biblioteca básica de causa::2ª GM, parte1::

Conforme foi esclarecido no post de ontem, fiquei de acionar o blogue das boas causas, de tempos em tempos, com postagens curtas, de modo a não deixa-lo totalmente inativo. Como foram publicados, ao longo do tempo de existência dele, 302 artigos, imaginei se não seria interessante elaborar “bibliotecas”, ou seja, algumas relações de artigos, arranjados por temáticas. Nunca fiz uma estatística, mas suponho que artigos sobre a 2ª GM sejam a maior parte do material disponível neste espaço. Portanto, começo por este tema, em duas partes. Espero que venha a ser de alguma utilidade para todos os atuais e futuros frequentadores::

Biblioteca básica::2ª GM::1ª parte::2007-2008-2009

62 anos, esta noite::Okinawa, o moedor de carne (25/07/2007)
Anúncios

Aos famosos poucos, uma satisfação::Isto não é “adeus”, é “até logo”::

Faz uns quatro meses, publiquei o último post deste blogue, por sinal atualização de um dos primeiros textos colocados aqui, em 2007. Cinco anos atrás. Ao longo deste tempo, causa:: tem sido, dentre as atividades que mantenho, uma das que mais me dá prazer. Só que as outras atividades, que nem sempre me dão assim tanta satisfação, têm tomado boa parte de meu tempo. A maior parte, dizendo melhor. Ultimamente, embarquei em algo que tem me parecido mais uma aventura: escrever um livro sobre a 2ª GM. No início, pareceu fácil: conheço bastante sobre o tema, tenho uma boa biblioteca específica (uns mil títulos, entre livros convencionais e eletrônicos), e já escrevi bastante sobre o assunto – aqui no blogue das boas causas. Só pareceu: bastou iniciar o esboço do projeto para que ficasse claro as dificuldades envolvidas nele. A maior delas: como conceituar o assunto?

Enquanto dava cabeçadas nessa questão, atraquei-me com dois calhamaços recentemente descobertos: “The Second World War”, do historiador militar inglês Antony Beevor (para a página do autor, com uma ótima resenha sobre o livro, aqui; para o blogue de Beevor, aqui), na edição para Kindle, e “A Guerra e a Paz na História Moderna”, do jurista norte americano Philip Bobbitt (uma entrevista sobre o livro e seus temas, aqui). Não sei dizer quantas paginas tem o livro, já que não tentei aprender a contar páginas em e-books, mas o livro é grande. Beevor é um ex aluno da Real Academia militar de Sandhurst, e discípulo de outro grande nome do ramo: John Keegan (espero que não seja preciso dizer que Keegan é o mais renomado historiador militar da atualidade, falecido recentemente). Na esteira de Keegan, Beevor faz parte de uma fornada de “novos historiadores militares” (dentre os quais podemos citar sir Max Hastings, Andrew Roberts e o norte americano Steven Ambrose, dentre os mais conhecidos) que abandonaram a abordagem estritamente técnica da guerra e a inseriram em contextos mais amplos, onde a política e a sociedade são partes integrantes não do pano de fundo, mas do desenrolar do conflito. Esses “novos historiadores” mobilizam, com grande intensidade fontes dentre as que são atualmente chamadas pelos historiadores profissionais de “alternativas”: história oral colhida a partir de militares e civis, fontes jornalísticas e literárias. Para o leitor, esta nova forma de explicar os conflitos torna a leitura menos árida. Só que Beevor tem um ponto interessante: sua “história da Segunda Guerra Mundial” recua, entre idas e vindas, a 1931, com a tentativa de expansão japonesa para a China e a guerra daí resultante. De fato, essa visão mais ampla das origens da guerra, colocando suas raízes nos problemas políticos resultantes da paz de Versalhes, em 1919, não era novidade: diversos autores especializados apelam para essa periodização, mas dificilmente as “histórias da 2ª GM” entram em detalhes sobre os antecedentes do conflito. O próprio Beevor desce a detalhes com relação à problemática militar, mas não chegava a aprofundar sobre os antecedentes. Ao estabelecer o projeto do livro, decidi que, se pretendo fazer algo minimamente original, não poderia apenas “contar a guerra” – gente muito competente e capaz já havia cumprido tal tarefa, e eu poderia, se tanto, copiá-los. Caso eu pretendesse fazer algo que valesse o trabalho, teria de encontrar um “gancho”. E esse “gancho”estava no livro de Bobbitt, e em seu conceito de “longa guerra”.

Não explicarei em detalhes – pretendo que, dentro de alguns anos, as pessoas se animem a comprar o livro (se é que vai sair…) para descobrir. mas adianto: Bobbitt oferece um interessante conceito, que coloca a 2ª GM numa perpectiva mais ampla: uma luta entre fascismo, comunismo e democracia representativa pelo espólio dos i´mpérios europeus constituidos ao longo da Idade Moderna. Melhor ainda: a 2ª GM teria sido apenas uma das “campanhas” da “Longa Guerra dos Estados-nações”, guerra que teria se prolongado até os anos 1990.

Pretendo que meu texto gire em torno desse conceito e, de fato, vários dos pequenos textos que já publiquei no blogue apontam nessa direção. O próprio desenvolvimento técnico do “fazer a guerra”, abordado anos atrás, de forma magistral em “Uma história da guerra” de John Keegan (se não é um livro definitivo, é quase…) é um indicativo da amplitude dos acontecimentos e de sua temporalidade estendida. Claro que não tenho a menor intenção de chegar até a Guerra Fria e muito menos recuar até a Guerra dos Trinta Anos, como Bobbitt faz. Mas reconhecer a articulação da 2ª GM com os acontecimentos mundiais que se iniciam na segunda metade dos Oitocentos. Qualquer estudant de história entenderá do que estou falando. Os assíduos de causa:: também.

Assim, resolvi comunicar aos meus dez leitores contadinhos que estou decretando um recesso do blogue. Esses “famosos poucos”, que me tem dado o prazer da companhia ao longo desses cinco anos, sabem que cada um dos textos que coloco aqui demanda, por vezes, semanas de pesquisa. Sem problema: gosto de pesquisar, é parte de meu trabalho e algo que faço bem. Mas não sei se conseguirei manter o blogue em atividade diante da pesquisa bibliográfica e do projeto de redação que tenho diante de mim. Vou tentar publicar alguma coisa no causa:: de tempos em tempos, para não deixar o blogue totalmente inativo. Mas certamente essas postagens não terão o volume e o cuidado que tenho feito questão de que sejam a característica desta “ferramenta de pesquisa”.

Então, é isto. Como eu disse acima, não é um “adeus”, mas um “até logo”. E podem esperar – o pior que pode acontecer é, caso eu não conseguir levar o projeto do livro adiante, o texto aparecer aqui no causa::, dentro de uns dois anos, como se fosse um folhetim. O futuro dirá::

Já com vistas ao aniversário, um sistema de armas revisitado::Flak 36 “acht-acht” e suas variantes::

Ultimamente a imprensa só tem falado, em termos de “datas importantes, sobre 2014 e 2016. Nem vou dizer o que significam estas datas. Mas vou acrescentar que, em 2014, completam-se 150 anos de um evento que, pelo menos para mim (e, suponho, para as duas dúzias de assíduos do blogue das boas causas), tem muito maior significado. Não vou dizer qual, mas dou uma dica: a data correta é dezembro de 1864. Em 2015, por outro lado, fecham-se 70 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Não sei se as datas serão lembradas embora tenha certeza que nos meios militares e acadêmicos, certamente acontecerão eventos comemorativos, que envolverão rememoração e análise. A questão, para mim, é se a sociedade lembrará desses fatos com a intensidade que deveria.

De toda forma, tenho dedicado parte de meu tempo a recolher dados visando, quem sabe, um livro sobre a história da Segunda Guerra Mundial. Existem excelentes histórias da guerra, e atualmente tenho observado, em nosso país, um saudável interesse pela questão talvez empurrado pela emergência do Brasil na cena internacional, bem como pela consolidação, no meio acadêmico e científico, dos estudos de “relações internacionais”. O fato é que notei, anos atrás, que nenhum acadêmico, militar ou não, se interessou por abordar o tema. Vamos ver no que dá. Não sei se terei pernas para dar tal salto, mas, quando comecei a levantar material bruto, reparei que quase quarenta por cento do material publicado em causa:: diz respeito à “guerra mundial”. E, livro ou não, continuará sendo assim. E, mais ainda: o material publicado aqui tem, em alguns momentos, absoluta  originalidade, no que diz respeito aos temas, no âmbito da língua portuguesa “brasileira”. Não é novidade, dado o pouco interesse que o meio científico manifesta pelo assunto, no geral.

Quando comecei a fazer a estatística citada acima, encontrei alguns artigos que se remetem a temas que poderiam ser chamados “de domínio público” – já que quase todo mundo, do sexo masculino, pelo menos, acha que entende de guerra em geral e da Segunda Guerra, em particular. causa:: já abordou o capacete alemão, a submetralhadora ERMA e o tanque “Tigre”. Por motivos que têm relação com a propaganda aliada durante e depois da guerra, essas peças de equipamento são, ainda hoje, ícones da 2ª GM: toda vez que alguém põe os olhos ou ouve falar de uma delas, lembra imediatamente dos nazistas. Mas existe outro ícone da 2ª GM, mais “técnico”, digamos assim: o canhão antiaéreo Krupp 8,8 cm, conhecido de todos os especialistas como “oitenta e oito”. É uma das peças de equipamento militar mais bem sucedidas da história, e foi responsável, em diversas ocasiões, pela superioridade, ainda que temporária alcançada pela Wehrmacht. Pois causa:: já publicou, anos atrás, um artigo sobre essa peça de artilharia. Como o artigo ainda me parece bastante completo (diria eu, uma das melhores pesquisas que já fiz para o blogue), resolvi que seria boa providência uma reedição, revista e ampliada. A “primeira edição”, datada de agosto de 2007 será mantida, devido as imagens, que não serão reproduzidas. A “segunda edição” terá duas partes: a “primeira”, como sempre, “revista e aumentada”, e uma extensão publicada, como “parte 2”, conforme a metodologia já conhecida de todos. E é muito possível que, dentro de alguns anos, os assíduos encontrem o texto todo nas páginas do tal livro – se é que ele irá virar realidade. Portanto, divirtam-se e torçam para que minhas pernas sejam tão fortes quanto imagino…::

parte1/2O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”( “oito-oito”, em alemão), e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870.

Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observar o movimento das tropas prussianas, e, no final da campanha, para levar autoridades para fora da cidade. Na época, os prussianos não dispunham (e nem ninguém mais) de canhões capazes de disparar para o alto, já que os reparos de campanha dificilmente conseguiam elevar mais de 15°. Também não existiam fusos capazes de atuar eficientemente contra alvos da densidade de um balão, embora os fusos de tempo pudessem ser adaptados para fazer o projétil estourar nas proximidades de um alvo aéreo. Mas este nem era o maior problema. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm, normalmente usada contra alvos levemente protegidos. Montada num reparo que perdeu as rodas e ganhou suportes cruciformes de madeira, teve o mecanismo de elevação modificado para permitir uma elevação de aproximadamente 60 graus. A coisa toda era montada numa carroça. Visto que o alcance do projétil não passada de 4000 metros, ainda por cima desenhado para uma trajetória quase tensa, a idéia era seguir o balão através de sua trajetória, até que o dito entrasse no alcance. O desempenho era pífio, dada a baixa cadência de tiro, mas o modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 1500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Nessa época foram introduzidos reparos capazes de receber tubos de 6,5 cm e 7,7 cm Krupp. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente antiaérea.

O desenvolvimento da aviação militar durante a Grande Guerra foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento antiaéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos adaptados para que permitir ampla elevação e maior estabilidade de tiro. Para aeronaves que voavam no máximo a 1000-1500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multimotores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a velocidades maiores que 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. O problema é que a munição disponível, desenhada para os canhões de “tiro rápido”, cuja velocidade de saída dificilmente ultrapassava 600 m/s, era ineficaz contra os novos tipos de alvos aéreos. Para manter o projétil em vôo estável num ângulo aberto com relação a zero (o tubo paralelo ao chão), era necessária maior velocidade de saída. Isto significava não apenas uma carga de propelente maior como também aerodinâmica aperfeiçoada – ou seja: desenhos totalmente novos. Em vista dessa nova situação, em 1916 as Usinas Krupp adaptaram um calibre naval já existente, 8,8 cm, produzindo um tubo mais longo e com novo tipo de alma raiada. O conjunto foi colocado numa plataforma com rodas, própria para ser rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos mantinham o conjunto em posição. A nova arma foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). A munição foi redesenhada, para funcionar bem em trajetórias de vôo muito abertas em relação ao solo. Durante a guerra, o 8,8 chegou a ser utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rühr, e alguns foram instalados em Berlim.

A guerra acabou antes que o novo canhão estivesse totalmente desenvolvido. Como o Tratado de Versalhes, de 1919 proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas antiaéreas, os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

A solução inventada para burlar o tratado de paz foi estabelecer um acordo com o governo da Suécia, que possibilitou as empresas alemãs utilizar instalações industriais suecas para desenvolver novos projetos de armas.

O intenso desenvolvido observado pela aviação militar durante o período entreguerras condicionou as requisições da Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra. Os estudos realizados pelas áreas especializadas concluíram que havia necessidade de uma artilharia antiaérea pesada. Nos anos 1920 começaram a aparecer aeronaves que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h alcançando um teto máximo de 6000 m. A velocidade de saída do projétil passou a ser crucial, para que a aceleração não fosse perdida muito rapidamente devido à força da gravidade. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors.

O desempenho do 7,5 foi considerado insatisfatório. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall. O calibre “oito-oito” da Krupp, com novo desenho, foi o vencedor. Essa nova munição tinha o projétil montado junto com o estojo, e pesava cerca de 9500 g, 2770 g no projétil de alto explosivo. A velocidade de boca inicial era de 785 m/s, e o desenho ogival alongado permitia um vôo estável até a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada como peça de artilharia de campanha, tinha alcance máximo de 8.000 m em trajetória tensa ou 14.800 m em trajetória elíptica aberta).

O sistema de armas criado em torno dessa munição foi denominado “Flak 18”, como forma de burlar as regras impostas pelo Tratado de Versalhes (o “F” mudado para Fliegende “equipamentos voadores”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”), e logo se revelou um sucesso. O tubo forjado em uma única peça, de 56 calibres ou seja, 4.938 cm de comprimento tinha o raiamento torcido para a direita, formado por 32 sulcos de profundidade decrescente, que aumentavam progressivamente o fechamento da hélice conforme aproximava-se a boca da arma, de modo a otimizar a pressão dos gases. A câmara, selada por bloco deslizante, de operação semi automática permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da volta do conjunto à posição. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação.

O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.

A construção e testes dos protótipos deu-se na Suécia, cercada de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. Logo foi notado que o desgaste do cano era muito mais rápido do que o esperado e não se dava por igual. O motivo era a rapidez da cadência de fogo, que tornava o desgaste maior na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade de saída combinada com a alta taxa de giro axial do projétil e com o escape dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência.  A fabricação em única peça, embora facilitasse o processo industrial, tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8,8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados entre 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas, de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão/reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia antiaérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, o passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria integrado a um centro de controle de fogo. Este sistema, em sua primeira versão era conhecido como Kommandogerät 36 (“aparelho de comando modelo 1936”). Tinha como centro um aparelho denominado como Voraussichter (“preditor”), operado por um especialista e formado por duas peças principais: um computador eletro mecânico analógico integrado a um telêmetro ótico estereoscópico chamado Entfernungsmessgerät, de uns 4 m de largura. Este era constituído por diversos conjuntos de lentes e espelhos graduados. Os operadores moviam uma série de chaves fazendo coincidir a imagem da aeronave inimiga com as diversas graduações observáveis nos visores, obtendo assim dados constituídos por velocidade aproximada, altitude, direção e posição da aeronave inimiga com relação à posição da bateria AAe. Os dados eram fornecidos a outro aparelho, chamado Kommandohilfsgerät 35 (numa tradução livre, “aparelho de apoio ao comando” modelo 1935). Este era o computador propriamente dito, de fato uma calculadora mecânica que compilava os dados e os enviava, via um comutador denominado Übertragung 30 (“transportador” modelo 1930) para um conjunto de lâmpadas situado na plataforma das peças que constituíam a bateria (até quatro Flak 36). Acesas as lâmpadas, o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes as cobrissem. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou inicialmente insatisfatório, e, em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo preditor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Em 1937 esse novo sistema de controle de fogo foi introduzido experimentalmente, e a peça de artilharia assim adaptada foi denominada “Flak 37”. Este sistema começou a ser distribuído em 1938-1939, e constituiu o Kommandogerät 40, que também recebeu um telêmetro aperfeiçoado. Revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa antiaérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre. O sistema do canhão era projetado para ser rebocado por diversos tipos de veículos, sendo os mais comuns o caminhão Opel de 3,6 t Blitz e o meia lagarta Sd.Kfz. 7. Também foram feitas tentativas de transformar a peça em automóvel, instalando um conjunto tipo Flak 37, chamado provisoriamente de Flak 37 Selbstfahrlafette auf 18 ton Zugkraftwagen. O sistema, projetado em 1940, visava prover unidades motorizadas de proteção antiaérea em campanha, mas revelou-se muito canhestro, e acabou sendo suspenso.

A partir de 1935, com a reorganização das forças armadas alemãs, a defesa antiaérea do Reich passou a ser controlada pela nova Luftwaffe,sugestão encaminhada pelo então general Kesselring.   Em 1938, o braço antiaéreo da the Luftwaffe empregava 6700 canhões leves, para defesa de baixo nível (2 cm e 3,7 cm) e uns 2700 canhões pesados, dentre os quais a maioria eram “oito-oito”. Uns poucos eram Flak 38 e 39, de 10,5 cm. Este era um canhão antiaéreo projetado para uso naval, que o complicado sistema de planejamento industrial nazista tentou “empurrar” para as forças armadas. Como se revelou muito pesado e canhestro para uso em campanha, acabou tendo uns duzentos exemplares instalados em posições fixas.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. Ou seja – era capaz de estourar qualquer coisa em qualquer frente::

A Internet e a sabedoria estrategica popular: pau que dá em Chico…::

Anos atrás, causa:: publicou um post que comentava sobre uma das traquinagens do tarado/paladino da liberdade de expressão (a grande imprensa nacional e internacional precisa decidir-se logo sobre o que ele é…) Julian Assange: a publicação de 92.000 documentos sobre a campanha do Exército dos EUA no Iraque e Afeganistão. Na época, fazia-se um escarcéu daqueles em torno do conteúdo, que revelaria o comportamento das forças armadas norte americanas – algo digno de um Einsatzgruppe nazista na Frente Oriental. Hoje em dia todo mundo parece concordar que atitudes do tipo das de Assange precisam ser controladas, e que alguns dos motivos pelos quais os estados têm segredos não são apenas provas da má intenção dessas formações políticas. Na época, um exame não muito aprofundado do material me convenceu que a totalidade dos jornalistas brasileiros que tirava casquinha do assunto (sejamos justos – dos estrangeiros, a quase totalidade) não fazia a mais vaga idéia sobre o que estava falando. Não sei se, de lá para cá, alguém além de mim mesmo deu-se ao trabalho de examinar o material com maior cuidado. Afinal, apareceram coisas mais interessantes no Wikileaks, para aqueles que querem provar que os EUA são mesmo o “Grande Satã” – como a divulgação de centenas milhares de cabogramas do serviço diplomático dos EUA, ou de mais de 750 dossiês em torno de prisioneiros mantidos na base naval de Guatanamo. Não faço idéia sobre se o conteúdo desses vazamentos foi examinado com cuidado por especialistas – imagino que, como das outras vezes, provavelmente não. Continuo achando (e parece que outras pessoas também pensam de modo parecido) que o problema do Wikileaks é o direito a que se atribuiu seu (digamos assim…) gestor em não respeitar regras de espécie alguma, e que muito do que já foi vazado no site do enfant terrible Assange constitui, de fato, precedente perigoso com no que diz respeito à segurança nacional dos EUA.

E pois é – recentemente, zapeando pela Grande Rede, descobri, na conta do Exército dos EUA no Facebook (p´ra você ver: US Army também está no Facebook…)uma postagem que me pareceu bastane curiosa. Numa tradução um tando descuidada…

Aos nossos fãs,

Os militares são pessoalmente responsáveis ​​por todo o conteúdo que publicam em sites de redes sociais, blogs ou outros sites. De modo a garantir que o conteúdo relacionado ao Exército seja preciso e adequado, os militares também devem ser cuidadosos sobre o material não-relacionado ao serviço que publicam, já que as linhas que separam a vida pessoal da profissional, no espaço online muitas vezes se tornam tênues. O pessoal militar deve ter consciência de que perdem o controle sobre o conteúdo que publicado na internet, e que muitos sites de mídia social têm políticas que dão esses sites a propriedade sobre os conteúdos e informações postados ou armazenados em seus sistemas. Assim, o pessoal do Exército deve usar seu bom senso em todos os momentos e ter em mente a forma como o conteúdo de suas mensagens vão refletir sobre si mesmos, seu comando e sobre o Exército.

 Tal como acontece com outras formas de comunicação, ao fazer publicações não-oficiais na internet, o pessoal militar é responsável pelo conteúdo, diante das leis federais, do Ministério do Exército e dos regulamentos que regem essas instituições e suas políticas. O pessoal militar deve respeitar certas restrições e políticas, de forma a garantir a boa ordem e disciplina. A lei federal e os regulamentos e políticas que atingem diretamente a conduta do pessoal do militar incluem as que regulam os padrões pessoais de conduta, as operações de segurança, a garantia de informações, divulgação de informações de identificação pessoal, a regulamentação ética e a divulgação de informações ao público. Militares que violem a lei federal e os regulamentos ou políticas através de atividades pessoais inadequadas online são sujeitos à ação disciplinar sob o Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ).

Obrigado a todos, e por favor, mantenham suas postagens. Apenas certifiquem-se de ter em mente o que foi exposto acima.

 Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército.

Certamente o pessoal que acha o Assange um paladino da liberdade de expressão pensará que o texto acima é apenas mais uma demonstração do grau de paranóia de um instituição criptofascista, sempre disposta a incursionar contra a liberdade das pessoas. Como eu compartilho essa opinião apenas parcialmente, resolvi zapear um pouco mais, e descobri que o texto foi retirado  do United States Army Social Media Handbook, (“Manual para Midias Sociais do Exército dos EUA”, numa tradução livre) publicado em 2011 pela tal divisão citada acima. O texto é responsabilidade do “Chefe de Relações Públicas” do Exército dos EUA, cargo ocupado por um general de brigada (general de duas estrelas, ou major general, em inglês). A publicação desse manual gerou um intenso debate na Internet, com muita gente concordando e outros discordando.

Mas se deve levar em consideração que existem razões objetivas para tais regras, de caráter estritamente militar. Essas regras remetem exatamente ao que foi comentado aqui no causa::, com relação ao assunto Wikileaks. Documentação de campanha é assunto de segurança. A maior parte desse material é classificado em função de questões que, no decorrer de uma campanha, podem ser muito sensíveis e chegar a colocar vidas e recursos em risco. Se os assíduos de causa:: acham que estou exagerando, e que uma inocente postagem em um blogue não pode fazer mal a um exército, leiam o post abaixo (também traduzido com certa leniência…), descoberto no blogue da revista australiana SC.

O Exército dos EUA alertou os muitos caçadores de fotos existentes entre os militares norte americanos sobre os perigos das fotos georreferenciadas, depois de que informações contidas nessas imagens foram utilizadas pelos insurgentes iraquianos para localizar e destruir quatro helicópteros Apache AH64D. O incidente, ocorrido em 2007 foi contado pelo US Army Maneuver Center of Excellence (MCOE) [“Centro de Excelência em Manobras do Exército dos EUA”, numa tradução livre – trata-se de um centro de formação de tropas blindadas, motorizados e aeromóveis, situada em Fort Benning, no estado da Georgia] pelo oficial de inteligência Steve Warren. “A nova frota de helicópteros integrava uma unidade de aviação recém-chegada a uma base no Iraque [e] alguns soldados tiraram fotos da linha de vôo … que foram enviados pela Internet, permitindo ao inimigo determinar a localização exata dos helicópteros dentro do complexo e realizar um ataque de morteiros, destruindo quatro dos Apaches AH-64″, disse Warren. “A consciência situacional de um efetivo em serviço inclui o mundo da mídia social. Se um soldado publica uma foto tirada em seu smartphone no Facebook, este efetivo pode estar transmitindo a localização exata de sua unidade. Coordenadas de longitude e latitude em fotos georreferenciadas são suficientemente precisas para comprometer a localização do soldado”, explicou o oficial. Fotos georreferenciadas são também rastreáveis em serviços como o Flickr. O sargento-ajudante Dale Sweetnam, da Divisão de Assuntos Públicos Online e Midias Sociais do Exército, disse que o timing do Facebook aumentou o problema, pois as fotos tiradas por usuários podem ser colocadas em um mapa. “Algumas dessas pessoas têm centenas de”amigos” que podem não ser realmente conhecidos delas”, disse Sweetnam. “Honestamente, é muito assustador pensar que um conhecido que se torna um “amigo” do Facebook pode descobrir sobre suas rotinas e hábitos, se você tem o costume de marcar sua localização em suas mensagens.” As informações dadas pelo Exército como não classificadas, quando combinadas em sequência, podem criar padrões de conjuntos de dados sensíveis [foi exatamente o que explicamos no causa::, anos atrás…]. “Em operações de segurança, falamos sobre o adversário”, disse o oficial de operações de segurança do MCOE, Kent Grosshans. “O adversário pode ser um hacker, pode ser um terrorista, um criminoso, ou qualquer um com a intenção de causar dano. Esse adversário recolhe peças de informação para montar um quebra-cabeça inteiro. Seja consciente das informações você está colocando na rede”, disse ele. “Não compartilhar informações com estranhos. Uma vez que está lá fora, ele está lá fora. Não há como as ter de volta.

Eu diria mais: compartilhar esse tipo de informação na Grande Rede, sem maiores cuidados, é burrice. Mas se deve levar em consideração que os alistados do exército dos EUA têm, em media, não menos que dezenove e não mais que vinte e poucos anos – inclusive os oficiais dos postos iniciais da carreira militar. Não há como impedir que esse pessoal tenha as mesmas atitudes de todos os outros garotos da mesma idade, e dentre essas atitudes mais comuns, atualmente, está a de postar baboseiras e inutilidades no Facebook. Depois de alguns anos discutindo o assunto, as autoridades do Exército dos EUA concluíram que os riscos gerados pelo tráfego de informações publicadas por pessoal militar eram superados pelas vantagens – dentre outras, é uma forma de diminuir o estresse. Na atualidade, qualquer militar pode ter páginas no Tweeter, Facebook, Flickr, blogues pessoais, e por aí vai. As informações podem ser publicadas até mesmo de computadores pertencentes ao Exército, desde que essas máquinas não sejam classificadas como “de segurança” – por exemplo, os lap tops usados para operar sistemas de combate, como radares de defesa antiaérea ou de comunicações militares. Existem, entretanto, limites bem claros, que aqueles expostos acima, e que se destinam a defender o Exército contra a exposição a hackers, e limitar ao máximo o acesso a sites de pornografia, jogos de azar e incitação ao ódio.

Nada garante que a sensibilização dos militares para o perigo da circulação sem controle de informações na Rede diminua esse perigo. E, pior, é possível que entre os militares que vazam informações sensíveis inconscientemente, estejam alguns que se aproveitem dessa liberalidade. O caso mais famoso, nos últimos tempos, é exatamente o do soldado de primeira classe (algo como segundo cabo, posto inexistente no Exército brasileiro) Bradley Manning. Manning, um “nerd” cheio de problemas pessoais, treinado como analista de inteligência eletrônica, na época com 22 anos, cumpria serviço no Iraque quando foi preso, depois que um hacker o denunciou como fonte de milhares de arquivos digitais classificados do Pentágono – os tais comentados aqui no causa::. Como foi discutido na época, na maioria eram arquivos cujo conteúdo dizia respeito ao cotidiano operacional de unidades em campanha. O problema é que, entre relatórios de operações que falavam de acidentes de carro, apreensões de pequenas quantidades de armas, uso de viaturas militares para transportar doações de natal e por aí vai, haviam informações realmente valiosas sobre posicionamento e regularidades de unidades em campo. Estas, avaliadas por especialistas, podem realmente ser perigosas. São mantidas na categoria “reservado” durante uns vinte anos, após acabada a guerra. Passado esse prazo, costumam a ser abertas aos interessados (quase sempre pesquisadores acadêmicos especializados) sem maiores restrições. O problema é que em meio a essa massa encontram-se também informações e imagens altamente embaraçosas por expressar à perfeição lambanças monumentais cometidas no campo de batalha e nas proximidades dele – no caso coisas como o fuzilamento sumário “por via das dúvidas” de um grupo de civis iraquianos em Bagdá e a eliminação, pela Força Aérea, de uma perigosa festa de casamento na aldeia de Granai, no sudoeste do Afeganistão. Porque os militares não eliminam tais coisas? Os motivos são diversos. Primeiro, por motivos meramente técnicos e legais: como instituições de estado compostas por servidores públicos, as forças armadas precisam registrar em documentos oficiais os próprios atos, inclusive como base de “segurança jurídica” – num estado de direito, as corporações militares, subordinadas ao Executivo, são supervisionadas pelos poderes Judiciário e Legislativo. Em segundo lugar porque, por mais absurdo que pareça, milico não costuma a considerar problema “sentar o dedo” em quem quer que lhes faça cara feia, principalmente em zona de guerra. Assim, essas informações são mantidas sob sigilo e sua abertura depende de iniciativas da sociedade civil ao legislativo e ao judiciário – é o caso, por exemplo, dos arquivos do Exército Brasileiro sobre a “guerra suja” do período ditatorial.

Assim, o governo norte americano tem agido com a sensibilidade característica: esconde os motivos dos eventos e a identidade dos militares envolvidos e mantém o soldado preso incomunicável, na prisão militar de Fort Mead, sob suspeita de traição. Trata-se de uma tentativa de se preservar, visto que, m geral, se o piloto de um helicóptero de combate mata uma dúzia de civis por “achar” que um deles porta um fuzil, ao fim e ao cabo, quem acabará responsabilizado é o oficial em comando. Casos assim são o sonho dos grupos civis que, nos estados de direito, cobram o Executivo e seus servidores. Do outro lado do espectro está o sargento do Corpo de Fuzileiros Navais Gary Stein, de 27 anos, lotado na base de Camp Pendleton. Frequentador de sites de extrema direita, simpatizante do populismo radical do Tea Party, Stein declarou em sua página no Facebook, no início do ano, algo como “Dane-se Obama. Não obedeço ordens dele.” Embora tenha, ao que parece, se arrependido da postagem, o comando da corporação não achou lá muita graça da coisa toda: Stein acabou tendo “baixa sem honras”. Embora a extrema direita o tenha transformado em “herói da liberdade de expressão”, não poderia ter dado outra: as regras militares norte americanas são bem claras, e proíbem declarações políticas de qualquer espécie, principalmente aquelas que podem ser consideradas uma declaração de motim, visto que o presidente, quer queira a extrema direita ou não, é comandante em chefe das forças armadas, instituição de estado ao qual Stein estava ligado. “Penso que está muito bem estabelecido há muito tempo que o direito de expressão é uma área da qual as pessoas abrem mão parcialmente, ao entrar para as forças armadas. Ordem e disciplina requerem que os militares mantenham respeito pela cadeia de comando”, declarou sobre o assunto o professor de Direito e ex-militar David Glazier. Faz sentido – em todas as corporações militares é a mesma coisa. E com as capacidades chamadas “virais” da Internet, esse tipo de caso talvez preocupe tanto as autoridades militares quanto o vazamento de documentos de campanha. Pensando bem, talvez preocupe até mais…

O carnaval que os sites de extrema direita têm feito em torno de Stein é tão grande quanto o carnaval que a esquerda liberal – inclusive norte americana – tem feito em torno de Julian Assange. Tanto quanto o soldado Manning parece ter sido aliciado por um hacker colaborador do Wikileaks, o mesmo pode ter se dado com Stein, visto suas ligações com a direita boquirrota. Nesse ponto, a Internet não tem posição política. Ambos pagam, merecidamenteo, o pato.

Nem responsabilidade militar: em 2006, durante a invasão do Líbano, soldados israelenses de dezoito anos (talvez os mesmos que são vistos neste vídeo ridículo e engraçadíssimo, postado no you tube algum tempo atrás), provavelmente achando, na esteira de seus oficiais comandantes, que seria “mamão com açúcar” enfrentar o Hizb´Allah (grupo xiita radical militarizado e muito bem treinado pelos iranianos e sírios) em campo aberto, danaram a tirar fotos dos locais por onde passavam suas unidades blindadas. Os guerrilheiros libaneses, demonstrando esperteza e conhecimento soberbo do terreno, recuaram com extrema habilidade e acabaram por atrair uma brigada de infantaria, apoiada por 40 blindados Merkava IV para uma armadilha, que, reconheceram os israelenses, foi muito bem tramada. Esse evento foi, mais tarde, chamado Batalha de Bint Jbeil, e terminou empatado, o que seria normal, não fosse o fato de que o lugar, uma cidade de porte médio dominada pelos xiitas, em meio a um bosque, era defendido por uns 200 milicianos. Não satisfeitos com a burrice extrema de lançar tanques e unidades mecanizadas em uma floresta, os militares israelenses, continuaram a tirar fotos e enviarem pela Internet, através de celulares plugdos às linhas telefônicas locais. Rastreando as comunicações do inimigo, os xiitas – segundo os israelenses, apoiados pelos sírios – determinavam os pontos de reunião das forças israelenses e montavam emboscadas do tipo “bate e foge”, atraindo o inimigo para cima de minas de alto poder explosivo. No fim, os israelenses não conseguiram consolidar a posição, sofreram baixas consideráveis e acabaram por admitir que “acabar com o Hizb´Allah é um sonho”. Parece que acabar com a irresponsabilidade natural do pé de poeira pós adolescente, também…::

Os mísseis de Outubro::O lado menos falado:: parte2

Semana passada, comecei um texto sobre a crise dos mísseis de 1962. Imagino que não seja um evento assim tão esquecido, e pensei que poderia ser original abordando os aspectos militares (o lado menos falado…). Acabei notando que, neste caso, não há como separar a política da estratégia e até da tática – afinal, esse episódio foi, antes de tudo, uma operação militar. Por sinal, não é que, em outros casos, dê para separar política, estratégia e tática (embora esta última tenha, no que diz respeito às operações de campo, certa autonomia. Os assíduos de causa::sabem disso muito bem, depois de anos de convivência com o blogue. Vale então passar os olhos pelo modo como os aspectos políticos se expressam através da estratégia e da tática. Agora, um esclarecimento: o texto que será lido foi feito com base num resumo resumidíssimo do excelente livro One Minute to Midnight: Kennedy, Khrushchev, and Castro on the Brink of Nuclear War,” do jornalista Michael Dobbs. Publicado em 2008, foi comprado num quiosque de aeroporto, nos EUA, e ficou esquecido, desde então. Existe uma versão eletrônica, atualmente, e eu garanto: é leitura de primeira. As informações retiradas de outras fontes estão indicadas da maneira usual. Talvez falemos mais do assunto em outra oportunidade. Divirtam-se, pois::

parte2Além dos mísseis balísticos que pretendiam instalar na ilha, apontados para os EUA, também foram transferidas para lá forças convencionais, pois as instalações de lançamento precisariam ser defendidas, caso o segredo da iniciativa gorasse e o governo dos EUA resolvesse partir para a ignorância. As primeiras unidades deslocadas incluíam um grupo aéreo de elite, o 32º GIAP (abreviatura, em russo, de “Regimento Aéreo de Caçadores da Guarda”). A importância dessa unidade era tal que fora a primeira da Força Aérea da URSS (em russo, VVS, abreviatura da expressão equivalente a “Forças Militares Aéreas”) a receber, em 1960, os caças a reação (então novíssimos) MiG21F e F13. As novas aeronaves, cujas primeiras unidades de produção foram entregues para testes de avaliação em 1959, passaram então a ser avaliadas em condições de operação militar. O 32º de “caçadores da Guarda”  – título atribuído a tropas de alto padrão de treinamento e desempenho, desde a época dos czares – era considerado dentre os melhores dos melhores da Força Aérea da URSS (essa unidade foi desativada nos anos 1990). Também foram destacados para Cuba elementos de defesa antiaérea, reunidos na 11ª Divisão de Defesa Aérea, equipada com os novos mísseis terra-ar S75N (SA2C Guideline, no jargão da OTAN), orientados por radar.

A operação, denominada pelos soviéticos de “Anadyr”, foi coberta por manobras diversivas, inclusive a mudança de número e até mesmo das insígnias das unidades envolvidas. A maior parte do equipamento e do pessoal do 32º GIAP foi transferida para o 213º Regimento Aéreo de Caçadores (abreviatura em russo, IAP), unidade recém constituída, operando a partir da base aérea de Kubinka, nas proximidades de Moscou. O restante do pessoal da nova unidade foi transferido de outra, sediada na Bielorussia. Uma vez ativado, o 213º foi imediatamente designado para uma “missão secreta”. As aeronaves, sem identificação, desmontadas, foram deslocadas por terra para uma base naval no Mar Negro e embarcadas em navios mercantes comuns. Segundo um interessante relato disponível na Internet, nem mesmo os oficiais do estado-maior da unidade sabiam para que destino estavam seguindo. Este só lhes foi informado quando o navio já se encontrava avançando pelo Atlântico. O mesmo aconteceu com todas as outras unidades soviéticas enviadas para Cuba – movimentaram-se em absoluto segredo, em navios mercantes e sem saber qual seria a missão.

A função dessas unidades (haviam também unidades de engenharia, manutenção e logística) seria “treinar as forças de defesa cubanas”. O 213º IAP, uma vez em Cuba, foi instalado na base aérea de Santa Clara. De fato, sua missão seria cobrir o espaço aéreo de Cuba, em função da presença dos mísseis. De forma complementar, sítios de defesa antiaérea foram espalhados por toda a ilha, formando um cordão, cada instalação afastada não de não mais de cem quilômetros uma da outra. Os pilotos do 213º, já que estavam em uma “missão de treinamento”, logo depois de se instalarem em Santa Clara, em meados de setembro de 1962, e terem seus aviões montados, começaram a voar, de modo a reconhecer os céus da região e treinar com o pessoal militar cubano. O treinamento e, principalmente, os testes para calibragem do equipamento de pontaria dos mísseis envolviam intensa atividade eletrônica, monitorada pela NSA (sigla de National Security Agency), que coordenava as atividades de SIGINT (acrônimo da expressão “SIGnal INTelligence” – “Inteligência de Sinais”, ou o rastreamento, monitoramento e interpretação de transmissões eletrônicas inimigas de toda espécie).  É certo que os russos soubessem que estavam sendo monitorados, já que os radares P12MA (“Spoon Rest A“, no jargão da OTAN) operavam na faixa VHF, cuja potência ia muito além do espaço aéreo cubano.

Até então, os norte-americanos tinham informações sobre a Força Aérea Revolucionária colhidas por informantes locais, na imprensa internacional, por reconhecimento aéreo e pelo monitoramento eletrônico. Sabiam que Cuba, desde 1960, tinha recebido aviões leves e de transporte para sua força aérea, e, depois da tentativa de invasão, também aeronaves MiG dos modelos 15 e 17, já bastante obsoletos. Tinham sido reportadas algumas aeronaves do tipo MiG19, que a inteligência dos EUA situava em número não maior do que 12 unidades. O “19” era um modelo mais capaz: birreator, voava desde 1953 e foi a primeira aeronave soviética supersônica. Armado com dois potentes canhões orgânicos Nudelman-Rikhter NR30, de 30 mm e até dois mísseis ar-ar buscadores de calor Vympel K13 (“Attol” no jargão da OTAN), também era considerado obsoleto diante dos caças norte americanos mais modernos. Para além, a FAR carecia de pessoal, instalações e equipamentos de apoio. Os pilotos e pessoal de terra disponíveis eram poucos, boa parte deles ainda remanescentes da época em que as forças armadas locais eram treinadas pelos EUA. Não era segredo que um programa de assistência militar estava sendo desenvolvido com base em equipamento e instrutores vindos da Tchecoslováquia.

E Cuba, na época, era prá lá de vigiada. Durante o mês de agosto, informações obtidas de fontes diplomáticas e de inteligência alertaram o governo dos EUA sobre a possibilidade de estarem os soviéticos instalando armamento estratégico na ilha. Informações obtidas pela NSA e  de reconhecimento fotográfico por aeronaves U2 mostraram, de forma muito clara, que sítios de mísseis ar-ar estavam sendo instalados, notícia que foi transmitida por Kennedy ao Congresso e ao público dos EUA no início do mês seguinte. Os vôos de reconhecimento foram intensificados, assim como as atividades SIGINT conduzidas pela NSA. A análise do material obtido passou a ser feita com extrema cautela. Era, de fato, uma guerra de informações e inteligência que, certamente, envolvia alguns riscos.

Mas não da Força Aérea Revolucionária, que era considerada, com razão, ninharia. Assim, dá para imaginar a surpresa dos tripulantes de dois reconhecedores McDonnell RF-101 “Voodoo” que, num vôo de exploração fotográfica cruzaram com um MiG21F pilotado por um soviético, armado com mísseis K13 ativos. A aeronave soviética não chegou a tentar se posicionar para o abate, e os norte ameicanos desengajaram sem dificuldade. Pouco tempo depois, outro MiG21, em missão de treinamento com aeronaves cubanas foi instruído a interceptar outro par de Voodoo que haviam invadido o espaço aéreo cubano. Desta vez a aeronave soviética deixou bem clara suas intenções e os norte americanos trataram de fugir em direção a Flórida (no incidente anterior, os aviões da USAF voavam sobre o mar). Curiosamente, desta vez o caça soviético levava apenas mísseis de exercício e não tinha o canhão orgânico carregado com munição real.

A análise de material fotográfico obtido a partir de uma missão especialmente planejada de um U2, em 14 de outubro, revelou que os soviéticos estavam instalando armamento estratégico em Cuba, informação que embasou os boatos que chegavam da ilha e da Europa. O Estado maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA aconselhou, ainda no dia 14, que Kennedy ordenasse imediatamente um ataque aéreo contra as instalações soviéticas. Consultado o governo soviético, o ministro do exterior garantiu que a URSS não tinha intenções agressivas e que os assessores soviéticos em Cuba estavam na ilha como convidados do governo local, e ainda assim, devido às constantes agressões dos EUA ao “pacífico povo cubano”. Kennedy estava em entendimentos com o líder soviético Nikita Khrushchev desde a conferência de Viena, em novembro do ano anterior, embora sem resultados relevantes. A iniciativa soviética “melou” o que tinha sido, inicialmente, considerado um sucesso diplomático. De fato, alguns especialistas consideram que a decisão soviética baseou-se em uma avaliação equivocada sobre a personalidade do presidente norte-americano, feita a partir de Viena.

No dia 22 de outubro, diante de evidências de que os soviéticos continuavam deslocando equipamento para Cuba, e pressionado para ordenar ataques aéreos preventivos, Kennedy optou por impor um bloqueio naval. Em pronunciamento feito pela televisão, o presidente alertou o grande público norte americano sobre o que era considerado uma ameaça intolerável à segurança dos EUA: estavam quase completas as bases que receberiam mísseis capazes de atingir quase todas as maiores cidades dos país, inclusive a capital. Afirmou que os EUA não excluía a possibilidade de usar força militar contra o que chamou “uma ameaça clandestina e imprudente para a paz mundial”. Em função da cultura política dos EUA, foi um passo importante, pois abriu ao debate público a situação.

As forças norte-americanas em todo o mundo foram colocadas em DEFCON 3 (Defense Readiness Condition – Condição de Prontidão para a Defesa, nível 3), ou seja, condição de alerta geral. Todas as corporações envolvidas com assuntos de defesa (forças armadas, agências de defesa civil, Guarda Costeira, Guarda Nacional, agências de inteligência, dentre outras) são alertadas para se preparar para o estado de guerra. As férias e licenças são suspensas e as forças armadas são convocadas a se aquartelar. Só que, no dia seguinte, o Comando Aéreo Estratégico (SAC – departamento operado pela Força Aérea, mas ligado diretamente ao Ministério da Defesa dos EUA), que controla as forças estratégicas do país baseadas em terra (bombardeiros e mísseis nucleares), foi colocado individualmente em DEFCON 2, ou seja – estado de guerra. Foi o mais alto nível já atingido pelas forças de defesa dos EUA, e nunca igualado desde então. O próximo passo: guerra nuclear. Essa ameaça iria pairar sobre a cabeça da humanidade pelos seis dias seguintes.

A operação naval mobilizou 56 unidades de primeira linha, inclusive um navio-aeródromo da classe “Forrestal“, um cruzador e duas fragatas de ataque (“porta-mísseis”), e 22 contratorpedeiros. A missão era deter qualquer envio de equipamentos militares para Cuba, o que implicaria, caso necessário, em revistar navios em rota para a ilha, que passariam a ser interceptados numa linha a aproximadamente 500 milhas de distância da costa cubana. Em 23 de outubro, a Organização dos Estados Americanos aprovou o bloqueio a Cuba e os governos instruíram seus navios e aviões a se afastar da zona de exclusão. O bloqueio começaria a valer a partir das 10 horas da manhã do dia seguinte. Em 25 de outubro, foi dada permissão a um navio-tanque soviético para seguir viagem sem ser abordado – segundo a Marinha dos EUA, o reconhecimento aéreo não detectara carga suspeita e aquele tipo de navio não permitia a presença de outra carga que não combustíveis e outros líquidos. No dia seguinte, um cargueiro libanês foi abordado, revistado e liberado. O navio-escola brasileiro “Custódio de Mello”, um transporte de tropas adaptado para instruir guardas-marinha, em rota para Nova Iorque, foi instruído a mudar seu curso para evitar quaisquer constrangimentos.

Em meio à intensa movimentação política e militar, a cúpula política, que incluía o círculo interno da presidência, acionou os canais de comunicação entre governos, que vinham sendo construídos desde a conferência de Viena. Consultado pelo Procurador geral do governo (Robert Kennedy, irmão mais moço do presidente) em 24 de outubro, o embaixador soviético em Washington, então recém-indicado, Anatoly Dobrynin (que ocupou o posto até 1986 e declarava adorar o clima da capital norte-americana), afirmou que não seriam instalados mísseis em Cuba e o que havia sido detectado era equipamento eminentemente defensivo.

Segundo se conta, Khrushchev ficou furioso com a iniciativa norte americana, considerada um ato de guerra.  Entretanto, os soviéticos pouco podiam fazer: seus armamentos ofensivos não estavam ativados e os de defesa tinham capacidade limitada. Não havia possibilidade de enfrentar os EUA no mar: o controle marítimo e aéreo, no Atlântico, era completamente norte-americano. O premier soviético enviou uma mensagem ao presidente dos EUA na qual afirmava que todos os armamentos existentes em Cuba não tinham intenções ofensivas, e que não constituíam ameaça real para a segurança de qualquer nação nas Américas.

Na ilha, a situação era de nervosismo – o que faz sentido, pois se tratava do teatro de operações potencialmente mais quente da Guerra Fria. A falta de informações sobre a situação real, segundo alguns oficiais soviéticos na ilha era o pior aspecto da situação, visto que não permitia um planejamento antecipado da defesa contra um possível ataque dos EUA. Os pedidos de instruções dirigidos à Moscou obtinham respostas vagas. Sobre como lidar com as aeronaves norte americanas, a instrução era para somente reagir a um “ataque real”, embora ninguém tivesse definido claramente o que seria isto. Para o comando soviético em Moscou, um tal ataque teria de envolver uma grande formação de aeronaves, embora os russos soubessem que um ataque nuclear poderia ser realizado por duas ou três aeronaves tipo B58 Hustler, um bombardeiro estratégico supersônico não muito maior do que um avião de caça. As ordens eram claras: não atacar as aeronaves norte americanas que diariamente invadiam o espaço aéreo da ilha. Segundo depoimentos de alguns dos militares, dados após o fim da URSS, o pessoal soviético em Cuba temia os norte-americanos tanto – ou talvez até menos… – quanto a tendência soviética a ter prontos, em situações como aquela, os bode expiatórios que seriam usados caso as coisas dessem errado. Os comandantes que estavam numa frente situada a milhares de quilômetros do centro de decisão eram os ideais, pois sempre poderiam ser acusados de “não obedecer ordens diretas”, caso derrubassem um avião dos EUA. Se não derrubassem, e a força aérea norte americana incinerasse as bases soviéticas sem encontrar reação, a acusação seria de “não cumprir com o dever”, ou pior: “covardia diante do inimigo”.

Nessas circunstâncias, as defesas soviéticas, tomadas de paralisia, passaram a ser consideradas inoperantes pelos próprios cubanos. O governo do país, diante da relutância das unidades militares do aliado em lidar com as incursões aéreas norte americanas, deu ordens para que as próprias unidades antiaéreas abrissem fogo contra aeronaves não autorizadas no espaço aéreo cubano.

Não se sabe direito se a ordem do governo cubano acabou por empurrar os soviéticos a usar a cobertura antiaérea montada na ilha. O fato é que no dia 27 de outubro uma salva de três mísseis S75N derrubou uma aeronave de reconhecimento U2, nas proximidades da cidade de Banes, província do Oriente. O certo é que a ordem partiu do comando das forças armadas soviéticas, em Moscou, pois o comandante na ilha, general de exército Issa Pliyev, estava baixado a um hospital, com sérios problemas de saúde.

No governo e na imprensa de Cuba, a queda do U2 foi comemorada como “a primeira vitória do povo contra o imperialismo”. A notícia chegou a Washington durante uma reunião do presidente Kennedy sua assessoria. Desde o começo da crise, havia concordância, na equipe de Kennedy, de que a resposta adequada à derrubada de um avião dos EUA seria um ataque aéreo. Depois de alguma controvérsia, os norte-americanos concordaram que, como aquele ato contrariava o padrão de atuação dos soviéticos até aquele momento, a derrubada deveria ter sido um engano cometido por comandantes de campo. Assim, Kennedy foi capaz de resistir a ala de seu governo que queria partir para a retaliação. Um ataque norte americano, mesmo que limitado, provavelmente teria interrompido as negociações com os soviéticos e tornado exponencialmente maior o perigo de uma confrontação nuclear.

Se a derrubada do U2 (cujo piloto morreu na queda) foi dada como incidente isolado, o perigo da derrubada de outra aeronave dos EUA continuava, em função dos vôos de baixo nível de reconhecedores RF8 Crusader, da Marinha, e de RB47H Stratojet, estas usadas para atividades SIGINT, em altitudes médias, no litoral cubano. Os mísseis estavam sob controle direto dos militares soviéticos, mas as baterias antiaéreas estavam, em sua maioria, sob controle dos cubanos. Assim, no mesmo dia em que o U2 caiu, um RF8 voando em alta velocidade e baixo nível foi atacado por baterias de canhões AAe de 37 mm, orientadas por radar. A aeronave voltou à base, na Flórida, com poucos danos, de maneira que os norte-americanos, novamente, que valia à pena deixar barato.

Era o que queria o secretário de defesa de Kennedy, McNamara. Ao contrário, o general de exército Maxwell Taylor, chefe do estado maior conjunto das forças armadas dos EUA. Taylor, então um dos principais representantes de uma ala política conhecida como “falcões”, acreditava que o poder militar norte-americano deveria ser usado como forma de conter a expansão soviética de forma ativa.

A crise acabou sendo resolvida diplomaticamente, enfim, a partir da proposta soviética, feita em 26 de outubro, na qual, a URSS comprometia-se a retirar todos os armamentos ofensivos caso os EUa se comprometessem a não invadir a ilha. No dia seguinte, Khrushchev, pressionado por seus militares, acrescentou à proposta a retirada dos mísseis Júpiter da Turquia. A proposta foi apresentada a Robert Kennedy pelo embaixador soviético, com o qual ele continuava se encontrando informalmente. Informado das reclamações soviéticas, Kennedy apressou-se em se mostrar disposto a colocar os mísseis da Turquia nas negociações. A situação voltou a ficar tensa quando da derrubada do U2 sobre Cuba, a qual se juntou outra situação potencialmente desastrosa: a invasão do espaço aéreo soviético por outro U2, que embora não tenha dado em nada (o reconhecedor conseguiu evadir-se antes de ser interceptado), fez o secretário de defesa quase perder a cabeça.

Ainda no dia 27 chegou à Casa Branca uma carta do premier soviético na qual colocava a questão dos mísseis Júpiter. Kennedy mostrou-se disposto a aceitar a proposta, mas não podia fazê-lo publicamente, visto que a maioria de seus assessores – e dos políticos envolvidos na questão – não considerava que uma coisa tivesse relação com a outra.  A solução apresentada foi responder a primeira proposta de Khrushchev, e acrescentar um acordo secreto, no qual os norte-americanos concordariam em retirar os mísseis da Turquia, mas apenas alguns meses depois de os soviéticos retirarem os seus.  A contrapartida aberta oferecida por Kennedy era suspender o bloqueio e garantir, através das Nações Unidas, que não haveriam outras ações militares contra Cuba, no futuro. Essas declarações tinham sido acompanhadas por blefes cuidadosamente urdidos de que as forças norte americanas estariam preparadas para invadir Cuba nas próximas 48 horas. Ao que parece, os soviéticos caíram no golpe, e no dia 28 foi anunciada a resolução do conflito.  No mesmo dia, os vôos de reconhecimento foram suspensos, como gesto de boa vontade. No início de novembro, o equipamento ofensivo soviético começou a ser desmontado. No final de novembro começou a ser carregado de volta para a URSS. Os caças MiG21, parte dos mísseis e radares e do equipamento de terra ficaram, como compensação aos cubanos::

Os mísseis de Outubro::O lado menos falado::

Imagino que todos os assíduos de causa:: conheçam, ainda que por alto, a história da Crise dos Mísseis de Cuba. Trata-se de umaconfrontação de forças entre EUA e URSS ocorrida ao longo do mês de outubro de 1962, que não chegou a envolver combates, embora tenha seja considerada por alguns especialistas como o momento em que as duas potências nucleares chegaram mais perto de ir à guerra. No entanto, um exame dos fatos militares geralmente fica restrito a publicações especializadas, geralmente em inglês. Visto que agosto marca os 50 anos do início da crise, o blogue das boas causas irá, em duas partes, dar uma olhada no panorama militar deste que é um dos maiores eventos políticos do século passado::

Ligada ao contexto de tensão controlada da Guerra Fria, a Crise dos Mísseis de Cuba teve seus antecedentes, evidentemente, na vitória da revolução Cubana, em janeiro de 1959, e na declaração, por Fidel Castro, dois anos depois, do alinhamento do país ao bloco comunista. Foi um golpe na estratégia norte americana de “defesa hemisférica”, no qual a enorme máquina de inteligência constituída pelos EUA a partir da 2ª GM, literalmente comeu mosca. Ainda assim, os EUA optaram, já dentro da política do governo Kennedy de enfrentamento flexível da expansão comunista, em tentar minar o regime cubano por meio de bloqueio diplomático (o rompimento de relações diplomáticas, que ocorreu em janeiro de 1961, e posterior expulsão da OEA) e econômico e na montagem de “operações cobertas”. Estas se caracterizavam pelo apoio, do Exército dos EUA, da CIA e das agências de inteligência militar, às tentativas de grupos de exilados cubanos de extrema direita, instalados na Flórida, em derrubar o regime comunista pró-soviético. Tal opção de ação culminou com uma tentativa de invasão de Cuba por uma tropa de exilados armada e treinada pelos EUA. Esse episódio foi denominado, no Ocidente, como “Invasão da Baía dos Porcos”.

Vale à pena fazer um parágrafo para esse evento. Desde pelo menos o final do governo Eisenhower os EUA tinham optado por tentar ações indiretas contra o governo cubano, sob a coordenação da CIA e envolvendo as forças armadas e a inteligência militar. Os antecedentes do projeto datam dessa época, provocados por sucessivos fracassos em iniciar um movimento de guerrilha no interior de Cuba. A idéia central era colocar uma pequena unidade de infantaria, com força de regimento leve, em território cubano, pois se considerava que a notícia da invasão provocaria um levante geral contra o governo, e a força invasora poderia, caso não conseguisse derrotar rapidamente as forças do governo, começar atividades de guerrilha. Em 1960 a CIA começou a recrutar e treinar exilados cubanos, que passaram a receber treinamento de armas e táticas em bases situadas na Flórida, Lousiania, Guatemala e Porto Rico. Após algum debate, o desembarque foi designado para uma série de pequenas praias desertas situadas em um lugar conhecido por “Bahia de los Cochinos” (Baía dos Porcos), na província de Las Villas. A força de exilados foi denominada “Brigada de Asalto 2506”, e segundo foi divulgado posteriormente, havia sido criada sob os auspícios de um “Conselho Revolucionário Cubano” em Miami. Tratava-se de uma operação diversiva montada pela CIA, visto que tal órgão tinha sido montado cerca de um mês antes da invasão. A”Brigada 2506″ contava com pouco mais de 1400 efetivos. As operações foram abertas em 15 de abril, com bombardeiros B26 Invaders, pintados com as cores cubanas, atacando com foguetes e canhões três bases aéreas numa tentativa de incapacitar a força aérea de Cuba. As oito aeronaves encontraram forte oposição antiaérea, um deles foi derrubado e outro, muito danificado, conseguiu pousar em Key West, na Flórida. No dia seguinte, durante a cerimônia pública de sepultamento dos mortos nos ataques aéreos, Castro reafirmou a adesão do regime ao bloco soviético. A invasão seguia adiante, não sem inúmeros erros. Em 17 de abril, elementos paraquedistas da “Brigada 2506”, com força de companhia e transportados por aeronaves cargueiras C46 e C54 providenciados pela CIA, foram lançados na área da Baía dos Porcos. O objetivo era bloquear uma estrada que poderia ser usada pelos defensores. Esta missão também falhou, ao mesmo tempo que a força de uns 1200 efetivos era desembarcada na praia de Girón, com equipamento pesado e artilharia.  O desembarque não foi totalmente bem sucedido: boa parte do equipamento se perdeu devido as operações aéreas da Força Aérea Revolucionária. Os primeiros combates favoreceram os atacantes, mas as forças de defesa da ilha já estavam mobilizadas, e foram rapidamente  deslocadas para a cabeça de praia. Aos poucos, os invasores foram ficando sem munição e em menos de três dias foram totalmente derrotados. Uma tentativa feita pela Marinha dos EUA em resgatar pelo menos parte da força atacante foi abortada por ordem direta de Kennedy. Este também havia negado auxílio da Força Aérea dos EUA, pois achava que o projeto estava fadado ao fracasso desde o início.

No entanto, a invasão assustou Fidel Castro, pois parecia evidente que os norte-americanos mais cedo ou mais tarde encontrariam uma justificativa para intervir militarmente na ilha. Por volta volta de julho de 1962, Castro  anunciou seriam tomadas medidas políticas para que qualquer agressão direta dos EUA contra Cuba se transformasse em guerra mundial. As “medidas políticas” tomaram a forma de uma solicitação de assistência soviética para a defesa da ilha.

Era tudo que queriam os soviéticos. Até aquele momento, Moscou já vinha auxiliando os cubanos em assuntos econômicos e militares, mas a ajuda militar era bastante limitada pelo cuidado cubano em não provocar os EUA. Os soviéticos, por sua vez, se viam provocados pela insistência dos EUA, a partir de 1958, em constituir estoques de mísseis de alcance médio e intermediário (MRBMs e IRBMs) e respectivas ogivas na Europa, sob o guarda-chuva da OTAN. Os mísseis, instalados inicialmente na Grã Bretanha e Itália, sob controle das forças armadas locais, seriam alegadamente de uso tático, mas o fato é que eram capazes de atingir o território soviético. Essa iniciativa devia-se (pelo menos segundo os norte-americanos) aos esforços da URSS em alterar o balanço de capacidade nuclear, naquele momento amplamente favorável aos EUA. Tio Sam alegava que a superioridade nuclear contrabalançava a enorme superioridade soviética em forças convencionais. A capacidade convencional soviética era, de fato, uma desculpa mais do que aceitável. Por volta do final dos anos 1950, as forças armadas “do Pacto de Varsóvia” (entre aspas mesmo, já que o poderio militar dos aliados europeus da URSS era pífio) eram pelo menos duas vezes maiores do que as norte-americanas e européias (por volta de 1962, no total, uns três e meio milhões de efetivos, oitenta por cento deles dos EUA). A defesa da Europa Ocidental estava amplamente baseada na capacidade militar norte-americana instalada na Europa, e as nações européias relutavam em ampliar seus gastos com defesa. Se em época de bonança econômica, os custos ficavam pesados para os EUA, em épocas de crise, então, nem se fala. A manutenção de mísseis na Europa fazia parte da política de defesa do “mundo livre” do governo Eisenhower (1952-1960), difundida a partir de 1954 e denominada “New Look”, o que incluía o enfrentamento contra a expansão comunista. Essa política punha grande ênfase na “resposta nuclear”, considerada mais barata e efetiva do que a manutenção de forças convencionais capazes de contrabalançar a superioridade soviética. Com o governo Kennedy, o secretário de Defesa Robert McNamara estabeleceu uma nova doutrina, na qual a resposta a um ataque seria proporcional ao alcance e perigo que este envolvesse. O estoque de mísseis em território europeu foi, entretanto, mantido, visto que, em 1959, os planejadores militares dos EUA acreditavam que um ataque soviético a partir da Alemanha Oriental levaria na melhor das hipóteses, uns cinco dias para alcançar a o canal da Mancha e a fronteira franco-espanhola.

Os soviéticos viram na solicitação cubana uma oportunidade para contrabalançar o cerco nuclear montado pelos norte-americanos. Moscou já vinha trabalhando no projeto desde o mês de maio, em função da instalação, em bases localizadas na Turquia, de MRBMs PGM13 “Júpiter”. Com alcance de uns 2400 km, embora de baixa confiabilidade em termos de precisão, esses vetores colocavam Moscou ao alcance de um ataque dos EUA. A manobra foi considerada pelo governo soviético como inaceitável. Em meados de agosto de 1962 começou a transferência, para o Caribe, de algumas unidades de engenharia, que, uma vez na ilha, iniciaram a instalação de bases que deveriam receber os mísseis balísticos de alcance intermediário SS20.

Na próxima semana, alguns aspectos militares da “crise dos mísseis”, tanto do lado soviético quanto norte americano. Aguardem todos!::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Idéias absurdas que ajudaram a vencer a guerra3::Lugares esquisitos que puderam ser visitados durante a Guerra: Islândia::

Em setembro de 1940, o presidente Roosevelt negociava com a Inglaterra o famoso acordo “destróieres-por-bases”, no qual cinquenta obsoletos “flush deckers-four pipes” mantidos na reserva pela Marinha dos EUA foram cedidos à Marinha Real. Os “flush deckers” (algo como “convés reto”, ou “convés livre”) de fato eram três classes de navios, deslocando cerca de 1200 toneladas cada um, construídos em massa (273 foram lançados ao mar) no final da Grande Guerra, entre 1917 e 1918. Em troca, a Grã-Bretanha cedia, por 99 anos, a concessão de diversas bases navais britânicas no Hemisfério Ocidental. O acordo causou surpresa não apenas nos círculos políticos londrinos, mas até mesmo nos EUA. Não foram poucas as observações tipo “a Inglaterra cedeu seu império em troca de alguns navios obsoletos”. Para a opinião pública nos EUA, os motivos também eram um tanto obscuros, já que qualquer participação em uma “guerra estrangeira” era alvo de grande implicância. Políticos, diplomatas e militares viam a coisa de modo diferente: as bases, situadas principalmente na região do Caribe, poderiam, rapidamente, ser estratégicas para a defesa dos EUA.

Para a Grã-Bretanha, por outro lado, a coisa era simples assim: a cessão dos contratorpedeiros, naquele momento, era vital para a sobrevivência da Inglaterra, cujas linhas de comunicação com a América do Norte – Canadá e EUA – estavam sendo esmigalhadas pela campanha submarina dos nazistas. Os destróieres (ou “contratorpedeiros”, em nossa língua) permitiriam aos britânicos montar um sistema de comboios mais eficaz, principalmente depois que os nazistas estenderam a zona de guerra até águas próximas da Islândia, em 11 de março de 1941.

Era um lugar literamente perdido no meio do Atlântico Norte, varrido por ventos cortantes e banhado por águas escuras e geladas, mas, naquele momento interessava aos EUA tanto quanto as paradisíacas ilhas do Caribe. A ilha, desde 1919 uma província soberana do Reino da Dinamarca, tinha sido ocupada pela Marinha Real, seguida por tropas canadenses, quase um ano antes, em maio de 1940. O ataque alemão contra o Reino da Dinamarca, em abril de 1940, resultou em uma campanha militar de seis horas de duração, com doze guardas-fronteiras dinamarqueses mortos e seis alemães feridos. Curiosamente, o estado  dinamarquês não foi dissolvido pelos nazistas, com o rei Cristiano sendo mantido formalmente como chefe de estado e o governo, de posições surpreendentemente anti-nazista, continuando no cargo, lógico que sob supervisão de funcionários diplomáticos nazistas, da Gestapo (“Polícia Secreta do Estado”, subordinada ao Ministério do Interior do Reich) e do sinistro Serviço de Segurança da SS (Sicherheitdienst, ou SD, chefiado pelo mais-que-sinistro gruppenführer Reinhardt Heindrich). A defesa, as relações exteriores e a econômia passaram a ser controladas pelos nazistas. Um dos principais motivos para a inédita atitude alemã foi o interesse em manter o fluxo de alimentos que vinha da produtiva zona rural dinamarquesa, com a qual os alemães mantinham intensa relação econômica. Mas, imediatamente, o OKW (Estado-maior das Forças Militares alemãs), preocupado com as linhas de suprimentos do ataque contra a Noruega, estava interessado em uma enorme base aérea situada na província da Jutlândia, que colocava quase todo o território e a costa noruegueses ao alcance da Luftwaffe. Um dos termos diante dos quais o rei Cristiano foi colocado, ao ser retirado da cama, na madrugada do dia 9 de abril, pelo embaixador alemão junto à Corte, foi que “posições de interesse militar” fossem abertas às Forças Armadas alemãs. A Islândia certamente cabia nessas “posições de interesse militar”, mas era muito longe, e entre ela e o continente estava a “Esquadra Metropolitana” da Marinha Real, a competentíssima Home Fleet. Embora os alemães confiassem em sua superioridade aérea como forma de superar o domínio dos mares britânico, era um projeto para o futuro.

A insistência do governo da Islândia em manter a posição de neutralidade que a Dinamarca tinha tentado adotar até ser invadida pela Wehrmacht foi a razão para a invasão britânica. A população local tinha diferenças culturais e políticas significativas com relação à metrópole dinamarquesa, e não queria tropas estrangeiras em seu solo, fossem quais fossem. A província dinamarquesa resolveu manter o status de “província independente” do governo metropolitano poucos dias depois da neutralidade dinamarquesa ser “colocada sob a proteção do Reich“. Ainda assim, as autoridades britânicas e norte-americanas manifestavam grande preocupação com um hipotética presença alemã na ilha, que fica a cerca de 1650 quilômetros da costa norueguesa e mais ou menos a mesma coisa da Escócia.  Uma razão para essas preocupações era a posição estratégica da Islândia, situada bem no meio do chamado GIUK Gap (“Greenland-Iceland-United Kingdom” – “Brecha Groenlândia-Islândia-Reino Unido”). Esse espaço de centenas de milhares de quilômetros quadrados de água gelada constitui uma passagem muito pouco frequentada entre o Mar do Norte e Atlântico Norte. Ainda hoje, os EUA mantèm uma base naval na ilha por este motivo. Com a ocupação da Noruega, os fiordes, um tipo de enseada longa, estreita e com águas calmas e profundas, tornaram-se lares adoráveis para os U-boats alemães, que, através do GIUK penetravam o Atlântico Norte – e a festança entre 1940 e 1942, não sem razão, foi chamada pelos submarinistas alemães de “tempos felizes”. Entretanto, a “neutralidade” norte-americana impedia qualquer ação que violasse a neutralidade islandesa. Os ingleses resolveram agir e enviaram um regimento de fuzileiros navais para a ilha, em uma flotilha de contratorpedeiros comandada por um cruzador ligeiro (naquele momento, era o máximo de que podiam dispor). Essa pequena força ocupou a capital, Reykjavik, em aproximadamente 12 horas, sem encontrar resistência.

Este ato, por outro lado, deu tanto a Roosevelt quanto a Hitler a desculpa de que precisavam para estender a todo o Atlântico Norte. No caso dos alemães, em setembro de 1940 a campanha submarina só não tinha interrompido as linhas de suprimento entre a Terra Nova e a Grã-Bretanha devido à falta de submarinos aptos a atuar em mar aberto – em setembro de 1939 a Marinha de Guerra Alemã dispunha de apenas uma dúzia capazes de sair em patrulha oceânica; em setembro de 1940, eram uns 40, mas dificilmente a metade estava operacional. Quanto ao governo norte-americano (o povo queria manter-se longe da guerra “européia”), este estava resolvido, após o desastre de Dunquerque, a rearmar as forças armadas britânicas e prover aos britânicos todo apoio que fosse possível sem ter que explicar ao Congresso e aos eleitores.

A permanência dos britânicos na Islândia mostrou-se problemática por diversos motivos. Embora as autoridades locais tenham se dirigido à população para que considerassem os britânicos como “convidados”, os ilhéus não demonstraram grande simpatia pelos ocupantes, e surgiram vários problemas com a população civil. A situação iria piorar conforme chegaram outras tropas para consolidar o controle britânico sobre a ilha. A população da ilha era de mais ou menos 120.000 pessoas, e os britânicos colocaram lá duas brigada do exército inglês, outra canadense, unidades de artilharia antiaérea, da Marinha, do Comando Costeiro da RAF e pessoal civis, chegando o total, cerca de seis meses depois, a quase 25.000 pessoas, o que provocou a necessidade de construir instalações em diversos lugares da ilha, a principal das quais o complexo de Hvalfjordhur. O ambiente não era agradável para as tropas birtânicas. A paisagem local era inóspita, com um clima frio e ventoso e praticamente não haviam árvores. A língua falada lá era difícil de entender por ser muito diferente do inglês – de fato, fala-se na Islândia uma versão do norueguês medieval, difícil até mesmo para dinamarqueses.

Mas o maior problema é que os britânicos precisavam das tropas estacionadas lá em outros lugares, e assim ficou estabelecido que a manutenção da ilha passaria para a responsabilidade dos EUA. As relações com os EUA já existiam, visto que, desde o rompimento com a Dinamarca, a Islândia tinha aberto uma legação em Nova York. Embora não houvessem propriamente planos em nenhum dos lados, os diplomatas islandeses chegaram a consultar os norte-americanos em torno da colocação da ilha sob proteção norte-americana. A invasão britânica interrompeu as conversações, embora tenham acontecido consultas entre britânicos e norte-americanos sobre o destino da ilha, em caso da entrada dos EUA na guerra. Em abril de 1941 funcionários norte-americanos procuraram a representação islandesa, pois o crescente envolvimento dos EUA na guerra – principalmente no combate à camapanha submarina alemã contra a navegação no Atlântico voltou a colocar ilha sob o foco dos EUA.  O presidente Roosevelt ofereceu, em 28 de mio para que os EUA assumissem a responsabilidade pela defesa da ilha, oferta que foi prontamente aceita por Churchill, que via no fato mais uma oportunidade  para trazer os EUA para perto das hostilidades. O problema maior era, como sempre, a posição isolacionista da opinião pública norte-americana, que ressoava fortemente no comportamento dos políticos locais. O gabinete d Rooselvelt resolveu que qualquer movimentação de tropas para a ilha só seria feita caso precedida de um pedido formal por parte dos locais.  Após o estabelecimento de termos que incluiam o total respeito à soberania islandesa, autodeterminação em termos administrativos e garantia de retirada logo que terminassem as hostilidades, o convite foi feito no final junho, e uma brigada de fuzileiros navais da Marinha dos EUA foi preparada para deslocar-se para a Islândia. Embora os britânicos não escondessem que estavam doidos para sair de lá, problemas com a preparação de uma grande unidade de infantaria, a 5ª Divisão acabaram por adiar a partida. A 5ª Divisão substituiu os fuzileiros navais na ilha, e foi seguida por uma série de outras unidades militares norte-americanas.

Em abril de 1942 as forças britânicas estavam quase totalmente fora da ilha, e no início do verão, a maioria daqueles já tinha sido removida, restando apenas elementos do Quartel general, que foram desmobilizados em agosto de 1942. Permaneceram, entretanto, unidades da RAF e da Marinha Real, envolvidos com o patrulhamento do GIUK e escolta de comboios – estes permaneceriam até o final da guerra. Conforme a maré da guerra ia mudando, até mesmo as autoridades britânicas em Londres pararam de falar em “ataque alemão” – ataque que, mesmo em 1940 tinha sido tão provável quanto o vôo de um porco. Os norte-americanos se convenceram, em 1943, que não eram necessários 15.000 infantes e um batalhão de tanques leves para defender a ilha, e despacharam a maioria dos elementos da 5ª Infantaria (três regimentos) para a Inglaterra. Ainda permaneceram por lá unidades de combate terrestre, de artilharia antiaérea, de artilharia costeira engenharia e tropas de apoio, bem como a maioria das unidades de patrulha aérea da Aviação Naval e vasos de superfície da Marinha dos EUA. Estes ficariam até o final da guerra. Embora a “Batalha do Atlântico” tenha sido incontestavelmente vencida pelos aliados em 1943, os U-boats continuariam a ser uma ameaça nada desprezível durante o restante da guerra.  

Quanto à Islândia, o acordo de soberania com a Dinamarca, estabelecido em 1919, deveria passar por revisão 25 anos depois, mas a invasão alemã colocou a questão sob outro foco. Em 1943, as autoridades locais, após consulta à população, resolveram romper unilateralmente com o governo dinamarquês, repudiando a monarquia e estabelecendo uma república. O novo estado foi oficialmente estabelecido em 17 de junho de 1944. Uma pequena força militar foi criada, sob a supervisão dos EUA. Os principais elementos dessa força eram (e ainda são) a Polícia Nacional, que pode ser convocada em caso de necessidade, e uma Guarda Costeira, composta de vasos de patrulha costeira e uma pequena dotação de aeronaves de patrulha.

Os ingleses deixaram a ilha em meados de 1945, quando os últimos elementos da Marinha Real voltaram à Grã-Bretenha. Alguns elementos da RAF foram deixados na ilha em função de necesidades de controle de tráfego aéreo. Os norte-americanos, apesar do acordo assinado com os islandeses, permaneceram. A Guerra Fria criou um novo panorama estratégico, e a “brecha GIUK” continuava lá – apenas os submarinos eram outros. Em 1946 um novo acordo foi assinado, garantindo aos norte-americanos a utilização das instalações militares e a presença de efetivos militares da marinha e da Força Aérea. Em 1949 a Islândia juntou-se ao Tratado do Atlântico Norte::