual sociedade. A Marinha Brasileira tem atuado de forma mais discreta que a FAB – vale dizer: tem conseguido manter suas demandas fora dos holofotes da política e dos “especialistas” da imprensa.

O “FX da Marinha” já se chamou “Plano de Reaparelhamento da Marinha” (PRM), e vem, desde os anos 1980, sendo rolado (quando a MB lança o conceito e os estudos decorrentes) e enrolado (quando o governo empurra a dotação de recursos para as calendas gregas, apelando para as mais variadas desculpas) por sucessivos governos. A partir dos anos 1980, a MB teve viu seu planejamento obstaculizado pelos sérios problemas econômicos do país e pela baixíssima disposição doa governos pós-regime militar em lidar com questões militares fora do âmbito de uma verborragia inócua, tipo “discussão do papel das forças armadas em um regime democrático”. No início da década de 1990, os planos da Força, de construir doze corvetas da classe “Inhaúma” modificada e dois submarinos IKL1400 modificados, foram definitivamente abandonados. Manteve-se a construção dos exemplares originais de cada série, a corveta “Barroso” e o submarino “Tikuna”, já iniciada, e que acabou se transformando numa epopéia de mais de dez anos. Tratou a Marinha, então, de se virar com “compras de oportunidade”, navios desativados em seus países de origem, em diferentes estados de aprestamento. O fim da Guerra Fria levou à uma reconceituação das políticas de defesa nos países da OTAN – particularmente na Grã-Bretanha essa reconceituação foi notável – e a diminuição do tamanho das forças armadas colocou no mercado unidades de ótima qualidade em bom estado de conservação, e a preços muito razoáveis. No Brasil, foram adquiridos quatro fragatas britânicas, quatro da classe “Pará”, ex-norte-americanas da classe Garcia (tão ruins que três foram desativadas em menos de dez anos) e um navio-aeródromo ex-francês, recém-reformado pelos ex-donos. Por outro lado, o projeto do Navio de Patrulha Oceânico de 1200 toneladas de deslocamento foi abortado no início, o do submarino nuclear tropeçou em sucessivos cortes de verba e o do submarino convencional nem chegou a entrar na prancheta. Novidade mesmo, apenas a criação da aviação naval de asa fixa, com a compra de 24 caças táticos A4D Skyhawk.

Os anos 2000 também não foram grande coisa. Mesmo com o crescimento do país em níveis de quatro a cinco por cento, o orçamento da Marinha continuou comprimido. A parte destinada por lei à Força, dos royalties do petróleo, foi sucessivamente contingenciada e transformada, nos balanços do governo, em superávits orçamentários. A prática, inventada no governo FHC, foi alegremente adotada nos governos Lula e o resultado é que a MB continuou a ver navios. A crise de 2009 fez todo mundo mudar de assunto, mais uma vez, com a novidade de que se chegou a falar no abandono definitivo do programa do submarino nuclear. A curto e médio prazos, a Marinha tinha, na época, como prioridades a incorporação de navios-patrulha classe “Macaé”, então em fase final de construção, a modernização dos submarinos classe “Tupi”, a compra de novos helicópteros ASW, a modernização das aeronaves de asa fixa e a aquisição de novos navios de escolta. Todo o resto foi colocado em banho-maria.

O “Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil” (PAEMB – um resumo da versão oficial pode ser lido aqui; uma visão não-oficial, de um blog geralmente confiável, aqui) surgiu a partir do lançamento da Estratégia Nacional de Defesa. Claro se trata de mais um programa, e nada impede que seja enrolado pelo governo. Com o desenvolvimento da END, a Marinha foi (como as outras Forças singulares) chamada a informar o Ministério da Defesa sobre quais eram os meios necessários para cumprir de maneira razoável as atribuições que lhes eram destinas na nova política de Estado brasileira. De fato, era o caso de elaborar um programa que previa os meios necessários, as possibilidades de aquisição de tais meios (internas e externas) e como os meios científicos e industriais existentes no país poderiam ser convocados a participar. De fato, era uma forma nova de encarar o problema do planejamento de defesa no país. Até então, a Força (como as outras) tinha apenas uma matriz de planejamento: o orçamento. E não o que lhes é destinado pelo Leis de Diretrizes Orçamentárias, mas uma previsão feita pelos setores especializados sobre quanto seria realmente repassado. Os números previstos no PAEMB são, assim, não os reais, mas os ideais, bem como a relação de equipamento adequado. Mas qualquer um que, como eu (e os assíduos de causa::) acompanhe como são tratadas as questões militares no Brasil, sabe que qualquer previsão implicaria também na previsão média de corte de uns sessenta por cento, e prazos médios de execução de pelo menos dez anos. Assim, o horizonte de realização do plano é de pelo menos duas décadas: 2011-2031.

 Reaparelhamento das forças armadas é decisão política, e o alto investimento de recursos necessário, particularmente num país sem grandes problemas no horizonte das relações internacionais, sempre provocará muita controvérsia. Nos início dos anos 1970, a aquisição de fragatas, submarinos, caça-minas, helicópteros ASW, caças Mirage, caças táticos Xavante, fuzis de assalto, que praticamente obrigaram a criação de novas forças armadas, não provocaram controvérsia por dois motivos. O primeiro é bem lembrado: o governo ditatorial censurava tudo e prendia os críticos; o segundo, a maioria de nós gostaria de esquecer: o clima era o do “Brasil-potência” e a população, particularmente a classe média, achou ótimo ter forças armadas modernas. Num regime democrático, a coisa fica diferente, para bem e para mal. Para bem, porque um investimento de alguns bilhões de reais em dinheiro do contribuinte precisa realmente ser debatido; para mal, porque a maioria dos  debatedores não sabe do que está falando, e a coisa toda acaba num grande e inócuo exercício de “achologia”.

Foi exatamente o caso recente dos submarinos. Altamente controvertido, e (pelo menos segundo certos setores da imprensa…) pouco “debatido com a sociedade”, envolve recursos da ordem de 20 bilhões de reais. Apesar de tudo, será mantido – inclusive, por causa da existência, no contrato, de cláusulas draconianas que tornam muito mais caro suspender (como andou sendo discutido dentro do governo) do que manter.

Além dos custos diretos, a compra dos Scorpéne implica em outros, menos perceptíveis: é quase uma nova Marinha. Algo no nível da aquisição da “esquadra branca” de 1910, da reestruturação da Marinha 1941-1951 e da aquisição das fragatas classe “Niterói” (1970). A aquisição não apenas abrange a construção de parte dessas unidades (inicialmente três, das quatro adquiridas) num estaleiro/base naval que está em construção nas cercanias de Itaguaí (RJ), como a aquisição de um casco destinado ao submarino nuclear. Depois de uma série de experimentos conceituais e modelagens virtuais, ainda não divulgados, e que envolviam o conhecimento adquirido com a operação dos “Tupi”, os especialistas da MB concluíram que melhor seria comprar o casco pronto. Voltaremos ao assunto em outra oportunidade.

Não há dados concretos sobre que custos esse projeto alcançará. Calcula-se que a construção de uma única unidade deverá atingir 1,2 bilhões de dólares. No mínimo, já que também somos todos especialistas em esticar o dinheiro. Mas tomando-se como base o custo do programa de construção do submarino nuclear francês Le Terrible, que está em construção em Cherburgo, dificilmente cada unidade ficará por menos de 2,5 bilhões de dólares (ou 1.52 bilhões de euros, segundo o site especializado – em inglês – NTI). 

Resta saber se o governo brasileiro estará disposto a arcar com tais custos. Uma das alegações mais constantes é que um país “pacífico” não precisaria de tal tipo de despesa. Essa argumentação é espúria – nenhum país mantém forças armadas baseado unicamente na perspectiva de uma guerra. Os interesses nacionais na “Amazônia Azul” são pacíficos mas são estratégicos para o Brasil: “os limites das águas jurisdicionais brasileiras, consagrados em tratados multilaterais, garantem direitos econômicos, porém com a contrapartida dos deveres e das responsabilidades de natureza política, ambiental e de segurança pública sobre uma área de cerca de 4,4 milhões de quilômetros quadrados, que equivalem à metade da superfície do território nacional em terra firme” (vale à pena ler, sobre o assunto, a íntegra deste artigo). Não é difícil (pelo menos não deveria ser…) entender que existem interesses econômicos enormes na plataforma continental brasileira (o “mar de 200 milhas”), a começar pelos recursos pesqueiros – que o Brasil ainda aproveita muito pouco.

Mas como peixe não é algo que as pessoas achem que valha uma guerra, coloquemos outro exemplo: já foram investidas enormes quantidades de recursos na exploração de petróleo em campos sob lâmina d´água, recursos que deram ao país, no período entre 1975 e 1997, a auto-suficiência (vale à pena ler este artigo, uma boa resenha sobre o tema) em produção interna. Atualmente, visto que nos tornamos uma potência tecnológica no que diz respeito à pesquisa e exploração em lâmina d´água ultraprofunda, e as pesquisa sobre os campos do pré-sal mostram um ambiente promissor, existe perspectiva concreta de que, nos próximos vinte anos, o país se torne um dos grandes produtores de petróleo do mundo. Toda a produção virá de plataformas e complexos de apoio situados em alto mar. A defesa desse aparato produtivo exigirá forças navais e aéreas compatíveis. É significativo que o país esteja adquirindo aeronaves de patrulha (outra compra altamente controversa, embora menos conhecida em seus detalhes) com alguma capacidade ofensiva e esteja em debate a aquisição de navios de patrulha oceânicos e navios de escolta.

Tudo no âmbito do PAEMB, só que o “FX da Marinha” também foi posto na geladeira pelo governo Dilma Rousseff, pois está estimado, para início de conversa, em 10 bilhões de reais. A presidente determinou que cinco navios-patrulha oceânicos (NaPaOc) de 1800 toneladas, e cinco fragatas multimissão classe FREMM (acrônimo de Frégate Européenne Multi Mission), um projeto franco-italiano, que deverá ser construído no próprio país, fossem adiados, em princípio para 2012. O projeto da Marinha incluí também os cinco submarinos.

Parece que o atual governo não tem dúvidas sobre a necessidade urgente dos novos navios, visto que a Marinha tem problemas de equipamento tão sérios quanto a FAB e o Exército (estranho seria se não tivesse). Os principais navios de superfície da Esquadra (fragatas classe “Niterói” e “Greenhalgh”, ambos desenhos ingleses dos anos 1960, e as corvetas classe “Inhaúma”) terão atingido o final da sua vida útil dentro de dez anos, mais ou menos, e precisarão ser substituídos. E, tal como na guerra aérea está em curso uma mudança de paradigmas, a mesma coisa ocorre na guerra naval. O fato é que todas as principais marinhas estão aposentando seus principais tipos, em função do surgimento de navios resultantes de novos conceitos. As potências menores têm estudado os denominado (nos EUA) Littoral Combat Ship (LCS)/ High-Speed Surface Ship (se você lê inglês, uma boa apresentação desses novos vasos poderá ser encontrada aqui). As fragatas classe FREMM parecem já ser conceituadas segundo essa nova tendência. Uma dos aspectos mais interessantes desse novo tipo é o fato de poderem ser configuradas rapidamente para diferentes tipos de missão: emprego geral (combate de superfície, antinavio e contra a costa), antiaérea e anti-submarino. Os sistemas de controle digitais adequam os sensores para os diversos empregos. Os sistemas de armas são instalados em containeres, e, conforme a configuração determinada pelos sistemas de controle, podem ser retirados de bordo ou simplesmente desativados. Com um deslocamento de cerca de seis mil toneladas, as FREMM medem 142 metros de comprimento e têm uma guarnição de apenas 108 homens,(para comparação, com 3800 toneladas de deslocamento, uma fragata da classe “Niterói” é guarnecida por 220 tripulantes, em média, e as da classe “Greenhalgh”, por uns 240 oficiais e marinheiros).

Entretanto, ao longo do desenho do programa, surgiram dúvidas entre os planejadores da MB sobre se a classe FREMM seria a mais adequada para as condições brasileiras. As questões relativas ao imbróglio com a extradição de Cesare Battisti tiveram alguma participação já que o Parlamento italiano, em retaliação à recomendação de asilo político para o ativista/terrorista (vamos ver se assim causa:: agrada aos assíduos de todo o espectro político…) não ratificou as cláusulas do acordo militar que implicavam em transferência de tecnologia, sem as quais o Brasil não assinaria nada. Mas essa troca de picuinhas seria, provavelmente, coisa passageira, e o acordo teria saído, pois a indústria italiana certamente não ficaria feliz em ver-se fora de uma venda bilionária em função de um caso que mais tem de folclore do que de política. O problema real é que a Marinha não vê a hegemonia francesa com simpatia, e há resistência aos franceses. Explico: inicialmente, previa-se que as FREMM brasileiras seriam baseadas no tipo concebido para a Marinha Italiana, ou seja – os equipamentos e armamentos, com pequenas modificações, seriam originários da indústria daquele país. Pelo acordo entre Brasil e França, já assinado, toda a flotilha de submarinos da Marinha será baseada em tipos DCNS (a empresa de construções navais militares francesa). A DCNS, ao longo de 2010, tentou pressionar o governo brasileiro para que as FREMM da MB também fossem compradas da França, alegando que o modelo de transferência de tecnologia seria mais completo. É possível, visto que a versão italiana tem uma série de itens baseados em tecnologia originária nos EUA. Isso não seria, entretanto, um obstáculo intransponível, pois a modularidade da classe provavelmente permitiria equipamentos de outras origens (inclusive os que estão sendo desenhados pela indústria nacional). Entretanto, o “chão de fábrica” da MB já demonstrou preferência pelos produtos ingleses, considerados confiáveis e bem conhecidos pelos técnicos nacionais, e alemães, que também já são considerados dominados, em termos tecnológicos, depois de mais de vinte anos de experiência com a classe 209. A oficialidade naval, bem como os engenheiros familiarizados com os problemas de manter uma esquadra funcionando, têm resmungado que, com a “invasão francesa”, seria o caso de começar tudo de novo, visto que os diversos ciclos de manutenção dos novos navios são totalmente desconhecidos.

Outro problema interessante é o fato de que tanto a marinha francesa quanto a italiana são forças concebidas para atuar principalmente no Mar Mediterrâneo, um mar interior composto por diversos golfos, ou seja, sistemas de águas fechadas. A Marinha Brasileira tem, necessariamente, de conceber seus meios para operar no Atlântico. O projeto da corveta “Barroso”, a quinta unidade da classe “Inhaúma”, implicou em modificações originadas exatamente nas más características de mar dos quatro primeiros navios da classe. As “Inhaúma” apresentam problemas de estabilidade em mar alto quando em velocidade, e a proa teve de ser completamente redesenhada de forma a corrigir o problema do embarque excessivo de água. O problema tinha sido identificado desde o início, e é plenamente explicável. O projeto da classe, realizado no início dos anos 1980, teve como parceiros – em função da absoluta falta de experiência dos escritórios de projeto e estaleiros nacionais – os engenheiros da empresa alemã de projetos Marine Technik. O resultado foi um navio aparentemente concebido para águas do Mar Báltico e Mar do Norte. Cochichos têm apontado algumas características da classe FREMM que poderiam criar os mesmos problemas observados, vinte anos atrás, com as “Inhaúma”.

Assim, parece-me que o fato dos principais programas de aquisição de equipamento para as forças armadas terem sido adiados talvez não tenha sido assim tão ruim. Permitirá que sejam examinadas as qualidades e defeitos dos produtos envolvidos, e suas potencialidades de desenvolvimento. Entretanto, a questão dos cortes constantes de orçamento tem de ser vista sob outro prisma – exatamente o do “quinto exemplar” da classe “Inhaúma”. A “Barroso” foi encomendada em 1993, e, embora seja parecida com suas quatro “irmãs”, se trata na verdade, de uma “meia-irmã”: um projeto com diferenças notáveis. O casco foi aumentado em 4,2 metros, de modo a melhorar as qualidades de navegação do navio. Os técnicos brasileiros já tinham notado que, embora o casco das fragatas da classe “Niterói” fosse muito semelhante ao das “Inhaúma”, o desempenho desses navios em “mar grosso” era infinitamente superior ao das corvetas. A Marinha sabia o motivo: a presença, no projeto inglês, de “bochechas” (partes curvas proeminentes do costado em ambos os bordos junto à roda de proa). A proa das “Inhaúma” era uma “proa de fragata”, bastante afilada, concebida para melhorar o desempenho hidrodinâmico do casco. O que a Marinha não sabia era como modificar o projeto do navio, o que foi feito com o auxílio do Centro Sueco de Pesquisa Marítima (SSPA – States Skeppsprovnings Anstalt), em Gotemburgo, Suécia. Outra reclamação sobre o projeto original, a exiquidade do convôo, foi resolvido colocando-se, na “Barroso”, um maior, destinado a receber o Super Lynx, helicóptero orgânico das unidades navais brasileiras. Os sistemas de controle e de armas foram melhorados para se adequarem ao projeto ModFrag. O fato, amplamente reconhecido, é que a “Barroso” foi transformada numa “mini-fragata” desenvolvida pela própria Marinha – e muito barata: o preço final foi de pouco mais de 270 milhões de dólares.

Se a “Barroso” é nacional, tão boa e tão barata, por que não construir mais umas onze ou doze? Porque se trata de um projeto dos anos 1980, e que, como vimos mais acima, não se adequa aos novos paradigmas da guerra naval (seria mais ou menos o mesmo que construir um contratorpedeiro da classe Sumner na década de 1960). O que provocou esse buraco? Ganha uma miniatura da “Inhaúma” (com água à bordo e um “Esquilo” no convôo, incluídos) quem responder: os sucessivos cortes de verbas que obrigaram a sucessivas modificações no cronograma geral do projeto, fazendo a construção se arrastar por mais de dez anos. O navio mais moderno da esquadra já nasceu rumo à obsolescência, embora suas qualidades sejam evidentes. Mas não foi dinheiro totalmente jogado fora: é muito provável que, com a experiência adquirida desse projeto, seus percalços e seu desenvolvimento, seja possível desenvolver um navio nacional, a um preço bem menor que um “pacote fechado”, mesmo que envolvida a transferência de tecnologia. O Brasil tem se saído relativamente bem em comprar projetos franceses e alemães e adaptá-los, ao longo do desenvolvimento. É o caso, por exemplo, dos Navios de Patrulha classe “Macaé”. A Marinha encomendou o projeto ao escritório de projetos/estaleiro francês CMN (Constructions Mécaniques de Normandie), mas, uma vez executado pela Marinha, teve alguns detalhes já modificados, como, por exemplo, uma planta de potência menor, de modo a lhe aumentar a autonomia, a inclusão alguns equipamentos de projeto da própria Marinha, (um sistema digital de controle de máquinas) e a introdução de um sistema de navegação “Sperry Marine” da Northrop Grumman, bem como um canhão de 40 mm Bofors numa torre totalmente automatizada.

Isso significa que, ao contrário do contexto dos anos 1980, já existe uma estrutura de instituições científicas, escritórios de projetos, indústria naval e militar capaz de projetar e produzir navios de guerra modernos. Talvez seja o caso de começar a tentar::

causa:: volta ao ponto::Como poderá ser a política de Defesa do próximo governo?::

 

Passadas as eleições presidenciais, chegada a hora da choradeira. Por exemplo, a inigualável Miriam Leitão afirmando, literalmente, na maior demonstração de criatividade que já vi, em termos de despeito: ”O Brasil está atrasado no esforço por igualdade de gênero. O risco, no entanto, é a confirmação dos estereótipos. Ela [Dilma Rousseff] chegou lá pela força política de um homem, que a escolheu e a defendeu contra tudo e contra todos, passando por cima dos mais elementares limites institucionais da presidência da República.” Não precisa ler de novo – é isso mesmo. Dilma Rousseff e o PT – noves fora os perigos “convencionais” que representam, também são ameaça de piorar o paternalismo e o machismo nacionais.

causa:: não pretende dar motivos para que os nove ou dez assíduos levantem acusações de ser este um blogue politiqueiro, portanto, volta agora aos temas de que realmente sabe falar (e, em alguns deles, inevitável será falar mal do governo…). “Volto ao ponto” (expressão frequente de um dos procuradores com quem convivo…) e vou, ao mesmo tempo, tentar cumprir algumas de minhas próprias promessas de campanha. Vamos a elas, começando com um breve-nem-tão-breve comentário (em duas partes, porque não consigo falar pouco sobre o tema…)::

parte 1/3Renato Berlim, um dos assíduos mais assíduos aqui de causa:: levanta a questão de como ficará a política da Defesa no novo governo petista. A resposta, redonda (e possivelmente equivocada… Ou não… Sabe-se lá…) é… Não sei. O governo Lula deu certa atenção às FA nacionais, dentro de uma política de buscar maior participação do país na arena internacional e, se possível, uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Mas foi, de certa maneira, uma atenção bastante limitada.

Prefiro falar deste assunto começando por um tema geral  – que sempre me pareceu intrigante: o desinteresse da maioria da população por assuntos de política internacional, no Brasil. Daí decorre que a maioria das pessoas – e particularmente dos formadores de opinião – parece não saber direito o que é “estratégia”, e o papel desta dentro das relações internacionais. Daí resulta que o conhecimento sobre a serventia das FAs, no contexto moderno e, particularmente, no contexto brasileiro, segue o mesmo ritmo. A consequência é a desatenção para com os assuntos militares e de defesa, que ficam restritos a um pequeno círculo especializado de militares, diplomatas e cientistas.

Os militares, admitamos, não ajudam. Parecem pouco interessados em estabelecer laços sólidos com a sociedade civil e em alguns momentos se comportam como se fossem os únicos patriotas do país. Relações sólidas com a sociedade poderiam ser plantadas através do apoio consistente e bem planejado, por exemplo, às associações de veteranos – e o Brasil tem muitos veteranos. Mas, de modo incompreensível, entretanto, o próprio EB cria caso com uma dúzia de viúvas de militares mortos em serviço na Minustah, em torno de seguros de vida que deveriam ser pressuposto e auxílios educacionais irrisórios (entenda-se lá tal estupidez…). Também poderia ajudar o estabelecimento de programas de colaboração com o sistema escolar, que popularizassem a carreira e o modo de vida militares – literalmente, levar crianças e adolescentes para passear de tanque ou helicóptero de assalto (mas, claro, faltam verbas…), e a multiplicação de programas como os “dias de portas abertas” nas bases militares. Também ajudaria – e muito, me parece – o suporte a alguns filmes com temas militares. Mas, ao contrário, nunca foi feito um bom filme sobre a luta da FEB na Itália (lembro de um, “For all – O Trampolim da vitória“, que era apenas mais-ou-menos…), e um bom filme sempre desperta simpatia para os “mocinhos” – basta ver a popularidade do “capitão Nascimento” e do BOPE, depois do filme. Mas embora a FEB devesse ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, a realidade é que o dia 8 de maio sequer é comemorado de forma decente em nosso país…

O fato é que setores amplos da sociedade parecem pensar que as FAs não servem para nada que não seja consumir recursos de maneira improdutiva. É possível que tenha relação com isso o pacifismo um tanto tolo e muito desinformado que grassa no Brasil. Somos ensinados sobre “sermos um povo pacífico”, desde nossa independência, proclamada sem o derramamento de uma gota de sangue (apesar da guerra que se seguiu, e durou dois anos…). A compreensão sobre o que, de fato, representam as forças armadas, principalmente em tempo de paz, acaba sendo lugar e fonte de uma série de equívocos. Uma boa política de defesa talvez devesse começar por esclarecer tais equívocos.

E não se pode acusar – como é frequente – nosso povo de ser pouco interessado pelo país. Na avaliação aqui de causa:: (modestamente…), talvez não sejamos tão nacionalistas quanto deveríamos, mas isso não significa que viremos as costas para nosso país, quando diante da comunidade internacional. Basta observar a rivalidade com a Argentina, que não está restrita ao futebol,  a simpatia por outras nações subdesenvolvidas. 

Esse nacionalismo potencial e incipiente reflete-se, constantemente, nas atitudes e tendências da população, quando posta frente-a-frente com as políticas de Estado e de governo que refletem a posição internacional do país. Nessas eventualidades, formadores de opinião (políticos, classes produtivas, funcionários públicos civis e classes médias instruídas) frequentemente manifestam um nacionalismo ora mais, ora menos radical, que tem nos EUA o principal alvo de dúvidas. Não resta dúvida, é certo, que os EUA sempre foram o “parceiro preferencial”, e a opção pelo “Ocidente” fica expressa na posição assumida por nosso país durante todo o período da Guerra Fria. Mas a atuação dos norte-americanos com relação ao Brasil nem sempre pareceu, às categorias citadas acima, “justa”. Essa desconfiança remonta ao início dos anos 1950, e era manifestada por amplos setores políticos e militares  – ser anticomunista não significa, vale lembrar, ser automaticamente pró-Estados Unidos. Não poucas vezes a desconfiança tornou-se, decididamente, antipatia. E em dois ou três momentos, a antipatia levou à radicalização de posições nacionais, visto que os interesses brasileiros pareciam estar sendo desconsiderados pelos norte-americanos. Podemos lembrar, sem muito esforço, o programa nuclear e a política independente voltada para a África e o Terceiro Mundo – inclusive o apoio ao regime de Saddam Hussein, durante os anos 1980.   

Examinemos um desses momentos – um importante movimento da diplomacia brasileira, atualmente um tanto esquecido: a questão da extensão do mar territorial para uma faixa de 200 milhas de largura, na virada da década de 1960. Em 1970, o governo do general Médici tomou a decisão de ampliar a faixa soberana de águas territoriais. A decisão baseava-se no fato de que não havia, no direito internacional então em vigor, norma que determinasse qual o limite máximo em que os Estados ribeirinhos poderiam exercer soberania total – o chamado “mar territorial”. No entender do governo brasileiro, um Estado costeiro seria livre para determinar a extensão de sua fronteira marítima, desde que não prejudicasse ou agredisse interesses estrangeiros, nacionais e particulares. A partir desse entendimento, o governo brasileiro optou por afirmar a soberania plena sobre uma faixa adjacente à costa de 200 milhas de largura. Entre 1970 e 1982 (ano da conclusão da 3ª Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar), essa política de Estado resultou numa estratégia de consolidação do que era posto como interesse nacional. A adoção dessa política pelo Brasil foi decorrente de um conjunto de fatores que funcionou como propulsor de interesses dos governos do período: a tentativa de afirmação da autonomia decisória quanto à política exterior brasileira, no quadro do “Brasil-Potência”, projeto geral dos militares, apoiado for fortes ações de propaganda e pela vigência interna do regime de exceção. Mas o fato é que até mesmo a oposição organizada no velho MDB “fechou questão” e a população cerrou fileiras por trás do governo  – “esse mar é meu, leva o teu barco prá lá desse mar…”

Como era de se esperar, a ampliação da faixa de soberania até o limite proposto encontrou resistência por parte de diversas nações estrangeiras, inclusive os EUA. Cabe agora perguntar se essa linha política resultou em políticas coadunantes e consistentes, de defesa. A resposta – decidida e segura – é: mais-ou-menos. Claro que as circunstâncias propícias – tanto a nível interno, como, principalmente, no contexto internacional – ajudaram a fazer dar certo uma jogada que poderia, em outro momento, ter resultado em problemas. As contendas em torno das 200 milhas não envolviam somente o livre trânsito nos mares, mas (principalmente) o domínio e posse de riquezas minerais submarinas, assim como do controle sobre o espaço aéreo correspondente. Afirmando sua soberania sobre a extensão marítima ampliada, no Atlântico Sul, o Brasil desafiava as posições hegemônicas das potências e aumentava seu poder de barganha nos fóruns delineadores do sistema internacional. Ainda que isto explicado, resta a pergunta: como fazer isso com FAs pífias (embora relativamente grandes, para um país subdesenvolvido…)?

A política brasileira, no período da Guerra Fria, assumia uma posição que era dominante: a posição brasileira no cenário internacional era subordinada aos EUA e a atuação do país se daria em contextos regionais e limitados. Assim, entre os anos 1970 e 1990, o país renovou as FA de maneira proporcionalmente limitada: foram adquiridos pelo menos trinta novas unidades navais na Europa (Inglaterra e Alemanha), dezenas de navios de segunda mão nos EUA (inclusive oito submarinos relativamente modernos), aeronaves novas e sistemas de armas relativamente modernos, mas concebidos para intervir apenas regionalmente, a partir do território brasileiro. Um movimento bastante importante, que não se originou então, mas cresceu notavelmente, foi a capacitação da indústria local para construir navios de primeira linha e a implantação de uma indústria aeronáutica autóctone, capaz de dominar todo o ciclo da produção de aeronaves. Também começou a ser considerado o reposicionamento das unidades de primeira linha do EB, assim como a criação de unidades especializadas até então inexistentes, como forças especiais, unidades de combate na selva e frações de tropas experimentais, destinadas e introduzir o uso de mísseis anticarro e equipamento antiaéreo moderno. E começaram a ser feitos fortes investimentos na indústria local de defesa.

Essa política de Estado, concebida contra o panorama da Guerra Fria e da inserção nela do país viria a sofrer alterações consideráveis, a partir dos meados da década de 1970. Em 1974, as políticas brasileiras se radicalizaram e o alinhamento não-condicional ao “Ocidente” (leia-se EUA). Sofreu uma inflexão: a razão foram as mudanças internas nos EUA, e novamente as posições norte-americanas passaram a ser consideradas “injustas” pelo regime militar. Essa nova visão da política e do jogo de forças internacional, e a avaliação interna da dinâmica internacional levaram o governo a firmar posição em não aceitar o que era considerado “ingerência nos assuntos internos do país”. A estratégia foi, como sempre, buscar novos parceiros políticos e econômicos. O princípio da coisa toda foi o programa nuclear, que se desdobrou em políticas de independência radical com relação às posições dos EUA – inclusive a busca de parcerias com produtores de petróleo (que também tinham fortes divergências com os EUA) e o início de investimentos pesados na busca de petróleo nacional.

Tudo isso é estratégia baseada na consideração clara do quais seriam os interesses nacionais e como deveriam ser promovidos. O fato é que não é possível imaginar uma estratégia sem ter claros os objetivos. A política de defesa irá decorrer daí, e não podemos dizer que o país não tenha tido política de defesa – esta deve ser examinada contra o contexto da Guerra Fria e dos movimentos das superpotências. O alinhamento não-condicional aos EUA e ao “Ocidente” se desdobra em toda uma linha de atuação que conforma, desde o início dos anos 1950, o caráter das FAs nacionais; o início dos anos 1960, e particularmente o ano de 1962, que terminou com a consolidação de Cuba – parte de um “acordo não-escrito” entre EUA e URSS – coloca o Brasil como “teatro de operações” da Guerra Fria. A defesa passou a ser interna, e os inimigos estavam dentro do próprio país. Nesse sentido, o golpe militar de 1964 e a longa ditadura que se seguiu estabeleceram objetivos que foram seguidos, mas não de forma pétrea. Não deve ter ocorrido a muita gente, na época, que nem sempre – como pensava parte do governo – “tudo que era bom para os EUA era bom para o Brasil“. 

Voltaremos em seguida, para dar tempo aos nove ou dez assíduos refletirem sobre a esclarecedora frase de Juracy Magalhães.::

O mês da Guerra do Paraguai::Algumas observações sobre as origens da guerra

Nos 140 anos que nos separam do fim da Guerra do Paraguai, a situação mudou bastante na região do Cone Sul do continente sul-americano. Embora as encrencas eventuais com nosso ex-inimigo e ex-aliados, o horizonte agora é de boa vontade mútua, embora ainda se note, vez por outra, alguma desconfiança da nação guarani com relação a seu enorme vizinho tupi – ou seja, nós mesmos.

O que não mudou é que os interesses brasileiros na região continuam muito grandes, embora tenham mudado um pouco de caráter. Agora, giram em torno da energia produzida pelo complexo de Itaipu, empresa administrada em parceria entre os dois países. Os interesses no Uruguai, por outro lado, agora são menores. Cento e quarenta anos atrás, a colônia brasileira no Uruguai equivalia a uns 50 mil brasileiros, população igual ou talvez maior do que a da acanhada cidade de Montevidéu. Os interesses dessa gente eram ligados pelos mais diversos laços, aqueles dos brasileiros residentes no Rio Grande do Sul.

A região, hoje pacífica, era então palco de conflitos armados constantes, de maior ou menor intensidade. Por ali, todo mundo tinha certa capacidade de mobilizar milícias. Região de “fronteira viva” por excelência, era habitada por gente que sabia montar (muito bem), sabia manejar lanças de cavalaria (afinal, eram muito parecidas com as que eram usadas para reunir o gado) e sabia atirar (geralmente mal). Esses grupos de milicianos tiveram sua maior expressão na “califórnia do Chico Pedro”, grupo de ginetes reunido, durante a Guerra dos Farrapos, por Francisco Pedro Buarque de Abreu. Chico Pedro é um exemplo do tipo de miliciano que proliferou na região. Estancieiro na fronteira com o Uruguai, criou uma força militar para defender os interesses dos fazendeiros rio-grandenses no Uruguai. Enfrentou os bandos de “orientales” (uruguaios) que incursionavam pelo território brasileiro e acabou combatendo contra a rebelião farroupilha. Liderou um grupo de uns 400 cavaleiros levemente armados e altamente móveis, que atuavam reunindo-se rapidamente e incursionando contra objetivos adversários, numa espécie de “guerrilha a cavalo”. Argentinos e uruguaios também conseguiam reunir esse tipo de forças, que não eram unidades militares e, em combate, eram muito pouco confiáveis devido ao baixo grau de disciplina. As tropas milicianas dificilmente contavam com infantaria e artilharia: normalmente, a proporção era de 5/8 cavaleiros para cada infante. Seus líderes, embora tivessem postos atribuídos pela Guarda Nacional, não tinham formação militar. Eram, de fato, chefes e sua autoridade decorria do poder político local que exerciam em suas regiões. Não eram comandantes, na acepção técnica da palavra. O Império tinha a vantagem de poder contar com um pequeno exército profissional, formado por oficiais e soldados de carreira, embora a força militar estivesse, desde 1831, limitada a cerca de 17.000 homens.

Outra vantagem, maior ainda, que tinha o Império do Brasil, era a posse de uma Marinha de Guerra. Esta existia desde 1822, tendo como base os oficiais e marinheiros portugueses que haviam aderido ao novo país de forma mais-ou-menos consensual. Também foram contratados oficiais e graduados britânicos, desempregados após o fim das Guerras Napoleônicas, que vagavam pela América do Sul como soldados da fortuna. A esse pessoal, já com bastante treinamento e experiência de guerra, juntaram-se marinheiros nacionais. A extensa costa brasileira e o sistema viário inexistente faziam do transporte marítimo a principal forma de ligação entre as diversas regiões. Toda essa gente foi guarnecer navios de guerra portugueses apanhados em portos brasileiros ou adquiridos em países estrangeiros. De qualquer forma, a Marinha Imperial teve destino diferente do Exército, cuja confiabilidade foi comprometida pelos surtos de indisciplina durante o Primeiro Reinado, que culminaram com a quase desmobilização, na década de 1830. A Marinha, devido ao tamanho da costa brasileira, teve papel estratégico na Guerra da Independência, pois impediu, pelo bloqueio naval, a articulação das regiões onde as juntas governativas mantinham-se politicamente fiéis a Portugal, entre si e com o Reino. É interessante observar que a criação da Marinha teve forte influência de José Bonifácio e de Caldeira Brant Pontes, ambos diplomatas e conselheiros do Imperador, e que, tendo prestado serviços à Coroa portuguesa, provavelmente tinham idéia sobre a importância do controle do mar. A Marinha continuou, após a independência, cumprindo o papel de garantir as comunicações entre as diversas partes do Império do Brasil e, ao contrário do Exército, não criou problemas políticos. Teve papel fundamental na repressão de revoltas locais, como a Confederação do Equador, em Pernambuco, e na defesa da posição brasileira na Guerra  da Cisplatina (1825-1828). Nessa época, a Marinha já dispunha de 96 navios de diversos tipos, o que a tornava a maior da região. O corpo principal, formado por dois navios-de-linha (naus), dez fragatas e vinte corvetas, montava quase 500 canhões. Daí por diante, a presença naval brasileira na região do Prata seria constante, visto que os conflitos naquela região não cessaram. Em 1851, com o Império mais uma vez em guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, uma esquadra brasileira de 16 navios, comandada pelo vice-almirante John Pascoe Grenfell foi enviada à região. Nessa ocasião, a esquadra brasileira conseguiu ultrapassar o forte de Tonelero, efetuando o desembarque de tropas trazidas do Rio Grande.  A importância da Marinha pode ser notada pela atenção que demonstra o governo imperial com a força.  Os programas de modernização e pela atualização que mostram os comandantes da força demonstram essa constante atenção, e já no final dos anos 1840, um programa de substituição de meios navais começou a introduzir o vapor na esquadra. Buenos Aires não dispunha de uma força naval com o nível de organização e estrutura da Marinha Imperial do Brasil, de modo que o domínio das águas do Prata era mantido sem maiores dificuldades. Em 1858, segundo os estudos do especialista almirante Max Justo Guedes, da Marinha Brasileira, estavam na região a fragata a vapor Amazonas, oito corvetas a vapor, vinte canhoneiras e oito transportes de tropas. O mesmo especialista afirma que, em 1860, às vésperas do início da Guerra do Paraguai, os principais navios da Marinha, embora novos (alguns com menos de dez anos de incorporados) já estavam em estado de obsolescência, devido aos progressos que as tecnologias metalúrgica, mecânica e química, acelerados pela Segunda Revolução Industrial, tinham introduzido nas maiores marinhas.

O problema é que, até então, as ações navais conduzidas no estuário do Prata eram ações de águas abertas, ou seja, os navios disponíveis atuavam no mar. O vapor dava-lhes enorme vantagem sobre os navios à vela, pois a propulsão à máquina tornara a manobra independente do vento. A busca da vantagem tática (a melhor posição para o tiro) passara a depender apenas da habilidade do comandante e do grau de adestramento da tripulação.

A entrada do Paraguai como ator na região, em busca de uma posição determinante viria a mudar a situação estratégica. Francisco Solano López que, em 1862 tinha herdado o governo paraguaio do pai, o moderado Carlos Antônio López, via na presença brasileira no Uruguai uma ameaça aos interesses paraguaios.

Que interesses eram esses? O Paraguai tinha se tornado independente em 1811, depois de recusar a integração com as Províncias Unidas. A partir de 1814, o governo de José Gaspar Rodriguez de Francia, que governou até 1840, manteve as fronteiras fechadas e o país afastado das querelas regionais. O ditador, bastante popular no país, entendia que a independência paraguaia só seria mantida caso o país se mantivesse estritamente neutro em assuntos de política externa. Embora considerasse a Argentina a maior ameaça à república, não procurou fazer movimentos em direção ao Brasil, depois de 1822. As relações com os dois países eram quase estritamente econômicas, e através delas, o Paraguai obtinha uma lista de bens considerados indispensáveis – principalmente armamento, obtido através do acesso às rotas marítimas oceânicas, que passavam pelo estuário do Prata e por Montevidéu. A política isolacionista revelou uma vantagem adicional – lançou as bases de uma pequena indústria local, que abastecia as necessidades do país, em termos de produtos básicos, como têxteis, peças de metal, carpintaria, pólvora e munições. Francia morreu em setembro de 1840, sem deixar sucessor indicado. Após um semestre de confusão política, o advogado Carlos Antonio López, um riquíssimo criador de gado e plantador de erva-mate, que, é claro, uma vez no governo, enriqueceu ainda mais. Ainda assim, mostrou-se administrador tão ou mais hábil  que Francia. Intensificou as relações comerciais com a Europa e, para tal, implementou a rede de estradas do país e implantou um sistema de comunicações telegráficas e uma estrada de ferro.  Incentivou também a produção de alimentos e as atividades manufatureiras, dentro das possibilidades de um país em que 80 por cento da população era constituído por analfabetos de origem indígena. Talvez por isso mesmo “El Excelentissimo” (como ele gostava de ser chamado) investiu fortemente na educação da população, construindo escolas e “importando” professores da Argentina e até da Espanha.

López implementou as atividades econômicas, importou médicos, engenheiros e técnicos da Europa e dos EUA, e, na direção contrária, enviou estudantes para aprender profissões técnicas, principalmente na Alemanha e nos EUA.

A política externa de López também foi marcada por mudanças notáveis de direção. “El Excelentissimo” começou a deixar a posição de neutralidade estabelecida por Francia e, com o incentivo brasileiro, passou a interferir na política argentina, chegando a declarar guerra contra o ditador argentino Rosas, em 1845. Esse ensaio de política externa agressiva acabou resultando num bloqueio naval que quase interrompeu as comunicações paraguaias com a Europa, onde se encontrava Francisco, o filho de López, brigadeiro-general encarregado de comprar armamentos para o Paraguai. Depois que Rosas deixou o governo, em função da derrota para uma coalizão de brasileiros e uruguaios, López começou a fomentar políticas de enfrentamento com seus vizinhos. Até então, a independência paraguaia servia às potências regionais como uma espécie de cunha que  uma imaginava meter nos interesses da outra, já que o país tinha disputas tanto com a Argentina como com o Brasil. O Paraguai funcionava como um tampão entre as desconfianças mútuas de pretensão expansionista, uma espécie de sub-imperialismo regional.

“El Excelentissimo” morreu em 1862, e Francisco assumiu o poder no Paraguai. López pai tinha, ao longo de 20 anos, se equilibrado entre dois perigosos inimigos, Brasil e Argentina; o filho logo deixou a prudência política para trás, revelando planos para transformar o Paraguai numa potência militar.

O fato é López largamente subestimou seus inimigos e superestimou a capacidade de seu próprio país, mediterrâneo, subdesenvolvido e com uma população de uns 450000 habitantes, relativamente pequena (o Império tinha, na época, em torno de 8 milhões de habitantes – incluídos os 3 milhões de escravos –, e a Argentina, algo em torno de 3 milhões). O maior erro de avaliação de López, entretanto, foi ter esperado que os dois adversários não conseguissem superar as diferenças que os separavam. Talvez o Paraguai tivesse tido uma chance caso as desavenças que mantinham Brasil e Argentina em perene estado de guerra, na bacia do Prata, tivessem continuado assim. Mas ambos rapidamente identificaram onde estava o perigo maior::

Tecnologia naval::Elektroboot e seus sucessores::Parte4

 Podemos todos detestar os nazistas – mesmo quem tem pedra na cabeça, no lugar de cérebro, detesta. Mas com a engenharia alemã é outra coisa – todos temos certa tendência em apreciar as armas alemãs da 2a GM (as atuais também são bem interessantes…). Em muitos casos, é exagero, mas em outros, os produtos da inventividade e da organização científica alemãs ainda marcam nossa época. E não é só o redator fanático por tecnologia militar que acha… Não estamos falando do Elektroboot? Pois então leiam a parte 4, em seguida::
 
 
 
 

USSPICKEREL

O SS 524 "Pickerel" em treinamento de emersão de emergência, 1952. É notável a semelhança do casco com o desenho dos "Tipo XXI".

 

parte4Nos anos que se seguiram à guerra, o desenho de submarinos foi totalmente revolucionado pelo contacto das principais marinhas aliadas com o Tipo XXI. Das 113 unidades que estavam prontas para incorporação em maio de 1945, e que não foram afundadas pelas tripulações, duas foram transferidas para os EUA, quatro para a URSS (embora existam suspeitas de que o número tenha sido maior), uma para a Inglaterra e uma para a França.

Os exemplares incorporados pela Marinha dos EUA foram exaustivamente examinados e testados entre 1946 e 1949. Os destroços de um desses submarinos foram encontrados recentemente, ao largo da Flórida, onde foi afundado pelos norte-americanos, após o fim do programa, num teste de armas anti-submarino.

O exame das duas unidades levou à conclusão de que toda a frota de submarinos da Marinha dos EUA estava ultrapassada (o *USS Wahoo, comissionado em julho de 1943, típico “submarino de esquadra” norte-americano). Um programa de construção foi proposto, mas como existiam quase duas centenas de unidades construídas nos três anos anteriores, as autoridades navais optaram por modernizar as que estivessem em melhor estado. O primeiro programa foi a instalação de um equipamento equivalente ao esnorquel alemão, para testes, no USS Irex (classe Tench, construído em 1944), em 1947.     

O programa Greater Underwater Propulsion Power (GUPPY – o “y” não quer dizer nada, mas fazia o acrônimo combinar com o nome de um peixinho decorativo muito popular nos EUA…) era muito mais amplo. Foi estabelecido como alternativa de menor custo para modernizar parte dos barcos da força norte-americana de submarinos, os mais modernos, das classes Gato, Balao e Tench. O programa GUPPY acabou resultando em diversas fases. O GUPPY I dotou os barcos selecionados com esnorquel; eliminou a maioria das partes desnecessárias das “obras mortas” (passadiços e instrumentos na  torre, canhões, mastros e outros elementos da coberta); melhorou o desenho das “obras vivas”, de modo a dar maior uniformidade ao casco externo, tornando-o tão hidrodinâmico quanto possível (o *USS Odax, lançado em abril de 1945, cuja conversão completou-se em 1947, depois transferida para a Marinha Brasileira. Observe-se a vela tipo “Eletric Boat”, depois substituídas pelo tipo “Portsmouth” em todas as unidades). Também foram feitas melhorias na motorização, acrescentadas novas baterias e novos equipamentos eletrônicos.

A instalação de novas baterias esteve entre as principais modificações. Quatro unidades acumuladoras (baterias), compostas por 504 células, cada uma delas capaz de sustentar proximadamente 25 por cento a mais de carga que os tipos anteriores, melhoraram significativamente o desempenho subaquático do navio. Entretanto, essas novas baterias tinham um sério problema de durabilidade, além de provocarem problemas ambientais. Apesar dessa desvantagem, o ganho geral mostrou-se compensador: os barcos remodelados chegavam a alcançar 17-18 nós (30-33 km/h) submersos. Um total de 50 unidades foram convertidas.

A segunda parte do programa deu origem à classe Guppy II. Essa era basicamente igual à classe Guppy I, exceto em alguns detalhes da vela, que foi redesenhada para acomodar novos mastros de combate que alojavam os sistemas de admissão de ar e exaustão de gases do esnorquel e as antenas dos equipamentos eletrônicos. Os barcos da série Guppy II tiveram melhorias na motorização, que possibilitavam melhor desempenho, e novos equipamentos eletrônicos, inclusive unidades de radar de última geração. Um total de 24 unidades foi convertido.

Um problema com o programa GUPPY II era o preço – os submarinos veteranos da 2a GM tinham de ser praticamente reconstruídos. O programa GUPPY IA, lançado em 1951, foi uma tentativa de baixar o custo da conversão. O programa GUPPY IIA, lançado em 1954, redesenhou certas partes do casco externo, de modo a melhorar o desempenho subaquático. A essa altura, os engenheiros da Marinha e da indústria tinham descoberto que não adiantava melhorar a motorização se a parte hidrodinâmica também não fosse muito melhorada. Essa derivação do programa instalou uma vela totalmente redesenhada, uma nova proa, e motores iguais aos dos GUPPY II. Mudanças na arquitetura interna permitiram a instalação de novos equipamentos eletrônicos, unidades de refrigeração e condicionadores de ar. A aparência externa da série IIA era, à primeira vista, semelhante à II.

Em meados dos anos 1950, alguns barcos da classe GUPPY IA foram convertidos para a série GUPPY IB, destinados à transferência para marinhas aliadas. Os equipamentos eletrônicos de última geração foram substituídos por “modelos de exportação” muito simplificados, mas, de resto, eram iguais aos IA. Por sinal, esse era um problema que começava a ser observado pelos projetistas: a grande quantidade de equipamento eletrônico que, pelos meados dos anos 1950 começou a ser incorporada aos navios de guerra, em geral, e aos submarinos, em particular. No caso dos submarinos, a questão era particularmente séria, porque os controles de direção, equipamentos de sonar e de direção de tiro computadorizado tomavam muito espaço e consumiam energia extra. Entre 1959 e 1963, até mesmo unidades já convertidas para o padrão GUPPY II tiveram de voltar para a doca seca, para serem cortados e aumentados em uns 4 metros na área da sala de controle. Nesse novo espaço, foram instalados os novo equipamentos de sonar e de direção de tiro. Essas novas unidades tornaram-se a série GUPPY III.

Até o programa GUPPY II e suas variantes, um dos problemas não resolvidos eram as baterias, que não apenas atravancavam o espaço interno como criavam desconforto  ambiental. Em 1959, o programa GUPPY III buscava, dentre outros aperfeiçoamentos, resolver esse problema. Os engenheiros navais optaram por alongar uma das unidades assim como retirar um dos motores diesel, situado à vante da belonave e considerado desnecessário. Desse modo foram criados novos espaços internos, o que possibilitou alterações que, provinham maior área para equipamentos eletrônicos e para a tripulação. Todos as unidades do padrão II foram convertidos para o padrão III.

Os GUPPY III ficaram em atividade até o final dos anos 1970. É interessante observar que, após o programa GUPPY, foram construídos nos EUA os SSK (submarinos convencionais, no jargão da Marinha norte-americana) da classe *Tang, da qual seis unidades, que incorporavam os desenvolvimentos do programa GUPPY, tiveram suas quilhas batidas entre 1946 e 1948, e foram lançadas no início dos anos 1950. Foram os últimos submarinos convencionais que saíram de um estaleiro norte-americano. Desde 1963, quando o programa de conversão completou-se, os EUA desistiram de, de SSK), optando por uma força totalmente composta por submarinos nucleares::

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::Parte3

E eis que já era tempo! Finalmente chegam aos sete leitores (contadinhos…) de causa:: as partes finais da série sobre as origens dos modernos submarinos. Com esta série, o redator pretende fornecer elementos para aumentar a cultura submarinística dos sete leitores, de forma que qualquer um deles possa dar esclarecimentos aos redatores da imprensa escrita, falada e televisada. E se (como é muito provável) o assunto acabar esquecido, diante dos melhores temas para se falar mal do governo, pelo menos servirá para umas duas ou três horas de diversão… Divirtam-se, pois!::

parte3O submarino Tipo XXI, denominado, por seus projetistas, de Elektroboot (“barco elétrico”) é o avô de todos os submarinos atuais. Boa parte dos conceitos usados por todas as nações atualmente fabricantes de submarinos surgiram desse projeto, elaborado a partir da primavera de 1943. Em princípio, o conjunto de ações tinha um objetivo muito simples: devolver à Alemanha a superioridade que sua arma submarina tinha conquistado de 1940 até o início de 1942, e havia perdido fragorosamente.

O Tipo XXI é descendente de um projeto que tinha se arrastado durante anos, com resultados irregulares: o submarino Tipo XVIII. Tratava-se de uma unidade que estava sendo projetada em torno de uma turbina em desenvolvimento pela companhia do engenheiro Helmuth Walter (a mesma que projetou os motor-foguete do caça Me163 Komet). Esse novo tipo de submarino, quando em combate, seria movido por uma turbina de alto desempenho, acionada a peróxido de hidrogênio (que os alemães chamavam de Perhydrol), que lhe possibilitaria alcançar altas velocidades subaquáticas. Como a turbina não alcançou os resultados esperados, a equipe de Walter imaginou a possibilidade de obter oxigênio para mover seus motores diesel a partir da decomposição do Perhydrol, de forma a carregar baterias dos motores elétricos sob a água. A lentidão do desenvolvimento e os problemas observados no projeto, diante das perdas sofridas pelos submarinos entre o final de 1942 e o início de 1943 apontaram a necessidade de outra abordagem (uma explicação sobre os princípios desse projeto aqui).

Para que o desempenho subaquático esperado para o “Tipo XVIII” fosse realmente alcançado, um novo desenho de casco, baseado em nova filosofia foi imaginado: torná-lo altamente hidrodinâmico, planejado para permanecer submerso durante muito tempo sem chegar a ter a manobrabilidade comprometida pelas características híbridas dos “torpedeiros submarinos”.  

Dois engenheiros, Schürer e Bröking, tiveram a idéia de aproveitar os enormes tanques nos quais ficaria, no modelo proposto, o Perhydrol, para alojar baterias. O caso é que, no desenho proposto para o modelo Walter, um outro casco de pressão tinha sido acrescentado ao convencional, de modo a proporcionar armazenagem segura para o combustível altamente instável. O resultado era um casco de cujas seções lembravam um “oito”, feito em chapas de aproximadamente 3 centímetros de espessura, em liga de aço-alumínio, e que podia suportar mergulhos de até 280 metros. A parte inferior do “oito” constituiu uma enorme sala de baterias. Com as células extras acrescentadas, o desempenho do submarino crescia de forma exponencial.

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Seção de um "Tipo XXI" sendo transportada para a montagem. É notável a forma de "oito" do casco de pressão. Também é notável a solução hidrodinâmica do casco externo.

O desenho do novo vaso de guerra completou-se em junho de 1943. Os engenheiros acreditavam que poderia estar pronto para o serviço ativo por volta do inverno de 1944.

Era um desenho concebido para ser um “submarino verdadeiro” (aqui, uma impressionante animação digital pelo artista Jessi Hardin, caso você tenha o Adobe Flashplayer instalado), cujo campo de manobra seria as profundezas do Atlântico. Os conceitos incorporados eram não-convencionais, a começar pelo desempenho, muito além de qualquer coisa disponível, fosse pela Alemanha, fosse por seus inimigos: acreditava-se que a velocidade submersa poderia chegar a 18 nós (33,3 km/h), sob a água, maior do que na superfície, de 12 nós (22,2 km/h). Equipamentos de condicionamento e purificação de ar, chuveiros de água doce e lâmpadas de luz ultra-violeta, incorporados ao projeto, mostravam que o tipo tinha sido pensado para permanecer muito mais tempo submerso do que qualquer outro modelo existente: em certas condições o Tipo XXI podia permanecer até 11 dias sob a água, depois desses emergindo apenas por períodos muito curtos, de até cinco horas, ou usando o tubo esnorquel por tempo equivalente, para recarregar baterias.

Era no desenho do casco, totalmente limpo, sem quaisquer apêndices que não fossem absolutamente necessários, que as características de “submarino” apareciam claramente. Até mesmo os hidroplanos de proa podia ser recolhidos quando não estivesse em uso; não haviam canhões nos conveses e as baterias AAe de 20 mm eram montadas em torres de controle remoto incorporadas à vela. Equipamentos que tinham de se estender para operar (esnorquel, antenas e periscópios) se recolhiam para dentro da vela. Até mesmo esta parte teve seu desenho modificado: ao invés do posto de vigia tradicional, situado no alto daquela estrutura, uma espécie de convés aberto para o exterior, três pequenas aberturas eram fechadas por escotilhas, abrindo-se apenas quando necessário. Essas características “limpas” do desenho também resultavam numa assinatura de sonar mais discreta, e em um desempenho hidrodinâmico silencioso, o que tornava o Tipo XXI muito mais difícil de detectar do que os outros submarinos até então disponíveis.

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O U2540, atualmente em exposição no Museu Marítimo de Bremerhaven. As linhas limpas do casco interno anunciam a nova tendência para o desenho de submarinos.

O Tipo XXI incorporava equipamentos eletrônicos inovadores, inclusive um sonar ativo/passivo capaz de identificar e seguir diversos alvos. Montado na roda-de-proa, esse novo tipo de sonar permitia o lançamento de torpedos sem ter contato visual com o alvo, a partir de uma profundidade de até cinqüenta metros. Essa era outra característica que tornava essa classe de submarinos diversa de todas as outras existentes até então. Novos sistemas constituídos por carregadores automatizados de torpedos tornavam possível o lançamento de seis salvas (até seis torpedos em cada salva) em cerca de vinte minutos. Nos modelos anteriores, recarregar um único tubo podia tomar dez minutos, o que tornava o Tipo XXI muito mais ágil do que seus antecessores, tanto para atacar quanto para desengajar-se do combate. O desenho interno aumentou a capacidade de alojar torpedos de 14, no Tipo VIIC, para 23 unidades.

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Concepção artística de um submarino Tipo XXI submerso. Observe-se a protuberância na roda-de-proa, onde está instalado o moderníssimo sonar ativo-passivo Nibelungen. O trabalho é do artista digital Jessi Hardin.

A situação desesperada da arma submarina, em 1943, tornou o projeto a mais alta prioridade para a Marinha de Guerra, mas os outros tipos disponíveis continuaram sendo produzidos, notadamente os tipos VIIC e IXC, visto que não havia nada para substituí-los. Para acelerar os prazos de entrega, a técnica de construção do novo submarino foi modificada com base nos métodos usados na indústria de automóveis e de aeronaves. Oito seções modulares eram fabricadas em diferentes plantas industriais e, depois de transportadas por hidrovia, eram montadas num estaleiro. Esperavam os engenheiros que, com essa providência, poderiam explorar melhor as capacidades de cada unidade industrial, com a vantagem adicional de tornar mais difícil para os bombardeios aliados influir na produção. As dificuldades de alocação de material e mão-de-obra, combinadas com prazos irrealísticos e providências adicionais temerárias (como a eliminação de testes estáticos e da construção de protótipos) criaram diversos problemas, que se somaram aqueles que derivavam da originalidade do projeto. O novo método de construção não ajudou: fabricadas de maneira apressada, as seções modulares, depois de prontas, não atendiam aos padrões estabelecidos para o projeto. Em alguns casos, nem sequer chegavam a se adaptar direito umas às outras. Essa situação, combinada com a confusão estabelecida pelos bombardeios aliados – que, nessa época, tinham se tornando um problema real – acabou por criar gargalos industriais e logísticos de superação complicada, e atrasar todo o processo. O lançamento da primeira unidade deveria acontecer em maio de 1944, como comemoração da Marinha pelo aniversário de Hitler. Aconteceu, mas foi, no mínimo, um fiasco: o submarino foi mantido flutuando por bóias e rapidamente recolocado em doca seca, para ajustes e reparos. As unidades seguintes apresentaram problemas sérios na soldagem do casco de pressão e dos tanques de lastro, e tiveram de ser praticamente reconstruídas. Na prática, a pressa em completar o projeto fez o ano de 1944 ser perdido e as primeiras unidades aprovadas para serviço ativo foram entregues à Marinha em abril de 1945. Além do mais, os massivos bombardeios aliados freqüentemente danificavam as plantas industriais e os estaleiros, e chegaram até mesmo a destruir unidades prontas. Problemas adicionais foram provocados, curiosamente, pelo sucesso obtido nos testes de mar: a velocidade subaquática e a capacidade de lançar torpedos de grande profundidade exigiram o aperfeiçoamento de novas táticas; as diversas inovações da máquina exigiram outros métodos de treinamento, não apenas para as tripulações como para o pessoal de apoio em terra.

Os alemães esperavam que a produção inicial colocasse 300 unidades no mar, por volta de meados de 1944, alcançando 1000 unidades pelo início do ano seguinte. Dos 120 Tipo XXI que estavam em diferentes estágios de construção, no final do mês de abril de 1945, somente dois chegaram a ser mandados para o mar, em patrulha. Ainda que não tivessem entrado em combate, com o fim da guerra os relatórios apresentados pelos comandantes mostraram claramente as qualidades do projeto. Um desses barcos, o U2511 chegou a 600 metros de um cruzador britânico sem ser notado, armou os torpedos, mas no último momento, fez meia volta e regressou à base. Tinha recebido ordens do BdU (Befehlshaber der U-boote – “Comando dos Submarinos”), para suspender as operações. Essa última ação mostrou que, aquela altura, eles certamente não venceriam a guerra, mas seriam uma grande dor-de-cabeça para os aliados::