Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: considerações::

O excelente blogue do excelente Catatau é passagem obrigatória deste redator::. Os postos que aparecem lá são, geralmente, estimulantes. Mas este aqui é duas vezes estimulante: além de um ensaio de avaliação do fenômeno midiático da hora, o Wikileaks, traz um interessante conceito: “economia de verdade”. Uma primeira leitura engana: o posto parece um tanto superficial e até algo pueril (sem ofensa – as opiniões colocadas aqui no causa:: com frequência também devem despertar sentimentos assim, nos leitores…). Entretanto, uma segunda leitura – e, diria, uma terceira… – é necessária para aclarar o conteúdo – principalmente quando já se passou pelo outro posto, que está logo em seguida e complementa o anterior. Catatau parece ter por objetivo levantar questão interessantíssima – a forma como a imprensa lida com tema, na opinião deste redator::, quentíssimo, e espinhosíssimo: a liberdade de expressão, e sua relativização por um lado, pela autoridade de Estado e, por outro, pela grande imprensa.

Comecemos pelo conceito de “economia de verdade” (eu mudaria para “da verdade”). Parece ser necessário, para a discussão que causa:: quer introduzir o que se pode entender, fora do senso comum, por “economia” e por “verdade”. A definição de “economia” (para um não-economista), diz respeito a “guardar” – por exemplo, para ficar perto do tema deste blogue, “economizar munição”. Para os especialistas, por outro lado, trata-se do “estudo do homem na atividade ordinária da vida; exame do componente da ação individual e social mais estreitamente ligado à obtenção e utilização dos requisitos materiais necessários ao bem estar” (definição do Dicionário das Ciências Sociais, publicado pela Fundação Getúlio Vargas). O mesmo verbete ensina que, num sentido originário, “economia” diz respeito à administração doméstica (a raiz do termo vem do grego oikós, “um estabelecimento doméstico”, “moradia”). De fato, esse teor de “administração”, “organização”, ainda está presente na definição: a econômia, hoje em dia, é entendida por muitos especialistas como “relação entre demandas amplas e restritas e meios escassos” . O uso da expressão, por outro lado, se disseminou: fala-se em “economia do inconsciente“; em “economia da teoria semiótica” (quem quiser saber o que diabo vem a ser isso, pode arriscar-se aqui), “economia do erotismo”, e por aí vai. O redator:: não muito versado em filosofia imagina que todas essas variações se remetam as formas como determinados recursos são mobilizados e administrados num determinado contexto (energia pulsional, no caso do inconsciente; signos, no caso da semiótica; no caso do erotismo, bem… Sabe-se lá…). Então, a “economia de verdade”… Aqui, o problema é a difícil definição de “verdade”. As ditas definições são, elas mesmas, complicadas, mas uma parece caber no texto do Catatau: “Referente ao que realmente existe, ou que realmente aconteceu” – o que “realmente existe” é, pois, verdade (consta do verbete “Verdadeiro”, do Vocabulário técnico e crítico da Filosofia, obra de referência publicada pela Editora Martins Fontes).

Os documentos que têm sido publicados no site Wikileaks exprimiriam, então, a verdade – expressam o que realmente acontedeu. A difusão desse material está, pois, relacionada à exposição do que “é verdade”, por ter “realmente acontecido”, independente de “não deveria ter acontecido”. O juízo sobre tais “acontecimentos reais” diz respeito à questões morais. Assim, a “economia de verdade” apontada pelo Catatau falaria da “administração do que realmente aconteceu” – por todos os lados, governo norte-americano, Wikileaks e imprensa formal.  

Neste ponto, poderíamos perfeitamente apelar para outra definição: “Nenhum fato poderia ser verdadeiro ou existente, nenhuma enunciação, verdadeira, sem que existisse uma razão suficiente para que fosse assim e não de outro modo…”. Essa postulação foi elaborada no século 17 pelo filósofo e matemático Leibnitz, e é apontada pelo “Vocabulário” como “antiquada”. Pois no caso da “economia de verdade”, é atualíssima. A ocultação de documentos ou sua revelação – e, portanto, da informação e, daí, dos fatos expressos por ela – acontece porque existe uma razão suficiente para que seja assim, e não de outro modo. Ocultação e revelação são, desse ponto de vista, ainda que moralmente  justificáveis ou injustificáveis, necessárias.

Razão suficiente para que seja assim… O governo dos EUA, ao vedar o acesso aos documentos alega estar agindo em benefício da sociedade e de seus interesses – a começar pelos soldados em campanha. Afirma que a difusão do material é uma ameaça e, ao lutar contra ela, está cuidando do interesse da sociedade, ameaçado, inclusive fisicamente, pelo teor da informação. A lógica das autoridades é que a liberdade de expressão está, nesse caso, limitada por um bem maior. A exceção desta última postulação, os meios de comunicação (não parece haver diferença entre Wikileaks e imprensa formal) dizem exatamente o mesmo. Entretanto, Catatau chama a atenção para a mudança de foco acontecida no momento em que o volumoso material chegou aos jornais: o conteúdo, “a verdade”, parece passar para segundo plano. O processo do qual Julian Assange e seus colaboradores são centro (bem como os próprios) parece tornar-se o sujeito do interesse dos jornais. O motivo é fácil de entender: é o quê de teoria conspiratória que cercou o surgimento do material no Wikileaks, o quê de sensacionalismo que vaza deles. E a existência de um herói solitário lutando contra o sistema, contra o governo em que ninguém confia totalmente. O conteúdo? Muito possivelmente, os jornalistas que escreveram as matérias citadas por Catatau sequer se deram ao trabalho de olhar o conteúdo.   

causa:: foi lá olhar. A surpresa inicial do redator:: não foi propriamente a divulgação dos documentos – isso sempre aconteceu nos EUA. A surpresa maior foi em torno da quantidade de documentos – mais de 75.000 (a maioria das fontes indica 92.000 – seria interessante saber de onde Catatau tirou esse número). É – noventa e dois mil! Uma biblioteca com mais de 400 livros de 200 páginas (calculando q cada documento tenha uma página, o que é a média dos relatórios de operação de uma fração de tropa). A análise desse tipo de documento é uma das tarefas mais cansativas que se pode conceber. Já o filme referido pelo Catatau é um filme, algo mais palatável para nossas mentes moldadas pela era da informação. Estamos acostumados com imagens – já com textos é outra coisa.

TF Bayonet relatou um acidente com veículo três quilômetros ao Norte de Camp Wolverine. Em 0335Z, dado elemento relatou a capotagem de veículo (M1114) que feriu um soldado americano. A capotagem foi causada pelo estado da rodovia. Um total de cinco pessoas estava no veículo. Como resultado do acidente, TF Bayonet requisitou MEDEVAC para um US-MIL.  PT foi listado como prioridade.  O PZ é FOB Lagmans HLZ e não será marcado.  Não há presença de inimigos e o PT será repassado ao KAF.  CJTF76 aprovou MEDEVAC 10-07C at 0719Z. W/D 1110Z

A tradução é do redator::, que não tem como esclarecer o significado das abreviaturas, mas é possível notar que se trata de um acidente com uma viatura militar. “TF Bayonet” diz respeito, provavelmente, ao código de uma base ou de um operativo, utilizado para radiocomunicações. Dentro da “economia de verdade”, esse evento não interessaria a ninguém, apenas aos militares que administram o cotidiano das tropas em campanha por lá. Nota-se que o próprio Luís Nassif, um jornalista de cuja seriedade ninguém duvida, parece não saber do que fala. É dele a afirmativa (ou pelo menos a veiculou): Estes documentos não descrevem a realidade no terreno, mas constituem um testemunho do grau de auto-envenenamento das forças americanas. Os relatos de inteligência afegãos, nas quais se baseam as operações das tropas da aliança no Afeganistão apenas relatam fofocas tão estúpidas, que não se pode deixar de perguntar como é possível que esses informantes tenham sido recrutados. Ele parece esperar que incidentes de campanha ou informações de combate sejam vazadas em tom de roteiro de cinema. Não é o que acontece: qualquer um que conheça arquivos militares sabe que a linguagem é exatamente essa.

Mas porque eventos bestas como esse têm de ser escondidos? Simples: porque quando avaliados em conjunto com muitos outros, fornecem informações sobre localização e procedimentos dos militares. Um analista bem treinado consegue retirar de uma série desses textos informações que estão totalmente opacas ao leigo. Provavelmente, dentro de duas décadas – caso a guerra no Afeganistão termine logo – essa categoria de documentos será aberta sem restrições. Os historiadores de operações militares trabalham principalmente com eles.

Mas não só em torno de acidentes de carro gira o cotidiano de um exército em guerra. Existem também os aliados (no caso do Afeganistão, é bem verdade, não devem ser muitos, mas eles existem…). Por exemplo, na categoria emboscadas:

Em 0200Z, o chefe de polícia de WAZA KHWA e 20 policiais foram emboscados IVO 42S VB 298 853 (GAZNI), quando voltavam de verificação (VIC. 42S VB 306 117) a 6 caminhões carregados com CERP que o governador tinha doado a eles. O engajamento durou 30 minutos . O chefe de polícia supõe que a força inimiga fosse de umas 20 pessoas em motocicletas. Houveram dois mortos e um ferido entre as forças amigas. Houve um possível ferido entre o inimigo, e uma uma motocicleta foi capturada. As forças dos EUA ouviram essa comunicação monitorando o rádio, mas estavam muito longe para reagir por terra.

Querem saber? Essa o redator:: gostaria de ter assistido – vinte caras em motocicletas?.. Parece coisa de filme, mas nota-se que também é comunicação de rotina entre as tropas dos EUA, sem nada de tão escuso.

Missões de campo, conduzidas por patrulhas preparadas para contato direto (ou seja, para cair no fogo) podem ser mais interessantes

USSF [Forças especiais dos EUA] encontram um depósito na vila de WALU TANGAY: USSF conduzem um encontro e saudação na vila de WALU TANGAY.  Membros das USSF se aproximaram de um garoto local que falou de um depósito numa caverna, numa colina próxima.  Membros das USSF investigaram e encontraram um depósito consistindo de treze granadas de morteiro 82MM, sessenta foguetes RPG, quinze caixas de munição 12.7X108MM (85 cargas por caixa), cinco caixas de correias para munição 12.7X108MM e um cano de DSHK localizados numa caverna 350107.26N 0705513.00E. USSF confiscaram a munição. O resto foi explodido numa praça.

O interessante desse relatório é a pequena quantidade de munição (daria, com boa vontade, para meia hora de tiroteio) e a origem – provavelmente soviética (os calibres todos são de armamento de infantaria ainda hoje usados pelos russos), dos enormes arsenais deixados para trás quando da retirada, quase vinte anos atrás.  Mas essas  informações não indicam nada de ilegal – a guerra em si e a intrusão de uma patrulha de combate no cotidiano de uma vila no meio de lugar nenhum podem até ser. Os procedimentos reportados, não. Ainda assim, um especialista pode, por exemplo, analisar um conjunto dessas notas e descobrir regularidades de espaçamento entre as patrulhas, o que permitiria armar emboscadas.

Claro que deve existir relatórios escabrosos, no meio desses chatos. Mais de mil entradas dizem respeito a prisões de civis, muitos deles por promoverem reuniões nas quais o maior crime deve ter sido falar mal do governo. A sugestão do redator:: é que quem quiser conferir, dê uma passeada na página disponibilizada por Wikileaks, nas abas browse by. Será preciso muita paciência para descobrir algo que valha à pena, um incidente que o governo norte-americano esteja se esmerando em ocultar. Uma sugestão? O interessado deve ir direto à aba air mission – é onde geralmente se aplica uma quantidade totalmente desnecessária de poder destrutivo, como foi no caso do tal filme iraquiano.

Portanto, é muito improvável que os 92.000 documentos venham a fazer sucesso, a não ser entre especialistas. Para estes, o conjunto pode constituir verdadeira mina de ouro. Para a imprensa, é de duvidar: a análise é árdua, tediosa e, pior, pode induzir ao erro. Isso porque muitos dos “incidentes” relatados podem constituir apenas e não mais que eventos de combate. Numa guerra onde o outro lado não usa uniforme e desaparece no terreno com a maior facilidade, como distinguir combatentes de não-combatentes? O incidente do helicóptero constituiu exatamente isso: o operador de uma plataforma extremamente letal (um helicóptero de ataque AH-64) viu um grupo de civis se reunindo: um dele “parecia” portar uma arma. “Por via das dúvidas, neutralize a ameaça”, disse o operador no centro de informações de combate ao qual a unidade se reportava (era isso que estava no áudio do filme). E tome  outro erro, como já foram reportados dezenas, no Afeganistão (por exemplo, o ataque a uma perigosa festa de casamento pela aviação dos EUA).

Essa idéia de “economia de verdade”, então, nos permite entender algumas das questões contidas nos postos do Catatau. Existe uma razão objetiva para a não divulgação dos relatórios, para além do fato de que podem ocultar incidentes não justificáveis. Por outro lado, a massa de informação, por si só, não é ilegal nem imoral – e aí reside o “xis” da questão: bastaria aos jornalões consultar um especialista para saber exatamente o que tinham em mãos. E eles certamente o fizeram, porque não são idiotas. Esse esclarecimento aos leitores foi negado, e o foco então deslocou-se para o herói solitário – economia de verdade.

Mas o administrador do Weakleaks estaria exercendo seu direito sagrado de divulgar informação. Só que todo mundo – inclusive a parte dele (e não é pequena, sejamos justos) que quer matar americanos – terá acesso ao material. É perfeitamente possível que o horário de vôo de um helicóptero de transporte possa ser levantado através da análise do material, ou a rotina de reunião de uma patrulha de campo. Nesse caso, não terá sido exagero das autoridades dos EUA dizer que vidas foram postas em risco.

“Economia” quer dizer “viver debaixo de regras”. Se existe mesmo (e o redator:: pode estar apenas delirando…) uma “economia de verdade”, então essa implica em  regras, e parece que essa discussão subjaz a procedimentos como o do Weakleaks. Se a ocupação do Afeganistão é ou não é aceitável, é fato a determinar em outros fóruns; se os atos do governo dos EUA são ou não legítimos, idem. Mas o fato é que houve um ato de guerra contra os EUA em 2001 e o Afeganistão era a base da organização agressora.  “Economia de verdade” – por vezes, ela também atinge nossas convicções…::

Uma lambança às quartas::Uma flotilha de problemas::

Oficialmente, causa:: ainda não encerrou o mês de comemorações do final da 2ª GM. Os maiores especialistas no tema dizem que a configuração do mundo atual é produto, dentre outros motivos, do resultado da 2ª GM. Se é verdade, eis mais um motivo para amaldiçoarmos, em alto e bom som, o fascismo. Se Hitler tivesse feito sucesso como arquiteto ou pintor, é possível que hoje não estivéssemos tendo de aturar os frequentes insultos dos governantes do estado de Israel contra nossa inteligência. Os mais recentes dizem respeito à lambança praticada por seus estrategistas em águas internacionais, tendo como móvel meia-dúzia de navios mercantes carregados de carga não-bélica e boas intenções. E o redator:: não estaria tendo de rever um de seus mais preciosos conceitos: a competência das IDF (sigla de Forças de Defesa de Israel, em inglês). Mas como causa:: é, sobretudo, um blogue carregado de wishful thinking, tentemos fazer desse limão, uma limonada: estamos lançando uma nova coluna (que provavelmente se juntará à todas as outras que não deram certo…): Uma lambança às quartas:: (que, como é de praxe, pode sair – se sair – quinta, sexta… Sábado…). Claro que assunto não faltará: da Baía de Baffin ao Estreito de Magalhães, das ilhas Sacalinas à Baía de Guantánamo, lambança é o que as potências, reais ou pretensas, mais aprontam… 

Em diversas oportunidades, este blogue/recurso de pesquisa já explicitou que não tem posição política. Nos damos bem com blogues de todo o espectro político, desde a direita hidrófoba (que, claro, nunca se admite como tal) até a esquerda mais delirante (que claro, faz questão de se admitir como tal). Assim, causa:: se limita aos assuntos técnicos em torno dos grandes temas de interesse de estrategistas amadores, pesquisadores de história militar amadores, bem como outros amadores das mais diversas categorias que passam por aqui. Já apareceram nessas páginas virtuais muitos textos que abordam questões ligadas ao Oriente Médio e, por certo, Israel aparece em alguns. Nenhum, entretanto, tem por objetivo tomar posição, contra ou a favor. Entretanto, como observador (amador, claro) de política e relações internacionais, o redator:: não consegue deixar de se perguntar: onde estavam com a cabeça os governantes de Israel ao permitir que suas forças “de defesa” cometessem tal desastre? 

É certo que a Marinha de Israel (alguns dados gerais sobre a força, aqui) sempre foi, dentre os três ramos das IDF, o mais fraco. Sua história se inicia na época em que a Agência Judaica tentava enviar, da Europa, colonos judeus que se fixariam na Palestina e buscariam uma posição de força para o momento em que o Mandato Britânico se encerrasse. Lá ia o ano de 1938. Durante a 2ª GM, cento e poucos voluntários se juntaram à Marinha Britânica, atuando principalmente em ramos técnicos (eletrônica e mecânica, principalmente) – poucos estiveram em combate. Depois da fundação do estado de Israel, em 1948, a força naval israelense manteve-se como uma força de defesa costeira, com capacidade ofensiva quase nula. Durante a Guerra dos Seis Dias sua atuação limitou-se a algumas incursões contra a costa do Egito. Poucos meses depois, o “incidente Eilat” seria marcante na trajetória da Marinha de Israel: sua principal unidade, o contratorpedeiro-de-escolta “Eilat“, foi afundado numa ação de lanchas-patrulhas egípcias, ao largo de Port Said. Embora o incidente tenha sido abafado na época, com a ajuda das agências de imprensa norte-americanas, teve forte impacto na população em geral e na Marinha de Israel. Até então, população e governo israelenses davam pouca importância ao poder naval, visto que a principal influência, na região, era das marinhas norte-americana e soviética. A principal potência naval regional, a Turquia, mantinha, então, boas relações com o estado judeu. O “incidente Eilat” mostrou que, no estado em que se encontrava sua marinha, Israel não tinha o controle nem mesmo das águas adjacentes. O estado-maior das IDF começou, então, a desenvolver planos que focavam navios de pequeno porte, adequados ao combate de mísseis, capazes de bloquear a costa israelense e incursionar contra a costa dos principais estados árabes adversários – na época, Síria e Egito. Táticas e técnicas que possibilitassem esse tipo de atuação começaram a ser desenvolvidas, bem como vetores de armas capazes de cumpri-las. Foram adquiridos na França alguns navios-patrulha rápidos classe Sa´ar 2 (concebidos em Israel com base em um desenho alemão) e projetado, no próprio país, o míssil superfície-superfície Rafael. Em 1973, a mudança de foco mostrou resultados no encontro de Baltim-Damietta, contra um grande grupo de lanchas-patrulhas egípcias, durante a guerra do Yom-Kippur. Essa “mini-batalha naval” marcou uma espécie de redenção do “incidente Eilat”. Desde então, a Marinha de Israel transformou-se numa força de porte médio, dotada de meios modernos, centrados em corvetas e submarios. A ação diante de Gaza mostrou que a força naval tornou-se agente ativo na execução da “política de defesa” de Israel.

O problema é que essas políticas começam a se tornar contraproducentes. Atualmente, um dos eixos dessa política é o bloqueio de Gaza (maiores informações aqui), estabelecido em 2007. Inicialmente, essa ação tinha como alegação a tomada do poder na região pelo grupo islâmico fundamentalista de orientação sunita Ha´mas (acrônimo de Harakat Al-Muqawama al-IslamiaMovimento de Resitência do Islã), considerado por quase todos os governos interessados na questão como terrorista. Desde os anos 1980 gente ativo da questão da autonomia palestina, ora opositor, ora aliado do partido laico Fatah, o Ha´mas é visto com grande desconfiança pelas principais potências ocidentais, que não o aceitam como interlocutor político. Isolado, o Ha´mas acabou por abrir uma brecha para o aumento da influência iraniana sobre as atividades da militância palestina. O governo da Fatah na Cisjordânia mantem-se prudentemente distante dos iranianos, visto que busca o apoio da comunidade internacional para a causa do estado palestino. Em função dessa busca de apoio, o partido Fatah já aceita a convivência pacífica com o estado de Israel. O que não é o bastante – essa questão é mais ampla e problemática. Desde os anos 1960, e particularmente, da Guerra dos Seis Dias, os setores conservadores política israelense apoiam-se nos partidos religiosos que vêem com grandes ressalvas a criação de um estado árabe ocupando o que é, em geral, considerado como “a terra de Israel” (Eretz Israel), a região de Canaã, prometida por Deus ao “povo escolhido”. Esse é um fator que leva a questão palestina a um impasse, em função da exigência dos fundamentalistas judeus que parte da região fique sob controle de cidadãos de Israel, na forma de colônias povoadas por ortodoxos ligados aos partidos religiosos. Em Gaza o problema se torna mais sério: se o partido Fatah se dispõe a negociar uma saída política, a região um estreita faixa de terra de 41 kms de comprimento por 12 kms de largura, que consegue ser ainda mais pobre do que a Cisjordânia, o Ha´mas é o governo de fato – e não se mostra disposto à negociação, mas ao confronto (basta citar o caso dos foguetes Qassam). O governo de Israel, por outro lado, parece sentir-se autorizado, em função das restrições internacionais ao Ha´mas, a aplicar uma política que acaba por penalizar um povo que já vive no limite da sobrevivência.

No último dia 31 de maio, essa política de busca do confronto teve um desdobramento inesperado: pelo menos nove pessoas morreram  em uma ação militar israelense contra um grupo de pequenas embarcações que tentava desembarcar em Gaza gêneros de primeira necessidade. As versões são totalmente contraditórias, mas de concreto foi estabelecido, pelo autópsia realizada na Turquia, que os mortos foram atingidos por disparos de armas automáticas, pelo menos dois deles atingidos à queima-roupa. Embora Israel tenha, inicialmente, mostrado intenção de tratar todos os presos como potenciais terroristas, a falta de elementos e a ação injustificada diante do direito marítimo internacional, bem como a arrogância da postura das autoridades locais acabou por levantar uma onda, aparentemente inesperada em Israel, de protestos internacionais. Aparentemente incapaz de responder satisfatoriamente aos pedidos de explicação de inúmeros governos estrangeiros, o governo de Israel acabou por decidir pela atitude menos danosa: centenas de ativistas presos foram rapidamente deportados. Essa atitude não impediu o Conselho de Segurança da ONU de emitir declaração pedindo que o caso seja investigado de forma “imparcial, crível e transparente”.

Ao que parece, a abordagem dos navios visava dar reforçar a posição de Israel quanto ao bloqueio e à sua política palestina – não admitir nenhum tipo de apoio aos partidos palestinos que não passe por seu próprio projeto: um estado palestino com autonomia apenas parcial. Também parece ter buscado mostrar a admissão de interlocução apenas com governos. O uso de meios e força desproporcionais parece que visava reforçar a política de bloqueio total a Gaza, e marcar que qualquer tentativa de contato direto seria encarada como ato hostil, independente da procedência e das proporções. O ataque à “Flotilha da Liberdade” teve, proporcionalmente, a mesma intencidade da operação militar contra Gaza, em janeiro de 2009. Mas se o resultado daquela ação já foi duvidoso, o dessa foi um desastre. O ataque trouxe resultados inversos aos pretendidos, e abriu espaço para uma debate internacional totalmente indesejado, mesmo entre os aliados de Israel, que começaram a fazer associações diretas entre o bloqueio e a realidade observada em Gaza. Pior: as ações militares do governo de Israel passaram a ser tratados abertamente como “terrorismo de Estado”. Israel passou a ser cobrado pela situação de direitos humanos naquela região, até mesmo – ainda que, nesse caso, de forma ainda tímida – pelo governo dos EUA. Aliados tradicionais de Israel, tais como a Turquia, ameaçaram rever acordos de parceria e o apoio diplomático ao estado judeu, em fóruns internacionais. Segundo alguns analistas, o principal erro de avaliação de Israel foi a demonstração de indiferença ao Direito internacional, que se caracterizou com a abordagem não avisada dos navios em águas internacionais. Os acordos observados em tempo de paz negam tal autoridade a qualquer estado, salvo alguns casos específicos. Analistas, inclusive alguns reverberados pela própria imprensa de Israel, afirmaram que a “Flotilha da liberdade” não se enquadra em nenhuma dessas excessões. Segundo analista norte-americano, a operação visava provocar danos letais pois o uso de armas automáticas em locais restritos não é observada em método de controle de multidões. Essa constatação é agravada pelo fato de que dificilmente tiros instintivos atingem o alvo na cabeça. Qualquer força militar medianamente treinada e disciplinada dispõe de meios não letais que preservam, sem perder a eficiência, a integridade física de ambos os lados – munição de borracha, gás lacrimogênio, gás de pimenta, armas paralisantes, bombas de efeito moral – a lista é imensa e a força atacante não levava nenhum deles.

Foi, pois, um tiro no pé. Qualquer um que leia jornais diários sabe o quanto é difícil fazer cobranças ao estado de Israel, dado o apoio incondicional que esse país tem dos EUA. Entretanto, o atual governo norte-americano parece empenhado em recuperar, pelo menos parcialmente, a credibilidade internacional, perdida ao longo dos anos da presidência Bush. Além das relações com a Turquia, país por onde passam a maior parte das linhas de suprimento para as forças dos EUA no Afeganistão, além do perigo de tais atitudes fornecerem munição aos movimentos fundamentalistas, os norte-americanos se encontram empenhados em conseguir fazer passar na ONU sanções ao Irã, em função de suposto programa  de pesquisas nucleares bélicas. A antipatia internacional por Israel, proclamada em alto e bom som por dezenas de nações que viram seus cidadãos inculpados como terroristas e seus apelos arrogantemente descartados pelas autoridades judias certamente não ajuda a diplomacia norte-americana, principalmente considerando-se o fato de que a Turquia é um dos principais opositores as sanções pretendidas::

Datas relevantes de causa::O Irã dos aiatolás se torna balzaquiano::

O blogue das boas causas anda meio devagar, em função das muitas atividades que o redator cumpre, e que por vezes cobram seu preço, em tempo e concentração. Entretanto, não o blogue não podia deixar de acender umas velinhas (31, mais exatamente) para a passagem, em Primeiro de Fevereiro, de mais um aniversário da Revolução Islâmica no Irã. De fato, é uma data que também deveria ser comemorada nos EUA, mais particularmente nos salões de festas secretos da CIA e da menos votada Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês – responsável pelo monitoramento de comunicações eletrônicas e operações de inteligência eletrônica – ELINT/SIGINT).  Uma festa dessas certamente reuniria um monte de gente, viva e morta: Jimmy Carter e Zbigniew Brzezinski, Richard Helms (diretor da CIA nos governos Johnson e Nixon), Henry Kissinger, Saddam Hussein, os executivos das companhias de petróleo, e por aí vai.  É interessante observar que, se o mundo for justo (e sabemos que é…), o aiatolá Ruhollah Khomeini, sua trupe de radicais e até mesmo os atuais espantalhos-mores iranianos, o aiatolá Khamenei e o presidente iraniano Ahmedinejad também estariam lá, comendo bolo. Entretanto, como essa festa não vai acontecer, causa:: catou na Internet um excelente artigo publicado no blogue do jornalista especializado em relações internacionais Argemiro Ferreira. O blogue de Ferreira é parada obrigatória deste humilde redator, pela qualidade das análises que apresenta. Passemos à leitura.

O artigo começa interessante já no título – BLOWBACK. Este termo designa, em inglês, a ação do gás gerado pela detonação da carga de propelente de um cartucho ou foguete, que provoca o recuo da arma, no caso de um tiro, ou uma chama de expansão rapidíssima e extremamente quente, no caso de um foguete. Os oito leitores de causa:: talvez lembrem daquela língua de fogo que se sucede ao disparo de um RPG7/7B. Embora nunca tenha pensado no assunto, o redator imagina se a expressão também não teria o significado da nossa “tiro no pé”. Se não tem, deveria ter. É a mais adequada definição para os resultados da atuação norte-americana naquelas plagas.

Posteriormente, causa:: tecerá alguns comentários que são mais da praia que frequenta – a análise militar. Argemiro comete alguns deslizes, nesse campo, mas que nem chegam a arranhar a blindagem de sua erudição::

A história da guerra do ponto de vista dos micróbios::

Pensei nesse tema ao ler um texto já meio antigo (neste ambiente, um mês é tempo pra caramba…) no Darwiniano. Falo do comentário sobre um livro que eu já conhecia. Trança daqui, trança dali, acabei lembrando de outro e de outro, que considero também muito interessantes. E trança daqui, trança dali (com uns pulos na Grande Rede), acabou me ocorrendo o óbvio: com freqüência, micro-organismos acabam sendo convocados para a guerra, para serem engajados na modalidade que é chamada “guerra biológica”. Bom, trança daqui, trança dali, acabei fazendo um pequeno (mas pequeno mesmo…) resumo do “estado atual da questão”. Quem quiser saber mais pode ler dois excelentes textos aqui e aqui. Sugiro que o façam – acaba sendo divertido: no fim, a gente concluí que, sem sombra de dúvida, a humanidade é maluca…

O uso de toxinas produzidas por organismos vivos como armas de guerra, de modo a causar toxinfecções capazes de interferir no esforço de guerra do inimigo é mais difundido do que se possa imaginar. Talvez tão velho quanto a própria guerra. Sociedades de nível tecnológico muito rudimentar perceberam a possibilidade de usar toxinas produzidas por animais como forma de potencializar suas próprias armas, tanto na caça quanto na guerra – suponho que todo mundo já tenha ouvido falar do veneno curare, empregado por sociedades indígenas. Na Antiguidade, não era incomum que fontes de água fossem contaminadas com animais mortos – comportamento que os romanos consideravam “digno de bárbaros e escravos”; também não são incomuns os relatos de cidades sob sítio alvejadas com carcaças de animais e até corpos de vítimas de doença.  A partir do século 18 e, marcadamente, no século 19, os mesmos estudos que identificavam e isolavam agentes microbianos e seus produtos tóxicos, buscando curar ou controlar doenças, acabaram por mostrar ao Estado e seus agentes militares as possibilidades para esse tipo de guerra. No final do século 19, a Alemanha já promovia pesquisas visando determinar o potencial de determinados micro-organismos como arma militar. Na 1a GM, gado contaminado com antraz (infecção bacteriana comum no gado que, em certas condições, pode ser letal para humanos) e melioidose (infecção bacteriana de alta taxa de letalidade) chegou a ser contrabandeado para a Bélgica e França. A convenção de Genebra de 1925 tentou banir o uso desse tipo de meio, pela proibição do uso de armas químicas e biológicas (proibição depois confirmada pela Conferência Mundial de Desarmamento, de 1932), mas sem grande sucesso. Os países não-signatários (como o Japão) ignoravam as normas e os signatários, alegando necessidades de defesa, diminuiam mas não interrompiam as pesquisas.

Desde então, os estudos sobre o uso de armas biológicas colocam diante da humanidade um cenário de pesadelo (e também de non-sense). Os japoneses, durante a 2a GM, utilizaram amplamente os resultados de pesquisas nesse campo, inclusive sobre os melhores vetores dessas armas: milhões de pulgas contaminadas com agentes bacterianos letais foram espalhadas pela China, e também foi testada a pulverização de aerosóis (microgotículas) com culturas de Yersinia Pestis, bactéria causadora da peste pneumônica. Findas as hostilidades, embora diversos militares japoneses fossem julgados como criminosos de guerra por promoverem essas experiências e propor sua utilização maciça, os resultados das pesquisas e a possibilidade de seu uso não foram banidos. Os EUA já tinham suas próprias pesquisas desde 1941, num centro instalado em Fort Detrick, situado em Frederick, Maryland. Por ironia (ou não, sabe-se lá…), essa base estava subordinada ao Comando Médico do Exército dos EUA, e sediava o Programa de Armas Biológicas do Exército. Durante muito tempo, uma das principais linhas de trabalho desse programa foi a viabilização da produção, em escala industrial, de botulina, toxina de altíssimo grau de letalidade produzida por uma bactéria anaeróbica. Embora os EUA neguem até hoje, diz-se que certa quantidade desse material foi levada para a Europa em 1944, em um navio que acabou atingido durante um ataque aéreo. Em 1969, os EUA resolveram ratificar a Conferência de Genebra de 1925, e, na prática, o governo norte-americano passou a assegurar que armas biológicas e químicas nunca seriam usadas ofensivamente. As pesquisas para produção dessas armas foram desativadas e uma agência intergovernamental encarregada de pesquisas sobre bio-defesa passou a coordenar os órgãos existentes.  A União Soviética começou a pesquisar armas biológicas antes da 2a GM, e essas pesquisas foram aceleradas durante a Guerra Fria. No final dos anos 1970, eram conhecidos onze laboratórios em atividade. É interessante (bem, digamos que mais parece humor negro) observar que a pesquisa em engenharia genética, na ex-URSS, se desenvolveu a partir das buscas por armas biológicas eficazes – inclusive uma cepa de varíola que pudesse ser colocada em um míssil intercontinetal. Mesmo após a détente dos anos 1970, os laboratórios soviéticos continuaram funcionando. Com o fim da URSS e as dificuldades econômicas da Rússia, acredita-se que as pesquisas tenham sido reduzidas ao mínimo.

Na atualidade, a ameaça dos agentes biológicos não diminuiu. EUA e Rússia conservam, em laboratórios de alta segurança (mas conservam…) coleções de micro-organismos letais, inclusive da varíola. Embora sem fornecer provas convincentes, os serviços secretos dos EUA e da Grã-Bretanha acusaram o regime baathista do Iraque de promover pesquisas com agentes biológicos; atualmente, a mesma acusação é feita pelos EUA e Israel contra o Irã; a Coréia do Norte é frequentemente acusada pelos EUA e Coréia do Sul de promover pesquisas desse tipo; da China também é dito possuir estoques secretos de agentes biológicos letais. E, por fim, o bioterrorismo é posto como uma das principais ameaças. Todos sabemos que já foram ensaiados ataques que tentavam promover a contaminação por antraz, colocado, em pequenas quantidades, dentro de envelopes de correspondência. Mas, o que não sabemos é que, até agora, foi a única ameaça objetiva registrada::

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas:: O resto da historinha::

Abaixo, quem tiver paciência poderá encontrar alguns detalhes da história dos Qassam palestinos. Nos links se encontram recursos de pesquisa simples, esclarecendo, no nível de mortais comuns, os aspectos mais especializados.  Reuni esses recursos também para demonstrar que construir um foguete viável não é nenhuma tarefa impossível, e qualquer pessoa com algum conhecimento técnico e materiais minimamente adequados (por exemplo, um aeromodelista) pode, em tese, fazer um. Mas, crianças, não tentem em casa: acidentes podem acontecer, como um tiro de canhão “acidental” de um tanque israeli…

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Os foguetes Qassam são, de certa forma, continuadores dessa tradição consolidada durante a Segunda Guerra Mundial. Foram desenvolvidos pelos militantes do Hamas Yahya Ayyash, Adnam al-Ghoul, Nidal Fat´hi Rabah Farahat e Mohamed Khaled, todos já mortos. Esses homens participaram da primeira Intifada, e eram todos especialistas em explosivos e fabricação de bombas. A idéia de uma produção local de armas ofensivas para o Hamas partiu de Ayyash. Engenheiro-eletricista formado em uma universidade de Ramallah, formou um grupo de técnicos sobre o qual não existem maiores informações, mas parecem ter tido formação universitária. Ayyash morreu em 1996, e foi sucedido por Mohiyedine Sharif, um técnico de grande talento em produzir explosivos usando materiais comuns. Morto Sharif, al´Ghoul o sucedeu. Diante da dificuldade de conseguir armamento de maior capacidade destrutiva, imaginou a possibilidade de construir foguetes com materiais disponíveis na própria região de Gaza. Seu primeiro produto foi o foguete anti-tanque al’Bana. Essa arma portátil foi fabricada com materiais trazidos do Egito, e mostrou-se bastante efetiva durante a Intifada de al´Aqsa. O sucesso levou a que Ghoul projetasse um modelo mais potente, denominado Yasin (nesse recurso de pesquisa, o lançador de ombro é um deles). Ambas as armas certamente eram baseadas nos foguetes AT soviéticos RPG2. A segunda diferia da primeira em alcance, bastante melhorado, mas ainda tinha a limitação de necessitar de materiais trazidos de fora.  Com a morte de al´Ghoul, Al-Farahat assumiu o grupo de engenheiros. Especialista em explosivos e em ataques com morteiros, essa experiência o levou, junto com Khaled (sobre o qual quase não existem informações), a imaginar uma arma de maior poder ofensivo: o resultado foi o Qassam.

A produção da primeira versão começou em 2001, durante a Intifada de al´Aqsa. O Qassam-1 tinha um corpo cilíndrico de 80 centímetros de comprimento e 5500 gramas de peso total, com uma pequena cabeça de combate de 500 gramas e era acionada por um fuso de contato – ou seja, explode depois de chocar-se contra o solo. O artefato era impusionado por um motor-foguete de camara simples de combustível líquido monopropelente, estabilizado em voo por quatro aletas e tinha um alcance máximo de 5 quilômetros. Era construído em chapas de aço, latão e plástico. O combustível, líquido, tem água oxigenada (peróxido de hidrogênio) e gasolina como principais ingredientes, e o explosivo é produzido modificando-se a fórmula de fertilizantes agrícolas comuns. É muito provável que o projeto tenha copiado os aspectos básicos do foguete soviético BM-8, muito comum na região desde os anos 1950. Os serviços de informação tanto israelis quanto ocidentais insistem em afirmar o apoio do Irã ao palestinos, mas até agora nada de concreto foi realmente provado. Não provado, mas provável: as ligações entre Hamas e Irã tem sido aprofundadas, e regime fundametalista desse país é o principal financiador da resistência palestina.

O primeiro lançamento real aconteceu em 2002. Com muito pouco alcance, nenhuma precisão e muito pouca confiabilidade, o efeito inicial foi, em grande medida, psicológico, pois mostrou que os palestinos tinham capacidade de construir uma arma capaz de atingir Israel. Junto à essa novidade desagradável, a população israelense  descobriu a dificuldade de suas forças de defesa em interromper a produção.

Os dados técnicos foram obtidos através do exame de fragmentos dos artefatos explodidos e de uns poucos, cuja detonação falhou. Também foram reunidas informações de interrogatório e relatos de informantes. Segundo concluem os oficiais de inteligência de Israel, os Qassam tem, como principal vantagem, a extrema simplicidade: uma oficina de serralheiro (que existe às centenas, em Gaza) podia produzir um foguete em aproximadamente um dia. Facilmente transportáveis, são geralmente colocados em um veículo do porte de uma Kombi, e levados à noite até a área de lançamento. A estativa (rampa de lançamento), feita de metal barato, pode ser re-aproveitada ou simplesmente destruída com um machado. O processo de montagem e lançamento toma uns 15 minutos e exige equipes de 4 homens (esses dados  podem variar um pouco, para cima).

Logo começaram a ser identificadas variantes do Qassam-1. O Qassam-2 surgiu em 2002 e foi usado até 2005. Era bem maior do que a primeira versão, tinha alcance de 8-9.5 km e cabeça de combate de 5-9 kg. Ainda em 2005 foi observado o surgimento do Qassam-3 que pesava até 20 kg e alcance de até 12 km, com 20 kg de explosivos. Melhoramentos na construção do Qassam-3 e na qualidade do combustível levaram ao Qassam 4, com peso de 25 kg, cabeça de combate de até 20 kg e alcance de até 17 km. Em 2006 foram utilizados artefatos que indicavam a instalação de dois motores, o que permitia um alcance de pelo menos 25 km.

A defesa diante dos raids palestinos consistiu em ataques contra locais de produção e a implementação de uma rede de alerta antecipado, denominada Red Color (Bandeira Vermelha), capaz de notificar as trajetórias dos artefatos desde o lançamento, calcular os possíveis locais de queda e alertar as populações no raio de queda. As localidades ameaçadas tiveram implementadas suas instalações de proteção anti-aérea. A instalação de um sistema anti-mísseis tem sido discutida, mas é problemática em função das características dos ataques de Qassam.

Durante todo o período 2002-2007, as FDI se mostraram incapazes de controlar o problema. Em 2006, os artefatos Qassam começaram a cair na cidade de Sderot, nas comunidades próximas e na cidade de Ashkelon, o que demonstrava uma capacidade crescente dos militantes do Hamas em calcular a trajetória do vôo, melhorando o alcance de combate. Militarmente, os Qassam não são capazes de criar problemas para Israel. Entretanto, a persistência do problema é fator de desestabilização para o governo local: cada foguete que explode no solo do estado judeu é demonstração cabal da impossibilidade de que uma paz nos termos dele seja imposta ao adversário. Ou seja – uma guerra praticamente impossível de ser vencida.

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Pois é, de modo muito resumido, essa é a história dos foguetes do Hamas. A questão a perguntar é se os israelis irão conseguir, com essa operação militar (tratá-la de “carnificina” seria mais justo, mas é uma operação militar) interromper o fogueteio de suas cidades. Provavelmente não, pois alcançar esse objetivo implicaria em ocupar a região – o que seria ainda mais contraproducente do que a operação em si. Mas essa é outra história.

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas::

Provavelmente, as Forças de Defesa de Israel irão encerrar sua campanha punitiva contra a Faixa de Gaza nos próximos dias. Conforme comentou o analista David Rieff (para quem  tem paciência de ler em inglês, vale uma espiada), provavelmente uma tregua será decretada após a retirada dos israelis, assim que estes possam proclamar que alcançaram, pelo menos, objetivos parciais. A morte, num bombardeio, de Said Siam, a autoridade do Hamas encarregada de articular os serviços civis de Gaza com o braço militar do Hamas, talvez possa servir como justificativa.

Não é novidade para ninguém, que o motivo inicialmente alegado por Israel para a operação foi o fim da trégüa com o Hamas. As brigadas Ezzedine Al´Qassam, braço armado do grupo extremista palestino, anunciaram, em dezembro passado, o encerramento oficial da trégua que vigorava havia seis meses. As brigadas Al´Qods, um outro grupo de combate do Hamas, iniciaram imediatamente o lançamento de foguetes Qassam contra o território israelense. Os projeteis balísticos começaram a cair sobre a área das localidades de Neguev e Eshkol, ambas próximas à faixa de Gaza. De lá para cá, mesmo com a ofensiva militar, os projeteis não pararam de ser lançados, chegando, no auge, uma semana atrás, a mais de quarenta impactos diários.

Mas o que é um “Qassam”, afinal de contas? Lógico que todo mundo sabe, pela imprensa, que é um foguete. Mas representa ameaça ,assim tão grande contra Israel?

Aprofundemos um pouco: trata-se de um projétil balístico não-guiado, ou seja, um artefato que, após lançado, cumpre uma trajetoria azimutal (sobe gradativamente até um ponto máximo e depois desce, de modo mais abrupto) previamente calculada, e atinge uma determinada area de alvo. O alcance de uma arma desse tipo é muito variável, dependendo do tamanho do projétil, quantidade de combustível em relação ao peso total e condições de lançamento: pode ir de poucos quilômetros até varias dezenas de quilômetros. O mais importante é que todos os cálculos de trajetoria tem de ser feitos com a arma no chão. A regulagem do alcance e feita simplesmente alterando a inclinação de lançamento, com cálculos bastante simples. Iniciado o vôo, o foguete cumpre a trajetoria e cai. A precisão é muito baixa, e, além do mais, dependerá de fatores aleatórios, fora de controle dos artilheiros. Assim, a pontaria é feita mais-ou-menos como a de um canhão, estabelecendo-se uma “área de alvo”, um quadrado dentro do qual espera-se que a coisa caia. Esse quadrado geralmente tem algumas dezenas de metros de lado.

Ou seja: uma arma dessas é totalmente “muda”, “surda” e “cega” (não se comunica com a estação de disparo nem “enxerga” a trajetoria”), portanto, burra.  Sua tecnologia é muito rudimentar, e uma de suas vantagens é exatamente essa.

De fato, o desenvolvimento de projeteis balísticos começou no final da Idade Media, e, naquela época, eles não diferiam muito de um foguete junino. Ao longo da Idade Moderna, os foguetes de corpo rígido foram sendo aperfeiçoados e passaram a ser amplamente usados tanto pelos exércitos ,quanto pelas marinhas. No século 19, tinham chegado ao “estado da arte”, e se tornaram figuras comuns  nas guerras de então: até os exércitos brasileiro e paraguaio os utilizaram, em boa quantidade, durante a guerra do Paraguai. Na Primeira Guerra Mundial o foguete voltou ao campo de interesse das potências, embora a tecnologia não tivesse se desenvolvido, desde o século anterior (uma excelente série de artigos sobre o assunto pode ser lida, em formato PDF, aqui). Durante a Segunda Guerra Mundial é que a coisa deslanchou, e todas as potencias envolvidas utilizaram foguetes em grande quantidade, em terra, no mar e no ar, e em diversas versões. Basicamente, eram artefatos não-guiados, usados em certas condições para substituir a artilharia. O mais conhecido deles foi o “Katyusha”, apelido dado pelos soldados aos foguetes BM-8 e BM-13. A partir de trilhos instalados em um caminhão, os “Catarininhas” eram disparados em salvas, com pequenos intervalos entre os disparos. Iniciaram o conceito, amplamente desenvolvido durante toda a guerra, de “foguete livre contra o solo”, (em inglês, FROG), usado ainda hoje. O efeito era aterrorizante, principalmente por causa do barulho, mas todos os usuários concordavam que esse tipo de arma só era eficaz para o chamado (pelos militares) “bombardeio de saturação”. Os alemães desenvolveram os Nebelwerfer, lançadores múltiplos, em variados calibres, usados durante toda a guerra; os americanos também investiram pesadamente nessa tecnologia, e, por volta de 1945, um complexo de 1200 fábricas produzia partes de diversos tipos de foguetes não-guiados (veja aqui alguns deles).

Existe uma certa continuidade entre os Qassam e essas armas da Segunda Guerra Mundial. Mas deixemos para estabelecer qual é na próxima postagem… ;c)

Por enquanto, divirtam-se vendo um filminho especialmente selecionado. Imagine como não deve ser ficar debaixo de uma coisa dessas… ::