A DAAe do EB chega ao presente::Uma geringonça de primeira linha no inventário, afinal::

parte1Não se trata de notícia nova – até pelo contrário: em fevereiro último, o governo brasileiro decidiu pela aquisição, em um primeiro momento, de cinco baterias AAe de origem russa. Duas são do tipo Igla-S, de defesa de ponto (curto alcance) e três são do tipo Pantsir S-1.

A “carta de intenções” entre brasileiros e russos foi assinada em fevereiro, e é apenas o começo da discussão visando estabelecer o preço final da aquisição e conseguir maiores vantagens da parte dos russos. A assinatura do contrato definitivo deve acontecer em julho e as primeiras entregas, dezoito meses depois. O produto pode ser customizado segundo exigências pontuais do comprador: no caso brasileiro podem ser adotados alguns componentes fabricados por aqui, como as carretas blindadas, que têm um equivalente nacional, fabricado pela Avibrás para o sistema Astros-2. Já a adoção do radar nacional Saber 200, citada em alguns informes da imprensa, parece muito pouco provável pois implicaria em modificações de sistema que dificilmente os russos (ou qualquer outro fabricante) estariam dispostos a fazer. De toda forma, estimativas especializadas colocam o valor do pacote completo em pelo menos US$ 1 bilhão.

São ambos sistemas antiaéreos “estado da arte”. Pode-se dizer que o Igla já existe por aqui, e é conhecido tanto pelo EB quanto pela FAB – numa versão considerada ultrapassada, embora ainda eficaz, e que desperta um bocado de controvérsia (causa:: falou do assunto recentemente). A linhagem Igla faz parte dos sistemas conhecidos genericamente como MANPADS (acrônimo, em inglês de MAN Portable Air Defense  System – “Sistema de Defesa Antiaérea Portável por Homem”). O conceito surgiu como desdobramento da ideia, datada da 2ª GM, de armamentos de infantaria operados por pequenas equipes (dois ou três elementos), apontados a partir do ombro de um deles. O alcance dessas armas é “visual” – o operador tem de colocar o lançador mais ou menos na direção do alvo –, e o elemento-vetor é um foguete ou míssil de pequeno porte (no máximo dois metros de comprimento e 12-15 kg de peso).

O MANPADS típico é dividido em duas partes. Uma peça chamada, em inglês, handgrip (“empunhadura”) é considerada por alguns especialistas como o armamento, de fato: contém os sistemas de pontaria e (dependendo do modelo) guiagem, os sistemas eletrônicos e mecânicos que acionam a “munição” (em seguida explico por que as aspas), a bateria e a unidade “esfriadora” (no caso dos “buscadores de calor”); nesta peça, que pesa entre seis e dez quilos, dependendo do modelo considerado, é alojada a “munição”, um míssil auto ou teleguiado a combustível sólido, com uma cabeça de guerra de alto explosivo pesando entre um e três quilos. O míssil, pesando entre 8 e 12 quilos, é contido num tubo descartável, que, em alguns casos, pode ser reutilizado. Parte da literatura técnica considera a bateria e a “unidade esfriadora” como uma “terceira parte” do conjunto, pois têm de ser trocadas após certo tempo, ou após o disparo de uma “carga de munição”. Aqui no causa::, tendo a considerar a geringonça toda como um “sistema de armas”, visto que um não serve para nada sem o outro.

A quase totalidade dos MANPADS adota um entre dois tipos de sistema de guiagem: o primeiro, mais comum, é chamado “guiagem passiva” (passive homing em inglês): não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. Esses sistemas são colocados no próprio míssil, de modo que o operador, depois do lançamento, não tem mais controle sobre a trajetória. Estes sistemas de armas são os mais comuns: setenta por cento dos que estão ativos, o adotam. O segundo é menos comum: numa tradução livre, podemos chama-los de “guiagem de comando” (em inglês, command guidance). A trajetória do míssil é determinada por uma fonte externa, comandada pelo operador e captada por um receptor instalado no míssil. Um terceiro sistema é bem mais raro nesse tipo de arma: guiagem semi-ativa (semi-active homing, em inglês). Nesta, uma fonte externa “ilumina” o alvo através de uma fonte emissora de ondas, e míssil “percebe” a posição da interferência.

Os Igla são a terceira geração dos sistemas de guiagem passiva. Estes sistemas de armas se tornaram possíveis a partir do desenvolvimento, durante os anos 1950, de aparelhos de guiagem “buscadores de calor” (tradução livre da expressão heat-seekers). São equipamentos “passivos” porque não emitem ondas eletromagnéticas de qualquer tipo, mas captam emissões dessas por alguma fonte externa relativamente próxima. No caso, radiação do espectro eletromagnético em amplitudes de ondas que geram calor, mas são invisíveis aos olhos, conhecidas como “infravermelhas” (IR, do inglês infrared). O princípio é relativamente simples: a impulsão proporcionada por motores à reação baseia-se na emissão de jatos de gás em alta velocidade, numa única direção. O atrito provocado pelo movimento do gás gera “calor”, ou seja, uma súbita emissão de micro-ondas que se concentra em grande quantidade junto à cauda da aeronave, antes de se dispersar (por sinal, muitos corpos físicos têm essa propriedade de emitir, concentrar e dispersar calor). A cabeça de guiagem “buscadora de calor” possuí pequena quantidade de uma substância semicondutora (na primeira geração, sulfeto de chumbo II – PbS –, ou “galena”; nos mais modernos, antimoneto de índio – InSb – ou mercúrio-cádmio-telurídio – HdCdTe), todos elementos minerais com a propriedade de “medir” emissões de fótons em sequência (fotocorrente ou corrente fotelétrica). Essas emissões causam alteração no comportamento físico da substância, alteração que gera energia suficiente ser repassada a uma unidade de comando e controle eletrônica. Na primeira geração e em alguns tipos da segunda, essas unidades de controle eram analógicas; em partes da segunda e na terceira geração, digitais. A unidade de comando e controle interpreta os dados e aciona controles mecânicos dos aerofólios móveis, que mudam a direção de vôo do míssil.

Esse processo foi aplicado pela primeira vez no míssil ar-ar AIM9 Sidewinder, que começou a ser desenvolvido em 1949 e entrou em serviço em 1956. Nos final dos anos 1950 o sistema foi diminuído o suficiente para ser colocado em uma arma portátil, no caso o FIM- 43 Redeye, da empresa Convair (depois General Dynamics), que entrou em serviço em 1965, abrindo a primeira geração de MANPADS. Pouco depois, apareceu uma versão soviética, o sistema 9K32, desenvolvido pelo escritório de projetos (em russo, OKB) 134, dirigido pelo engenheiro Turopov nas proximidades da cidade de Tushino. Estreou em 1968, apelidado pelos soviéticos Strela e foi referenciado pela OTAN como SA-7 Grail. O SA-7 é geralmente tratado pela bibliografia especializada como cópia do Redeye obtida através de engenharia reversa, embora a história nunca tenha sido definitivamente provada.

Um problema dos MANPADS que não existia nos armamentos de ombro até então era o jato de chamas gerado pelo propelente do míssil, que poderia torrar o operador. A solução imaginada foi introduzir uma carga menos potente, chamada “de ejeção”, situada na extremidade posterior do míssil. Esta serve apenas para fazer o vetor deixar o tubo de lançamento, gerando um bocado de fumaça, inócua para o operador. Alguns segundos após o acionamento da “carga de ejeção” é acionado o “motor de vôo”, um motor-foguete que rapidamente acelera o vetor até velocidades que podem chegar até 1200 m/s, nos modelos mais modernos (para uma visão geral dos sistemas MANPADS, clique aqui).

Os MANPADS da primeira geração não eram lá muito eficientes: tinham de ser colocados pelo operador diretamente na direção da fonte de calor, ou seja, da cauda da aeronave e, ainda assim, o tempo de reação do míssil era geralmente menor do que a velocidade da aeronave, de modo que eram plenamente eficazes apenas contra helicópteros ou aeronaves voando em velocidades relativamente baixas, ou que passassem diretamente sobre a posição do míssil. Ainda por cima, as primeiras cabeças de guiagem não conseguiam distinguir faixas muitos amplas do espectro de micro-ondas, de modo que podiam ser “enganadas” por outras fontes próximas. Assim, não demorou a aparecerem contramedidas altamente eficazes, conhecidas como flares – uma cápsula ejetada por uma aeronave que, ao ser ativada gera, por reação química e sem explosão, uma grande quantidade de luz e calor durante um período que varia entre cinco e dez segundos.

A estreia em combate real do MANPADS deu-se na Guerra do Yom Kippur (1973), em grande estilo: a vantagem inicial egípcia deveu-se, em grande parte, à anulação da eficiente aviação israelense por sistemas de defesa AAe repassados às forças árabes pela União Soviética. A tática israelense de voar baixo com caças-bombardeiros A-4 Skyhawk, de modo a evitar a vigilância de radar foi anulada pela presença de 2000 SA-7 Strela-2, responsáveis pela derrubada de doze aeronaves, e por danos incapacitantes em outros dezoito (algumas fontes elevam este número para 45 baixas). A presença desse armamento acabou obrigando os israelenses a mudarem parcialmente suas táticas, passando a voar em altitudes médias, e assim entrando na faixa de alcance dos sistemas Tunguska (o avô do Pantsir S-1, mas disso a gente fala depois…) e dos SAMs convencionais. O melhor treinamento dos pilotos egípcios de caça (dentre os quais o mal fadado Hosni Mubarak) fez o resto, de forma que a guerra aérea, naquele conflito, pode ser considerada quese um empate.

As segunda e terceira gerações de MANPADS têm seus principais representantes no Stinger dos EUA, no SA-14 Strela-3 soviético, FN-6 chinês, Mistral francês e Blowpipe, da Grã Bretanha. O uso de cabeças de guiagem baseadas em antimoneto de índio e mercúrio-cádmio-telurídio aumentou a eficiência da leitura do espectro de cores IR, e as mais atualizadas conseguem distinguir faixas do espectro ultravioleta (UV), o que possibilitou que os mísseis passassem a distinguir entre o emissor primário e os secundários e, desta forma, adquirissem o alvo de forma correta, evitando interferência. Um aspecto decisivo que aumentou exponencialmente a eficácia dos MANPADS da segunda geração foi a introdução de “baterias termais”, unidades geradoras de eletricidade de maior eficiência, e “unidades resfriadoras de bateria” (em inglês, BCU – battery coolant unity), também conhecidas  como. Essas unidades abaixam a temperatura do buscador IR até cerca de -200°, aumentando a sensibilidade do semicondutor da cabeça de guiagem e, por consequência, a eficácia do sistema.

Entretanto, a partir da segunda geração começaram a surgir – ou ser retomados – métodos de guiagem ativa, a tal ”guiagem de comando”. Em última análise, é a releitura de um sistema usado na 2ª GM, pelos alemães, em bombas planadoras e mísseis antiaéreos. O operador dirige o vetor utilizando a combinação de um visor e um pequeno manche (em inglês, joystick). É o sistema utilizado pelo MANPADS britânico Blowpipe (“zarabatana”). Este adota uma variação do sistema denominado MCLOS (abreviatura, em inglês, de Manual Command Line Of Sight, ou “Comando Manual por Linha de Visada”).  Através de emissões de rádio estimuladas pelo movimento do joystick, a trajetória do vetor é corrigida até alcançar o alvo. O operador tem de colocar o míssil na direção do alvo, dispara-lo e, após três segundos, passa a dirigir a trajetória movimentando um pequeno joystick com o polegar, até conseguir o impacto. Parece fácil? Tente faze-lo com uma geringonça de sete quilos apoiada no ombro. Tratava-se de um processo complexo, que exigia equipes muito bem treinadas e conhecedoras do sistema, o que rompia a filosofia básica do conceito MANPADS. Em 1985 a arma foi descontinuada pelos britânicos. Umas cinquenta unidades foram vendidas aos argentinos no final dos anos 1970, de modo que, durante a Guerra das Falklands, ironicamente, os dois lados estavam armados com o produto britânico. Os britânicos afirmam ter derrubado nove aeronaves argentinas por meio dessa arma e os argentinos dizem ter abatido dois helicópteros e uma aeronave VSTOL Harrier.

Também foi nos anos 1980 que a entrega, pela CIA, de 1000 FIM-92 Stinger aos guerrilheiros afegãos fez deste sistema de armas um verdadeiro astro da guerra de guerrilha contra os soviéticos. Segundo informações distribuídas pela agência de inteligência norte-americana, entre 400 e 500 aeronaves soviéticas e afegãs, aviões e helicópteros foram abatidos em pouco mais de cinco anos. No Afeganistão, o conceito de MANPADS chegou à maturidade e tornou-se motivo para que tanto soviéticos quanto, posteriormente, os próprios norte-americanos mudassem, suas táticas de apoio aéreo aproximado, passando a evitar perfis de ataque muito próximos do solo. A eficiência dos MANPADS contra aeronaves voando em altitudes ultrabaixas, em solo acidentado, as tornava alvos fáceis para irregulares com baixo nível de treinamento, alta consciência do terreno e altamente motivados. Em função do curto alcance dos mísseis “buscadores de calor”, as incursões soviéticas passaram a ser feitas de altitudes médias e altas, que, dada a alta mobilidade das unidades de guerrilheiros, eram muito pouco efetivas. Posteriormente, em sua guerra afegã “contra o terrorismo”, os norte-americanos passaram a usar ataques de uma única aeronave em grande altitude e usando armamento inteligente – também sem grande eficiência e com alto número de baixas colaterais.

Desde meados dos anos 1990, o Brasil tem adquirido alguns lotes do SA-18 Grouse. Os SA-18 são a versão anterior do sistema de armas adquirido agora, este referenciado pela OTAN como SA-24 Grinch (um tipo de duende que rouba motivos de satisfação alheia – no caso, dos pilotos de aeronaves…) e apresentado pelos fabricantes em 2008. Com relação à versão usada pelas FFAA brasileiras, o SA-24 tem maior alcance (6 km contra 4,5 km) e maior eficiência noturna. Esta é provida pela combinação de um rastreador de alvos baseado em amplificador de luz passivo (instalado na empunhadura), que se combina ao tradicional, baseado no buscador de emissões IR. Segundo os fabricantes, é plenamente eficaz contra alvos em vôo em altitudes de até 3500 m, mas ainda se destina-se principalmente a opor alvos em velocidade subsônica: helicópteros, mísseis de cruzeiro e aeronaves não tripuladas. Contra aeronaves em velocidades transônicas, sua eficácia decai exponencialmente. Ainda assim, o Igla-S é bastante versátil, podendo ser adaptado para vários tipos de plataformas estáticas, em navios e em helicópteros.

A aquisição de duas baterias faz sentido em função do fato de uma complementar a outra.  Os Igla-S, instalados em lançadores duplos operados por um único homem, podem ser rapidamente transportados e postos em bateria, em locais bastante discretos, como topo de prédios ou mesmo em pequenos veículos do porte de um pequeno caminhão. A outra parte da compra, o Pantsir S-1, é bem mais complexa, e constitui um sistema pelo menos em princípio mais eficiente, voltado para a aquisição de alvos em distâncias médias. Combina mísseis e armamento de tubo, orientados por radar. Falaremos deste em outra hora, para termos uma visão ampla da aquisição brasileira, suas possíveis vantagens e desvantagens::

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Observações estratégicas sobre um período chato e uma comparação estapafúrdia::

A época anda meio chata, do ponto de vista das encrencas internacionais. Hugo Chávez anda inacreditavelmente calado, Juan Manoel Santos está empenhado em estabilizar as relações com a Venezuela, a imprensona nacional se finge de morta sobre o tema… A posse de Santos, no dia 7 de agosto foi um festão, com todos os presidentes sul-americanos, e Chávez teve convite especial. No dia 10, em Caracas, os dois países restabeleceram relações diplomáticas. A boa vontade era tanta que Chávez reiterou que o governo da Venezuela “não apoia, nem permite a presença da guerrilha, do terrorismo ou do narcotráfico” em seu território – e que perseguir essas forças é parte de sua função como presidente. O assunto é interessante – mesmo Chávez parece ter seus limites, e anda às voltas com problemas internos sérios. Assim, a picuinha sobre as bases americanas tornou-se de menor importância. Do outro lado do mundo, as sanções contra o Irã deram em nada, até agora, visto que o país tem na China, apesar da encenação, seu principal parceiro econômico (os nove ou dez assíduos de causa:: podem acessar uma análise estupenda da questão aqui). O melhor assunto é o apedreja-não apedreja da pobre Sakineh Mohammadi Ashtiani. Após o convite de asilo – em torno do qual a imprensa brasileira, como usual, deu verdadeira aula de como provar que urubu é arara -, a diplomacia brasileira parece ter abaixado a bola sobre o tema. Por sinal, parece ter abaixado a bola sobre o Irã todo. Explicável: por mais que o redator:: não esconda sua simpatia pelos países mal-comportados, o companheiro Ahmadijenad é dose. Ali por perto, as tropas norte-americanas retiram-se às pressas do Iraque. As autoridades da antiga pátria de Sadam Hussein, dizem os americanos (depois de quatro mil mortos lá), têm condições de assumir responsabilidades sobre a própria segurança – embora as próprias “autoridades e poderes constituídos” andem dizendo exatamente o contrário. A coisa lembra um pouco a retirada soviética do Afeganistão, diferindo apenas na velocidade das colunas motorizadas. No Afeganistão… Bem… A vidinha continua a mesma: um Vietnã mais modorrento e controlado, embora observadores estejam meio que apostando no relaxamento das instruções de operações, aumentando o risco de “danos colaterais”. Alguns desses observadores têm apostado no endurecimento da posição dos militares norte-americanos, que não estariam muito dispostos (admitamos: milico nunca está…) a aceitar que a campanha deu co´os burros n´água. Dizem esses observadores que a situação estratégica atual aponta para um prolongamento da guerra, e que o atual comandante,  general-de-exécito (no jargão deles, generalDavid Petraeus use sua influência para conseguir este resultado no Congresso. E como causa:: tem boa memória, aproveita para lembrar os assíduos que esse general já sofreu críticas por sua atuação no Iraque, em que foi acusado de ser responsável pelo colapso em Mossul, no ano de 2003 (uma interessante biografia operacional de Petraeus aqui, em inglês, apresenta o caso). Por sinal, é bom lembrar, também, que se o general Petraeus começar a fazer pressão sobre o Executivo e sobre o Legislativo pelo endurecimento, essa iniciativa não será nova:  o comandante anterior, o boquirroto general Stanley A. McChrystal já vinha insinuando o assunto nos ouvidos moucos do presidente Barack Obama. De toda maneira, nove entre nove analalistas concordam que o dilema dos EUA, agora, não é propriamente como resolver o problema afegão, mas que o problema afegão é como os EUA poderão sair de lá mantendo a cara limpa. A guerra já tem nove anos, e ninguém mais parece acreditar no prazo final de permanência das tropas, estabelecido em 2009 pela então popular administração Obama.

Claro que mesmo os assíduos de causa:: interessados em estratégia e questões afins devem estar com a atenção voltada para as eleições presidenciais aqui no Brasil, mesmo. Observar a campanha da oposição é quase como ter uma aula de estratégia e de tática – de como não fazer as coisas, nesses campos. Nessa direção, aponta o redator:: novamente para o excelente Catatau e seu conceito de “economia de verdade”. causa:: aqui sugere aos assíduos que tentem aplicá-lo à estratégia de campanha do “Zé”. “Zé” é mais lulista que todo o PT (esse bando de dinossauros mensaleiros); “Zé” pretende manter tudo de bom que foi feito no último governo, e ainda vai “poder mais” (seja lá o que isto signifique). O que podemos observar é o “Zé” totalmente emparedado: lá embaixo, os eleitores estão sendo alcançados por um regime de transferência de renda como nunca foi visto na história da República; lá em cima, os financiadores de campanha parecem satisfeitos com um amplo programa de financiamento, nem mais nem menos imoral do que o salvamento do sistema bancário, promovido, mais de dez anos atrás, pelo governo FHC. Ambas as ações, em seus contextos, se justificam. Estratégia é tomar decisões – e arcar com as consequências. Digamos assim: na época, a oposição, que era governo, tinha programa, portanto, podia ter estratégia. O governo de ontem virou oposição exatamente pelos limites do programa. Governar é perder oportunidades, e a oportunidade do Plano Real foi magistralmente perdida e aponta os limites da “vocação social do PSDB” – afinal, São Paulo não é a Alemanha Ocidental e nem aconteceu uma guerra por aqui. Por isso causa:: não indica a avaliação do filósofo  Vladimir Safatle, publicada na Folha de São Paulo (se o assíduo tem acesso ao UOL, entre por aqui): possivelmente, o PSDB não se distanciou de um “impulso inicial” socialdemocrata. A trajetória da elite intelectual da USP e de seus aliados desenvolvimentistas pode ser considerada, talvez, só metade socialdemocracia. A outra metade seria talvez tributaria de uma classe produtiva acostumada a se valer do aparelho de Estado para facilitar a promoção da acumulação capitalista. Ou será que todo mundo esqueceu quem foi Sérgio Motta? O PSDB hoje está emparedado pelos limites de seu programa, e a falta de estratégia é apenas decorrência desse fato. Idéia, por sinal, já vislumbrada pelo NPTO, que os assíduos aqui do causa:: já sabem ser leitura obrigatória.  

Curiosamente, a história recente do país parece o desenrolar da 2ª GM – este redator:: lança mão da comparação estapafúrdia apenas do ponto de vista da estratégia. E a idéia ocorreu durante a leitura de excelente posto publicado pelo jornalista João Villaverde em seu blogue. Cito o trecho inspirador:  “O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC. Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.” (Na íntegra, o posto está aquicausa:: o recomenda fortemente). O início da 2ª GM marcou a primazia da doutrina da blitzkrieg alemã – um novo estilo de guerra, baseado na velocidade e, sobretudo em nova consciência da dimensão do campo de batalha, forçada por aquela. Os motivos pelos quais os alemães também perderam o bonde não admitem comparações, nem mesmo estapafúridias. Entretanto, cabe lembrar que soviéticos e norte-americanos acabaram copiando e aperfeiçoando a tal doutrina, e a melhoraram. Tal como a Wehrmacht em 1940-41, o PSDB parece ter sido enganado pelo próprio sucesso em 1994-1995, e se iludiu que os horizontes acadêmicos de São Paulo eram os do Brasil. Por sinal, do ponto de vista meramente estratégico, causa:: discorda do João em um ponto apenas: reunir doutrinas diferentes para que uma freie a outra não é solução e nem rima. É burrice: basta lembrar que o exército alemão, em 6 de junho de 1944 poderia ter tido uma chance de lançar a primeira onda de assalto aliada de volta ao mar, já que dispunha de forças blindadas consideráveis, em excelente estado de aprestamento, bem próximas da cabeça-de-praia. Mas essas forças eram reserva estratégica do Alto Comando, que precisava da autorização de Hitler para autorizar que se movessem. E Hitler estava dormindo… Claro, tudo isso não implica que os estrategistas peessedebistas não adorem a idéia de paralisar a própria máquina, já que é exatamente o que têm feito ao longo dos últimos anos::

Um rapaz das Forças Especiais::Equipes médicas numa guerra burra::

Encontrei esse material zapeando blogues a partir de um post do excelente Catatau. Em outro momento, talvez comente o post, mas acho que vale dizer, desde já, que o ótimo texto do blogueiro contém uma série de equívocos, um deles o único que, na opinião deste redator::, não deve ser cometido: confundir uma guerra cuja justeza e utilidade são altamente questionáveis com os soldados que a travam. Mas isso é conversa mais longa e para outro momento, pois, por ora – como já notaram os nove ou dez leitores, causa:: está com suas baterias apontadas para Venezuela, Colômbia, e os trancos-e-barrancos desses dois países.

Mas como o fim de semana está aí, e provavelmente demorará um pouco até o próximo post::, vale à pena olhar o fotoblogue do jornal The Denver Post,  jornalão da cidade de Denver, Colorado, bem mais conservador do que podemos imaginar aqui no Brasil. O cotidiano de equipes médicas está bem documentado na longa reportagem fotográfica, e o texto (em inglês, lógico…) contém algumas informações interessantes. Mas interessante mesmo é o discurso que costura as imagens. Se alguém quiser tentar decifrar… causa:: coloca no ar. Em tempo: a imagem aí de cima foi cortada do PLog do The Denver Post, mas recebeu alguma fotoxopagem. 

Para abrir o fotoblogue, passe por aqui. Algumas das imagens podem incomodar quem tenha muita sensibilidade para cenas sangrentas, embora possam ser consideradas surpreendentemente leves (não mostram mortos, por exemplo… Se você lê inglês, causa:: sugere uma passadinha por aqui). Parece que, desde o Vietnam, existe um acordo tácito entre os meio de comunicação e o governo dos EUA: vocês nos toleram, e nós pegamos leve. E, uma observação: ferimento de combate doi pra caramba…::

Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: (outras) considerações::

O redator:: gosta de pensar que os leitores de causa:: integram a nata da parte pensante da Grande Rede. Quanto a isso, não resta dúvidas. Assim, os comentários enviados sobre o posto relativo ao evento Wikileaks rendeu considerações sobre as considerações. Peço licença aos ditos comentantes para republicá-los, fora da área específica, com um pouco de edição. Os os textos são pertinentes e podem acrescentar muito ao debate que causa:: pretende implementar. Por favor, então: não processem este blogue…::

Tive o prazer de encontrar um longo comentário do excelente blogueiro Catatau, piloto do excelente blogue Catatau (está na lista os blogues do coração de causa::). Catatau corrigiu algumas de minhas observações. Em itálico, o texto redigido por ele. Os negritos são por conta do redator:: Por economia “de” verdade, tentamos lá no Catatau comentar sobre uma espécie de verdadeira, digamos, “gestão estratégica” das informações durante a guerra. Numa guerra como a que assistimos, repleta de nuances (desde o relato de âmbito militar comentado por você até as coberturas reality show chinfrim da Fox News), há muito em jogo. E nesse sentido não se trata apenas de ocultar ou não, mostrar mais ou não, desvelar ou não “a” verdade. O próprio jogo de mostrar “a” verdade ou não se envolve em outro jogo, muito mais sutil, de simplesmente mostrar verdade. Não se trata, propriamente, de constatar que vamos descobrir uma verdade mais verdadeira, enterrada por sobre os discursos jornalísticos e políticos, mas sim que a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública.

O conceito transmitido por Catatau, de que existe uma “gestão estratégica da informação” no decorrer de uma guerra, é pertinente. Merece, entretanto, uma ressalva: essa gestão é feita pelo Estado e por seus órgãos especializados, e não é compartilhada com a sociedade civil. A atuação dos meios de comunicação dos EUA deveria acontecer nos limites estabelecidos por essa gestão. Vou ao ponto: informação é arma. Isso foi constatado desde o século 17, embora desde sempre a análise de informaçao tenha sido parte integrante da atividade militar. Um bom exemplo é Júlio Cesar, o tribuno que acabou com a Répública romana e criou a possibilidade para o governo autocrático: ele escreveu um livro ainda hoje lido chamado “As guerras na Gália”, onde reunia e analisava informações recolhidas durante as operações que lá tiveram lugar. Essa prática se tornou comum entre os romanos, que escreviam longos textos destinados a abastecer de informação sobre o inimigo, o teatro, os meios, os comandantes de campanha. Também sempre foi comum plantar agentes no território inimigo, para observar de perto o que estaria tramando o adversário. A questão é que, por sua natureza, essas informações devem ficar ocultas, por certo tempo. A cobertura da imprensa, que se tornou uma atividade “glamurosa” a partir da 2ª GM, mas que se iniciou, como rotina, em meados do século 19, é sempre vista como um problema pelos militares, que a toleram por ordem superior. Por que essa cobertura é necessária? É simples – porque mobiliza a população. Essa questão ficou clara a partir das guerras da Revolução Francesa, e foi muito bem entendida por Napoleão. Assim, a observação de Catatau a própria política e o jornalismo produzem, cada qual, verdades que figurarão como moeda de troca da opinião pública é bastante pertinente, e cabe perfeitamente na avaliação em torno da “cobertura chinfrim” (eu diria sensacionalista…) feita pela imprensa dos EUA – que não diz nada.

Por outro lado, o doutor Bittencourt, que sei ser antigo oficial do Exército Brasileiro, compôs a seguinte consideração: Seria, para qualquer analista com acesso a essas informações,um exercício de formulações de possíveis consequências que iriam trazer essas informações divulgadas. Ou seja,o deslocamento de meios para fazer um aproveitamento do êxito com base nessas informações (e aqui não se discute tratarem-se de informes ou informações,esperando que os leitores desse comentário saibam a diferença entre um e outro) [o doutor aqui se refere, por “informes”, a comunicações trocadas no interior de um exército em campanha] e de qual forma as forças insurgentes iriam se preparar para reagir a esse desdobramento. Donde sou levado a pensar no seguinte: pode uma ação de Estado se sobrepor ao direito dos cidadãos componentes desse Estado,individualmente,terem acesso a essa informação? Creio que sim. Afinal, para isso são eleitos os membros desse governo numa democracia. … Ações de Estado, ainda mais as relativas a segurança nacional e emprego de meios militares, pressupõem rapidez, cadeias de comando anteriormente preparadas e ações efetivas que, absolutamente, demandam ingerências que poderiam colocar efetivos em risco, sejam eles humanos ou de meios.

O texto posto em que foi ressalvado aqui pelo redator:: é a chave de leitura para o posto anterior: do ponto de vista militar, a filtragem e limitação das informações que chegam a sociedade é crucial. É um aspecto técnico da guerra, mas também é assunto que diz respeito à sociedade e à prática da democracia – e é perfeitamente possível travar guerras sem arranhar o “estado de direito”. A sequência do texto esclarece a questão, e coloca na berlinda a ação do franco-atirador Assenge (o gestor – digamos assim – do site Wikileaks: a ação dessa pessoa e da organização a que se relaciona pode ser considerada, além de ilegal, imoral. Soldados em campanha não estão lá porque resolveram estar. Receberam ordens que não podem questionar. Curiosamente (crê este redator::, por outro lado, que mesmo o leigo em assuntos militares possa entender a afirmação que se segue…) a segurança das tropas em campanha também é responsabilidade do Estado e do governo que, por delegação da sociedade, o coordena. Assim, o sigilo se justifica. Se as tropas cometem excessos, cabe a esses mesmos Estado e governo avaliar, julgar e punir. Essa atuação do Estado e do governo, em última análise, irá estacar (no sentido de apoiar e assegurar) a legitimidade das decisões relativas à guerra e da própria guerra.  

Prossigamos com a observação de Catatau. Daí haver um jogo relativo, difícil de detectar, entre o que um “cidadão” pode fazer com sua cidadania, qual é o papel efetivo que ele tem de denunciar ou não injustiças e desmandos, enfim, como ele poderia, no contexto em questão, denunciar mentiras e falácias sobre uma guerra. É mais ou menos o que está em jogo no Wikileaks: ele não traz propriamente “a verdade a tona”. Em muitos casos, é verdade que ele desvela certos elementos “ocultos” na gestão das informações de guerra. Mas, além disso, ele acaba denunciando o próprio jogo de tornar coisas mais ou menos verdadeiras, mais ou menos visíveis, mais ou menos discutíveis, e assim por diante.

Embora as considerações de Catatau sejam bem formuladas, o problema é que se anulam. A guerra, se colocada dentro dos limites morais e jurídicos pertinentes a um estado de direito (causa:: prefere usas esta noção do que a de “democracia”, pura e simplesmente, pois esta última pode ser facilmente manipulada ), é legítima, e dentre as características do estado de direito estará estabelecer os tais limites. Se “cidadania” (vai aspeado pelo redator:: porque o foi aspeado pelo próprio Catatau) traduz uma responsabilidade comum, conformada pelos direitos e deveres à ela inerentes, então a segurança nacional – expressão que tem, entre nós (infelizmente) ganhou a sonoridade de um palavrão, mas não é… – está dentre essas responsabilidades. O papel do cidadão e das instituições da sociedade civil (consideremos que Weekleaks é uma delas…), deve ser relativizado nessa direção. O fato dos EUA estar envolvido em (mais uma) guerra não significa que a mesma (guerra) seja necessariamente  ilegítimas. Pode ser uma guerra burra – afinal, é uma guerra de George Walker – mas não necessariamente ilegítima…

Nesta direção, cabe mobilizar o cometário de um assíduo de causa:: (com o qual, vale dizer, nem sempre concorda o redator:: – e vice-versa), o Luiz Cândido. O Luiz resume perfeitamente a situação toda, e levanta a bola para o próximo posto de causa:: sobre o tema “Afeganistão”. Vamos ao Luiz: de fato, a agressão sofrida pelos EUA em 2001 não podia ficar sem resposta. Seus responsáveis tinham que ser caçados em qualquer parte do mundo e se o seu principal foco estava neste país, então era lá que os EUA tinham que agir. No entanto, após o sucesso inicial obtido praticamente sem envolvimento de tropas, somente com apoio tático, logístico e da força aérea, eles resolveram “ocupar o terreno”. Pronto, caíram na mesma armadilha dos ingleses, russos e tantos outros: entrar é fácil, o problema é sair::

Uma ótima sacada de um ótimo blogue::Economia de (ou “da”?..) verdade: considerações::

O excelente blogue do excelente Catatau é passagem obrigatória deste redator::. Os postos que aparecem lá são, geralmente, estimulantes. Mas este aqui é duas vezes estimulante: além de um ensaio de avaliação do fenômeno midiático da hora, o Wikileaks, traz um interessante conceito: “economia de verdade”. Uma primeira leitura engana: o posto parece um tanto superficial e até algo pueril (sem ofensa – as opiniões colocadas aqui no causa:: com frequência também devem despertar sentimentos assim, nos leitores…). Entretanto, uma segunda leitura – e, diria, uma terceira… – é necessária para aclarar o conteúdo – principalmente quando já se passou pelo outro posto, que está logo em seguida e complementa o anterior. Catatau parece ter por objetivo levantar questão interessantíssima – a forma como a imprensa lida com tema, na opinião deste redator::, quentíssimo, e espinhosíssimo: a liberdade de expressão, e sua relativização por um lado, pela autoridade de Estado e, por outro, pela grande imprensa.

Comecemos pelo conceito de “economia de verdade” (eu mudaria para “da verdade”). Parece ser necessário, para a discussão que causa:: quer introduzir o que se pode entender, fora do senso comum, por “economia” e por “verdade”. A definição de “economia” (para um não-economista), diz respeito a “guardar” – por exemplo, para ficar perto do tema deste blogue, “economizar munição”. Para os especialistas, por outro lado, trata-se do “estudo do homem na atividade ordinária da vida; exame do componente da ação individual e social mais estreitamente ligado à obtenção e utilização dos requisitos materiais necessários ao bem estar” (definição do Dicionário das Ciências Sociais, publicado pela Fundação Getúlio Vargas). O mesmo verbete ensina que, num sentido originário, “economia” diz respeito à administração doméstica (a raiz do termo vem do grego oikós, “um estabelecimento doméstico”, “moradia”). De fato, esse teor de “administração”, “organização”, ainda está presente na definição: a econômia, hoje em dia, é entendida por muitos especialistas como “relação entre demandas amplas e restritas e meios escassos” . O uso da expressão, por outro lado, se disseminou: fala-se em “economia do inconsciente“; em “economia da teoria semiótica” (quem quiser saber o que diabo vem a ser isso, pode arriscar-se aqui), “economia do erotismo”, e por aí vai. O redator:: não muito versado em filosofia imagina que todas essas variações se remetam as formas como determinados recursos são mobilizados e administrados num determinado contexto (energia pulsional, no caso do inconsciente; signos, no caso da semiótica; no caso do erotismo, bem… Sabe-se lá…). Então, a “economia de verdade”… Aqui, o problema é a difícil definição de “verdade”. As ditas definições são, elas mesmas, complicadas, mas uma parece caber no texto do Catatau: “Referente ao que realmente existe, ou que realmente aconteceu” – o que “realmente existe” é, pois, verdade (consta do verbete “Verdadeiro”, do Vocabulário técnico e crítico da Filosofia, obra de referência publicada pela Editora Martins Fontes).

Os documentos que têm sido publicados no site Wikileaks exprimiriam, então, a verdade – expressam o que realmente acontedeu. A difusão desse material está, pois, relacionada à exposição do que “é verdade”, por ter “realmente acontecido”, independente de “não deveria ter acontecido”. O juízo sobre tais “acontecimentos reais” diz respeito à questões morais. Assim, a “economia de verdade” apontada pelo Catatau falaria da “administração do que realmente aconteceu” – por todos os lados, governo norte-americano, Wikileaks e imprensa formal.  

Neste ponto, poderíamos perfeitamente apelar para outra definição: “Nenhum fato poderia ser verdadeiro ou existente, nenhuma enunciação, verdadeira, sem que existisse uma razão suficiente para que fosse assim e não de outro modo…”. Essa postulação foi elaborada no século 17 pelo filósofo e matemático Leibnitz, e é apontada pelo “Vocabulário” como “antiquada”. Pois no caso da “economia de verdade”, é atualíssima. A ocultação de documentos ou sua revelação – e, portanto, da informação e, daí, dos fatos expressos por ela – acontece porque existe uma razão suficiente para que seja assim, e não de outro modo. Ocultação e revelação são, desse ponto de vista, ainda que moralmente  justificáveis ou injustificáveis, necessárias.

Razão suficiente para que seja assim… O governo dos EUA, ao vedar o acesso aos documentos alega estar agindo em benefício da sociedade e de seus interesses – a começar pelos soldados em campanha. Afirma que a difusão do material é uma ameaça e, ao lutar contra ela, está cuidando do interesse da sociedade, ameaçado, inclusive fisicamente, pelo teor da informação. A lógica das autoridades é que a liberdade de expressão está, nesse caso, limitada por um bem maior. A exceção desta última postulação, os meios de comunicação (não parece haver diferença entre Wikileaks e imprensa formal) dizem exatamente o mesmo. Entretanto, Catatau chama a atenção para a mudança de foco acontecida no momento em que o volumoso material chegou aos jornais: o conteúdo, “a verdade”, parece passar para segundo plano. O processo do qual Julian Assange e seus colaboradores são centro (bem como os próprios) parece tornar-se o sujeito do interesse dos jornais. O motivo é fácil de entender: é o quê de teoria conspiratória que cercou o surgimento do material no Wikileaks, o quê de sensacionalismo que vaza deles. E a existência de um herói solitário lutando contra o sistema, contra o governo em que ninguém confia totalmente. O conteúdo? Muito possivelmente, os jornalistas que escreveram as matérias citadas por Catatau sequer se deram ao trabalho de olhar o conteúdo.   

causa:: foi lá olhar. A surpresa inicial do redator:: não foi propriamente a divulgação dos documentos – isso sempre aconteceu nos EUA. A surpresa maior foi em torno da quantidade de documentos – mais de 75.000 (a maioria das fontes indica 92.000 – seria interessante saber de onde Catatau tirou esse número). É – noventa e dois mil! Uma biblioteca com mais de 400 livros de 200 páginas (calculando q cada documento tenha uma página, o que é a média dos relatórios de operação de uma fração de tropa). A análise desse tipo de documento é uma das tarefas mais cansativas que se pode conceber. Já o filme referido pelo Catatau é um filme, algo mais palatável para nossas mentes moldadas pela era da informação. Estamos acostumados com imagens – já com textos é outra coisa.

TF Bayonet relatou um acidente com veículo três quilômetros ao Norte de Camp Wolverine. Em 0335Z, dado elemento relatou a capotagem de veículo (M1114) que feriu um soldado americano. A capotagem foi causada pelo estado da rodovia. Um total de cinco pessoas estava no veículo. Como resultado do acidente, TF Bayonet requisitou MEDEVAC para um US-MIL.  PT foi listado como prioridade.  O PZ é FOB Lagmans HLZ e não será marcado.  Não há presença de inimigos e o PT será repassado ao KAF.  CJTF76 aprovou MEDEVAC 10-07C at 0719Z. W/D 1110Z

A tradução é do redator::, que não tem como esclarecer o significado das abreviaturas, mas é possível notar que se trata de um acidente com uma viatura militar. “TF Bayonet” diz respeito, provavelmente, ao código de uma base ou de um operativo, utilizado para radiocomunicações. Dentro da “economia de verdade”, esse evento não interessaria a ninguém, apenas aos militares que administram o cotidiano das tropas em campanha por lá. Nota-se que o próprio Luís Nassif, um jornalista de cuja seriedade ninguém duvida, parece não saber do que fala. É dele a afirmativa (ou pelo menos a veiculou): Estes documentos não descrevem a realidade no terreno, mas constituem um testemunho do grau de auto-envenenamento das forças americanas. Os relatos de inteligência afegãos, nas quais se baseam as operações das tropas da aliança no Afeganistão apenas relatam fofocas tão estúpidas, que não se pode deixar de perguntar como é possível que esses informantes tenham sido recrutados. Ele parece esperar que incidentes de campanha ou informações de combate sejam vazadas em tom de roteiro de cinema. Não é o que acontece: qualquer um que conheça arquivos militares sabe que a linguagem é exatamente essa.

Mas porque eventos bestas como esse têm de ser escondidos? Simples: porque quando avaliados em conjunto com muitos outros, fornecem informações sobre localização e procedimentos dos militares. Um analista bem treinado consegue retirar de uma série desses textos informações que estão totalmente opacas ao leigo. Provavelmente, dentro de duas décadas – caso a guerra no Afeganistão termine logo – essa categoria de documentos será aberta sem restrições. Os historiadores de operações militares trabalham principalmente com eles.

Mas não só em torno de acidentes de carro gira o cotidiano de um exército em guerra. Existem também os aliados (no caso do Afeganistão, é bem verdade, não devem ser muitos, mas eles existem…). Por exemplo, na categoria emboscadas:

Em 0200Z, o chefe de polícia de WAZA KHWA e 20 policiais foram emboscados IVO 42S VB 298 853 (GAZNI), quando voltavam de verificação (VIC. 42S VB 306 117) a 6 caminhões carregados com CERP que o governador tinha doado a eles. O engajamento durou 30 minutos . O chefe de polícia supõe que a força inimiga fosse de umas 20 pessoas em motocicletas. Houveram dois mortos e um ferido entre as forças amigas. Houve um possível ferido entre o inimigo, e uma uma motocicleta foi capturada. As forças dos EUA ouviram essa comunicação monitorando o rádio, mas estavam muito longe para reagir por terra.

Querem saber? Essa o redator:: gostaria de ter assistido – vinte caras em motocicletas?.. Parece coisa de filme, mas nota-se que também é comunicação de rotina entre as tropas dos EUA, sem nada de tão escuso.

Missões de campo, conduzidas por patrulhas preparadas para contato direto (ou seja, para cair no fogo) podem ser mais interessantes

USSF [Forças especiais dos EUA] encontram um depósito na vila de WALU TANGAY: USSF conduzem um encontro e saudação na vila de WALU TANGAY.  Membros das USSF se aproximaram de um garoto local que falou de um depósito numa caverna, numa colina próxima.  Membros das USSF investigaram e encontraram um depósito consistindo de treze granadas de morteiro 82MM, sessenta foguetes RPG, quinze caixas de munição 12.7X108MM (85 cargas por caixa), cinco caixas de correias para munição 12.7X108MM e um cano de DSHK localizados numa caverna 350107.26N 0705513.00E. USSF confiscaram a munição. O resto foi explodido numa praça.

O interessante desse relatório é a pequena quantidade de munição (daria, com boa vontade, para meia hora de tiroteio) e a origem – provavelmente soviética (os calibres todos são de armamento de infantaria ainda hoje usados pelos russos), dos enormes arsenais deixados para trás quando da retirada, quase vinte anos atrás.  Mas essas  informações não indicam nada de ilegal – a guerra em si e a intrusão de uma patrulha de combate no cotidiano de uma vila no meio de lugar nenhum podem até ser. Os procedimentos reportados, não. Ainda assim, um especialista pode, por exemplo, analisar um conjunto dessas notas e descobrir regularidades de espaçamento entre as patrulhas, o que permitiria armar emboscadas.

Claro que deve existir relatórios escabrosos, no meio desses chatos. Mais de mil entradas dizem respeito a prisões de civis, muitos deles por promoverem reuniões nas quais o maior crime deve ter sido falar mal do governo. A sugestão do redator:: é que quem quiser conferir, dê uma passeada na página disponibilizada por Wikileaks, nas abas browse by. Será preciso muita paciência para descobrir algo que valha à pena, um incidente que o governo norte-americano esteja se esmerando em ocultar. Uma sugestão? O interessado deve ir direto à aba air mission – é onde geralmente se aplica uma quantidade totalmente desnecessária de poder destrutivo, como foi no caso do tal filme iraquiano.

Portanto, é muito improvável que os 92.000 documentos venham a fazer sucesso, a não ser entre especialistas. Para estes, o conjunto pode constituir verdadeira mina de ouro. Para a imprensa, é de duvidar: a análise é árdua, tediosa e, pior, pode induzir ao erro. Isso porque muitos dos “incidentes” relatados podem constituir apenas e não mais que eventos de combate. Numa guerra onde o outro lado não usa uniforme e desaparece no terreno com a maior facilidade, como distinguir combatentes de não-combatentes? O incidente do helicóptero constituiu exatamente isso: o operador de uma plataforma extremamente letal (um helicóptero de ataque AH-64) viu um grupo de civis se reunindo: um dele “parecia” portar uma arma. “Por via das dúvidas, neutralize a ameaça”, disse o operador no centro de informações de combate ao qual a unidade se reportava (era isso que estava no áudio do filme). E tome  outro erro, como já foram reportados dezenas, no Afeganistão (por exemplo, o ataque a uma perigosa festa de casamento pela aviação dos EUA).

Essa idéia de “economia de verdade”, então, nos permite entender algumas das questões contidas nos postos do Catatau. Existe uma razão objetiva para a não divulgação dos relatórios, para além do fato de que podem ocultar incidentes não justificáveis. Por outro lado, a massa de informação, por si só, não é ilegal nem imoral – e aí reside o “xis” da questão: bastaria aos jornalões consultar um especialista para saber exatamente o que tinham em mãos. E eles certamente o fizeram, porque não são idiotas. Esse esclarecimento aos leitores foi negado, e o foco então deslocou-se para o herói solitário – economia de verdade.

Mas o administrador do Weakleaks estaria exercendo seu direito sagrado de divulgar informação. Só que todo mundo – inclusive a parte dele (e não é pequena, sejamos justos) que quer matar americanos – terá acesso ao material. É perfeitamente possível que o horário de vôo de um helicóptero de transporte possa ser levantado através da análise do material, ou a rotina de reunião de uma patrulha de campo. Nesse caso, não terá sido exagero das autoridades dos EUA dizer que vidas foram postas em risco.

“Economia” quer dizer “viver debaixo de regras”. Se existe mesmo (e o redator:: pode estar apenas delirando…) uma “economia de verdade”, então essa implica em  regras, e parece que essa discussão subjaz a procedimentos como o do Weakleaks. Se a ocupação do Afeganistão é ou não é aceitável, é fato a determinar em outros fóruns; se os atos do governo dos EUA são ou não legítimos, idem. Mas o fato é que houve um ato de guerra contra os EUA em 2001 e o Afeganistão era a base da organização agressora.  “Economia de verdade” – por vezes, ela também atinge nossas convicções…::