Cultura Material militar::Capacetes::

Muitos anos atrás, tive a honra de conviver com os veteranos brasileiros da FEB, durante um ano. O primeiro-tenente Luís Paulino Bonfim, então presidente da ANVFEB, a principal dentre as associações de veteranos em funcionamento (aos trancos e barrancos) em nosso país, convidou-me para reorganizar o pequeno museu que funcionava no térreo do prédio da rua das Marrecas, no Rio de Janeiro. Na época eu já tinha um conhecimento relativamente grande sobre cultura material militar, mas não pude deixei de me emocionar em ter contato direto com aqueles velhos objetos, últimos vestígios de nossa passagem pela 2a GM.  Soube, outro dia, que outro destino será dado ao acervo (bastante considerável), que será instalado no Museu Militar Conde de Linhares, mantido em São Cristóvão pelo Exército Brasileiro. Menos mal, se o Exército der publicidade ao evento, e passar a dar o valor realmente cidadão que aquelas centenas de artefatos tem. Mas essa é outra história. O período em que passei no Museu da Força Expedicionária Brasileira me permitiu observar certos detalhes em torno do equipamento militar usado nas operações que me chamaram atenção para certos detalhes invisíveis, mas que mostram o detalhado trabalho de engenharia que é investido em cada um desses objetos. Lembrei de tudo isso quando resolvi colocar no ar mais um capítulo da série “Capacetes” – justamente o que talvez minha meia-dúzia de leitores mais espera: o artigo sobre o Stahlhelm,  o “capacete alemão” que todo mundo conhece. Filhos, podem me considerar um verdadeiro privilegiado: muito do que estou escrevendo aqui é produto do que pude observar naquele período, com os ditos na mão – e nem eram assim tão pesados::

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Parte 1:: O stahlhelm, o “capacete alemão”, facilmente, mantém o galardão de símbolo mais estreitamente do último conflito mundial, já que quase todo mundo já o viu pelo menos uma vez. Suas origens remontam ao capacete de aço adotado na 1ª GM, que substituiu o também familiar *“capacete pontudo” prussiano, pickelhaube. Para entender o surgimento do stahlhelm temos de nos remeter ao impasse das trincheiras, durante a 1a GM. Numa trincheira, a cabeça se tornava a parte mais exposta do corpo do soldado, tornando-a vulnerável não apenas aos atiradores de elite, mas principalmente aos fragmentos das granadas e aos balins de schrapnel. Em 1914 todos os fragmentos resultants da explosão de uma granada eram designados dessa forma.

França e Inglaterra foram as primeiras nações a disponibilizar esse tipo de proteção individual. A Alemanha não demorou muito a perceber a necessidade desse implemento. Desde 1915, algumas experiências estavam sendo feitas, mas se revelavam mais-ou-menos inóquas, pois partiam do pressuposto que poderiam aproveitar o desenho do pickelhaube, totalmente inadequado. Entretanto, um dos resultados dessas experiências foi mantido: o material. A melhor liga de metal encontrada foi uma de aço-cromo-níquel, que, mesmo sendo pesada, era mais leve do que outras testadas. Os desenhistas alemães recuperaram modelos usados por tropas antigas, e um deles mostrou-se surpreendentemente adequado: um elmo centro-alemão usado pela cavalaria do século XV-XVI, uma peça engenhosa que oferecia, inclusive, proteção para o pescoço. A requisição de que o equipamento oferecesse proteção inclusive contra impactos de projéteis de armas portáteis era problemática, independente do desenho, e resultou numa peça consideravelmente grande e pesada, mas vista como o preço a pagar pela integridade do soldado. Esse capacete foi denominado “Modelo 1916”, e logo recebeu o apelido de *Kohleneimer  (“balde de carvão”). Era, de fato, um tipo experimental, e seu desenho foi melhorado, inclusive com relação à “carneira” (o aparelhamento interno: suportes de couro e cadarços que adaptavam o casco à cabeça do usuário), e a tentativa de reforçar o conjunto, adotando uma espécie de proteção adicional denominada *Stirnpanzer (ao pé-da-letra, “testeira”). Essa era outra idéia resultante das pesquisas em arquivos medievais. Um placa adicional de metal, era fixada sobre a parte frontal do conjunto através de três pinos, que também serviam com entrada de ar. Essas peças foram denominadas modelos “1917” e “1918”, e foram mantidos após o fim da guerra. Diversos outros acessórios, como uma cobertura de lona destinada a diminuir a visibilidade do conjunto. Em 1918, uma variação no desenho foi introduzida, como tentativa de economizar peso e diminuir ferimentos nas orelhas. Essa variante logo passou a ser chamada – por motivos óbvios – de *Telephonistehut (“chapéu de telefonista”). O “modelo 1917” acabou sendo adotado pelos aliados austríacos dos alemães, e teve versões, com pequenas alterações, produzidos localmente. O início dos anos 1930 veria o “modelo 1917” ainda em uso pela Reichswehr, o exército alemão de 100.000 efetivos permitido pela pelo Tratado de Versalhes.

A subida de Hitler ao poder, em 1933, já encontrou, bastante avançados, estudos teóricos e metodológicos que visavam prover o exército de planos para um eventual rearmamento. Os planejadores envolvidos nesse processo sabiam que a próxima guerra teria características totalmente diversas da anterior, e, dentre essas características, a infantaria seria mais móvel e mais rápida, possivelmente transportada, em parte, em veículos motorizados. Os uniformes desenhados para essa nova infantaria seriam diferentes, embora os oficiais do Estado-maior tivessem mantido aspectos tradicionais – símbolos e insígnias – e alguns elementos práticos, como a cor, o “cinza de campo” (feldgrau), considerada adequada para a região. O desenho do “modelo 1917” foi considerado razoável, mas a nova peça, denominada “M35”, era bem diversa da antecessora.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

Stahlhelm M35. Note a borda "virada para dentro" e os pinos de fixação da carneira.

O novo modelo era estampado a partir de uma chapa de aço com espessura de 1,2 mm, cujas bordas eram dobradas para o interior do conjunto. Como forma de economizar peso, o domo foi diminuído e achatado nas laterais; a guarda do pescoço e o visor foram encurtados, de modo que o perfil tornou-se menor, embora a aparência geral se mantivesse a mesma do modelo anterior, uma vez que oferecia excelente proteção à cabeça. Uma nova carneira, baseada na adotada para o *modelo de capacete distribuído em 1931 tornou o conjunto bastante confortável, por permitir uma quantidade maior de ajustes, feitos por aperto ou afrouxamento de cadarços. No novo modelo, a carneira era mantida no lugar por três pinos de alumínio, um na parte posterior e dois na posição aproximada das têmporas. O Stirnpanzer e seus pinos de suporte foram considerados desnecessários, e deram lugar a duas aberturas de ventilação.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Stahlhelm M35. Bem visíveis as aberturas de ventilação e o acabamento por ilhoses, refinamento destinado a ser o primeiro a "dançar", com a produção em massa.

Essas aberturas eram protegidas por ilhoses aplicados separadamente, refinamento que até poderia ser pensado em tempos de paz, mas rapidamente desapareceu quando a guerra exigiu a produção em massa.

A carneira era inovadora: uma única tira de metal, que podia ser alumínio ou qualquer liga leve, ligada a um sistema de molas, ajudava a absorver choques e tornava a coisa toda mais fácil de ser removida. Essa estrutura servia para prender uma única tira de couro macio ligada a oito “dedos”, cada um com um conjunto de furos de ventilação, que envolviam a cabeça do usuário A tira de queixo (“jugular”) era parte do apoio de cabeça interior. O mais surpreendente é que, enquanto todos os outros capacetes da época tinham um único tamanho, regulado pela amarração do aparelhamento interno, o M35 era distribuído em cinco tamanhos diferentes.
Todos as corporações das forças armadas alemãs receberam e usaram o novo modelo de capacete, que tinham um acabamento primário com cores de cada uma, cores que variavam amplamente. A cor-padrão do exército era o verde-cinzento, “cinza de campo”, enquanto a Luftwaffe recebia os seus em uma cor azul acinzentada.

Um dos aspectos que distinguia o capacete alemão de seus similares era o uso de dacalques para identidicar a corporação. A partir de 1933, a Alemanha começou a usar as cores nacionais (vermelho, branco e preto) formando um escudo, que era posicionado do lado direito. No caso do exército, uma águia heráldica em prata era posicionada do lado esquerdo; a Luftwaffe tinha, nessa posição, uma águia em vôo, também em prata; a Marinha usava a mesma águia do exército, em ouro. As unidades SS e de polícia não usavam as cores nacionais, mas o símbolo do partido – uma suástica negra em campo vermelho. As SS incorporavam a dupla “runa da vitória” (um raio) negra em campo prata, enquanto a polícia tinha, nessa posição, um escudo negro com a águia envolvida por uma coroa de carvalho prata. Variações nessas posições podiam ser observadas ocasionalmente, mas não eram comuns.
Depois de 1940, os decalques se tornaram mais raros, em função da produção em massa ocasionada pela expansão da guerra.

 

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